Governo Bolsonaro se pretendia caçador, mas pode ter virado caça depois da eleição argentina

albertoAlberto Fernández foi eleito em primeiro turno na Argentina e no palanque da vitória defendeu a libertação do ex-presidente Lula cuja prisão ele considera injusta

Ao longo de 2019, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu alguns feitos inéditos em termos do isolamento diplomático do Brasil ao abandonar a postura pragmática que caracterizava historicamente a ação da diplomacia brasileira ao se alinhar umbilicalmente ao governo dos EUA. Além disso, a postura anti-ambiental que ficou explícita na celebração do negacionismo climático pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, piorou ainda mais a péssima imagem que o nosso país passou a ostentar após a eleição de um político que propaga visões que fora do Brasil são consideradas como sendo de extrema-direita.

Agora, o isolamento que se configurava no plano internacional mais distante ganha contornos mais paroquiais com a vitória do candidato de oposição na Argentina que derrotou em primeiro turno a um parceiro ideológico, o neoliberal Maurício Macri. Entre as primeiras declarações dadas ainda no palanque da vitória, Alberto Fernández mandou uma mensagem explícita ao governo brasileira ao indicar que irá se envolver na campanha pela libertação do ex-presidente Lula (ver vídeo abaixo).

A declaração do novo presidente argentino em defesa de Lula tem um forte valor simbólico (e talvez apenas isso), pois indica que Fernández não parece disposto a esquecer as ofensas e provocações que fora proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro logo após a sua vitória eleitoral nas primárias argentinas.

A coisa fica ainda mais complicada para o governo Bolsonaro se considerarmos a vitória eleitoral de Evo Morales que obteve novo mandato na Bolívia e a passagem para o segundo turno nas eleições presidenciais uruguaias do candidato da Frente Ampla, Daniel Martinez. 

Associado às vitórias de Fernández e Evo,  Jair Bolsonaro ainda tem que assistir o Chile, principal sustentáculo de suas políticas ultraneoliberais, solapado por um forte revolta popular justamente por causa da aplicação continuada de fórmulas que precarizaram direitos sociais e criaram uma das sociedades mais desiguais do planeta. O governo do presidente Sebastian Piñera que era como se fosse uma espécie de realização suprema da ordem agora se encontra sob forte pressão para rever três décadas de políticas neoliberais em meio a protestos gigantescos.

chile pinera

O grande medo que deve estar atravessando o governo Bolsonaro de cima até abaixo é o da contaminação da revolta popular. Como não há meio termo possível para Jair Bolsonaro e seus ministros ultraneoliberais o medo da contaminação não é infundado, mas depende ainda da disposição de sair da inércia de partidos ditos de esquerda (a começar pelo PT) e movimentos sociais a eles afiliados.

Agora uma coisa é certa: a fase dos encontros de presidentes ultraneoliberais para celebrar vitórias eleitorais está encerrada, e isto deverá criar graves dificuldades para a governabilidade brasileira.  E não possamos esquecer que um dos maiores vencedores das eleições argentinas é o presidente Nicolás Maduro que agora terá uma bota a menos no seu pescoço já que Fernández anunciou durante a campanha eleitoral que irá retirar a Argentina do chamado “Grupo de Lima”. 

Como se vê, os resultados das eleições argentinas terão efeitos de amplo espectro na situação política da América do Sul. E têm tudo para ampliar o clima de paranoia que já existe dentro do governo Bolsonaro. E, convenhamos, com justa razão. É que até bem pouco o sonho propalado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus ministros era firmar uma hegemonia de direita no nosso continente. E agora o que se vê é uma espécie de cerco político do Brasil, onde os poucos governos amigos que sobraram estão enfrentando dificuldades enormes para se manterem em pé.

É a consumação da famosa máxima do “um dia da caça, outro do caçador”.  O problema para Jair Bolsonaro é que seu governo que se pretendia caçador pode estar passando rapidamente à condição de caça. A ver!

Favorito a ser presidente da Argentina, Alberto Fernández desfere duro ataque a Jair Bolsonaro

cristina alberto 1

Um dos segredos básicos da diplomacia é que se pretende interferir politicamente em um dado país, o pior caminho é atacar frontalmente o adversário que se escolheu para brigar. Essa máxima foi esquecida recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro que não só se envolveu na campanha presidencial da Argentina, como também resolveu atacar o resultado da rodada de primárias que ocorreu no final de semana passada. Em palanque no Rio Grande do Sul, o presidente brasileiro previu que se a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner vencer as eleições presidenciais argentinas que ocorrerão em outubro, o Rio Grande do Sul viraria uma espécie de região de refúgio de refugiados argentinos. De quebra, ainda caracterizou a dupla Fernández-Kirchner de “esquerdalha”.

