Argentina proíbe 2,4-D e já aplica sanções… Enquanto isso no Brasil, as liberações correm soltas

Quanto custaria retirar o herbicida do Brasil?

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Por Leonardo Gottems para a Agrolink

Em vigor desde o dia 24 de julho, a proibição da utilização e comercialização de 2,4-D em sua formulação “butil e isobutil éster” já está sendo alvo de fiscalização na Argentina. A medida foi implementada por decisão do  Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Alimentar (Senasa), e prevê sanções ainda para quem importar, elaborar e fracionar o herbicida.

“A aplicação e o uso dessas formulações podem causar prejuízos às culturas agrícolas, florestais ou outras, devido à sua alta volatilidade nas diferentes regiões do país”, justificou o Senasa argentino.

O engenheiro e diretor-geral de Inspeção e Controle da agência governamental na cidade de Córdoba (Norte da Argentina), Gustavo Balbi, afirmou: “Hoje existem tecnologias que ultrapassam em muito o uso deste tipo de ferramentas e devemos nos adaptar ao seu uso para um desenvolvimento produtivo cada vez mais sustentável”.

Em caso de não cumprimento, o Senasa estabelece o confisco, suspensão ou qualquer outra medida que seja aconselhável de acordo com as circunstâncias de risco para a saúde pública ou o meio ambiente.

E o Brasil?

Os produtores rurais brasileiros teriam um gasto adicional de R$ 1,6 bilhão por ano caso os herbicidas à base de 2,4-D sejam banidos, forçando sua substituição por outras moléculas. É o que aponta uma pesquisa que mapeia os aspectos biológicos e econômicos do uso desse agroquímico, realizada pelos engenheiros agrônomos e pesquisadores especializados no tema, Robinson Osipe e Jethro Barros Osipe.

De acordo com o estudo, o custo extra com a retirada do 2,4-D da agricultura do Brasil equivale a 417,76% a mais do montante utilizado com o defensivo para o manejo e controle de plantas daninhas. “A retirada do 2,4-D do mercado agrícola brasileiro provocaria, de maneira direta, um significativo aumento médio anual no custo de controle de plantas daninhas. O produto é usado em diversas culturas no País, mas se sobressai na de soja, que representa 65,4% da área cultivada”, ressalta Robinson Osipe.

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Este artigo foi inicialmente no site Agrolink [Aqui!].

Argentina está lutando com a seca

O rio mais importante do país sul-americano tem o menor nível de água em 50 anos

rio paranáBarcos encalhados no rio Paraná perto da cidade de San Lorenzo. Foto: Reuters / agosto Marcarian

Por Jürgen Vogt, Buenos Aires para o Neues Deutschland

Embora as fortes chuvas causem inundações em muitos lugares da Europa, o quadro é diferente na América do Sul: o Rio Paraná atingiu seu nível mais baixo em meio século. A falta de precipitação nas cabeceiras do rio brasileiro é citada como a causa. Em maio, o serviço meteorológico brasileiro relatou a menor precipitação em mais de 90 anos para os estados do sul de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Muitos especialistas se perguntam como o fenômeno está relacionado às mudanças climáticas, que, por outro lado, há muito vêm causando fortes chuvas na América do Sul.

O tempo seco não é o único responsável pela vazante do Paraná, que flui do Brasil via Paraguai e Argentina 4.880 km ao sul até sua confluência com o Río de la Plata. Durante anos, as áreas florestais da Amazônia e do Pantanal no sul do Brasil foram desmatadas e convertidas em áreas aproveitáveis ​​para o cultivo de produtos agrícolas e para a pecuária. No Paraguai e na Argentina, os limites do uso para a agricultura estão sendo empurrados cada vez mais para o norte.

