Com cartão, sem cartão: as fragmentações como estratégia de controle do território pela Samarco (Vale-BHP)

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O crime da Samarco (Vale-BHP Billiton), a fragmentação geográfica e as fronteiras socioespaciais.

Escamoteado pelo golpe de Estado que segue em curso no país, o crime da Samarco e suas controladoras Vale e BHP Billiton, na bacia do Rio Doce, ficou sedimentado no fundo da gaveta das preocupações nacionais e das pautas jornalísticas. E não é só pela instabilidade política: a questão ficou obscurecida por uma seletividade relativa à importância dada aos atingidos e por diversas estratégias empresariais de encobrimento dos rastros do crime.

A amplitude do desastre pode ser compreendida pela dimensão espacial e temporal com que se alastra a lama tóxica, seguida de seus incontáveis danos sociais, ambientais, econômicos e afetivos. A extensão espacial dos impactos percorre a bacia do Rio Doce, desde a barragem de Fundão, em Mariana-MG, até a foz na vila Regência Augusta, em Linhares-ES, e se estende no oceano. Em nota técnica[1], o ICMBio e Projeto Tamar demonstram que a alta concentração da pluma de rejeitos no oceano está localizada entre São Mateus, no norte do ES, e o litoral da Serra, município da Grande Vitória. Ainda mais alarmante, o estudo do Instituto de Biofísica da UFRJ[2] comprova que até mesmo o lençol freático em alguns pontos nas imediações da bacia está contaminado. Tão intangível quanto é a extensão temporal. Afinal, o rompimento da barragem em si é apenas o início de um processo longínquo de difusão e aprofundamento de uma diversidade de impactos.

Se entendemos, como propõe Ana Fani Carlos, que espaço é “condição, meio e produto da realização da sociedade humana em toda a sua multiplicidade”, igualmente vasto é o rol de pessoas atingidas e a multiplicidade de afetações, que não se limitam ao itinerário da lama, nem mesmo a esta geração.

O rompimento da barragem da Samarco (Vale-BHP) se desdobra em múltiplos distanciamentos nas relações entre as pessoas, os modos de vida e o espaço.

Uma leitura atenta às relações socioespaciais nos direciona para o entendimento de que o rompimento da barragem da Samarco (Vale-BHP) se desdobra em múltiplos distanciamentos nas relações entre as pessoas, os modos de vida e o espaço. Tais fronteiras são frequentemente acirradas pelas práticas e políticas institucionais centradas na fragmentação da resistência e na expansão do domínio dos interesses empresariais sobre o território.

A cisão imediata é a desterritorialização, ou seja, o rearranjo das relações de poder sobre o território, assim como o enfraquecimento dos enlaces locais e referências simbólicas. Em sua forma mais clara, compreende o deslocamento de moradores de comunidades soterradas pela lama, localidades que acumulam características de uma economia agrária, para casas alugadas na área central de Mariana-MG. Por detrás dessa saída, recostam-se os interesses empresariais na dissolução das relações socioespaciais, exacerbados na dispersa distribuição espacial [mapa 1] das casas alugadas em Mariana, o que fragiliza a sustentação dos laços que uniam os moradores em comunidades.

[1] Nota técnica nº 03/2017 Vitoria- ES/TAMAR/DIBIO/ICMBio – Identificação da área atingida pela pluma de rejeitos da Samarco e das principais comunidades pesqueiras existentes na mesma.
[2] http://www.greenpeace.org.br/hubfs/Campanhas/Agua_Para_Quem/documentos/greenpeace_estudo_agua_riodoce%20.pdf

[mapa 1] Localização das casas alugadas na cidade de Mariana. fonte: Fonte: Jornal “A Sirene – Para não esquecer”, Edição número zero, 2015.

A recostura dessas fragmentações impostas se dá muitas vezes através de festejos religiosos no território atingido, o que pressupõe não só reencontrar os antigos vizinhos, como também o processo de revisitar o território devastado. Essa tentativa de retomada de controle sobre o território traz à tona a importância do espaço para a manutenção da comunidade.

Na contramão, as investidas empresariais tentam cercear esses enlaces seguindo alguns passos: primeiro, impondo o controle da circulação através de cercamentos da área soterrada e de restrições de visitas ao território; segundo, consentindo o saque às casas invadidas pela lama e a desconstrução de referenciais; e, por fim, o xeque-mate, o apagamento dos rastros do crime e da memória local. Esse apagamento se dá de maneira gradual, com a demolição de casas e a elaboração de uma “maquiagem verde”, chegando ao absurdo de se pintar de verde gramas secas no centro de Barra Longa-MG, e de modo evidente com a inundação de parte do povoado do Bento Rodrigues, devido à conclusão das obras do Dique s4, sob o pretexto de conter o vazamento de rejeitos.

