A recolonização total do Brasil, esse é o plano de Temer et caterva

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A deslegitimação do capitalismo com uma suposta face humana que Lula propôs e executou em combinação com Dilma Rousseff por meio da chamada Operação Lava Jato resultou no golpe de estado “light” que levou Michel Temer e o PSDB ao poder. 

Desde a consumação do golpe o que está se vendo é uma entrega sem precedentes das riquezas nacionais, desmantelamento dos mecanismos de amortecimento das desigualdades sociais e a destruição do sistema de regulação ambiental. De quebra, ainda tivemos a aprovação da PEC 55 que congela investimentos públicos em áreas estratégicas, mas mantém intacta a orgia rentista que enriquece poucos e faz alegria dos banqueiros nacionais e internacionais.

Ainda temos pela frente a tentativa de impor uma reforma draconiana no sistema de seguridade social que tornaria o Brasil um dos países mais difíceis para um trabalhador obter uma aposentadoria, que dirá uma aposentadoria integral.

Olhando de fora, o que está acontecendo no Brasil deveria já ter levado milhões de pessoas às ruas para derrubar um (des) governo ilegítimo e anti-nacional. Mas, convenhamos, não é isso que estamos assistindo. O governo “de facto” de Michel Temer até agora passou tranquilamente o trator sobre tudo, e com uma resistência mínima por parte de partidos da oposição, sindicatos e movimentos sociais.

Na minha modesta opinião, isso está acontecendo porque efetivamente inexiste a vontade política para organizar a resistência a este processo de efetiva recolonização do Brasil pelas grandes instituições financeiras que controlam a economia globalizada. É só observar bem para ver que quando muito temos assistido discursos pró-forma, pois organizar ações diretas contra os (des) governos que estão impondo a recolonização do Brasil que é bom, nada.

O problema dessa inação política é o aprofundamento do desgaste de determinadas forças como o Partido dos Trabalhadores, CUT e MST. Isso num primeiro momento deverá possibilitar que as medidas de recolonização passem com tranquilidade, pois as forças que restam são insuficientes para organizar e executar uma agenda de resistência. Entretanto, a alegria dos que hoje executam a agenda da recolonização poderá se transformar em tristeza se novas forças se impuserem para liderar a reação popular que inevitavelmente virá quando as pessoas comuns se tocarem do que a recolonização vai significar nas suas vidas. 

A grande questão é que o atual momento histórico reflete um processo de profundo desiquilíbrio no sistema capitalista, e a fileira de dominós poderá começar a desabar, mesmo a partir de pontos de maior insignificância na manutenção do status quo. Nesse sentido, o Brasil poderá se ver em breve no epicentro de uma grande convulsão social já que os padrões haitianos que a recolonização nos imporá serão aviltantes demais para serem aceitos pacificamente.

E é preciso notar que não faltam “pontos fracos” na América Latina a partir de onde os dominós começarão a cair, chegando até o Brasil.

As tentações nazi-fascistas por detrás da luta contra a corrupção

O combate à corrupção (seletiva eu diria) levou ontem milhares de brasileiros às ruas de cidades e capitais atendendo à convocações de grupamentos de inspiração neoliberal e/ou fascista. As pessoas atraídas para essas manifestações carregavam feições normalmente claras na pele e aparência de que, em sua maioria, provinham das classes médias e altas da sociedade brasileira.

O uso da luta contra a corrupção como instrumento de galvanização desse tipo de segmento social está longe de ser novo, basta ver o cartaz que segue abaixo do Partido Nazista Alemão que a usava em sua propaganda eleitoral.

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Mas afinal qual é o papel cumprido pela corrupção numa sociedade capitalista e é possível erradicá-la? Se olharmos os elementos práticos das diferentes formas de corrupção, este é um mecanismo eficiente de transferência de recursos públicos para o controle privado, seja por indíviduos ou empresas.  E esse mecanismo tem sido utilizado em diferentes formas e níveis desde os primórdios do Capitalismo. Então, erradicar suas diferentes manifestações é uma decisão das elites e não dos trabalhadores que são suas principais vítimas. 

Este fato gera uma contradição interna para os membros das elites, ou de setores satélites das elites, que dizem querer o fim da corrupção. É que primeiro depende deles mesmo encerrar a corrupção, em que pese o fato de que estão sempre entre os que mais ganham com sua continuidade.

Por isso é que a luta contra a corrupção é uma tigre de papel, especialmente em países de economia dependente como o Brasil. É que é aqui, pela natureza da forma particular de consolidação do capitalismo, que a corrupção é mais necessária para a expansão do sistema,  e essa necessidade ultrapassa qualquer elemento de moralidade ou ética. Apenas é uma necessidade que deve ser realizada para garantir a hegemonia das relações capitalistas de produção e ponto final.

A verdade é que a bandeira da luta contra a corrupção é essencialmente pequeno-burguesa e, por isso, a esquerda tende a secundarizá-la em nome de bandeiras mais voltadas para fazer avançar direitos sociais e o combate às distintas formas de opressão de classe.  

Se me perguntarem se é um erro deixar a luta contra a corrupção nas mãos de quem mais lucra com isso, eu diria que é mais perigoso embarcar de cabeça na defesa de uma bandeira que dificilmente será tirada das mãos dos setores mais reacionários das classes médias e altas.  E isso vale para o Brasil neste momento, onde os ataques aos direitos sociais e dos trabalhadores recebem a total aprovação de quem vai às ruas supostamente contra a corrupção. 

Além disso, me parece óbvio que cedo ou tarde teremos confrontos diretos entre os setores médios e altos que só se mobilizam contra a corrupção e segmentos de esquerda e democráticos que entendem o risco real que vivemos hoje que é o de nos transformarmos em sua sub-colonia das economias centrais.

