No Brasil, a prova final de que a compatibilidade entre Capitalismo e democracia é uma falácia

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A ideia de que o Capitalismo é o lugar das realizações humanas, assumindo que as mesmas são sintetizadas pelo pleno acesso ao consumo de bens, mesmo os completamente desnecessários, vem sendo impulsionada com mais força após o colapso da União Soviética.  A disseminação dessa concepção ideológica de que o Capitalismo é o sistema que nos governará pelo resto da existência da eternidade é composta ainda com a inclusão de que ele nos oferece formas superiores da liberdade humana, a começar pela decisão de sermos essencialmente individualistas, mesmo em face das piores manifestações do eldorado capitalista sobre nossos semelhantes e, por extensão, sobre o nosso planeta.

O que raramente dito é que a democracia liberal de inspiração burguesa é meramente um artefato constituído para manter-se a impressão de que há efetivamente no Capitalismo válvulas de escape para a inerente acumulação desigual da riqueza em que o sistema está estruturado. Na prática, quaisquer avanços democráticos com efeitos distributivos sempre exigiram que houvesse processos de mobilização radicais por parte da classe trabalhadora.  Se deixada por si só, a burguesia não poderia ligar menos para os valores liberais que foram constituídos para garantir a hegemonia capitalista na Europa ainda no Século XVIII pelos pensadores iluministas, mais destacadamente os ingleses e franceses. 

Se olharmos para como o Capitalismo se constitui nas suas regiões periféricas, onde o Brasil está firmemente colocado pela forma particular pela qual o sistema se implantou por aqui, veremos que nem há por parte da burguesia brasileira maiores pruridos em impor um sistema avassalador no que tange à concentração da riqueza e a produção de desigualdades sociais.  E também aqui só ocorreram avanços quando as forças menos reacionárias pressentiram que tudo poderia vir abaixo se algumas concessões mínimas não fossem concedidas. Afora estes poucos momentos, a burguesia brasileira não tem qualquer tipo de pudor em aprofundar ainda mais a exploração da maioria dos brasileiros, garantindo para si a manutenção de vidas nababescas e desconectadas da realidade miserável em que vivem os trabalhadores.

Por isso tudo é que não é difícil entender como foi possível para um presidente tão claramente impopular como Michel Temer aplicar uma série de contrarreformas que apagam as poucas conquistas que foram arrancadas pela classe trabalhadora brasileira ao longo do Século XX. Temer consegue fazer isso porque possui a benção das oligarquias reacionárias que mandam no Brasil. 

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Essa é a verdade nua e crua.  O problema é que vê-la iria demandar que existissem partidos políticos e movimentos sociais que estivessem dispostos a não apenas de aceitá-la, mas também se dispor a mudá-la.  Lamentavelmente por mais grave que seja a atual conjuntura histórica a maioria dos que ocupam o espectro dito de esquerda ainda parecem sonhar com ganhos incrementais e não num ataque frontal contra as estruturas criadas pela burguesia brasileira manter tudo no seu devido lugar desde que as bases da economia nacional foram lançadas pelos conquistadores portugueses no Século XVI.  Assim, qualquer mudança que venha a ocorrer vai demandar que haja a superação da visão de que a maior parte da energia existente seja gasta em instituições sem qualquer chance de serem efetivamente democráticas.

Meritocracia que nada, o negócio dos ultrarricos brasileiros é concentrar renda

O jornal espanhol El País publicou hoje um artigo assinada pela jornalista Marina Rossi sobre um estudo realizado pela OXFAM Brasil sobre o nível de desigualdade de renda entre os brasileiros que contém uma informação que escancara a abissal diferença que existe entre os brasileiros: seis ultrarricos [ Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim)] detém mais riqueza que os 100 milhões mais pobres da nossa população [1]

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Ao buscar mais informações na página oficial da própria OXFAM Brasil encontrei o documento na qual a matéria do El País foi baseado sob o título de “A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras” e que também foi publicado nesta 2a. feira (25/09).

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O principal elemento que salta das diversas variáveis incluídas neste documento é que persistem profundas desiguldades na divisão da riqueza entre os brasileiros. Além disso, há uma série de barreiras para que essa desigualdade seja significativamente diminuída. 

E aquela conversa de que o problema do Brasil é que não prezamos a meritocracia no funcionamento na nossa sociedade? Só conversa mesmo, pois não há como sequer mencionar a aplicação de critérios de meritocracia onde tão poucos têm tanto e tantos têm tão pouco.

Quem desejar acessar e baixar o documento da OXFAM Brasil basta clicar [Aqui!].


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/22/politica/1506096531_079176.html

New York Times produz matéria sobre como indústria de alimentos viciou o Brasil em junk food

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou ontem uma esclarecedora matéria sobre a ação da indústria dos alimentos processados para literalmente viciar a população brasileira em alimentos processados, com um título igualmente esclarecedor “Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food”.  Como mostram os jornalistas Andrew Jacobs e Matt Richtel, os efeitos desta ação premeditada de empresas como a Nestlé, Coca Cola, Pepsi Cola e a McDonald´s tem sido a ocorrência de um nível sem precedentes de aumento do nível de obesidade e todas as condições que a ela estão relacionadas, incluindo hipertensão arterial e diabetes.