No Paraguai, seis milhões de ha de floresta foram desmatados nos últimos 20 anos. Quase no mesmo período, as escavadeiras na Argentina arrasaram cerca de 14 milhões de ha de floresta. Assim como no Brasil, a área desmatada é destinada principalmente à pecuária e ao cultivo de soja nos dois países. Embora o consumo de água do rio esteja aumentando, a perda de áreas de floresta armazenadora de água, que sempre foi capaz de mitigar os efeitos extremos de chuvas fortes ou leves, é muito mais grave. O desaparecimento das florestas está mudando o microclima. As massas de ar úmido são atraídas cada vez mais fracas.

O nível médio da água do rio vem caindo desde meados de 2019. Isso já era perceptível no ano passado nas grandes áreas úmidas ao longo dos últimos 300 quilômetros do rio na Argentina. No delta do Paranás, 80 por cento da área está em níveis normais de água. Apenas 20 por cento é terreno sólido. Agora o relacionamento foi revertido. No ano passado, incontáveis ​​incêndios destruíram mais de 500 km2 de pântanos. Um desastre ambiental que ameaça se repetir no máximo até o final de julho, quando os fazendeiros tradicionalmente queimam seus campos, embora isso tenha sido proibido há muito tempo.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Mineração na Argentina: onda de repressão em Andalgalá

Em cidade argentina, a polícia está mirando oponentes de uma mina

mineração argentinaDanos ambientais da mineração ilegal de ouro. Foto: dpa / AP / Fernando Vergara

Por Nico Graack para o Neues Deutschland

“As pessoas no Norte Global têm que entender o que está sendo destruído aqui todos os dias por suas empresas!” Rosa Farías disse ao “Neues Deutschland”. Ela é uma das muitas moradoras da pequena cidade de Andalgalá que atualmente enfrenta uma série de ataques violentos, prisões e intimidações. Andalgalá está localizada na província de Catamarca, no noroeste da Argentina. Durante anos, várias iniciativas de cidadãos e organizações ambientais têm lutado contra o planejado projeto de megaminas MARA da empresa canadense Yamana Gold. “Toda a situação me dói incrivelmente. Os presos são nossos vizinhos que, como todos nós, lutam por sua água potável ”. Mas Rosa quer continuar:“ Não vamos parar até que a mina tenha parado e nosso rio e nossas montanhas sejam novamente nossos.

A “Caminhada pela Vida e pela Água” realiza-se todos os sábados em Andalgalá há onze anos. Em 10 de abril, ocorreu um incêndio no escritório do projeto da mina. A polícia interpretou isso como pretexto para as batidas. O grupo de protesto Asamblea El Algarrobo publicou um comunicado na mesma noite em que declarava não estar envolvido no incêndio criminoso. Eles também acusaram a polícia de se infiltrar na assembléia pacífica com agitadores por mais de onze anos. Os policiais que acompanhavam a reunião desapareceram repentinamente antes dos tumultos.

Maria Mansilla descreveu a prisão de seu irmão Walter na revista “Cítrica”: a polícia arrombou a porta destrancada, saqueou o apartamento e se recusou a mostrar um mandado de busca. Walter foi espancado toda vez que tentou falar e sua câmera e outras ferramentas foram confiscadas. Ele fotografa os protestos há muitos anos. As casas de conhecidos ativistas da água foram sitiadas por unidades armadas, circundadas por drones e fotografadas.

Rosa relata que a presença policial diminuiu entretanto e que os militares que chegaram nesse ínterim também desapareceram, mas casas e pessoas continuam sendo acompanhadas: “A cidade ainda está em estado de alarme”.

Doze pessoas estão atualmente presas. A organização de direitos humanos CELS informou que os advogados de defesa dos detidos somente tiveram acesso aos arquivos para uma audiência. As famílias dos detidos e simpatizantes protestam regularmente em frente ao Ministério Público. Não há datas de julgamento até agora.

O projeto da mina MARA surgiu da joint venture concluída em 2020 entre a mina planejada de Água Rica e a mina vizinha de La Alumbrera, que está em operação desde 1998 e desde então foi esgotada, na qual ouro e cobre foram extraídos. Além de molibdênio e prata, ouro e cobre em particular serão extraídos na nova mina. A nova mina Água Rica teria cerca de três vezes o tamanho da mina de La Alumbrera.