Isto não significa dizer que devamos ser  condescendentes com a corrupção dentro de partidos, sindicatos e movimentos sociais da esquerda.  E o fato é simples: quando a corrupção se dá na direita, a mesma é tolerada, enquanto que quando ocorre na esquerda ela se transforma num elemento de escolha dos setores mais retrógrados de qualquer sociedade para retirar direitos e reprimir os mais pobres.

A crise seletiva do Brasil: milhões de desempregados de um lado, milhares de novos milionários de outro

Quem leu uma matéria publicada pela sucursal do Rio de Janeiro do jornal Folha de São Paulo no dia 13 de Outubro descobriu que naquele momento (este número já deve ter aumentado até aqui), o número de trabalhadores brasileiros desempregados havia atingido o astronômico número de 22,7 milhões (Aqui!).

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Quem vê esse número de desempregados sai logo com a explicação: é a crise! E não culpo as pessoas que ingenuamente compram a ideia de que temos tantos desempregados por causa da situação que coloca o Brasil num panorama recessivo que faz parecer que voltamos ao início da década de 1980.  

Mas eis que ontem o insuspeito “ESTADO DE SÃO PAULO” publicou uma matéria assinada por seu correspondente internacional  Jamil Chade que relativiza o impacto da crise que estamos vivendo ao apresentar os resultados de um estudo do também insuspeito Credit Suisse que descobriu que o Brasil é um recordista no número de  10.000 novos milionários , elevando o total de brasileiros com fortunas acima de US$ 1 milhão para algo em torno de 176 mil em 2016 (Aqui!).

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Ora, como explicar tamanha contradição? Afora o fato de que no capitalismo as crises nunca são perfeitamente compartilhadas por todos os membros da população, há ainda a questão de que o motor principal da crise que percorre o sistema é de natureza rentist. Assim, esses novos milionários não devem estar saindo do setor produtivo, mas são beneficiários da especulação financeira que asfixia a economia brasileira que paga os juros mais altos do planeta.

Há que se frisar que a especulação financeira é uma espécie de “Bolsa para Milionários” e, por isso, não se vê mais aquelas multidões de pele alva e cabelos loiros (naturais ou não) desfilando com a camisa da CBF para pedir a derrubada do governo “de facto” de Michel Temer. É que, pelo menos neste momento, a sociedade que esse setor minoritário da população brasileira representa está de novo no comando, e se sentindo muito bem. De quebra, ainda temos setores da classe média que podem estar sofrendo no bolso, mas ideologicamente se sentem justiçados com todos os retrocessos já impostos às políticas sociais que mitigavam a miséria dos mais pobres.

Como todas as medidas e encontros recentes do governo “de facto” apontam no aprofundamento da recessão, a tendência é que o número desempregados e novos milionários continue aumentando. Resta saber até quando o Brasil vai suportar esse diapasão que aponta para o aumento da segregação social e econômica.  Mas que não se venha a culpar os mais pobres se eles perderam a hercúlea paciência que têm demonstrado com o desmanche do precário sistema de apoio que desfrutaram nos anos de Lula e Dilma. 

(Des) governo Temer: a troça do ministro Padilha explícita a essência do golpe

A imagem abaixo é do ministro Eliseu (Quadrilha) Padilha fazendo uma continência ao presidente de facto Michel Temer. A intenção aparente é fazer piada com quem acusa o PMDB e seus aliados de terem organizado um golpe de estado contra a presidente Dilma Rousseff.

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Mas se Eliseu (Quadrilha) Padilha tivesse ficado só na pose não haveria nada além de uma encenação pobre. É que segundo o ministro Eliseu o presidente de facto tem que se comportar com se fosse o imperador do Brasil, um que supostamente “tenha condições de definir o rumo da vida das pessoas” (Aqui!).

Do jeito que esse pessoal vai posando e falando, não me surpreenderei se houver alguma emenda constitucional no congresso para anular os efeitos da Lei Áurea. É que essa gente não vai se contentar apenas com retirar as minguadas políticas que foram concedidas nos anos em que o PT comandou o governo federal. Pelo menos isso é o que mostram a pose e as declarações de Padilha.

Não Temer, não são só “40 que quebram carros”!

Perguntado sobre as manifestações que estão ocorrendo no Brasil desde que foi consumado o golpe de estado “light” contra a presidente Dilma Rousseff,  Michel Temer desdenhou e questionou se a pergunta se referia “às manifestações de 40 pessoas que quebram carros” (Aqui!).

Pois bem, abaixo posto imagens das manifestações que ocorreram hoje nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo que mostram que claramente não são apenas atos compostos por “pequenos grupos” como afirmou Michel Temer.

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E notem que Michel Temer ainda nem enviou o grosso de suas reformas anti-populares e anti-nacionais para o congresso nacional votar. Quando isto acontecer, avalio que os atos vão crescer ainda mais e alcançar até setores “coxinhas” que foram às ruas para tirar dilma Rousseff na presidência e acabaram ganhando de presente Michel Temer e Rodrigo Maia. A ver!

O Brasil e uma descoberta incômoda: a luta de classes está viva e manda lembranças

Quando Karl Marx formulou o conceito de luta de classes e associou a ele a ideia de que ela seria o motor que faz girar a história, quase certamente não pensou no Brasil. É que toda a experiência histórica que levou Marx a estabelecer os canones de sua dialética materialista estavam fortemente ancorados na Europa e na Revolução Industrial que ali se consolidava.

