Após analisar imagens do Google Earth, arquiteto capixaba alerta para “padrão Brumadinho” em mega barragem da Vale em Itabira

itabira barragens

No dia 11 de Fevereiro publiquei uma análise feita pelo arquiteto e urbanista Frederico Lopes Freire sobre o rompimento das barragens de rejeito da mineradora Vale em Brumadinho e da possibilidade de que outro evento catastrófico se repetisse em Santa Bárbara.

Dez dias depois e com sirenes soando em sucessão em outras represas da Vale em Barão de Cocais e Nova Lima, hoje recebi outra análise feita por Frederico Lopes Freire sobre problemas semelhantes que estariam afetando a barragem de Pontal no município de Itabira, onde a população já tem demonstrado grande preocupação com a  situação das grandes barragens da mesma mineradora que estocam um volume 33 vezes maiores do que aquele que vazou em Brumadinho.

Abaixo posto as análises de Frederico Lopes Freire para a barragem de Pontal, onde ele demonstra grande preocupação com a situação que lhe parece bastante semelhante ao que ele visualizou no reservatório de Brumadinho antes que ocorresse o Tsulama de 25 de janeiro.

O que parece evidente nas análises feitas por Frederico Lopes Freire é que os moradores de áreas próximas de grandes barragens de rejeitos em diferentes municípios de Minas Gerais têm razão para estarem assustados. O que impressiona mesmo é o fato de que as autoridades governamentais parecem ter mais interesse em defender os interesses da Vale e de outras mineradoras mais do que defender a vida das pessoas e dos ecossistemas naturais que hoje vivem sob o espectro de novos Tsulamas.


Análise de imagens da Barragem Pontal, Usina Brucutu, município de Itabira-MG

Por Frederico Lopes Freire*

Este é um relatório pessoal, com base em observação direta de imagens de satélite disponibilizadas no Google Earth.

 Imagem 01 – Visão Panorâmica da Barragem Pontal.

Brucutu 1

Imagem 02 – Datada de 31 de agosto de 2018 – Localização da Barragem – Mina Brucutu – Itabira-MG

Brucutu 2Localização da Barragem Pontal – Mina de Brucutu – Itabira-MG

Imagem 03 – datada de 16 de junho de 2011.

Brucutu 3

Na imagem 03 é possível observar uma erosão na base da barragem (ampliada na imagem 3 B), possivelmente a razão para execução de obras de reforço identificadas na imagem 04, datada de 07 de maio de 2013.

Imagem 03 A – Datada de 16 de junho de 2011

Brucutu 3A

Vista parcial da barragem mostrando a direção de entrada e fluxo das águas superficiais das chuvas e de outras possíveis origens na usina e elevações montanhosas em torno. Níveis internos da barragem, perímetro externo e base da barragem estão indicados, bem como da posição da erosão indicada na imagem 03. A mancha das águas superficiais é claramente visível até a parede da barragem. Um canal extravasor está localizado no extremo superior direito da barragem, porém sua cota de entrada (728) não possibilita escoamento das águas abaixo deste nível.

Imagem 03B – datada de 16 de junho de 2011

Brucutu 3B

Indica a posição da erosão mostrada na imagem 03. Possível container e equipamentos são visíveis.

Imagem 04 – Datada de 07 de maio de 2013

Brucutu 4

Serviços de rebaixamento das águas superficiais e trabalhos na parede e base da barragem em execução. Deformação no alinhamento superior da barragem é visível.

Imagem 05 – Datada de 20 de julho de 2015

Brucutu 5

 Serviços de reforço nas paredes e base da barragem concluídos. Nível das águas superficiais em ascensão com a finalização do bombeamento. Deformação no alinhamento superior da barragem corrigido.

Imagem 06 – Datada de 31 de agosto de 2018 – última imagem disponível no Google.Brucutu 6

Deformação no alinhamento superior da barragem reaparece. Águas superficiais estão acumuladas contra a parede da barragem.