Na mineração de ouro, grandes quantidades de mercúrio e / ou cianeto de sódio são usadas para extrair o ouro bruto da rocha. Só a mina Alumbrera consome 95 milhões de litros de água por dia. A água de infiltração altamente tóxica resultante é armazenada em bacias de coleta. A poluição da água extensa foi documentada para a área, inclusive da Universidade de Córdoba.

A Yamana Gold fala em tornar a região de Catamarca um “ponto de desenvolvimento central no noroeste da Argentina” com a mina. As iniciativas de cidadãos e organizações ambientais em Andalgalá veem isso de forma diferente. Fabio Paz, um dos ativistas, explicou em entrevista ao portal de notícias ANCAP: “Através de La Alumbrera, cidades como Vis Vis desapareceram porque as famílias tiveram que se mudar por causa da seca e poluição da água”. E acrescentou: “No caso das minas Veladero e Alumbrera, por exemplo, um emprego criado para cada US $ 1,2 milhão investido. Isso mostra que muitos empregos são uma ilusão. Na província de Catamarca, o emprego gerado pelas mineradoras é inferior a um por cento. ”

O caso Andalgalá faz parte de uma longa história de repressão contra as pessoas mais afetadas pela degradação ambiental e pela catástrofe climática e que lutam contra isso. No relatório anual da organização de direitos humanos Global Witness, o negócio de mineração tem estado por muitos anos na vanguarda de assassinatos, ataques, prisões, violência sexual e ações legais contra ativistas do clima. A maioria das vítimas são indígenas cujos territórios se encontram em recursos minerais e que são deslocados à força de lá. Via de regra, são as empresas transnacionais do Norte Global que afirmam seus interesses desta forma.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Atacada pelo governo Bolsonaro, China faz super acordo para comprar soja argentina

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A disposição de diferentes membros do governo Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, de provocar a China, principal parceira comercial do Brasil neste momento, é antes de tudo uma irracionalidade econômica. É que o Brasil depende da China para vender parte significativa da produção nacional de soja e de outras commodities agrícolas e minerais. 

Pois bem, o site especializado em fornecer informações sobre o agronegócio, o Agrolink, publicou hoje a informação indicando que o “Grupo Syngenta anunciou na Argentina um acordo de grandes proporções com a Sinograin – empresa responsável pela exploração da reserva de grãos e óleo da China. A iniciativa Agri Value Chain visa melhorar as condições das operações de barter, exportar diretamente os grãos e seus derivados para o mercado chinês e promover a cooperação de toda a cadeia agroindustrial“.

Esse acordo de “grandes proporções” confirma o fato de que após todas as declarações provocativas, o governo chinês começou a fazer o que já tinha advertido que faria, qual seja, dar preferência para fazer negócios com parceiros que tratem respeitavelmente a China, em que pese as eventuais diferenças ideológicas entre os governos.

Todas as ações provocativas que têm sido feitas contra a China parecem ter como base o pressuposto de que a China precisa mais das commodities brasileiras do que o Brasil precisa dos bilhões de dólares geradas pelas importações chinesas. Obviamente essa é uma crença sem base na realidade. 

Assim, ao provocar o principal parceiro comercial do Brasil se baseando em um falso pressuposto, o que o governo Bolsonaro pode ter garantido é a perda da preferência chinesa por nossas commodities. Se isso se confirmar, a situação da economia brasileira que já anda ruim, deverá piorar ainda mais em 2021.

Há que se lembrar ainda que mesmo que a China passa a optar pela Argentina para comprar soja, o Brasil continuará dependendo dos fabricantes chineses de insumos agrícolas para tocar as grandes áreas de monoculturas, a começar pelos agrotóxicos. Resta saber onde vão arrumar os dólares para comprar os insumos chineses.

E isso tudo para quê? Para agradar o governo comandado por Donald Trump?