 Mas nos últimos tempos, especialmente após a onda conservadora que foi formada para tirar Dilma Rousseff da presidência da república, vejo pessoas sinceramente surpresas com o tipo de virulência que as pessoas de direita são capazes de mostrar e escrever.  Os alvos costumeiros da ira da direita são os pobres, nordestinos, gays, negros e pessoas de esquerda.  Em função disso temos não apenas lido, mas assistido ao que pensam e fazem segmentos da população brasileira que deixam as pessoas médias completamente embasbacadas.

Temos como resultado desse embasbacamento pedidos para que as pessoas se respeitem nas redes sociais e evitem romper amizades por causa das diferenças ideológicas.  Muitos dizem que é preciso evitar a conflagração e o espírito de “um time contra o outro”. 

Pessoalmente acho que quaisquer pedidos para que as pessoas se comportem civilizadamente é inócuo. É que a sociedade brasileira contém elementos que são completamente incivilizados, e que são fruto de sua construção ancorada na escravidão negra e na exploração colonial de nossas riquezas naturais.  Assim, enquanto não houver uma superação do legado histórico que carregamos, qualquer chamado à civilização óu é cínico ou é ingênuo (ou talvez uma mistura dos dois).

Além disso, dada a volúpia com que as forças políticas que ocupam o poder em Brasília a partir do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff atacam direitos sociais e as estruturas do Estado brasileiro, qualquer perspectiva que aponte para necessidades de pacificação é inócuo. É que essas forças não hesitarão em usar o aparato repressivo contra quem se insurgir contra o processo de recolonização do Brasil que elas estão colocando em marcha. E está cada vez mais claro para mim (é só ver os graves ataques em curso contra o SUS e as universidades públicas) que a opção dessas forças é pelo confronto com a maioria da população que rejeitos suas políticas nas últimas quatro eleições presidenciais. 

Em outras palavras, estamos num período em que a luta de classes vai se aprofundar no Brasil. E é preciso ter isto claro, pois, do contrário, os planos de desmanche do Brasil serão aplicados sem dó nem piedade. Afinal, se alguém tinha ilusão de que a burguesia nacionalestava minimamente disposta a ver uma melhora mínima nas condições de vida da maioria pobres do Brasil, a realidade tratou de enterrá-la.

Enquanto isso, Karl Marx manda lembranças de lá do cemitério de Highgate no norte de Londres.

Acesso à água no Brasil: relatório do Banco Mundial destaca problemas, desigualdades e riscos futuros

Thousands Of Dead Fish Found Near Rio Olympic Sailing Venue

O Banco Mundial acaba de disponibilizar um interessante relatório sobre a situação da água no Brasil intitulado “Retomando o caminho para a inclusão, crescimento e sustentabilidade” . Na prática, esse relatório oferece um raio-X bastante apurado sobre alguns aspectos do acesso, uso e gargalos para o uso da água em nosso país. 

É interessante notar a atualidade dos dados que cobrem várias áreas importantes da questão do acesso à água. Assim, ainda que as visões que emanam do Banco Mundial sejam essencialmente pró-mercado, os dados que estão disponibilizados no relatório podem ser usados para outras finalidades, inclusive por aqueles setores que se interessam por uma efetiva democratização do acesso à água e saneamento no Brasil. Aliás, um fato que o relatório deixa claro é que a condição atual é pouco democrática, já que os segmentos mais ricos da população possuem acesso mai qualificado tanto à água como saneamento.

O texto abaixo é de autoria do Banco Mundial e descreve de forma genérica os principais elementos contidos no documento. A tradução para o português é de minha responsabilidade pessoal.

Aos interessados em baixar o documento,  basta clicar (Aqui!)

Se o Brasil tem cerca de um quinto das reservas de água do mundo, então por que são cada vez mais freqüentes as notícias de escassez?

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Mariana Ceratti/World Bank

Há muitas respostas para essa questão, que vão desde a forma como os recursos hídricos estão geograficamente distribuídos, a degradação das áreas circundantes das bacias hidrográficas, as mudanças climáticas, e a infraestrutura de distribuição deficiente.

Os setores que mais contribuem para o desenvolvimento da economia também são os mais dependentes de água. Por exemplo, 62% da energia do Brasil é gerada através de hidrelétricas. A água é essencial para a agricultura, que é outro importante setor da economia do país. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), a irrigação consume 72% do suprimento de água no Brasil.

Esta dependência significa que quando há escassez de água – como evidenciado pela experiência em São Paulo em 2014 e 2015 – a produtividade dos diferentes setores econômicos pode ficar sob risco.

Estes tópicos e outros tópicos são examinados por novo relatório do Banco Mundial, o Diagnóstico Sistemático do Brasil, que discute como os recursos naturais podem contribuir para o desenvolvimento econômico do país.

“Por alguns meses em São Paulo, não era claro se tais como as indústrias do setor do alumínio, que consomem vastas quantidades de água, poderiam continuar  no mesmo nível de produção de antes da crise”, disse Gregor Wolf, chefe do  Programa de Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial no Brasil.

O relatório analisa os principais aspectos da gestão dos recursos hídricos no Brasil e  os principais obstáculos que devem ser superados a fim de alcançar um modelo sustentável e abrangente de uso.

Água, florestas e cidades

À luz da crescente evidência científica sobre o desmatamento, degradação florestal e de mudanças nos padrões de chuva, o relatório adverte que crises de água, como a que ocorre atualmente em São Paulo. Este fato pode se tornar comum nas próximas quatro décadas. Esses eventos poderiam afetar o abastecimento de água, a produção agrícola e a geração de energia, entre outras atividades. O estudo também destaca que a redução do desmatamento na Amazônia nos últimos anos (em 82%) e novas regras (como o Código Florestal) que foram desenvolvidas para ajudar a proteger os recursos naturais existentes em áreas rurais. Estes são sucessos recentes após décadas de devastação. Há ainda uma crescente necessidade de monitoramento contínuo para garantir que esses recursos não sejam perdidos.