[fig 1] Queimação de judas, representado pela empresa samarco, na celebração da Semana Santa em Bento Rodrigues – foto: Daniela Félix, Jornal Sirene

De certo, a construção do Dique S4 mostra a dupla estratégia de controle territorial da empresa: a dominação da propriedade privada e a apropriação da sua dimensão subjetiva. De um lado, recorre-se ao domínio sobre a propriedade, de outro, há a tentativa de impedir a reaproximação afetiva com o território. Para isso, as empresas lançam mão de artifícios jurídicos do Estado, sob o ímpeto neoliberalizante escancarado no Decreto de Numeração Especial 500[3], assinado pelo governador de Minas Gerais, que concede às empresas o direito de uso, por 36 meses, das terras a serem alagadas. Na prática, significou uma proposta de indenização aos donos das terras pelo uso temporário que a empresa requisita, podendo o prazo ser estendido sem mais indenizações. Ressalta-se que a área do Dique S4 já era alvo do interesse das empresas desde 2009, confrontado na época pela resistência dos moradores e embasada pelo valor histórico do povoado e pelos altos impactos ambientais que geraria.

Uma vez tomado pela lama tóxica, o rio, elemento central das práticas cotidianas de diversas comunidades ao longo de toda a bacia do Rio Doce, muitas vezes se transforma em fronteira geográfica.

Outro sinal de desterritorialização é a impossibilidade de se adentrar o rio. Uma vez tomado pela lama tóxica, o rio, elemento central das práticas cotidianas de diversas comunidades ao longo de toda a bacia do Rio Doce, muitas vezes se transforma em fronteira geográfica. O ato de atravessar de uma margem a outra, como era realizado cotidianamente entre Cachoeira Escura, distrito de Belo Oriente-MG e São Lourenço, no município do Bugre-MG, passou a realizar-se por um deslocamento de mais de uma hora por terra. Do mesmo modo, a contaminação impede travessias cotidianas intrínsecas às atividades econômicas, práticas espirituais, lazer e a rotina de modo geral.

O aprofundamento dessas cisões, e, por conseguinte, do desastre-crime que segue em curso, se dá através das investidas das empresas – e da Fundação Renova[4] – de domínio sobre o território por meio de estratégias para criar uma divisão entre os atingidos, sejam elas a fim de cristalizar as divergências socioespaciais, como também de segmentar e criminalizar as resistências. É nessa lógica que se fortalecem as separações entre os direitos de reassentamento dos moradores de Paracatu de Baixo e Paracatu de Cima, em Mariana-MG, localidades que, antes do desastre-crime, compartilhavam os mesmos equipamentos públicos e espaços de lazer, palcos das relações de vizinhança.

 

[4] A Fundação Renova é a entidade designada para cuidar dos processos de reparação e compensação dos impactos do desastre. Testa de ferro da Samarco-Vale-Bhp Billiton, a Fundação é mantida pelas empresas culpadas pelo desastre conforme estabelecido no Termo de Transação e Ajustamento de Conduta, fruto do acordo extrajudicial entre União, Governo dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e Empresas assinado em março/2016.  Visto isso, mantenho a denominação “empresas” mesmo que em referência às ações da Fundação Renova.

As empresas conduzem as negociações até a exaustão, a fim de exacerbar os dissensos

Seguindo a mesma lógica, estrategicamente, as empresas conduzem as negociações até a exaustão, a fim de exacerbar os dissensos, como muito bem exemplificado no processo de definição do terreno do reassentamento em Gesteira, Barra Longa-MG. O impasse foi produzido pelas empresas ao inviabilizarem a compra do terreno adequado às necessidades de todos os moradores, ofertando apenas saídas incompatíveis. O desgaste do processo acabou gerando cisões internas entre aqueles que, angustiados por soluções definitivas, cogitam receber indenização em dinheiro, e aqueles que não abrem mão do reassentamento[5]. Por conveniência das empresas, não foi cogitada a possibilidade de recorrer ao poder estatal para desapropriação, que nem seria necessária, visto que há pouco tempo o proprietário do terreno anunciou a disponibilidade de venda.

A mais emblemática dessas práticas é a concessão do auxílio financeiro emergencial para os atingidos que perderam a renda diante do desastre. Os atingidos recebem um cartão cuja distribuição é controlada pelas empresas, pautada em critérios não esclarecidos e via de regra concedidos aos homens das famílias, desconsiderando as mulheres que tinham renda própria. Além da adoção de critérios inconsistentes e machistas, o cartão virou meio de fragmentação entre grupos de atingidos – ribeirinhos, pescadores e comerciantes – e intrafamiliares, que agora se dividem entre os Com Cartão e os Sem Cartão. Ademais, a ameaça de retirada do cartão é feita constantemente aos atingidos, que se aliam a movimentos de resistência. Numa perspectiva mais alarmante, o cartão se tornou estratégia de acesso das empresas a diversas localidades onde não exerciam influência.

Se antes as empresas exerciam poder sobre as cidades da bacia onde se localizam as bases operacionais do seu ciclo produtivo minerário (mina e porto-indústria), hoje seu domínio se expandiu para a bacia inteira, já que boa parte dos atingidos que perderam suas rendas se encontram dependentes do cartão ofertado pela empresa. Da mesma forma, o deslocamento dos atingidos das áreas invadidas pela lama para região central de Mariana implica submetê-los a uma área com estreitos vínculos com essas empresas, sujeitando-os a estigmatização. Tal prática possibilita a expansão do domínio da Samarco (Vale-BHP) sobre todo o território atingido e também o autocontrole da população, a partir da disseminação do discurso de culpabilização dos atingidos pelo desemprego, isto é, o êxito da biopolítica.