Governo Bolsonaro se pretendia caçador, mas pode ter virado caça depois da eleição argentina

albertoAlberto Fernández foi eleito em primeiro turno na Argentina e no palanque da vitória defendeu a libertação do ex-presidente Lula cuja prisão ele considera injusta

Ao longo de 2019, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu alguns feitos inéditos em termos do isolamento diplomático do Brasil ao abandonar a postura pragmática que caracterizava historicamente a ação da diplomacia brasileira ao se alinhar umbilicalmente ao governo dos EUA. Além disso, a postura anti-ambiental que ficou explícita na celebração do negacionismo climático pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, piorou ainda mais a péssima imagem que o nosso país passou a ostentar após a eleição de um político que propaga visões que fora do Brasil são consideradas como sendo de extrema-direita.

Agora, o isolamento que se configurava no plano internacional mais distante ganha contornos mais paroquiais com a vitória do candidato de oposição na Argentina que derrotou em primeiro turno a um parceiro ideológico, o neoliberal Maurício Macri. Entre as primeiras declarações dadas ainda no palanque da vitória, Alberto Fernández mandou uma mensagem explícita ao governo brasileira ao indicar que irá se envolver na campanha pela libertação do ex-presidente Lula (ver vídeo abaixo).

A declaração do novo presidente argentino em defesa de Lula tem um forte valor simbólico (e talvez apenas isso), pois indica que Fernández não parece disposto a esquecer as ofensas e provocações que fora proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro logo após a sua vitória eleitoral nas primárias argentinas.

A coisa fica ainda mais complicada para o governo Bolsonaro se considerarmos a vitória eleitoral de Evo Morales que obteve novo mandato na Bolívia e a passagem para o segundo turno nas eleições presidenciais uruguaias do candidato da Frente Ampla, Daniel Martinez. 

Associado às vitórias de Fernández e Evo,  Jair Bolsonaro ainda tem que assistir o Chile, principal sustentáculo de suas políticas ultraneoliberais, solapado por um forte revolta popular justamente por causa da aplicação continuada de fórmulas que precarizaram direitos sociais e criaram uma das sociedades mais desiguais do planeta. O governo do presidente Sebastian Piñera que era como se fosse uma espécie de realização suprema da ordem agora se encontra sob forte pressão para rever três décadas de políticas neoliberais em meio a protestos gigantescos.

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O grande medo que deve estar atravessando o governo Bolsonaro de cima até abaixo é o da contaminação da revolta popular. Como não há meio termo possível para Jair Bolsonaro e seus ministros ultraneoliberais o medo da contaminação não é infundado, mas depende ainda da disposição de sair da inércia de partidos ditos de esquerda (a começar pelo PT) e movimentos sociais a eles afiliados.

Agora uma coisa é certa: a fase dos encontros de presidentes ultraneoliberais para celebrar vitórias eleitorais está encerrada, e isto deverá criar graves dificuldades para a governabilidade brasileira.  E não possamos esquecer que um dos maiores vencedores das eleições argentinas é o presidente Nicolás Maduro que agora terá uma bota a menos no seu pescoço já que Fernández anunciou durante a campanha eleitoral que irá retirar a Argentina do chamado “Grupo de Lima”. 

Como se vê, os resultados das eleições argentinas terão efeitos de amplo espectro na situação política da América do Sul. E têm tudo para ampliar o clima de paranoia que já existe dentro do governo Bolsonaro. E, convenhamos, com justa razão. É que até bem pouco o sonho propalado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus ministros era firmar uma hegemonia de direita no nosso continente. E agora o que se vê é uma espécie de cerco político do Brasil, onde os poucos governos amigos que sobraram estão enfrentando dificuldades enormes para se manterem em pé.

É a consumação da famosa máxima do “um dia da caça, outro do caçador”.  O problema para Jair Bolsonaro é que seu governo que se pretendia caçador pode estar passando rapidamente à condição de caça. A ver!

