Perigo claro e presente: reportagem revela que cidades de MG que estão ameaçadas por barragens da Vale

Mapas inéditos: 10 escolas e mais de 1,5 mil edificações estão no caminho da lama das barragens da Vale em MG

Mesmo 18 meses depois de Brumadinho, Vale e poder público não divulgam as áreas que podem ser atingidas em caso de rompimento das barragens de mineração. A Repórter Brasil teve acesso às informações e disponibiliza plataforma para consulta pública

Mapas inéditos: 10 escolas e mais de 1,5 mil edificações estão no caminho  da lama das barragens da Vale em MG

Por Amanda Rossi e Hugo Nicolau para a Repórter Brasil

Quando as aulas forem retomadas na Escola Estadual Deniz Vale, em Nova Lima (MG), os 1.254 alunos vão voltar para suas classes sem saber que o local pode ser atingido por um rio de lama em menos de 30 minutos no caso de rompimento de uma barragem próxima, com altura e volume similares à que gerou o desastre de Brumadinho. Também não receberam treinamento a respeito do que fazer em caso de emergência.

“A escola nunca recebeu essa informação”, diz Zeca Ribeiro, professor de história da Diniz Vale. Segundo outro funcionário da escola, a Defesa Civil e uma empresa contratada pela Vale fizeram uma visita rápida ao local, logo depois de Brumadinho, mas “não mostraram nenhum documento e nunca mais voltaram”. O desastre, que deixou 270 mortos, completa um ano e meio neste dia 25.

Os alunos, professores e funcionários dessa escola de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, não são os únicos no escuro a respeito do perigo que correm. Mapas inéditos obtidos pela Repórter Brasil mostram que outras nove escolas estão dentro das chamadas Zona de Autossalvamento (ZAS) das barragens da Vale em Minas Gerais. Essas são as áreas que seriam atingidas pelos rejeitos em até 30 minutos, não havendo tempo para a Defesa Civil retirar a população do local – por isso, o nome “autossalvamento”.

No ano passado, a Vale chegou a planejar a publicação de um site com os mapas das Zonas de Autossalvamento de 64 barragens (59 delas em Minas Gerais) — e rotas de fuga em caso de rompimento. A divulgação, no entanto, nunca aconteceu. A Repórter Brasil teve acesso a esses mapas e os divulga de forma inédita para que as pessoas enfim saibam se estão em risco ou não por conta das barragens de rejeitos de minério. Nessa plataforma, é possível checar a situação das cidades mineiras que estão próximas a barragens da Vale.

mapa barragem 1Mapa mostra área da cidade de Nova Lima, incluindo escolas e prédios públicos,  que poderia ser afetada caso houvesse um rompimento das barragens da Vale; clique na imagem para consultar o mapa completo (Foto: reprodução)

No total, são mais de 1,5 mil edificações, distribuídas em 16 municípios, que poderiam ser gravemente atingidas pelos rejeitos, em caso de rompimento das barragens. Entre elas, estão prédios públicos: quatro Fóruns de Justiça, duas Câmaras de Vereadores e a prefeitura. O Brasil tem ainda outras 300 barragens de outras mineradoras, cujas áreas de risco continuam desconhecidas.

“Se há uma escola dentro da área que seria atingida, ela deveria ter não só o mapa, mas treinamento sobre o que fazer em caso de rompimento. Esse é um ótimo exemplo de como a transparência salva vidas. Mas, mesmo depois de duas tragédias tão grandes, em Mariana e Brumadinho, as instituições não aprenderam”, diz Renato Morgado, da ONG Transparência Internacional.

Questionada sobre a desistência em divulgar o site com os mapas, a Vale afirmou que “a Defesa Civil de Minas Gerais demonstrou não ter interesse” na divulgação das informações. Acrescentou ainda que está, neste momento, negociando um projeto que vai divulgar os mapas das manchas de inundação em Minas Gerais em um aplicativo, porém não informou a previsão de lançamento.

Sobre a falta de treinamento dado à população que vive na rota da lama, a Vale informou que apenas realiza simulados de emergência quando as barragens estão nos níveis 2 ou 3 de segurança — que indicam risco médio e alto. A empresa informou já ter feito dez simulados, com 26 mil pessoas. Um deles foi em Nova Lima, mas não contou com a participação da escola Diniz Vale.

A Vale afirma ainda que “não tem medido esforços para garantir a segurança das suas barragens e das comunidades localizadas a jusante das estruturas” (leia a íntegra das respostas). Entre as medidas tomadas, cita o monitoramento 24 horas das estruturas e a construção de três barreiras de contenção nas barragens de nível 3 (as de maior risco), que seriam capazes de conter todo o rejeito se houvesse ruptura.

A Defesa Civil de Minas Gerais não respondeu se tomou providências para divulgar os mapas de inundação, dizendo apenas que “a obrigação pela divulgação das informações é do empreendedor”. Em relação à alegação da Vale, de que a Defesa Civil não teria interesse na divulgação dos mapas da mineradora, o órgão não se manifestou.

barragem 2Mesmo um ano e meio depois do desastre na barragem de Brumadinho, que deixou 270 mortos, Vale e poder público não divulgam as áreas que podem ser atingidas em caso de novos rompimentos (Foto: Bombeiros/Divulgação)

O grande número de pessoas vivendo em áreas de autossalvamento, independentemente do grau de risco da barragem, é motivo de preocupação. “A existência de comunidade nesses locais é extremamente temerária, por se tratarem de evidentes áreas de risco”, escreveu o Ministério Público de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados, em abril. No mês seguinte, os deputados federais proibiram a instalação de novas barragens se houver moradores em Zonas de Autossalvamento. Agora, a medida aguarda votação no Senado.

“Eu acho importante conhecer o mapa e ter o treinamento de emergência, mesmo se a barragem estiver estabilizada. Até porque as barragens que romperam também eram consideradas como estabilizadas”, diz o professor Zeca Ribeiro, da escola Diniz Vale.