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[fig.2] Terras alagadas em Bento Rodrigues – Foto: Rodolfo Meirel

[5] É nesse contexto de vulnerabilidade social que integrantes do Grupo de Pesquisa e Estudos Socioambientais (GEPSA-UFOP), viram como necessidade esclarecer questões sobre a assessoria técnica reunidas em cartilha. Cartilha criada pelo GEPSA, em parceria com o Coletivo Margarida Alves e o Movimento dos Atingidos por Barragens. Disponível em: https://issuu.com/gepsaufop/docs/final_cartilha_assessoria_para_o_is

 

[fig 3] Procissão segue pelas ruínas de Bento Rodrigues para celebrar o dia de Nossa Senhora das Mercês – Fotos: Alexandre Guzanshe

Em resposta às práticas empresariais de segmentação das comunidades, os atingidos têm se mobilizado para estruturar as negociações coletivas, por meio de comissões representativas escolhidas pelas comunidades atingidas e pela reivindicação de assessoria técnica. Desde o ano passado, membros das comissões acompanham as negociações em Mariana (MG) com apoio da Cáritas Brasileira, assessoria escolhida. Nesse modelo, evita-se o esvaziamento das negociações e impede-se a canalização das empresas para as conversas individuais, nas quais o domínio corporativo tenderia a pesar sobre os encaminhamentos. Seguindo os êxitos precedentes, em maio, Barra Longa-MG conquistou a contratação da assessoria técnica e, desde fevereiro deste ano, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) vem mobilizando a formação de comissões de atingidos estaduais e municipais no Espírito Santo, numa ação conjunta[6] com Ministério Público Estadual e as Defensorias Públicas da União e do Espírito Santo.

Parece cabível fazer dois apontamentos preliminares: primeiro que tais práticas desterritorializantes, no entendimento de Harvey[7], pressupõem a compressão de tempo-espaço, ou seja, a quebra de fronteiras locacionais para a contínua acumulação do capital. Paradoxalmente, a desterritorialização também se alimenta da criação de novas cisões que dissolvem as relações socioespaciais e de controle preexistentes. Por fim, um caminho possível para recostura desse território dilacerado é o entendimento de território atingido pelas práticas do Estado-Capital, sobretudo das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton. Contudo, essa tarefa não é tão simples, tendo em vista que a extensão espaço-temporal das afetações ainda é intangível, dificultando uma delimitação do que é o território atingido.

[6] A formação de comissões de atingidos está atrelada também ao andamento das negociações do Termo Aditivo ao Termo de Ajustamento Preliminar, que visa o diagnóstico socioeconômico para embasar a negociação do Termo Ajustamento de Conduta Final (TACF), a ser assinado em julho.
[7] HARVEY, D. 1992. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola.

Paula Guimarães

mestranda em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Indisciplinar, com parceria do Movimento dos atingidos por Barragens, e integrante do grupo Mobiliza Rio Doce, vinculado ao Programa Participa UFMG Rio Doce-Mariana.
paulaguimaraes1701@gmail.com

FONTE: http://indebate.indisciplinar.com/2017/06/19/com-cartao-sem-cartao-as-fragmentacoes-como-estrategia-de-controle-do-territorio-pela-samarco-vale-bhp/

Relembrando as lições não aprendidas do TsuLama: a hora exata em que o reservatório rompeu

Como estou preprando uma apresentação para um seminário que ocorrerá no campus de Guarus do Instituto Federal Fluminense, estava procurando mais informações sobre o objeto do mesmo, o TsuLama da Samarco (Vale + BHP Billiton) e acabei me deparando com as impressionantes imagens do momento em que o reservatório de Fundão rompeu que são mostradas no vídeo abaixo.

E é lamentável observar que praticamente dois anos depois da erupção do TsuLama, as mineradoras envolvidas continuam objetivamente impunes em relação ao grosso dos danos sociais, econômicos e ambientais que a sua avareza corporativa causou.

Mas como desgraça pouca é bobagem, o parlamento brasileiro está preparando regressões formidáveis no pouco que existe de proteção ambiental no Brasil. Deve ser algum tipo de disposição macabra de ver repetidas as cenas de desespero e pasmo que são mostradas neste vídeo. Só poder ser!

TsuLama da Samarco: defensores dos atingidos lançam nota que denuncia ação das mineradoras e solicitam adesão

A ruptura da barragem de Fundão da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) que  ocorreu em 5 de novembro de 2015 destruiu comunidades em Mariana/MG e ao longo de toda a bacia hidrográfica do Rio doce. A lama de rejeitos de mineração chegou ao mar e estende-se hoje até o sul da Bahia. Até hoje a pesca está proibida em toda a região.

Por outro lado,  as empresas Samarco, Vale e BHP não aceitam de forma alguma a participação ampla dos afetados e não reconhecem a auto-organização destes como legítima.   Este é  um enfrentamento muito difícil, pois os atingidos estão lidando com as maiores mineradoras do mundo. 

Em função desta disparidade de forças e a necessidade de apoiar os atingidos pelo TsuLama da Samarco é que um grupo de pesquisadores e lideranças de movimentos sociais produziram uma nota em português, inglês e alemão e para a qual pedem que adesões até amanhã, segunda, 04 de abril, às 14 horas.   As assinaturas devem ser enviadas para o email: (pesquisariodoce@gmail.com)

Abaixo posto a versão em português da nota e convido a todos que possam que enviem suas assinaturas. Precisamos apoiar a luta dos atingidos do TsuLama a ter voz e, principalmente, ressarcimento financeiro por suas perdas.