Semelhanças com o ocorrido em Brumadinho não podem ser desprezadas. O acúmulo de águas, a ausência de afastamento destas águas em relação a parede da barragem e a deformação do alinhamento horizontal da parede, estão presentes.

A absorção constante de água poderá levar a uma liquefação, já apontada como causa determinante do desastre de Brumadinho. O volume armazenado é cerca de 122.000.000,00 m3, 10 vezes maior nesta Barragem Pontal. 

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* Frederico Lopes Freire é Arquiteto e Urbanista, possuindo ampla experiência profissional no Brasil e nos EUA, e atualmente vive no município de Colatina, norte do estado do Espírito Santo.

 

A Vale e suas múltiplas bombas relógio na forma de reservatório de rejeitos

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A mega mineradora Vale está tão enredada em uma série de complicadas remoções de moradores de regiões próximas de vários de seus reservatórios de rejeitos que está ficando difícil diferenciar um caso do outro. Aliás, suspeito que parte da cobertura dada pela mídia corporativa visa dificultar de forma consciente que a situação possa ser apreciada de forma espacializada.

Como se sabe, os problemas da Vale começaram em Novembro de 2015 com o reservatório de Fundão em Mariana e tomaram uma guinada para o pior no dia de 25 de janeiro quando irrompeu o Tsulama em Brumadinho, causando o maior acidente trabalhista da história da mineração no Brasil.

Pois bem, desde então as sirenes que não tocaram nem em Bento Rodrigues e tampouco em Brumadinho, já soaram em Barão de Cocais e Nova Lima, obrigando a remoção de centenas de famílias que estariam no caminho dos rejeitos em um eventual rompimento de diversas barragens da Vale.

Mas como hoje existem ferramentas de sensoriamento remoto que foram popularizadas pela Google, resolvi verificar a posição das minas de Mar Azul e Vargem Grande para entender como é possível que estejam sendo necessárias remoções desde Nova Lima até Ouro Preto, e o que eu vi realmente me parece revelador das dimensões das operações da Vale em Minas Gerais, e dos consequentes riscos que as mesmas trazem para as populações humanas e para os ecossistemas naturais que estejam no caminho de rejeitos eventualmente escapados de seus reservatórios.

A primeira imagem abaixo mostra a posição das minas de Mar Azul e Vargem Grande e sua relativa proximidade de Nova Lima que seriam virtualmente obliterada caso as barragens dessas duas minas venham a falhar.

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Mas mais impressionante ainda é visualizar em escala maior o tamanho relativo de cada mina em relação à paisagem em que as mesmas estão inseridas (ver abaixo).

Mar Azul 1Vargem Grande 1

Uma das coisas que salta aos olhos é a existência de adensamentos urbanos muito próximos à essas duas minas, o que explica o repentino interesse da Vale em remover preventivamente as pessoas que estejam dentro das chamadas “Zonas de Autossalvamento” e de áreas que ficariam isoladas caso os reservatórios de rejeitos rompam.

É que esses reservatórios não foram construídos de um dia para o outro, e nem deveriam ter ficado sem formas estritas de acompanhamento de sua estabilidade estrutural como agora parece ter sido o caso.

E no meio dessa situação de incerteza e instabilidade, ainda se sabe que as pressões para um afrouxamento ainda maior do licenciamento ambiental das atividades de mineração não cessaram. Aliás, a principal informação que se teve hoje (20/2) foi que o governador Romeu Zema está presssionando deputados estaduais para que não seja instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as responsabilidades da Vale no Tsulama de Brumadinho. E durma quem puder com um barulho desses!

Brumadinho está em todo lugar

… onde carros circulam, turbinas eólicas giram e casas surgem. O Modo de Vida Imperial nos torna co-responsáveis ​​por tais crimes ambientais.

lama

Por Fabian Kern

Após o rompimento da barragem em Mariana, em novembro de 2015, rompeu em 25 de janeiro de 2019 novamente uma bacia de retenção preenchida com lama de minério de ferro. E novamente Minas Gerais, Brasil. Mais uma vez, a antiga empresa estatal Vale está envolvida. Desta vez, atinge o Rio Paraopeba, um afluente do Rio São Francisco, que é de grande importância para o abastecimento de água do semiárido nordestino. As baixas imediatas da barragem são mais de 300 pessoas que trabalharam ou viveram abaixo da bacia de retenção.

