Descontrole sobre mineradoras expõe Brasil a níveis desconhecidos de risco

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Rompimento de barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho.

Desde o rompimento da barragem do Fundão em Bento Rodrigues em Novembro de 2015, venho prestando atenção no crescente reconhecimento de que o setor da mineração está completamente fora de controle no Brasil.  As causas para isso são múltiplas, mas uma das causas é o rápido processo de desindustrialização iniciado durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Esse processo reforçou a dependência da balança comercial brasileira da exportação de commodities agrícolas e minerais. E foi graças a essa crescente dependência que as mineradoras aumentaram o seu grau de controle sobre as diferentes esferas de governo, principalmente aquelas que possuem poder (ou possuíam) para impor salvaguardas que possam minimizar os amplos riscos causados pela mineração.

Agora com o rompimento do sistema de barrages da mina Córrego do Feijão em Brumadinho, estamos presenciando a emergência de um processo de pânico em muitas cidades brasileiras, principalmente no estado de Minas Gerais onde as mineradoras, tendo a Vale como principal pilar do setor, ergueram centenas de reservatórios de rejeitos que agora ameaçam romper, gerando uma crise socioambiental sem precedentes na história mundial.

Felizmente esse processo também está servindo para que haja uma cobertura jornalística que nos oferece informações que revelam com maior precisão a profundidasde do problema com que estamos defrontasdos. Um exemplo disso é a reportagem assinada pela jornalista Nathalia Passarinho para a rede BBC e que se intitula “Por que o Brasil não tem como saber se suas barragens são seguras“.

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A reportagem de Nathalia Passarinho não apenas oferece números sobre a quantidade de barragens existentes, mas também porque é praticamente impossível se saber a real situação de risco em que elas se encontram. Entre as causas para essa falta de controle estão variáveis conhecidas que incluem a falta de pessoal técnico capacitado, a dependência em relação ao processo de autoavaliação de segurança que as próprias mineradoras contratam, a estrutura precária de fiscalização, ausência de planos originais de estrutura ou de planos de emergência que sejam minimamente úteis para a finalidade a que em tese se destinam.

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Vista de rastro de lama após rompimento de barragem da Vale em Brumadinho, Minas Gerais 27/01/2019 REUTERS/Adriano Machado Foto: Adriano Machado / Reuters

A reportagem traz ainda números que impressionam. Um deles versa sobre o número exíguo de fiscais existentes no Brasil para verificar a segurança das barragens que é de meros 35.  Outro exemplo gritante é o de Minas Gerais onde existem 400 barragens, das quais 96 são consideradas de vulnerabilidade alta ou muito alta.  Isto sem falar num número alto de barragens que foram simplesmente abandonadas pelas mineradoras quando as atividades que realizavam deixaram de ser lucrativas.

Quando postas de forma combinada, os números mostrados por Nathalia Passarinho reforçam as evidências de que o Brasil perdeu o controle completamente sobre as atividades de mineração, o contribuiu para a geração de dezenas de situações (algumas já mostradas aqui) onde as barragens já apresentam os mesmos sintomas que foram detectados nas condições de pré-rompimento nos casos das Tsulamas da Samarco em Mariana e da Vale em Brumadinho.

Por isso, que ninguém se iluda com as chances de que as barragens que mostram sinais de fadiga vão resistir aos eternamente aos elementos que contribuem para sua desastabilização.  A verdade é que todas as evidências apontam no sentido contrário e é preciso agir o mais rápido possível para que o pior não aconteça. É agir agora ou lamentar as perdas depois. Simples assim!

 

O estado de Minas a serviço da Vale

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A Pública investigou documentos sobre licenciamentos ambientais em Minas Gerais e concluiu que, para atender aos interesses da mineradora, integrantes do governo Pimentel ignoraram riscos e alteraram leis

Por Aline Maciel para a agência Publica

Partiu do ex-secretário da Fazenda do governo de Fernando Pimentel (PT), José Afonso Bicalho, o primeiro “empurrão” dentro do governo de Minas para acelerar o licenciamento ambiental da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Foi ali que ocorreu o rompimento da barragem, no último dia 25, espalhando um mar de lama e deixando 165 mortos e 155 desaparecidos até o início da manhã de hoje (12/2). Outros sete licenciamentos ambientais de projetos da mineradora foram beneficiados pela canetada do então secretário, que também é membro do Conselho Fiscal da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), sócia da Vale na Aliança Geração de Energia. Enquanto era secretário da Fazenda, Bicalho, que fez 70 anos, foi retirado do processo conhecido como mensalão tucano por prescrição do crime.

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Área atingida pelo rompimento da barragem em Brumadinho

Bicalho era coordenador do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável (GCPPDES). A Pública examinou dois documentos emitidos por esse órgão – e assinados por Bicalho – com a mesma numeração e datas diferentes. Um deles, enviado para a Superintendência de Projetos Prioritários (Suppri) – órgão ligado à Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) –, com data de 10 de janeiro de 2017, definia como prioritários para o estado oito processos de licenciamento da Vale – ou seja, escolhidos para serem avaliados com celeridade. Mas a deliberação que estabelece critérios e procedimentos para que um empreendimento privado seja classificado como prioritário foi publicada só na edição de 27 de março de 2017 do Diário Oficial de Minas Gerais (DOM), isto é, dois meses depois do documento que definia os licenciamentos da Vale como prioritários.

Curiosamente, os dois documentos – o que determina as regras para um projeto receber tratamento mais rápido e o que lista como prioritários os projetos da Vale – receberam o mesmo nome do GCPPDES, então coordenado por Bicalho: deliberação número 1. A diferença é que um deles, enviado à Suppri, contém a relação de empreendimentos prioritários da Vale, com data de 10 de janeiro de 2017, e não foi publicado no Diário Oficial. O outro documento com o mesmo nome, mas com data de 27 de março de 2017 (publicado em 4 de abril na imprensa oficial), trata dos critérios e procedimentos para determinação da relevância para o estado de projetos da iniciativa privada – sem citar a lista de projetos da Vale – e define composição, estrutura, funcionamento e atribuições do GCPPDES.

O parecer da Semad, que sugeriu a aprovação da expansão da mina Córrego do Feijão, conta que “em 10 de janeiro de 2017” (data de um dos documentos), foi realizada a 18ª reunião do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável [GCPPDES], “na qual foi apresentado pelo Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais – INDI, para deliberação de prioridade, o projeto Córrego do Feijão, do empreendedor Vale S.A., conforme determinam o §1º do art. 5º da Lei 21.972/2016 e a Deliberação GCPPDES Nº 1, de 27 de março de 2017”.

