9ª edição da Semana do Mar tem início em Ubatuba

O evento reúne diversas instituições que trabalham com a temática do oceano. A programação conta com palestras, exposições, contação de história, atividades culturais, show, limpeza de praia e muito mais

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Começou no último domingo a 9ª edição da Semana do Mar, um evento organizado pelo Aquário de Ubatuba, Instituto Argonauta e Fundação Projeto Tamar, e que conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Ubatuba, e ainda com a participação de diversos parceiros que trabalham com a temática oceânica. A 9ª edição do evento se estende até sábado (10), e integra a programação do 12º Festival da Mata Atlântica, que teve início no dia 22 de maio, e terá encerramento também no próximo 10 de junho.

A 9ª edição da Semana do Mar celebra além do Dia Internacional da Biodiversidade (22/5); os Dias Nacionais da Mata Atlântica (27/5) e da Educação Ambiental (03/6); e os Dias Mundiais do Meio Ambiente (5/6) e dos Oceanos (8/6).

Neste ano, os eventos marcam a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma iniciativa global liderada pelas Nações Unidas que ocorrerá até 2030, com o objetivo de promover a pesquisa e ações científicas para apoiar o desenvolvimento sustentável dos oceanos, abrangendo uma ampla gama de áreas de pesquisa, incluindo o estudo dos ecossistemas marinhos, a análise dos impactos das mudanças climáticas nos oceanos, a conservação da biodiversidade marinha, a gestão sustentável dos recursos pesqueiros e a redução da poluição marinha. E marcam também a Década da Restauração de Ecossistemas 2021-2030, que tem como objetivo enfrentar a degradação ambiental e promover a restauração de ecossistemas em todo o mundo, promovendo a recuperação e a conservação de ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos degradados ou destruídos, com o intuito de melhorar a resiliência, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos.

O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, é uma oportunidade importante para destacar a importância dos oceanos e conscientizar as pessoas sobre a necessidade de protegê-los. Os oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra e desempenham um papel vital em muitos aspectos, como a regulação climática, a biodiversidade, a economia, a segurança alimentar e a estabilidade dos ecossistemas globais. E, nesse contexto, a 9ª Semana do Mar busca sensibilizar, promover a reflexão e conectar toda a sociedade sobre os impactos e as condições críticas que encontram nossos mares.

A programação está repleta de atividades gratuitas, entre elas palestras, exposições, contação de história, atividades culturais, show, limpeza de praia e outras diversas atividades que envolvem temas de conscientização ambiental, pesquisa, biologia marinha e educação.

No Dia Mundial do Meio Ambiente (5), a programação teve início às 9h, com encerramento às 19h. A primeira atividade foi a Roda de Conversa “Bioma Mata Atlântica”, promovida pelo Grupo Tamoio de Ubatuba, que aconteceu na Escola Municipal Carpinetti. Às 10h e 14h aconteceu a palestra Ciência Oceânica nas Escolas: “Tubarões e Raias: mergulhando no conhecimento”, promovida pelo Aquário de Ubatuba, mas que aconteceu no Museu da Vida Marinha. Nos mesmos horários, ocorreu também no Museu a Contação de História: “Além de nós…Quem mora comigo?”, contada por Rosana Gaeta. Na Escola Municipal Professora Olga Ribas de Andrade Gil, ocorreu às 14h o Jogo “Caminho das Águas”, promovido pela APAMLN e pelo Programa PSA – Mar Sem Lixo. A programação do dia encerrou-se com a Mesa Redonda “Cultura Oceânica”, às 19h, com Andrée de Ridder Vieira (Instituto Supereco), Ronaldo Christofolleti (Maré de Ciência UNIFESP), e Helbert Ramon (Cernes e Associação dos Amigos e Remadores da Canoa Caiçara (AARCA), no Aquário de Ubatuba.

Terça-feira, dia 6, a programação teve início às 10h e se estende até às 19h. Iniciou com a Vivência dos Saberes Ancestrais, promovida pelo Sr. Higino e pelo Projeto Monitoramento Mirim Costeiro Ubatuba, no Aconchego da Barra, na Praia Barra Seca. Nos horários 10h e 14h, a palestra Ciência Oceânica nas Escolas: “O Projeto Tamar e a conservação das tartarugas marinhas” ministrada pela Fundação Projeto Tamar, acontece no Museu da Vida Marinha. Para fechar a manhã, às 11h, a atividade Cultura Oceânica: “SOS Mata Atlântica”, promovida por Lidi Keche (Tamoio de Ubatuba) e Patrícia Barros (Projeto Ribeira Viva), na Rádio Beira Mar FM 101,5MHz. A programação do dia se encerra com o bate-papo online “Os Caminhos do Lixo no Mar”, às 19h, que será conduzido por Hugo Gallo (Aquário de Ubatuba) e Alexander Turra (IO/USP), no canal oficial do YouTube do Instituto Argonauta.

Dia 7, quarta-feira, a programação começa às 10h, com última atividade prevista para às 19h. Para começar o dia, atividade Ciência Oceânica nas Escolas “Um Oceano de Vida” promovida pelo Instituto Argonauta, no Museu da Vida Marinha, programada também para acontecer no período da tarde, às 14h. Também nos mesmos horários, acontece simultaneamente a atividade “A vida de Georgina”, com Marlene Giraud do Grupo Manguezal Terra do Guaiamum, mas em local diferente, no Aquário de Ubatuba. Às 9h e às 16h, a ação Dia Mundial dos Oceanos acontece no Píer Saco da Ribeira, e será conduzida pelo Projeto Ribeira Viva, Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte (APAMLN), Projeto PSA Mar Sem Lixo, Instituto Argonauta, Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Tamoio de Ubatuba, Projeto Meros do Brasil e Fundação Florestal.

Ainda no dia 7, ocorre às 15h a Contação de História: “Vivi no fundo do mar”, que será contada por Gabriela Reynaldo Pereira do Projeto Meros do Brasil, no Píer Saco da Ribeira. Às 18h, acontece cinema e exposição itinerante, conduzidos por Projeto Monitoramento Mirim Costeiro Ubatuba, na Praça Capricórnio. Para encerrar o dia, às 19h a Mesa Redonda: “Unidades de Conservação e o Turismo Sustentável”, com participação de Priscila Saviolo (Parque Estadual da Ilha Anchieta/Fundação Florestal), Kellen Leite (Refúgio da Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes/ICMBio), e Márcio José dos Santos (Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte/Fundação Florestal), no Aquário de Ubatuba.

Na quinta-feira, dia 8, acontecem duas atividades: às 14h Contação de Histórias: “Vivi no fundo do mar” com Gabriela Reynaldo Pereira (Projeto Meros do Brasil), na Fundação Projeto Tamar, e às 19h no Aquário de Ubatuba a palestra “Carbono Azul – o caso do Manguezal”, ministrada por Laís Zayas (ESALQ/USP).

No penúltimo dia, sexta-feira (9), ocorrerão também duas atividades: às 18h o cinema e exposição itinerante conduzidos pelo Projeto Monitoramento Mirim Costeiro Ubatuba, na Praça Capricórnio, e a Mesa Redonda “A conservação das espécies marinhas”, às 19h, com participação de Henrique Becker (Fundação Projeto Tamar) e Rafaela Souza (Projeto Baleia Jubarte).

O último dia da 9ª edição da Semana do Mar, sábado (10), já inicia com uma prática de yoga na Praça da Baleia, com a professora Maharani Satya (Ekomat), às 7h30. Das 8h às 13h estão programadas três atividades na Praça da Baleia: a exposição de Tendas das Instituições parceiras, limpeza de praia e do mar e a apresentação do Boi de Conchas. A partir das 18h, acontece o encerramento do evento na Fundação Projeto Tamar, com apresentação de curtas ambientais e do Coral Guarani Aldeia Boa Vista. Para fechar, às 20h, o show com Luara Oliveira e as Comadres.