O mapa da área de autossalvamento faz parte do plano de emergência da barragem, que deve ser elaborado pela mineradora para “minimizar danos e perdas de vidas”. Apesar de serem documentos públicos, são de acesso limitado. Esta é a primeira vez que esses mapas, elaborados pela Vale, vêm a conhecimento público e estão disponíveis para consulta.

Brumadinho sem rota de fuga

A importância do mapa de áreas de autossalvamento ficou evidente em Brumadinho. Em 25 de janeiro de 2019, o caminho da lama foi similar ao previsto no plano de emergência da Vale. O poder de destruição chegou a ser equivalente a uma onda de 30 metros a 120 quilômetros por hora, segundo cálculos da Polícia Federal. Todas as 270 pessoas que morreram estavam na ZAS. As cerca de 60 construções do local foram completamente destruídas, não sobrando vestígio nem dos seus alicerces.

Funcionários e moradores que sobreviveram dizem que não sabiam por onde a lama iria passar, nem conheciam as rotas de fuga. “Tem um vídeo de Brumadinho que mostra as pessoas correndo de um lado para o outro. Se conhecessem o mapa [da área de autossalvamento] e tivessem treinamento, muitas delas poderiam ter se salvado”, diz Sérgio Médici de Eston, professor de Engenharia de Minas da Universidade de São Paulo (USP).

“Qualquer país decente do mundo vai providenciar informações para que a população saiba que providências tomar em caso de emergência. Se as informações ficarem trancadas, não servem para nada. Esse não é um dado industrial, sigiloso, de segurança nacional. É um dado que pode ajudar a salvar vidas”, complementa Eston.

Depoimento de moradores, feito pouco depois do desastre em Brumadinho, sobre como a busca por corpos e o ódio à Vale não excluíam uma preocupação com o futuro da cidade

O caminho da lama

O município de Rio Piracicaba, com 14 mil habitantes, é o que seria mais atingido em caso de rompimento. Ali, a área de autossalvamento engloba cerca de 500 construções, sendo quatro escolas, a prefeitura, a Câmara de Vereadores e o Fórum. As barragens da Vale em Rio Piracicaba são, atualmente, consideradas fora de risco. Em seguida, estão Itabira e Nova Lima, com mais de 400 imóveis cada na zona de autossalvamento. Em Itabira, as barragens estão sem emergência ou em nível 1 (nível considerado de risco baixo).

Em Nova Lima, além do colégio Diniz Vale, seriam atingidos outra escola, três edifícios do Poder Judiciário, a Câmara Municipal e a própria Defesa Civil. Das janelas da prefeitura, seria possível ver a lama chegando até a lateral do prédio. As barragens da Vale na cidade variam de sem emergência até nível 3. No caso das represas mais perigosas, a zona urbana não faz parte da área de autossalvamento, mas está na Zona de Segurança Secundária, que seria atingida em um segundo momento, após 30 minutos.

barragem 3Mancha da lama após o desastre em Brumadinho (à esq) e o mapa da Zona de Autossalvamento prevista pela Vale mostram como as áreas coincidiam (Foto: reprodução)

A Prefeitura de Nova Lima diz que realizou simulados de emergência no ano passado. Este ano, pretendia dar continuidade aos treinamentos, inclusive na escola Diniz Vale, mas os planos foram interrompidos por causa da pandemia do novo coronavírus.

Em Congonhas, o rompimento de barragens da Vale, consideradas sem emergência, atingiria pelo menos 200 construções, incluindo duas escolas municipais e um parque. Essa é apenas parte do problema do município, que também tem barragens da CSN e da Gerdau. Congonhas descobriu a magnitude da sua vulnerabilidade depois que resolveu criar seu próprio plano de segurança de represas, reunindo dados de todas as mineradoras da região.

As áreas atingidas podem ser ainda maiores do que indicam os mapas. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, algumas das Zonas de Autossalvamento estão subdimensionadas. Por isso, em setembro do ano passado, o órgão firmou Termo de Compromisso com a Vale, determinando a revisão dos estudos que preveem o que pode acontecer se as barragens romperem.

Entre março e maio deste ano, foram entregues as primeiras revisões, que priorizaram as estruturas que estão em situação mais crítica. “Nestes novos estudos, as manchas de inundação aumentaram de forma extremamente significativa”, diz a Promotora de Justiça Andressa de Oliveira Lanchotti.

Acesso restrito a documentos públicos

Pela Lei de Acesso à Informação, a reportagem solicitou os mapas de inundação das barragens para a Defesa Civil de Minas Gerais. O órgão respondeu que só tinha as informações em papel, não digitalizadas. Por isso, a única forma de consultar os documentos seria ir até a sede do órgão em Belo Horizonte, mediante agendamento, sob acompanhamento de um funcionário.

Dessa forma, uma pessoa que viva em outra cidade mas queira conhecer os mapas por ter parentes no local, por exemplo, não tem como acessar a informação, nem pela Lei de Acesso. Depois de ser procurada pela reportagem, a Defesa Civil deu outra versão. Alegou que dispunha de alguns mapas digitais, mas mesmo assim não os forneceu (leia a resposta na íntegra).

Mesmo quem mora nos locais atingidos enfrenta dificuldades para ter acesso às informações. Após o desastre de  Brumadinho, o arquiteto Hugo Cordeiro, de Congonhas, resolveu ir até a Defesa Civil e pediu para ver o mapa com a mancha de inundação da barragem Casa de Pedra, da CSN. “Eram umas dez pastas, com milhares de páginas de informação técnica”, lembra Cordeiro.

barragem 4Quando Hugo Cordeiro conseguiu o mapa de inundação da barragem Casa de Pedra, da CSN, percebeu o perigo e fez por conta própria uma versão para que todos pudessem entender (Foto: Arquivo pessoal)

A procura demorou. Quando finalmente encontrou o mapa com a zona de autossalvamento, Cordeiro não conseguiu entender muita coisa. Era uma mancha vermelha, sem nenhuma informação sobre o que havia debaixo. O arquiteto tirou uma foto com o celular e, em casa, usou o Google Maps para identificar que partes da cidade seriam atingidas pela lama.