Como a matéria foi preparada de forma meticulosa e está rica em informações, a minha sugestão é que todos acessem a versão em português (a matéria foi publicada em inglês, espanhol e português). Para tanto, basta clicar no link que está no final desta postagem [1].

Mas posto abaixo algumas das imagens publicadas na reportagem, as quais demonstram que segmentos mais pobres da população brasileira estão entre os alvos preferenciais dessa ação da indústria dos alimentos processados.

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[1] https://www.nytimes.com/2017/09/16/health/brasil-junk-food.html

 

Reflexões dominicais sobre a dolorosa situação da Uenf como espelho do Brasil

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Por Luiz Henrique Moraes*

Hoje me deparei com uma lembrança que ocorreu no setor onde trabalho, em fevereiro deste ano.

No recesso da universidade onde trabalho como de costume uma aluna chegou e solicitou um nada consta do setor. Durante meses eu assinava este documento para liberar os alunos devido a sua colação de grau; diplomação; trancamento/cancelamento de matrícula. O intuito é liberar a situação do graduando ou graduado.

Nesta atribuição que em determinado dia uma moça chegou e me pediu o nada consta, primeiro perguntei se era para “colação de grau” mas a moça não respondeu enquanto preenchia o documento. Em poucos segundos percebi seu choro que prendia e ao flagrar tal situação lhe ofereci a cadeira para sentar e um copo de água para se acalmar. 

Nesta situação de desespero li no documento da menina que optava pelo “cancelamento da matrícula”. O que pensei em um milhão de coisas ao mesmo tempo. A levei para o corredor, orientei sobre o que tinha de fazer dali em diante e para acalma-la; falei que também tive de fazer o mesmo tempos atrás devido às dificuldades da vida, pois não é fácil largar um curso superior. Você batalha para ingressar e depois tem de deixar por vários problemas.

Foi uma situação dolorosa e que nunca vou esquecer. O desmonte da universidade pública, da Uenf e da Uerj, além da Faetec tem muito a ver com este descalabro. Os governos, nossas autoridades promovem o desmonte das políticas de ciências e tecnologia, e de inclusão social para os jovens, especialmente os mais vulneráveis. 

Cada soluço ouvido, cada lágrima observada, os olhos avermelhados e o seu semblante triste denunciam a desesperança, simbolizam o resultado de políticas nefastas que nos destroem por dentro. 

A Uenf não tem segurança, com muita dificuldade está funcionando, há falta de materiais básicos de higiene, limpeza e conservação. Materiais de escritório e para realização de pesquisas em laboratório. 

No entanto o pior é a saúde mental das pessoas, os recursos humanos da instituição. O choro preso significa algo doloroso. Também significa nossas fragilidades como ser humano, como cidadão, como pessoas na sociedade.

Naquele dia parei para pensar o que ela faria dali em diante. O país parou. Parou e não sabemos quando voltará a andar. Só digo que foi muito doloroso, até hoje.

*Luiz Henrique Moraes é servidor da Universidade Estadual do Norte Fluminense e aluno do curso de Engenharia Ambiental do Instituto Federal Fluminense/ campus Guarus.

 

Revolução e contrarrevolução na Alemanha: um ótimo guia para entender o avanço do fascismo no Brasil e no mundo

Em tempos de manifestação aberta de grupos neofascistas e neonazistas em várias partes do mundo há uma corrente desinformação não só sobre a gênese dos movimentos originais ocorridos na Itália e na Alemanha e uma evidente incapacidade de entender os componentes sociais desse ressurgimento, bem como do papel que esses saudosistas de Benito Mussolini e Adolf Hitler desempenham no centro e na periferia do sistema capitalista.

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Para quem desejar entender melhor o contexto e as condicionantes que permitiram a ascensão do nazi-fascismo, eu recomendo a aquisição da obra “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que é o resultado da combinação de uma série de textos escritos por Leon Trotsky entre 1931 e 1933, tomando como caso exemplar o Partido Nacional Socialista de Alemanha. 

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Como não vou  resenhar aqui o livro como um todo, me aterei a dois aspectos que considero fundamentais do livro e que me parecem permanecerem bastante atuais, inclusive para o caso brasileiro.

A primeira se refere ao que Trotsky se referiu a um apelo da pequena burguesia para abraçar o Fascismo para superar os movimentos de grave crise econômica, como é o que vivemos atualmente no mundo e no Brasil. Em relação a isso, Trotsky apontou para o caráter dúbio da pequena burguesia que pode tanto abraçar a revolução como a contrarrevolução. No caso da Alemanha da década de 1930. Trotsky afirmou que “o desespero contrarrevolucionário abraçou a massa pequeno-burguesa com tal força que atraiu importantes camadas do proletariado“.  Qualquer semelhança do que afirmou Trotsky sobre a Alemanha não pode ser negado como mera coincidência com o que andamos vendo no Brasil e também nos EUA em pleno 2017.

A segunda questão que trago desta obra de Trotsky se refere ao processo de fascistização do aparelho de Estado. Neste caso Trotsky apontou que a “fascistização do Estado significa (…) antes de tudo e, sobretudo, destruir organizações operárias, reduzir o proletariado a um estado amorfo, criar um sistema de organismos que penetre profundamente nas massas e esteja destinado a impedir a cristalização independente do proletariado. É precisamente nisto que consiste a essência do regime fascista”.