Favorito a ser presidente da Argentina, Alberto Fernández desfere duro ataque a Jair Bolsonaro

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Um dos segredos básicos da diplomacia é que se pretende interferir politicamente em um dado país, o pior caminho é atacar frontalmente o adversário que se escolheu para brigar. Essa máxima foi esquecida recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro que não só se envolveu na campanha presidencial da Argentina, como também resolveu atacar o resultado da rodada de primárias que ocorreu no final de semana passada. Em palanque no Rio Grande do Sul, o presidente brasileiro previu que se a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner vencer as eleições presidenciais argentinas que ocorrerão em outubro, o Rio Grande do Sul viraria uma espécie de região de refúgio de refugiados argentinos. De quebra, ainda caracterizou a dupla Fernández-Kirchner de “esquerdalha”.

A resposta de Alberto Fernández não demorou muito a vir e em entrevista quando o candidato presidencial argentina disse celebrar as críticas e a oposição de Jair Bolsonaro, não sem antes aplicar os adjetivos de “racista”, “misógino” e “violento, e ainda provocou o presidente brasileiro a libertar o ex-presidente Lula para que concorram em eleições presidenciais. Fernández disse ainda que, apesar de desejar manter relações comerciais com o Brasil, ele não tem problema em ter problemas com o presidente do Brasil (ver vídeo abaixo).

Como Alberto Fernández tem plenas chances de ser o próximo presidente da Argentina, o clima que está sendo criado durante esse período eleitoral vai tornar difícil a convivência com o principal parceiro comercial brasileiro na América Latina, o que poderá respingar não apenas sobre o Mercosul, mas também em várias outras de alto valor econômico para o Brasil. Se considerarmos a atual situação da economia brasileira, isto cheira a um completo desastre diplomático.

Um aspecto que está presente na fala de Alberto Fernández e que deverá agudizar ainda mais os ataques de Jair Bolsonaro é que o político argentino afirma que “Bolsonaro é um problema conjuntural para o Brasil, tal como Maurício Macri é um problema conjuntural para a Argentina”.  Em outras palavras, o destino eleitoral de Bolsonaro poderá ser o mesmo de Maurício Macri.

Enquanto isso, Maurício Macri já deve ter telefonado para Jair Bolsonaro para implorar para que ele se cale em relação ao processo eleitoral argentino. É que se o “apoio” dado nas eleições primárias resultou em uma derrota de 15%, imaginemos o que acontecerá em outubro quando ocorrerão as eleições presidenciais argentinas se o presidente Jair Bolsonaro continuar “apoiando” Maurício Macri.

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner e o medo do contágio assombram Jair Bolsonaro

cristina alberto 1A vitória acachapante de Alberto Fernández e Cristina Kirchner contra Maurício Macri gera ansiedade no Brasil pelo simples medo de que haja um contágio político que tire os brasileiras da apatia e da sonolência política.

Eu realmente não me lembro quando as eleições brasileiras foram transformadas em um processo asséptico e chato sob a escusa de se controlar o uso indevido de recursos e as pressões indevidas.  Isso vem acontecendo sob a batuta de uma justiça eleitoral cada vez mais poderosa e que não hesita em se comportar como uma polícia política, enquanto as redes sociais são usadas à vontade como uma espécie de ariete contra as aspirações democráticas do povo brasileiro.

Fechemos o pano para as eleições brasileiras para reabrir em uma avenida onde acabam de ocorrer as eleições primárias para a presidência da república e os governadores das providências argentinas (ver vídeo abaixo).

Mesmo quem não entende o que está sendo cantado sabe que essa multidão de argentinos está enviando uma mensagem política clara de apoio aos candidatos de oposição ao presidente Maurício Macri, Alberto Fernández e Cristina Kirchner.  E a multidão faz não apenas com palavras de ordem claras, mas também com uma energia esfuziante que não se vê no Brasil faz tempo.

