Percalços da “trash science”: sua revista favorita entrou em manutenção sem avisar e nem dizer adeus

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As peripécias dos pesquisadores que enveredam pelo caminho do “trash sicence” são muitas. Mas a maioria dos que enveredam por esse caminho só fica mesmo em alerta quando algo mais do que esperado ocorre: a revista onde se colocam “n” artigos repentinamente sai do ar, sem deixar maiores vestígios ou informações de quando deverá retornar ao ar para permitir acesso aos arquivos que contem, os arquivos com o material publicado.  

Essa situação, que era impensável até o advento da internet, hoje assola muitos pesquisadores em diferentes momentos de suas carreiras, os quais sacrificam o rigor e a qualidade em nome da quantidade que, no frigir dos ovos, é que premiações, enquadramentos e progressões e, ainda mais importante, financiamentos de agências de fomento e ministérios. Mas hoje não são raros os casos em que um pesquisador se vê diante da situação insólita de clicar no link do “Document Object Identifier” (DOI)  (Aqui!) que deveria levar ao seu artigo, e descobrir que a revista simplesmente não está mais operacional. Em outras palavras, a revista simplesmente tomou chá de sumiço.

Quando isso acontece é um tremendo “Deus nos acuda” porque não há mais prova virtual de que o artigo sequer existiu caso o pesquisador não tomou o cuidado de imprimir uma cópia física ou salvar o documento em um repositório digital.   E as consequências para isso não poucas, a começar pelo fato de que  o preenchimento do famoso Currículo Lattes contem um aviso de que quaisquer preenchimentos falsos implicam em crime de falsidade ideológica. 

O interessante é que acabei de identificar esse fenômeno com uma revista muito utilizada por pesquisadores que eu conheço, e que, inclusive, se encontra qualificada por diversos comitês técnicos da CAPES que determinam a classificação de revistas no sistema Qualis. E para não ter dúvidas no momento de escrever esta postagem, tomei o cuidado de ligar para a instituição onde a revista estava hospedada até recentemente, e lá fui dirigido ao Serviço de Informática. Ao falar com um dos técnicos que trabalham nesse departamento, o mesmo me ofereceu uma resposta que considerei enigmática: o serviço a que a referida revista estaria associada está em manutenção por tempo indeterminado, mas que brevemente deverá online. Em outras palavras,  apesar de eu insistir, não me foi dada uma informação mais precisa de quando, ou mesmo se, a revista voltará a ficar disponível online.

Agora, a pergunta que se coloca é a seguinte: o que farão os pesquisadores em diferentes momentos de formação que enviaram seus artigos para esta revista? Essa é uma boa pergunta para o CNPq, que é responsável pela base Lattes, e para a CAPES, responsável pela base Qualis.  A ver!

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Lixo científico “made in Brazil”

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Venho faz algum tempo tratando aqui neste blog da difusão e banalização do que muitos chamam de “publicações predatórias”, e eu (seguindo o que disse o físico Rogério Cézar Cerqueira Leite num polêmico artigo no jornal Folha de São Paulo) denomino de “lixo científico”.  Os sucessivos casos de pesquisadores sendo pegos com artigos e outros tipos de publicações que mimetizam descobertas científicas em revistas onde o único requisito é pagar para publicar é um fenômeno global. As “editoras” estão espalhadas por diferentes partes do globo, ainda que países como China e Índia seja rotineiramente apontados como locais preferenciais para o estabelecimento de empresas especializadas em distribuir lixo científico a preços nem sempre módicos. 

O fenômeno não é novo, mas se espalhou como o vírus da peste negra após a emergência da internet que serviu para validar publicações que não necessariamente vão ser impressas.  Além disso, o surgimento da internet serviu para conectar prestadores de serviços (editoras predatórias) e fregueses (profissionais interessados em turbinar seus currículos sem as exigências da revisão por pares), o que contribuiu para criar um imenso mercado para personagens obscuros.  Esse fenômeno gerou até imensas listas de identificação de publicações predatórias como a criada pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver, que se tornou uma referência mundial no esforço para conter o avanço do lixo científico (Aqui!).

Pois bem, se alguém pensou que o Brasil não possui o seu próprio estoque de publicações “trash”, pensou errado. Após me interessar pelo assunto, comecei a pesquisar (usando o Qualis Capes como ponto de partida) determinadas publicações que possuíam o que o jornalista Maurício Tuffani caracterizou em seu blog como  a “classificação quântica” do Qualis Capes (Aqui!). E o que eu acabei descobrindo é que, apesar de ainda faltar a mesma estrutura logística das editoras predatórias localizadas em outras partes do mundo, há sim no Brasil um mercado emergente de publicações onde determinados personagens são, ao mesmo tempo, dos corpos editorial e científico, exercem o papel de revisores e, sim, ainda publicam seus “artigos científicos”.  Em suma, são o policial, promotor de justiça, juiz, e carrasco! Além disso, essa rede de publicações junta personagens em instituições localizadas em diferentes partes do Brasil, de modo que fica difícil verificar num primeiro momento que são sempre os mesmos personagens envolvidos.

Esse fenômeno “editorial” tem graves implicações para a comunidade científica brasileira, na medida em que os órgãos de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) utilizem critérios que favorecem a quantidade e não a qualidade das publicações no momento em que concedem financiamentos (no caso do CNPq) ou certificam programas de pós-graduação (no caso da CAPES).  A existência e persistência desse sistema de medição é que está na origem do fenômeno das publicações predatórias em nível mundial, e não é diferente no Brasil. Mudar essa situação vai passar por uma urgente reestruturação dos sistemas de medição de mérito, visto que o que estamos vivendo no Brasil é apenas a primeira fase da invasão e colonização da ciência brasileira por revistas predatórias “made in Brazil”. 

Trash science no Qualis CAPES: o problema é grave!

Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas ‘predatórias’

POR MAURÍCIO TUFFANI
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Acusados no exterior de publicarem artigos científicos sem o rigor e o cuidado dos publishers tradicionais, 11 editores acadêmicos estrangeiros têm juntos pelo menos 201 periódicos cadastrados na mais  recente avaliação trienal(2010-2012) da pós-graduação brasileira, realizada em 2013 pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Essas 201 revistas estão na base de dados online Qualis Periódicos, da Capes, que reúne cerca de 30 mil títulos e serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Já havia na internet alertas de instituições e cientistas e também reportagens sobre esses 11 editores antes de suas revistas serem avaliadas por 48 comitês assessores, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores. O trabalho envolveu cerca de 2 mil especialistas.

Falha grave

A inclusão de revistas desses 11 publishers predatórios no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por 15 cientistas de renome do Brasil ouvidos por este blog nas duas últimas semanas. Quase todos eles, no entanto, preferiram não serem identificados para não se indisporem com a agência do MEC e, sobretudo, com os próprios colegas e suas respectivas equipes que publicam nessas revistas.