Essa referência ao processo de fascistização do Estado, além de ser uma primorosa caracterização, também nos auxilia a desmascarar a lenda de que os nazifascistas (ou mais precisamente os nazistas) eram de esquerda.  É que os eventuais vícios que a esquerda cometeu após a Revolução Russa, dificilmente envolverão o receituário apontado por Trotsky em relação à tomada do Estado pelo Fascismo.

Mas o essencial aqui é que a análise de Trotsky nos permite sair do aparvalhamento em que muitos estão imersos neste momento em relação ao aparecimento público de grupamentos que não tem a menor vergonha de pregar a eliminação física de judeus, negros, imigrantes e homossexuais.  É que a partir do entendimento das bases teóricas identificadas no  “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que podemos entender as cenas que reproduziam mensagens nazifascistas nas manifestações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, e agora foram repetidas em um tom ainda mais alto nas manifestações em Charlottesville. 

E que ninguém se engane: o nazifascismo representa a expressão mais aguda do caminho sem saída do regime burguês. Foi assim na Alemanha, e está sendo assim no Brasil e nos EUA.

Ah, sim, o livro pode ser encontrado para compra na Estante Virtual [1] e ou em algumas livrarias mais diversificadas em várias partes do Brasil.


[1https://www.estantevirtual.com.br/

Greve geral em andamento, mas fora das manchetes da mídia corporativa

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O dia de “Greve Geral” convocado pelas centrais sindicais e movimentos sociais está causando embaraços reais nas principais cidades e capitais brasileiras, mas não estão ganhando o devido espaço na mídia corporativa.  Parece que os donos dos veículos de mídia insistem na tecla do que aquilo que eles não mostram, não existe.

Mas como o monopólio da informação já foi abalado faz tempo pela forma mais fluída e rápida de disseminação da informação que as redes sociais oferecem, as imagens indicam uma mobilização massiva em várias partes do Brasil. E isso apesar do corpo mole das centrais sindicais que convocaram, mas não trabalharam com devido afinco pela greve geral. 

O fato é que o presidente “de facto” Michel Temer e seus satélites que comandam a destruição de direitos sociais nos governos estaduais estão recebendo hoje mais uma sinalização da profunda oposição que a população brasileira tem por suas medidas de destruição de direitos e garantias sociais.

Abaixo cenas deste dia de mobilização em diferentes partes do Brasil.

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Para os que desejarem ter informações em tempo real das mobilizações do dia de hoje, sugiro os sites abaixo:

https://www.brasildefato.com.br/

http://www.esquerdadiario.com.br/

https://www.brasil247.com/

E antes que me esqueça: Fora Temer, Fora Pezão!

Lula e o segredo da esfinge da luta classes no Brasil

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Militei no Partido dos Trabalhadores (PT) de 1981 a 1990 e objetivamente passei esses anos todos utilizando o máximo da minha energia para a construção de um partido que permitisse elevar a consciência de classe da classe trabalhadora.  Quis o destino que eu passasse quase 7 anos fora do Brasil, e quando voltei em 1997 o partido que eu havia ajudado a construir tinha começado seu inexorável movimento pendular para a direita, tendo como seus timoneiros Lula e José Dirceu.

A minha decisão já no momento da volta foi de me afastar do PT e adotar uma posição de distanciamento da militância partidária, optando por usar o meu conhecimento na formação de jovens pesquisadores que olhassem a realidade brasileira com lentes críticas que eventualmente ajudariam a consolidar um processo de entendimento útil para a transformação da nossa abjeta realidade social.

Ao longo dos anos de dominância do PT e de seu projeto de conciliação de classes fui um crítico quase solitário das múltiplas mazelas da visão neodesenvolvimentista que foi aplicada para injetar centenas de bilhões de recursos públicos em projetos capitalistas que eram social e ambientalmente destrutivos, vide o caso lapidar do Porto do Açu.  A própria aproximação do ex-bilionário Eike Batista das hostes petistas foi para mim uma confirmação de que o PT está literalmente perdido no sentido de um projeto de transformação da sociedade brasileira. O PT é acima de tudo um partido da ordem social que seus dirigentes buscam preservar a todo custo, em que pesem os custos pesados que eles mesmos recebem das elites ingratas a quem tão bem servem.

Agora, convenhamos, apesar de todos esses elementos, seria um erro primário desconsiderar o alcance que a figura política de Lula ainda possui para milhões de  brasileiros pobres e, por isto mesmo, é tão grande a perseguição para que ele se ajuste ainda mais à defesa da ordem. Essa pressão que ora aparece na forma de pressões judiciais não é nova, mas assume todos de caricatura jurídica para garantir que Lula siga cumprindo seu papel de artífice da conciliação de classes.

Nesse quadro todo fica ainda mais evidente o despreparo e a inépcia dos chamados partidos da esquerda revolucionária para romper a bolha do petismo nos movimentos sociais e sindicatos. Eu pessoalmente associo essa incapacidade a uma falta de superação da crise causada pela implosão da URSS da qual a maioria da esquerda mundial ainda se ressente. Nesse sentido, a persistência do ônus da dominância stalinista na esquerda mundial surge no Brasil como um espectro que impede o florescimento de alternativas reais a Lula e ao PT. Para somar a isso há ainda a armadilha das multi identidades que foi imposta para fragmentar a classe operária, de forma a impedir que se possa superar a crise na organização mundial do proletariado. 