 

BHP BILLITON, VALE E SAMARCO agem para impedir a reparação justa dos danos causados pelo desastre criminoso do Rio Doce, Brasil 

 O controle das rés sobre o processo de reparações coloca o Estado brasileiro em xeque

 No dia 05/11/2015, a barragem de Fundão de propriedade da mineradora Samarco (Vale e BHP Billiton) se rompeu despejando sobre o Rio Doce cerca de 50 milhões de metros cúbicos de resíduos minerários, provocando um dos maiores desastres ambientais da mineração em todo o mundo. Passados quase 17 meses, a tragédia é agravada pela postura violadora das empresas que boicotam a construção de instrumentos participativos para a reparação dos danos causados pelo desastre.

Em 18/01/2017, um acordo prévio (Termo de Ajustamento Preliminar) entre Ministério Público e as empresas responsáveis foi parcialmente homologado em juízo, selando as tratativas para a realização de um diagnóstico socioambiental sobre os efeitos do desastre. Contudo, não houve acordo sobre as organizações que fariam esse diagnóstico, assim como a assistência aos atingidos. Entidades e movimentos sociais contestaram a nomeação da INTEGRATIO Mediação Social e Sustentabilidade para tais importantes ações junto às comunidades. A empresa presta consultorias regulares às companhias causadoras do desastre, sendo economicamente vinculada às mesmas. Visando à construção de diagnósticos participativos, pautados pela autonomia e independência do corpo técnico com relação às empresas, o Ministério Público conduziu um amplo processo de consultas a experts independentes – pesquisadores de universidades públicas internacionalmente reconhecidos e com ampla trajetória nas áreas socioambiental e de direitos humanos, representantes de movimentos e organizações sociais , formando um Grupo de Trabalho que colaborou na elaboração de um termo de referência para a realização de audiências públicas e avaliação dos danos socioeconômicos.

As empresas Samarco, Vale e BHP contestam tal iniciativa e a validade do Grupo de Trabalho, assim como os esforços de instauração de um processo transparente e verdadeiramente participativo sobre as decisões relativas à avaliação dos danos. Por meio de ofício emitido em 31/03/2017, as empresas destacam que “a participação de entidades do terceiro setor e do GT […] deve ser meramente orientativa”, procurando, assim, desempoderar e deslegitimar esse instrumento criado pelo MP, portanto, o próprio órgão. Ademais, as empresas rés compreendem a exigência de autonomia, confiança e credibilidade dos peritos junto às vítimas como um “claro preconceito econômico”, porque impede a contratação de consultorias a elas vinculadas.

Samarco, Vale e BHP atuam, desta forma, de modo a cercear não só a participação dos atingidos na construção das decisões que têm por objeto suas próprias vidas, mas defendem uma condução supostamente “técnica” de todo o processo sob seu domínio, contestando o controle social realizado pelas próprias vítimas e pela sociedade civil. Trata-se da mais absurda inversão de papéis em que as rés ditam as regras, buscando a redução máxima dos custos das reparações e a forma pela qual desejam ser tratadas pelo Estado brasileiro! Repudiamos veementemente essa postura cerceadora das empresas e  denunciamos sua tentativa de monopolizar as condições de definição das reparações e as condições de avaliação dos danos e de definição. Faz-se evidente a indisposição das rés quanto ao reconhecimento dos direitos fundamentais das pessoas atingidas, dentre eles, o direito de informação e de participação nos processos decisórios, colocando em xeque

a reparação integral, plena e justa às vítimas. É inadmissível que o Estado brasileiro se coloque como refém das empresas rés, pactuando, assim, com a continuidade das graves violações de direitos humanos e da Constituição Brasileira em Mariana e toda a extensão da Bacia do Rio Doce e da Constituição Brasileira.

Pela construção de processos reparadores às vítimas sem qualquer interferência das empresas rés do desastre criminoso na Bacia do Rio Doce, Brasil!

 02 de abril de 2017

Assinam esta nota

Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais – GEPSA/UFOP

Grupo de Pesquisa em Temáticas Ambientais – GESTA/UFMG

Grupo de Pesquisa Política Economia Mineração Ambiente e Sociedade – PoEMAS

HOMA – Centro de Direitos Humanos e Empresas

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Organon – Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Mobilizações Sociais – UFES

MP/MG dá parecer favorável para Prefeitura em processo de disputa com a Samarco Mineradora

Passados quase 16 meses desde a ocorrência do TsuLama causado pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana (MG),  as notícias sobre as contínuas disputas que estão ocorrendo entre as mineradoras responsáveis pelo maior incidente da mineração mundial e as populações que foram afetadas pelos efeitos destrutivos do episódio praticamente desapareceram dos veículos da mídia corporativa.

Entretanto, isso não significa que não haja resistência e enfrentamento, como é bem expresso pela matéria abaixo publicado pela Prefeitura Municipal de Santa Bárbara que fica localizada em torno de 64 km ao norte de Mariana.  