Ou seja, eles teriam feito uma reunião em janeiro com base em uma deliberação de março. O parecer registra ainda que “foi considerada a relevância do empreendimento em tela e encaminhado para análise na Superintendência de Projetos Prioritários – SUPPRI o presente processo”.

Esse documento está entre os obtidos pela Pública durante uma investigação sobre o licenciamento ambiental dos empreendimentos da Vale em Minas Gerais a partir do rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão. A reportagem pesquisou de documentos que tramitam ou tramitaram na Secretaria de Meio Ambiente às atas das reuniões da Câmara Técnica de Atividades Minerárias (CMI), órgão vinculado ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), que dá a palavra final nos processos.

A leitura do conjunto desses documentos sugere que os representantes do governo estadual, durante as reuniões, pareciam estar sempre a favor da mineradora. Como esse ilustrativo argumento do Superintendente de Projetos Prioritários, Rodrigo Ribas, ao defender a ampliação da mina do Córrego do Feijão, aprovada na reunião de 11 dezembro de 2018, sob críticas da sociedade depois do acidente de Mariana. “E aí vem um projeto que se propõe a apresentar um ganho ambiental a partir de inversão tecnológica, e nós vamos discutir aqui com base no acidente de Mariana? São casos completamente diversos. Nós tivemos muita tranquilidade naquele parecer que elaboramos e estamos muito seguros em relação a ele”, disse Ribas.

Empreendimentos da Vale tiveram parecer favorável da Semad mesmo quando o órgão identificou impacto à comunidade do entorno. “Deve-se destacar que a perda de qualidade de vida para a população local não advém apenas do aumento do afluxo populacional para a região do empreendimento, visto que: no que tange à tranquilidade e à segurança, a existência da barragem implica sempre na probabilidade de risco de instabilidades, acarretando constante ansiedade”, destaca o órgão ao sugerir o deferimento da licença para a instalação da barragem Maravilhas III, em Itabirito.

Licenciamento sob suspeita

Um parecer de vistas do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc) levanta suspeita de que os órgãos do governo estadual tenham manipulado documentos e normas para beneficiar a Vale. Ele se refere ao processo de licenciamento para expansão de uma cava da mina de Brucutu, também na lista de prioridades assinada pelo ex-secretário Bicalho. Trata-se da maior mina da Vale em Minas Gerais, localizada nos municípios de São Gonçalo do Rio Abaixo e Barão de Cocais e teve a operação da barragem Laranjeiras suspensa na última quarta-feira (6/2) pela Justiça estadual em ação civil pública movida pelo Ministério Público de Minas Gerais.

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José Afonso Bicalho era coordenador do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável (GCPPDES)

O Fonasc – que tem uma cadeira na CMI, representada pela conselheira Maria Teresa Corujo – identificou documentos que comprovariam que a Suppri começou a analisar esse projeto da Vale antes de ser definido como prioritário pelo estado. De acordo com informações do parecer da Semad pelo deferimento do licenciamento, “em 02 de maio de 2017, foi realizada a 26ª reunião do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável (GCPPDES), na qual foi apresentado pelo Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais – INDI para deliberação de prioridade do projeto de ampliação da Mina Brucutu – Cava da Divisa, do empreendedor Vale S.A., conforme §1º do art. 5º da Lei 21.972/2016 e nos termos da deliberação GCPPDES nº 1, de 27 de março de 2017”. O documento informa ainda que nessa reunião de maio foi considerada a relevância do empreendimento e foi aprovado e encaminhado para análise da Suppri.

No entanto, no processo físico disponibilizado ao Fonasc estão cinco documentos com datas anteriores à deliberação GCPPDES nº 1, que é de 27 de março de 2017, e à 26ª reunião do GCPPDES, de 2 de maio. Entre eles está um auto de fiscalização, que depende de vistoria em campo, realizado pela Suppri, com data de 8 de março. Os outros documentos referem-se a ofícios da Vale encaminhados ao superintendente de Processos Prioritários, Rodrigo Ribas.

A avaliação do Fonasc, exposta no parecer, é que há “fortes indícios de manipulação do processo físico e alteração de informações, para além da omissão, realizadas provavelmente de forma proposital para viabilizar sua análise processual, jurídica e técnica em tempo recorde e com parecer favorável ao deferimento, apesar da abrangência territorial, complexidade, grande porte e potencial poluidor do

A entidade sugeriu também que fosse feita uma auditoria na tramitação do processo e uma “apuração dos desvios de conduta e ilegalidades e consequente instauração do competente processo administrativo disciplinar em desfavor dos responsáveis pelas situações apontadas neste parecer, caso confirmadas”. Apesar desses questionamentos, a CMI aprovou a Licença Prévia da Cava da Divisa/Mina de Brucutu, no dia 28 de julho de 2017, por 10 votos favoráveis e apenas 1 contrário, da conselheira Maria Teresa Corujo. Em 30 de novembro de 2018, a Licença de Instalação e de Operação foram concedidas.

Por meio de nota, a Semad informou que o caso citado, relativo aos oito empreendimentos da mineradora Vale (entre eles o da Mina do Córrego do Feijão), foi apreciado na reunião no Grupo Coordenador, no dia 10 de janeiro de 2017, respaldado na competência legal que data desde 2016. “Conforme a Lei nº 21.972/2016 em seu artigo 24, a competência para deliberação sobre a relevância da atividade ou do empreendimento privado é de responsabilidade do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas Setoriais (nesse caso o de Desenvolvimento Econômico e Sustentável). Tal grupo de coordenação foi instituído pela Lei nº 22.257 de 27/07/2016 e regulamentado pelo Decreto nº 46977, de 05/04/2016”, informou a nota.

De acordo com o órgão, para dar suporte às deliberações do GCPPDES e tratar os empreendimentos e projetos de forma igualitária e transparente foram descritos critérios, que foram publicados na Deliberação nº 1, de 27/3/2017. “Tais critérios já estavam sendo discutidos pelo Grupo e foram levados em consideração nas propostas e sugestões de deliberações anteriores, como é o caso específico em análise”, acrescentou, na tentativa de justificar a inclusão dessa deliberação em uma reunião anterior a ela.

A Pública tentou contato com José Afonso Bicalho, mas não obteve retorno. A reportagem não conseguiu localizar o ex-governador Fernando Pimentel. A comunicação do PT Minas informou que ele está sem assessor de imprensa.

