Uenf sofre com chuvas torrenciais, apesar de obras milionárias

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Chuvas estão levando caos ao interior do campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Apesar de um pacote de obras milionárias em curso há pelo menos dois anos, as chuvas torrenciais que caem na cidade de Campos dos Goytacazes estão deixando muitos grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com o coração na boca. É que cenas sendo circuladas em grupos de Whatsapp estão mostrando situações muito problemáticas que colocam equipamentos científicos sob risco de perda total (ver imagem abaixo).

Como não se faz pesquisa sem equipamentos ou com laboratórios inundados, a pergunta que muitos professores da Uenf estão se fazendo neste sábado é de porque obras relativamente simples como a troca de telhados se arrastam por tanto tempo, em que pese as placas de obras que mostram gastos milionários. É simplesmente um descompasso que precisa ser explicado. Nesse caso, a palavra está com a reitoria da Uenf.

Ah, sim, talvez essa situação no campus Leonel Brizola explique aos vereadores e ao prefeito Wladimir Garotinho o porquê de tanta demora em se iniciar as obras no prédio do Solar do Colégio.  É a velha história, se até em casa o espeto é de pau, imaginem como pode ser no churrasco na casa dos outros.

Aprendendo com um desastre climático: as inundações catastróficas no sul do Brasil

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Porto Alegre, 03/05/2024, Rio Guaíba, usina do gasômetro, em Porto Alegre após chuva intensa. Foto: Gilvan Rocha/Agência Brasil

Por Valério D. Pillar  e Gerhard E. Overbeck para a “Science”

As inundações catastróficas que afetaram o sul do Brasil em maio passado devem servir como um aviso às sociedades humanas de que, apesar do ceticismo ou negação ainda generalizado sobre as mudanças climáticas , a mitigação e a adaptação para lidar com a crise climática em curso são urgentemente necessárias. O número de mortos ou desaparecidos foi de 213 pessoas; 2,4 milhões de pessoas afetadas , incluindo 600.000 deslocadas; e perdas sem precedentes em infraestrutura urbana e rural, incluindo gado . Essas perdas poderiam ter sido menores se medidas de adaptação tivessem sido implementadas, como tem sidrepetidamente recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Tendo testemunhado a catástrofe em primeira mão, aqui destacamos medidas de adaptação baseadas na natureza que poderiam efetivamente fornecer resistência e resiliência contra eventos climáticos extremos.

Chuvas extremamente pesadas resultaram em precipitação acumulada de 652 mm (até 900 mm em algumas áreas) ao longo de 35 dias, com 444 mm caindo apenas nos 8 dias anteriores ao pico da enchente, quantidades normalmente esperadas ao longo de cerca de meio ano, nas bacias hidrográficas de 8,4 milhões de hectares que formam o delta do Rio Jacuí e o Lago Guaíba, onde fica a área metropolitana de Porto Alegre. Essa precipitação extrema, ligada a frentes frias bloqueadas no sul do Brasil, seguiu um clima anormalmente úmido nos 6 meses anteriores devido a um forte evento de Oscilação Sul do El Niño. Como consequência, a forte erosão do solo afetou as regiões de agricultura intensiva estabelecidas nos solos vermelhos e profundos que caracterizam as nascentes do norte das bacias hidrográficas. Imagens de satélite do início de maio mostraram uma forte cor laranja nas águas da enchente antes de descerem para os vales da Serra Geral, onde sedimentos adicionais atingiram os rios devido a vários deslizamentos de terra nas encostas íngremes e solos varridos de terras agrícolas ao longo dos vales mais baixos.

