Campos dos Goytacazes sofre com as chuvas intensas e a falta de política de adaptação climática fica óbvia

chuva campos

Mesmo distante da cidade de Campos dos Goytacazes por força do meu período de férias, venho acompanhando os efeitos dramáticos que as chuvas intensas que ocorem desde o último final de semana. As cenas de ruas e avenidas alagadas podem até parecer uma repetição de anos passados, mas os números sobre os níveis de precipitação mostram que se vive um processo de agravamento das tendências já anunciadas para os novos padrões de precipitação que acompanham o processo de ajuste climático que está ocorrendo no nosso planeta.

Uma coisa que fica evidente nos números divulgados para as precipitações que ocorreram em diferentes regiões de Campos é que nosso município possui padrões que se diferenciam em seu extenso território, deixando algumas partes mais propensas a situações mais extremas do que em outras (ver figura abaixo).

monitoramento pluviometrico

Mas para além das chuvas intensas e das recorrentes inundações de partes substânciais da nossa cidade e de localidade periféricas, o que mais deveria chamar a atenção é a óbvia falta de preparação que marca as ações do governo municipal.  Como alguém que vem orientando estudos sobre o processo de adaptação climática em Campos, eu diria que é preocupante que inexista uma estrutura municipal que permitisse ações estratégicas não apenas para os dias de chuva intensa, mas principalmente para os dias secos.

Contudo, o governo municipal comandado por Wladimir Garotinho em sua versão Número 1 nada fez para tirar Campos dos Goytacazes do profundo atraso em que se encontra o processo de adaptação climática em plano municipal.  Eu, inclusive, adoraria ver o orçamento da Secretaria Municipal de Defesa Civil para o período 2021-2025, anos em que Wladimir está com o caneta orçamenária nas mãos. Eu desconfio que mais dinheiro tenha sido gasto com shows onde a adaptação climática é feita na base do mangueirão como ocorreu recentemente no Farol de São Thomé.

O primeiro trio elétrico do Verão de Todos Nós 2025 trouxe uma explosão de  alegria ao percorrer a orla do Farol de São Tomé ao som de Paulinho  Badaloka e convidados especiais.

Como o que está se vendo nos últimos dias ainda vai ter inúmeras repetições, o que se espera é que se o governo municipal não agir de livre e espontânea vontade para começar a preparar o município para os novos padrões climáticos, isso se dê a partir dos afetados pelas inundações que tendem apenas a piorar nos próximos e décadas.

Como neste momento estou na cidade de Blumenau (SC), posso dizer que aqui estão ocorrendo obras estruturais para que as inundações devastadoras que ocorreram em 2023, e está claro que aqui já há um mínimo de compreensão sobre a necessidade de se preparar para o que virá. 

No alvorecer de 2025, Wladimir mostra sua cara “malvadona”, enquanto o céu ameaça cair sobre nossas cabeças

Um analista sábio das coisas da pobre/rica cidade de Campos dos Goytacazes, me alertou ao longo do segundo semestre de 2024 que a coisa andava feia nos cofres da prefeitura comandada por Wladimir Garotinho e que o “bicho ia pegar em 2025”.  Como conheço esse analista desde que cheguei em Campos, nunca duvidei do alerta, mesmo com toda a pujança que eu via pelas ruas e avenidas da planície onde os Goytacazes um dia correram livres.

Eis que nas primeiras horas deste novo ano, o prefeito Wladimir Garotinho desatou um daqueles pacotes de maldades de deixar roxo de inveja o mais neoliberal dos governantes. Primeiro escolheu as vítimas de sempre, qual seja, os servidores públicos municipais, das quais retirou parte dos parcos direitos que ainda lhes restam após mais de três décadas de arrocho neoliberal, mas também atacou os bolsos da população que ainda consegue pagar o IPTU.  De quebra, nem se deu ao trabalho de fingir vetar as demandas por mais lucros da concessionária “Águas do Paraíba”, e tascou mais um reajuste inicial em uma tarifa que já é reconhecidamente uma das (senão a mais) salgadas do nosso país.