A resposta de Alberto Fernández não demorou muito a vir e em entrevista quando o candidato presidencial argentina disse celebrar as críticas e a oposição de Jair Bolsonaro, não sem antes aplicar os adjetivos de “racista”, “misógino” e “violento, e ainda provocou o presidente brasileiro a libertar o ex-presidente Lula para que concorram em eleições presidenciais. Fernández disse ainda que, apesar de desejar manter relações comerciais com o Brasil, ele não tem problema em ter problemas com o presidente do Brasil (ver vídeo abaixo).

Como Alberto Fernández tem plenas chances de ser o próximo presidente da Argentina, o clima que está sendo criado durante esse período eleitoral vai tornar difícil a convivência com o principal parceiro comercial brasileiro na América Latina, o que poderá respingar não apenas sobre o Mercosul, mas também em várias outras de alto valor econômico para o Brasil. Se considerarmos a atual situação da economia brasileira, isto cheira a um completo desastre diplomático.

Um aspecto que está presente na fala de Alberto Fernández e que deverá agudizar ainda mais os ataques de Jair Bolsonaro é que o político argentino afirma que “Bolsonaro é um problema conjuntural para o Brasil, tal como Maurício Macri é um problema conjuntural para a Argentina”.  Em outras palavras, o destino eleitoral de Bolsonaro poderá ser o mesmo de Maurício Macri.

Enquanto isso, Maurício Macri já deve ter telefonado para Jair Bolsonaro para implorar para que ele se cale em relação ao processo eleitoral argentino. É que se o “apoio” dado nas eleições primárias resultou em uma derrota de 15%, imaginemos o que acontecerá em outubro quando ocorrerão as eleições presidenciais argentinas se o presidente Jair Bolsonaro continuar “apoiando” Maurício Macri.

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner e o medo do contágio assombram Jair Bolsonaro

cristina alberto 1A vitória acachapante de Alberto Fernández e Cristina Kirchner contra Maurício Macri gera ansiedade no Brasil pelo simples medo de que haja um contágio político que tire os brasileiras da apatia e da sonolência política.

Eu realmente não me lembro quando as eleições brasileiras foram transformadas em um processo asséptico e chato sob a escusa de se controlar o uso indevido de recursos e as pressões indevidas.  Isso vem acontecendo sob a batuta de uma justiça eleitoral cada vez mais poderosa e que não hesita em se comportar como uma polícia política, enquanto as redes sociais são usadas à vontade como uma espécie de ariete contra as aspirações democráticas do povo brasileiro.

Fechemos o pano para as eleições brasileiras para reabrir em uma avenida onde acabam de ocorrer as eleições primárias para a presidência da república e os governadores das providências argentinas (ver vídeo abaixo).

Mesmo quem não entende o que está sendo cantado sabe que essa multidão de argentinos está enviando uma mensagem política clara de apoio aos candidatos de oposição ao presidente Maurício Macri, Alberto Fernández e Cristina Kirchner.  E a multidão faz não apenas com palavras de ordem claras, mas também com uma energia esfuziante que não se vê no Brasil faz tempo.

Por isso, mesmo com as graves dificuldades que a Argentina e seu povo enfrentam neste momento, me parece óbvio que lá as eleições estão servindo para liberar energias que serão fundamentais para que se encontrem soluções que beneficiem a maioria dos argentinos, e não apenas os seus ultrarricos.

Por isso, o mesmo o tom desesperado das declarações proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro no sentido de que se houver um retorno do peronismo kirchenerista ao poder haveria a possibilidade de que o Rio Grande do Sul se transforme em uma nova Roraima (em referência à migração de venezuelanos que fogem da crise econômica em seu país). O medo real de Jair Bolsonaro não é que o Rio Grande do Sul vire Roraima, mas de que a energia dos argentinos sirva também para mobilizar os brasileiros que hoje recebem passivamente a mesma receita amarga que Maurício Macri empurrou goela abaixo do seu povo.

Alberto Fernandez e Cristina Kirchner derrotam Macri nas primárias argentinas

CRISTINA ALBERTOAlberto Fernandez e Cristina Kirchner. (Reprodução/Instagram)

O candidato Alberto Fernández, da Frente de Todos, venceu as eleições primárias realizadas neste domingo na Argentina, se impondo com ampla vantagem sobre o atual presidente Mauricio Macri. Segundo os números divulgados por volta das 22h30min, com 58,7% das urnas apuradas, Fernández tinha 47% dos votos e Macri 32%. O resultado coloca o candidato da oposição, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como companheira de chapa, como favorito para vencer as eleições presidenciais de outubro.