Por isso, mesmo com as graves dificuldades que a Argentina e seu povo enfrentam neste momento, me parece óbvio que lá as eleições estão servindo para liberar energias que serão fundamentais para que se encontrem soluções que beneficiem a maioria dos argentinos, e não apenas os seus ultrarricos.

Por isso, o mesmo o tom desesperado das declarações proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro no sentido de que se houver um retorno do peronismo kirchenerista ao poder haveria a possibilidade de que o Rio Grande do Sul se transforme em uma nova Roraima (em referência à migração de venezuelanos que fogem da crise econômica em seu país). O medo real de Jair Bolsonaro não é que o Rio Grande do Sul vire Roraima, mas de que a energia dos argentinos sirva também para mobilizar os brasileiros que hoje recebem passivamente a mesma receita amarga que Maurício Macri empurrou goela abaixo do seu povo.

Alberto Fernandez e Cristina Kirchner derrotam Macri nas primárias argentinas

CRISTINA ALBERTOAlberto Fernandez e Cristina Kirchner. (Reprodução/Instagram)

O candidato Alberto Fernández, da Frente de Todos, venceu as eleições primárias realizadas neste domingo na Argentina, se impondo com ampla vantagem sobre o atual presidente Mauricio Macri. Segundo os números divulgados por volta das 22h30min, com 58,7% das urnas apuradas, Fernández tinha 47% dos votos e Macri 32%. O resultado coloca o candidato da oposição, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como companheira de chapa, como favorito para vencer as eleições presidenciais de outubro.

As primárias argentinas servem para definir os candidatos habilitados a participar das eleições presidenciais que ocorrerão dia 27 de outubro. Como nenhum dos partidos indicou mais de uma chapa, o pleito funcionou como uma espécie de pesquisa de intenção de voto, já que os cidadãos argentinos são obrigados a participar. Cerca de 75% dos eleitores habilitados a votar compareceram às urnas, segundo as autoridades argentinas.

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Logo após a divulgação dos primeiros números, Macri reconheceu a derrota, dizendo que o resultado não foi bom para o governo.

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Este artigo foi publicado originalmente foi site Sul 21 [Aqui!].

Argentina: o fundo de um afluente do Rio Paraná tem mais glifosato que um campo de soja

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Um estudo recente da Conicet detectou a presença alarmante de agroquímicos e metais pesados ​​na bacia de um dos principais rios do país.

“Não há nenhuma razão de Estado e dos interesses económicos das empresas para justificar o silêncio quando se trata de saúde pública”, disse o pesquisador Andres Carrasco (1946-2014), o cientista argentino célebre que desafiou a política estabelecimento e seus pares-a denunciar os efeitos nocivos do uso de glifosato em cultivos transgênicos quando ninguém fez.

Essa mesma frase lembrou Dr. Damian Marino, CONICET pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), durante uma palestra no Chaco, que apresentou os resultados de estudos que comprovaram a presença de resíduos de agroquímicos e metais pesados ​​nas águas do rio Paraná.

Como para os detalhes, a biólogo revelou que na secção superior da bacia “não há concentrações de vários insecticidas para uso agrícola”, enquanto que a partir da média para baixo “contém uma contaminação múltipla” com alguns metais e especialmente com glifosato.

“Eles são os sites mais afetados. O glifosato é uma molécula dominante. O Paraná está com problemas “, destacou Marino.

Ele também explicou que, se levadas em conta as normas internacionais, amostras excederam por uma ampla níveis toleráveis ​​presença de margem em relação ao inseticida endosulfan (proibida no país em 2013), e seus substitutos mais tarde: clirpirifós e cipermetrina.

“A publicação científica globalmente validada diz que todas as amostras de água excederam, pelo menos para alguns dos pesticidas, o nível de orientação recomendado para toda a biota aquática e recomenda a articulação de políticas imediatas. Hoje, no mercado mundial, 90 por cento dos pesticidas é o glifosato e os restantes 10% é dividido entre clirpirifós, cipermetrina e endosulfan “, ele disse e mencionou que resultados semelhantes foram obtidos no Rio Paraguai, que também foi incluído no trabalho.     