As avaliações trienais se baseiam em informações sobre periódicos em que foram publicados artigos no período de apuração, conforme informações prestadas por todas as comissões de pós-graduação. A não inclusão deles no Qualis significaria que artigos publicados neles não contariam pontos para a ascensão na carreira acadêmica nem para solicitar bolsas e apoios a pesquisas, viagens e participações em conferências.

Para 11 desses 15 entrevistados, a responsabilidade pela inclusão dessas revistas no Qualis se deve muito mais a grande parte das lideranças científicas do país, que deveriam impedir, em seus grupos de pesquisa, a publicação de artigos em revistas desses editores “predatórios”. Todos eles consideraram prejudicial para a pós-graduação e para a pesquisa do Brasil a publicação nesses periódicos que são desprestigiados e praticamente desconsiderados pela comunidade científica internacional.

Baixa qualidade

Uma das exceções a esse anonimato foi o biólogo Sidarta Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros em neurociências. Em junho do ano passado, ele já havia criticado a Capes por “valorizar a quantidade em detrimento da qualidade”, em uma nota na revista “Nature, uma das mais bem conceituadas do mundo, que o escolhera para comentar a ciência brasileira.

Destacando que pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários —quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil—, Ribeiro afirmou que trabalhos científicos importantes correm alto risco de serem desperdiçados quando são publicados em periódicos de baixa qualidade. “Essas revistas nunca poderiam ter entrado no Qualis”, disse o neurocientista.

Na sexta-feira (6.mar), como mostrou este blog com o post Falso professor edita revista selecionada pela Capes, três dessas revistas são editadas pela IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology ), sediada em Singapura. Questionado por este blog, Ron Wu, diretor-executivo desse publisher, afirmou o seguinte.

“Por sermos uma editora nova, temos de admitir que não temos comparação nenhuma com as editoras de renome, que têm melhores apresentações, artigos publicados e processo de revisão mais maduro em todos os aspectos dos periódicos. A IACSIT ainda está crescendo, e acho que vamos fazer melhor no futuro.”

Corrupção

Os “publishers predatórios” são caracterizados em sites de instituições de pesquisa e em blogs de cientistas de diversos países como empresários que exploram sem rigor científico o modelo editorial de publicação de artigos em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no acesso livre online, com taxas pagas por autores, como no tradicional modelo mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Acusados de priorizarem a minimização dos custos e a maximização dos lucros, os “publishers predatórios” não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo, como explicou a repórter Fernanda Perrin em sua reportagem Pagou, publicou, na Folha em 25 de janeiro.

Esses editores se concentram em atender às expectativas dos autores de publicação rápida e fácil, mas ignorar a necessidade da sociedade de somente serem publicadas pesquisas de boa qualidade, segundo o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, que mantém desde 2011 uma lista de “potenciais, possíveis ou prováveis publishers predatórios” em seu blog “Scholarly Open Access”.

“Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem”, disse Beall. “A prática de autores que fazem pagamentos aos periódicos criou muita corrupção na publicação acadêmica”.

‘Caça-níqueis’

Além de suas revistas, alguns “publishers predatórios” também descobriram uma nova forma de ganhar dinheiro com eventos. No Brasil, 116 conferências científicas no Rio de Janeiro, agendadas para o mesmo mesmo hotel nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2016, foram organizadas pela Waset (World Academy of Science, Engineering and Technology), como mostrou a reportagem Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas” (3.mar).

Apesar da palavra “academia” em seu nome, a Waset é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato, e somente por SMS, é um celular dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os quatro registros de suas revistas no Qualis são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN, sediado em Paris.

Sites como o do Laboratório de Tecnologia Quântica, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da ENNS (Sociedade Europeia de Redes Neurais) e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset.

Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição. A Waset não respondeu às perguntas enviadas terça-feira (2.mar) por este blog sobre esses depoimentos.

Rejeição

Os posicionamentos de instituições contra “publishers predatórios” não acontecem somente em países com forte tradição científica e de publicação acadêmica, mas também nos chamados emergentes.

Como mostrou este blog no sábado (7.mar) com o post “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, desde 2010 Ministério da Educação Superior daquele país não reconhece artigos de seus pesquisadores em revistas da editora acadêmica nigeriana Academic Journals —que usa nome semelhante ao da norte-americana Academic Journals Inc.— e também não dá apoio para a publicação de estudos nelas.

Mas no Brasil 13 revistas da Academic Journals estão no Qualis, apesar de alertas na internet sobre a má qualidade de publishers acadêmicos da Nigéria em veículos sobre a comunicação científica, como o “SciDev.Net” (21.jan.2013), e pela própria “Nature” (27.mar.2013). Também desde 2010 vários informativos acadêmicos da Malásia já incluíam essa editora em seus lembretes sobre os periódicos não reconhecidos pelo sistema de educação superior do país devido a práticas antiéticas e outras razões.

A Academic Journals não respondeu às perguntas deste blog enviadas na terça-feira (3.mar) por meio de seu formulário “fale conosco”, típico de muitos dos publishers acadêmicos mal-conceituados, que não fornecem e-mail para contato.

Confusão

Outra exceção ao anonimato entre os cientistas que se manifestaram contra a aceitação de “periódicos predatórios” no Qualis foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à inclusão da editora Waset, de Singapura, pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

Além de revistas “predatórias” serem aceitas no Qualis, elas muitas vezes também recebem diferentes classificações de seus 48 comitês de áreas. Um dos exemplos esdrúxulos dessa multiplicidade de avaliações, que não são raros, é o do JMPR” (“Journal of Medicinal Plants Research”), da nigeriana Academic Journals.

Esse periódico recebeu do comitê de Ciências Biológicas I a classificação máxima A1. Não teve A2, mas recebeu o nível imediatamente seguinte, B1, das áreas Interdisciplinar, Ciências Ambientais e Ciências Agrárias I, além de B2 de Nutrição, Biodiversidade, Biotecnologia, Medicina I, Medicina II e Engenharias I.

Mas a classificação da “JMPR” começa a ficar estranha com o baixo nível B3 em Ciência de Alimentos, Farmácia e Educação Física. E piora com o baixíssimo B5 não só do comitê de Química, mas também justamente de Ciências Biológicas II. E, para completar a disparidade de conceito com uma área muito próxima à que lhe deu conceito máximo, a revista recebeu C em Ciências Biológicas III,

Outros lados

Com 120 títulos de periódicos, 11 deles listados no Qualis, o publisher MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute), registrado na Suíça, mas com suas operações concentradas na China, ressalta cumprir corretamente o peer review e, destacando que Beall não tem Ph.D., afirma que sua lista negra é “desnecessária e não confiável”. Ao recomendar uma página de seu site com explicações sobre as acusações contra sua empresa, Shu Kum-Lin, presidente do MDPI, afirma:

“Críticas sérias a qualquer artigo publicado em nossas revistas são muito bem-vindas e devem ser endereçadas aos editores delas. Discussões, críticas e propostas para ajudar a melhorar outros aspectos do serviço de publicação em acesso aberto também serão apreciados.”