Sobre o Instituto Argonauta

O @institutoargonauta foi fundado em 1998 pela Diretoria do Aquário de Ubatuba @aquariodeubatubaoficial_ e reconhecido em 2007 como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). O Instituto tem como objetivo a conservação do Meio Ambiente, em especial a conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos. Para isso, apoia e desenvolve projetos de pesquisa, resgate e reabilitação da fauna marinha, educação ambiental e resíduos sólidos no ambiente marinho, entre outras atividades. O Instituto Argonauta também é uma das instituições executoras do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS).

Seja um Argonauta!

Venha conhecer o Museu da Vida Marinha @museudavidamarinha, na Avenida Governador Abreu Sodré, 1067 – Perequê-Açu, Ubatuba/SP, aberto diariamente.

Também é possível baixar gratuitamente o aplicativo Argonauta, disponível para os sistemas operacionais iOS (APP Store) e Android (Play Store). No aplicativo, o internauta pode informar ocorrências de animais marinhos debilitados ou mortos em sua região, bem como informar ainda problemas ambientais nas praias, para que a equipe do Argonauta encaminhe a denúncia para os órgãos competentes.

Conheça mais sobre o nosso trabalho em: www.institutoargonauta.orgwww.facebook.com/InstitutoArgonauta e Instagram: @institutoargonauta

Sobre o Aquário de Ubatuba

É o primeiro privado do Brasil aberto à visitação do público e pioneiro no conceito de educação ambiental por meio do contato direto com animais. Destaca-se no país pelos projetos e realizações ao longo de 24 anos, completados em fevereiro do ano passado. Pioneiro em ter elasmobrânquios sob cuidados humanos, um tanque de águas vivas e um tanque de contato no Brasil. A instituição, ainda, possui certificado de bem-estar animal emitido pela Associação dos Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB) em parceria com a Wild Welfare Worldwide e é premiada e reconhecida por iniciativas práticas de conservação e por ter sido a primeira em colocar em exercício iniciativas sustentáveis. Atende, gratuitamente, estudantes de escolas públicas da cidade mediante capacitação de professores.

O Aquário de Ubatuba é aberto todos os dias, das 10h às 22h, e contém o Selo Turismo Responsável. O endereço é Rua Guarani, 859, Itaguá, Ubatuba/SP e telefone para contato (12) 3834-1382.

Conheça mais sobre o Aquário em: aquariodeubatuba.com.brhttps://www.facebook.com/aquaubatuba e Instagram: @aquariodeubatuba.oficial

Fundação Projeto Tamar

É uma instituição privada, sem fins lucrativos e que, desde a década de 1980, atua na proteção das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil, sendo quatro espécies ameaçadas de extinção e uma dependente de ações para conservação. A Fundação Projeto Tamar tem como missão Promover a recuperação das tartarugas marinhas, através de ações de pesquisa, conservação e inclusão social. Hoje tem 22 bases em oito estados brasileiros. Em Ubatuba, recebe apoio da Prefeitura Municipal de Ubatuba.

O Centro de Visitantes do Projeto Tamar em Ubatuba funciona de quinta a terça das 10h às 17h.

Rua Antonio Atanázio, nº 273, Jrd Paula Nobre

Tel: (12) 3832-6202 / (12) 3832-7014

E-mail: tamaruba@tamar.org.br

Os intrigantes recifes da foz do Amazonas

Ambiente ainda pouco conhecido faz parte de região potencialmente rica em petróleo

RPF-foz-do-amazonas-2023-03-site-02-1140Peixes jaguareçá (Holocentrus adscensionis) e fura-vasos (Heteropriacanthus cruentatus) sobre recife de origem biológica, a 95 metros de profundidade.  Greenpeace / Ronaldo Francini Filho

Por Gilberto Stam para a Pesquisa FAPESP

Em agosto ocorrerá mais uma expedição científica aos recifes da foz do rio Amazonas, um ambiente ainda não completamente reconhecido, permeado de incertezas e até recentemente visto como improvável. O biólogo Ronaldo Francini-Filho, da Universidade de São Paulo (USP), será um dos pesquisadores que participarão da exploração, a terceira que ele faz desde 2015 em busca de respostas mais precisas sobre aquela região.

Descobertos na década de 1970 por meio de amostras esparsas, que não chamaram muito a atenção, os recifes da foz do rio Amazonas estão na borda da plataforma continental, entre 70 e 220 metros (m) de profundidade, em média, e são formados por trechos de algas calcárias, corais pretos ou vermelhos, campos de esponjas naturais, areais cobertos por algas verdes e estruturas calcárias que podem chegar a 20 m de altura. Os recifes se estendem por 1.350 quilômetros (km), desde o estado do Amapá até a região central do estado do Maranhão, entre 150 e 200 km da costa.

Em 2014, biólogos, oceanógrafos e geólogos se surpreenderam ao retirar do mar, com dragas, pedaços de esponjas, algas calcárias, corais e peixes, porque, teoricamente, esses organismos não deveriam estar lá. Como detalhado em um artigo publicado em abril de 2016 na Science Advances, a água turva dos rios de regiões tropicais como o Amazonas dificulta a passagem de luz e forma um assoalho lodoso, supostamente inadequado para esses organismos. Além disso, a forte corrente de maré somada à descarga do Amazonas, que a cada segundo despeja no mar cerca de 200 mil metros cúbicos (m3) de água barrenta – o suficiente para encher a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em duas horas e meia –, deveria tornar o crescimento de recifes inviável.

Desde 2016, foram feitas algumas viagens científicas exploratórias à foz, que recebe as águas não só do leito principal do rio, mas também de afluentes, por ali chamados de igarapés, banhando extensos manguezais. Os resultados das explorações são, às vezes, divergentes, a começar pela própria definição do ambiente como um recife.

“As estruturas recifais ao norte da foz do rio Amazonas são formadas por rochas, sobre as quais cresceu uma fina camada de seres vivos”, diz o geólogo Alex Bastos, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), um dos autores de um artigo publicado em maio de 2022 na revista Marine Geology; no título do trabalho, recife está entre aspas. “Segundo algumas definições, um recife deve ter origem biológica”, justifica.

Peixe jaguareçá (Holocentrus adscensionis) e lagosta (Panulirus argus) sobre fundo de rodolitos e areia, a 102 metros de profundidade, na foz do AmazonasGreenpeace/Ronaldo Francini Filho

O geólogo Alberto Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), da equipe de pesquisadores que escreveram um artigo em agosto de 2022 em formato preprint no site Research Square (no título, recife também está entre aspas), diz que a importância atribuída à região por alguns pesquisadores e organizações é exagerada. “O recife da bacia sedimentar da foz do Amazonas não é contínuo e é formado principalmente por lajes calcárias construídas por algas”, observa. Segundo ele, as lajes carbonáticas não são exclusivas da bacia da foz do Amazonas, mas se estendem ao logo da borda da plataforma continental, do Amapá até Santa Catarina.

Figueiredo afirma: “A maior parte dos organismos que viviam sobre essas lajes está morta, com idades entre 15 e 20 mil anos”. Diferentemente, um estudo coordenado pelo geólogo Michel Mahiques, da USP, publicado em setembro de 2019 na Scientific Reports, mostrou que os recifes estão vivos e em crescimento.

A espessura da camada de organismos vivos sobre as rochas pode não ser um bom critério para avaliar a importância dos recifes, defende o oceanógrafo Thomás Banha, do Centro de Biologia Marinha (CEBIMar) da USP e primeiro autor de um artigo de opinião publicado na revista Frontiers in Marine Science em dezembro de 2022, em que vai na direção contrária à de Figueiredo ao defender a importância ecológica do recife. Segundo ele, essa cobertura pode variar de milímetros nas colônias de corais a mais de 1 metro nas de esponjas.