No pico da enchente, as áreas baixas da região metropolitana de Porto Alegre foram inundadas. A cidade de Porto Alegre em si era supostamente protegida por um sistema de proteção contra enchentes que consistia em diques, muros, comportas e bombas construídos na década de 1970, o que dava à população da cidade uma sensação de segurança. Esse sistema falhou principalmente devido à negligência da manutenção de rotina das comportas e bombas pela administração da cidade. Como consequência, as partes mais baixas da cidade, uma capital estadual com uma população de 1,3 milhão, foram inundadas pelo sistema de drenagem. Isso causou uma reação em cadeia que levou ao colapso do fornecimento de eletricidade em partes da cidade e estações de abastecimento de água potável na maior parte da cidade, incluindo áreas não inundadas. Um dos maiores hospitais da cidade teve que ser evacuado, o terminal de ônibus regional foi inundado e todas as rotas de acesso terrestre à cidade, exceto uma, foram interrompidas. Essa situação durou cerca de 3 semanas. O principal aeroporto que atende Porto Alegre e o estado ficou alagado por um mês e deve retornar à funcionalidade total somente perto do fim do ano. Recuperar essas perdas custará muito mais do que se medidas de adaptação tivessem sido implementadas.

Modelos climáticos previram um aumento na frequência e intensidade de eventos extremos de chuva para esta região, causando inundações e secas. Medidas de adaptação para lidar com esses eventos extremos são urgentes. Aqui, focamos na adaptação baseada na natureza envolvendo restrições de uso da terra em todas as bacias hidrográficas. Destacamos que a adaptação é necessária em todas as escalas espaciais e deve incluir toda a bacia hidrográfica, não apenas ao longo dos rios. Soluções baseadas na natureza , como proteger a vegetação nativa remanescente de florestas e não florestas e adotar práticas agrícolas que conservem o solo e a biodiversidade em áreas cultivadas, podem reduzir o impacto de eventos extremos, apesar das dificuldades na avaliação de sua eficácia. Menos erosão do solo reduz a quantidade de sedimentos suspensos nas águas das enchentes. Além disso, reter água a montante por um período mais longo pode evitar que estruturas de proteção a jusante, como os diques que deveriam proteger Porto Alegre, sejam sobrecarregadas quando a precipitação estiver mais alta do que nunca. Restaurar a vegetação nativa é um processo lento, mas é crucial para proteger o solo e as margens dos rios. Felizmente, grande parte das encostas íngremes da Serra Geral, que eram áreas agrícolas até cerca de quatro décadas atrás, agora têm florestas em regeneração (Mata Atlântica). No entanto, também é essencial restaurar a vegetação campestre que originalmente cobria os solos vermelhos do alto Rio Jacuí e do alto Rio Taquari. Notavelmente, a manutenção ou restauração de ecossistemas de várzea também reduz a vulnerabilidade dos humanos, já que decisões inadequadas de uso da terra no passado contribuíram muito para a gravidade desta catástrofe.

Conforme demonstrado pela iniciativa de mapeamento de uso e cobertura do solo MapBiomas , entre 1985 e 2022, 1,36 milhões de ha de vegetação nativa, incluindo 1,1 milhões de ha de pastagens nativas, foram perdidos para a agricultura e outros tipos mais intensivos de uso da terra nas nove bacias hidrográficas que formam o Lago Guaíba. A vegetação nativa florestal e não florestal (pastagens e áreas úmidas) protege o solo da erosão contribui para a atenuação de enchentes ao retardar o escoamento superficial da água da chuva. A Lei de Proteção à Vegetação Nativa (12.651/2012), a principal lei brasileira de conservação da natureza, obriga proprietários privados a destinar 20% de suas propriedades para manutenção da vegetação nativa na chamada Reserva Legal. Além disso, as Áreas de Proteção Permanente, também com vegetação nativa, são obrigatórias nas margens dos rios, em encostas íngremes e no topo de morros e montanhas. No entanto, ambos os instrumentos sofrem com problemas de implementação, o que reduz a proteção e leva a maior vulnerabilidade e impactos. Se essas áreas tivessem sido protegidas ou restauradas, elas teriam retido as águas a montante e a transbordamento nas planícies de inundação por um período mais longo, reduzindo os impactos catastróficos a jusante.