Os monitoramentos ambientais sobre as bacias Rio Paraná foram definidos em três fases: a primeira foi em 2013, o segundo, em 2016 e, mais recentemente, em Janeiro de 2017, com a presença de produtos agroquímicos em água e sedimento foi ratificado (lama de baixo).

“As amostras foram tomadas na foz dos córregos ou rios que drenam a partir do interior em direção Paraná, a fim de ver o gotejamento permanente sobre o grande rio”, disse Marino, que durante cinco anos (2010-2015) Ele realizou um trabalho de pesquisa sobre o estado dos recursos hídricos na área de Pampa del Índio, junto com a Dra. Alcira Trinelli, especialista em química da UBA e Conicet.

O especialista disse que, a partir das amostras obtidas, os efeitos letais (organismos mortos) e subletais (alteração de desenvolvimento e reprodução) foram analisados. “O que importa que se obteve é ​​que as concentrações de metais não excedeu os níveis de guias”, revelou, e apontou que apenas o chumbo encontrado em quase todas as amostras de sedimentos, abaixo das quantidades aceites, verificando o impacto das actividades humanas das cidades que cruza o Paraná em sua bacia.

Como exemplo, ele mencionou que as águas dos rios San Lorenzo, Saladillo e Pavón possuem sedimentos com concentrações mais altas que causam efeitos letais nos organismos. Em tanto, as implicações subletales foram notadas na alta cuenca (província de Buenos Aires), com alterações no crescimento ligadas a altos níveis de plaguicidas.       

“Olhando para os resultados, vimos que o glifosato estava preso em partículas em suspensão ou fazendo parte do sedimento. A partir da bacia média, a concentração começou a aumentar. E quando chegou ao auge de Luján, aumentou muito “, disse ele.

Levando números explicação e comparações advertiu níveis de glifosato mais AMPA (metabólito na degradação glifosato) encontrados na bacia do rio “são cerca de quatro vezes as concentrações podem estar em um campo plantado com soja”. Então ele concluiu:”O fundo de um rio que deságua no Paraná tem mais glifosato do que um campo de soja.”

Há mais: todas as amostras de água, material em suspensão e sedimento de fundo tiveram presença de inseticidas projetados para matar insetos. “Isso mostra que os inseticidas estão distribuídos em toda a bacia”, disse o pesquisador.

Biodiversidade no outono

O contexto inicial em que Marino localizou sua apresentação foi o relatório do Planeta Vivo, uma organização internacional que produz um índice que mede a biodiversidade do planeta. Este índice foi feito em 10 mil espécies de diferentes tipos. “É visto que entre 1970 e 2010, houve um declínio de 52% das populações em todo o mundo. Mas na América Latina o valor é de 80%. Não é que há menos espécies, mas que os grupos populacionais são menores “, disse ele, e passando para a experiência diária, ele explicou que as pessoas podem observar a presença de quantidades menores de rãs ou peixes.

Como um conceito emergente do relatório, ele enfatizou que em menos de duas gerações humanas, metade da população de espécies que estiveram na Terra durante toda a sua evolução foi destruída. Enquanto isso, usando o conceito de Pegada Ecológica, que é medido em vários países, disse que “a Argentina tem essencialmente uma pegada baseada em sistemas agro-produtivos”.

Então ele disse outra dados gráficos: tomar biocapacidade, ou seja, o quanto você pode oferecer ao mundo sobre o que está sendo usado, e cruzando com informações sobre a evolução da população, pode ser visto que o 08 de agosto de 2016 a humanidade consumiu todos os recursos naturais desse ano. “De lá, consumimos recursos a crédito, estamos levando-os para as gerações futuras. A última vez que saímos foi em dezembro de 1970. Hoje estamos consumindo um ano e meio de planeta. Algo não está indo “, ele avisou.