Sediado na China e com cerca de 200 periódicos, o Scirp (Scientific Research Publishing) tem 38 revistas no Qualis. Seu presidente Barry Zhou recomenda a leitura da página de perguntas e respostas de seu blog e também seus posts de janeiro e de dezembro de 2014, no qual ele afirma:

“A experiência de Beall não é suficiente para fazer uma avaliação científica do conteúdo dos papers em tantos campos diversos. Suas declarações podem ser descartadas.”

Com cerca de 500 revistas, 30 delas no Qualis, o grupo editorial Omics, sediado em Hyderabad, na Índia, que anuncia em seu site “rápido processo de revisão em 21 dias”, respondeu por meio de nota que:

“As revistas de acesso aberto publicadas pelo OMICS Internacional se submetem a um procedimento de verificação obrigatória de qualidade e seguem uma política de padrão de revisão por pares, onde cada artigo submetido sofre um processo de profunda revisão pelos peritos nos domínios relevantes.
(…)
A Omics Internacional tem o orgulho de declarar que somos associados a mais de 1.000 sociedades acadêmicas de reputações bem estabelecidas e a personalidades eminentes que coroam os conselhos editoriais de revistas”

Wenwu Zhao, do CCSE (Canadian Center of Science and Education), com 12 revistas no Qualis, afirmou que o blog “Scholarly Open Access” de Jeffrey Beall, é pessoal e cheio de suposições pessoais e preconceitos, e que ele tenta construir seu próprio nome com a difamação dos outros. Afirmando que o CCSE desenvolveu um sistema sério para a seleção de artigos e que a taxa global de aceitação de trabalhos propostos por autores é de cerca de 55%, segundo ele “mais seletiva do que outros periódicos” nesse ramo. E acrescentou:

“Muitas revistas do CCSE foram indexadas pela Scopus, PubMed e outros bancos de dados de renome, que são mais responsáveis, sérios e rigorosos do que lista de Beall.”

O grupo editorial Benthan Science Publishers, proprietário do “predatório” Bentham Open, que tem 140 títulos em acesso aberto, dos quais com 43 no Qualis, se manifestou em mensagem enviada por seu diretor de publicações Mahmood Alam após o fechamento desta reportagem, na qual afirmou:

“Um processo rigoroso e padronizado de revisão é seguido por todas as nossas publicações. Os editores de nossas revistas desfrutam de total liberdade editorial sujeita aos procedimentos de controle de nosso padrão de qualidade.”

Sem comentar as afirmações do “Scholarly Open Access”, o diretor disse que seu grupo editorial tem 25 anos de atuação “séria” e 39 revistas com fatores de impacto, sendo “algumas delas as principais em seus respectivos campos”. No entanto, os exemplos de periódicos de alto impacto apontados por ele não são, na verdade, publicados pelo Bentham Open, mas pelo Benthan Science, que não adota o acesso aberto.*

Nada a declarar

Além do nigeriano Academic Journals, outros publishers considerados “predatórios” que também não responderam às perguntas deste blog foram David Publishing, com 12 revistas no Qualis, Ijens (International Journals of Engineering and Sciences), com 3, Science Publications, com 14, e WSEAS (World Science and Engineering Academic Society), com 17.

E, praticamente como copia-e-cola do que já disse este blog nos posts de sábado (7.mar) e de sexta-feira (6.mar), vale lembrar que a agência do MEC afirmou na quinta-feira (2.mar) que não se pronunciará mais, alegando que tudo o que poderia dizer já está em uma nota enviada na semana retrasada.

A nota da Capes, que pode ser lida na íntegra na reportagem  “Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas brasileiros”, desconsiderou as perguntas sobre irregularidades na inclusão de outras revistas. Segundo a resposta evasiva, a inclusão de periódicos no Qualis é feita com base na produção acadêmica brasileira no período correspondente ao da avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação.

A agência alegou também que

“nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Em outras palavras, pelo menos 201 revistas desses 11 publishers entraram no Qualis porque professores e pesquisadores brasileiros publicaram milhares de artigos nelas no período de 2010 a 2012. Mas a nota não explica por que os cerca de 2 mil especialistas de 48 comitês assessores da agência do MEC não viram objeções para essas publicações.

Para conhecer os 201 periódicos desses 11 publishers, clique aqui.


*Acréscimo feito às 7h40 em 11.mar.2015. A mensagem foi enviada às 12h46 no dia anterior.

Maurício Tuffani é jornalista especializado em ciência, educação e meio ambiente

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/09/pos-graduacao-brasileira-aceita-201-revistas-predatorias/

 

Trash science a todo vapor em eventos “caça-níqueis” no Rio de Janeiro

Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros

MAURÍCIO TUFFANI, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

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Estão abertas inscrições, com taxas de até € 450 (R$ 1.453), para 116 reuniões científicas simultâneas em fevereiro de 2016 no Rio de Janeiro. O problema é que eventos como esses já são conhecidos como “scam conferences” (conferências-golpe, literalmente em inglês) no exterior. Organizados sem cuidados acadêmicos, eles são apontados como fraudulentos por instituições de pesquisa de outros países.

A organizadora desses 116 eventos é a Waset (Academia Mundial de Ciência, Engenharia e Tecnologia, na sigla em inglês). Apesar do nome, é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN.

Enquanto no exterior é apontada em alertas para pesquisadores não participarem de suas conferências nem publicarem em suas revistas, no Brasil a Waset aparece na seleção baseada em critérios de qualidade de periódicos nacionais e estrangeiros, feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Disponível na plataforma on-line Qualis Periódicos, essa seleção da Capes orienta pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher revistas para publicar seus estudos. As informações são importantes para as carreiras acadêmicas, nas quais contam a quantidade de artigos publicados e a participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos.

Sites como o da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da Sociedade Europeia de Redes Neurais e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset. Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

O ecólogo Alexandre Marco da Silva, professor da Unesp de Sorocaba, soube pela reportagem que seu nome está no comitê científico da 14ª Conferência Internacional de Geofísica e Engenharia Ambiental, um dos 116 eventos. “Eu nem sei que conferência é essa”, disse ele surpreso ao telefone, acrescentando que exigirá a retirada de seu nome do comitê.

Indicado em todos os 116 sites das conferências da Waset “marcadas” para 2016, o Hotel Windsor Guanabara também afirmou por meio de sua coordenação de eventos desconhecer esse agendamento, assim como mais 110 reuniões em 2017 e outras 110 em 2018.