No entanto, sucessivos governos do estado do Rio Grande do Sul vêm promovendo o enfraquecimento da legislação que protege a vegetação nativa. Um decreto estadual de 2015 permitiu que proprietários de terras considerassem remanescentes de campos nativos sob pastagem como se fossem equivalentes a terras convertidas usadas para cultivos ou pastagens, enfraquecendo assim sua proteção sob a legislação federal. Esta disposição do decreto estadual é ilegal e foi bloqueada em 2016 por uma Ação Civil Pública. No entanto, em uma versão modificada, foi incorporada ao Código Ambiental Estadual (Lei 11.520/2020) contra a qual outra Ação Civil Pública ainda está pendente de decisão. No nível federal, tentativas de reduzir a proteção da vegetação nativa também estão em andamento, como o Projeto de Lei 364/2019 , atualmente em análise no Congresso Nacional, que remove a proteção de campos nativos sob pastagem em todo o país. Este projeto de lei foi proposto e apoiado por congressistas do Rio Grande do Sul, aparentemente cegos às potenciais consequências da proteção reduzida.

Claramente, os tomadores de decisão da região não consideram a urgência de lidar com as mudanças climáticas, sua mitigação e adaptação ao seu impacto. Se as mudanças climáticas não se tornarem uma prioridade nas políticas públicas, então a população da região que foi tão duramente atingida agora sofrerá eventos mais frequentes e potencialmente ainda mais catastróficos no futuro. No primeiro semestre de 2024 , chuvas fortes e inundações também afetaram o Quênia e os Emirados Árabes Unidos. O sul e o sudeste da Ásia viram uma onda de calor recorde, e a América do Norte está atualmente afetada por incêndios florestais graves. Esses são apenas exemplos de eventos extremos relacionados ao clima em 2024. O resultado são múltiplas ameaças às populações humanas, economias e produção de alimentos, que podem ter efeitos de longo alcance em todos os aspectos da segurança humana. Eventos como os do sul do Brasil nos alertam claramente: os esforços para conter as mudanças climáticas precisam ser globais e rápidos, e medidas de adaptação devem ser adotadas em todo o mundo.


Fonte: Science

O Homem, esse bicho da terra tão pequeno

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Francisco Mateus Conceição*

O antigo Continente de São Pedro, depois chamado de Rio Grande do Sul, é um espaço geográfico com enorme quantidade de águas, através de sangas, rios e lagoas. E também lençóis freáticos. Chegou a ser chamado, por navegadores, velejadores ou viajantes, como nos lembra Tau Golin, de Rio Grande das Alagoas. Região de repetidas inundações e enchentes. Em importante texto da literatura sul-riograndense, versão local da Lenda da Boitatá, narrada por Simões Lopes Neto, há uma inundação sem precedentes, assim descrita:

… foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num: os passos cresceram e todos aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. (aqui)

Os registros históricos também informam sobre enchentes de grandes proporções. Parece, porém, que os mandatários locais dos últimos tempos haviam esquecido ou nunca souberam disso. O último evento, de dimensões comparáveis ao deste ano, havia sido em 1941. Querer lembrança disso a líderes tão sedentos de se afeiçoarem ao futuro e à modernidade, seria exigir demais. Muitas vozes tentaram lembrá-los, mas de nada adiantou. Eles se sentiam ungidos pelo moderno empresarial. Por fim, a própria natureza também tentou, mas sua voz foi logo despistada. A falta de memória era completa, digna das páginas de um Gabriel García Márquez (Cem Anos de Solidão), ou, para ficar entre nós, de um Erico Verissimo (Incidente em Antares). De tanta desmemória deliberada, acabaram, como diria Eduardo Bueno, por não conhecerem o solo onde pisam.