Tal situação impõe tarefas claras para o período imediato, na medida em que os ataques aos direitos dos trabalhadores somente tenderão a aumentar.  Mas para que haja uma solução de fato há que se superar a fragmentação na esquerda no interior dos estados nacionais e que se parta para a formação de algo que se assemelhe a um organização mundial.  Essa é a tarefa pendente desde que Josef Stalin domesticou a III Internacional ao seu projeto de “socialismo em um só pais”. Resta saber se haverá disposição para enfrentar essa tarefa hercúlea. 

Enquanto isso, querendo ou não, viveremos na dependência da disposição de Lula para minimizar os estragos que sua própria política de conciliação de classes vem causando aos trabalhadores brasileiros. Não deixa de ser um “catch 22”, mas é o que temos para o momento. E como dizia o coelho Pernalonga ao fim de cada um dos seus episódios… That´s all folks!

PL 4330 institucionaliza a  burla, diz Ricardo Antunes

Para sociólogo e professor do IFCH, projeto que regulamenta a terceirização “equivale a uma regressão à escravidão no Brasil”

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O Projeto de Lei 4330, que regulamenta a terceirização nas empresas brasileiras e autoriza que as companhias terceirizem também suas atividades-fim é “nefasto” e “vilipendia” o trabalhador brasileiro, disse o professor Ricardo Antunes, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. “Mantidas as devidas proporções entre tempos históricos diversos, ele equivale a uma regressão à escravidão no Brasil”, declarou Antunes. Um pesquisador de Sociologia do Trabalho reconhecido mundialmente, Antunes lança neste mês a edição comemorativa de 20 anos de seu já clássico “Adeus ao Trabalho?” e o terceiro volume da série “Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil”, organizada por ele, que reúne ensaios de pesquisadores brasileiros e internacionais.

Nesta entrevista, Antunes fala sobre os efeitos e o significado do PL 4330 – já aprovado pela Câmara dos Deputados, aguardando votação no Senado Federal – e oferece réplica aos principais argumentos apresentados pelos defensores da proposta, incluindo o de que a lei estende uma série de proteções legais aos terceirizados. “É curioso ver a presidência da Fiesp (Federação das Indústria do Estado de São Paulo), a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) de repente se tornarem defensoras dos direitos dos trabalhadores terceirizados”, comentou ele, com ironia. O pesquisador também tratou do papel do trabalho na economia globalizada pelo capital financeiro e das perspectivas para o futuro.

“A humanidade no século 21 é absolutamente imprevisível. Quem pode dizer que este capitalismo é inevitável? O capitalismo tem dois séculos, a humanidade tem milênios”, disse. “O que virá depois? Não sei, mas podemos ter nossas apostas, nossas reflexões, nossas paixões. O espetacular disso é que desvendar o enigma do trabalho me ajudou a compreender o desenho da sociedade que temos hoje. E essa compreensão só pode ser crítica. Só pode ser agudamente crítica”. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

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Jornal da Unicamp – É correto dizer que o PL 4330 “rasga” a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ou isso é um exagero?

Ricardo Antunes – Ele rasga a CLT porque acaba com o contrato entre trabalhadores e empresas, regido pela CLT, e estabelece uma relação entre a empresa contratante e a contratada. Esta relação negocial entre empresas macula a relação contratual entre o capital e trabalho. Então, nisso, ele rompe o princípio básico da CLT. E tem, feitas as devidas diferenciações, o efeito de uma regressão a uma sociedade do trabalho escravo no Brasil, ainda que seja uma escravidão típica deste século 21.

JU – Mas por quê? O que há no projeto que deixa os trabalhadores desprotegidos?

Ricardo Antunes – O artigo quarto deste projeto é a chave analítica para compreendê-lo. Esse artigo diz que as atividades terceirizadas passam a incluir as atividades inerentes, suplementares e complementares da empresa. Com isso, o projeto arrebenta a súmula do Tribunal Superior do Trabalho que distinguia entre atividade-meio e atividade-fim. Ao fazer isso, ao invés de beneficiar efetivamente os terceirizados, ela vai levar a lógica da terceirização, que incide sobre cerca de 13 milhões de trabalhadores e trabalhadoras hoje, para 40 milhões, 45 milhões. 

E qual é a realidade concreta do terceirizado, hoje? É sobre esse contingente que incidem as mais altas taxas de acidentes de trabalho e as maiores burlas da legislação protetora do trabalho. Nossa pesquisa, nos três volumes do “Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil”, tem depoimentos que mostram trabalhadores que não têm férias há 3 anos, nem de um dia. Os trabalhadores terceirizados terminam um trabalho, vão atrás de outro, não podem dizer agora vou tirar férias, entende? Aqui, é preciso enfatizar a questão de gênero: são trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas – contemplando a importante divisão sócio-sexual do trabalho – que nos permitem dizer que a exploração do trabalho terceirizado agride ainda mais intensamente a mulher trabalhadora.

E os terceirizados (homens e mulheres) trabalham mais tempo do que aqueles que são regulamentados pela CLT.  E recebem em torno de 25% a menos, às vezes 30% a menos, no salário. Então, são os que sofrem mais acidentes, são os mais penalizados, e são os que não conseguem criar organização sindical para se proteger, porque a rotatividade é muito grande, o que dificulta essa organização.