E então, Cordeiro começou a acrescentar nomes, ruas e pontos de referência. “No início, fui fazendo por curiosidade. Mas aí eu vi que o negócio era realmente perigoso. Pegava creche, escola, casas. E pensei: preciso mostrar isso para o povo. Vou fazer uma coisa para o pessoal entender”, conta o arquiteto. O resultado foi postado em seu  perfil no Facebook. Logo, viralizou. “Mais de cem pessoas vieram me pedir o mapa em alta resolução”, conta.

Falta de transparência, não só da Vale

De acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM), as únicas exigências para divulgação dos planos de emergência são três “cópias físicas” – uma para a própria mineradora, outra para a Defesa Civil e a terceira para as prefeituras. Não há menção a divulgação na internet. Procurada, a ANM afirmou que não fica com cópias dos planos de emergência, mas estuda reunir e disponibilizar as manchas de inundação online, como parte do Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração, que informa as características e o nível de emergência das barragens.

“Assim fica muito fácil para a empresa. Ela pode falar: ‘já fiz meu estudo de impacto e o plano de evacuação, quem quiser que venha aqui olhar’. Não pode ser assim. É preciso passar essas informações para a população, de forma didática”, fala Evandro Moraes da Gama, pesquisador de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Papel não é transparência. Transparência é internet. Atualmente, existem até serviços que mandam notificações no celular se há uma chuva forte perto de você. Não é para que as pessoas fiquem alarmadas, mas para que possam saber o que fazer para protegerem suas próprias vidas”, diz Eston, da USP.

fecho

Esta reportagem foi originalmente publicada pela Repórter Brasil [Aqui!].

Earthworks divulga versão em português das novas diretrizes para a mineração

A organização não- governamental Earthworks acaba de divulgar a versão em português do relatório intitulado “Segurança Em Primeiro Lugar: Diretrizes Para Gestão Responsável de Rejeitos de Mineração” . Segundo o proposto pelo relatório,  a meta principal da gestão de rejeitos deve ser dano zero a pessoas e ao meio ambiente, e tolerância zero a fatalidades humanas. No ano passado, o trágico colapso de uma barragem que matou 270 pessoas no Brasil e destruiu a cidade de Brumadinho veio logo após falhas de barragens de rejeitos na mina de Mount Polley no Canadá e na mina da Samarco no Brasil, entre outras. Por todo o mundo, comunidades que vivem à sombra de grandes barragens de rejeitos vivem num estado perene de medo. 

diretrizes

As diretrizes vêm no momento em que a  Global Tailings Review, co-convocada pela associação internacional do setor de mineração, a ICCM, investidores e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, prepara-se para apresentar nos próximos dias o primeiro Padrão Global de Rejeitos para “uma gestão de armazenagem de rejeitos mais segura”.

 Os padrões atuais do setor, inclusive a proposta de Padrões de Rejeitos publicada em 2019, não são suficientes para proteger adequadamente as comunidades e ecossistemas contra falhas. Essa tendência de tragédias causadas por barragens de rejeitos é consequência de se permitir que as empresas de mineração sacrifiquem a segurança para cortar custos, controlem auditores e silenciem o dissentimento dos trabalhadores.

Outros destaques do relatório:

  • Instalações de armazenagem de rejeitos só devem ser construídas ou gerenciadas quando houver consentimento comunitário, respeito aos direitos humanos e internacionais dos Povos Indígenas e se forem adotadas as melhores práticas e tecnologias disponíveis.
  • Os protocolos internacionais de segurança devem ser independentes do controle da empresa e estabelecidos através de processos de consulta multiparticipativa que envolvam todas as partes interessadas, engajando trabalhadores, comunidades e a sociedade civil.
  • Padrões robustos de barragens de rejeitos devem incluir garantias financeiras e responsabilização nos níveis mais altos de governança corporativa. A participação do público nas decisões e um sistema confiável de denúncia e queixa são necessários para garantir que comunidades e trabalhadores possam dar o alarme sem sofrer consequências.
  • Para evitar passivos de longo prazo criados por resíduos mineiros e seu respectivo impacto social e ambiental é necessário que se reduza a demanda de minerais brutos.

O grupo responsável pelo relatório inclui organizações de vanguarda do setor de mineração nas comunidades afetadas no Brasil, Tanzânia, Papua Nova Guiné, Índia e outras partes do mundo, além de grupos internacionais como a Amnesty International Canada, Earthworks, IndustriALL Global Union Federation, MiningWatch Canada, Natural Resources Defense Council e o Sierra Club. 

O relatório em sua íntegra pode ser encontrado em português aqui e em inglês aqui.  

Segurança em primeiro lugar: novo relatório propõe diretrizes para acabar com os desastres de mineração

No dia de hoje (30/06), um grupo internacional de 142 cientistas, grupos comunitários e ONGs de 24 países publicou uma série de diretrizes para o armazenamento seguro de resíduos de mineração. As diretrizes visam proteger as comunidades e os trabalhadores dos riscos apresentados pelas milhares de instalações de armazenamento de resíduos de  mineração, que estão falhando com mais frequência e com consequências mais sérias.

segurança primeiro

Segurança em primeiro lugar: Diretrizes para o gerenciamento responsável de rejeitos” afirma que o objetivo principal do gerenciamento de rejeitos deve ser zero dano às pessoas e ao meio ambiente, com tolerância zero a fatalidades humanas. O trágico colapso de uma barragem no ano passado no Brasil matou 270 pessoas e destruiu a cidade de Brumadinho, e ocorreu após as falhas da barragem da mina de Mt. Polley no Canadá e da mina Samarco no Brasil, entre outras. Em todo o mundo, comunidades nas sombras de grandes barragens de rejeitos vivem em um estado de medo perpétuo.