O motivo da disputa entre a Samarco (Vale + BHP Billiton) e a Prefeitura de Santa Bárbara envolve o acesso e uso de um corpo hídrico dentro dos limites municipais. Corretamente a Prefeitura exige a realização de um estudo técnico que avalie os impactos decorrentes desta utilização, enquanto que a Mineradora Samarco postula que se utilize uma autorização concedida antes da ocorrência do TsuLama.

Felizmente, o Ministério Público de Minas Gerais acaba de emitir um parecer contrário ao que a Samarco (Vale + BHP Billiton) está postulando e em favor do pleito da Prefeitura de Santa Bárbara, como mostra a nota abaixo que foi publicado no seu site oficial . 

Ministério Público dá parecer favorável à Prefeitura de Santa Bárbara

Por Comunicação

Ponto de captação - Samarco

O documento ressalta que uma declaração de conformidade à Samarco não é um documento a ser concedido sem qualquer critério. O Ministério alega falta de interesse processual da Mineradora

O Ministério Público de Minas Gerais, por meio da Promotora de justiça da Comarca e da Promotoria Especializada de Meio-ambiente do Estado, manifestaram parecer favorável à tese do Município, em não conceder carta de conformidade, desrespeitando os procedimentos legais locais. O documento foi entregue hoje (27) à juíza de Santa Bárbara, Ana Paula Lobo Pereira de Freitas.

No documento, o Ministério Público destaca que é imprescindível uma análise com base na lei, visto que, a declaração de conformidade não é um documento meramente formal, passível de ser concedido sem critério pelo município, uma vez que o mesmo é impactado ambientalmente com a captação, realizada em um ponto do Rio Santa Bárbara, no distrito de Brumal.

Em 2013, a Prefeitura discutiu com a Samarco apenas a concessão de alvará, uma vez que a carta de conformidade ainda era vigente. Não houve, na ocasião, emissão de carta de conformidade. Se isto já tivesse sido feito, a Samarco não necessitaria de outro documento ‘igual’ nesse momento. Documento, este, anulado pelo Governo do Estado em 2015, após a maior tragédia ambiental do país na cidade de Mariana.

Em 2009, na gestão anterior à do prefeito Leris Felisberto Braga, a carta de conformidade foi emitida sem estudo prévio, o que resultou em Ação de Improbidade Administrativa e Ação Penal propostas pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais (Processos n.º 0572.14.001376-2 e 0572.14.0001375-4 da Comarca de Santa Bárbara).

O Ministério Público entendeu que, ao contrário do que foi alegado pela mineradora, o Município acertou ao se opor à ideia de que a conformidade do empreendimento levaria em conta somente o termo de compromisso firmado em 2013.

“As circunstâncias passadas eram completamente diversas do presente. Além disso, a análise municipal, fundamentada nas leis e regulamentos vigentes, não tem a pretensão de substituir o licenciamento ambiental estadual, como pressupõe a Samarco Mineração S.A”, destaca um trecho do manifesto do Ministério Público.

Neste contexto, levando em consideração que o retorno das atividades da empresa poderá ocorrer tão logo sejam atendidas as exigências legais, o Ministério Público indica, diante da falta de interesse processual da Mineradora, o arquivamento do processo.

Para acessar o Manifesto do Ministério Público, clique neste link: http://migre.me/wkcS3.

FONTE: http://www.santabarbara.mg.gov.br/detalhe-da-materia/info/ministerio-publico-da-parecer-favoravel-a-prefeitura-de-santa-barbara/48215

No dia internacional da Água, lembremos do TsuLama da Samarco

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Hoje o mundo celebra, ou pelo menos deveria celebrar, o chamado “Internacional da Água” que foi criado em 1992 para elevar o grau de consciência sobre as diferentes pressões e inequalidades que marcam o acesso a bem natural.

Lamentavelmente o que se vê neste atual momento histórico é o aumento das desigualdades no acesso aos recursos hídricos e a manutenção dos padrões de utilização que favorecem as grandes corporações, especialmente as que atuam no ramo das commodities agrícolas e minerais. Não é à toa que a grande maioria dos conflitos socioambientais que ocorrem no mundo, e o Brasil não é exceção, colocam de um lado as corporações e, de outro, povos tradicionais e os pobres em geral.

Aliás, no Brasil temos a persistência da impunidade para as mineradoras Vale e BHP Billiton que em Novembro de 2015 causaram, por meio da sua joint venture, a Mineradora Samarco, o maior desastre mundial da mineração em Mariana (MG), o qual causou danos catastróficos na bacia hidrográfica do Rio Doce. 

Abaixo um vídeo que marca bem o incidente de Mariana e as consequências persistentes sobre o Rio Doce e as populações que dependem de seus serviços ambientais.

Oscilações no preço do ferro e suas implicações para as mineradoras e países exportadores

A Bloomberg News publicou na última segunda-feira (21/11) um artigo bastante elucidativo sobre as oscilações nos preços do minério de ferro que indicam que a situação dessa commodity está mais para a um de um inverno prolongado do que para a chegada de uma primavera precoce (Aqui!).

Essa análise se baseia numa combinação de expectativas não preenchidas sobre o aquecimento de consumo pela China, a chegada de Donald Trump à presidência dos EUA e ao excesso de produção das principais mineradoras. Tudo isso combinado teria gerado num primeiro momento a sensação de que os preços iriam para cima, apenas para repetir uma padrão descendente que já havia ocorrido nos meses de Abril e Maio deste ano (ver figura abaixo).