Recife da foz do Amazonas habitado por peixe-borboleta (Chaetodon sedentarius), caranguejo-aranha (Stenorhynchus seticornis) e camarão-limpador (Lysmata grabhami), a 97 metros de profundidadeGreenpeace/Ronaldo Francini Filho

“Os recifes da foz do rio Amazonas são parecidos com outros de regiões mais profundas da plataforma continental”, lembra Banha. Ali, segundo ele, vivem espécies importantes para a pesca, como o pargo (Lutjanus purpureus), entre outros 90 tipos de peixes que dependem dos recifes para alimentação e abrigo.

Em 2017, a organização não governamental Greenpeace lançou uma campanha em defesa da preservação dos recifes do rio Amazonas. Além de divulgar fotos da região, forneceu um navio de pesquisa e um submarino para um grupo de pesquisadores de quatro universidades brasileiras, inclusive Francini-Filho e o oceanógrafo Nils Edvin Asp Neto, da Universidade Federal do Pará (UFPA). A equipe publicou um artigo com os resultados da expedição na revista científica Frontiers in Marine Science em 2018.

A área precisa ocupada pelos recifes da foz do Amazonas não está definida. Em maio de 2016 na revista Science Advances, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da USP lançaram uma primeira estimativa: cerca de 9,5 mil km2, pouco menos do que a cidade de Manaus. Em 2018, outro grupo, com especialistas da Paraíba, Rio de Janeiro e São Paulo, sugere na revista Frontiers in Marine Science uma área potencialmente seis vezes maior, com até 56 mil km2. “Não conhecemos as conexões entre as áreas visitadas, que levaram às diferentes estimativas sobre a região dos recifes”, afirma Bastos.

Sua importância biológica apenas começa a ser vislumbrada: os recifes da foz do Amazonas poderiam servir como um trampolim ecológico entre o mar do Caribe e o do Brasil. A maioria das espécies vive apenas em um desses locais e não consegue atravessar a pluma – a região rica em sedimentos onde deságua o rio Amazonas –, mas algumas vivem nos dois lados. “É possível que essas espécies tenham atravessado a pluma usando os recifes como corredor”, comenta Banha. É o caso do peixe-leão (Pterois volitans), espécie nativa dos mares da Ásia que chegou à Flórida, nos Estados Unidos, e depois na costa brasileira – já foi visto no litoral do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco.

Riqueza biológica e mineral

A região chamou a atenção também de empresas petrolíferas, por causa das supostas reservas de óleo e gás, à semelhança das reservas descobertas nas vizinhas Guiana Francesa, Suriname e Guiana. Desde o fim de 2022, a Petrobras mantém um navio-sonda no litoral do Amapá e poderá começar em breve a fazer perfurações para verificar a qualidade do óleo e a viabilidade de sua exploração.

Esponjas (Verongula gigantea) sobre plataforma calcária, a 102 metros de profundidadeGreenpeace/Ronaldo Francini Filho

Se de fato vier a ser instalado na região um polo petrolífero, há risco de eventuais vazamentos de óleo. Seus impactos sobre o recife, todavia, ainda são incertos. Para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a maior preocupação é saber para onde o óleo que vazasse poderia ser levado e como a empresa exploradora poderia detê-lo.

A Petrobras procurou pesquisadores de universidades brasileiras para trabalhar com suas equipes nas respostas desejadas pelos órgãos ambientais. Um deles foi Nils Asp, da UFPA.

“Participei de três reuniões com a empresa entre 2021 e 2022, mas depois não me chamaram mais”, conta. Asp criticou o modelo numérico em hidrodinâmica usado pela BP, sócia da Petrobras nesse empreendimento, sobre o percurso do óleo que eventualmente escapasse dos poços. Segundo ele, os cálculos previam que a forte corrente marinha do norte do Brasil levaria o óleo para o norte, rumo ao Caribe, sem tocar a costa do Amapá, ainda que criando problemas para países vizinhos.

Para Asp, essa abordagem dá pouca importância à complexidade geográfica da costa, especialmente à do Amapá, recortada por rios repletos de lagos, várzeas e manguezais. Empurrado pela maré alta, o óleo poderia invadir áreas onde vivem comunidades de pesca artesanal.

A dispersão do óleo depende também do vento que sopra do mar em direção à costa. A força é tanta que, em 2004, empurrou para o manguezal do Parque Nacional do Cabo Orange, no município de Oiapoque, no Amapá, um foguete lançado na Guiana Francesa que havia caído no mar dias antes.

Segundo Asp, a modelagem não menciona possíveis riscos ambientais aos recifes da foz do rio Amazonas. Esse ambiente se estende para além da fronteira com a Guiana Francesa e fica a apenas algumas dezenas de quilômetros do chamado bloco 59, área adquirida pela Petrobras para exploração.

Ouriços sobre banco de rodolitos, a 91 metros de profundidadeGreenpeace/Ronaldo Francini Filho

Em nota enviada a Pesquisa FAPESP, a Petrobras afirma que os recifes não estão em risco: “Na área das perfurações, em profundidade maior do que 2 mil m, não há indicação da presença de bancos de corais, algas calcárias, esponjas e outros organismos presentes em formações biogênicas no fundo”.

De acordo com o comunicado, a empresa realizou um levantamento do assoalho da região onde o poço poderia ser perfurado para se certificar de que não há recifes. “As chances de um incidente desse tipo são diminutas e a Petrobras está entre as empresas de referência no setor nas medidas de precaução, sempre tentando conter riscos”, diz a nota.

Francini-Filho não está convencido de que os recifes estejam livres de riscos. Segundo ele, a única forma de barrar o óleo que flutua em direção à costa é usar um dispersante, substância que o transforma em gotículas. Mas esse composto químico faria as gotículas afundarem e chegarem aos recifes.

Área de preservação

Desde 2007, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, estuda a implantação de uma unidade de conservação na plataforma continental do Pará, inicialmente para proteger a reprodução de camarões. A partir de 2016, as publicações científicas motivaram a extensão da proteção aos recifes, prevendo uma área de 25 mil km2, entre a costa norte e sul do Amapá.

“Dependendo do tipo de área protegida a ser criada, a exploração de petróleo deverá ser restrita ou excluída, a partir da análise das instâncias governamentais e de acordo com a participação da sociedade”, comenta o oceanógrafo Rafael Magris, do ICMBio.

A Petrobras informa em seu comunicado que “pretende empregar todo o conhecimento operacional e as tecnologias necessárias para a preservação e manutenção das características físicas e biológicas do ambiente”. Decidir o futuro da região será um dos próximos desafios da nova equipe do Ministério do Meio Ambiente.

Projeto
Ecologia e conservação do Grande Sistema Recifal da Foz do Amazonas (no 22/10690-3); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Ronaldo Bastos Francini Filho (USP); Bolsista Thomás Nei Soto Banha; Investimento R$ 173.283,84.

Artigos científicos

BANHA, T. N. S. et alThe Great Amazon Reef System: A fact. Frontiers in Marine Science. v. 9, n. 8. dez. 2022.
FRANCINI FILHO, R. B. et alPerspectives on the Great Amazon Reef: Extension, biodiversity, and threats. Frontiers in Marine Science. v. 5, n. 142. 23 abr. 2018.
MAHIQUES, M. M. et alInsights on the evolution of the living Great Amazon Reef System, equatorial west Atlantic. Scientific Reports. v. 9, 13699. 23 set. 2019.
MOURA, R. L. et al. An extensive reef system at the Amazon river mouthScience Advances. v. 2, n. 4. 22 abr. 2016.
SANTOS FILHO, J. R. et alResizing the extension of the mesophotic “reefs” in the Brazilian equatorial margin using bioclastic facies and seabed morphologyResearch Square. Preprint. 12 ago. 2022.
VALE, N. F. Distribution, morphology and composition of mesophotic “reefs”on the Amazon Continental MarginMarine Geology.v. 447, n. 106779. mai. 2022.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Pesquisa FAPESP [Aqui! ].