Os setores que mais dependem de água

O Brasil é o segundo maior exportador mundial de alimentos. Em um país onde a agricultura e agroindústria representam 8,4% do PIB, as terras irrigadas aumentaram exponencialmente ao longo da década e se espera que o consumo de água pelo setor deverá continuar subindo. Atualmente, menos de 20% de terras irrigadas tem acesso à irrigação. No setor de energia, usinas hidrelétricas continuarão a gerar a maior parte da energia elétrica do Brasil, mesmo com a diversificação das fontes de energia planejadas ao longo das próximas duas décadas.

O setor mais poluidor

A indústria continuou a ser um dos principais contribuintes para a degradação ambiental no Brasil. De acordo com o relatório do Banco Mundial, os pesquisadores descobriram efluentes industriais, incluindo metais pesados, em corpos de água em diversas áreas metropolitanas. Efluentes industriais são despejados nos cursos de água sem tratamento prévio. Em São Paulo e Recife, por exemplo, isso fez com que os rios no entorno dos parques industriais se tornassem impróprios para o abastecimento humano, fazendo com que as cidades tivessem que buscar água em bacias distantes ou em poços artesianos. O crescimento esperado de complexos industriais, particularmente no Nordeste, vai potencialmente resultar em impactos ambientais de longo prazo, como a poluição e a competição por recursos naturais (principalmente a água).

O acesso desigual à água e saneamento básico

Entre os 40% mais pobres da população, o percentual de domicílios com sanitários ligados à rede de saneamento aumentou de 33% em 2004 para 43% em 2013. No entanto, o acesso ainda é baixo em comparação com a população mais rica. Outras diferenças importantes ficam aparentes nas figuras para cobertura nacional de água (82,5%), as águas residuais (48,6%) e tratamento de águas residuais (39%). A falta de tratamento de águas residuais significa agrupamento que os poluentes são despejados diretamente na água ou em fossas sépticas não regulamentadas, com graves conseqüências para a qualidade da água e, conseqüentemente, para o bem-estar da população.

O que precisa ser melhorado?

Muitas companhias de água sofrem perdas de água significativas (mais de um terço da oferta, é média), de alta têm custos de pessoal e de funcionamento em excesso. O financiamento do setor é baseado em tarifas cruzadas e subsídios, com uma estrutura tarifária obsoleta que é incapaz de gerar serviços mais eficientes e sustentáveis. O resultado: as empresas têm capital insuficiente para aumentar sua cobertura e aumentar a resiliência da sua infraestrutura a eventos climáticos extremos (secas e inundações).

O relatório salienta assim que qualidade de vida dos cidadãos mais pobres do Brasil está diretamente relacionada com a gestão da água e d e outros recursos naturais – e que é urgente a formulação de políticas públicas para aumentar a sua conservação.

O problema dos bilionários do Brasil

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Para compreender a desigualdade global, primeiro você tem que entender a desigualdade do Brasil .

*Por Patrick Iber

Pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014 , quando Thomas Piketty lançou o seu livro “O Capital no século XXI”, que foi publicado inicialmente em inglês e tomou o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times. O livro de Piketty atingiu um nervo, ajudando a disseminar várias ideias-entre elas a de que o capitalismo não gera automaticamente uma distribuição razoável ou equitativa da renda e que prestar atenção ao 1% dos mais ricos é necessário para se compreender a política. Piketty focou sua análise na concentração de riqueza nos séculos 19 e 20 na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, lugares onde a maioria dos dados que disponibilizados para esses períodos. Mas se Piketty se comportasse, em vez do economista que é, como um repórter que trabalha para compreender o mundo que os extremos de desigualdade fizeram hoje, ele não olharia para os países ricos. Ele poderia muito bem ter escolhido para se concentrar no Brasil, como Alex Cuadros fez em seu novo livro intitulado “Brazillionaires”.

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Cuadros, um repórter da Bloomberg, chegou ao Brasil em 2010 com uma missão tipo a encaminhada por Piketty: investigar a vida dos não 1%, mas dos 0,0001% mais ricos dos brasileiros. Parte de seu trabalho foi organizar a classificação bilionários brasileiros na lista da Bloomberg. Uma espécie de US News & World Report do ranking dos super-ricos, bem como para se informar sobre seus negócios e suas vidas pessoais.  No “Brazillionaires”, ele consolidou e moldou tais perfis em um pujante e engajador retrato envolvente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata de mídia Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como os principais meios de comunicação do Brasil retratam a questão da raça, e através disso, suas ideias e ideologias sobre as questões raciais. Seu capítulo sobre Edir Macedo, um pregador na linha do “evangelho da prosperidade”, que lhe permite discutir a mudança nas práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de um determinado bilionário, Cuadros inclui reflexões de sua própria lavra e de informações obtidas gastando a sola do seus próprios sapatos. Ele visita os grupos comunitários nas favelas e vai junto no helicóptero $ 1.500 por hora que seus casos de estudo (no caso os bilionários) usam para evitar os congestionamentos de trânsito. O livro pode ser mais revelador do que os bilionários estudados gostariam. Na verdade, ele não estará disponível no Brasil, ´pois um dos bilionários em questão não ficou feliz com o que viu nos rascunhos do livro, e por causa disso os editores recuaram da ideia de publicar a obra em português.