As primárias argentinas servem para definir os candidatos habilitados a participar das eleições presidenciais que ocorrerão dia 27 de outubro. Como nenhum dos partidos indicou mais de uma chapa, o pleito funcionou como uma espécie de pesquisa de intenção de voto, já que os cidadãos argentinos são obrigados a participar. Cerca de 75% dos eleitores habilitados a votar compareceram às urnas, segundo as autoridades argentinas.

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Logo após a divulgação dos primeiros números, Macri reconheceu a derrota, dizendo que o resultado não foi bom para o governo.

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Este artigo foi publicado originalmente foi site Sul 21 [Aqui!].

Argentina: o fundo de um afluente do Rio Paraná tem mais glifosato que um campo de soja

glifosato paraná

Um estudo recente da Conicet detectou a presença alarmante de agroquímicos e metais pesados ​​na bacia de um dos principais rios do país.

“Não há nenhuma razão de Estado e dos interesses económicos das empresas para justificar o silêncio quando se trata de saúde pública”, disse o pesquisador Andres Carrasco (1946-2014), o cientista argentino célebre que desafiou a política estabelecimento e seus pares-a denunciar os efeitos nocivos do uso de glifosato em cultivos transgênicos quando ninguém fez.

Essa mesma frase lembrou Dr. Damian Marino, CONICET pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), durante uma palestra no Chaco, que apresentou os resultados de estudos que comprovaram a presença de resíduos de agroquímicos e metais pesados ​​nas águas do rio Paraná.

Como para os detalhes, a biólogo revelou que na secção superior da bacia “não há concentrações de vários insecticidas para uso agrícola”, enquanto que a partir da média para baixo “contém uma contaminação múltipla” com alguns metais e especialmente com glifosato.

“Eles são os sites mais afetados. O glifosato é uma molécula dominante. O Paraná está com problemas “, destacou Marino.

Ele também explicou que, se levadas em conta as normas internacionais, amostras excederam por uma ampla níveis toleráveis ​​presença de margem em relação ao inseticida endosulfan (proibida no país em 2013), e seus substitutos mais tarde: clirpirifós e cipermetrina.

“A publicação científica globalmente validada diz que todas as amostras de água excederam, pelo menos para alguns dos pesticidas, o nível de orientação recomendado para toda a biota aquática e recomenda a articulação de políticas imediatas. Hoje, no mercado mundial, 90 por cento dos pesticidas é o glifosato e os restantes 10% é dividido entre clirpirifós, cipermetrina e endosulfan “, ele disse e mencionou que resultados semelhantes foram obtidos no Rio Paraguai, que também foi incluído no trabalho.     

Os monitoramentos ambientais sobre as bacias Rio Paraná foram definidos em três fases: a primeira foi em 2013, o segundo, em 2016 e, mais recentemente, em Janeiro de 2017, com a presença de produtos agroquímicos em água e sedimento foi ratificado (lama de baixo).

“As amostras foram tomadas na foz dos córregos ou rios que drenam a partir do interior em direção Paraná, a fim de ver o gotejamento permanente sobre o grande rio”, disse Marino, que durante cinco anos (2010-2015) Ele realizou um trabalho de pesquisa sobre o estado dos recursos hídricos na área de Pampa del Índio, junto com a Dra. Alcira Trinelli, especialista em química da UBA e Conicet.

O especialista disse que, a partir das amostras obtidas, os efeitos letais (organismos mortos) e subletais (alteração de desenvolvimento e reprodução) foram analisados. “O que importa que se obteve é ​​que as concentrações de metais não excedeu os níveis de guias”, revelou, e apontou que apenas o chumbo encontrado em quase todas as amostras de sedimentos, abaixo das quantidades aceites, verificando o impacto das actividades humanas das cidades que cruza o Paraná em sua bacia.

Como exemplo, ele mencionou que as águas dos rios San Lorenzo, Saladillo e Pavón possuem sedimentos com concentrações mais altas que causam efeitos letais nos organismos. Em tanto, as implicações subletales foram notadas na alta cuenca (província de Buenos Aires), com alterações no crescimento ligadas a altos níveis de plaguicidas.       

“Olhando para os resultados, vimos que o glifosato estava preso em partículas em suspensão ou fazendo parte do sedimento. A partir da bacia média, a concentração começou a aumentar. E quando chegou ao auge de Luján, aumentou muito “, disse ele.