O governo mineiro, representado, mais uma vez, pelo então secretário da Fazenda José Afonso Bicalho, coordenador do GCPPDES, também incluiu na lista de projetos prioritários do estado o licenciamento para a construção de uma barragem de rejeitos, a Maravilhas III, localizada no município de Itabirito. Apesar das tentativas de alerta de movimentos sociais, ambientalistas, atingidos e do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a mineradora Vale venceu na Justiça. Isso apesar do descaso do estado com a segurança, o bem-estar e a vida das pessoas tenha sido apontado pela Promotoria de Minas Gerais em ação civil pública ajuizada para suspender a licença prévia e de operação para a construção dessa barragem. O MPMG destacou que o parecer elaborado pelo próprio estado reconhecia a perda de qualidade de vida da população em função da insegurança causada pelo risco representado pela existência da barragem de rejeitos.

“Fica evidenciada, de plano, a afronta à dignidade da pessoa humana caso se concretize a implantação do empreendimento, na forma como ele foi e está planejado. Isso porque não se mostra minimamente digno, sobretudo em razão dos últimos desastres lamentavelmente vivenciados em Minas Gerais, que algum cidadão seja obrigado a conviver diuturnamente com a angústia decorrente do fato de que ele necessitará, a qualquer momento, se mobilizar, abandonar seu lar e seus pertences, para, se houver tempo, salvar a sua própria vida”, destacam os promotores que assinam a ação.

Eles alertam que o parecer elaborado pelo estado possui recomendações que evidenciam a ausência de estudos essenciais à conclusão da análise de viabilidade pelo órgão ambiental, “ante a possibilidade de situações de risco impossíveis de serem mitigados por medidas técnicas”. “Mesmo diante de tal recomendação, o Requerido Estado de Minas Gerais, por meio da Suppri, de maneira inacreditável e absolutamente precipitada, sugere o deferimento das Licenças de Instalação e Operação concomitantes para a Barragem Maravilhas III.”

Os promotores observaram ainda na ação civil pública que o governo não levou em conta as comunidades existentes nas proximidades da barragem: “Aliás, a presença de pessoas residindo em áreas tão próximas àquela projetada para a barragem sequer foi mencionada como um dos critérios para a escolha do melhor local para implantação da estrutura. Essas propriedades estão a cerca de 500 a 1.000 metros de distância da localização da barragem requerida”.

Como exemplo, Bento Rodrigues estava a 6 quilômetros da barragem de Fundão e, segundo a análise de ruptura, poderia ser atingido entre 8 e 17 minutos. No caso de Maravilhas III, existem propriedades que poderão ser atingidas em pouco mais de 1 minuto, sem nenhuma chance de evacuação. A barragem de Fundão despejou no ambiente aproximadamente 34 milhões de metros cúbicos de lama, e a barragem Maravilhas III foi projetada para receber 109 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, três vezes mais do que a que rompeu. Se houver rompimento desse reservatório, dois condomínios residenciais, com mais de 300 pessoas, e ao menos quatro propriedades rurais poderão ser atingidos pelos rejeitos de mineração, além de afetar o abastecimento de água da região metropolitana de Belo Horizonte.

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A barragem Maravilhas III está localizada no município de Itabirito

Em parecer de vistas, o Fonasc ressaltou ainda que a VOGBR Recursos Hídricos e Geotecnia Ltda., a mesma consultoria que garantiu a estabilidade da barragem de Fundão, foi responsável pelo estudo de Dam Brake (que avalia os potenciais impactos de um rompimento) da barragem de rejeitos Maravilhas III. “O FONASC-CBH entende que é necessário que se realize novo estudo por outra consultoria, até pelo princípio da precaução”, solicitou a entidade. Em resposta, o órgão ambiental justificou: “pelos documentos apresentados apensos ao processo, tanto a empresa quanto os profissionais envolvidos estão com suas respectivas ARTs [Anotações de Responsabilidade Técnica] válidas, sendo responsáveis pelas informações e dados apresentados. Ressalte-se, ainda, que os aspectos construtivos e de segurança de barragem são de responsabilidade do DNPM”.

Durante reunião da CMI para votação desse empreendimento, o superintendente da Suppri, Rodrigo Ribas, afirmou não ver necessidade de alterar o projeto em relação à zona de autossalvamento. “Nós temos um número relativamente pequeno de unidades residenciais. Dessas unidades, um número menor ainda de domicílios. Portanto, nós não vemos uma necessidade de alteração do projeto em relação à zona de autossalvamento. Nós recomendamos para avaliação da empresa enquanto avaliação de risco e dano que eles possam fazer”, acrescentando que, do ponto de vista de prevenção, “nós estamos absolutamente tranquilos em relação a isso”.

Em outubro de 2017, a Justiça de Minas deferiu liminar proibindo a Vale de praticar qualquer ato que tenha como objetivo a implantação da barragem Maravilhas III e o estado de conceder qualquer licença ou ato normativo relativo à barragem. Um mês depois, no entanto, a liminar foi revogada a pedido da Vale, com a justificativa de que a tecnologia que seria utilizada pela empresa para a construção da barragem seria diferente daquela utilizada em Fundão.

Diante do rompimento da barragem de Brumadinho, a promotoria protocolou na quinta-feira (7/2) um pedido de revisão, em caráter de urgência, da decisão judicial. No pedido, o MPMG aponta que o “recente rompimento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, ocorrido em Brumadinho dia 25 de janeiro de 2019, deixa patente, uma vez mais, os gravíssimos riscos humanos e ambientais associados à disposição de rejeitos no referido tipo de estrutura”.

Na contramão da necessidade de uma legislação mais rígida, evidenciada após a tragédia em Mariana, em 2015, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, apenas 20 dias depois do rompimento da barragem de Fundão, um projeto de lei encaminhado pelo Executivo, flexibilizando os processos de licenciamento e fiscalização ambiental. O projeto mudou o funcionamento do Sistema Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos e do Conselho Estadual de Política Ambiental.

José Cruz/Agência Brasil

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Barragem de Fundão, operada pela Samarco, anos depois do rompimento da estrutura de contenção de rejeitos
“A explicação para isso é que no ano de 2014 78% dos deputados foram financiados por mineradoras. Isso não é uma questão partidária: eles financiam a maioria para mudar o Código Florestal ou licenciamento”, destacou Klemens Laschefski, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais, durante debate na universidade realizado na quarta-feira (6/2) com o tema “Para além do rompimento – a produção continuada de desastres com barragens”. Além dos deputados, o ex-governador Fernando Pimentel recebeu R$ 1,5 milhão de doação da Vale, diretamente ou via comitê nacional, de acordo com levantamento no Tribunal Superior Eleitoral.