Mas enquanto assistimos a esse terror de horrores fiscal, os munícipes não estão nem tendo tempo para reclamar, já que chuvas torrenciais estão trazendo uma mistura particularmente intensa de raios e gelo. Como eu venho chamando atenção nos últimos 4 anos, Campos dos Goytacazes (como a imensa maioria das cidades brasileiras) continua totalmente inerte em relação à adaptação ao processo de mudanças climáticas. Com isso, o agravamento da crise climática que é vista em todo o planeta nos coloca diante de um precipício sob os olhares plácidos dos governantes, Wladimir Garotinho incluso.

Chuva forte e granizo marca início de semana em Campos dos Goytacazes - Vídeo

Obviamente que Wladimir não é um caso isolado de cegueira climática, pois raros são os prefeitos que estão fazendo alguma coisa para iniciar o urgente e necessário processo de adaptação climática. O problema é que, dada a inexistência de uma polítca municipal de adaptação, e o aperto fiscal em curso, certamente continuaremos vendo a canoa climática passar. Alguns poderão até achar bom, pois canoas serão cada vez mais necessárias até nas áreas com metro quadrado caro, o problema é que os desprovidos de políticas sociais cortadas pela tesoura ávida de Wladimir vão certamente sentir as consequências. Apenas para questões de reflexão, qual será o orçamento deixado para a Secretaria Municipal de Defesa Civil e para a sub-secretaria de Meio Ambiente?

O balanço desta ópera bufa é claro: para manter os contentes de sempre ainda mais contentes, a conta está sendo jogada nas contas de quem sempre arca com a alegria de uma minoria.  Mas como um eterno otimista, eu tenho a dizer que pelo menos agora, Wladimir rasgou a fantasia que o catapulpou a um segundo mandato com relativa facilidade. E como eu já disse antes aqui mesmo neste blog, agora ele será comparado consigo mesmo, e é aí que o bicho vai pegar.

O problema é que em nosso caso, nem correr para as montanhas é possível. Talvez dessa inescapável realidade surja, finalmente, algum tipo de reação política à aplicação dessas medidas anti-pobre com as quais fomos brindados, enquanto o céu ameaça literalmente cair sobre nossas cabeças.

A gravidade do poder ou o poder da gravidade

mesa diretora

Por Douglas Barreto da Mata

Assisti  à eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, e a subsequente posse do prefeito e vice-prefeito reeleitos. Uma votação expressiva para a composição da Mesa nesse biênio, para a presidência, vice-presidência, secretaria e etc.

Com algumas pequenas diferenças entre um ou outro cargo, que são citados um por vez, e nominalmente eleitos, é possível afirmar que 22 dos vereadores votaram no candidato indicado pelo prefeito Wladimir Garotinho.

Não deixa de ser relevante, considerando que em 2021, apesar da eleição do aliado Fábio Ribeiro, o atual prefeito tentou antecipar a eleição do biênio 2023/2024 e perdeu para o líder da oposição Marquinho Bacelar. O resto foi história, e seguiu-se uma série de turbulências, com destaque para o impedimento da votação da LOA 2024.

Ali foi o ponto de virada do prefeito, que não só contornou o problema como recuperou a maioria parlamentar. É o poder da gravidade.

Vereadores são cargos muito relevantes, mas que nessa última legislatura, em Campos dos Goytacazes, se resumiram às questões menores, e hoje é certo que a oposição ao atual prefeito e seu grupo saíram menores do processo que entraram, mesmo como os quase 70 mil votos da candidata da oposição para o cargo de prefeita.

Não é acidental que o ex-Presidente da Câmara, biênio 2023/2024, tenha ficado bem abaixo da votação esperada, ainda mais em se tratando do irmão do Presidente da Alerj.

Sem demérito para nenhum dos que foram os mais votados, eles não eram favoritos ou figuras principais do jogo político até outubro de 2024.

Em circunstâncias como essa, quando parlamentares reduzem sua legitimidade, deixando a impressão à população de que agem para satisfação de demandas imediatistas, o Poder Executivo exerce todo seu poder de gravidade para atrair as forças políticas que, aparentemente, lhe oferecem obstáculos…

Foi exatamente essa receita, seguida por Wladimir Garotinho, e que se consumou, por completo, na eleição da Mesa Diretora 2025/2026, aumentando o tamanho de sua base para 22 vereadores, 3 a mais que elegeu em outubro último.Quem viu os 22 votos consagrados não deve se enganar pelas aparências.