Levando números explicação e comparações advertiu níveis de glifosato mais AMPA (metabólito na degradação glifosato) encontrados na bacia do rio “são cerca de quatro vezes as concentrações podem estar em um campo plantado com soja”. Então ele concluiu:”O fundo de um rio que deságua no Paraná tem mais glifosato do que um campo de soja.”

Há mais: todas as amostras de água, material em suspensão e sedimento de fundo tiveram presença de inseticidas projetados para matar insetos. “Isso mostra que os inseticidas estão distribuídos em toda a bacia”, disse o pesquisador.

Biodiversidade no outono

O contexto inicial em que Marino localizou sua apresentação foi o relatório do Planeta Vivo, uma organização internacional que produz um índice que mede a biodiversidade do planeta. Este índice foi feito em 10 mil espécies de diferentes tipos. “É visto que entre 1970 e 2010, houve um declínio de 52% das populações em todo o mundo. Mas na América Latina o valor é de 80%. Não é que há menos espécies, mas que os grupos populacionais são menores “, disse ele, e passando para a experiência diária, ele explicou que as pessoas podem observar a presença de quantidades menores de rãs ou peixes.

Como um conceito emergente do relatório, ele enfatizou que em menos de duas gerações humanas, metade da população de espécies que estiveram na Terra durante toda a sua evolução foi destruída. Enquanto isso, usando o conceito de Pegada Ecológica, que é medido em vários países, disse que “a Argentina tem essencialmente uma pegada baseada em sistemas agro-produtivos”.

Então ele disse outra dados gráficos: tomar biocapacidade, ou seja, o quanto você pode oferecer ao mundo sobre o que está sendo usado, e cruzando com informações sobre a evolução da população, pode ser visto que o 08 de agosto de 2016 a humanidade consumiu todos os recursos naturais desse ano. “De lá, consumimos recursos a crédito, estamos levando-os para as gerações futuras. A última vez que saímos foi em dezembro de 1970. Hoje estamos consumindo um ano e meio de planeta. Algo não está indo “, ele avisou.

Nesse sentido, ele ressaltou que os pesticidas “são uma pegada que estamos deixando para os sistemas ecológicos” e disse que eles têm um conceito dinâmico associado a eles. A partir do momento da aplicação, os processos ocorrerão na atmosfera, no solo e outros que ligam o solo à água. Eles são todos dados simultaneamente “.    

O caso de Pampa del Indio

Depois de encontrar o glifosato na água usada para consumo em Pampa del Indio em 2012, a medida provisória teve efeitos e as pulverizações pararam de ser feitas em superfícies perto de cidades. Este foi resumida Doctor química da UBA e CONICET científica, Alcira Trinelli, que durante meia década água estudado para beber e para irrigação na localidade Chaco e lugares na área onde a população indígena é a vulnerabilidade social predominante e de alta .  

“Sabíamos que naquela época havia aviões fumigando sem restrições sobre o afastamento das áreas povoadas. Encontramos níveis elevados, como 500 partes por bilhão na entrada da estação de tratamento de água “, disse Alcira Trinelli.

Trinelli explicou que as amostras foram coletadas na estação de tratamento de água, tanques de água da escola, águas de Napa, Pampa Chica, Lote 4, Campo Medina e Campo Nuevo; o rio Bermejo e a rede de água Presidencia Roca. Houve campanhas de amostragem em 2012, 2013 e 2014.

“Graças à medida de precaução que foi registrada logo após as amostras em que o glifosato foi encontrado, a partir de 2013, as amostras não foram detectadas novamente”, disse ele. A coisa mais preocupante, ele lembrou, era a água analisada na área de Campo Medida, que misturava vários contaminantes.

O estudo em Pampa del Indio surgiu um pedido expresso da comunidade Qom na região, a falta de acesso à água de qualidade, e foi financiado por uma voluntária, concede o secretário de Políticas Universitárias e da própria universidade.

Como detalha Trinelli, o objetivo foi analisar a qualidade da água para consumo e irrigação, e assim poder gerar uma ferramenta científica que serviria para sustentar as reivindicações de acesso à água. “Em todos os lugares encontramos algum tipo de tóxico, exceto no rio Bermejo e na presidencia Roca”, concluiu o especialista.

Fonte: Foro Ambiental / Diario Norte

Links para pesquisar documentos (em Inglês): 


Este texto foi publicado originalmente em Espanhol pelo Foro Ambiental [Aqui!]