O governo justificou à época que a nova legislação tinha como objetivo melhorar a gestão interna dos órgãos ambientais, dar mais autonomia a eles e desobstruir os processos estagnados. As mudanças restringiram a atuação do MPMG nas decisões do Copam, reduzindo o poder do órgão na fiscalização. As câmaras técnicas, por exemplo, que eram formadas por membros do MPMG, sociedade civil e órgãos públicos, passaram a ser câmaras técnicas especializadas, como a minerária, por exemplo, que não conta mais com a participação de promotores. Também se diminui a autonomia da sociedade civil: antes da lei vigente, todos os projetos com potencial poluidor que dependem de licenciamento passavam pelo Copam; com a nova norma, apenas os de maior porte e potencial poluidor precisam de aprovação do órgão.

Foi com essa lei que também foram criados os “projetos prioritários”. De acordo com reportagem do jornal O Nexo, até agosto de 2018, mais de um quarto de todos os projetos classificados como prioritários pelo governo de Minas era da Vale. Os projetos são classificados como prioritários após análise de sua “relevância” para a “preservação do meio ambiente” e para o “desenvolvimento econômico e social do estado”.

“O que significa projetos prioritários? São aqueles [projetos] das empresas que financiaram as campanhas dos políticos. Então, já temos claramente uma interferência porque quem define os projetos prioritários não é a população. São aqueles que mandam nesse sistema”, ressaltou o professor Laschefski. “A Suppri é uma superintendência vinculada ao gabinete do governador pessoal, que tem direito de interferir no Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais”, acrescentou.

Os empreendimentos privados são escolhidos pelo GCPPDES – composto por cinco secretarias, pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), Cemig, Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi) e coordenado pela Secretaria da Fazenda – e encaminhados à Suppri. De acordo com a deliberação nº 1, de 27 de março de 2017, projetos com valor de investimento acima de R$ 200 milhões, por exemplo, são considerados automaticamente relevantes.

Além da mudança na estrutura do órgão ambiental, normas do licenciamento foram alteradas ao longo dos últimos anos. Em dezembro de 2017, passou a vigorar a Deliberação Normativa 217, considerada pelos ambientalistas mais um golpe na política ambiental. Ela alterou os critérios de risco de algumas barragens, o que permitiu a redução das etapas de licenciamento ambiental no estado. A norma permite, em alguns casos, rebaixar o potencial de risco das barragens, o que pode levar à redução do processo de licenciamento para apenas uma etapa. Antes da medida, os casos de significativo impacto ambiental do estado passavam sempre por três fases de aprovação: Licença Prévia, Licença de Operação e Licença de Instalação.

Com os novos critérios de risco, mais flexíveis, as três licenças são concedidas simultaneamente. Ela ajudou a acelerar o licenciamento para alterações na barragem da mina do Córrego do Feijão, por exemplo. Na avaliação do professor Laschefski, a Suppri e a Deliberação Normativa 217 “configuram o canal de influência institucionalizados das mineradoras no sistema ambiental de Minas Gerais”.


Esta matéria foi originalmente publicada pela agência Publica [Aqui!]

Risco de rompimento de barragens de rejeitos aumenta com queda no preço dos minérios

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Estudo aponta que, em períodos de baixa na cotação dessas commodities, mais desastres em mineração acontecem devido a cortes nos custos operacionais (foto: Ponte ferroviária que desabou após desastre em Brumadinho (MG)/Wikimedia Commons)

Por Elton Alisson  para a Agência FAPESP 

A volatilidade de preços é uma característica intrínseca às commodities, como os minérios de ferro. Nas últimas cinco décadas, por exemplo, esses produtos passaram por diversos ciclos de valorização seguidos por períodos de desvalorização.

Um estudo feito por pesquisadores canadenses, com base na análise de 143 desastres em mineração reportados no mundo entre 1968 e 2009, apontou que há uma correlação entre os ciclos de alta e de baixa dos preços dos minérios no mercado internacional com rompimentos de barragens de rejeitos.

A explicação dos pesquisadores para essa correlação é que, em períodos de elevação dos preços dos minérios, normalmente os procedimentos de licenciamento e de execução da construção de barragens de rejeitos são acelerados em razão da pressão das mineradoras para aproveitar essa fase de bonança. Já em períodos subsequentes de queda no preço dos minérios, há uma pressão, também por parte das empresas, para reduzir os custos operacionais, como os de manutenção e de segurança dessas obras. Em razão disso, há um aumento do risco de rompimentos de barragens nessa fase de baixa de preços tanto em intervalo de tempo como em número.

“Ficou muito claro nesse estudo que há uma correlação entre o ciclo de baixa de preço de minérios, como o cobre, com um aumento no número de rompimentos de barragens de rejeitos”, disse Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), durante um seminário promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), no dia 14 de fevereiro, sobre os desastres de Mariana e Brumadinho.

O evento fez parte das atividades do Projeto Temático Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista face à variabilidade climática (MacroAmb), apoiado pela FAPESP.

“Apesar de estar em uma região que não é coincidente com a macrometrópole, Brumadinho traz uma temática que é fundamental, que é a discussão sobre a mineração e seus efeitos sobre a sociedade quando não há responsabilização e adequação a normas legais e de segurança”, disse Pedro Roberto Jacobi, professor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores da UFJF aplicaram o modelo de correlação do ciclo de preço dos minérios com desastres em mineração, desenvolvido pelos pesquisadores canadenses, em um estudo de caso do rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana (MG), ocorrido em novembro de 2015.

“Constatamos que esse modelo se aplicou perfeitamente bem para explicar, do ponto de vista da economia mineral, o rompimento da barragem de Fundão”, afirmou Milanez.

Os pesquisadores constataram que o pedido de licenciamento ambiental para construção da barragem foi feito pela Samarco em 2006, no início de um ciclo de alta de preço dos minérios. Em menos de um ano, em 2007, a empresa obteve as licenças prévias e de instalação e, em 2008, a licença de operação da barragem.

“Observamos que a empresa levou menos de dois anos para apresentar o estudo de impacto ambiental e obter a licença de operação da barragem, um período bastante rápido”, afirmou Milanez.