As diretrizes são divulgadas à medida que a Revisão Global de Rejeitos, convocada pela associação internacional da indústria de mineração, ICMM, investidores e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), se prepara para lançar o Primeiro Padrão Global de Rejeitos “para o gerenciamento mais seguro das instalações de salvaguarda de rejeitos” nos próximos dias.

Os padrões atuais do setor, incluindo o rascunho do Global Tailings Standard lançado em 2019, falham em proteger adequadamente comunidades e ecossistemas contra falhas. A tendência das tragédias das barragens de rejeitos é uma consequência de permitir que as empresas de mineração sacrifiquem a segurança para reduzir custos, controlar auditores e silenciar a dissidência entre os trabalhadores.

barragens

Aspectos adicionais destacados no relatório:

  • As instalações de armazenamento de rejeitos devem ser construídas e gerenciadas somente com o consentimento das comunidades, respeitando os direitos humanos e os direitos internacionais dos povos indígenas e adotando as melhores tecnologias e práticas disponíveis.
  • Os protocolos internacionais de segurança devem ser independentes do controle das empresas e devem ser estabelecidos por meio de processos com detentores de direitos, envolvendo ativamente trabalhadores, comunidades e sociedade civil.
  • Padrões fortes para barragens de rejeitos devem incluir garantias financeiras e prestação de contas ao mais alto nível. A participação do público nas decisões e mecanismos confiáveis ​​de reclamação e reclamação são necessários para garantir que comunidades e trabalhadores possam tocar o alarme sem consequências adversas.
  • Para evitar passivos de longo prazo nos locais de resíduos de mineração e seus impactos sociais e ambientais, é necessário reduzir a demanda geral pelas principais matérias-primas.

O grupo que publica o relatório inclui organizações de base em comunidades afetadas pela mineração no Brasil, Tanzânia, Papua Nova Guiné, Índia e muito mais, além de organizações globais como a Anistia Internacional do Canadá, terraplanagem, IndustriALL Global Union Federation, MiningWatch Canadá, El Natural Conselho de Defesa de Recursos, O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Sierra Club. O relatório completo está aqui em espanhol e aqui em inglês.  Fotos e porta-vozes adicionais estão disponíveis mediante solicitação.

Grupos comunitários e organizações da sociedade civil em todo o mundo destacam a importância de “Segurança em primeiro lugar: diretrizes para o gerenciamento responsável de rejeitos”:

“Precisamos de diretrizes independentes para barragens de rejeitos, porque não é possível confiar nas informações geradas pelas empresas de mineração e seus prestadores de serviços. Em Minas Gerais, Brasil, temos centenas de barragens em risco como resultado do comportamento histórico e irresponsável das empresas. É urgente e necessário ter regras e regulamentos para o gerenciamento de barragens de resíduos tóxicos. Esperamos que o caso Brumadinho seja um marco e um momento decisivo para a mineração em todo o mundo. ” Carolina de Moura da Associação da Comunidade Jangada, Brumadinho Brasil

“Vimos desastres nas minas de Mount Polley e outras falhas em todo o mundo – agora com média de mais de 22 por década – impactando severamente as comunidades indígenas, as comunidades vizinhas e as terras e bacias hidrográficas que protegem. O consentimento livre, prévio e informado para as comunidades locais é essencial para melhorar a segurança do armazenamento de resíduos de minas. ” Loretta Williams, das Primeiras Nações, Mulheres Advogando a Mineração Responsável, Canadá

“No Alasca e no Canadá, as leis que regem a mineração estão desatualizadas há muitos anos. Precisamos de uma mineração responsável e segura – segura não apenas para os funcionários das minas, mas para todos os que vivem a jusante. Precisamos de água limpa para as gerações futuras “. Frederick Olsen, Jr, Comissão Transfronteiriça Indígena do Sudeste do Alasca, EUA.

“Governos e instituições internacionais precisam implementar urgentemente essas 16 diretrizes para acabar com as falhas mundiais de resíduos de mineração. A autorregulação pela indústria de mineração não resulta em proteção adequada. Temos que apresentar uma forte resposta global a esse problema e priorizar a segurança em detrimento do lucro. “Ugo Lapointe, MiningWatch Canada, Canadá.

“A indústria de mineração foi autorizada a cortar seus custos em troca de segurança por muito tempo. A implementação dessas diretrizes melhoraria a segurança das barragens de rejeitos, garantiria o respeito pelas comunidades afetadas – incluindo o direito de dizer “não” às barragens de rejeitos – e garantiria que as empresas de mineração sejam legal e economicamente responsáveis por suas ações. Quaisquer regulamentos que não atendam às demandas especificadas nestas diretrizes não são suficientes para proteger as pessoas, os ecossistemas e os meios de subsistência de falhas catastróficas. ”

Contatos:

Brendan McLaughlin, bmclaughlin@earthworksaction.org, 206.892.8832

Ugo Lapointe, ugo@miningwatch.ca, 514.708.0134

Vale condenada a pagar R$ 7,9 bilhões por danos causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG)

vale-brumadinho-IbamaO rompimento da barragem de rejeitos em 25 de janeiro de 2019 matou 257 pessoas e deixou outras 13 desaparecidas. (Imagem cortesia de Vinícius Mendonça | Ibama)

Por Cecilia Jamasmie

Um juiz do estado de Minas Gerais concedeu parcialmente uma liminar solicitada pelos promotores do Ministério Público Estadual ao ordenar à Vale (NYSE: VALE) que reserve R$ 7,9 bilhões   (cerca de US $ 1,5 bilhão) para pagar multas  relacionadas ao colapso da barragem de rejeitos que matou 270 pessoas no ano passado em Brumadinho (MG).

A cifra se soma aos R $ 1 bilhão (US $ 260 milhões da época) em fundos congelados que um tribunal federal ordenou que a Vale pagasse às comunidades afetadas logo após o incidente mortal.

Cerca de US $ 48 milhões de reais (US $ 10,4 milhões) foram liberados de volta à empresa em março deste ano para financiar uma investigação sobre as causas do colapso da barragem.