Mudanças climáticas e extinção de espécies são crises interligadas

A mudança climática e a proteção das espécies devem ser enfrentadas juntas, adverte uma equipe científica liderada pelo renomado pesquisador do clima Hans-Otto Pörtner

grasslandSavanas bem preservadas como o Serengeti podem armazenar tanto carbono quanto as florestas tropicais e também são habitats importantes para grandes espécies de animais. Foto: Tom e Pat Leeson

Por Ingrid Wenzl para o Neues Deutschland

A humanidade enfrenta atualmente duas crises existenciais: a mudança climática causada pelo homem, que já está levando à seca e à fome , graves inundações e furacões em muitos lugares , e a perda maciça de espécies, que ameaça cada vez mais desestabilizar ecossistemas inteiros com suas importantes funções.

Essas duas crises muitas vezes ainda são vistas separadamente, mas são mutuamente dependentes: além da destruição do habitat e das espécies invasoras , o aquecimento global é um dos principais impulsionadores da sexta maior extinção de espécies na história da Terra. Savanas e florestas tropicais são degradadas ou transformadas em terras aráveis, e os pântanos são drenados ou as florestas boreais são derrubadas, não só sua biodiversidade é flagrantemente reduzida, mas também desaparecem importantes sumidouros de carbono, de modo que o clima esquenta ainda mais.

Hans-Otto Pörtner, cientista do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research e co-presidente do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e sua equipe internacional lançam luz sobre essas conexões em um estudo geral publicado recentemente na revista »Science« e apelam a um repensar radical. A conformidade com a meta de 1,5 grau tem prioridade máxima. Eles também recomendam proteger ou renaturalizar pelo menos 30% de todas as áreas terrestres, de água doce e oceânicas. Desta forma, a pior perda de espécies poderia ser evitada e as funções dos ecossistemas naturais preservadas. Os estados só concordaram com a meta de estabelecer 30% das áreas protegidas em terra e no mar até 2030 em dezembro de 2022 na Conferência Mundial sobre a Natureza acordado em Montreal.

Restauração sequestra carbono e evita extinção

De acordo com a equipe de pesquisa de Pörtner, mesmo que 15% de todas as áreas utilizáveis ​​pelo homem em todo o mundo fossem amplamente convertidas de volta em habitats naturais, isso seria suficiente para evitar 60% dos eventos de extinção esperados. Ao mesmo tempo, até 300 gigatoneladas de dióxido de carbono poderiam ser permanentemente removidos da atmosfera dessa maneira. Isso só pode ser parte da solução para a crise climática, já que as emissões humanas superam em muito esse valor. Cerca de 2.500 gigatoneladas de CO 2 foram emitidas desde o início da industrialização . No entanto, esta medida é de grande importância, pois contribui para a estabilização do clima a longo prazo.

Ao contrário do que ainda hoje é praticado, é fundamental para a criação de áreas protegidas conectá-las entre si de forma a permitir a migração de animais e o intercâmbio com outras populações.

A rede resultante inclui não apenas reservas naturais puras, mas também habitats compartilhados por humanos e natureza. Mas mesmo espaços dominados por humanos – como cidades – podem abrigar muitas espécies. Os especialistas também convocam as organizações políticas, que muitas vezes atuam de forma isolada, a trabalharem juntas de forma mais interdisciplinar no futuro. “Aqui é importante construir pontes e coordenar as necessidades sociais com a proteção da natureza e do clima”, explica Pörtner.

O estudo é baseado em um workshop virtual realizado pelo IPCC e pelo World Biodiversity Council (IPBES) em dezembro de 2020, com a participação de 62 pesquisadores de 35 países. O estudo atualiza aspectos individuais do relatório de 300 páginas publicado em junho de 2021 e sintetiza quase 170 publicações científicas dos últimos anos sobre a conexão entre mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Três quartos da superfície terrestre foram modificados por humanos

Ela fornece números impressionantes: Através do uso intensivo e destruição de ecossistemas naturais – por exemplo, através da agricultura, pesca e indústria – os humanos mudaram cerca de três quartos da superfície terrestre e dois terços dos ecossistemas marinhos tanto que mais espécies estão ameaçadas de extinção do que nunca na história da humanidade. Cerca de 80% da biomassa de mamíferos naturais e 50% da biomassa de plantas já desapareceram devido às atividades humanas.

“O que há de novo no estudo – que já foi mencionado no relatório do workshop – é a visão holística, a conexão de interesses para proteção do clima, conservação da natureza, para uso sustentável pelas pessoas”, diz Pörtner. É importante evitar que as sociedades que operam de forma sustentável enveredem pela “trilha do consumo das sociedades ocidentais”. Em vez disso, os povos indígenas que vivem em maior harmonia com a natureza devem ser apoiados e seus conhecimentos integrados em um processo global de transformação social e econômica.

Segundo o conceituado investigador do clima, é urgente uma revisão do ordenamento do território. Isso representa grandes desafios, especialmente para um país tão densamente povoado quanto a Alemanha. Portanto, teríamos que mudar a forma como fazemos negócios, como nos movimentamos, que energia consumimos e como comemos. “Mais de 80 por cento das áreas cultivadas em todo o mundo são usadas para a produção de ração animal”, lembra Pörtner. Um quilo de carne bovina contém cerca de dez quilos de biomassa vegetal que é fornecida aos animais. É importante não apenas consumir menos carne, mas também limitar o pastoreio sustentável a áreas que não são adequadas para a agricultura.

De acordo com o estudo, as sinergias para proteção do clima e proteção de espécies são particularmente altas ao preservar ou regenerar pastagens e savanas naturais. Pörtner e seus colegas baseiam seu trabalho em uma revisão científica do cientista chinês Yonfei Bai. De acordo com isso, esses ecossistemas armazenam um terço de todo o carbono na terra. Resultados de um grupo de pesquisa liderado por Andy Dobson, da Universidade de Princeton, nos EUApublicados na  Science  no início de 2022, demonstram que o Serengeti e outras savanas, se manejadas adequadamente, podem absorver tanto carbono quanto as florestas tropicais. O uso destrutivo de pastagens naturais deve, portanto, ser interrompido com urgência, exige Pörtner. Também por razões de proteção de espécies, porque o manejo sustentável ou restauração desses ecossistemas preserva a megafauna que ali vive – ou seja, espécies animais de grande porte – e aumenta a diversidade de gramíneas e organismos do solo. As florestas boreais também desempenham um papel muitas vezes subestimado na proteção do clima.

Sistemas agroflorestais oferecem potencial para agricultura e proteção de espécies

A agricultura orgânica oferece um grande potencial para a proteção do clima e das espécies. Ao acumular húmus, o carbono pode ser armazenado no solo e a vida ali, bem como a fertilidade do solo, podem ser promovidas. Os sistemas agroflorestais também representam uma abordagem promissora.Em seu estudo, Pörtner e colegas referem-se aos resultados da pesquisa de Annemarie Wurz e sua equipe.

Em um artigo na revista Nature Communication de 2022, Wurz comparou em Madagascar os rendimentos do cultivo de baunilha em áreas florestais com os de terras em pousio que são criadas como parte do cultivo itinerante e nas quais o arroz é geralmente cultivado após corte e queimar. A colheita das plantações em terras de pousio foi tão alta quanto a das plantações estabelecidas na floresta. “Isso significa que os agricultores não precisam limpar a terra para obter altos rendimentos, mas podem usar a terra em pousio para cultivar baunilha”, resume Wurz.