JU – Mas os proponentes do projeto dizem que ele traz salvaguardas para corrigir essas distorções, como a responsabilidade solidária entre a empresa contratante e a contratada.

Ricardo Antunes – Eles sabem mais do que ninguém que essas salvaguardas não são salvaguardas. Imagine uma terceirizada que trabalha aqui no setor de limpeza da nossa Universidade. Se ela é demitida, ela tem condições de sair daqui, pegar um ônibus, ir para o fórum, contratar um advogado, entrar na justiça do trabalho, prestar depoimento, esperar dois, três, cinco anos, dez anos…? Então, o patronato sabe melhor que ninguém que essa é a salvaguarda da burla. Esta é a questão. Nós não temos um preceito constitucional que estabelece que o salário mínimo deveria garantir a vida digna do trabalhador, da trabalhadora, sua alimentação, saúde, previdência, cultura, lazer? Pois é. Com menos de 800 reais por mês, esses atributos constitucionais estão sendo efetivados ou burlados?

Então, as ditas salvaguardas – e o empresariado sabe melhor do que ninguém isso – são facilmente burláveis. Isso é tanto verdade que semanas atrás o ministro Levy [Joaquim Levy, ministro da Fazenda] foi ao Congresso manifestar preocupação com a perda de arrecadação por causa desse projeto. E por que vai ter menos arrecadação? Porque a burla é evidente. E o governo sabe melhor disso. 

Se quisessem fazer uma lei para defender esses 12 milhões que já estão terceirizados, é muito simples: aprovamos um novo projeto, mas eliminando-se o artigo quarto, que estende a terceirização para as atividades-fim. Por que isto não ocorre? Porque o real objetivo deste PL não é regulamentar os terceirizados, mas sim destruir os direitos dos regulamentares. Esse é o fulcro da questão: o projeto destrói a relação capital e trabalho construída no Brasil desde a década de 30, mesmo com todos os seus limites!

Minha posição é cristalina neste ponto: o trabalho terceirizado avilta, subjuga e depaupera ainda mais os 12 milhões de terceirizados.  Temos que ter, então, a coragem de dizer de modo claro: somos contra a terceirização. Em nossas pesquisas nunca nos deparamos com trabalhadores e trabalhadoras satisfeitas com esse trabalho. Eles e elas aceitam porque é esse trabalho ou o desemprego. Mas isso não deveria ser assim.

E em relação ao caso da responsabilidade solidária: alguém acredita mesmo que uma empresa, ao contratar, digamos, 3 mil trabalhadores de uma terceirizada vai conferir, um a um, o registro, o pagamento dos direitos… Se estivéssemos na Noruega, eu teria dúvidas. No Brasil, não paira dúvida: teremos mais burla.

JU – Há o argumento de que não haverá precarização para os trabalhadores das atividades-fim, porque eles exercem atividades consideradas mais nobres do que as dos atuais terceirizados. E, também, de que seria antieconômico realizar uma terceirização ampla de atividades-fim, logo não há o que temer nesse campo.

Ricardo Antunes – Esse argumento me faz recordar o título da peça de Shakespeare, “Sonho de uma Noite de Verão”. Vamos ver uma atividade tida como nobre? Pilotos de avião. Se os pilotos das grandes companhias aéreas de hoje, com direitos garantidos, sindicatos organizados, já sofrem com a intensificação do trabalho – outro dia vi um depoimento gravado de dois pilotos em que eles diziam, “olha não estou aguentando mais, não sei se vou conseguir aterrissar porque estou sem dormir, não estou mais vendo nada na minha frente…” – se assim é numa atividade regulamentada, se assim é onde o sindicato dos pilotos é forte… Se assim é com os médicos nos hospitais, se assim é com os professores, se assim é em tantas categorias regulamentadas e bem organizadas, é possível imaginar que vai ficar melhor quando esses trabalhadores tornarem-se terceirizados?

Então é preciso dizer: este projeto traz mais vilipêndio ao trabalho. Não é possível imaginar que ele vá trazer melhorias. O empresariado sabe melhor do que ninguém que é mais fácil demitir no regime da terceirização total.

Quanto à outra questão, sim, muitas empresas não vão necessariamente terceirizar a atividade-fim. Mas poderão terceirizar na hora que quiserem. Então, o fato de um empresário ou de um gestor não terceirizar a atividade-fim passa a ser uma opção dele. Se há crise, para que ficar pagando fundo de garantia e demais direitos? E atenção: nenhum trabalhador tem o direito garantido se não entrar na Justiça do Trabalho. Os terceirizados têm tempo e condições de ficar atrás dos seus direitos, ou se exaurem cotidianamente para ganhar o pão de cada dia?

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JU – Mas se é apenas uma questão de ganância empresarial, por que o setor público também busca terceirizar atividades? Não seria um movimento inevitável?

Ricardo Antunes – O problema é mais complexo do que “ganância”. É preciso ver que o mundo que temos hoje é moldado pelo capital financeiro. E esse capital financeiro não é só banco, são os bancos, as indústrias, as fusões de bancos e indústrias, controladas pelas grandes corporações financeiras, além do capital fictício, onde o dinheiro vira mais dinheiro pela especulação.