Como resultado do desastre, o judiciário brasileiro congelou onze bilhões de reais (cerca de 2,6 bilhões de euros) nas contas da mineradora Vale para cobrir possíveis pagamentos compensatórios. Além disso, o Estado já aplicou as primeiras multas de 81 milhões de euros contra a Vale e retirou a licença de operação do Grupo Vale para uma grande represa em sua maior mina de minério de ferro de Brucutu.

Por enquanto, faz sentido responsabilizar a Vale, que era diretamente responsável pela segurança da bacia de retenção em Brumadinho. No entanto, fazemos-nos com algo fácil, porque, como a ONG Enfrentando Finanças em seu Relatório de Lucro Sujo declarou em junho de 2018, tanto o digno Deutsche Bank , bem como o Banco DZ diligentemente fizeram  investimentos imprudentes da antiga empresa estatal Vale no Brasil.

De acordo com um relatório do WWF , em 2016 a Alemanha cobriu mais da metade (51%) de sua demanda de minério de ferro através de importações do Brasil (ibid. P. 28). Brasil desempenha tanto como o maior fornecedor de minério de ferro um papel importante, assim como fornecedor de ferro-gusa (18%) e, especialmente, como um fornecedor de aço não-laminados produtos semi-acabados (52%). A proporção de material reciclado com 43% da produção total de aço bruto da Alemanha (2015), embora consideravelmente, mas isso não é devido aos requisitos relativamente baixos de energia para o uso de materiais reciclados, em particular. O maior produtor de aço bruto da Alemanha é o grupo Thyssen-Krup, notório por sua controversa agora vendida siderúrgica perto da cidade do Rio de Janeiro., seguido pela ArcelorMittal e Salzgitter AG .

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O modo imperial de vida nos alcança …

Felizmente, se você pensa agora, não tenho uma conta no Deutsche Bank nem com o DZ Bank. Certamente você participa do tráfego de alguma forma. Se você não mora e trabalha em uma casa de madeira e é um pedestre consistente e não precisa depender do carro, do transporte público ou mesmo da sua bicicleta, dificilmente perderá aço e alumínio.

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A maior demanda por aço é registrada na indústria da construção na Alemanha . Nos últimos anos, a indústria da construção alemã e europeia cresceu e viu uma atividade de construção rápida, No setor privado é diligentemente construído em tempos de baixas taxas de juros. As novas áreas de desenvolvimento surgem em todos os lugares. Entre 2013 e 2017, a população da Alemanha aumentou de 80,7 milhões para 82,7 milhões. Mais decisivo para a atividade de construção, no entanto, é o desenvolvimento do espaço vital per capita na Alemanha. Isso aumentou nos novos estados federais de 43 m² para 47 m² e nos antigos estados federais de 49 para 51 m², o que adicionalmente alimenta a demanda por espaço vital. Onde novas áreas de desenvolvimento são criadas, estradas também são construídas, tubulações e cabos instalados e iluminação pública instalada. As agências públicas receberam muito poucas e muitas vezes citações muito caras para obras nos últimos anos porque suas carteiras de pedidos estão bem preenchidas. A infra-estrutura para o tráfego está sendo constantemente expandida. Especialmente na construção de pontes ou imóveis comerciais, muito aço é usado.

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Como mostra este gráfico, um carro consiste em mais de três quartos de alumínio, aço e outros materiais ferrosos. Claro que há muito metal em trens, ônibus e bondes, mas estes também são usados ​​por muito mais pessoas do que um carro particular. Em outras palavras, para transportar a mesma quantidade de pessoas, o transporte público requer muito menos metais per capita e quilômetro. Sem mencionar a demanda relativamente baixa de tráfego de bicicleta ou a pé. A mudança de tráfego, portanto, não só oferece benefícios para a saúde e é boa para a estabilidade climática, mas também evita desastres ambientais, como em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019.