O rompimento da barragem ocorreu justamente no período de baixa da cotação de minérios no mercado internacional. Os pesquisadores também identificaram que a partir de 2012, quando iniciou o último ciclo de queda de preço dos minérios, o número de acidentes de trabalho registrados e relatados pela empresa começou a aumentar. “Isso remete à hipótese de que, nesse período, ocorreram problemas de gestão de segurança na empresa”, estimou Milanez.

Segundo o pesquisador, um inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais, divulgado em 2016, concluiu que a causa do rompimento da barragem de Fundão foi a liquefação – quando um material rígido, no caso o rejeito de minério, passa a se comportar como um fluido em razão da água presente nele. Esse processo também é apontado como a possível causa do rompimento da barragem de Brumadinho.

Entre os fatores que contribuíram para o processo de liquefação da barragem de Fundão o inquérito apontou falhas no monitoramento contínuo do nível da água e da pressão dos poros junto aos rejeitos. Indicou ainda que o monitoramento foi deficiente em virtude do número reduzido de equipamentos instalados.

“O inquérito apontou uma série de problemas operacionais na parte de segurança e de monitoramento da barragem”, afirmou Milanez.

Já no caso do rompimento da barragem 1 da Vale, em Brumadinho, ainda não está clara a correlação entre a variação de preços dos minérios com o desastre. Isso porque, de acordo com o pesquisador, ao contrário da Samarco, que possui uma única mina, a Vale tem muito mais empreendimentos. Isso torna a análise mais complexa e os dados mais difíceis de serem obtidos.

“O que se sabe até agora é que a empresa vinha se recuperando de um alto endividamento e passou por um grande processo de expansão”, afirmou Milanez. “Começou a fazer uma série de desinvestimentos para tentar saldar suas dívidas, estava pagando altos dividendos aos acionistas para recuperar seu valor de mercado e, ao mesmo tempo, a barragem vinha apresentando problemas em seu monitoramento”, disse.

Procurada pela reportagem, a Vale afirmou não estar “concedendo entrevistas individuais no momento, mas conversando com a imprensa por meio de coletivas, dado que a empresa está 100% focada no atendimento aos atingidos pelo rompimento da barragem”.

Lições não aprendidas

Na avaliação de Milanez, o rompimento da barragem de Fundão alertou para uma série de problemas de fiscalização desses empreendimentos, não só em Minas Gerais, como no país.

O modelo de automonitoramento, em que as mineradoras escolhem as empresas que irão auditar suas barragens e atestar a estabilidade delas, se mostrou totalmente impraticável, afirmou. “Esse sistema de automonitoramento das barragens já vinha se mostrando falho e não está sendo colocado em discussão atualmente”, disse.

No ano seguinte ao rompimento da barragem de Fundão, em 2016, também houve uma modificação na legislação mineral de Minas Gerais que tornou o licenciamento ambiental ainda mais permissivo, apontou o pesquisador.

“Vimos que houve movimentações políticas que, em vez de tornar a legislação ambiental da atividade de mineração em Minas Gerais mais cuidadosa em relação ao processo de licenciamento ambiental, a tornaram menos rigorosa”, afirmou.

De acordo com Luis Enrique Sánchez, professor da Escola Politécnica da USP, há uma série de conhecimentos e recomendações de ações de boas práticas na gestão de riscos – reunidas em publicações feitas pelo Comitê Internacional de Grandes Barragens e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – que tratam da conscientização e da preparação para emergências no plano local para mineração.

Essas lições, que começaram a ser aprendidas a partir de experiências da indústria química, envolvida em uma série de desastres que aconteceram nas últimas décadas, com grandes consequências sobre populações e comunidades locais, não têm sido aplicadas, ponderou Sánchez.

“Atualmente, é obrigatório, por conta de uma regulamentação, a colocação de placas indicando rotas de fuga em locais próximos a barragens de rejeitos em Minas Gerais, por exemplo. Mas sabemos que essa ação básica ainda não foi adotada em muitas barragens em operação ou inativas no país”, afirmou o pesquisador.

Os desastres de Mariana e de Brumadinho apontam para a necessidade do setor de mineração no Brasil e no mundo repensar e transformar seus métodos de exploração e transformação desses minérios em riqueza para a sociedade, uma vez que são bens públicos, ponderou Alexandre Orlandi Passos, pesquisador do Núcleo de Pesquisa para Mineração Responsável (NAP.Mineração) da USP.

“A mineração recebe do estado uma concessão para extrair uma riqueza do subsolo e trazê-la para a sociedade. Essa atividade não pode se encerrar na extração do mineral e no depósito dos rejeitos como um passivo ambiental. Esse processo tem de ser repensado”, afirmou.

De acordo com dados apresentados por ele, a atividade de mineração produz 600 milhões de toneladas de rejeitos de minérios por ano, dos quais 200 milhões são originados em Minas Gerais.

Parte desses rejeitos poderia ser usada para uma série de outras finalidades, em vez de ser estocada em reservatórios como um passivo ambiental por ser uma solução mais barata, indicou o pesquisador. Entre as alternativas está a construção de moradias mais baratas e de estruturas hídricas, como lagos artificiais, para o controle de cheias, por exemplo. Já as áreas degradadas pela atividade de mineração poderiam ser transformadas em áreas de lazer, indicou.

“O lago central do Parque do Ibirapuera foi uma cava de areia, ou seja, teve origem na atividade de mineração”, exemplificou Passos.

O artigo Mining market cycles and tailings dam incidents, de Michael Davies e Todd Martin, publicado no Proceedings of 13th International Conference on Tailings and Mine Waste, pode ser lido em https://docplayer.net/14797608-Mining-market-cycles-and-tailings-dam-incidents.html.

E o artigo Antes fosse mais leve a carga – reflexões sobre o desastre da Samarco/Vale/BHP Billiton, de Bruno Milanez, Luiz Wanderley, Maíra Mansur, Raquel Pinto, Ricardo Gonçalves, Rodrigo Santos e Tádzio Coelho, pode ser lido no livro “A questão mineral no Brasil”, volume 2, em www.ufjf.br/poemas/files/2016/11/Livro-Completo-com-capa.pdf


Este artigo foi originalmente publicado pela Revista da Fapesp [Aqui!].

Mar Azul e a recorrência do padrão pré rompimento de Brumadinho

Desde o dia em que eclodiu a Tsulama da Vale em Brumadinho, a mineradora já realizou várias remoções de moradores que vivem próximos a uma série de suas barragens.  Um desses casos foi a da represa associada à mina de Mar Azul no município de Nova Lima, onde as sireneas foram acionadas preventivamente no dia 20 de de fevereiro.