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A matéria traz uma análise fornecida pela BHP Billiton (a maior mineradora do mundo e famosa no Brasil por ser co-proprietária da famigerada Mineradora Samarco do TsuLama de Mariana) a tendência nos preços do minério de ferro é de baixo, principalmente por causa do aumento na oferta do produto.

Esse cenário potencialmente depressivo nos preços do minério de ferro sugerem que o Brasil estará entre os principais afetados, visto o papel que essa commodity cumpre na nossa balança comercial.

Já no plano regional, a Prumo Logística Global que controla o Porto do Açu terá que obrigatoriamente apostar em outras âncoras para o empreendimento. É que a dependência em relação ao minério de ferro seria provavelmente uma aposta perdedora.

1 ano do TsuLama da Samarco: crime sem punição

Há exatamente um ano o Brasil testemunhou o maior desastre da mineração mundial no distrito de Bento Rodrigues, município de Mariana (MG). A magnitude do incidente causado pela Mineradora Samarco, uma joint venture das mega mineradoras Vale e BHP Billit0n ficou clara logo nas imagens iniciais da devastação que o TsuLama de rejeitos de mineração causou na localidade que fica logo abaixo do reservatório de Fundão.

Além das perdas humanas (os números oficiais são 19), o desastre causado pelo TsuLama da Samarco afogou nascentes e aterrou boa parte da calha fluvial do Rio Doce, causando assim uma eliminação catastrófica da vida existente no seu ecossistema, contribuindo ainda para a contaminação das águas que abasteciam os municípios existentes ao longo do seu trajeto. Pior ainda foi a eliminação da pesca como alternativa de sobrevivência para milhares de família, problema que se estendeu até o distrito de Regência na foz do Rio Doce. 

Não há como estimar objetivamente as perdas econômicas que o TsuLama causou, pois as perdas são tão abrangentes que é praticamente impossível fazer um cálculo apurado.  Mas não é incorreto dizer que tudo o que se refere ao crime ambiental causado pela Mineradora Samarco atinge cifras bilionárias dada a magnitude do que foi destruído ou impactado severamente.

Felizmente para a Samarco e para suas proprietárias, a empresa possui aliados poderosos em todas as esferas de governo. Este fato é que tem possibilitado que as três empresas envolvidas no incidente de Bento Rodrigues permanecem completamente impunes pelo que aconteceu, em que pese o conhecimento que possuíam em torno da situação estruturalmente frágil do reservatório de Fundão.  

Mas em que pese o poder das mineradoras e dos aliados poderosos que possuem, este primeiro aniversário sirva para que cobremos que se faça justiça aos mortos de Bento Rodrigues e ao Rio Doce. É preciso que os responsáveis pelo que aconteceu em Mariana não seja dada a possibilidade  do esquecimento do crime que consumaram apenas para manter as suas taxas de lucro. Não esqueceremos!

Um ano: atingidos iniciam marcha denunciando impunidade no caso Samarco

Mobilização lembra tragédia ocasionada pela ruptura de barragem em Mariana visitando comunidades ao longo do Rio Doce

Larissa Costa, Brasil de Fato | Regência (ES)
Caminhada vai até praia em Regência (ES), local onde a lama alcançou o mar - Créditos: Comunicação MAB
Caminhada vai até praia em Regência (ES), local onde a lama alcançou o mar / Comunicação MAB

Marcando um ano da tragédia ocasionada pela ruptura da barragem de Fundão, pertencente a à mineradora Samarco, a marcha “Um Ano de Lama e Luta” começou nesta segunda-feira (31), em Regência, distrito de Linhares (ES). A mobilização, organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), denuncia a impunidade em relação ao caso. A caminhada, que conta com a participação de 400 pessoas, deve chegar a Mariana (MG), ponto inicial da tragédia, no dia 2 de novembro.

O trajeto a ser percorrido segue o curso contrário da lama, que, no dia 5 de novembro de 2015, jorrou após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, e atingiu todo o curso do Rio Doce. Além do dano ambiental, diversas comunidades foram afetadas.

“O objetivo da marcha é passar em nove pontos da Bacia do Rio Doce e ouvir da população como está a situação depois desse um ano. Simbolicamente vamos devolver os rejeitos à empresa criminosa”, conta Joceli Andriolli, do MAB de Minas Gerais.

Mar de lama

Pequeno distrito de Linhares, Regência foi a última comunidade em que a lama chegou, alcançando o mar por meio da foz do Rio Doce. Como forma de simbolizar a resistência contra a mineradora, os participantes da marcha realizaram uma caminhada até chegar à praia.

Rosana Firmino é uma das moradoras que saiu de casa para ver a marcha passar. Aos 27 anos, nasceu na comunidade e hoje, junto com seu marido, cria suas duas filhas, uma de 10 anos e a outra com 7 meses. Com tristeza no olhar, lamenta a destruição que chegou com a lama. “Eu era marisqueira, mas agora com a lama, eu não tenho mais como trabalhar. Acabou com nosso trabalho e com nosso lazer, porque não podemos nem mais tomar banho de mar”, conta.