O aço também desempenha um papel crucial em outro grande desafio para a humanidade.

“No setor de geração de energia precisa para a mudança para o fornecimento de energia sustentável que os objectivos dos Acordo de Paris turbinas numerosos eólicas, usinas de energia solar e outras instalações necessárias para ser construído. Para alcançar uma capacidade correspondente aos sistemas convencionais de energia instalados são para sistemas de energia solar e eólica até 15 vezes mais concreto, 90 vezes mais alumínio e 50 vezes mais ferro, cobre e vidro, o que, apesar das crescentes taxas de reciclagem, exigirá um aumento anual de 5 a 18% na produção mundial desses metais nos próximos 40 anos. “. 
Fonte: RAW BOIL BOOM ENTRE VITÓRIAS E PERDAS. Pegada ecológica da Alemanha através de aço e alumínio, p.7

Mais especificamente, o sucesso da recuperação da energia depende, em particular, da redução do consumo atual de energia e não do conteúdo apenas com o desenho de energia de outras fontes.

O uso eficiente de recursos para atender às necessidades de uma sociedade desempenha um papel crucial no impacto de nosso estilo de vida em regiões que parecem não ter nenhuma conexão conosco. Nós temos isso todos os dias em nossas mãos, quer queiramos fazer parte do problema ou parte da solução.

Consumo consciente ou a renúncia consciente de certas coisas é apenas um nível. Igualmente importante é a pressão política que precisa ser construída para criar leis que efetivamente impeçam os mecanismos destrutivos e exploradores nos países do Sul Global. Por que é legal vender um carro na Alemanha cujas matérias-primas podem ter sido extraídas com a ajuda de trabalho escravo ou destruição ambiental maciça?

Links:

Todas as ilustrações deste artigo foram extraídas do seguinte relatório da WWF:


Este texto foi originalmente publicado em alemão pela Kooperation Brasilien (KoBra) [Aqui!]

Investidores “com consciência socioambinetal” e não governos são o pior pesadelo das mineradoras

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Uma matéria assinada pelos jornalistas Henry Sanderson e Neil Hume e publicada pelo Financial Times sinaliza que as grandes mineradoras estão tendo que se defrontar com uma situação inédita e que as pressiona para que saiam do seu histórico padrão “sujo” de atividades para um que seja mais sustentável e menos agressivo ao ambiente e aos povos que estejam tradicionalmente nos territórios onde a mineração ocorre.

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Essa novidade é que não são governos que repentinamente tenham decidido afrontar as mineradoras em vez de lavar as mãos em relação às consequências negativas que a mineração traz.  O que a matéria de  Sanderson e Hume traz de novidade é que a pressão sobre as mineradoras está vindo de grupos de investidores que priorizam empresas com melhor gestão ambiental para investir.  Assim, quanto pior for o passivo socioambiental das empresas, menor será a atratibilidade que terão para este tipo de investidor.

A matéria aponta ainda que o Tsulama da Vale em Brumadinho acabou piorando ainda o ambiente para a operação da empresa nas bolsas mundiais. Segundo Anderson e Hume, após o colapso das barragens no Córrego do Feijão, a Vale foi imediatamente rebaixada pela Sustainalytics, uma influente agência de classificação focada em métricas de ESG e removida de um importante índice de sustentabilidade no Brasil. Com isso, mais de US $ 13 bilhões foram eliminados pelo valor de mercado da Vale desde o desastre.

Na figura abaixo, o gráfico da extrema esquerda mostra um particularmente revelador do “padrão Vale” de fazer negócios (que é mostrado abaixo) é muito pior em termos de emissões, efluentes e rejeitos do que os praticados pela Anglo American e pela Glencore.

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Esse padrão “sujo” até agora compensava, mas com o crescimento exponencial no número de fundos socialmente conscientes está colocando em risco a performance das ações.