O que estava em jogo ali era uma disputa dramática, que dá dimensão da gravidade do poder.

A possibilidade de uma chapa alternativa bem sucedida, ainda que no campo político governista, poderia deflagrar não só o ressurgimento da oposição, mas também um pacote de dificuldades no relacionamento Legislativo e Executivo, em um momento sensível para um governo que deve enfrentar uma transição em 2026, caso o atual prefeito se afaste para candidaturas majoritárias.

A verdade é que Wladimir Garotinho demonstrou, gostemos dele ou não, habilidade e maturidade para articular a eleição de Fred Rangel, passando um rolo compressor na oposição, ou melhor dizendo, do que restou dela.

O atual prefeito percebeu que o mais sutil cheiro de sangue na água precipitaria um ataque dos tubarões com os quais compartilha a piscina. Não houve chance para tanto…

Porém, como ensinou Winston Churchill, “a política e a guerra são idênticas, porém, na política morremos e revivemos várias vezes.” Wladimir ganhou tempo para montar seu governo, estabelecer espaço para quem foi leal e para os “cristãos novos”, retirar de quem não foi, e perdoar quem, mesmo sendo recalcitrante, merece uma segunda chance.

É possível “fazer as pazes com o passado”? Depende!

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma importante liderança da atividade agroindustrial campista, que ainda hoje é parte relevante da dinâmica econômica regional, se manifestou em um jornal citadino. Eis a proposta: Fazer as pazes com o passado, e superadas todas as divergências, vamos rumo ao futuro.

Infelizmente, em pleno século XXI, um dos ramos mais atrasados da esfera primária-secundária da produção agroindustrial ainda tem voz ativa em Campos dos Goytacazes, e arredores, o que diz mais a respeito da cidade, do que do próprio setor.

É texto de boa forma, incomum para o baixo calão intelectual da maioria dos empresários do setor. Porém, só na forma, porque o conteúdo é horrível. Ensina a História que “pacificar” o passado é uma tarefa que só é possível se atribuirmos a cada um a responsabilidade pelos seus atos, na medida mais próxima da proporção dos estragos que causaram. Assim fizeram todos países (re) democratizados na  América Latina, após os regimes militares das décadas de 1960 e 1970, com exceção do Brasil.

É desse modo que a maioria dos sistemas de Justiça funcionam, ao redor do planeta, isto é, só temos a “pacificação” com a reparação resultante de um processo legal, e acima de tudo, justo. O que deseja o nosso industrial é justamente o contrário.

Ele quer um “passar de pano histórico”, onde se esqueça que, apesar de certo impulso econômico trazido pela atividade que defende e faz parte, o fato é que os benefícios se concentraram firmemente no topo da pirâmide social (onde ele habita), e trouxeram, para além do vergonhoso período escravocrata, uma desigualdade brutal.

Dessa desigualdade advém toda a gama de violação de direitos básicos e da capacidade do trabalhador da atividade econômica agroindustrial de exercer sua cidadania.

A “memória afetiva” que o autor do texto evocou, dizendo que a agroindústria trouxe progressos e patrimônios culturais, que provariam uma certa “boa alma” dos empresários, não se sustenta, na medida que estes equipamentos só existiram para locupletação e gozo das elites e setores médios, para auto ilustração e delírios cosmopolitas, para encobrir um dia a dia de hábitos selvagens com os mais pobres, que nunca tinham acesso a tais requintes.

Bibliotecas para uma cidade de analfabetos, teatros onde negros e pobres só entravam para limpar sa latrinas. A primeira cidade a ter luz elétrica, e em pleno século XX, boa parte da zona rural teve que ser atendida por programas de eletrificação rural para as populações pobres. Foi apenas quando a cidade passou a se livrar da agro-dependência que houve uma singela melhora na qualidade da vida democrática e econômica dos mais pobres.

Se a economia é um fator/evento histórico, podemos dizer que o modelo defendido por ele deixou um legado de anemia que até hoje não conseguiu ser superado a contento, ficando a cargo do poder público sustentar boa parte da mão-de-obra que trabalhou para o setor, ou aquela que ainda trabalha.