“FALHA GRAVE”

A inclusão da Waset no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por cientistas ouvidos pela Folha, que preferiram não ser identificados para não se indisporem com a agência do MEC.

Exceção a esse anonimato foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à seleção da editora pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

A Waset também está na lista dos chamados “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet.

Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers. “Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall.

Em 2013, um ano após a Waset ter sido detectada pelo trabalho solitário de Beall, a Capes concluiu sua avaliação trienal da pós-graduação brasileira por 48 comitês de áreas da Capes, cada um deles com a média de 20 consultores. Mesmo sem seguir o padrão acadêmico de indicar datas de recebimento e de aceitação de artigos, a editora não foi rejeitada por 20 desses comitês.

Dez das classificações obtidas pela Waset no Qualis exigem registro em pelo menos duas bases de dados científicos. Apesar dessa regra, as publicações dessa editora constam apenas no desconhecido International Science Index, cujas iniciais são as mesmas do prestigiado ISI (Institute of Science Information), da Web of Science, que é a maior base mundial desse gênero.

Outra irregularidade da Waset no Qualis é constar erroneamente como título de periódico. Para complicar, a editora tem dez revistas, mas o registro da Capes faz com elas um imbróglio com quatro códigos numéricos ISSN. Dois desses registros são da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, foram cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

RESPOSTA

A Waset não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Em nota, a Capes foi evasiva sobre irregularidades na inclusão da Waset e de seus registros ISSN no Qualis e sobre a permanência da editora nessa seleção. Apesar dessa omissão, a agência federal alegou que “nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Veja a íntegra da nota:

A classificação na Capes de periódicos, livros e demais formas de produção intelectual não é feita a priori levando em considerações todas as editoras/publishers que existem ou aqueles que a cada momento, no mundo todo, estão lançando novos títulos.

No início do ano cada programa de pós-graduação (atualmente da ordem de mais de 5.700 cursos) que são devidamente avaliados e recomendados, constituindo assim o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), deve informar à Capes a produção intelectual realizada no ano anterior pelos seus professores, pesquisadores e alunos.

Esta informação declarada pelos cursos de pós mostra que, atualmente (dados de 2013), a produção intelectual da pós-graduação brasileira é publicada em periódicos da ordem de mais de 30 (trinta) mil títulos, editados em dezenas de países.

Quando da classificação (Qualis) destas revistas para fins de avaliação (notas) do SNPG, que é feita pela comunidade acadêmico-científica através de comissões das 48 áreas de conhecimento, são considerados vários aspectos sobre as mesmas. Nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis e os artigos publicados nas mesmas são desconsiderados na avaliação. Isto ocorreu na última avaliação trienal, quando mais de 60 (sessenta) revistas foram retiradas do Qualis, mesmo tendo tido classificação (contabilização) em trienais anteriores.

É importante destacar que, com exceção da área de ensino (uma área nova na Capes e ainda sem a tradição das demais áreas), todos as revistas citadas foram mal classificadas no Qualis e no seu conjunto total representam apenas 0,1% do total de títulos constantes no Qualis. Desta forma, as mesmas não contribuem para a qualificação dos cursos de pós-graduação stricto sensu do Brasil, nem mesmo na área de ensino.

A Capes requer ao sr. Maurício Tuffani que faça constar na íntegra a resposta desta agência na matéria publicada. Caso contrário, a Capes publicará o seu ponto de vista na página da Capes.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/03/1597163-eventos-cientificos-caca-niqueis-preocupam-cientistas-brasileiros.shtml

É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro

Por Lewis Joel Greene

Foto: Steve Goodyear.Foto: Steve Goodyear.

O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.

Ao longo dos anos, o investimento brasileiro em ciência e tecnologia tem aumentado significativamente, porém a filosofia básica de pós-graduação aparentemente mudou muito pouco. A ênfase continua a ser no número de diplomas e documentos produzidos, mais que na formação do aluno. Por formação queremos dizer as habilidades necessárias para realizar pesquisas e preparar a próxima geração de cientistas brasileiros. Estas incluem a capacidade de analisar problemas, formular soluções específicas, levar a cabo estas soluções no laboratório, pensar e escrever de forma clara, de modo que seja compreensível aos pares, e, finalmente, conhecer e compreender a história do desenvolvimento de sua área acadêmica. É claro que existem outras habilidades necessárias, mas estas são as mais importantes. Devemos esperar que os nossos alunos continuem a se desenvolver e amadurecer ao longo de suas carreiras acadêmicas. Isso não está acontecendo e, como regra geral, até agora viemos treinando técnicos em sua maior parte, em vez de doutores.

Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.

Historicamente, desde a institucionalização da pós-graduação no Brasil, nos anos sessenta, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), as universidades voltadas para a pesquisa (quase todas públicas) e as agências de fomento estaduais tiveram, todos eles, algum grau de responsabilidade sobre a estratégia para o desenvolvimento de cursos de pós-graduação no país, com uma contribuição substancial para a ciência brasileira. Eu sugiro que um painel de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC) seja convocado para analisar o desempenho da pós-graduação desde o seu início, em princípio dos anos 1970, e sugerir novas abordagens que podem ser mais eficazes do que a atual em relação à qualidade dos nossos alunos e do empreendimento científico no Brasil.

Sobre Lewis Joel Greene

Atualmente é professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, no departamento de Biologia Celular, Molecular e Bioagentes Patogênicos. É supervisor do Centro de Química de Proteínas, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, onde desenvolve estudos de caracterização química, funcional e estrutural de proteínas, utilizando abordagens tradicionais em química de proteínas e análise proteômica.

FONTE: http://blog.scielo.org/blog/2015/01/26/e-hora-de-rever-o-sistema-de-pos-graduacao-brasileiro/#.VMt7TWjF9sh

Produção acadêmica e lixo científico no Brasil

Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo no dia 06/01/15, o físico Rogério Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade de Campinas (UNICAMP), e membro  do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq) levantou uma lebre que há muito está sendo falada em voz baixa nos corredores das universidades brasileiras, mas que até agora era quase um tabu (Aqui!), qual seja, o baixo impacto da maioria das publicações produzidas pelas nossa comunidade científica.  Em seu arrazoado construído a partir de um levantamento feito pela revista britânica “Nature”, Cerqueira Leite apontou que o Brasil aporta 2,5% das publicações indexadas em revistas internacionalmente, atrás até do Chile. Além disso, Cerqueira Leite também notou que boa parte do que é incluído nos currículos dos pesquisadores brasileiros se dá na forma de jornais openscience (abertos), e que a maioria dos artigos não passa mesmo é de lixo científico.

O que Cerqueira Leite não disse é que essa situação se dá às barbas, e muitas vezes sob impulso das duas principais agências de fomento à produção científica no Brasil,  o CNPq e a CAPES. O fato é que essas agências foram tomadas pela lógica da quantidade para ocultar a falta de qualidade que decorre do contínuo sucateamento financeiro e intelectual das universidades brasileiras, especialmente em anos da vigência da máxima “Brasil grande, Estado pequeno” que se instalou após as reformas neoliberais impostas no governo de Fernando Collor de Melo.  