Em setembro de 2023, chuvas torrenciais provocaram inundações, destruições e dezenas de mortes no interior do estado, especialmente no Vale do Taquari.  No dia 18 desse mesmo mês, o Governador do Estado anunciava lançamento de Edital para conceder o Cais Mauá, em Porto Alegre, à iniciativa privada. Em vídeo, atua entusiasticamente como garoto propaganda do projeto, que, conforme diz, conectaria o Rio Grande com o futuro. O muro da Mauá, essencial para a contenção das águas do Guaíba, seria modificado e transferido de lugar. Ao enumerar as supostas maravilhas desse futuro, antecipado em imagens digitais, o Governador destaca: “sem aquele muro que dividia o antigo porto da cidade” (aqui). O tom é de indisfarçável mal-estar e menosprezo com o tal muro. Logo após o anúncio, porém, como desdobramento das inundações que vinham ocorrendo, o Guaíba elevou-se e passou da cota de três metros. No dia 27 de setembro, o muro da Mauá mostrou que não era um trambolho entre a cidade e o rio, e ajudou a impedir que as águas invadissem a capital. Isso apesar de o sistema de contenção, com 68 km de diques, comportas e bombas de recalques, ter acusado falhas nesse ano, devido à falta de manutenção. O Governador sentiu o baque e gravou novo vídeo, no dia 29 de setembro, explicando que o muro não seria extinto. Deveria ser substituído por outro modelo e transferido de lugar. Feita a explicação, considerou tudo resolvido e o Edital de Concessão foi a leilão em fevereiro/2024, após mais uma inundação em novembro/2023.

E não parou por aí. Ele já havia, em 2020,  conforme informações da imprensa, suprimido ou modificado 480 artigos do Código Estadual do Meio Ambiente, flexibilizando e abrandando-o. Além disso, em 2021, extinguira a Lei dos agrotóxicos do Estado, que proibia o uso de produtos vetados em seus países de origem. Mas, qual um Fausto dos pagos, em seu pacto pela modernidade, entendeu que precisava fazer mais do mesmo. Em que pese as inundações de 2023, a bancada governista na Assembleia Legislativa aprovou, em março de 2024, Projeto de Lei para permitir construção de barragens em Áreas de Preservação Permanente (APPs), projeto este sancionado pelo Executivo em 09/04/2024. Possivelmente ainda estivessem comemorando a vitória, portanto, quando as leis da natureza, as mesmas de sempre, se manifestaram, de maneira mais inclemente e avassaladora. O mundo desabou num tempo feio a partir do final de abril, e os efeitos imediatos da calamidade se estendem até hoje,  sem que tenhamos perspectiva clara, de tempo e modelo, para a reconstrução de tudo. O Rio Grande do Sul que, conforme as palavras do Governador, olhava para o futuro, acabou se deparando com ele em sua face distópica.

Frente a essa calamidade, necessitávamos de iniciativas e ações rápidas e no rumo certo. Remontando aos saberes e à cultura local, há um provérbio segundo o qual “é no estouro da tropa que se vê se o índio é bueno”. Ou seja, diante de um caos generalizado, a pessoa é, inexoravelmente, testada quanto à capacidade e ao valor que dela se espera. Em um clássico de nossa literatura, Antônio Chimango, escrito por Ramiro Barcelos, sob o pseudônimo de Amaro Juvenal (por sinal uma sátira política), há uma longa descrição de alguns dons diante de uma cena dessas. Selecionamos a passagem a seguir:

Nisto é que está o busílis

Que não depende de ensino:   

Saber tomar um destino

E  não se apertar no apuro

Poder guiar-se no escuro

E nunca perder o tino. (aqui)

Depois que passar o estouro, cada um buscará contar sua história. Por isso, esse momento crucial é revelador, do antes e do depois, e é importante observá-lo. Vejamos, no que diz respeito a Porto Alegre, como agiram o Prefeito e o Governador do Estado quando a calamidade explodiu sobre o estado.