A cidade de Brumadinho, onde está localizada a mina  do Córrego do Feijão da Vale, suspendeu este mês a licença da Vale para operar sob preocupações de que os trabalhadores não respeitassem as regras de distanciamento social.

Também interrompeu o trabalho em andamento para reparar as instalações de armazenamento de rejeitos da mina.

A gigante da exploração do minério de ferro enfrenta várias ações legais pelo incidente, as mais mortais da história da mineração no Brasil. Eles incluem alegações de que a Vale estava ciente das condições instáveis da barragem  nos anos anteriores ao acidente.

Em janeiro, os promotores estaduais acusaram Fabio Schvartsman, o executivo-chefe no momento da explosão, e outras 15 pessoas por homicídio. Schvartsman deixou seu cargo na empresa em março de 2019.

Eles também acusaram a Vale e sua contratada alemã,  a TUV SUD, por crimes ambientais, pois a explosão provocou uma avalanche de resíduos de mineração lamacentos que poluíram a cidade vizinha de Brumadinho, cursos de água e terras agrícolas.

Barragem de rejeitos em destaque

O trágico incidente desencadeou no ano passado várias investigações criminais, incluindo uma investigação global sobre o status de 726 barragens de rejeitos.

Também colocou a segurança dessas estruturas sob o microscópio.

O Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), um grupo industrial com sede em Londres, representando 27 grandes empresas de mineração, formou um painel independente de especialistas encarregados de desenvolver padrões globais para instalações de rejeitos.

A Igreja da Inglaterra, que investe em empresas de mineração por meio de pensões para clérigos aposentados, juntamente com seus parceiros, lançou uma investigação global em abril de 2019 sobre os sistemas de armazenamento de resíduos de mineração de mais de 700 empresas de recursos.

Agora, pede às empresas que divulguem dados sobre barragens de rejeitos regularmente.

A Fundação de Mineração Responsável (RMF), com sede na Suíça, publicou um estudo no início de abril deste ano, mostrando que as ações lideradas por investidores resultaram em maior transparência em relação ao estado de tais instalações.

A grande maioria das mineradores, no entanto, ainda não demonstrou que está revisando como administra efetivamente os riscos relacionados aos rejeitos.

A organização sem fins lucrativos, financiada pelos governos holandês e suíço e algumas pequenas organizações filantrópicas, disse que, embora um padrão global de gerenciamento de rejeitos seja uma iniciativa bem-vinda, ele pode ser fortalecido para se tornar significativo em termos de segurança de rejeitos.

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Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pelo site “Mining[Dot]Com [Aqui! ].

Scientific Reports publica estudo que mostra alterações ambientais causadas no Rio Paraopeba pelo incidente da Vale em Brumadinho (MG)

A ruptura da barragem de rejeitos de mineração de Brumadinho no Brasil é considerada um dos maiores desastres de mineração do mundo, tendo em pelo menos 244 mortes e causado o desaparecimento de 26 pessoas, além das conseqüências ambientais (ver abaixo vídeo do momento da ruptura do reservatório da Vale na mina Córrego do Feijão).

Agora, um estudo produzido em colaboração por pesquisadores da Uenf, UFRJ e UFES, e que acaba de ser publicado pela Scientific Reports (que pertence ao mesmo grupo que publica a revista Nature),  avalia as concentrações de múltiplos elementos e os efeitos biológicos na água e nos sedimentos do rio Paraopeba após a ruptura da barragem de Brumadinho.  É importante notar que os rejeitos que escaparam da barragem da mineradora Vale eram formados por material particulado fino com grandes quantidades de Fe, Al, Mn, Ti, metais de terras raras e metais tóxicos.

mapa brumadinhoMapa dos locais de amostragem com a trajetória dos rejeitos de mineração ao longo do rio Paraopeba.  Fonte de dados: IBGE, 2019

A pesquisa determinou que os teores de Fe, Al, Mn, Zn, Cu, Pb, Cd e U foram superiores aos permitidos pela legislação brasileira na água do Rio Paraopeba.  Já nos sedimentos, os níveis de Cr, Ni, Cu e Cd foram superiores às diretrizes de qualidade de sedimentos estabelecidas (TEL-NOAA).

ER BrumadinhoFatores de enriquecimento (FEs) dos rejeitos e sedimentos dos locais de amostragem ao longo do rio Paraopeba. Os tons de marrom indicam o seguinte: 1 indica nenhum enriquecimento; ❤ é enriquecimento menor; 3-5 é um enriquecimento moderado; 5–10 é enriquecimento moderadamente grave; 10-25 é um enriquecimento severo; 25–50 é um enriquecimento muito grave; e> 50 é um enriquecimento extremamente grave

Os autores do estudo indicam que as diferenças nas concentrações de metais na água e nos sedimentos entre os lados a montante e a jusante da barragem ilustram o efeito dos rejeitos no rio Paraopeba.  Além disso, testes toxicológicos que foram realizados como parte da pesquisa demonstraram que a água e os sedimentos eram tóxicos para diferentes níveis tróficos, de algas a microcrustáceos e peixes. Além disso, os peixes expostos à água e sedimentos contendo minério também acumularam metais no tecido muscular.

Uma observação importante do estudo é que a avaliação dos resultados obtidos aponta para a necessidade de monitoramento de longo prazo na área afetada, de forma a avaliar os impactos de longo prazo que a Tsunami de Brumadinho provocou no Rio Paraopebas.

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Vítimas de Brumadinho são homenageadas e relembradas em ato na Avenida Paulista

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Há exato 1 ano se rompia a Barragem da Mina do Feijão, que deixou 272 mortos em Brumadinho. E para relembrar e homenagear as vítimas da tragédia, houve hoje, 25 de janeiro, um ato em que a sirene que não tocou em 2019, soou por 60 segundos na Avenida Paulista, às 12h28, horário que a barragem se rompeu. Em seguida, os participantes sentaram na calçada e fizeram 1 minuto de silêncio.