A matéria traz uma série de declarações de investidores que refletem as péssimas consequências que os Tsulamas de Mariana e Brumadinho tiveram sobre a imagem da Vale junto a este tipo de investidores. Segundo um deles “eu não me importo com o quão barato isso fica, a Vale agora é ininvestível, “o fato de haver prédios de escritórios e uma cantina de funcionários nas proximidades da represa é simplesmente imperdoável. É como se nada tivesse sido aprendido com o desastre anterior “.

Como se vê, a Vale como reincidente de Tsulamas agora terá de repensar suas práticas não por causa da “autoregulação” que o governo Bolsonaro quer adotar, mas por causa de uma mudança no perfil de uma parcela diferenciada dos que se interessam por investir em ações.  Por isso, qualquer propensão a apoiar a liberação total da poluição no Brasil acabará tendo consequências bem diferentes das pretendidas.

Quem desejar ler a matéria do Financial Times na íntegra, basta clicar [Aqui!].

Brumadinho Pós-Mariana: Lições Não Aprendidas: vídeo completo do evento

 

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Bombeiros atuam no resgate de vítimas no Tsulama da Vale em Brumadinho (MG).

O vídeo do evento “Brumadinho Pós-Mariana: Lições Não Aprendidas”, realizado pelo grupo de pesquisa Meio Ambiente e Sociedade (IEA/USP) em 14 de fevereiro já está disponível. O evento contou com a participação do Prof. Dr. Bruno Milanez (PoEMAS/UFJF).

Fonte: PoEMAS [Aqui!]

Brumadinho, desastre anunciado, Santa Barbara, uma possibilidade

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Por Frederico Lopes Freire*
A lição não foi aprendida, se em Mariana pode ser alegado algum desconhecimento ou desatenção pelo ineditismo, isto não se aplica a Brumadinho.
Versões sobre o ocorrido surgem diariamente, todas com foco em liquefação. Para haver liquefação obviamente é necessária a presença de líquido.
A observação simples de imagens disponíveis no Google Earth, em ordem cronológica a partir de 2011, até a última em 2018, são claras para qualquer observador mais atento, seja um especialista ou não.

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Imagem 03 – datada de 30 de julho de 2011
O escoamento das águas superficiais é claramente indicado pelas cotas de nível do interior da barragem, as setas indicando o fluxo em direção a dois pontos de drenagem (cotas 912 e 913).
Estas águas tem origem na precipitação pluvial no local e em encostas montanhosas na parte posterior da barragem, sendo visível na cota 948 um ponto de entrada de águas. Certamente não é o único, mas este é possivelmente alimentado por uma nascente ou córrego. Podemos observar também as cotas do perímetro da barragem e de alguns pontos do seu talude.
A mancha escura provocada pela presença e fluxo das águas superficiais é claramente visível.

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Imagem 04 – datada de 03 de setembro de 2012
Serviços de terraplanagem e outros não identificáveis estão sendo executados.
Canteiro de obras pode ser visto no talude da barragem. Os pontos de escoamento de águas da imagem anterior (03) foram desativados, e uma inversão da declividade a partir da barragem, indica o fluxo das águas superficiais na direção de uma área interna em torno da cota 912.
Cotas de perímetro inalteradas. No lado direito da imagem, cota 941, nova entrada de águas superficiais partindo da estrada adjacente, pode ser observada. O mesmo ocorre na extremidade oposta da barragem na cota 945.
Não são mais visíveis pontos de escoamento das águas superficiais. A mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais fica restrita a metade superior da área da barragem.

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Imagem 05 – Datada de 23 de agosto de 2014.
Não há alteração nas cotas de perímetro ou existência de atividades visíveis. A mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se expande em direção a barragem.

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Imagem 06 – datada de 16 de agosto de 2015.
Não há alteração nas cotas e nem existência de atividades visíveis. A tonalidade da mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se acentua, e ocupa agora toda a área da barragem.