Assim, o capital financeiro está profundamente vinculado ao setor produtivo. E vou dar um exemplo muito simples: quando você vai comprar um automóvel, no passado, se você fosse pagar à vista, você seria um cliente espetacular, VIP. Hoje, o cliente VIP não é o que paga à vista. É o que compra o automóvel caro e o financia. Porque, desse modo, tanto a indústria automobilística, como seu braço financeiro, ganham duplamente, na produção e no financiamento.

Esse capital financeiro – dado que não consegue se libertar de vez do trabalho – pressupõe um trabalho corroído nos seus direitos. Quer uma empresa flexível, fluida, que eu chamei nos meus livros de empresa “liofilizada”, que tem cada vez menos trabalho vivo e mais maquinário informacional-digital.  Esse é o fulcro da racionalidade neoliberal: a empresa racional, no plano microcósmico, é enxuta, flexível, lépida e faceira. E para ser assim ela precisa desconstruir os direitos do trabalho, para que os trabalhadores possam entrar e sair como peças descartáveis. A empresa quer fechar sua unidade em São Paulo e ir para a China sem se preocupar com custos de demissões, direitos etc.

O trabalho vira uma espécie de sanfona. O mercado requer trabalhadores e trabalhadoras, ampliam-se os terceirizados. Quando o mercado se retrai, demissões flexíveis, ágeis e rápidas, sem custos. Só que a classe trabalhadora não pode ficar perambulando dessa forma.

Agora você pergunta, é inevitável que seja assim? Essa é a tese do Fukuyama [Francis Fukuyama, filósofo e cientista político americano, autor da tese do “Fim da História”], mas não foi a tese do Occupy Wall Street. Occupy Wall Street foi muito importante, porque pela primeira vez, depois de décadas, nos EUA, houve uma rebelião de massa dizendo que 1% se apropria do bolo global, e 99% ficam com o farelo.

Além disso, a resistência e organização da classe trabalhadora são vitais. Por que o trabalho é mais precarizado, mais terceirizado nos Estados Unidos do que na Alemanha? Porque o movimento sindical na Alemanha resistiu mais fortemente. Por que o trabalho é mais precarizado na Inglaterra? Lá existe uma modalidade de contrato, o “Zero Hour Contract” (contrato de zero hora), em que o trabalhador fica com o celular ligado, um dia, dois dias, três dias… Se receber um chamado, ele tem que automaticamente atender. E ganha por esse chamado. Se não receber chamado, não ganha nada, mas tem que ficar à disposição.

E por que na Inglaterra existe essa flexibilização, maior do que, por exemplo, na França? Por causa do neoliberalismo inglês, que se iniciou com Margareth Thatcher, continuou com John Major e depois, tragicamente, com o aparentemente trabalhista, mas de alma profundamente neoliberal, Tony Blair. Lá ocorreu uma devastação dos sindicatos e da legislação protetora do trabalho, enquanto que na França as centrais sindicais conseguiram preservar mais direitos. Uma década atrás, na França, houve inclusive uma greve muito importante para barrar o chamado Contrato de Primeiro Emprego, que precarizava o primeiro emprego. Ela reuniu estudantes que perceberam que o 1º emprego era a porta de entrada para a escravidão moderna, e os trabalhadores já inseridos, que perceberam que, se passasse a precarização para os trabalhadores jovens, logo eles também seriam afetados.

JU – E quanto à terceirização no setor público?

Ricardo Antunes –  Me parece um equivoco dizer que o neoliberalismo quer acabar com o Estado. O neoliberalismo quer destruir as atividades públicas: saúde pública, educação pública, previdência pública, e ao mesmo tempo fortalecer, no Estado, tudo aquilo que garante os fundos públicos para interesses privados. Por exemplo, uma crise pesada como a de 2007 na Inglaterra, de 2008 nos EUA, qual foi a função do governo? Intervenção nos bancos para salvá-los, intervenção na General Motors para salvá-la. E para isso é preciso tirar dinheiro da saúde, é preciso tirar dinheiro da previdência, é preciso privatizar ainda mais a previdência, a saúde, a educação. Esta é a lógica da racionalidade neoliberal. E essa lógica invadiu o setor público, no caso brasileiro, com muita ênfase na década de 90. Foi um dos pontos mais nefastos do governo Fernando Henrique. E a terceirização, no setor público, traz economia? Não é claro isso. O que é claro é que, no Estado, a terceirização aumenta também os focos de corrupção.

E se você levar a lógica privada ao setor público, imaginando que vai melhorar, vamos ter uma verdadeira desfiguração do sentido essencial que deve reger a atividade pública. Um hospital público deve oferecer saúde pública, uma escola pública deve educar gratuitamente, e o mesmo deve se passar na universidade pública.

Por que há uma diferença brutal entre universidade pública e a faculdade privada? Porque as primeiras, as públicas, são regidas por padrões científicos, contratos de trabalho que permitam o tempo de pesquisa, o tempo da ciência. As faculdades privadas, ao contrário, são regidas prioritariamente por padrões mercantis. É isso que queremos para o Estado? Que ele se torne uma empresa guiada pela lógica da mercadoria, das commodities? Não é possível que isso seja implementado sem resistência.

JU – Há quem diga que a terceirização, mesmo não sendo o ideal, se tornou uma necessidade econômica para o Estado, que está sem dinheiro.