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As remoções preventivas realizadas pela Vale em várias de suas minas no território de Minas Gerais serviram para levantar uma justa interrogação sobre se existiriam sinais prévios de que haveria rompimento de barragens de rejeitos que poderiam ter sido utilizados para a empresa evitar a perda de vidas humanas e dos graves custos ambientais que sucederam às Tsulamas em Mariana e Brumadinho.

Este blog já publicou duas análises feitas pelo arquiteto e urbanista Frederico Lopes Freire, que utilizando a técnica da inspeção visual de imagens de satélite fornecidas pelo Google Earth, onde ficou demonstrado que é possível prognosticar o potencial para rompimento de barragens de rejeitos. Nos dois relatórios anteriores preparados por Frederico Lopes Freire (Aqui! Aqui!), ele identificou a existência de fatores que teriam levado ao rompimento do sistema de barragens na mina Córrego do Feijão, e que estão presentes em outras barragens que ainda permanecem contendo milhões de metros cúbicos de rejeitos.

Pois bem, intrigado com as notícias veiculadas sobre os problemas que estariam ocorrendo em Mar Azul,  Frederico Lopes Freire confeccionou uma análise similar às duas anteriores onde conclui que os primeiros indícios de problemas de instabilidade já estariam evidentes, e que os trabalhos de reforço estrutural foram iniciados em 2014. Entretanto, mesmo após uma série de trabalhos voltados para garantir a estabilidade de Mar Azul, Lopes Freire concluiu que os esforços tinham sido infrutíferos. Nesse sentido, ele conclui no relatório que segue abaixo que “erosão, falta de drenagem, entrada de águas e nenhuma distância entre a linha das águas superficiais e a parede da barragem. Tudo agravado pela evidencia provida pela drenagem em concreto, demonstrando a destinação original da barragem.

Se as análises de Frederico Lopes Freire, um arquiteto com larga experiência profissional estão totalmente corretas, a questão que precisa ser rapidamente respondida pela Vale e pelas autoridades de Minas Gerais é a seguinte: por que só depois de Brumadinho é que está sendo dado mais atenção às barragens da mina de Mar Azul? Mais preocupante ainda é constatar que por meio de uma inspeção visual de imagens está sendo possível detectar problemas que se repetem em série, e que já deveriam ter feito soar as sirenes há muito mais tempo.

Finalmente, não posso deixar de constatar a ironia de se alcunhar uma mina de “Mar Azul”, quando, pelo que se observa que nela reside um alto risco de termos mais um mar de lama se espalhando por rios de vital importância para Minas Gerais e todo o Brasil.

Abaixo o relatório de Frederico Lopes Freire sobre a barragem da mina de Mar Azul,

Este relatório é baseado em imagens do Google da Barragem de Mar Azul, município de Nova Lima, Minas Gerais.

Por Frederico Lopes Freire, Arquiteto e Urbanista

Este relatório está baseado em minha análise das imagens disponíveis no Google Earth.

Imagem 01 – Localização da Barragem de Mar Azul

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Indica as cotas do interior, base e perímetro da barragem. Direção e fluxo das águas superficiais originadas de chuvas e outras origens, provenientes das elevações e da mina de minério de ferro. Locais de erosões e local a ser reforçado, serão mostrados nas imagens subsequentes, também estão indicados para facilitar a visualização posterior. A drenagem superficial existente ou extravasor, construída em concreto, é uma forte indicação de que a intenção original era construir barragem para água, a ser preenchida com resíduos de mineração.

Imagem 02 – Datada de 27 de novembro de 2002.

mar azul 02Imagem aproximada da barragem, mostrando locais e níveis das futuras intervenções para correção e reforço.

Imagem 03 – Datada de 30 de junho de 2012.

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Evidencias de problemas a serem corrigidos estão indicados.

Imagem 04 – Datada de 17 de junho de 2013.

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Imagem dos locais denominados “erosão”, “erosão 2” e “erosão 3”, mostram claramente o problema. A drenagem superficial é desativada e o nível da água rebaixado. O local onde será feito um reforço da barragem está também indicado.

Imagem 05 – Datada de 18 de novembro de 2014.

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 Obras para reparos e reforço da barragem em andamento.

Imagem 06 – Datada de 3 de maio de 2016.

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Reparos e reforço da barragem completados. Todavia, evidencias das erosões reaparecem bem como da deformação da barragem na área de reforço.

Imagem 07 – Datada de 28 de julho de 2018 – Última imagem disponível.

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“Erosão 3” aparenta ter sido corrigida, mas “Erosão” e “Erosão 2” mostram aumento nas dimensões. Volume de águas superficiais também demonstra aumento. Vale ordena evacuação da população imediatamente abaixo da barragem.

Mais uma vez os sinais similares aos de Brumadinho estão presentes. Erosão, falta de drenagem, entrada de águas e nenhuma distância entre a linha das águas superficiais e a parede da barragem. Tudo agravado pela evidencia provida pela drenagem em concreto, demonstrando a destinação original da barragem.

Uma vez que o rejeito foi sendo adicionado a uma barragem já preenchida com água, com certeza está impregnado pela sua absorção, que é o gatilho para uma liquefação como já demonstrado em Brumadinho.

A foto da drenagem está indicada na imagem Google datada de 28 de julho de 2018, bastando clicar no local indicado. Mostra um lago de águas azuis e tranquilas, um vertedouro em concreto visualmente agradável, mas inadequado para uma barragem de rejeitos.


** Frederico Lopes Freire é Arquiteto e Urbanista, possuindo ampla experiência profissional no Brasil e nos EUA, e atualmente vive no município de Colatina, norte do estado do Espírito Santo.

Após analisar imagens do Google Earth, arquiteto capixaba alerta para “padrão Brumadinho” em mega barragem da Vale em Itabira

itabira barragens

No dia 11 de Fevereiro publiquei uma análise feita pelo arquiteto e urbanista Frederico Lopes Freire sobre o rompimento das barragens de rejeito da mineradora Vale em Brumadinho e da possibilidade de que outro evento catastrófico se repetisse em Santa Bárbara.

Dez dias depois e com sirenes soando em sucessão em outras represas da Vale em Barão de Cocais e Nova Lima, hoje recebi outra análise feita por Frederico Lopes Freire sobre problemas semelhantes que estariam afetando a barragem de Pontal no município de Itabira, onde a população já tem demonstrado grande preocupação com a  situação das grandes barragens da mesma mineradora que estocam um volume 33 vezes maiores do que aquele que vazou em Brumadinho.