Seja com programas sociais, seja com a estrutura de proteção pública, já que ao trabalhador do setor agroindustrial não é permitido o “luxo” de ter um carro, contratar planos de saúde, ou efetuar matrículas nas escolas particulares para seus filhos.

Falta de incentivo não foi. A atividade sempre gozou e goza dos favores fiscais de governos, desde o Proálcool até a isenção de ICMS de dias atuais. Milhões ou bilhões de dólares para gerar empregos de baixa remuneração, dano ambiental e pouco retorno em escala econômica de desenvolvimento. Só o Fundecam rendeu uma dívida de R$ 400 milhões aos cofres públicos, é bom lembrar.

O usineiro pede que possamos dar as mãos rumo a um futuro promissor. Para quem? Até hoje nenhuma instituição representativa do setor veio a público pedir desculpas pelos corpos incinerados nos fornos de uma usina. Seria o básico para qualquer ajuste de contas, e uma caminhada para a civilidade, com a promessa de que isso nunca mais se repetirá.

Nada.  Nenhum murmúrio sequer, só um “não é comigo” típico dos covardes. Fazer as pazes sem cobrar ao setor agroindustrial as suas responsabilidades pelo atraso da cidade, inferindo que só houve um legado positivo, é retirar da sociedade a capacidade de aprender com seus erros, e evitar as repetições de tais equívocos no futuro.

Ele deseja, ao contrário, um “futuro da amnésia”. Toda vez que “varremos o passado” para baixo do tapete, sem as restituições necessárias, condenamos as gerações vindouras aos mesmos males de antes:

Um desenvolvimento hierárquico, onde os mais ricos ficam muito mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres. Enfim, como diz a música, “paz sem voz não é paz, é medo”.

A Enel iluminou o terceiro turno

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Por Douglas Barreto da Mata

Governos devem pagar suas dívidas, isso é óbvio.  Porém, há uma manipulação rasteira e simplista nos noticiários, com raras exceções, de equiparar finanças públicas com as “contas das donas de casa”.  É comum ouvir e assistir muitos “jornalistas” dizendo: se não arrecadou não pode gastar, ou só pode gastar se não tiver dúvidas ou déficits. Mentira. 

Governos e grandes empresas operam com déficits desde que começaram a existir.  Há perfis de dívidas, algumas necessárias e outras impagáveis, como é o caso do Estado do Rio de Janeiro e de MG, RS e etc que obtiveram no Congresso, esta semana, mais uma renegociação. Não consta que Campos dos Goytacazes esteja insolvente.

Uma coisa é questionar os modelos e políticas orçamentárias do governo e do seu prefeito Wladimir, suas escolhas e prioridades.  Isso é livre. É do jogo democrático.  Gostando ou não, o fato é que 70% do eleitorado lhe deu mais 4 anos de mandato.  Sua aprovação beira 78%, nas últimas medições.

Tudo isso não interrompe a continuidade da luta política da oposição, de sindicatos e movimentos sociais. É o chamado terceiro turno!  O que assusta é o time que entrou em campo.  Primeiro, o transporte complementar, as Vans, que amargaram uma travessia no deserto com o governo Rafael Diniz, com um saco de sal às costas.  É um setor deficitário, dependente de dinheiro público para abastecer veículos, assim como os ônibus.  São “empreendedores” que não resistem sem verba oficial. Aliás, como boa parte dos “setores produtivos”(essa autodenominação é uma piada de mau gosto). 

É verdade, o modelo faliu, e essa subvenção foi uma forma de manter o precário funcionamento do setor de transportes, até a prometida remodelação.  Mas e daí? O “empreendedor” das vans quer operar tendo o governo de “sócio”, mas quando o “sócio” tem problemas, ele não assume seu papel? Como assim? E quando deu lucro, deram algum imposto a mais para a prefeitura?  Não consta. 

Outro setor é o de sempre.  O agronegócio, quer dizer, o latifúndio.  Até as gigogas do canal Campos Macaé sabem que a dragagem e limpeza dos canais atendem, prioritariamente, às grandes fazendas.  Quase sempre as máquinas servem aos latifundiários, e pelo que soubemos hoje, com diesel pago pela viúva.  O time é forte.  Tempos atrás, ambientalistas e o saudoso promotor Marcelo Lessa já tiveram até que dinamitar intervenções ilegais que alteravam o espelho d’água da Lagoa Feia, por exemplo, e aumentavam o tamanho de suas terras. Antes, mil amores com o prefeito, agora, acabou o dinheiro, acabou o amor.  Uai? Mas eles não são Agro, e o Agro não é liberal, de direita e contra a participação do Estado na economia? Depende, né? O Agro é pop, e o pop não poupa ninguém.