Uma viagem aos povos fumigados da Argentina

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Ainda que eu sempre fale das graves consequências sociais e ambientais do abundante uso de agrotóxicos (muitos deles proibidos em outras partes do mundo) na agricultura brasileira, é importante lembrar que o caso da Argentina é ainda mais agudo em muitos aspectos. Lamentavelmente, os brasileiros não têm muito conhecimento do que se passa no país vizinho, onde os monocultivos de soja resultaram em processos de contaminação ambiental e humana que podem servir como uma espécie de  “worst case scenario” do que se passa por aqui.

Felizmente, há uma forte resistência entre os argentinos ao modelo de envenenamento que os cultivos impuseram em seu país. De quebra, também existe uma crescente documentação visual sobre os impactos que os agrotóxicos estão tendo sobre ecossistemas e seres humanos.

Graças a um colega professor que é argentino, recebi a sugestão para que assistisse ao documentário “Viaje a los pueblos fumigados” do diretor Fernando E. Solanas que foi lançado no início de 2018, e que permanece basicamente desconhecido no Brasil (ver extrato abaixo).

Entre os dados mais alarmantes que o documentário apresenta estão os casos de malformação, abortos instântaneos e câncer, cuja incidência explodiu nas provîncias argentinas onde o uso de agrotóxicos foi exponencializada pelo uso de soja transgênica fortamente.

Quem desejar assistir à versão integral deste documentário altamente revelador das chagas sociais e ambientais causada pelo uso intensivo de agrotóxicos na Argentina, basta clicar [Aqui!].

A morte de Fabian Tomasi, ativista argentino anti-agrotóxicos, cujo corpo se tornou uma arma

“Meu corpo está consumido”, disse o argentino de 53 anos, responsável por encher os tanques dos pulverizadores com herbicidas.

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Fabian Tomasi em sua cozinha em Basavilbaso,  na região de Entre Rios,  em fevereiro de 2018.

Por Charlotte Chabas para o Le Monde*

O seu corpo se tornou uma arma. Suas salientes costelas de onde dois braços magros escapam é que já não sabemos o quão bem eles estavam lá, sua espinha empolada pela escoliose, os olhos ainda brilhantes, suas bochechas emaciadas e cobertas com uma barba densa. E no meio, uma boca negra, bem aberta, parecendo se esforçar para respirar. Era o grito da Argentina poluída, uma réplica moderna da obra-prima de Edvard Munch. Aos 53 anos, Fabian Tomasi, que se tornou um símbolo da luta contra os agrotóxicos na Argentina, morreu sexta-feira, sete de setembro.

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Quadro “O Grito” de Edward Munch.

Aos 23 anos, este nativo de Basavilbaso começou a trabalhar para uma fazenda na região de Entre Rios (centro-leste). O jovem era responsável por preencher os tanques de herbicidas aviões espalhando o veneno sobre os vastos campos de soja na província, que gradualmente substituíram o gado tradicionais. Nestes grandes tanques, palavras que ele ainda não conhecia: Glifosato, Tordon, Propanil, Endosulfan, Cipermetrina, 2-4D, Metamidofos, Clorpirifós, adjuvantes, fungicidas, Gramoxone.

Diabético crônico, Fabian Tomasi muito rapidamente começou a sentir dor no final dos dedos. Nenhuma proteção era dada pela empresa a esses trabalhadores agrícolas que estavam na linha de frente. Um médico diagnosticou-o com neuropatia e colocou-o sob analgésicos.

Mas era uma espiral que não tinha fim: perda de elasticidade da pele, diminuição da capacidade pulmonar, perda de peso severa, infecções nos cotovelos e joelhos… é finalmente uma polineuropatia tóxica grave que é diagnosticada, uma síndrome neurológica que atinge 80% do seu corpo, e inclui um conjunto de doenças inflamatórias e degenerativas que afetam o sistema nervoso periférico. “Neste momento, meu corpo está consumido, cheio de crostas, quase sem mobilidade e à noite tenho dificuldade em dormir por causa do medo de não acordar”, escreve ele em carta aberta ao site militante La Poderosa. .

Ele não é o único a sofrer. Ao seu redor, em 2014, seu irmão Roberto, que também vive sob a pulverização de aviões, morreu de câncer no fígado, após semanas de agonia. Em sua região, o número de cânceres é quase três vezes maior do que nas cidades, segundo a rede de médicos fumigados da aldeia, que até fala de “epidemia”.

Então, Fabian Tomasi decidiu falar e começou uma briga para que fosse reconhecida a ligação entre sua doença e seu trabalho. “Não haverá mais ninguém. Toda a terra que temos não será suficiente para enterrar todos os mortos”, previu.