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Imagem 07 – datada de 10 de junho de 2017
Não há alteração nas cotas e nem atividades visíveis. A tonalidade da mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se acentua cada vez mais, ocupando toda a área da barragem. Não há drenagem visível, o rejeito continua sendo impregnado por água.

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Imagem 08 – datada de 21 de julho de 2018- última imagem disponível
Não há alteração de cotas ou atividades visíveis. A mancha produzida pelo acúmulo de umidade torna difícil identificar o tipo de superfície aparente.
O espaço de tempo entre a imagem 04, datada de 03 de setembro de 2012, quando foram eliminados os pontos de escoamento de águas superficiais, e a imagem atual, é de 2.146 dias, ou aproximadamente 6 anos. Devemos acrescentar mais 188 dias decorridos até o rompimento da barragem.

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Imagem 10 – com base na última imagem disponível ( 21/07/2018).
Indica uma bacia de contribuição de águas pluviais de aproximadamente 90 hectares para a barragem 1, apenas no trecho até a estrada acima.
Em todo o período de tempo analisado, nenhuma atividade relacionada com drenagem de águas superficiais pôde ser observada.
Não há liquefação sem a presença de líquido.
Olhos experientes teriam constatado que algo precisava ser feito com relação a drenagem local, independentemente de instrumentos de monitoramento. Não seria tão dispendiosa uma drenagem de perímetro, direcionando as águas afluentes para outro local.
É preciso aprender com os erros, para não repeti-los. É preciso dar valor aos profissionais experientes, sejam de nível superior ou simples operários.
Exigem-se títulos e diplomas teóricos para os professores universitários, eles são avaliados pela variedade e quantidade destes. Despreza-se a experiência e a prática. Jovens aprendem a confiar somente na tecnologia cada vez mais sofisticada, perdem a capacidade de avaliar e tomar decisões que não sejam corroboradas pelos instrumentos. Todavia, piezometros não tomam decisões, indicam decisões a serem tomadas.
Que as lições sejam aprendidas, pois muitos outros incidentes deste tipo estão pendentes, alguns muitíssimo mais graves como no caso de minerações auríferas, onde contaminação por cianureto, uma das mais perigosas substancias conhecidas, está presente.

O perigo ronda Santa Bárbara: o gigantesco reservatório da AngloGold Ashanti guarda o equivalente 13 bilhões de litros de rejeitos contaminados com cianeto

Informações recebidas através de vídeo gravado em 18 de março de 2018, e enviado pela médica veterinária Sara Xavier, moradora da cidade de Santa Bárbara chamando a atenção para a barragem localizada na comunidade de Carrapato. A quantidade de rejeito de mineração de ouro acumulada no local é de cerca de 13.000.000 de m3, ou 13 bilhões de litros, contaminados com cianeto, ou cianureto de potássio. Com cerca de 40 m de altura e 500 m de extensão, a barragem usa o mesmo sistema construtivo de Mariana e Brumadinho, utilizando alteamentos sucessivos.


Usado para a separação do ouro de outros metais e resíduos, o cianeto é uma das substâncias mais perigosas conhecidas, podendo uma pitada matar um ser humano em segundos. Os danos para qualquer tipo de vida, vegetal ou animal, é imensurável num caso de vazamento da lama.
A mineração pertence a empresa AngloGold Ashanti, Sul Africana com capital americano segundo a Dra. Xavier, que ainda informa não haver qualquer tipo de informações ou treinamento fornecidos a população.
É fácil constatar nas imagens a grande quantidade de líquido recobrindo o depósito. No caso de um rompimento o caminho da lama atingirá a jusante o rio Piracicaba em Minas Gerais, ou seja, a bacia do Rio Doce.


Frederico Lopes Freire é Arquiteto, possuindo ampla experiência profissional no Brasil e nos EUA, e atualmente vive no município de Colatina, norte do estado do Espírito Santo.