Nesse sentido, ele ressaltou que os pesticidas “são uma pegada que estamos deixando para os sistemas ecológicos” e disse que eles têm um conceito dinâmico associado a eles. A partir do momento da aplicação, os processos ocorrerão na atmosfera, no solo e outros que ligam o solo à água. Eles são todos dados simultaneamente “.    

O caso de Pampa del Indio

Depois de encontrar o glifosato na água usada para consumo em Pampa del Indio em 2012, a medida provisória teve efeitos e as pulverizações pararam de ser feitas em superfícies perto de cidades. Este foi resumida Doctor química da UBA e CONICET científica, Alcira Trinelli, que durante meia década água estudado para beber e para irrigação na localidade Chaco e lugares na área onde a população indígena é a vulnerabilidade social predominante e de alta .  

“Sabíamos que naquela época havia aviões fumigando sem restrições sobre o afastamento das áreas povoadas. Encontramos níveis elevados, como 500 partes por bilhão na entrada da estação de tratamento de água “, disse Alcira Trinelli.

Trinelli explicou que as amostras foram coletadas na estação de tratamento de água, tanques de água da escola, águas de Napa, Pampa Chica, Lote 4, Campo Medina e Campo Nuevo; o rio Bermejo e a rede de água Presidencia Roca. Houve campanhas de amostragem em 2012, 2013 e 2014.

“Graças à medida de precaução que foi registrada logo após as amostras em que o glifosato foi encontrado, a partir de 2013, as amostras não foram detectadas novamente”, disse ele. A coisa mais preocupante, ele lembrou, era a água analisada na área de Campo Medida, que misturava vários contaminantes.

O estudo em Pampa del Indio surgiu um pedido expresso da comunidade Qom na região, a falta de acesso à água de qualidade, e foi financiado por uma voluntária, concede o secretário de Políticas Universitárias e da própria universidade.

Como detalha Trinelli, o objetivo foi analisar a qualidade da água para consumo e irrigação, e assim poder gerar uma ferramenta científica que serviria para sustentar as reivindicações de acesso à água. “Em todos os lugares encontramos algum tipo de tóxico, exceto no rio Bermejo e na presidencia Roca”, concluiu o especialista.

Fonte: Foro Ambiental / Diario Norte

Links para pesquisar documentos (em Inglês): 


Este texto foi publicado originalmente em Espanhol pelo Foro Ambiental [Aqui!]

Uma viagem aos povos fumigados da Argentina

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Ainda que eu sempre fale das graves consequências sociais e ambientais do abundante uso de agrotóxicos (muitos deles proibidos em outras partes do mundo) na agricultura brasileira, é importante lembrar que o caso da Argentina é ainda mais agudo em muitos aspectos. Lamentavelmente, os brasileiros não têm muito conhecimento do que se passa no país vizinho, onde os monocultivos de soja resultaram em processos de contaminação ambiental e humana que podem servir como uma espécie de  “worst case scenario” do que se passa por aqui.

Felizmente, há uma forte resistência entre os argentinos ao modelo de envenenamento que os cultivos impuseram em seu país. De quebra, também existe uma crescente documentação visual sobre os impactos que os agrotóxicos estão tendo sobre ecossistemas e seres humanos.

Graças a um colega professor que é argentino, recebi a sugestão para que assistisse ao documentário “Viaje a los pueblos fumigados” do diretor Fernando E. Solanas que foi lançado no início de 2018, e que permanece basicamente desconhecido no Brasil (ver extrato abaixo).

Entre os dados mais alarmantes que o documentário apresenta estão os casos de malformação, abortos instântaneos e câncer, cuja incidência explodiu nas provîncias argentinas onde o uso de agrotóxicos foi exponencializada pelo uso de soja transgênica fortamente.

Quem desejar assistir à versão integral deste documentário altamente revelador das chagas sociais e ambientais causada pelo uso intensivo de agrotóxicos na Argentina, basta clicar [Aqui!].