A ação foi realizada pelos voluntários do Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado pelos amigos e parentes das vítimas da tragédia. Após a performance, Larissa Carrara, voluntária do Instituto e amiga de Camila, realizou um discurso forte que reforçou o propósito de todos que estavam ali: abraçar as causas que Camila e Luiz tanto lutavam, mas foram interrompidos pela lama. “Geramos o Instituto na contramão de toda essa ganância e indiferença, como voluntários em defesa e proteção dos direitos humanos, grupos vulneráveis e meio ambiente. Camila, Luiz. Fernanda. Lorenzo: é por justiça, é por amor. É por vocês e todos outros 268 atingidos pelo rompimento da barragem em Brumadinho, que agora seremos nós que não sossegaremos mais. Eles tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes!”, reforçou Larissa.

Como continuidade da série de ações que acontecerá nesse final de semana, às 18h30 os voluntários do Instituto, amigos e a família de Camila e Luiz Taliberti, farão uma caminhada até a Rua da Consolação, finalizando o dia com uma projeção sobre o tema no prédio onde funcionava o CREMESP, em frente ao Mackenzie.

26 de janeiro

Amanhã, 26, no mesmo local, Av. Paulista com a Rua Pamplona, acontece o segundo dia do evento com apresentações musicais e uma tenda com fotos de todas as vítimas. Também haverá a presença de uma serigrafista, que utilizará seus equipamentos para estampar camisetas dos participantes com o tema da ação.

Serviço

Evento em homenagem às vítimas de Brumadinho

Programação 26 de janeiro

Local: Esquina da Av. Paulista com a Rua Pamplona

10h: Início do evento

11h: Homenagem organizada pelos familiares

11h40: Apresentação musical

12h28: Toca a sirene — 1 minuto de silêncio

13h às 17h: Diversas apresentações musicais

17h45: Encerramento do evento

Sobre o Instituto Camila e Luiz Taliberti

O Instituto é uma iniciativa coletiva de amigos e familiares de Camila e Luiz Taliberti, vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019. O Instituto tem como missão atuar em temas socioambientais, a defesa dos direitos humanos, o empoderamento de grupos vulneráveis, especialmente mulheres, e a proteção do meio ambiente contra ações danosas.

INFORMAÇÕES PARA IMPRENSA

Empresa: Instituto Camila e Luiz Taliberti

Trama Comunicação: (11) 3388-3040 – www.tramaweb.com.br

Atendimento à imprensa

Lori Moscatelli – lori@tramaweb.com.br (11) 3388-3057 / (11) 98869-6141

Eri Yoshiy — eri@tramaweb.com.br (11) 3181-5572 / (11) 95034-9122

Vanessa Sallas – vanessa@tramaweb.com.br (11) 3388 3049

Um ano de Brumadinho e os efeitos de Kurumi: quando as corporações reinam, a Natureza padece e os pobres sofrem

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Hoje se completa um ano do rompimento da barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho que causou a morte de cerca de 300 pessoas, algumas das quais continuam com seus corpos soterrados na lama oriunda das operações de mineração da Vale.  Mas se lembrar do crime cometido em função da ganância corporativa não fosse suficiente para azedar o dia, ouve-se e lê-se os informes dos efeitos devastadores das chuvas causadas pelo ciclone Kurumi em parte de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Alguém bem intencionado poderá perguntar qual é o nexo, se algum, entre os dois fatos apontados acima.  Eu diria que o nexo é pleno, na medida em que vivemos em uma sociedade dominada pelos interesses das grandes corporações que fazem da exploração da Natureza sua via fundamental de concentração de riqueza, ainda que impondo enormes custos ambientais e humanos.  Na prática, quando mineradoras como a Vale entulham rios e retiram suas águas para seus processos rudimentares, as consequências devastadoras dessa forma de apropriação da Natureza acabam sendo sentidas cedo ou tarde. 

As cenas de devastação que as chuvas estão criando em dezenas de municípios não decorrem apenas da manifestação das mudanças climáticas, mas de um modelo de sociedade que ignora as questões ambientais para maximizar a concentração da renda. Nesse caso, os pobres são relegados aos locais mais indesejados de cidades cada vez mais impactadas pelo  modelo de sociedade segregada em que vivemos. Por isso, as cenas de devastação raramente são mostradas a partir de mansões, mas normalmente de casas humildes onde os residentes acabam de perder tudo o que possuíam, mesmo antes de se recuperarem de perdas anteriores. 

Esse é o ciclo da nossa miséria socioambiental: as corporações abusam da Natureza, causam o colapso de delicados balanços naturais, criam cidades segregadas onde aos pobres é reservado os custos pesados de um modelo de sociedade que não se sustenta sem causar muita dor e sofrimento.

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Mas em meio a cenas de destruição e desespero também há gente que se movimenta para denunciar o modelo vigente e buscar formas de superar a estrada sem saída em que estamos metidos.  Por exemplo, centenas de pessoas marcham hoje  sob a liderança do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) em direção à Mina do Córrego do Feijão para denunciar o crime cometido pela mineradora Vale e sua consequente omissão frente às responsabilidades com os atingidos e o meio ambiente.

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Esses que marcham que marcham em Brumadinho estão lançando sementes para que possamos superar esse modelo de sociedade em que alguns vivem no luxo absoluto às custas da desgraça alheia.  Aos que marcham, o meu agradecimento.

Na véspera do aniversário de Brumadinho, análise mostra que cenário pré-rompimento se repete em outra mina da Vale em MG

Um artigo de autoria da jornalista Beatriz Jucá que foi publicada ontem pelo jornal  El País abordou a situação de 50 barragens de rejeitos que se encontram em situação de alto risco apenas no estado de Minas Gerais.

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Um dos aspectos críticos abordados por Beatriz Jucá é o fato de que a capacidade de inspeção por parte dos órgãos responsáveis contínua aquém da necessidade de monitorar a situação de estruturas que não estão dentro do level adequado de confiabilidade. Em função disso, a reduzida equipe de fiscais da Agência Nacional de Mineração teria visitado apenas 274 das 816 estruturas sob sua responsabilidade.