Também foi demonstrado que as áreas de floresta tinham uma biodiversidade significativamente maior do que os pousios, mas com o cultivo de baunilha ali, o número de espécies encontradas apenas ali caiu quase pela metade, já que os agricultores* tiveram que derrubar árvores e capoeira para fazer então. Não é o caso dos pousios, onde a biodiversidade aumentou quando plantaram árvores como plantas de suporte para a baunilha, que é uma orquídea. Portanto, se sistemas agroflorestais de baunilha forem criados em terras de pousio existentes, a biodiversidade pode se beneficiar. »Nos sistemas agroflorestais de baunilha, a vegetação e a biodiversidade associada têm a oportunidade de se regenerar a longo prazo. Além disso, as estruturas arbóreas podem complementar e conectar os poucos fragmentos florestais remanescentes na paisagem agrícola”, diz Wurz. As plantas de baunilha precisam de três anos até a primeira colheita. Depois disso, os plantios costumam permanecer, pois sua rentabilidade é alta. Dependendo do preço, os agricultores podem obter até 250 euros por quilo de baunilha.

Os sistemas agroflorestais também oferecem um grande potencial na Alemanha. Eles estão sendo discutidos com mais intensidade, especialmente para as grandes áreas agrícolas de Brandemburgo. “Muitas vezes, os efeitos podem ser vistos rapidamente”, explica Rüdiger Grass, da Universidade de Kassel. “Isso reduz a velocidade do vento e a evaporação, melhora o equilíbrio da água e promove insetos benéficos.” Isso inclui besouros terrestres, minhocas e abelhas selvagens. Árvores e arbustos impedem a erosão e, em combinação com o pasto, fornecem sombra para os animais. Já existem experiências positivas no centro de Hesse, onde pomares de prados, sebes ou fileiras de árvores nas bordas do campo são tradicionalmente bastante comuns.

duplo uso de terras agrícolas por meio de energia fotovoltaica e pastagem ou o cultivo de árvores não apenas reduz a pressão sobre a terra, mas também aumenta a fixação de carbono no solo. O fato de serem criados habitats para insetos polinizadores também pode ter um efeito positivo nos rendimentos dos campos adjacentes. Pörtner e colegas também avaliam como positiva a instalação de energia fotovoltaica em reservatórios em regiões secas, pois reduz a evaporação.

Pesca sustentável e proteção de leitos de ervas marinhas

O equivalente à agricultura orgânica nos oceanos é a pesca sustentável. Aqui, também, os autores do novo estudo de visão geral defendem a licitação de extensas áreas protegidas, cuja seleção deve ser cuidadosamente considerada. De particular importância é a preservação ou expansão dos prados de algas marinhas , um habitat único para muitas espécies. Um novo habitat interessante para espécies marinhas pode se desenvolver nas fundações de turbinas eólicas offshore. Mas Pörtner e seus colegas também acreditam que uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa é necessária com urgência para proteger as funções dos ecossistemas marinhos.

Com o estudo, os cientistas esperam aumentar a conscientização sobre o problema e a necessidade urgente de ação na proteção do clima e das espécies, especialmente na política. “O que está exposto no documento faz parte da transformação de que precisamos, e cuja dimensão muitos ainda não entenderam bem, inclusive muitos dos nossos políticos, que querem esperar o mínimo possível das pessoas”, diz Pörtner.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

40 anos do Parque dos Abrolhos: Estudo inédito levanta dados sobre biodiversidade da região

Levantamento realizado pela Conservação Internacional e Instituto Baleia Jubarte, analisou a distribuição de 635 espécies de peixes, corais, invertebrados, mamíferos, aves e tartarugas marinhas na Região dos Abrolhos

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Foto: Luciano Candisani/iLCP

Rio de Janeiro, 27 de abril de 2022 – Um levantamento inédito realizado na Região dos Abrolhos, no Extremo Sul da Bahia, apontou que uma em cada cinco espécies analisadas dentro do Parque Nacional Marinho (PARNAM) dos Abrolhos, encontra-se em alguma categoria de ameaça de extinção. No total, 635 espécies de peixes, corais, invertebrados, mamíferos, aves e tartarugas marinhas na Região dos Abrolhos foram analisadas no estudo realizado pela Conservação Internacional (CI-Brasil), Instituto Baleia Jubarte (IBJ) e pesquisadores do Instituto Coral Vivo e de universidades brasileiras.

“Desde 2005 que os dados sobre a biodiversidade da região dos Abrolhos não eram atualizados. Todos sabem que é a região com a maior biodiversidade marinha do Brasil, mas havia poucas informações detalhando a distribuição desta biodiversidade. O estudo atualiza os dados sobre os habitats e as espécies encontradas, e analisa as áreas onde essa biodiversidade está mais concentrada, contribuindo para o planejamento e priorização de ações de conservação na região” afirma Guilherme Dutra, diretor do Programa Marinho e Costeiro da CI-Brasil e um dos autores do estudo.

Com cerca de 88 mil hectares, o PARNAM dos Abrolhos protege pouco menos de 1% da Região dos Abrolhos. Apesar de pequeno comparado aos 9,5 milhões de hectares da região, a Unidade de Conservação é muito representativa para a biodiversidade. Das 635 espécies analisadas, 77% delas (491) são encontradas no parque. Só de espécies de peixes são cerca de 400, e outras 52 espécies do grupo dos corais. Essa riqueza torna a Região dos Abrolhos a mais biodiversa do oceano Atlântico Sul, com os maiores recifes de coral da costa brasileira e o maior banco de algas calcárias do mundo.

Mas Dutra destaca que apesar de sua importância, o parque dos Abrolhos não é suficiente para proteger a biodiversidade da região: “O Parque dos Abrolhos possui grande importância para a conservação de muitas espécies marinhas, mas nem todas as espécies que ocorrem no parque estão protegidas. Boa parte delas possui ampla distribuição, ou seja, transitam por toda a região ou pela costa brasileira. Se a espécie sofre ameaça na maior parte de sua área de ocorrência, uma pequena área de proteção, não será suficiente para sua recuperação.”

Eduardo Camargo, Diretor Executivo do Instituto Baleia Jubarte e co-autor do estudo complementa: “A ampliação do Parque de Abrolhos e a definição de sua Zona de Amortecimento, bem como a criação de novas áreas protegidas de uso sustentável abrangendo toda a Região dos Abrolhos são propostas há anos por ambientalistas e podem garantir a conservação e o uso sustentável das espécies marinhas da região.”

Para além das espécies, o PARNAM dos Abrolhos também é destaque quando o assunto são habitats marinhos. O estudo coletou dados sobre essas ocorrências. Os chapeirões – grandes recifes em forma de cogumelos, são uma formação recifal única da região e podem chegar a 20 metros de altura e 50 metros de diâmetro. Lá também são encontrados recifes em franja no entorno das ilhas, recifes rasos, recifes mesofóticos, bancos de gramas e algas marinhas, bancos de algas calcárias e fundos de areia. Essa diversidade de habitats ajuda a explicar a alta diversidade de espécies parque. 

Toda essa diversidade é constantemente ameaçada. Há pelo menos três décadas tentativas de explorar petróleo e gás natural e minerar o fundo marinho dos Abrolhos cercam a região. Desastres provenientes da ação humana, como o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana-MG, e o grande vazamento de óleo que atingiu a costa Brasileira em 2019 – com origem ainda hoje desconhecida, deixaram cicatrizes nos ambientes marinhos de Abrolhos. Da mesma forma, a sobrepesca ameaça as populações de organismos marinhos, muitas delas com risco de extinção, como mostra o estudo. A sociedade civil organizada se une em campanhas ambientais de conservação para tentar chamar atenção para os problems. As campanhas “Abram os Olhos”, “Adote Abrolhos” “Abrolhos sem Óleo” são exemplos.