O bilionário mais importante para o livro é, sem dúvida, Eike Batista. Eike, como é conhecido, subiu tão alto que chegou ao posto de oitavo colocado na lista de bilionários da Bloomberg, com uma fortuna estimada de US $ 30 bilhões de dólares. Eike ambicionava se tornar o homem mais rico do mundo. Eike que foi campeão de corridas de lanches tem implantes de cabelo usando as tecnologias mais modernas, e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo que posou para a Playboy e foi rainha do Carnaval. Um de seus filhos, Thor Batista, mostrou seu enorme torso muscular no Instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um Mercedes-Benz SLR McLaren avaliado em mais de um milhão de dólares. Eike e sua família dificilmente poderia ser menos representativos do estilo de vida de playboy bilionário dos ultra-ricos globais.

Portanto, Eike serve como um símbolo dos problemas do Brasil de hoje, e cerca de metade dos capítulos Brazillionaires é dedicada a ele. Apesar do que parece ser diferenças fundamentais na perspectiva e ideologia, Eike forjou uma relação de trabalho pragmática com os governos do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda. Até a presidente Dilma Rousseff, que foi suspensa do exercício do cargo por legisladores hostis em maio deste ano, o país tinha sido governada pelo Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda desde 2003, primeiro sob o metalúrgico e líder sindical organizador Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois sob Dilma (2011-2016). Antes de Lula tomar posse, os ricos brasileiros ficaram preocupados com o que iria acontecer quando Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu-a como uma regressão. Mas Lula que estava determinado a quebrar a associação de governos de esquerda com o caos econômico, e construiu alianças com oligarcas brasileiros.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreveu como “querendo trazer a nação não tanto para o Século XXI  com alta tecnologia e alta finança, mas para o Século XX, com portos, barragens e grandes empresas brasileiras de base.” Porque Eike controlava um conjunto de empresas inter-relacionadas, principalmente nos setores de mineração e gás, e tinha feito grandes apostas na perfuração offshore, ele recebeu grandes empréstimos de bancos estatal de desenvolvimento. Em função disso Eike se aproximou de Lula.

A corrupção é quase uma parte esperada de negócios e políticos no Brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário de “estilo americano” e “self-made”, não foi uma exceção. Ele ajudou a financiar um filme biográfico lisonjeiro sobre Lula e gastou quarto de milhão de dólares em um leilão para comprar um terno que Lula tinha usado em sua posse. Mas, apesar da evidência de corrupção e conflitos de interesses através do sistema político, por um tempo todos pareciam estar se beneficiando. A economia do Brasil fez enormes progressos. A classe média cresceu e os padrões de qualidade de vida entre os pobres melhorou dramaticamente. Desnutrição foi diminuída pela metade. Um dos programas com a assinatura de Lula, o Bolsa Família, forneceu transferências monetárias diretas aos pobres, parcialmente em troca de frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários entrevistados por Cuadros justificaram a sua riqueza com alguma versão do argumento “do que é bom para a GM é bom para o país”. A maioria dos brasileiros considerou esta abordagem aceitável: Lula deixou o cargo com a aprovação de mais de 80%.

Mas os problemas surgiram em 2013. O governo do Brasil e seus consumidores tinham tomado dívidas em demasia. Os preços das commodities estavam caindo. As previsões de produção de campos de petróleo offshore de Eike se mostraram ser insuficientes para ele cobrir seus custos e suas empresas começou a colapsar. O seu patrimônio líquido estimado caiu de US$ 30 bilhões para US$ 1 bilhão negativo um em apenas dois anos, e ele se viu perante o tribunal, acusado de fazer uso de informações privilegiadas. Em 2012, seu filho Thor atingiu e matou um ciclista pobre com aquela McLaren avaliada em milhões de dólares. Os julgamentos de Eike e Thor pareciam ser testes para se saber se os poderosos poderiam ser responsabilizados pelas suas ações num momento em que as pessoas comuns estavam sofrendo com a deterioração das suas condições vida e com suas esperanças frustradas.

Em toda a sua ora, Cuadros é crítico dos bilionários que retrata, mas ele não os denuncia. Em alguns deles ele encontra qualidades admiráveis. Mas ele está ciente, de que os mitos contados sobre eles e dos mitos que ele contam sobre si mesmos são profundamente prejudicais. O mais próximo que ele chega a um crítica é quando ele pergunta a funcionários do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil depois da queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser, e de parte da Heinz), para citar alguma “coisa nova” que ele tivesse criado como um empreendedor adequadamente deve fazer. Eles não deram qualquer exemplo, e ele escreveu “Em uma apresentação recente para investidores recente Heinz apresentou inovações que misturaram mostarda amarela e molhos picantes”. É como se fosse um tipo destruição criativa sem a parte da criatividade.

Muitos dos brasileiros pobres admiram seus conterrâneos ricos, como Cuadros deixa claro. Muitos na classe média direcionam sua ira contra os pobres. Alguns de nós temos que trabalhar duro, mas:

” nós temos estas pessoas que não fazem nada e podem viver uma boa vida boa.” Quando eu perguntei a ela se ela coloca seu dinheiro em certificados de CDBs que recebem altas taxas de juros, ela respondeu que sim. Ela ficou surpresa quando eu argumentei que isto também era um subsídio público, uma muito maior, uma vez que o governo paga enormes somas para os bancos para ter seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três de quartos dos adultos apoiados pelo Bolsa Família também precisam trabalhar para sobreviver.

Se Cuadros tem uma agenda, esta pode ser descrita como a ênfase nas contingência dos resultados econômicos, bem como sobre os obstáculos à mobilidade e ao acesso, todos que fazem a ideia de meritocracia pouco mais do que um meio para justificar a desigualdade extrema.

