De Marighella a Lacerda: Mário Magalhães e a coragem de enfrentar grandes personagens da história brasileira

Conheço o jornalista e escritor Mário Magalhães desde a década de 1980 e, desde nossos primeiros encontros, pude notar sua capacidade analítica e sua velocidade de raciocínio. Ao longo dos anos, primeiro como jornalista e depois também como escritor, Mário mostrou que o tempo o ajudou a desenvolver a devida paciência diante das tarefas que tinha à mão, fosse no ambiente ruidoso de um campo de futebol ou no silêncio de um quarto de seu apartamento.

Da pena de Mário Magalhães já saíram grandes reportagens, capítulos de livros e obras magistrais, como Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, lançado originalmente em 2012 e que, desde então, teve diversas reedições.

Agora, acabo de receber diretamente de Mário Magalhães o convite para o lançamento do primeiro volume de sua mais nova obra, Lacerda: Coração de tempestade (1914-1955), que ocorrerá no dia 26 de agosto, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro (ver abaixo).

Essa obra, aparentemente ainda mais volumosa do que a biografia de Carlos Marighella, revela outra faceta de Mário Magalhães: sua disposição destemida para abraçar grandes desafios intelectuais. E, convenhamos, depois de enfrentar a tarefa extremamente laboriosa de reconstruir a vida e a trajetória de Carlos Marighella, escolher como personagem seguinte ninguém menos que Carlos Lacerda demonstra uma disposição para o trabalho de pesquisa e para o enfrentamento das controvérsias da história brasileira que poucos teriam coragem de assumir.

Há ainda algo particularmente interessante nessa passagem de Marighella a Lacerda. Trata-se de personagens situados em campos políticos radicalmente distintos e que atravessaram, cada um à sua maneira, alguns dos momentos mais conflituosos da história política brasileira no século XX. Biografar ambos exige não apenas uma enorme capacidade de pesquisa, mas também disposição para enfrentar documentos, versões conflitantes, paixões políticas e mitologias construídas ao redor de seus personagens. É justamente aí que o trabalho de Mário Magalhães ganha uma dimensão especial.

Por isso, recomendo aos leitores que estiverem na cidade do Rio de Janeiro no dia 26 de agosto que não percam a oportunidade de ir até a Livraria da Travessa, em Ipanema, para conhecer Lacerda: Coração de tempestade, comprar o livro e, de quebra, trocar um dedo de prosa com Mário Magalhães.

Afinal, Mário reúne duas características fundamentais para um grande biógrafo: a capacidade de observar e narrar personagens e acontecimentos com fina ironia e a permanente disposição para uma boa conversa. E, considerando os personagens que resolveu enfrentar em suas biografias, assunto certamente não faltará.

No ritmo de Carlos Marighella: Bolsonaro rebate Mourão que rebate Bolsonaro

mourão

Já narrei aqui a história imortalizada na página 424 do livro de Mário Magalhães sobre a vida de Carlos Marighella (Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo). Esta passagem narra um encontro frustrado entre Carlos Marighella e Carlos Lamarca onde o líder da Aliança Libertadora Nacional não conseguiu que sua organização e a Vanguarda Popular Revolucionária lançassem um documento comum, apesar da concordância do seu interlocutor.  O que impediu a assinatura do documento que indicaria uma unidade política entre a ALN e a VPR foi a oposição de Onofre Pinto, outra liderança da organização liderada por Lamarca. O fracasso da negociação teria então irritado Marighella, já que Onofre Pinto era sargento, enquanto Carlos Lamarca era capitão. Em função disso, Marighella teria dito que “nunca vi capitão obedecer a sargento“ [1].

Relembro dessa história por causa de mais um imbróglio envolvendo a dupla Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão que lideram a corrida presidencial.  A coisa começou no dia de ontem (08/10) quando em entrevista na TV Globo, Jair Bolsonaro foi perguntado sobre uma declaração de seu vice, Hamilton Mourão, que citou a possibilidade de um inusitado autogolpe. Naquele mesmo dia, o general Mourão declarou a sua posição de que seja escrita um nova constituição por um grupo de notáveis, já que ele teria muitas críticas à chamada Constituição Cidadã de 1988. Em sua resposta na TV Globo, Bolsonaro desautorizou mais uma vez as declarações de Mourão, lembrando que apesar dele ser capitão e o vice um general, o presidente seria ele.

Hoje, questionado acerca de mais essa desautorização pública por parte de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão afirmou que “Falei  para ele proceder com sua visão. Tenho minhas críticas. Agora, o presidente, como ele disse, é ele. Só não sou um vice anencéfalo. Tenho minhas opiniões” [2]. 

Diante de mais troca de “gentilezas” entre capitão e general, ou melhor presidente e vice, não tenho como deixar de lembrar de Marighella quando ele disse no episódio supracitado que ““nunca vi capitão obedecer a sargento“. No caso em tela, difícil mesmo é ver general obedecendo capitão. E segue a barca brasileira rumo à queda d´água!


[1] https://blogdopedlowski.com/tag/carlos-lamarca/

[2] https://br.noticias.yahoo.com/mourao-rebate-bolsonaro-tenho-minhas-opinioes-190704363.html

 

Que diria Carlos Marighella da chapa presidencial do capitão e do general?

Sou um feliz portador de uma cópia do livro “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo” do jornalista Mário Magalhães.  Como tive a oportunidade de organizar lançamento da obra na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), lembrei hoje de uma das muitas histórias curiosas que constam da obra de Mário Magalhães, e que ele compartilhou com a plateia que esteve presente no evento realizado na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem.

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Essa história, aliás, estava imortalizada na página 424 do livro, e narra um encontro frustrado entre Carlos Marighella e Carlos Lamarca onde o líder da Aliança Libertadora Nacional não conseguiu que sua organização e a Vanguarda Popular Revolucionária lançassem um documento comum, apesar da concordância do seu interlocutor.  O que impediu a assinatura do documento que indicaria uma unidade política entre a ALN e a VPR foi a oposição de Onofre Pinto, outra liderança da organização comandada por Lamarca.

marighella

O fracasso da negociação teria então irritado Marighella, já que Onofre Pinto era sargento, enquanto Carlos Lamarca era capitão. Em função disso, Marighella teria dito que “nunca vi capitão obedecer a sargento“.

Pois bem, passados 39 anos daquele momento crucial na luta armada contra o regime militar, temos uma chapa presidencial que tem um capitão concorrendo a presidente, enquanto a vice-presidência é pleiteada por um general.

bolsonaro

Não tendo como não notar a semelhança na inversão hierárquica, eu me pergunto sobre o teria Carlos Marighella a dizer sobre a chapa Bolsonaro/Mourão.  Certamente teria muito mais a dizer do que simplesmente notar a evidente inversão hierárquica.

Ato em homenagem à memória de Carlos Marighella

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Amanhã, em São Paulo: nesta quarta-feira, 4 de novembro, o assassinato de Carlos Marighella completa 46 anos. Velhos e novos companheiros do guerrilheiro que incendiou o mundo prestarão uma homenagem à sua memória. A partir das 10h, no mesmo local onde ele foi morto por agentes da ditadura (alameda Casa Branca, altura do número 800).

FONTE: https://www.facebook.com/282900591824287/photos/a.282913841822962.66111.282900591824287/884347898346217/?type=3&theater