40 anos do PARNAM Abrolhos
No dia 06 de abril de 2023, o PARNAM Abrolhos completou 40 anos de criação. Unidade de Conservação mais conhecida da região Extremo Sul da Bahia, o Parque é um dos principais destinos de mergulho do Brasil. Criado em 1983, o parque passou por muitas etapas de implementação, e hoje é um dos motores da economia na região. Parceiro da Futuri: Aliança pelo Turismo Regenerativo, a unidade vem atuando para além de suas fronteiras, por uma visão de desenvolvimento sustentável do turismo, que envolve cerca de 80 mil pessoas. O PARNAM é também uma importe área de procriação para muitas espécies marinhas, pescadas pelos mais de 20 mil pescadores artesanais de Abrolhos. 

“O Parque dos Abrolhos, após 40 anos, é parte da identidade e imaginário da região é uma área que tem uma relevância ambiental consolidada, mas, também passou ser relevante para cadeia do turismo regional, gerando ocupação e renda de forma direta e indireta e impulsionando outras cadeias econômicas. Muitas experiências de gestão estão consolidadas por quem nos antecedeu. Nossa equipe segue trabalhando com firmeza para a manutenção do legado conquistado e com um olhar no futuro buscando consolidar a implementação da unidade. Estamos muito felizes com o engajamento e por poder compartilhar este momento de comemoração com a comunidade local”, afirma Erismar Rocha, chefe do NGI ICMBio Abrolhos. 

Estudo na Science destaca a importância de terras privadas para a conservação da biodiversidade no cerrado brasileiro 

Material publicado na Science mostra que áreas reservadas dentro de propriedades privadas podem acomodar até 14,5% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas

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Um novo estudo publicado na revista Science desta semana destaca que terras privadas no cerrado brasileiro desempenham um papel vital na proteção de espécies ameaçadas de vertebrados. O estudo mostra que áreas de reserva legal e proteção permanentes das propriedades rurais privadas podem acomodar entre 14,5% e 30% das áreas de distribuição de espécies ameaçadas, nesse último caso, se for considerado apenas o habitat remanescente atual dessas espécies. É importante destacar que o cerrado é um bioma prioritário global para a conservação da biodiversidade.

O artigo é um trabalho conjunto escrito por pesquisadores da UFG, IBAMA, UnB, a ONG Aliança da Terra, a Universidade de Alcalá na Espanha e a Kansas State University nos EUA. A equipe de pesquisa também desenvolveu um modelo de priorização para identificar áreas onde investimentos em restauração em terras privadas poderiam trazer melhores retornos para a conservação da biodiversidade. O estudo sugere que a região Sudeste, grande centro econômico no Brasil, deve ser uma área prioritária para tais investimentos.

O Código Florestal Brasileiro inclui disposições para áreas de reserva legal dentro de propriedades privadas, mas sua relevância para a conservação nunca foi avaliada adequadamente. O estudo destaca o potencial das terras privadas para a conservação da biodiversidade, apesar dos conflitos de uso da terra e dos desincentivos econômicos frequentemente associados a tais esquemas.

O estudo ainda fornece insights importantes para formuladores de políticas públicas, proprietários de terras e conservacionistas sobre a importância de terras privadas na promoção de paisagens amigáveis à biodiversidade e na manutenção do fluxo de serviços ecossistêmicos. Os resultados também enfatizam a necessidade de avaliação contínua e melhoria dos quadros legais para garantir a conservação efetiva de espécies ameaçadas e seus habitats.

Leia o artigo na íntegra.

Baixa no nível dos rios no Brasil soa alerta para toda a América Latina

rios-Cerrado-996x567 (1)A redução da vazão dos rios do Cerrado pode afetar a produção agrícola, a geração de energia elétrica e o abastecimento de água da população. Crédito da imagem: Pedro Biondi/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-NC 2.0)

Por Pablo Corso para a SciDev

O desmatamento devido ao avanço da fronteira agrícola e os efeitos das mudanças climáticas estão reduzindo a vazão dos rios do Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo.

Sem medidas para acabar com a extração indiscriminada, um cenário de gravidade inusitada pode ser gerado em três décadas, estendendo-se a outras áreas do país e até à região, sugere pesquisa publicada na revista Sustainability .

Entre 1985 e 2018, a vazão dos rios do Cerrado —no centro do Brasil— diminuiu 8,7% devido ao desmatamento e 6,7% devido às mudanças climáticas, segundo pesquisa que abrangeu 81 bacias.

Se o desmatamento continuar no ritmo atual, até 2050 a água poderá diminuir em nove das dez bacias desse bioma, com “níveis críticos e recorrentes de escassez”, afirma o documento.

A redução total da vazão do rio seria de 34%, o que afetará a produção agrícola, a geração de eletricidade e o abastecimento de água para a população, Eraldo Matricardi, um dos autores do artigo científico, disse à SciDev.Net, 

O Cerrado fornece 44% da produção nacional de carne e 48% das exportações de soja. “É considerado ‘o berço das águas’ do país, pois reúne as principais nascentes de oito bacias hidrográficas, que atendem às regiões mais populosas”, acrescenta o professor da Universidade de Brasília.

A demanda mundial por produtos agrícolas, o aumento dos preços das commodities e a falta de políticas de controle ambiental são alguns dos fatores que permitem a contínua expansão das lavouras, afirma o estudo.

A menor infiltração de água causada pela perda da vegetação nativa “poderia prejudicar a capacidade de recarga dos aquíferos durante as estações chuvosas e de manter um alto consumo de água para irrigação durante as estações secas”. Essas dinâmicas, que não são exclusivas do Cerrado, são especialmente preocupantes no contexto atual.

“Se há um século tínhamos um copo de água per capita, hoje temos apenas menos de um décimo (…) E os padrões de consumo da nossa região, a mais urbanizada do planeta, apresentam pegadas hídricas cada vez maiores”

Miguel Doria, especialista para a América Latina do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco

“Em 1900 havia cerca de 60 milhões de pessoas na região; hoje somos mais de 660 milhões”, disse Miguel Doria, especialista para a América Latina do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco , ao SciDev.Net .

“Se há um século tínhamos um copo d’água per capita, hoje temos apenas menos de um décimo”, compara. “E os padrões de consumo da nossa região, a mais urbanizada do planeta, apresentam pegadas hídricas cada vez maiores ”, continua.

A diminuição do fluxo dos rios do Cerrado também aumentou as tensões sobre o acesso à água. “Esses conflitos devem se intensificar”, alerta Matricardi.

A grande irrigação exigida pela exportação de produtos agrícolas “mudou a governação” deste recurso, “passando do controlo de actores locais, regionais e nacionais para os que dominam as cadeias produtivas”, indica o estudo.

Por outro lado, alguns pesquisadores comemoram a crescente conscientização da necessidade de justiça da água com vistas a uma distribuição mais equitativa.

No nível local, qualquer expansão de terras agrícolas poderia ser avaliada generalizando o sistema de comitês de bacias hidrográficas , “uma estratégia importante para empoderar as comunidades e evitar o uso excessivo e desigual da água”, diz Matricardi.

A criação de reservas em propriedades particulares e áreas protegidas também pode contribuir para a preservação dos recursos, resguardando porcentagens de vegetação nativa capazes de manter fluxos hídricos adequados.

Quanto às iniciativas de reflorestamento, Doria destaca o trabalho “vasto e positivo” que está sendo desenvolvido , chamando a atenção para a necessidade de utilizar espécies adequadas e considerar fatores como distribuição e tipo de solo, para otimizar os processos de evaporação, retenção de água e proteção contra exposição a contaminantes.

Estas ações de mitigação e adaptação “devem ser aplicadas sempre que se equacione o desenho e gestão de uma cultura, um aqueduto ou uma albufeira”, antecipa.