Estas questões-e todos os tipos de conversas sobre mérito, bem estar e distribuição da riqueza, não são, naturalmente, de nenhuma maneira única restritos ao Brasil. Brazillionaires se refere na superfície sobre o Brasil, mas pretende ser mais do que isso.  O Brasil, em alguns aspectos importantes, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país.  O Brasil tem sido em décadas recentes um dos países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntos e medir as desigualdades de riqueza, o que se acha encontra é um nível maior de desigualdade do que existe em qualquer única nação. Ainda assim, o perfil do Brasil é que fica mais próximo de igualar a situação mundial: uma pequena rica e dominante classe alta, uma classe média modesta, e uma grande maioria de pobres que luta por renda e direitos efetivos.

O Brasil é incomum entre os países de desigualdade elevada dado o fato que seus cidadãos estão espalhados por todo o espectro de classes sociais. Nos Estados Unidos, por outro lado, em termos puramente monetários, os pobres são de renda média para os padrões mundiais.  O Brasil tem pessoas que são tão pobres como outros em qualquer outro lugar, e ainda tem, portanto, pessoas que são tão ricas quanto qualquer um em outro lugar qualquer. Apenas um dos entrevistados de Cuadros expressou qualquer tipo de remorso sobre essa situação peculiar. Guilherme Leal, co-fundador de uma empresa de cosméticos sustentáveis (a Natura, grifo meu) disse a Cuadros que se sente desconfortável em ser bilionário em um país tão pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são os menos desiguais”.  Leal adicionou ainda que:

“Onde todos pudessem ter uma qualidade de vida bastante decente e razoável. Se eu tivesse que desistir de uma parte significativa da minha riqueza, e pagar 30% ou 40% a mais impostos, mas que com isso eu pudesse viver num país com menos desigualdade, eu seria mais feliz.”

Ainda assim, quando sua companhia foi instada a pagar milhões de dólares em impostos não recolhidos, Leal afirmou que: “aqui no Brasil, se você não tentar lidar de forma inteligente com a carga tributária, você vai falir.” Se o nível de desigualdade do Brasil choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então devemos reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós somos todo o Brasil.

Cuadros não faz essa comparação global de forma explícita, mas ele espalha trilhas de pedaços de pão para uma terceira interpretação do conteúdo do seu livro. Mesmo o subtítulo da edição nos EUA “Riqueza, poder, decadência e esperança num país americano” visivelmente não diz que “país latino-americano”, mas americano. O ponto, que ele faz com certeza é de que estes problemas não são apenas Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas nos EUA reclamar com desânimo que enormes porções da Amazônia estão sendo desmatadas para o plantio de soja e a criação gado, como também fazem os ambientalistas brasileiros. Mas a atividade de traz ganhos de curto prazo para as áreas pobres do país e, como Cuadros aponta, os EUA tem feito o mesmo cálculo com o uso de fracking nos últimos anos.

Ambos os países são ex-sociedades escravagistas que lutam para enfrenta seus legados de racismo institucional e a violência que acompanha a patologização de um pobre racializado. Ambos são lugares onde os ricos têm aos meios garantir que seus filhos se tornem prósperos e mais se beneficiam até mesmo de bens públicos, como a educação.  A corrupção institucional tem sua cultura particular no Brasil, onde ela tanto pode ser uma frustração cotidiana quanto completamente exasperante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike Batista por manipulação de mercado e uso de informações preferenciais apreendeu alguns dos seus bens pessoais para depois ser flagrado dirigindo o Porsche Cayenne de Eike pelas ruas do Rio de Janeiro)

Mas o que dizer das nossas práticas completamente legais de lobbying na qual a experiência no governo pode ser transformada em riqueza privada, e as corporações e as pessoas ricas tem grande influência sobre a aprovação de leis?  A história de nossos poderosos bilionários não é simplesmente sobre produção de valor social, mas de bolhas, monopólios, negócios preferenciais, e a violência estatal e privada contra os trabalhadores. Os EUA são mais ricos e sua democracia é mais antiga, mas não é assim tão diferentes do Brasil.

Por causa dos Jogos Olímpicos, o Brasil é agora o centro da atenção mundial. Mas o fato de que os jogos acontecem num momento de conflito político e recessão econômica certamente é desapontador para os líderes brasileiros. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros que estão caindo de paraquedas para visitas rápidas serão certamente atraídos pelo exótico: a beleza da paisagem e do povo, futebol, Carnaval, as favelas, e assim por diante. Brazillionaires é apenas uma lembrança aos telespectadores nos EUA serão mais bem servidos se não olharem para o Brasil como um lugar exótico com problemas igualmente exóticos. Contemplar as condições do Brasil é contemplar um quadro alarmante, e perceber que nosso olhar não está dirigido a uma pintura, mas a um espelho.

**O texto de Patrick Iber foi originalmente escrito em inglês  e  publicado pelo jornal estadunidense “New Republic” (Aqui!) e foi traduzido pessoalmente por mim para o português.

Brasil à venda: como um golpe legal abriu o caminho para a privatização

Mais austeridade e a venda de valorizados bens públicos vão piorar uma já demolidora recessão econômica.

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Instalações da vila olímpica do Rio de Janeiro (Ricardo Moraes/ Reuters)

Por Andy Robinson*

“Eu sou o ‘Papa Mike- Policial”, diz o policial montado em sua moto BMW. Ele está pronto para escoltar o novo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em seu período de experiência, no seu trajeto de ida e volta no renovado Porto Maravilha com seu reluzente Museu do Amanhã projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. indo do meio do centro antigo do Rio de Janeiro até  Aeroporto Santos Dumont que provavelmente será privatizado em breve. “Tenho ordens para impedir as pessoas de serem atropeladas”, ele explica enquanto o trem se afasta, passando por um sinal de alerta que diz: “Cuidado! O VLT não faz barulho”.