Tsulama da Vale em Brumadinho aparece na capa do The New York Times

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O jornal estadunidense colocou o Tsulama da Vale na sua edição deste domingo (10/02) numa ampla reportagem assinada pelos jornalistas Shasta Darlington, James Glanz, Manuela Andreoni, Matthew Bloch, Sergio Peçanha, Anjali Singhvi e Troy Griggs sob o título de “A Tidal Wave of Mud” (que pode ser traduzido como um “Maremoto de Lama” (ou simplesmente como chamo “Tsulama”).

A reportagem prima por oferecer uma série de gráficos e imagens que mostram em detalhe as estruturas que colapsaram em Brumadinho (MG) e dos seus impactos imediatos sobre o meio ambiente e sobre a população que vivia no entorno dos reservatórios de rejeitos da Vale (ver imagens abaixo).

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Mas além de abordar em riqueza de detalhes o que ocorreu em Brumadinho, a reportagem do “The New York Times”  falou também das ameaças iminentes em outras dezenas de cidades brasileiras onde existem reservatórios semelhantes aos que romperam em Mariana e Brumadinho.

Segundo a reportagem, a ameaça iminente da ocorrência de novos Tsulamas já surgiu em Barão de Cocais onde a Vale teve que tomar a “medida preventiva” de remover cerca de 500 pessoas de suas casas, explicando que tinha iniciado o seu plano de emergência após uma empresa de consultoria, a Walm, ter se recusado  a atestar a estabilidade da barragem.

A reportagem introduz a fala do prefeito de Barão de Cocais,  Dúcio dos Santos, de que “Nós não sabíamos que a represa era perigosa.”, e acrecentou que “o verdadeiro risco de barragens no Brasil – e em outros lugares – é em grande parte desconhecido.

Uma informação importante que parece ter se perdido nas que foram produzidas pela mídia corporativa brasileira é de que “assim como em Brumadinho, as barragens acima das áreas já evacuadas de Barão de Cocais e de Itatiaiuçu, são barragens a montante, e que há um total de 88 represas a montante em todo o Brasil, e todas, com exceção de quatro, têm a mesma classificação de segurança que a estrutura em colapso – ou pior – de acordo com registros oficiais”.  Segundo o The New York Times, algumas dessas barragens mal classificadas residem diretamente em áreas povoadas. Pelo menos 28 destas barragens de rejeitos estão diretamente para cima de cidades ou vilas, e podem ameaçá-los se falharem.(ver abaixo alguns dos exemplos compilados pela equipe do “The New York Times” que mostram os casos de Conselho Lafaiete, Crixás, Igarapé, Itaquaquecetuba, João Monlevade e Nova Lima).

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A reportagem ressalta ainda a força das mineradoras em Minas Gerais cuja economia estaria “viciada em mineração” e, por isso, totalmente nas mãos das mineradoras que contam com o beneplácito dos governos para continuar sua atuação sem maiores controles.  O caso de Mariana é apontado como um exemplo de como a indignação que seguiu ao colapso da barragem da Samarco fez pouco para melhorar a situação de controle das atividades das mineradoras. Aliás, como bem apontou o geógrafo e professor da UFMG,  Klemens Laschefski, Depois do Tsulama Mariana, o sistema de licenciamento ficou mais flexível”.

O impacto do amplo conteúdo desta reportagem deverá ir além dos leitores do “The New York Times” e deverá ter repercussões sobre o mercado de ações na Bolsa de Nova York. É que, apesar de já haver amplo conhecimento sobre os danos sociais e ambientais gerados pelas atividades de mineração, pouco é conhecido sobre como a mesma se dá no Brasil, e dos riscos iminentes de novos Tsulamas ocorrerem em represas a montante.

Vai ser interessante ver como se comportará o governo Bolsonaro frente às inevitáveis consequências desta reportagem, especialmente no que se preparava para a sacramentação do autolicenciamento como ferramenta principal de liberação de empreendimentos com impactos sobre o meio ambiente. Como já disse em uma entrevista à Rede Brasil Atual, o Tsulama da Vale em Brumadinho deixou o rei nu. Vamos ver agora como ele se comporta.

Quem desejar ler a matéria do “The New York Times” na íntegra, basta clicar [Aqui!]