Por fim, a Enel. Uma das piores prestadoras de serviços de energia do Brasil, acionada em tribunais e admoestada  administrativamente na ANEEL, causou o caos em São Paulo, uma das campeãs de reclamações e desrespeito com o consumidor, enfim, uma concessão conhecida como “abutre”, que exaure os lucros e faz pouco ou nenhum investimento na melhoria do serviço. Quando aperta, entregam a concessão ou chamam sucessoras. A Enel já foi Ampla, já foi de italianos, franceses, chilenos, nem sei a ordem ao certo. Tantos donos e um ponto em comum: serviço ruim onde atua.  Pois bem, foi essa a “estrela” dos meios de comunicação para o “terceiro turno”.

Muita gente boa foi atrás, e partiu para defender uma concessionária deficitária.  Exemplo?  Olhem o acúmulo de fios emaranhados nos postes, colocando esses equipamentos sob risco de colapso, com perigo de danos pessoais e materiais.  A prefeitura deve?  Tem que pagar.  Agora, medidas de força contra órgãos públicos, punindo não o prefeito, mas os contribuintes que deixaram de usar os locais sem energia é algo próximo ao abuso. Não tenho certeza, mas há impedimento legal para tais interrupções de fornecimento a órgãos públicos. Imaginem se toda vez que uma concessionária deixasse de prestar serviço, reiteradas vezes, trazendo prejuízo ao particular e ao setor público, que precisam usar, para ilustrar o argumento, geradores para prevenir perdas, e o prefeito resolver usar medidas de força, confisco e autotutela?

Fazer política é normal, fazer oposição é requisito da ordem democrática. No entanto, alguns setores devem, ao menos, guardar uma distância cautelar dos conflitos partidários…essa mistura não faz bem aos negócios e ao bom andamento dos serviços que prestam.

Comerciantes do centro de Campos dos Goytacazes: uma espécie a ser estudada

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Por Douglas Barreto da Mata

Não é novidade para ninguém que uma das principais causas do esvaziamento dos centros urbanos é a insistência na ideia do uso de carros particulares pelos consumidores e por quem precisa estar lá por outros motivos.  Como não há espaço, nascem os conflitos e os incômodos, e boa parte migra para shoppings e centros comerciais nos bairros.

A ausência de bons transportes públicos e a falta de combate à especulação imobiliária são outras causas da anemia dos centros, e obstáculos para a chamada revitalização.  O fato é que o centro precisa de gente circulando, morando, usando os equipamentos públicos.

O centro tem que manter os carros no seu entorno, em locais específicos, apenas, e enquanto a mobilidade não for capaz de atender ao transeunte.  Pois bem, querem a prova de que gente e consumo não combinam com carro?

Os mesmos comerciantes que gritam a todo pulmão por mais espaço para carros, e promovem rebeliões contra qualquer fiscalização do poder público, agora sorriem com o fechamento de ruas do centro para as compras de Natal.  Uai?  Como assim? 

Então, agora o prefeito Wladimir Garotinho tem um argumento poderoso para determinar que o centro seja dos pedestres.  Caso contrário, nada de fechar ruas no ano que vem, certo?

No velório do Arquivo Municipal, o culpado de sempre: o mordomo

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Por Douglas Barreto da Mata

A sabedoria popular ensina, quando alguém não quer assumir responsabilidades ou quer protelar algo, cria uma comissão.  É isso que a reitoria da Universidade Estadual do Norte do Fluminense (Uenf) e outras instituições criaram hoje, como veiculado pela própria universidade. 

Bem, ensina o método científico que um fenômeno tem sempre uma causa, que deve ser escrutinada, a fim de explicar aquele evento, e de acordo com o objetivo pretendido, o conhecimento arrecadado poderá replicar eventos similares, se desejável, evitar essa replicação, ou propor novos eventos, com atualizações e melhoramentos dos processos que o criaram.  No caso da Uenf e da morte do Arquivo Público parece que o corpo será sepultado sem autópsia.