Esta realidade é hoje conhecida até do mais jovem pesquisador que está iniciando os seus estudos de Iniciação Científica, e foi elevada aos momentos quase sacralizados pelo Currículo Lattes, que se tornou a principal forma de se obter recursos, cada vez mais escassos diga-se de passagem, e que acabam ficando quase sempre nas mesmas mãos.  Além disso, qualquer avaliação que seja feita hoje pela CAPES e pelo CNPq irá utilizar o total de produções, seja o artigo publicado na Nature ou no “Journal of Applied Sciences da Universidade Federal de Atol das Rocas”.  Mas o pior é que dai decorre uma lógica cínica de que é preciso publicar, seja lá o que for, em nome da sobrevivência. E ai de quem quiser refletir ou criticar essa hegemonia quantitativa!

É dessa adesão quase irrefletida a princípios quantitativos para se aferir mérito que decorre a adesão a pseudo-revistas científicas publicadas em prédios localizados em algum bairro central em países como Romênia, Índia e China. E como, apesar da lembrança colocada no momento do envio do CV Lattes ao CNPq que falsidade ideológica é crime, punições por fraude científica são quase tão raras quanto prisão por crime do colarinho branco. Em função disso, o que se vê é uma inundação de pseudo-artigos que aparecem normalmente em revistas que são colocadas em listas internacionais como devendo ser evitadas por suspeitas de serem fajutas (Aqui!).

Sair dessa cultura de quantidade sobre qualidade não será fácil, pois se prende a uma lógica de mérito que está institucionalizada. Entretanto, se não houver a devida disposição para enfrentar o problema, a ciência brasileira continuará num processo de auto-enganação cujo resultado final é nos manter como um país periférico na produção acadêmica qualificada e, pior, imerso nas profundas desigualdades sociais e econômicas que se mantém intactas por causa dessa situação científica capenga.

Aproveitando a deixa, ainda digo que se alguém está surpreso no número de notas “zero” na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), esta surpresa seria ainda maior se fossem lidas algumas dissertações e teses, e artigos científicos produzidos até nas melhores universidades brasileiras. A baixa proficiência no uso da língua portuguesa é de tal proporção que chega a ser assustador para uma pessoa que, como eu, teve pais cuja escolaridade não passou dos dois anos iniciais do antigo ensino primário. É que, em comparação, meus pais tinham melhor controle e garbo no tratamento da língua portuguesa!  

Agora, parafraseando Karl Marx, para evitar jogar a criança fora com a água suja do banho, eu diria que a saída para esta armadilha criada por quem quer destruir o nosso incipiente parque científico nacional será exigir que se reverta a lógica do mérito a partir de critérios que coloquem a importância e a necessidade de uma produção intelectual que sirva efetivamente para resolver os graves problemas que afligem o Brasil.  E aqui há que se valorizar sim a produção científica qualificada, e que esteja submetida a critérios de robustez, independente da disciplina em que estiver incluída. Do contrário, continuaremos a produzir lixo acadêmico e a sermos motivo de escárnio. E, o que é pior, afundados num ciclo social que mistura pobreza, segregação e violência. 

Entidades universitárias lançam carta ao Presidente da CAPES sobre proposta de terceirização de docentes

Carta aberta ao presidente da CAPES Jorge Almeida Guimarães

 – Pela Revogação da Lei das OSs(9.637/98)!

Assembleia de Pós-graduandos da UFRGS / APG – UFRGS

Esta carta está aberta a adesões. Convidamos todos os pós-graduandos, suas entidades, entidades sindicais e estudantis para assiná-la. Envie um e-mail para: apg@ufrgs.br

Ajude a divulgá-la! Pretendemos fazer a entrega dessa carta pessoalmente ao presidente da Capes.

Convocamos todos os segmentos universitários à plenária!

Carta aberta ao presidente da Capes Jorge Almeida Guimarães

Caro Professor Jorge Almeida Guimarães,

 No último dia 22 de setembro, a Agência Brasil publicou uma noticia intitulada “Capes defende contratação de professores por organizações sociais”. Nessa matéria, o senhordefende a criação de uma Organização Social (OS)para contratar professores e pesquisadores para as universidades públicas.

 Essa proposta é extremamente preocupante e perigosa. As OSs foram criadas pela lei nº 9.637/98 no governo FHC. No momento de sua criação, o governo FHC definiu as OSs como uma “forma de transferir para a sociedade civil o financiamento do serviço público”.

 Caro Professor Jorge Almeida Guimarães, o senhor sabe que o então Ministro da Reforma do Estado, Luis Carlos Bresser Pereira (PSDB) declarou que o objetivo da criação da lei das OSs era descartar “as normas do Regime Jurídico Único, o concurso público e a tabela salarial do setor público”?

 É um fato que a criação das OS esteve por objetivo explicito destruir os serviços públicos eliminando a contratação de funcionários públicos e implementando na prática a privatização desses serviços. As OSs são responsáveis, onde elas estão sendo implementadas, pela eliminação dos concursos públicos em prol da “contratação de pessoal nas condições de mercado”, como já afirmava Bresser Pereira em 1998.

 É óbvio que sua proposta de criação de uma OS para contratação de professores e pesquisadores para as universidades públicas representa, efetivamente, a destruição da carreira docente do ensino superior público. Ainda mais, ela insere um mecanismo que permite a privatização desse serviço público, da mesma forma que as OSs implementam esse processo junto ao SUS. 

 Nos hospitais públicos administrados por OSs, é comum o mau uso do dinheiro público que lhes é repassado e a degradação dos serviços prestados. Em São Paulo, por exemplo, as OSs vendem 25% dos leitos do SUS nos hospitais públicos para clientes de planos privados de saúde, como denunciam dezenas de sindicatos e movimentos sociais na campanha pela Revogação da Lei das OSs.  O senhor, Professor, afirma que a proposta da Capes de criar OSs se justifica pois os concursos públicos para professores do ensino superior seriam “um jogo de cartas marcadas”. Agora o senhor, Jorge Guimarães, que é professor de uma universidade pública (UFRGS) acredita realmenteque entregar o processo de contratação de professores nas mãos de uma OS, vá melhorar a situação?

A criação de uma OS para contratação de professores e pesquisadores para as universidades públicas representa, efetivamente, a destruição da carreira docente do ensino superior público.

 Claro que não! O que essa OS vai fazer é criar o cargo de professor terceirizado nas universidades federais! Um emprego com menos direitos trabalhistas, recebendo menores salários do que os professores concursados. Esse verdadeiro ataque à categoria dos docentes na universidade pública é uma ameaça de precarização do ensino e pesquisa nessas instituições.