Ricardo Antunes – Quanto do PIB brasileiro vai para o pagamento dos juros da dívida pública e quanto vai para o Bolsa Família? A Dilma nomeia o Levy para fazer o ajuste fiscal penalizando os trabalhadores e, ao mesmo tempo, aumenta os juros da dívida pública, eliminando a economia feita pelo ajuste nas contas. Ou seja, não há inevitabilidade, o que há é uma opção política: que Estado queremos? Qual o Estado que o mundo financeiro impõe?

JU – Como é o cenário global do trabalho desregulamentado e terceirizado?

Ricardo Antunes – Há uma empresa na China, a Foxconn, que tem até atividade no Brasil, que é emblemática: ela não tem produtos próprios, é uma terceirizada global, que monta aparelhos, por exemplo, para a Apple. A Foxconn, em 2010, teve cerca de  17 tentativas de suicídio na China, isso está documentado pela  organização Sacom (Students and Scholars Against Corporate Misbehaviour, “Estudantes e Estudiosos contra o Mau Comportamento Empresarial”) e por vários pesquisadores do tema.  Dessas tentativas, sete resultaram em morte. Por que isso? Porque havia intensa exploração do trabalho, assédio moral, físico e até assédio sexual… Esses suicídios lembram um pouco a escravidão: o suicídio era uma forma de luta individual contra a escravidão, de quem não tinha mais nada a perder. Entre morrer pelo exaurimento corpóreo e psíquico no trabalho, o suicídio podia abreviar a tragédia. E são jovens chineses, jovens operários. A intensidade da exploração era tão completa que houve uma intensa campanha de denúncia e a Apple foi obrigada a pressionar a Foxconn, para impedir que sua imagem fosse maculada. E todos sabem que um dos segredos do sucesso da Apple é a montagem de seus produtos nas plantas asiáticas. Essa é a sociedade global, com suas cadeias produtivas globais…

Por que a China, nos últimos anos, tem tido altos níveis de greve? Há estudos importantes sobre a intensidade das greves na China, muitas consideradas “selvagens”, no sentido de que não têm uma organização sindical, pois são espontâneas. E pouco tempo atrás, nos Estados Unidos, houve uma grande greve dos trabalhadores das empresas de fast-food. No Japão, há trabalhadores que praticamente moram em cybercafés, os “refugiados em cybercafé”, que saem do trabalho contingente e vão para os cafés para interagir via internet, procurar emprego para o dia seguinte e descansar, pois não têm condições de alugar um quarto.  

Não é possível que seja esse o desenho do mundo do trabalho que queremos. E o estudo do trabalho é importante porque ele é parte da anatomia dessa forma societal destrutiva que estamos vivendo hoje em relação ao trabalho.

E essa é a conclusão que consta de meu livro “Os Sentidos do Trabalho”: o trabalho que estrutura o capital, desestrutura a humanidade. E o trabalho que estrutura a humanidade, desestrutura o capital. E esse parece ser um imperativo do século 21.

 

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FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/624/pl-4330-institucionaliza-burla-diz-ricardo-antunes

Quando os escravos somos nós. Salários de trabalhadores chineses já ultrapassam os dos brasileiros

Em geral o brasileiro tende a se comparar com países onde se pode tirar algum tipo de senso de superioridade. Essa é uma daquelas características que um povo que ainda se mantém aferrado às estruturas herdadas de sua origem colonial tende a manter em que pese a irracionalidade disto. Por isso, até bem recentemente toda vez que era necessária uma comparação para nos sentirmos superiores a bola da vez era a China e seus salários tidos como de escravos. 

Pois bem, agora para alcançarmos essa sensação ilusória de superioridade será preciso procurar outra “vítima”. É que como mostra o insuspeito “Financial Times” em uma matéria assinada pelo jornalista Steve Johnson e que foi publicada no último dia 26 de Fevereiro, os salários pagos aos trabalhadores chineses já supera a dos brasileiros e se aproxima do que recebem portugueses e gregos (Aqui!).

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Como mostra a figura abaixo, enquanto o valor da hora trabalhada nas indústrias chinesas passou de 1,20 para 3,60 Euros entre 2005 e 2016, no caso brasileiro no mesmo período houve uma queda de 2,90 para 2,70 Euros no mesmo período. Aliás, interessante notar que na América Latina apenas o Chile paga melhores salários do que a China.

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Mas a melhora nos salários não se resumiu apenas ao ramo industrial, pois como mostra Steve Johnson, os ganhos salariais chineses estão disseminados em todos os ramos de trabalho, já que o valor médio da hora trabalhada passou de 1,50 para 3,30 Euros entre 2005 e 2016 (ver figura abaixo).

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Entretanto, provavelmente para choque dos neoliberais brasileiros que leem o Financial Times, as corporações multinacionais que atuam na China continuam lucrando bastante já que os aumentos salariais foram acompanhados em aumentos de produtividade por parte dos trabalhadores, no que pode ser rotulado de um jogo de “win-win“, ou seja, um jogo onde todos ganham.

Agora, vamos ver como reagem os sindicatos que paulatinamente vem aceitando acordos que precarizam as condições de trabalho e os salários dos trabalhadores brasileiros. Uma coisa é certa: não vão poder mais olhar para a China como um exemplo de país onde os trabalhadores são tratados como escravos. É que está cada vez mais claro que os escravos mesmos somos nós.