Em resumo, sem definir de quem são as responsabilidades pela omissão que agravou um quadro já dramático, e pior, mantendo a frente as mesmas pessoas que se omitiram, ou a continuidade delas, já que é cediço que a atual reitoria deriva politicamente da sua antecessora, parece que além do “assassinato” do Arquivo Municipal, teremos o mordomo como culpado.

É bom que se diga que há quem entenda que o depositário e responsável pelo uso da verba responde como agente garantidor pelos danos resultantes da omissão, que é indiscutível.  Como garantidores podem responder na forma dos artigos 10 da Lei 14230/2021 e/ou artigo 62, II, da Lei 9605/1998.

Não existe fato sem uma causa.  Por certo, o quadro que exigiria pronta intervenção e um determinado valor para sua execução, é bem provável que requeira valores maiores, já que os danos se agravaram, durante todo o período de contemplação do numerário na conta pelos “gestores”. 

A ressurreição do Arquivo é tarefa similar àquela que levantou Lázaro. A morte do Arquivo Público Municipal é consequência da incompetência e incapacidade, travestidas em um excesso de zelo que, ainda que se justifique, não afasta a imperiosa necessidade de promover alternativas que contornam supostos problemas. O excesso de zelo não pode destruir o que se quer proteger.

Esta é a natureza do serviço público e do ato administrativo, e por essa razão gozam os gestores e seus atos de presunção de legitimidade. Como eu não creio em milagres, nem tampouco em quem comete os mesmos erros e espera resultados diferentes, procuro o mordomo mais próximo.

O melancólico fim do Arquivo Público Municipal

arquivo publico

Por Douglas Barreto da Mata 

Não é coincidência, aliás, nada é.  Como disse a personagem do filme Matrix, o Merovíngio: “onde todos vêem coincidência, eu vejo consequência.” 

Lá pelos idos de 1999/2000, fiz parte da equipe de Lenílson Chaves Jr, quando ele ocupou a presidência da Fundação Cultural “Jornalista Oswaldo Lima”(FCJOL).  O governo era de Arnaldo Vianna, na época aliado de Anthony Garotinho. Enquanto a cidade destinava milhões para contratos e cachês de shows, as políticas públicas de cultura mais baratas e de “menor repercussão” eram relegadas a um segundo plano. 

Tudo certo, afinal, são escolhas políticas, e quem faz alianças a elas se submete. Pois bem, Lenílson era uma usina de ideias, um cara inquieto, uma força da natureza, mas sempre com sorriso no rosto e um humor cortante, às vezes até mal interpretado.

Estive perto para assistir sua luta e criatividade para multiplicar os caraminguás de um orçamento desidratado, para uma fundação primo pobre, como quase sempre acontece com a cultura.  Foi com ele que nasceu a primeira Bienal, tendo Ziraldo como criador da primeira logomarca, e como integrante ativo do “cast” de escritores, onde eu me lembro de Afonso Romano de Sant’anna, Frei Beto, dentre outros. 

Outra luta dele foi a recriação das casas de cultura, nas antigas estações ferroviárias da Rede Ferroviária Federal, depois privatizada, a FCA.

Lenílson tinha apreço especial pelas liras e bandas centenárias, e tentou criar um calendário fixo de apresentações, para dar fôlego àquelas manifestações musicais, bem como se engajou para restaurar a sede incendiada da centenária Lira de Apolo. Algumas lutas tiveram sucesso, outras não.  Mas lutou todas.

Fiz essa longa e sentimental introdução para falar do Arquivo Público.  Poucos sabem que a esmagadora maioria daquele acervo estava apodrecendo nos porões da então biblioteca municipal Nilo Peçanha, incluindo aí exemplares raros dos jornais da cidade, fontes históricas preciosas.

Foi na gestão de Lenílson que começaram as tratativas para transferência desse rico material para da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf), através da sua então pró-reitora de extensão , professora doutora Lana Lage da Gama Lima.  Só então a ideia de um arquivo, com a sua sede no Solar do Colégio, tomou corpo, e foi indicado como primeiro diretor o professor Carlos Freitas, que ali esteve por bom tempo.