Mesmo contextos de seca ou escassez podem levar a uma gestão eficiente dos recursos, através de culturas mais rentáveis ​​ou que necessitem de menos água.

“A importância dos recursos hídricos em um ecossistema está ligada ao econômico, mas também ao cultural”, acrescenta. “Quando a biodiversidade se perde, perde-se também o patrimônio das comunidades e dos países”.


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Este artigo foi produzido e publicado pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

Projeto internacional liderado pela UFSCar analisa impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade aquática

Iniciativa, apoiada por Fapesp e National Science Foundation, prevê colaboração com universidades dos EUA e Nova Zelândia

unnamed (14)(Foto: Victor Saito)

Comparando comunidades de insetos em riachos no Brasil e nos Estados Unidos, pesquisa liderada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem como objetivo compreender impactos das mudanças climáticas sobre a organização da biodiversidade aquática, algo ainda pouco conhecido. A iniciativa prevê colaboração com três instituições dos EUA (Universidade da Califórnia, Universidade Estadual da Virgínia e Universidade de Maryland) e uma neozelandesa (Universidade de Canterbury). 

O projeto foi aprovado recentemente para receber apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da National Science Foundation (NSF), em chamada colaborativa com a temática “Biodiversity on a Changing Planet (BoCP) 2022” (Biodiversidade em um Planeta em Transformação). A liderança é de Victor Satoru Saito, docente no Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar.

Com duração de três anos, o projeto prevê estudos – com bolsas de graduação, treinamento técnico e pós-doutorado para as universidades envolvidas – em comunidades biológicas de riachos, principalmente insetos que possuem fase de larva na água e, de adultos, terrestres com asas, como as libélulas. 

O intuito é entender se a organização dessas comunidades, ao longo do tempo, é diferente em locais tropicais e temperados. 

“As espécies são sempre as mesmas ou mudam de mês a mês? Qual a magnitude dessas variações? Há a troca de todas as espécies do verão para o inverno, ou mantêm-se as mesmas?”, exemplifica o pesquisador. 

Para responder a esses questionamentos, os cientistas produzirão amostragens mensais dessas comunidades em riachos nos dois países, de uma forma coordenada e uniforme. Com isso, pretendem estudar todo o ciclo de vida desses insetos – ou seja, da vida aquática à saída da água, como adultos alados, até a reprodução e a inserção de ovos novamente nos riachos. Também estarão no foco as suas demografias (dinâmica da população, com informações como quantidade de indivíduos, natalidade e mortalidade). 

O desconhecimento ainda existente sobre como a biodiversidade de insetos responde diretamente às mudanças climáticas é devido, sobretudo, à falta de estudos coordenados em diferentes latitudes, que permitam uma comparação direta do efeito da temperatura nos organismos. 

“Com os dados coletados, vamos buscar construir modelos que permitam prever como cada comunidade pode responder a futuras mudanças climáticas”, detalha o docente da UFSCar. 

Os locais de análise ainda estão em definição, mas Saito adianta que, aqui no Brasil, serão potencialmente os riachos dentro do Parque Estadual de Intervales, localizado no Sul do estado de São Paulo. “Esta Unidade de Conservação abriga uma Mata Atlântica muito bem preservada e uma bacia hidrográfica bem inserida e conhecida”, justifica. 

Saito conta que os insetos aquáticos costumam ser utilizados como indicadores ambientais. Assim, o estudo também é uma forma de tentar prever como os ecossistemas vão responder a mudanças, para pensar em precauções diante de alterações ecossistêmicas indesejadas, como a perda de espécies de interesse pesqueiro ou a diminuição da qualidade da água. 

O pesquisador explica que, hoje, é muito utilizada a Teoria Metabólica – que indica que o metabolismo dos organismos determina fortemente o que se encontra na Natureza – para elucidar a biodiversidade, mas sabe-se da importância de sua união com outras explicações possíveisconforme já abordado em pesquisas anteriores do próprio Saito.  

“As populações das espécies também sofrem variações em suas abundâncias de forma estocástica (ou seja, imprevisível, de causa desconhecida) -, e é justamente esse ponto que buscamos entender melhor, investigando as relações dessas variações com a temperatura. A ideia é avançar nesses estudos e entender mais sobre o ciclo de vida das espécies, para começarmos a tapar essas lacunas no conhecimento da nossa fauna”, complementa o pesquisador. 

Mais informações sobre o projeto aprovado – intitulado “Entendendo o papel da estocasticidade na montagem de metacomunidades sob efeitos de mudanças globais” – estão disponíveis no site da Fapesp.

Esta matéria aborda contribuição da comunidade da UFSCar à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030 (ODS14-Vida na Água)

Science: Ação humana pode afetar Amazônia milhares de vezes mais rápido que processos naturais

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As mudanças causadas pela ação humana na Amazônia são capazes de afetar todo o continente em questão de séculos ou décadas. São, portanto, centenas a milhares de vezes mais rápidas quando comparadas a processos climáticos e geológicos naturais, que se estendem por milhões a dezenas de milhões de anos. Os principais fatores de degradação do bioma relacionados à atividade humana são desmatamento, incêndios florestais, erosão do solo, represamento de rios e desertificação devido à mudança climática global. É o que afirmam cientistas de instituições nacionais e internacionais, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Universidade de Louisiana, nos Estados Unidos, em artigo publicado na revista “Science” nesta quinta (26).

O pesquisador Pedro Val, um dos autores do estudo, explica que os dados foram compilados a partir do primeiro Relatório de Avaliação da Amazônia, documento lançado em 2021 pela rede de cientistas do Painel Científico da Amazônia. O artigo complementa esse conhecimento com dados de estudos publicados mais recentemente sobre impactos ambientais na América do Sul e no mundo.

A transição da paisagem florestal para a paisagem agrícola por meio do desmatamento em larga escala ocorre de forma acelerada na Amazônia, explicam os autores. Isto é preocupante porque o bioma tem papel fundamental no ciclo hidrológico planetário, e as interferências humanas provocam a degradação do regime climático global. Essas transformações geram consequências múltiplas para o bem-estar humano, como insegurança no acesso à água e alimentos, o que pode provocar migrações em massa e instabilidade política.

O artigo alerta que gestores públicos devem agir imediatamente para proteger biodiversidade, população e serviços ecossistêmicos globais associados à Amazônia. “Dentre as principais medidas destacadas, estão a parada completa de desmatamento através de políticas e leis de conservação existentes. As políticas públicas devem desincentivar o desenvolvimento de novas hidroelétricas e de novas exportações de commodities que dependam do desmatamento da Amazônia, como as derivadas da agricultura e mineração. Na esfera global destaca-se a necessidade de migrar para fontes de energia limpa e eliminar o uso de fontes como derivados do petróleo. É necessário migrar para energia eólica e solar”, explica Val.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Redução de biodiversidade é um dos principais impactos da criação de camarão

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Por Agência Bori

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O Brasil é o terceiro maior produtor de camarão da América Latina, sendo a região Nordeste responsável por quase toda a produção nacional. Além da pesca tradicional, o camarão também é obtido por meio de criação em viveiros, prática chamada de carcinicultura. Um estudo foi publicado no dia 28/12/2022 na revista “Arquivos de Ciências do Mar”, apontou que um dos principais impactos ambientais gerados pela carcinicultura é a redução da biodiversidade da fauna e da flora, e que há possíveis soluções para os problemas encontrados.

O artigo de pesquisadores da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE) faz uma revisão sistemática da literatura já publicada a partir de 2011, utilizando a base de dados do Portal de Periódicos da Capes, Scielo e Google Scholar, sobre os aspectos e impactos ambientais da carcinicultura e medidas de prevenção. Com o levantamento, os autores puderam identificar 28 impactos ambientais, como degradação de manguezais e  surtos de doenças, causados por 13 aspectos ambientais, como despejo de efluentes e ocupação de ambientes naturais.