O estrago no interior foi como ativar uma bomba-relógio para Porto Alegre. Nos últimos dias de abril, a destruição provocada pelas águas já atingia dimensões catastróficas, derrubando pontes e rodovias, gerando vítimas fatais e grande número de desabrigados. Tudo amplamente divulgado pela imprensa. Tanto que, no dia 30 de abril, quebrando todos os protocolos, o Governador do Estado cobrava, pela Plataforma X (Twitter), ajuda imediata do Governo Federal, em razão das “chuvas intensas já ocorridas e que vão continuar nos próximos dias” (aqui). Grande parte desse problema se localizava na bacia do Guaíba e era questão de tempo para que esse volume excessivo de águas chegasse à capital do Estado. Porém, o Prefeito de Porto Alegre somente ordenou que os portões dos diques de proteção fossem fechados na quinta-feira, dia 02 de maio, após o alerta emitido, no final do dia anterior, pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (aqui). Enquanto as águas desciam e se aproximavam, era para ele estar preocupado, procurando e implementando, juntamente com sua equipe, soluções emergenciais. O sistema de contenção  continuava deteriorado e por isso as águas invadiram a Capital. O prefeito anterior, Nelson Marchezan Júnior, deixara de investir verba captada para essa finalidade específica e, ainda, extinguira o DEP (Departamento de Esgoto Pluvial), órgão responsável por cuidar do referido sistema. Ainda assim, muita coisa podia e devia ser feita pela atual gestão, que era sabedora desses problemas. Especialmente, após as inundações de 2023, em cuja sequência os técnicos apontaram onde havia problemas e como corrigi-los, sem que nada fosse feito e, consequentemente, tais problemas se repetissem. Além disso, por que não se preparar com maior antecedência neste momento? Se era para colocar os sacos de areia na frente dos portões, como se viu, que pelo menos colocassem os três metros de altura (a altura do muro). Ou usassem os bags, que parece terem descoberto somente depois – e até serviram para substituir um portão, desastradamente retirado. Nesse curto espaço de tempo, restava o improviso, a gambiarra, mas mesmo nisso agiu-se no último instante e mal. Não se tomaram as rédeas e o comando da situação. Em tudo a mesma constância: o que não se fez anteriormente também não se fez em 2024.

E quanto ao Governador? Ele foi rápido para cobrar, pelas redes sociais, ação do Governo Federal, mostrando um desejo de protagonismo. Explicou, posteriormente, que não poderia perder tempo frente à catástrofe. Pois bem, por este viés, era recomendável, também, ter quebrado protocolo e perguntado, pela mesma plataforma, ao Prefeito de Porto Alegre, se estavam perfeitamente resolvidos os problemas, evidenciados em 2023, no sistema de contenção. Neste caso, estaria agindo de maneira providencial, frente a um perigo imediato. Mas, convenhamos, ficaria estranho usar as redes sociais, se ambos estão na mesma cidade. Poderia, então, ter telefonado, mandado um bizu pelas rádios ou TVs locais, onde tem acesso amplo. Ou, então, poderia mesmo visitar a Prefeitura. Dialogar com o Prefeito, colocar-se à disposição… O Piratini fica a poucos metros da Prefeitura, e ambos distam pouquíssimos quadras do Cais Mauá, por onde as águas do Guaíba também estouraram.  Além disso, parece lógico que, sendo o Governo do Estado responsável pelo Edital de Concessão do Cais Mauá, pondo e dispondo livremente sobre o futuro do muro de contenção, também deveria assumir responsabilidade quanto à manutenção e segurança do que hoje existe, principalmente diante de uma tragédia anunciada. Ou será que o Governador não teria compreendido que as inundações, sem trégua, se dirigiam ameaçadoramente para Porto Alegre?

O problema ambiental possui tentáculos maiores, no espaço e no tempo, que nossos atuais gestores do Estado e da Capital. Mas eles atuam como líderes de uma ideologia liberal radicalizada, que sucateia e privatiza o bem público, intensifica os problemas sociais e devasta a natureza. Colaboraram para o surgimento da catástrofe. A dor ensina a gemer, mas não a pensar e a fazer autocrítica. A tragédia de 2023 nada ensinou a nossos gestores. E aí cabe a pergunta: o que serão capazes de fazer neste processo de reconstrução? O Prefeito já se moveu rapidamente para contratar a Alvarez & Marsal, multinacional de currículo duvidoso. O Governador, por sua vez, chegou a demonstrar preocupação com o grande número de doações, que, segundo ele, poderia agravar as  dificuldades da economia local. Sempre a mesma linha de pensamento, que vê no desempenho empresarial a única saída. Com essa concepção ideológica, a reconstrução tornará o serviço público ainda mais refém da iniciativa privada, que gosta de repetir o mantra segundo o qual não se deve falar em crise, mas em oportunidade.