Segundo ela, várias pessoas ficaram sem trabalho. “Muita gente está sem serviço, indo pra Linhares trabalhar, colocando currículo em loja de roupa, supermercado. Todo mundo está se virando como pode, porque Regência acabou”, afirma.

Água barrenta

A contaminação da água é um dos problemas mais comentados pela população de Regência. A sacoleira Maria Aparecida Xavier, moradora da comunidade, conta que usa quatro garrafões de água mineral por semana, o que é um custo a mais que apareceu com a lama.

“A água mudou de cor, ficou mais escura. Quando você coloca ela em um litro dar pra ver a lama assentando no fundo. A água da torneira só serve para lavar vasilha”, comenta Maria. Ao mesmo tempo que ela vê seu custo de vida aumentar, sente a impossibilidade de trabalhar devido à diminuição do turismo.

Rosana também passou a usar água mineral, inclusive para dar banho na sua filha mais nova. Ela conta que a empresa providenciou um caminhão pipa com água para abastecer o distrito. Caminhão, inclusive, que seu marido passou a dirigir quando ficou impossibilitado de exercer sua profissão de pescador.

“A Samarco está ameaçando acabar com esse caminhão, argumentando que já existem análises que afirmam que a água do Rio Doce está boa, que o peixe já pode comer. Mas até agora ninguém viu essa análise e não teve nenhuma reunião aqui para falar disso”, afirma a marisqueira.

Resposta

A reportagem entrou em contato com a Samarco, questionando a companhia em relação à oferta de água ao distrito de Regência. Até o fechamento desta edição, não obteve retorno.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2016/10/31/um-ano-atingidos-iniciam-marcha-denunciando-impunidade-no-caso-samarco/

Marketing acadêmico: às versperas do primeiro aniversário, grupo de pesquisa da UFJF lança livro sobre o TsuLama da Samarco

 

Dia 05 de novembro completa um ano do rompimento da barragem de rejeito do Fundão, em Mariana Minas Gerais.

O Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS) da Universidade Federal de Juiz de Fora produziu o relatório de impactos “ANTES FOSSE MAIS LEVE A CARGA: reflexões sobre o desastre da SAMARCO/VALE/BHP BILLITON“, e que sai agora publicado pela Coleção a Questão Mineral no Brasil. VOL 2. Editorial iGuana, Marabá 2016.

Já há dois lançamentos agendados, dia 04 de Novembro em Mariana, nas atividades que marcam um ano -de lama e de crime- e no dia 05 na Escola Nacional Florestan Fernandes  do MST em Guararema (SP).

Quem desejar acessar o livro no formato pdf basta clicar Aqui!

Depois de quase um ano, MPF denuncia 21 por causa do TsuLama da Samarco

Às vésperas do aniversário de um ano da ocorrência do TsuLama em Mariana, o Ministério Público Federal denunciou 21 pessoas ligadas às mineradoras Samarco, Vale e BHP Billliton pelo rompimento da barragem de Fundão que causou a maior catástrofe ligada à mineração nos últimos 300 anos na escala mundial.

Entre os denunciados está o ex-presidente da Samarco, o Sr. Ricardo Vescovi e um dos seus auxiliares diretos, o Sr. Kleber Terra.  Além disso, também foram citados membros do conselho de administração da Samarco.

Antes que alguém comece a festejar esta denúncia há que se lembrar que este é apenas o primeiro passo de um longo processo juduicial que pode resultar ou não na condenação dos denunciados.

Enquanto isso, as graves perdas humanas e eocnômicas que foram causadas pelo TsuLama continuam sendo basicamente empurradas com a barriga e os responsáveis permanecem sem serem seriamente enfrentadas, o que acarreta no prolongamento dos danos e de suas múltiplas consequências.

Procuradoria denuncia 21 pessoas por homicídio em tragédia de Mariana

ADRIANO BOAVENTURA,  COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BELO HORIZONTE e  JOSÉ MARQUES,  DE SÃO PAULO

Às vésperas do primeiro ano da tragédia de Mariana (MG), o Ministério Público Federal denunciou nesta quinta-feira (20) 21 pessoas da Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar) por causa do rompimento da barragem de Fundão, que deixou 19 mortos.

Eles são acusados pelos crimes de inundação, desabamento e lesões corporais graves e crimes ambientais. A Procuradoria também denunciou um engenheiro da consultoria VogBR e a empresa por apresentar laudo falso. A Vale, BHP Billiton e Samarco também foram condenadas por crime ambiental –contra a fauna, flora, poluição e contra o ordenamento urbano.

Entre os denunciados por homicídio estão o ex-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, e o ex-número dois da empresa, Kleber Terra, além de integrantes do conselho de administração da empresa, entre eles um britânico, um francês, um sul-africano, um australiano e dois americanos.

Três gerentes da Samarco –Germano Lopes, Wagner Milagres e Daviely Rodrigues– também estão entre os acusados sob suspeita de homicídio com dolo eventual.

A denúncia abrange os trabalhos da Polícia Federal e da Polícia Civil de Minas Gerais, iniciados após a ruptura do reservatório, em 5 de novembro do ano passado. Em fevereiro, a Polícia Civil havia indiciado seis executivos da Samarco, inclusive o ex-presidente Ricardo Vescovi, e um engenheiro da consultoria VogBR por homicídio com dolo eventual.