Em breve, o país conheceria este camponês que posava diante dos fotógrafos da imprensa internacional, no meio de campos ou na pequena cozinha azulejada onde morava com a mãe, a esposa e a filha. “Nós não somos ambientalistas, somos afetados por um sistema de produção que se preocupa mais em preencher alguns bolsos do que a saúde das pessoas”, dizia Fabian Tomasi, regularmente convidado em reuniões para explicar os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde humana.

“Para essas substâncias afetarem você, pode levar meia hora ou três anos. Não depende do tempo, mas do contato com substâncias destinadas a matar.”

Foi particularmente contra o glifosato que Fabian Tomasi entrou guerra, este produto usado a uma taxa de 300.000 toneladas por ano por uma Argentina dopada com soja transgênica. Alguns meses antes de morrer, o ex-trabalhador agrícola havia declarado à Agence France-Presse que a molécula de Monsanto era “uma armadilha que nos foi dada por pessoas muito poderosas“.

Não há doença livre de veneno e não há veneno sem essa conivência criminosa entre corporações multinacionais, a indústria da saúde, governos e o judiciário. Hoje, mais do que nunca, devemos detê-los e, para isso, devemos lutar, mesmo nos piores cenários, porque nosso inimigo se tornou muito forte. “

Apesar de sua luta, Fabian Tomasi não terá direito a julgamento. Tampouco conseguirá garantir que a Argentina adote legislação nacional para regulamentar o uso de agrotóxicos. Mas nos últimos anos, ele ajudou a tornar alguns prefeitos a promulgar estatutos para regular a pulverização, sob a pressão de seus cidadãos.

Em meados de agosto, Fabian Tomasi saudou as condenações dos EUA da Monsanto a US $ 289,2 milhões (248 milhões de euros) em benefício de um jardineiro americano, Dewayne “Lee” Johnson. “Eu não preciso de dinheiro no momento. Eu preciso da vida, ele disse. Eles não são empresas, são operadores.

Publicado originalmente em francês pelo jornal “Le Monde” [Aqui!]

A Argentina é o Brasil amanhã?

saques

Até bem pouco tempo atrás as medidas ultraneoliberais inciadas em 2016 pelo governo do bilionário Maurício Macri  eram saudadas no Brasil como o exemplo a ser seguido em termos de ajuste econômico, venda de estatais e imposição de tarifas salgadas para saciar a forma de lucro das corporações multinacionais.

Pois bem, os últimos meses têm sido de completa derrubada das cânones ultraneoliberais na Argentina, e o país começa a se defrontar com a possibilidade cada vez maior de calote nas sua imensa dívida pública, o que fez com que o peso argentino se desvalorizasse de maneira rápida e impiedosa.

Com isso, estão voltando à cena argentina, os saques de supermercados como o mostrado abaixo que ocorreu em uma filial da rede Átomo na cidade de Mendonza,  que é capital da província de Mendoza na Argentina.

Como temos até banqueiro concorrendo às eleições presidenciais no Brasil, vamos ver que rumo vamos tomar.  Mas que ninguém se surpreenda se cenas semelhantes voltarem a acontecer no nosso país, caso insistam no receituário imposto pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Isto aqui não é o Brasil, nem Rio de Janeiro!

Esquerda argentina barra a reforma da previdência de Macri

Por André Augusto , Natal | @AcierAndy

Depois de uma longa jornada que começou cedo na Argentina, contra a tentativa de votação da reforma da Previdência proposta pelo governo contra os aposentados, os trabalhadores mobilizados conseguiram um triunfo importante pela luta: barraram a votação da reforma da previdência, impondo uma enorme derrota política ao governo de Mauricio Macri.

Com um bloqueio de rua organizado pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) – organização irmã do MRT, e parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – e o sindicalismo combativo, assim como ações de luta em todo o país que se enfrentaram contra forte repressão policial, que seguiu pela tarde com uma grande manifestação ao redor do Congresso Nacional militarizado pelo governo (com a mesma polícia que assassinou Santiago Maldonado), o governo Macri foi obrigado a cancelar a sessão que votaria a reforma da Previdência.

A legitimidade eleitoral conquistada pela direita nas eleições – que aconteceram há menos de 2 meses – recebeu um golpe de magnitude pelo caráter reacionário da reforma da previdência e a resistência que provocou.