 

Estudo identifica agrotóxicos mais frequentes em alimentos consumidos no Brasil

Entre as substâncias autorizadas no País está o brometo de metila, utilizado como inseticida e para o controle de pragas

Por – Editorias: Ciências Agrárias, Ciências da Saúde

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De acordo com estimativas, o brometo de metila é o agrotóxico mais encontrado nos alimentos consumidos rotineiramente pela população brasileira – Foto: Agência Brasil

A dieta dos brasileiros é rica em agrotóxicos, inclusive os mais tóxicos. Ao cruzar os dados sobre o que come habitualmente a população brasileira com a lista de agrotóxicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a serem aplicados na cultura desses alimentos, pesquisa realizada na USP identificou 68 compostos que excediam o valor de ingestão diária aceitável de acordo com limites estabelecidos pela própria Anvisa.

Entre os 283 agrotóxicos verificados, o brometo de metila (BM) – pertencente à classe dos inseticidas, formicidas e fungicidas e listado como extremamente tóxico – foi a substância com maior estimativa de frequência nos alimentos. Os resultados fazem parte da dissertação de mestrado de Jacqueline Mary Gerage, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em 2016. A ideia foi avaliar o risco de exposição crônica de agrotóxicos na dieta da população, sabendo-se do uso regular dessas substâncias em cultivos como arroz, feijão, soja e frutas.

A mesma substância também foi identificada por meio de outra pesquisa da Esalq, cujo enfoque foi estimar a ingestão de agrotóxicos a partir da dieta dos alunos das escolas urbanas da rede municipal de ensino da cidade de Guariba, interior de São Paulo. Os dois trabalhos tiveram a orientação da professora Marina Vieira da Silva, do Departamento Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq.

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Alimentos potencialmente contaminados por agrotóxicos autorizados também estão na dieta de alunos da rede pública de ensino – Foto: Gilberto Marques/SEE-S

O BM é um gás que age como inseticida para desinfestação de solo, controle de formigas e fumigação de produtos de origem vegetal. Mata insetos, fungos e bactérias, ervas daninhas ou qualquer outro ser vivo presente no solo. Embora tenha esta utilidade na agricultura, Jacqueline relata que o produto é altamente prejudicial à saúde humana e ao meio ambiente. “Seu uso está em descontinuação global por causar danos à camada de ozônio e provocar riscos à saúde de trabalhadores rurais e moradores de regiões próximas às áreas de produção agrícola.” Em 1990, na assinatura do Protocolo de Montreal, houve um comprometimento de 180 países para diminuir o uso de produtos semelhantes ao BM na agricultura. O Brasil aderiu ao tratado internacional com a promessa de diminuir gradualmente o manejo ao longo dos anos

Passo a passo

Baseada em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008/2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Jacqueline obteve os alimentos que compunham a dieta habitual de 33.613 brasileiros, com idade superior a dez anos. Foram considerados 743 itens alimentares. Em seguida procurou saber da Anvisa, a quantidade de agrotóxicos que era autorizada para alimentos que compunham o banco de pesquisa, chegando a 283 compostos. Destes, Jacqueline verificou que 68 excediam o valor máximo permitido pela agência.

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Protesto no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos (2014) – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para avaliar a exposição da população aos agrotóxicos, foi aplicado o cálculo de Ingestão Diária Máxima Teórica (IDMT), que relaciona o consumo médio dos alimentos e as concentrações médias de agrotóxicos. O resultado obtido do cálculo IDMT foi então comparado ao parâmetro de Ingestão Diária Aceitável (IDA), para caracterização do risco de exposição. Apresentando valores acima do Limite Máximo de Resíduos (LMR), os índices eram considerados preocupantes. Periodicamente, a Anvisa publica informações técnicas sobre os agrotóxicos autorizados para uso no Brasil.

Apesar de este tipo de exposição não ter sido avaliado por meio da pesquisa, a especialista ressalta que na área rural há também os riscos de intoxicação aguda envolvidos com a aplicação destes produtos, ao inalar ou manipulá-los diretamente.

Já a pesquisa Ingestão de resíduos de agrotóxicos potencialmente contidos na dieta habitual de escolares foi conduzida pela nutricionista Ana Paula Gasques Meira, aluna da Pós-Graduação da Esalq, com base em informações disponíveis e na análise de dados locais que levantou. Os resultados obtidos em Guariba, cidade do interior de São Paulo, seguiram a tendência das informações observadas nacionalmente: o brometo de metila se confirmou como uma das maiores médias de ingestão. Nesta pesquisa, participaram 341 crianças e adolescentes, com idade entre 7 e 16 anos.

Dos 9 agrotóxicos cujo consumo se estima superar os limites da Anvisa…

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I II III
pertencem à classe toxicológica I 
(extremamente tóxico)
pertencem à classe toxicológica II 
(muito tóxico) 
pertencem à classe toxicológica III 
(medianamente tóxico)
O brometo de metila 
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Mais informações com Ana Paula Gasques Meira – e-mail anapuava@gmail.com; e Marina Vieira da Silva – e-mail marinavieiradasilva@usp.br

Com colaboração de Caio Albuquerque/ Divisão de Comunicação da Esalq

FONTE: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/estudo-identifica-agrotoxicos-mais-frequentes-em-alimentos-consumidos-no-brasil/