Já a Polícia Federal concluiu seu inquérito em junho e indiciou as mesmas sete pessoas e o responsável da Vale pelo Complexo de Alegria, em Mariana, por crimes ambientais. Além deles, a Samarco, a Vale e a VogBR foram indiciadas como pessoas jurídicas.

Todos os indiciados, tanto pessoas como empresas, negam ter cometido qualquer irregularidade. Nas últimas semanas, a Polícia Civil também começou a investigar, a pedido do Ministério Público Federal, a possibilidade de haver crime de lesão corporal grave.

TRAGÉDIA NO RIO DOCE

O rompimento da barragem da Samarco, mineradora cujas donas são a Vale e a BHP Billiton, é considerada a maior tragédia ambiental do Brasil. Cerca de 35 bilhões de litros de rejeitos de minério vazaram do reservatório e mataram 19 pessoas, destruíram povoados e poluíram 650 km entre Mariana e o litoral do Espírito Santo.

A barragem de Fundão já apresentava problemas meses após o início da sua operação, em 2008. O rompimento aconteceu em uma obra aberta pela Samarco no topo da estrutura para reparar problemas de drenagem.

Em agosto, após uma apuração interna, os presidentes da Samarco, Vale e BHP admitiram que a obra provocou a tragédia, pediram desculpas e disseram sentir pelos familiares e amigos das vítimas e pelos danos causados ao meio ambiente.

Decisões mal tomadas pela Samarco

1. OBRA PROBLEMÁTICA

Fundão apresentou falhas desde o início da operação, em 2008. Em seu quarto mês, uma erosão interna forçou seu esvaziamento emergencial. Nos anos seguintes, houve infiltrações, drenos entupidos e obras mal-executadas.

Para a PF, a Samarco usou material mais barato na drenagem para economizar. Apesar disso, o reservatório não parava de crescer (13 metros/ano) para suportar a alta de produção da empresa. A Samarco diz que repudia “especulação sobre conhecimento prévio” de risco de ruptura e que sempre teve altos padrões de segurança.

2. RECUO DO EIXO

O pivô da tragédia, para a investigação, é uma obra iniciada em 2012 que deixou o topo da barragem em forma de “S”. Não recomendada por engenheiros, a alteração foi feita sem projeto, mas registrada em documentos enviados ao governo de Minas. O recuo foi feito para que houvesse uma drenagem na lateral em Fundão. A Samarco diz que ele era temporário e fazia parte da operação da barragem —por isso não havia necessidade de projeto.

3. TRINCAS E MANUTENÇÃO

Em vistoria em setembro de 2014, o projetista de Fundão disse ter visto trincas no “S” do recuo. Em depoimento, afirmou que a situação era “severa” e precisava de “providência maior do que a que a Samarco estava tomando”.

Nos dez dias que antecederam a ruptura, a mineradora deixou de medir os aparelhos que controlavam a pressão da água no solo. Nos dois dias anteriores, os equipamentos foram desligados para manutenção. A Samarco diz que considerou todas as recomendações e tomou providências.

4. DANOS

A lama afetou a pesca no rio Doce. Para evitar mais poluição, a Samarco construiu diques, mas eles não vão impedir que os rejeitos cheguem aos rios em época de chuva, de acordo com o Ibama.

A mineradora diz que, para evitar vazamentos, precisa construir novo dique em distrito de Mariana —mas é alvo de resistência de famílias e Promotoria, que temem os impactos. Em relação às vítimas, familiares dos 19 mortos já receberam indenização. Um corpo ainda não foi achado.

5. ACORDO

Um acordo da Samarco com a União e os governos de MG e ES foi assinado em março, com previsão de gasto de R$ 4,4 bilhões até 2018 para a recuperação do rio Doce. A homologação ocorreu em maio, mas foi suspensa pelo Superior Tribunal de Justiça, devido à falta de debate com Ministério Público e as populações atingidas. Empresas e governos recorreram, mas ele foi anulado nesta semana e voltará a ser discutido. A Procuradoria pede na Justiça reparação de R$ 155 bilhões.

6. RESPONSÁVEIS

Seis funcionários da Samarco, um da Vale e um da VogBR (que prestava serviços à mineradora), além das três empresas, foram indiciados pela PF sob suspeita de crime ambiental. Também foram denunciados pelo Ministério Público Estadual de Minas Gerais, sob acusação de fraude no processo de licenciamento, oito funcionários da Samarco e dois da VogBR. Todos negam irregularidades. Diretores e gerentes da Samarco, incluindo o ex-presidente Ricardo Vescovi, deixaram o cargo para se defender.

7. VALE

Em 2010, a Samarco autorizou a Vale a jogar lama em Fundão. Nem o governo de Minas nem o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), da União, tinham sido informados disso. Um mês após a tragédia, a Vale modificou dados oficiais de produção. Para a Polícia Federal, foi uma tentativa de mostrar que jogava menos rejeitos no local, para diminuir sua responsabilidade. A mineradora diz ter corrigido 1% dos dados dos relatórios, como é admitido pela legislação, com acompanhamento das autoridades e que agiu com transparência.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/10/1824611-procuradoria-denuncia-21-pessoas-por-homicidio-em-tragedia-de-mariana.shtml