Na Argentina, como no Brasil, o governo federal busca roubar milhões de trabalhadores atacando a previdência social, especialmente dos aposentados. No Brasil, nos enfrentamos contra a proposta de reforma da Previdência de Temer, e por isso é sumamente importante assimilar os métodos com os quais os trabalhadores argentinos fizeram a direita engolir sua reforma (não em vão, Lênin em 1902 sugeria que os trabalhadores de um determinado país devem assimilar as experiências mais avançadas do movimento operário internacional, para aperfeiçoar sua luta e irmaná-la).


Operativo policial no centro de Buenos Aires

Em primeiro lugar, algumas condições se assemelham: no Brasil como na Argentina, as direções sindicais majoritárias são parte de verdadeiras burocracias operárias – “trincheiras” da burguesia no interior do movimento operário, diria Gramsci – e operam para desorganizar, desmobilizar e desmoralizar a luta independente dos trabalhadores contra a ofensiva dos capitalistas. No Brasil vimos isso no decorrer de 2017, com a traição da Força Sindical, UGT, CUT e CTB à greve geral do 30 de junho, e à greve nacional do 5/12. Na Argentina, a CGT (Confederação Geral do Trabalho) não moveu um dedo para organizar a luta que ontem foi capaz de barrar a votação da reforma da previdência.

Ao contrário do que dizia a Folha de S. Paulo acerca da “mobilização convocada pelas centrais sindicais argentinas”, o certo é que a sessão da Câmara dos Deputados foi cancelada pela mobilização que expressou o repúdio de massas ao ataque aos aposentados, apesar da paralisia completa das centrais sindicais burocráticas.


Capa da Folha sobre os enfrentamentos da esquerda argentina que barraram a reforma da previdência

O que permitiu, então, uma jornada como a de ontem? A existência de uma esquerda revolucionária de combate, com inserção no movimento operário. O PTS e o sindicalismo combativo agrupado no Movimento de Agrupações Classistas (MAC), junto a outras organizações que são parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), estiveram na linha de frente do enfrentamento contra a repressão de Macri aos que denunciavam o roubo da reforma da previdência. Antecipando-se à votação, com mobilizações prévias, e cercando o Congresso Nacional antes da sessão, a esquerda argentina – que tem como grandes referentes o deputado federal Nicolás del Caño (PTS) e a legisladora de Buenos Aires, Myriam Bregman (PTS) – aceitou a batalha e se preparou com antecedência para desafiar nas ruas as intenções do governo ajustador.

Houve enfrentamentos em distintos lugares do país, em diversos estados em que a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores possui importantes posições parlamentares e utiliza essas bancadas a serviço do desenvolvimento da luta extraparlamentar dos trabalhadores – algo quase incompreensível para a esquerda brasileira. Essa intervenção do PTS nas cidades e províncias teve ampla cobertura da mídia nacional (ver aqui)

A esquerda revolucionária na Argentina mostra que não é necessário ficar esperando a suposta “unidade das centrais” para se mobilizar. Exigir um plano de luta dos sindicatos não significa ficar de braços cruzados. É preciso que os partidos de esquerda se coloquem de corpo na luta de classes para impor a mais ampla frente única operária contra as reformas, exigindo assim dos sindicatos um plano de luta sério. A atuação do PTS contrasta com a situação no Brasil, em que a esquerda não busca construir um polo antiburocrático que tenha mais força para fazer esse tipo de exigência de frente única aos sindicatos; ao contrário, praticamente não criticam as grandes centrais sindicais.

Em segundo lugar, uma lição muito importante para o Brasil: essa intervenção da classe trabalhadora argentina, encabeçada pela esquerda, mostrou que o resultado favorável que a direita conseguiu nas urnas não significou uma alteração da relação de forças social. Ou seja, ao contrário dos que acreditavam que os ajustes de Macri teriam “terreno livre” para avançar, a luta de classes mostrou que não, que uma vez organizadas, a raiva popular contra os ajustes poderia ser canalizada em uma força esmagadora contra os capitalistas e seus políticos.

No Brasil de Temer a coisa não é distinta. Existe uma enorme energia represada das massas capaz de, se posta em movimento, destruir as reformas trabalhista, da previdência e todas as medidas antipopulares do governo golpista. As centrais sindicais majoritárias servem de contenção dessa energia, sendo as mais traidoras a Força e a UGT; mas também o PT – que dirige a CUT e influencia a CTB (PCdoB) – alimenta um sentimento de desmoralização nos trabalhadores, para que estes não vislumbrem com audácia a derrubada das reformas através do combate, e ao mesmo tempo assume o papel de “vítima” para projetar-se eleitoralmente.