Abaixo posto as análises de Frederico Lopes Freire para a barragem de Pontal, onde ele demonstra grande preocupação com a situação que lhe parece bastante semelhante ao que ele visualizou no reservatório de Brumadinho antes que ocorresse o Tsulama de 25 de janeiro.

O que parece evidente nas análises feitas por Frederico Lopes Freire é que os moradores de áreas próximas de grandes barragens de rejeitos em diferentes municípios de Minas Gerais têm razão para estarem assustados. O que impressiona mesmo é o fato de que as autoridades governamentais parecem ter mais interesse em defender os interesses da Vale e de outras mineradoras mais do que defender a vida das pessoas e dos ecossistemas naturais que hoje vivem sob o espectro de novos Tsulamas.


Análise de imagens da Barragem Pontal, Usina Brucutu, município de Itabira-MG

Por Frederico Lopes Freire*

Este é um relatório pessoal, com base em observação direta de imagens de satélite disponibilizadas no Google Earth.

 Imagem 01 – Visão Panorâmica da Barragem Pontal.

Brucutu 1

Imagem 02 – Datada de 31 de agosto de 2018 – Localização da Barragem – Mina Brucutu – Itabira-MG

Brucutu 2Localização da Barragem Pontal – Mina de Brucutu – Itabira-MG

Imagem 03 – datada de 16 de junho de 2011.

Brucutu 3

Na imagem 03 é possível observar uma erosão na base da barragem (ampliada na imagem 3 B), possivelmente a razão para execução de obras de reforço identificadas na imagem 04, datada de 07 de maio de 2013.

Imagem 03 A – Datada de 16 de junho de 2011

Brucutu 3A

Vista parcial da barragem mostrando a direção de entrada e fluxo das águas superficiais das chuvas e de outras possíveis origens na usina e elevações montanhosas em torno. Níveis internos da barragem, perímetro externo e base da barragem estão indicados, bem como da posição da erosão indicada na imagem 03. A mancha das águas superficiais é claramente visível até a parede da barragem. Um canal extravasor está localizado no extremo superior direito da barragem, porém sua cota de entrada (728) não possibilita escoamento das águas abaixo deste nível.

Imagem 03B – datada de 16 de junho de 2011

Brucutu 3B

Indica a posição da erosão mostrada na imagem 03. Possível container e equipamentos são visíveis.

Imagem 04 – Datada de 07 de maio de 2013

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Serviços de rebaixamento das águas superficiais e trabalhos na parede e base da barragem em execução. Deformação no alinhamento superior da barragem é visível.

Imagem 05 – Datada de 20 de julho de 2015

Brucutu 5

 Serviços de reforço nas paredes e base da barragem concluídos. Nível das águas superficiais em ascensão com a finalização do bombeamento. Deformação no alinhamento superior da barragem corrigido.

Imagem 06 – Datada de 31 de agosto de 2018 – última imagem disponível no Google.Brucutu 6

Deformação no alinhamento superior da barragem reaparece. Águas superficiais estão acumuladas contra a parede da barragem.

Semelhanças com o ocorrido em Brumadinho não podem ser desprezadas. O acúmulo de águas, a ausência de afastamento destas águas em relação a parede da barragem e a deformação do alinhamento horizontal da parede, estão presentes.

A absorção constante de água poderá levar a uma liquefação, já apontada como causa determinante do desastre de Brumadinho. O volume armazenado é cerca de 122.000.000,00 m3, 10 vezes maior nesta Barragem Pontal. 

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* Frederico Lopes Freire é Arquiteto e Urbanista, possuindo ampla experiência profissional no Brasil e nos EUA, e atualmente vive no município de Colatina, norte do estado do Espírito Santo.

 

A Vale e suas múltiplas bombas relógio na forma de reservatório de rejeitos

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A mega mineradora Vale está tão enredada em uma série de complicadas remoções de moradores de regiões próximas de vários de seus reservatórios de rejeitos que está ficando difícil diferenciar um caso do outro. Aliás, suspeito que parte da cobertura dada pela mídia corporativa visa dificultar de forma consciente que a situação possa ser apreciada de forma espacializada.

Como se sabe, os problemas da Vale começaram em Novembro de 2015 com o reservatório de Fundão em Mariana e tomaram uma guinada para o pior no dia de 25 de janeiro quando irrompeu o Tsulama em Brumadinho, causando o maior acidente trabalhista da história da mineração no Brasil.

Pois bem, desde então as sirenes que não tocaram nem em Bento Rodrigues e tampouco em Brumadinho, já soaram em Barão de Cocais e Nova Lima, obrigando a remoção de centenas de famílias que estariam no caminho dos rejeitos em um eventual rompimento de diversas barragens da Vale.

Mas como hoje existem ferramentas de sensoriamento remoto que foram popularizadas pela Google, resolvi verificar a posição das minas de Mar Azul e Vargem Grande para entender como é possível que estejam sendo necessárias remoções desde Nova Lima até Ouro Preto, e o que eu vi realmente me parece revelador das dimensões das operações da Vale em Minas Gerais, e dos consequentes riscos que as mesmas trazem para as populações humanas e para os ecossistemas naturais que estejam no caminho de rejeitos eventualmente escapados de seus reservatórios.

A primeira imagem abaixo mostra a posição das minas de Mar Azul e Vargem Grande e sua relativa proximidade de Nova Lima que seriam virtualmente obliterada caso as barragens dessas duas minas venham a falhar.

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Mas mais impressionante ainda é visualizar em escala maior o tamanho relativo de cada mina em relação à paisagem em que as mesmas estão inseridas (ver abaixo).

Mar Azul 1Vargem Grande 1

Uma das coisas que salta aos olhos é a existência de adensamentos urbanos muito próximos à essas duas minas, o que explica o repentino interesse da Vale em remover preventivamente as pessoas que estejam dentro das chamadas “Zonas de Autossalvamento” e de áreas que ficariam isoladas caso os reservatórios de rejeitos rompam.

É que esses reservatórios não foram construídos de um dia para o outro, e nem deveriam ter ficado sem formas estritas de acompanhamento de sua estabilidade estrutural como agora parece ter sido o caso.

E no meio dessa situação de incerteza e instabilidade, ainda se sabe que as pressões para um afrouxamento ainda maior do licenciamento ambiental das atividades de mineração não cessaram. Aliás, a principal informação que se teve hoje (20/2) foi que o governador Romeu Zema está presssionando deputados estaduais para que não seja instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as responsabilidades da Vale no Tsulama de Brumadinho. E durma quem puder com um barulho desses!