Todo esse tempo a ideia da preservação da memória campista obteve o mesmo solene descaso, não importando a cor ideológica dos gestores, se mais inclinado para esquerda ou para direita.

Talvez seja a hora de dizer:  É o fim do Arquivo Público Municipal. Quer dizer, dessa concepção de arquivo vinculada à FCJOL e à Uenf.

Infelizmente, ele morreu não (só) por falta de verbas, mas antes por falta de compromisso com a imperiosa necessidade de se arquivar, tratar e destinar documentos. Esta é uma atividade que acompanha a humanidade desde que aprendemos a rabiscar coisas em alguma parede de caverna ou papiro.

É preciso retirar a arquivologia municipal da seção de cultura, em primeiro lugar. Outra medida urgente é afastar a Uenf o quanto antes.  Arquivo é matéria afeita à ciência, aos direitos humanos, ao campo de estudos jurídicos, enfim, não é um enfeite estético ou um produto cultural em senso estrito, ainda que possa também cumprir esse papel residual.

Geralmente, os arquivos públicos no mundo se vinculam aos setores de justiça, ou de ciências, ou de administração e patrimônio.  Guardar documentos é coisa séria, é um testamento às gerações vindouras, que poderão saber como cargas d’água nós construímos o que lhes foi entregue, para aproveitar os sucessos e evitar repetir erros. 

A generosa verba de 20 milhões para restauração do prédio do arquivo, e a inércia de uma universidade que se encontra atolada em um lodo institucional sem precedentes, são a prova de que o acessório segue o principal, ou seja, se o arquivo está por conta da Uenf, seu destino é a ruína.

A Uenf deixou de ser o que se propunha faz muito tempo.  Ela é hoje a traição viva àquilo que seus idealizadores imaginavam. Virou uma mera replicadora de modismos “de inovação”, repositório de narrativas tipo “coach”, e certificadora de diplomas e titulações.  Não tem, como comprovado, capacidade de gerir nada, e muito menos de propor algo.

Portanto, é chegada a hora de falar menos e agir mais.  Se a prefeitura e o atual prefeito têm a intenção de resolver o problema cabe, em caráter de urgência, pedido à justiça para que a secretaria de obras possa executar a restauração, e o repasse venha dos fundos estagnados na poça uenfiana da incompetência.

O imbróglio da reforma do Solar do Colégio tem novo capítulo: reitora da Uenf se reúne com vereadores

A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicou ontem uma nota dando conta da visita de três vereadores à reitora Rosana Rodrigues para tratar do imbróglio envolvendo o atraso na reforma do prédio histórico que abriga o Arquivo Público Municipal. A comissão de vereadores incluiu  os vereadores Fabio Ribeiro, Kassiano Tavares e Juninho Virgílio (ver imagem abaixo).

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Como a nota só deu espaço para as falas da reitora da Uenf, vamos esperar para ver o que dizem os vereadores sobre o que transpirou nesse encontro. 

Ainda sem saber se o que foi narrado acalmou os corações dos três vereadores, eu teria a dizer a eles, especialmente o meu colega de universidade Fábio Ribeiro, que sem a devida pressão, desse mato continuará não saindo coelho. 

E a meteorologia prevê chuvas com alguma intensidade para os próximos, nunca é demais lembrar.

A revitalização do Centro de Campos: diga-me com quem e como fazes, e te direi qual será o resultado

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O monumental edifício que abrigava o Hotel Flávio em chamas:  uma rica história arquitetônica virando fumaça

Por Douglas Barreto da Mata

Ao contrário do que diz a maioria, o abandono dos centros das cidades médias e grandes no Brasil e no resto do mundo não é só resultante de processos de drenagem econômica destas áreas, geralmente associado à criação de shoppings e bairros mais afastados.  Estes fatores impactam esse fenômeno, mas não respondem a todas as questões implicadas.

Em Campos dos Goytacazes há um nítido esforço da prefeitura, personalizado no prefeito Wladimir, de tratar desse tema. Atitude louvável.  Eu temo apenas que ele se reúna, justamente, com os que deram causa ao problema (as elites comerciantes locais e suas entidades), e que agora posam de solução.

Primeiro e antes de mais nada, não há um só modelo, por óbvio, nem todos funcionam, e sim, há modelos que beneficiam mais a alguns e menos a outros.  Foi o que aprendi com Raul Juste Lores, jornalista que tem um programa muito legal sobre o tema no YouTube: São Paulo Nas Alturas.