Também foram encontradas mais de 20 medidas preventivas e mitigadoras nos trabalhos analisados para evitar impactos da criação de camarões, sendo as principais relativas ao tratamento de efluentes, gestão integrada da zona costeira, gestão ambiental adequada, utilização de bioflocos e boas práticas de manejo. O sistema chamado de super intensivo foi apontado pelos pesquisadores como o mais eficaz na manutenção da qualidade ambiental, qualidade econômica e sanidade dos camarões.

“É um sistema em que você produz uma quantidade alta de camarões por área, então você produz mais usando menos espaço”, explica Ana Carolina Correia de Oliveira Gomes, uma das autoras do estudo e engenheira ambiental. Dessa forma, é possível otimizar o uso da terra e da água na produção.

Segundo os autores, as principais razões para os impactos da carcinicultura são a falta de monitoramento adequado da prática, ilegalidade na criação de camarão e falta de fiscalização no setor, manejo e planejamento inadequados e falta de conhecimento científico. “É uma área difícil de conseguir dados”, relata a autora. “Existem informações soltas e isoladas entre um estudo e outro, então vimos a necessidade e importância de existir um compilado de informações e determinar as relações entre elas”, completa.

A partir da identificação dos problemas e possíveis soluções, a equipe pretende continuar investigando soluções para redução de impactos da carcinicultura. Os pesquisadores esperam que o artigo possa contribuir para tomadas de decisões referentes à criação de camarão no Brasil e fomento de políticas públicas, além de levar o conhecimento para os carcinicultores para que a produção possa ser feita de forma mais sustentável e com menos impacto ao meio-ambiente, ampliando a relação entre cientistas e produtores.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Quem se beneficia da biodiversidade? Raramente o sul global

Biopirataria e digitalização: por que o livre acesso a bancos de dados genéticos é controverso

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Da cana-de-açúcar à batata e à seringueira: durante séculos, potências coloniais, empresas e pesquisadores fizeram uso da biodiversidade e do conhecimento indígena de outras partes do mundo e embolsaram a renda gerada por isso.
 
Por Norbert Suchanek, do Rio de Janeiro, para o Neues Deutschland

A Conferência Mundial sobre Biodiversidade em Montreal não trata apenas de deter a perda de espécies animais e vegetais. Também há controvérsia sobre quem controla a biodiversidade – especialmente no Sul Global – e quem se beneficia de seu uso. Especificamente, trata-se do até então livre acesso a bancos de dados internacionais com informações genéticas sobre plantas, animais e micróbios. Pesquisadores genéticos temem que os cerca de 200 estados de Montreal decidam restringir esse acesso. Isso pode complicar a pesquisa, como o desenvolvimento de novas vacinas, argumentam eles. Outros criticam que comunidades indígenas e países do Sul Global tenham ficado para trás com a regulamentação anterior.

Da cana-de-açúcar à batata e à seringueira: durante séculos, potências coloniais, empresas e pesquisadores fizeram uso da biodiversidade e do conhecimento indígena de outras partes do mundo e embolsaram a renda gerada por isso. Os países e povos indígenas de cujas áreas veio a biodiversidade roubada não foram consultados nem divididos nos lucros.

O Protocolo de Nagoya exige que os países de origem compartilhem as receitas

Desde 2014, no máximo, essa prática, também conhecida como biopirataria, não deve mais ser possível. Após anos de duras negociações, a décima Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 10) aprovou o chamado Protocolo de Nagoya em 2010, que entrou em vigor quatro anos depois. Regula que os países de origem e os povos indígenas sejam consultados e recebam uma parte justa dos benefícios e receitas provenientes da pesquisa e exploração da biodiversidade de suas áreas e dos conhecimentos tradicionais associados.

O Protocolo de Nagoya considera apenas a transferência física transfronteiriça de material vegetal ou animal, microorganismos ou material genético (DNA). No entanto, devido aos desenvolvimentos na engenharia genética e na digitalização do DNA, muitas vezes as amostras biológicas não são mais necessárias. A informação de sequência digital (DSI) do material genético, que é armazenada em bancos de dados de genes e até agora tem acesso gratuito em todo o mundo através da Internet, é suficiente.

Embora isso facilite o trabalho dos cientistas, também substitui efetivamente as regras do Protocolo de Nagoya. Com a ajuda do DSI, institutos de pesquisa e empresas podem continuar desenvolvendo e comercializando novos medicamentos ou variedades de plantas, como antes de 2014, sem a aprovação e participação nos lucros dos países de origem ou comunidades indígenas.

Batata geneticamente modificada: quem se beneficia?

Um exemplo controverso do uso comercial de recursos genéticos digitalizados é uma batata geneticamente modificada com DSI, que é considerada resistente à requeima e será comercializada na África Oriental. Foi desenvolvido pelo International Potato Center (CIP), fundado pelo pesquisador norte-americano Richard L. Sawyer e faz parte da Global Research Partnership for a Food Security Future. Esta, por sua vez, é financiada por governos, bancos internacionais e fundações como a Fundação Bill & Melinda Gates, entre outras.

Embora a batata geneticamente modificada pela CPI seja baseada no genoma de uma variedade sul-americana que tem sido usada e desenvolvida pelo povo quéchua há milhares de anos, os indígenas não compartilham dos possíveis lucros, critica Alejandro Argumedo da biodiversidade fundação Fundação Swift. Para o agrônomo peruano, descendente de família quíchua, está claro que a digitalização do material genético fere o Protocolo de Nagoya e a distribuição justa dos lucros. O conhecimento tradicional continua sendo roubado, fazendo com que os povos indígenas percam o controle sobre a diversidade biológica de suas regiões.

Pesquisadores genéticos e de plantas em todo o mundo se opõem a isso. Eles veem o futuro de seu trabalho em perigo se o Protocolo de Nagoya for expandido para incluir bancos de dados de genes digitalizados. O acesso irrestrito aos dados genéticos é essencial para suas pesquisas, argumentam pesquisadores como Jörg Overmann, diretor científico da Coleção Alemã de Microorganismos e Culturas de Células do Instituto Leibniz.

“As informações da sequência digital são um pré-requisito indispensável para a pesquisa e o desenvolvimento das ciências da vida modernas”, diz Overmann. »Se as informações da sequência digital não estivessem mais disponíveis gratuitamente, mas apenas acessíveis após aprovações individuais concedidas por cada país de origem individual, o processamento de dados biológicos seria praticamente impossível, como tem sido até agora. Os procedimentos de aprovação que dependem de cada caso são absolutamente incompatíveis com o sistema existente de milhares de bancos de dados de sequências interligados em todo o mundo, nos quais bilhões de sequências de livre acesso são permanentemente trocadas. Qualquer outro sistema com controle de acesso bilateral, mesmo que parcial, questionaria fundamentalmente essa base eficiente da pesquisa global em ciências da vida, que foi experimentada e testada por décadas.«

Harald Meimberg, do Institute for Integrative Nature Conservation Research da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida, vê o problema no termo “recurso genético” utilizado, que é muito amplo e, portanto, também inclui material biológico, mesmo que o desenvolvimento de uma aplicação de é muito improvável. “Portanto, a rigor, todas as informações da sequência digital seriam controladas e o atual sistema produtivo de pesquisa biológica seria inviabilizado”, diz Meimberg.

De acordo com Jens Freitag, chefe do escritório do Instituto Leibniz de Genética Vegetal e Pesquisa de Culturas em Gatersleben, a solução pode ser um meio-termo. Ele defende continuar a permitir o livre acesso aos bancos de dados DSI para treinamento, pesquisa e ciência. O uso comercial de dados genéticos por empresas, por outro lado, poderia estar sujeito a um imposto.

 


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].