 A proposta de criação dessa OS pela CAPES é um terrível retrocesso, com graves consequências para o ensino e a pesquisa nas instituições federais de educação superior que deve ser combatido de imediato por todos aqueles que defendem a educação pública de qualidade e o avanço da ciência e datecnologia no país.

 A realização de concursos públicos para contratação de professores é uma conquista relativamente recente para as universidades brasileiras. Essa conquista reforça o cunho democrático e republicano de nossas instituições públicas, colocando-se contra o clientelismo. Temos, todos nós, inclusive o senhor, Professor Jorge Guimarães, que denunciar as situações em que houver indícios de “cartas marcadas”, como fizeram os estudantes na Faculdade de Direito/UFRGS. Temos, todos nós, inclusive o senhor, Professor Jorge Guimarães, que defender o Regime Jurídico Único como possibilidade de melhorar as condições de trabalho e de vida dos docentes e dos pesquisadores.

 Por tudo isso, Professor Jorge Guimarães, exigimos uma resposta sua a essas questões, bem como a retirada imediata da proposta de criação de uma OS pela Capes, com o apoio do MCTI e MEC.

Assinam:

APG – UFRGS
ANDES/UFRGS
APG – UNESP Rio Claro
APG – UFRJ
APG – UFSCar
Assembleia Geral dos Pós-graduandos do campus São Carlos da USP
PPG em Serviço Social UFSC
ANDES/UFSC
Movimento por uma Universidade Popular – SC (MUP-SC)
Núcleo de Estudos e Pesquisas: Trabalho e questão social na América Latina (NEPTQSAL – UFSC)
Grupo de Estudos e Pesquisa em Ontologia Crítica – (GEPOC- UFSC)
Centro Acadêmico Livre de Serviço Social (CALISS-UFSC)
Sindsepe/RS
Coletivo UFSC à Esquerda
Movimento por uma Universidade Popular – SP (MUP-SP)
Direrorio Academico da Quimica (DAQ – UFRGS)

Revistas científicas ou túmulos do saber?

Por trás do suposto rigor das publicações “de excelência” pode estar o epistemicídio — a tendência da Academia a sepultar pensamentos dissidentes

por Alex Martins Moraes 

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[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

O que a entrega do prêmio Nobel de medicina 2013 e a divulgação dos resultados da avaliação trienal do sistema de pós-graduação no Brasil têm em comum? Além de ambos os eventos terem ocorrido na primeira quinzena de dezembro, eles também convergem, por razões distintas, em outro sentido: representam uma boa oportunidade para repensar e criticar as modalidades vigentes de produção do conhecimento em nosso país.

O biólogo molecular estadunidense Randy Wayne Schekman, que recebeu o prêmio Nobel junto com seus pares James Rothman e Thomas Südhof, aproveitou a visibilidade pública proporcionada pela premiação para instaurar uma forte polêmica com algumas das publicações científicas mais importantes no campo das ciências biológicas. Em coluna publicada no The Guardian um dia antes da cerimônia do Nobel (versão em espanhol publicada pelo El País), Randy Schekman acusou as revistas NatureScienceCell de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, difundindo práticas propriamente especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Entre estas práticas, Schekman menciona a redução artificial da quantidade de artigos aceitos para publicação, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção das colaborações e um total descompromisso com a qualificação do debate científico. Schekman conclui sua intervenção com o seguinte chamado à comunidade científica: “Da mesma forma que Wall Street precisa terminar com o domínio da cultura dos bônus, que fomenta certos riscos que são racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, a ciência deve se libertar da tirania das revistas de luxo. A consequência dessa escolha será uma pesquisa que sirva melhor aos interesses da ciência e da sociedade”.

Aparentemente refratária a esse tipo de crítica – que, aliás, vem se tornando cada vez mais comum em todas as áreas do conhecimento–, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) confere um peso decisivo às publicações em revistas de alto impacto no momento de avaliar o desempenho e a qualidade dos cursos de pós-graduação brasileiros. Para a antropologia, área da qual provenho, a avaliação da CAPES atribui um peso de 40% sobre a nota final à produção intelectual dos docentes de cada instituição. Na prática isto significa que, para atingir os conceitos máximos de avaliação (6 e 7), um determinado programa de pós-graduação deve esperar que todos os seus professores de mestrado e doutorado efetuem – para citar diretamente o roteiro de avaliação da CAPES – “a publicação de resultados de pesquisa, sob a forma de artigos em periódicos científicos, livros e capítulos de livros qualificados, com destacada proporção e média por docente nos estratos A1, A2 e B1 do Qualis Periódicos”. Levando em conta a quantidade de artigos publicados pelos docentes permanentes dos programas de pós-graduação em antropologia mais produtivos no triênio 2010-2012, o “ideal” seria, em média, cerca de duas publicações por ano por docente em revistas indexadas – isto sem mencionar as demais publicações, como livros, capítulos de livros, audiovisuais, relatórios técnicos, etc.

A avaliação da CAPES na área antropologia/arqueologia não leva em conta o fator de impacto das publicações, dado que a maioria das revistas de ciências humanas não dispõe dos meios para quantificá-lo. Neste caso, a classificação dos periódicos nos estratos A1 e A2 exige, entre outras coisas, que eles figurem em indexadores internacionais. Já o estrato B1 requer que figurem em pelo menos dois indexadores, sejam eles internacionais ou não. Outras áreas, como a medicina, adotam diretamente uma classificação elaborada com base na mediana do fator de impacto das revistas, obtidos junto ao Journal Citation Reports (JCR) e calculados anualmente pelo ISI Web of Knowledge. Isto implica o condicionamento da avaliação da produção científica às dinâmicas do mercado editorial internacional, com todas as consequências aventadas por Randy Schekman em seu artigo no The Guardian. Pior ainda, ao aplicar classificações desta ordem, a CAPES enfraquece o próprio parque editorial nacional e favorece uma forma questionável de internacionalizar a produção científica, colocando as revistas mantidas por universidades públicas e entidades de classe em detrimento de periódicos estrangeiros, financiados, em sua maioria, pela iniciativa privada e aferrados aos cânones da propriedade intelectual.