Quem poderia questionar a preocupação do prefeito Eduardo Paes com o bem-estar dos pedestres da cidade-sede dos Jogos Olímpicos? No entanto, aqueles que estão dentro do vagão lotado, assim como eles estão todos os dias em ônibus lotados percorrendo trajetos intermináveis vindos da vasta periferia ocupada pela classe trabalhadora da cidade do Rio de Janeiro, devem se perguntar por que as mesmas precauções não foram tomadas para evitar o perigo real: a falência do estado do Rio, que vem suspendendo o pagamento de salários e pensões de milhares de trabalhadores do setor público. Cortes draconianos têm sido feito nos orçamentos de escolas, hospitais e transporte de massa, enquanto 39 bilhões de reais (cerca de US $ 10 bilhões) foram gastos com os Jogos Olímpicos. Dois em três brasileiros entrevistados nesta semana pela Folha de São Paulo disseram que os Jogos Olímpicos têm trazido mais problemas do que vantagens.

Outros escoltados a bordo VLT podem se perguntar por que proteções similares não estão sendo oferecidas para os 3 milhões de trabalhadores que perderam empregos desde 2013. A recessão, a pior da história do Brasil, desfez décadas de progressos na redução da pobreza em um país cuja desigualdade de renda chocou o mundo, quando a desigualdade ainda conseguia chocar. Até o final de 2016, a recessão vai ter dizimado cerca de 9% do PIB do país em dois anos. A economia tende a se contrair ainda mais, com um programa radical de austeridade agora oficialmente consagrado em Brasília, sob o governo interino de direita de Michel Temer, que assumiu o poder em maio, após o que muitos chamam de um golpe de Estado legal.

De muitas maneiras, Temer está partindo de onde a agora suspensa presidente Dilma Rousseff parou, após sua conversão à austeridade em um segundo mandato desastroso. Agora, no entanto, os cortes de gastos estão coincidindo com um programa de privatização radical. “Eles estão aplicando muitas das mesmas políticas que Dilma aplicou, mas mais descaradamente e com um chapéu neoliberal suas cabeças”, diz Luiz Eduardo Melin, assessor econômico, em tempos mais felizes, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2007-11). “Eles querem impulsionar a economia em uma espiral descendente, mas eles não se importam porque eles não concorrer a uma reeleição”.

“Normalmente, no Rio, a depressão vem depois do Carnaval; mas mesmo antes da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos já estamos de ressaca”, comenta Joel Birman, um psicoterapeuta que trabalha duro no bairro afluente da Gávea onde os aterrorizados membros da classe média do Rio de Janeiro procuram sua ajuda. Para as massas empobrecidas, os mega templos evangélicos executam uma função similar. Aqui, o crescente conservadorismo cristão- um elemento-chave do movimento que derrubou Rousseff- furtivamente constrói sua base entre mais de um quinto da população.

“Eu encontrei a liberdade; agora eu me preocupo só sobre a vida após a morte”, diz Luís, que está sentado na fileira detrás da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro de Botafogo. Luís trabalha para receber um salário de 1.500 reais (US $ 500) por mês como a assistente de cozinheiro em um restaurante próximo e gasta 200 reais por mês em transporte para ir e vir da sua residência, que fica a 1:30 h de viagem no município de Duque de Caxias. A crise do petróleo representou um duro naquele município, dizimando empregos na refinaria e em toda a área industrial, acabando com os ativos da estatal Petrobras.

Uma vez considerada a joia da coroa do Partido dos Trabalhadores, a Petrobras foi dilacerada pelo colapso do preço do petróleo e por uma enorme investigação anticorrupção. A Petrobras pode estar agora na primeira fase de sua privatização. Nas salas de reuniões subterrâneas sob o edifício do Congresso futurista de Oscar Niemeyer em Brasília, um projeto de lei que abriria a exploração do Atlântico reservas do pré-sal da Petrobras para as multinacionais estrangeiras está sendo analisado. Os ativos da empresa na Argentina e no Chile estão à venda.  O enorme banco de desenvolvimento estatal, o BNDES, cuja sede fica ao lado dos arranha-céus da Petrobras no centro do Rio, foi forçado a vender a sua participação em empresas como a Petrobras e no conglomerado de mineração, Vale. Em um monumental encolhimento, o BNDES que já emprestou mais dinheiro do que o Banco Mundial “será deixado sem dinheiro e vai cobrar os empréstimos feitos para empresas brasileiras já em dificuldades devido à recessão”, diz Melin. “Uma vez que estão à beira da falência, elas serão vendidas para alguém a preços excelentes.”

Esse alguém poderá ser encontrado em Wall Street ou em Houston. O governo Temer está “tentando criar as condições” para a privatização da Petrobras e dos bancos públicos, Lula avisou na semana passada. Pedro Parente, o novo presidente da Petrobras negou a acusação, afirmando que “eu não acredito que a sociedade brasileira esteja madura o suficiente” para a venda de um dos mais valiosos ativos estatais na América Latina. Os investidores internacionais, por sua vez, estão se preparando para esta liquidação. “Porque a recessão afetou os lucros das empresas, os ativos podem ser adquiridos a preços que são mais atraentes para os compradores”, aconselhou um novo relatório pelo Conselho do Atlântico em Washington, alegremente intitulado “Petróleo e Gás no Brasil: Uma Nova Fresta de Esperança”.