Há boas pistas ali, que merecem ser consideradas, apesar das particularidades de cada processo histórico. Porém, há princípios básicos, vamos a eles.  O olhar da elite falida campista é um só: da valorização imobiliária em si, do maior emprego de verbas públicas, e claro, com o menor esforço deles. Foi justamente isso que trouxe a cidade a esse ponto, a especulação e concentração imobiliária, a elisão e evasão fiscais, e a apropriação do espaço público pelo setor privado, naquilo que chamo de mini grilagem urbana, com os empreendimentos avançando sobre calçadas, hegemonia de carros sobre pedestres e transportes públicos, enfim, a privatização dos centros.

Como avançam como gafanhotos sobre o espaço da cidade, e matam toda vida possível, agora reclamam mais e mais recursos para salvarem a si mesmos dos males que eles mesmos se infligiram.  Mentalidade parecida com a do agronegócio, que destruiu todo um ecossistema nacional, e exige ajuda para se livrar daquilo que “plantou”. 

Nas cidades europeias e nas colônias, as cidades se erigiam em volta de uma praça (núcleo central), onde estavam a igreja, câmara e a cadeia, e outras instalações públicas.  Destes pontos derivaram as ruas e os bairros.  Mesmo com a modernização capitalista do automóvel, e outras que aumentaram a pressão sobre os centros, as cidades mais inteligentes mantiveram seus sistemas de transportes públicos, o acesso ao centro por equipamentos públicos de mobilidade, e principalmente, tentaram conter a especulação imobiliária, que empurrava as pessoas para as franjas da cidade, o que nem sempre se conseguia, mas eram compensados pela eficiente circulação de pessoas em modais coletivos.

Qualquer medida a ser considerada para revitalizar centros urbanos, como o campista, tem que considerar primeiro o essencial: gente.  Há modelos como o da zona portuária do Rio, e de Porto Madero, em Buenos Aires (este já definido), que privilegiaram aspectos imobiliários.  Em Buenos Aires a aposta em um altíssimo padrão resultou em um bairro parecido com os Alphavilles no Brasil (em BA, com enormes torres), porém, no modelo portenho, há amplo acesso aos pedestres e os imóveis não se isolam das vias públicas, pois há muitos com lojas, cafés e restaurantes, e tanto que anda vê quem está dentro, como vice versa. Isso aumenta a segurança. 

Ideia central em qualquer projeto desse tipo é a de que as pessoas vejam, e se protejam.  Ainda que as ruas de Porto Madero não sejam essa explosão de gente, o fato é que ali há calçadas enormes, parques e etc.  Não sei se no Rio de Janeiro isso vai dar certo, até porque a realidade da violência na capital fluminense e na capital portenha são abissais.

Já nas outras áreas centrais recuperadas, as diretivas foram parecidas, com combate à especulação e concentração fundiária urbana, aumento dos impostos para imóveis ociosos, transferência de serviços públicos para as áreas degradadas, transporte público acessível, e claro, intervenções no domínio das propriedades, no quesito da arquitetura dos imóveis, dando ênfase aos edifícios que se integrem a paisagem, e não se exilem dela atrás de muros, grades e canteiros.

Por fim, as praças, parques e todo tipo de espaço de convivência que possa ser criado e mantido com eficiência.  Menos estacionamentos e mais praças.  Como eu disse, lá no começo, tenho pouca fé de que o prefeito sozinho consiga mover a carcomida e obtusa elite comercial da cidade na direção oposta ao que pensam.

Andar pelo centro campista e ver “espaços reservados” para veículos de “clientes” ou “donos”, quando algumas dessas restrições de espaço são feitas com cones e pedaços de madeiras ilegais, ao arrepio das autoridades, ou assistir ao lamentável espetáculo proporcionado por essa gente, quando da adoção de ciclofaixas, eu diria que o prefeito Wladimir Garotinho já teria muito trabalho. 

Porém, ao delegar a um bando de parasitas sociais uma tarefa que deveria ser pública e do público todo (não apenas os comerciantes) torna, no meu modesto entender, impossível a missão. Afinal de contas,  não se pode cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.