A consequência objetiva disso é que estruturas que podem estar em condição crítica não foram ainda elevadas a essa condição não o foram simplesmente porque as equipes de fiscalização não foram capazes de inspecioná-las.

Pois bem, desde o rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, venho publicando uma série de postagens apresentadas análises produzidas pelo arquiteto Frederico Lopes Freire a partir de imagens de satélite disponibilizadas pelo Google Earth.

Como amanhã se completa um ano do rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho, estou disponibilizando uma nova análise produzida por Lopes Freire apresentando a situação em outra unidade da Vale, a mina de Brucutu, que fica localizada no município de São Gonçalo do Rio Abaixo.  Após analisar o conjunto de imagens disponíveis a partir de 2003 que os mesmos sinais existentes na situação pré-rompimento em Brumadinho também estão presentes na Mina de Brucutu.

Interessante notar que no artigo do El País, a  Mina de Brucutu não está incluída na lista das 22 barragens que já foram interditadas pelos órgãos de monitoramento.

Abaixo as análises produzidas por Frederico Lopes Freire.

Análise de imagens da Barragem construída no período de 2014 a 2015, Mina Brucutu, São Gonçalo do Rio Abaixo – MG

Este é um relatório pessoal, com base em observação direta de imagens de satélite disponibilizadas no Google Earth.

Imagem 01 – Localização

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Na parte inferior da imagem de localização aparece a Barragem Córrego do Canal que foi desativada pela Vale. Foi também analisada com o uso das imagens do Google e apresentava sinais de deterioração. Evidenciava estar atingindo o limite de sua capacidade.

Sendo a mina de Brucutu uma das maiores, senão a maior, jazida de minério em operação da Vale, era evidente a necessidade de se construir uma alternativa para depósito dos rejeitos.

As imagens a seguir mostram um histórico da escolha do local para a construção, evidenciando uma total despreocupação com aspectos que hoje, após o desastre de Brumadinho, tornaram-se fundamentais para impedir ocorrências semelhantes.

Imagem 02 – Datada de 25 de maio de 2003

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A imagem acima, datada de 2003, mostra a área escolhida praticamente virgem, com seu relevo acidentado e caracterizado por semelhanças físicas com a região de  Brumadinho. Hoje sabemos da importância fundamental destas semelhanças no colapso da barragem de Brumadinho.

A linha na cor vermelha, mostra o perímetro aproximado do conteúdo da barragem em  31 de agosto de 2018, ou seja, 3 anos após a conclusão da obra. Podem ser visto claramente córregos existentes e pequenos alagamentos indicativos de possíveis nascentes, dentro do perímetro indicado.

O local onde vai ser construída a estrutura da parede de contenção está indicado no alto da imagem. As linhas azuis indicam a direção e percurso das águas pluviais das elevações adjacentes.  

Imagem 03 – datada de 07 de maio de 2013

Esta imagem de 2013 demonstra que até esta data nada havia sido construído. Importante para comparação com a Barragem de Brumadinho, cuja construção se iniciou em 1982, com 8 aumentos sucessivos em sua altura, até atingir 87 metros em 2013 e se romper em 2019.

Foram 37 anos até o rompimento.

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Imagem 04 – datada de 20 de julho de 2015

Nesta imagem de 2015 a construção está praticamente concluída. Ainda não é possível constatar o lançamento de rejeitos mas o acúmulo de águas de diversas origens é claramente visível. A linha vermelha indica o futuro perímetro do conteúdo em 2018.

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Imagem 05 – datada de 20 de julho de 2015

Aproximando-se a mesma imagem anterior, é possível constatar a curvatura da estrutura da barragem no sentido a montante. Sem dúvida uma construção bastante acelerada e já com dimensões finais de altura e volume.

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Imagem 06 – datada de 31 de agosto de 2018

Imagem datada de agosto de 2018, apenas 3 anos ( 2015 a 2018 ) após conclusão da obra, mostra o acúmulo de água junto a parede da barragem, bem como a visível deformação de toda a estrutura em direção a jusante.

Sinais de absorção de água e infiltrações no talude de contenção e base da barragem podem ser constatados. Tais sinais foram constatados na Barragem de Brumadinho, mas ao longo de um período de observação de 8 anos ( 2011 a 2018 ). 

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Imagem 07 – datada de 13 de março de 2019

Aproximando-se a última imagem disponível, 13 de março de 2019, permanece o acúmulo de água e todos os sinais de alerta da imagem anterior.

No relatório que fizemos em fevereiro de 2019, utilizando o mesmo método de análise cronológica das imagens Google, da ruptura de Brumadinho, apontamos tais sinais.

Enviei este relatório sobre Brumadinho para uma empresa especializada, a World Mine Tailings Failures.Org, tendo despertado o interesse deles, principalmente após a divulgação do vídeo frontal da ruptura que visualmente confirmava a análise feita.

Hoje mantenho contatos com a organização e, através dela, com especialistas de diversos países, obtemos destes importantes informações sobre características da liquefação estática, agora comprovadamente razão fundamental para os desastres de Mariana e Brumadinho.

Os sinais da atuação destas características, origem e consequências, estão claramente visíveis .

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Uma das orientações mais importantes recebidas de especialistas de renome mundial, é evitar de toda maneira possível, a contínua absorção de água pela parede das barragens, mantendo-se a distância águas superficiais e drenando-se outras origens.

Tal não ocorre na barragem em análise.

Estudo recém-publicado mostra impactos severos do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho sobre o Rio Paraopeba

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Um estudo realizado por pesquisadores ligados a diversas instituições de pesquisa no Brasil sobre os impactos causados pelo rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) acaba de ser publicado pela revista “Science of the Total Environment“. 