As vendas, que também incluem os aeroportos e a empresa de correios, vão diminuir cosmeticamente o déficit orçamentário do Brasil, que a 10 % está aumentando a dívida pública. No entanto, como a economista da Universidade de São Paulo, Laura Carvalho alertou, a liquidação privatista vai piorar finanças públicas em longo prazo, porque os dividendos para o estado vão desaparecer. “Este é um truque de ilusionismo fiscal; até o FMI sabe isso”, diz Carvalho.

A ironia é raramente reconhecida pela mídia brasileira, mas o impeachment de Dilma foi, alegadamente,  provocada pelo utilização de “pedaladas fiscais”, uma técnica de contabilidade comum e inócua, para reduzir temporariamente o déficit. O termo refere-se à intrincada manobra usada por jogadores de futebol brasileiros para enganar pelo adversário. No mês passado, uma comissão especial de impeachment no Senado Brasileiro declarou que o uso de pedalada não representa uma ofensa que possa resultar no afastamento definitivo da presidente Dilma. No entanto, há pouca chance de que o Senado irá inverter sua posição inicial pró-impeachment em sua segunda votação em Agosto. “A decisão do comitê não faz diferença em tudo-isso é um golpe suave e parlamentar, e a Pedalada foi apenas um pretexto”, diz Vladimir Safatle, um filósofo da Universidade de São Paulo.

Sob pressão da outrora poderosa federação de indústrias de São Paulo (Fiesp), que financiou o movimento pró- impeachment, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recuou de suas promessas de aumentar impostos e, em vez disso colocou o fardo do programa de austeridade sobre os novos cortes de despesas e investimentos públicos. Isto ameaça os fundamentos do programa de combate à pobreza adotado pelo Partido dos Trabalhadores. Pior ainda, uma proposta irá condicionar o financiamento de governos estaduais e municipais já sitiados em sua capacidade de reduzir o número de famílias pobres que recebam subsídios para reduzir a pobreza. Pior, uma nova proposta de lei poderá impor limites constitucionais sobre os gastos, impondo a austeridade “ad infinitum”, e também eliminando a alocação orçamentária mínima para a educação e saúde.

Os mercados financeiros estão muito satisfeitos com tudo isso. Os investimentos mais rentáveis do mundo nos últimos seis meses têm sido o índice de ações da BM&F IBOVESPA em São Paulo e do real, que se valorizou cerca de 20 % desde sua baixa em 2015.  Analistas de mercado como o FMI acreditam que a economia brasileira já chegou ao fundo e vai começar a se recuperar em 2017. Os lucros dos bancos- liderados pelo pró-impeachment Itaú, o maior banco da América Latina, aumentaram de forma espetacular já que as taxas de juros estratosféricos do Brasil oferecem oportunidades lucrativas para a especulação financeira no mercado da dívida pública “A queda de Dilma foi selada quando ela tentou usar os bancos estatais para tentar forçar os bancos privados a diminuir suas taxas de juros”, disse um economista do BNDES.  

A esquerda está agora dividida entre aqueles que pensam que Lula-ainda o político mais popular no Brasil, pode arrastar o cadáver do Partido dos Trabalhadores para a vitória eleitoral em 2018, e os que defendem a construção de alternativa. “Lula poderia fazê-lo em silêncio, se eles não colocá-lo na prisão”, diz o economista BNDES, se referindo à investigação sobre a corrupção na Petrobras. Mesmo que o ex-presidente evite o julgamento, Lula precisa de um partido para liderar, e a existência do Partido dos Trabalhadores não pode ser garantida após as próximas eleições municipais de outubro, que incluirão mais de 20 milhões de eleitores nas megalópoles do Rio e de São Paulo, “O único argumento é o de criar medo do que a direita irá fazer; eles não têm nenhum programa alternativo”, diz Safatle.

Para alguns, a melhor esperança para a esquerda pode ser Marcelo Freixo, o jovem candidato socialista, para suceder Eduardo Paes como prefeito do Rio. “Freixo deve ser a prioridade agora”, diz Tania, uma eleitora do PT no Rio que cresceu no exílio em Paris durante anos de ditadura militar do país. “Não há nenhum ponto em desperdiçar tempo com Dilma e Lula.”

* Andy Robison trabalha como repórter para o La Vanguardia de Barcelona, e já escreveu sobre a Espanha para o “The Guardian”, para the New Statesman, e para o The Nation. Agora trabalhando no Brasil, ele é o autor do livro ” Um Reporter na Montanha Magica” que trata do Fórum Econômico de Davos e a desiguladade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo “The Nation” (Aqui!)  em inglês e a tradução acima é de minha autoria e responsabilidade.

Para quem pensa que haverá recuperação econômica rápida, melhor olhar para a China!

Ontem (09/050, a agência chinesa de notícias. Xinhua, publicou uma matéria (Aqui!) que sinaliza que a crise econômica brasileira ainda pode piorar (ver imagem abaixo), e a explicação para isso está no título: exportações sobem, importações caem.

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E a razão para isto é simples: com o Brasil cada vez mais dependente da exportação de commodities agrícolas e minerais, a retração do apetite chinês por minérios e produtos agrícolas representará uma perda significativa de divisas para uma economia que hoje claramente agoniza.

Mas não chegamos a esta situação por falta de avisos, pois todo o esquema imposto a partir do governo Lula estava ancorado na capacidade chinesa de adquirir quantidades massivas e crescentes das nossas commodities. Agora,  a economia brasileira está literalmente sem ter para onde exportar os grandes estoques formados nos últimos anos.