No caso das ciências sociais e humanas, o produtivismo amparado pelas avaliações da CAPES se materializa numa miríade de efeitos preocupantes, alguns deles inesperados. Não me refiro apenas à precarização do trabalho de professores e estudantes ou à perda de organicidade da produção intelectual decorrente da ênfase obsessiva na escrita de artigos e de apresentações para congressos. Talvez o aspecto mais assustador e menos criticado de uma avaliação da pós-graduação inspirada pela ideologia produtivista seja que ela ampara o epistemicídio. O epistemicídio – noção desenvolvida, entre outros, por Boaventura de Sousa Santos – consiste na eliminação ou inferiorização ativa de algumas formas de conhecimento em favor de outras, consideradas mais desejáveis no marco de uma dada estratégia de poder. Por exemplo, a anulação de certos saberes locais, sua folclorização ou deslegitimação pública foi e é uma modalidade de epistemicídio aplicada sobre diversas populações ao longo das experiências coloniais na América, Áfria e Ásia. O produtivismo está a serviço do epistemicídio porque bloqueia ou dificulta seriamente e emergência de outras formas de construção e enunciação do conhecimento em um momento de relativa democratização das universidades públicas brasileiras. Em poucas palavras, o produtivismo compromete a diversidade das formas de fazer ciência e a própria criatividade humana no exato momento em que se converte em critério valorativo hegemônico para a distribuição dos recursos necessários à produção de conhecimento. Ao erigir-se como critério chave de avaliação da relevância da produção intelectual, ele impõe sistemas de hierarquização que só fazem reiterar privilégios epistêmicos de longa data e comutá-los, logicamente, em privilégios político-institucionais. Só as modalidades mais conservadoras e pouco imaginativas de fazer ciência se adaptam, sem grandes problemas, aos atuais imperativos de quantificação. Já os estudos guiados pela co-investigação prolongada e participativa, os amplos panoramas exploratórios, as práticas colaborativas e situadas de escrita científica, etc. não conseguem sobreviver a esses imperativos.

As ciências sociais e humanas hegemônicas, legitimadas pelo produtivismo, marginalizam – ou produzem como inexistentes – outras práticas de produção intelectual; elas impõem seu universalismo abstrato ao pluralismo real dos discursos e das práxis intelectuais vigentes na universidade e fora dela. As instituições encarregadas de produzir conhecimento humanístico manejam orçamentos que, sem serem os mais robustos do sistema universitário brasileiro, não podem, ainda assim, considerar-se insignificantes. Trata-se de orçamentos conformados com dinheiro público acumulado através da cobrança de impostos majoritariamente regressivos a populações empobrecidas. Estes recursos têm sido aplicados, frequentemente, no estímulo de uma dinâmica universitária tendente a afastar estudantes e professores da problematização dos dilemas reais suscitados pela vida democrática em nosso país. Na prática, os chamados “problemas de investigação” acabam sendo inventados nos corredores da academia – ou importados dos debates prestigiosos e “de ponta” do norte global – para serem “resolvidos” no “lado de fora empírico”, com as “pessoas comuns” e depois convertidos em digressões que atendem apenas à agenda editorial vigente no mercado das publicações acadêmicas. Como se não bastasse, o dinheiro público destinado à formação de jovens pesquisadores no exterior é por vezes “investido” na perpetuação da subalternidade epistêmica das academias do sul global mediante editais que reiteram regimes de legitimidade científica diretamente coloniais.

Com a hegemonia da quantificação na elaboração dos sistemas de avaliação científica, cada vez menos a universidade poderá ser concebida como espaço de estímulo ao florescimento de “ciências sociais de outra forma”, baseadas no sentido de responsabilidade e colaboração em pesquisa, no cultivo de vínculos duradouros e qualificados com comunidades e sujeitos e na articulação entre problemáticas investigativas e dilemas socialmente compartilhados. Nossos prestigiosos programas de pós-graduação mais se assemelham organismos autistas, imersos em transe profundo, alheios a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico. O que parece dinamizar a produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do saber.

O que fazer num cenário em que a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pelas ciências sociais e humanas encontra-se submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade? Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que reagiu positivamente às criticas levantadas por Randy Schekman nas vésperas da entrega do Nobel, sugere a criação de sistemas alternativos de legitimação das práticas intelectuais. Para ele, todos os cientistas deveriam “atacar o uso das publicações para avaliar os pesquisadores, fazendo-o sempre que possível quando contratarem cientistas para o seu próprio laboratório ou departamento, quando revisarem as solicitações de financiamento ou julgarem os candidatos para uma vaga” (ver matéria no El País:). Mais próximos de nós, os estudantes de mestrado em Antropologia Social da UFRGS, que paralisaram suas atividades acadêmicas na primavera de 2011 para questionar o produtivismo e as genealogias institucionais estabelecidas também oferecem uma alternativa: “paremos para pensar”. Esta, que foi a consigna da sua greve, nos alenta com a perspectiva de que a desestabilização da engrenagem produtivista é possível através da conformação de uma ética e de uma prática intelectual alternativa. Ao comentar a greve dos estudantes de Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos concluiu o seguinte: “O vosso movimento (…) é parte dessa sociologia das emergências, porque é gente que está em busca de uma renovação epistemológica, política e o faz entre si, em pequenos grupos. Certamente os meios de comunicação não noticiaram, certamente não foi útil para o currículo deles ou para o programa de estudos deles, mas estão a emergir outras realidades” (entrevista completa na Tinta Crítica).

Talvez estas práticas “dissidentes” sejam um caminho para explorar novas lealdades e alianças políticas que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. O desafio, portanto, é erigir espaços profissionais dignos e reconhecidos mais além das aparelhagens institucionais produtivistas, de forma a superar as tentativas de epistemicídio e abrir passagem à proliferação de práticas intelectuais indisciplinadas, ecumênicas e participativas. Assumindo tal postura, corremos o risco de perdermos, num primeiro momento, o aval dos números, dos mercados editoriais e da tecnocracia, mas ganhamos um valioso terreno para construir objetividade e provar a validade dos nossos postulados: a práxis humana. Neste terreno pode vicejar uma ciência sucessora, amparada em novas redes de diálogo em política; uma ciência aberta a programas de investigação nos quais a verdade reside, parafraseando novamente a Boaventura de Sousa Santos, naquele conhecimento “que nos guia conscientemente e com êxito na passagem de um estado de realidade para outro estado de realidade”.

A tarefa parece hercúlea e certamente nem todos os pesquisadores estarão interessados em aceitá-la. Uma coisa, no entanto, é certa: ao desenvolver investigações, emitir laudos de demarcação de terras indígenas, frequentar eventos acadêmicos, escrever textos, produzir imagens, enunciar discursos políticos, etc. os cientistas sociais incorporam e colocam em ato suas disciplinas. E é por esta mesma via que também estão em condições de colocá-las em questão, disputando seus efeitos e funções. Nós podemos, portanto, atuar no registro da reprodução, abastecendo o aparelho disciplinar herdado, ou podemos bloquear a atualização de certas dinâmicas produtivas, exercendo uma reflexão crítica e pragmática a respeito das ferramentas político-institucionais disponíveis à ação transformadora.

FONTE: http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/revistas-cientificas-ou-tumulos-do-saber-1588.html/view

Prêmio Nobel de Medicina de 2013 faz ataque contundente à cultura do “Salami science”

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Nas últimas duas décadas as universidades brasileiras foram tomadas de assalto pela cultura do “Fator de Impacto” que alimenta a chamada “Salami science”.