Brumadinho está em todo lugar

… onde carros circulam, turbinas eólicas giram e casas surgem. O Modo de Vida Imperial nos torna co-responsáveis ​​por tais crimes ambientais.

lama

Por Fabian Kern

Após o rompimento da barragem em Mariana, em novembro de 2015, rompeu em 25 de janeiro de 2019 novamente uma bacia de retenção preenchida com lama de minério de ferro. E novamente Minas Gerais, Brasil. Mais uma vez, a antiga empresa estatal Vale está envolvida. Desta vez, atinge o Rio Paraopeba, um afluente do Rio São Francisco, que é de grande importância para o abastecimento de água do semiárido nordestino. As baixas imediatas da barragem são mais de 300 pessoas que trabalharam ou viveram abaixo da bacia de retenção.

Como resultado do desastre, o judiciário brasileiro congelou onze bilhões de reais (cerca de 2,6 bilhões de euros) nas contas da mineradora Vale para cobrir possíveis pagamentos compensatórios. Além disso, o Estado já aplicou as primeiras multas de 81 milhões de euros contra a Vale e retirou a licença de operação do Grupo Vale para uma grande represa em sua maior mina de minério de ferro de Brucutu.

Por enquanto, faz sentido responsabilizar a Vale, que era diretamente responsável pela segurança da bacia de retenção em Brumadinho. No entanto, fazemos-nos com algo fácil, porque, como a ONG Enfrentando Finanças em seu Relatório de Lucro Sujo declarou em junho de 2018, tanto o digno Deutsche Bank , bem como o Banco DZ diligentemente fizeram  investimentos imprudentes da antiga empresa estatal Vale no Brasil.

De acordo com um relatório do WWF , em 2016 a Alemanha cobriu mais da metade (51%) de sua demanda de minério de ferro através de importações do Brasil (ibid. P. 28). Brasil desempenha tanto como o maior fornecedor de minério de ferro um papel importante, assim como fornecedor de ferro-gusa (18%) e, especialmente, como um fornecedor de aço não-laminados produtos semi-acabados (52%). A proporção de material reciclado com 43% da produção total de aço bruto da Alemanha (2015), embora consideravelmente, mas isso não é devido aos requisitos relativamente baixos de energia para o uso de materiais reciclados, em particular. O maior produtor de aço bruto da Alemanha é o grupo Thyssen-Krup, notório por sua controversa agora vendida siderúrgica perto da cidade do Rio de Janeiro., seguido pela ArcelorMittal e Salzgitter AG .

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O modo imperial de vida nos alcança …

Felizmente, se você pensa agora, não tenho uma conta no Deutsche Bank nem com o DZ Bank. Certamente você participa do tráfego de alguma forma. Se você não mora e trabalha em uma casa de madeira e é um pedestre consistente e não precisa depender do carro, do transporte público ou mesmo da sua bicicleta, dificilmente perderá aço e alumínio.

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A maior demanda por aço é registrada na indústria da construção na Alemanha . Nos últimos anos, a indústria da construção alemã e europeia cresceu e viu uma atividade de construção rápida, No setor privado é diligentemente construído em tempos de baixas taxas de juros. As novas áreas de desenvolvimento surgem em todos os lugares. Entre 2013 e 2017, a população da Alemanha aumentou de 80,7 milhões para 82,7 milhões. Mais decisivo para a atividade de construção, no entanto, é o desenvolvimento do espaço vital per capita na Alemanha. Isso aumentou nos novos estados federais de 43 m² para 47 m² e nos antigos estados federais de 49 para 51 m², o que adicionalmente alimenta a demanda por espaço vital. Onde novas áreas de desenvolvimento são criadas, estradas também são construídas, tubulações e cabos instalados e iluminação pública instalada. As agências públicas receberam muito poucas e muitas vezes citações muito caras para obras nos últimos anos porque suas carteiras de pedidos estão bem preenchidas. A infra-estrutura para o tráfego está sendo constantemente expandida. Especialmente na construção de pontes ou imóveis comerciais, muito aço é usado.

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Como mostra este gráfico, um carro consiste em mais de três quartos de alumínio, aço e outros materiais ferrosos. Claro que há muito metal em trens, ônibus e bondes, mas estes também são usados ​​por muito mais pessoas do que um carro particular. Em outras palavras, para transportar a mesma quantidade de pessoas, o transporte público requer muito menos metais per capita e quilômetro. Sem mencionar a demanda relativamente baixa de tráfego de bicicleta ou a pé. A mudança de tráfego, portanto, não só oferece benefícios para a saúde e é boa para a estabilidade climática, mas também evita desastres ambientais, como em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019.

O aço também desempenha um papel crucial em outro grande desafio para a humanidade.

“No setor de geração de energia precisa para a mudança para o fornecimento de energia sustentável que os objectivos dos Acordo de Paris turbinas numerosos eólicas, usinas de energia solar e outras instalações necessárias para ser construído. Para alcançar uma capacidade correspondente aos sistemas convencionais de energia instalados são para sistemas de energia solar e eólica até 15 vezes mais concreto, 90 vezes mais alumínio e 50 vezes mais ferro, cobre e vidro, o que, apesar das crescentes taxas de reciclagem, exigirá um aumento anual de 5 a 18% na produção mundial desses metais nos próximos 40 anos. “. 
Fonte: RAW BOIL BOOM ENTRE VITÓRIAS E PERDAS. Pegada ecológica da Alemanha através de aço e alumínio, p.7

Mais especificamente, o sucesso da recuperação da energia depende, em particular, da redução do consumo atual de energia e não do conteúdo apenas com o desenho de energia de outras fontes.

O uso eficiente de recursos para atender às necessidades de uma sociedade desempenha um papel crucial no impacto de nosso estilo de vida em regiões que parecem não ter nenhuma conexão conosco. Nós temos isso todos os dias em nossas mãos, quer queiramos fazer parte do problema ou parte da solução.

Consumo consciente ou a renúncia consciente de certas coisas é apenas um nível. Igualmente importante é a pressão política que precisa ser construída para criar leis que efetivamente impeçam os mecanismos destrutivos e exploradores nos países do Sul Global. Por que é legal vender um carro na Alemanha cujas matérias-primas podem ter sido extraídas com a ajuda de trabalho escravo ou destruição ambiental maciça?

Links:

Todas as ilustrações deste artigo foram extraídas do seguinte relatório da WWF:


Este texto foi originalmente publicado em alemão pela Kooperation Brasilien (KoBra) [Aqui!]