Aos que estão contra o autoritarismo judiciário e com as reformas reacionárias, restaria resignar-se a votar em Lula ou seu “indicado”, tendo de engolir os ajustes neoliberais que nos farão trabalhar até morrer. Sempre em defesa da estabilidade, da governabilidade e da institucionalidade burguesas, o compromisso do PT em primeiro lugar é com a ordem dessa “democracia dos ricos”.

É preciso superar esta tradição petista e dar passos concretos, imediatos, para a construção de uma alternativa política independente, anticapitalista e socialista dos trabalhadores. Podemos também mostrar no Brasil que a relação de forças social não permite um “cheque em branco” aos ataques da direita e dos capitalistas. Como prova o exemplo argentino – inúmeras vezes, como quando freou a implementação da reforma trabalhista com a enorme luta da fábrica PepsiCo – é que apenas os métodos da luta de classes podem frear as políticas dos fenômenos à direita que atravessam a América Latina.


Movimento de Agrupações Classistas (MAC) às portas do Congresso Nacional

O tempo é essencial na política, e entendemos a política como luta de classes. Temer está buscando votos nos próximos meses para aprovar a “nova previdência”, um ataque brutal contra milhões de trabalhadores. A grande pergunta é: daqui a até o dia 19/02 as centrais sindicais vão organizar um plano de luta efetivo pela base? Ou vai manter a passiva palavra de ordem “se colocar pra votar, o Brasil vai parar” deixando os trabalhadores sem preparação nenhuma pra enfrentar essa verdadeira guerra?

Nicolás del Caño, em rede nacional (C5N)

Myriam Bregman

Essa grande demonstração de forças dos trabalhadores argentinos serve de grande lição para nós no Brasil: não é com manobras e negociação das centrais sindicais traidoras que vamos enfrentar a reforma da Previdência de Temer e Meirelles; é com a força da classe trabalhadora organizada nas ruas, com seus próprios métodos de luta de classes, que pode fazer o governo engolir essa reforma e enterrar a nefasta reforma trabalhista. A esquerda brasileira precisa assimilar a experiência da esquerda argentina, cessar sua coexistência pacífica com a burocracia sindical (contida na fórmula “esperemos a unidade das centrais”) e batalhar para ser um polo anti-burocrático ativo na luta de classes pra impor as centrais uma mobilização e plano de luta de verdade.

FONTE: http://www.esquerdadiario.com.br/Esquerda-argentina-barra-a-reforma-da-previdencia-de-Macri

Don´t cry for me Argentina

O dia de ontem foi de fortíssimos enfrentamentos na cidade de Buenos Aires: de um lado as forças policiais fortemente armadas e de outro trabalhadores e aposentados liderados pela Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT). O motivo da batalha campal do lado de fora do congresso argentino foi a tentativa do governo do presidente Maurício Macri de promover uma tunga semelhantes à pretendida por Michel Temer nas aposentadorias dos trabalhadores brasileiros (ver abaixo reprodução da capa de hoje do Página 12 [1].

argentina reforma

Os duros enfrentamentos dentro e fora do congresso argentino acabaram forçando a postergação da análise das propostas do governo Macri para impor uma espécie de reforma grega ao sistema de aposentadorias da Argentina.

Mas mais do que forçar o recuo do governo Macri, os acontecimentos de ontem em Buenos Aires reforçam algo que os partidos da esquerda parlamentar e a maioria dos centrais sindicais brasileira teimam em negar. É que mesmo em face da mais dura repressão, os trabalhadores argentinos atuaram de forma decisiva para impedir o saque das aposentadorias pretendido pelo governo Macri. 

Essa lição vinda da Argentina é tão poderosa que não há nada sobre os enfrentamentos de ontem nos principais veículos da mídia corporativa brasileira e internacional. Este cobertor de silêncio visa impedir a disseminação do dado exemplo dado pelos trabalhadores argentinos.

O que aconteceu ontem em Buenos Aires tem sim importantes contribuições para o debate em torno do que os trabalhadores brasileiros vão ter de fazer para impedir que a contrarreforma da previdência do governo “de facto” de Michel Temer seja finalmente aprovada em Fevereiro de 2019. E o caminho apontado pelos trabalhadores argentinos é claro: enfrentar de forma organizada quem deseja retirar direitos conquistados a duros penas, ainda que sob forte repressão policial. 

Mas por hoje há que se agradecer à disposição de luta dos trabalhadores argentino.  É que ele nos deram a lição de que em face de ataques violentos contra direitos, o único caminho é a resistência nas ruas.


[1] https://www.pagina12.com.ar/