Abaixo vai um contundente artigo assinado, e que foi publicado no jornal inglês “The Guardian, pelo Prêmio Nobel de Medicina de 2013, o biólogo Randy Schekman, sobre o controle exercido sobre a qualidade da ciência pelo monopólio exercido por grandes revistas científicas sobre o que é publicado enquanto ciência de qualidade.

Essa cultura do “Salami Science” que é tão duramente criticado pelo Dr. Randy Schekman é atualmente idolotrada no Brasil por agências de fomento lideradas pelo CNPq, e se tornou dogma na avaliação que é feita pela CAPES dos cursos de pós-graduação existentes no Brasil. Como ainda engatinhamos no quesito da formação científica, ler essas críticas é essencial. Do contrário, continuaremos atrelados a um sistema que não produz boa ciência e, pior, oferece incentivo aos que aprenderam a obter os “bônus” sem necessariamente produzir nada que mereça ser chamado de ciência.

Como revistas como Nature, Cell e Ciência são prejudiciais à ciência.

Os incentivos oferecidos pelas principais revistas distorcem a Ciência, assim como grandes bônus distorcem o sistema financeiro.

 Randy Schekman

Litter in the street

A revista Science recentemente removeu um artigo relacionando o ato de jogar lixo na rua e violência. Foto: Alamy / Janine Wiedel

Eu sou um cientista. O meu é um mundo profissional que  alcança grandes coisas para a humanidade. Mas está sendo desfigurado por incentivos inadequados. As estruturas predominantes da reputação pessoal e progressão na carreira significam as maiores recompensas muitas vezes acompanham o trabalho que seja o mais brilhoso, não necessariamente o melhor. Aqueles de nós que seguem estes incentivos estão sendo inteiramente racionais – Eu pessoalmente os seguia  – mas nem sempre melhor servirmos os interesses da nossa profissão, e muito menos aqueles da humanidade e da sociedade.

Todos sabemos o que os incentivos que distorcem fizeram para o sistema financeiro e os bancos. Os incentivos meus colegas enfrentam não são bônus enormes, mas as recompensas profissionais que acompanham a publicação em revistas de prestígio – principalmente Nature, Cell e Science.

Essas revistas de luxo são supostamente o cume da qualidade, publicando apenas as melhores pesquisas. Porque financiamento e nomeação de painéis usam frequentemente o local da publicação como um proxy para a qualidade da ciência, aparecendo nestes títulos muitas vezes leva a financiamentos e cátedras. Mas a reputação das grandes revistas científicas é apenas parcialmente justificada. Enquanto elas publicam a maioria dos melhores dos artigos em circulação, elas não publicam apenas trabalhos de qualidade excelente. Nem são eles os únicos que publicam pesquisa de alta qualidade.

Essas revistas vendem de forma agressiva as suas marcas, da forma mais propícia para a venda de assinaturas do que para estimular as pesquisas mais importantes. Como os estilistas que criam bolsas ou roupas de edição limitada, os editores dessas revistas sabem que a escassez alimenta a demanda, de modo que artificialmente restringem o número de artigos que aceitam publicar. As marcas exclusivas em seguida, são comercializadas com um truque chamado “fator de impacto” – uma pontuação para cada revista, que mede o número de vezes que seus trabalhos são citados por pesquisas posteriores. Artigos de melhor qualidade, diz a teoria, são citados com mais frequência, por isso melhores revistas se vangloriaram de sua maior pontuação. Ainda assim, é uma medida profundamente falha, perseguindo o que se tornou um fim em si mesmo – e é tão prejudicial para a ciência como a cultura do bônus é para o sistema financeiro.

É comum, e incentivado por muitas revistas científicas, que a pesquisa seja julgada pelo fator de impacto do periódico que a publica. Mas, a pontuação de uma revista científica é uma média, que diz pouco sobre a qualidade de qualquer peça individual de pesquisa. Além disso, a citação é, por vezes, mas nem sempre, ligada à qualidade. Um artigo pode se tornar altamente citado porque  a ciência é boa – ou porque é atraente, provocante ou errada. Editores de revistas de luxo sabem disso e, por isso aceitam artigos que vão fazer ondas porque exploram temas sensuais ou fazem postulações desafiadoras. Isso influencia a ciência que os cientistas fazem. Baseiam-se bolhas nos campos da moda, onde os pesquisadores podem fazer as afirmações ousadas que essas revistas querem, mas ao mesmo tempo desencorajam outros trabalhos importantes, como estudos de replicação.

Em casos extremos, a atração da revista de luxo pode incentivar “jeitinhos”, e também contribuir para o número crescente de artigos que  depois são retirados de circulação porque são falhos ou fraudulentos.  Só a revista Science só retirou de circulação recentemente artigos de alto impacto que relatam a clonagem de embriões humanos, as ligações entre lixo e violência, e os perfis genéticos de pessoas centenárias. Talvez ainda pior,  a Science não retirou de circulação um artigo  alegações de que um micróbio é capaz de usar arsênio em seu DNA em vez de fósforo, apesar das esmagadoras críticas científicas.

Há uma maneira melhor, através da nova geração de revistas de acesso aberto que são livres para qualquer um ler, e não têm assinaturas caras para promover. Nascidas na web, elas podem aceitar todos os artigos que cumprem as normas de qualidade, sem limites artificiais. Muitas são editadas por cientistas que estão atividade, e que podem avaliar o valor dos artigos sem levar em conta as citações. Como eu sei a partir da minha editoria de eLife, uma revista de acesso aberto financiada pelo Wellcome Trust, do Instituto Médico Howard Hughes e da Sociedade Max Planck, eles estão publicando ciência de classe mundial a cada semana.

Os financiadores e universidades também têm um papel a desempenhar. Eles devem dizer às comissões que decidem sobre financiamentos e enquadramentos para não julgar artigos científicos por onde eles são publicados. É a qualidade da ciência, e não a marca da revista, o que importa. O mais importante de tudo, é que, nós, os cientistas precisamos agir. Como muitos pesquisadores de sucesso, eu publiquei nas grandes marcas, incluindo os artigos que me levaram a ganhar o prêmio Nobel de medicina, que eu terei a honra de receber amanhã.  Mas não mais. Eu já decidi que o meu laboratório irá evitar as revistas de luxo, e eu incentivo aos outros a fazerem o mesmo.

Assim como Wall Street precisa quebrar a influência da cultura de bônus, o que leva a tomada de riscos que é racional para os indivíduos, mas prejudicial para o sistema financeiro, do mesmo modo  a ciência deve quebrar a tirania das revistas de luxo. O resultado será uma pesquisa de melhor qualidade que melhor servirá à Ciência e à Sociedade.

FONTE: http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/09/how-journals-nature-science-cell-damage-science