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Segundo um dos lideres da pesquisa, o professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende, a pesquisa que resultou a publicação deste artigo foi realizada para  avaliar os impactos ambientais da ruptura da barragem de Brumadinho a curto prazo.  Segundo Carlos Eduardo de Rezende,  análises biogeoquímicas, microbiológicas e ecotoxicológicas foram realizada em amostras coletadas ao longo de 464 km do Rio Paraopeba na semana seguinte ao desastre (1 de fevereiro de 2019), sendo o processo de amostragem repetido quatro meses depois (27–29 Maio de 2019).

Segundo Rezende, imediatamente após o desastre, a turbidez da água foi de 3000 NTU, 30 vezes maior que o padrão recomendado pela Resolução Brasileira de Qualidade da Água (CONAMA 357),tendo sido observado um aumento de até 60 vezes nas unidades formadoras de colônias microbianas tolerantes ao ferro até 115 km a jusante da falha da barragem em maio de 2019 (em comparação com fevereiro de 2019), sugerindo alterações nos perfis metabólicos microbianos.

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Para Carlos Eduardo de Rezende, os resultados do estudo sugerem que será necessário a implementação de programas de monitoramento independentes para quantificar a extensão dos possíveis impactos causados ​​pelo uso antropogênico do rio e promover a recuperação da área impactada.

Finalmente, o professor Rezende  afirmou que, apesar das dificuldades criadas pela falta de financiamento, a equipe de pesquidadores está comprometida com a realização de novas amostragens para avaliar o comportamento longitudinal das alterações biogeoquímicas e do perfil metagenômico do Rio Paraopeba.

Quem desejar baixar o publicado na “Science of the Total Environment“, basta clicar [Aqui!].

Ameaças em Carajás

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Por  Lúcio Flávio Pinto para o Amazônia Real

A atuação da Vale, que se revelou desastrosa em Minas Gerais, depois das tragédias de Mariana e Brumadinho, no intervalo de apenas três anos, tem sido considerada modelar em Carajás, a maior província mineral do planeta, no Pará. Numa área de 70 mil quilômetros quadrados (duas vezes o tamanho da Bélgica), a mineradora se orgulha de manter unidades de proteção da natureza quase intactas e adotar os métodos de lavra mais avançados para compatibilizá-los aos meios ambiente e social.

Mas não é exatamente assim. As barragens de rejeitos (com muita contaminação química) das minas de cobre, por exemplo, as maiores do Brasil, embora não ofereçam risco imediato, têm um alto potencial de dano em caso de acidente. Embora a região seja de baixa densidade demográfica, as instalações administrativas estão localizadas abaixo das barragens, como em Minas Gerais. A Vale terá que mudar a sua localização para prevenir de mais um acidente desastroso.

Já as barragens Pondes de Rejeitos e Captação de Água do Igarapé Bahia foram classificadas pela Agência Nacional de Mineração entre as 10 mais perigosas do país e estão sem atestado de estabilidade, por falta de sistemas adequados para escoamento de excesso de água em caso de chuvas intensas.

Por isso, a justiça federal em Marabá determinou, no mês passado, que a Vale declare situação de emergência nessas duas barragens. Em decisão liminar, o juiz federal Heitor Moura Gomes, da 2ª vara, acatou as razões apresentadas pelo Ministério Público Federal, de que essas estruturas não possuem sistemas eficientes de escoamento de água, o que pode afetar a estabilidade em eventual período muito chuvoso.

O juiz fez ainda outras exigências para que sejam efetivamente implementadas medidas de segurança previstas no Plano de Ação de Emergência para Barragens e faça inspeções de segurança especial, contratando empresas responsáveis pela confecção dos estudos complementares exigidos na ação judicial, acompanhados de cronogramas de trabalho.

Barragem Igarapé Bahia (Google maps)

A justiça cobrou estudos e mapas de inundação detalhados das áreas que podem ser inundadas, explicitando as zonas de auto salvamento e de segurança secundária, para a proteção de unidades de conservação, áreas indígenas e indicando possíveis impactos ambientais.

Uma das barragens, do reservatório da Pondes de Rejeitos, está com volume de 12 milhões de metros cúbicos, e o da Captação de Água, com 600 mil metros cúbicos, ambas localizadas na Floresta Nacional de Carajás. Somados, têm volume equivalente aos 12,7 milhões de metros cúbicos da Barragem 1 da mina do Córrego do Feijão, de Brumadinho, que se rompeu no início deste ano.

As duas estruturas estão inoperantes há 17 anos, desde que a Vale encerrou a exploração de ouro da jazida do Igarapé Bahia, em 2002. Em 12 anos, foram produzidas quase 100 toneladas de ouro, o equivalente a mais de 16 bilhões de reais, pelo menos o dobro da produção do mais famoso garimpo do Brasil e dos mais conhecidos no mundo, o de Serra Pelada, que entrou em atividade em 1980 e registro oficialmente entre 40 e 50 toneladas ao longo dessa década.

Segundo a ação do Ministério Público, atestados de garantia de estabilidade das barragens vêm sendo negados por auditorias desde 2016, mas a Vale se limitou a pedir licenciamento para realização de obras, sem mencionar o caráter de urgência. No entanto, em casos de urgência o licenciamento é desnecessário.

É espantoso o descaso da mineradora para com o descomissionamento (o encerramento completo e regular desse capítulo da mineração em Carajás) de uma mina que, por uma década, superou a mais antiga mina de ouro do Brasil, há um século e meio, Morro Velho, em Minas Gerais.

O que deveria acender o sinal de alerta sobre a produção de cobre nas duas minas em atividade na região. Como subproduto, o ouro rende 10 toneladas anuais, além da prata. É uma das maiores unidades de produção do mundo. Parece que ninguém percebe essa grandeza – para o bem e para o mal.


A imagem que ilustra este artigo é da barragem Pondes de Rejeitos e no entorno da Floresta Nacional de Carajás, em Paraopebas, no Pará. (Foto: João Marcos Rosa/Nitro/ICMBio/2011)


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:
lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui www.lucioflaviopinto.com

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site Amazônia Real [Aqui!].