A natureza cobrou seu preço e, frente a tanta água, o gaúcho se viu, como diria Drummond, retomando Camões, “homem, bicho da terra tão pequeno”. As águas camonianas são outras, mas alguns versos parecem ter nascido hoje.

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno? (aqui)

É momento de solidariedade e de trabalho de reconstrução, mas também de repensar concepções que trouxeram nosso Estado a este estado. Hora de reforçar nossa identidade cultural, mas também de repensá-la. Certas coisas não podem mais ter lugar. No mundo da cultura, a música é uma das primeiras e mais fortes expressões de uma população. Neste sentido, já vivemos, em nossos festivais nativistas, momentos bem melhores, quando brotaram músicas comprometidas socialmente, como “Canto do Renegado” , “Retirante” ou “Sabe Moço”. E também belíssimas músicas de temática ambiental, como “Rumos Perdidos”, “Súplica do Rio” “Queimada” ou “Cria Enjeitada”. Porém,  como tudo está interconectado, o retrocesso que verificamos no mundo político e econômico também se expressa e é produzido na cultura (que não é mero elemento decorativo). É culturalmente trágico, por isso, que uma música campeã de festival nativista reclame cegamente da “tal reserva legal”. A música se chama, paradoxalmente, “Embretados”, mas o brete em que nos encontramos resulta também desse negacionismo desenfreado.  Do estouro da boiada, hoje restam registros culturais, mas o estouro negacionista, que adora os campos digitais, é furioso e aonde chega leva tudo por diante, seja no Rio Grande do Sul, no Brasil ou no mundo.

Sem ode nostálgica ao passado. Sem ode evasiva ao futuro também. E sem o narcisismo cego da exaltação ao presente. Relembremos, de 1983, a denúncia e a reflexão nas estrofes do historiador e poeta Humberto Gabbi Zanatta, musicadas por João Chagas Leite:

Hoje a ambição fez pousada à minha volta
Plantou desertos em sementes traiçoeiras
Cria enjeitada de um progresso que importamos
Batendo palmas a ganâncias estrangeiras

Só temos pressa, e mais pressa pra ter pressa
Receita louca que inventamos pra morrer
De neuroses, de calmantes, pesticidas
Matando a vida que está doida pra viver

(“Cria Enjeitada”, João Chagas Leite /

 Humberto Gabbi Zanatta, 1983, aqui ou aqui)

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*Francisco Matheus Conceição é servidor público federal, ex-professor universitário e doutor em Literatura

Esperança

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Por Carlos Silveira, de Ijuí (RS)

Sempre nova. Sempre a mesma. Esperança. Bebendo-se sem ter sede. Agora vivendo há um mês num abrigo depois da crescente que destruiu sua casa. Vinda de uma ilha cercada de soja por todos os lados, sempre soube que um dia a natureza cobraria reintegração de posse. Testemunhou toda a destruição das matas ciliares, a derrubada pioneira e heroica das matas, o aterro das vertentes e banhados, a impermeabilização das rodovias e o assoreamento dos cursos d’água pela erosão, pelo esgoto sanitário não tratado, por todo tipo de detrito depositado nos leitos dos rios.

Viveu todo o ciclo do gaúcho a pé desde menina. Na pequena propriedade de sua infância e adolescência, nunca houve um cavalo. Apenas o cavalo da razão e da persistência, alimentado apenas pro gasto por uma religiãozinha tão somente legitimadora da vidinha cotidiana – solidamente medíocre e feita de inércia e esquecimento. Inviável. Assim como quase tudo em sua vida: a propriedade familiar, a permanência no interior do estado, a fuga para as grandes cidades, o tudo sempre igual de todos os dias na passagem das semanas, meses e anos. A mão invisível do destino guiou-a a esmo num interminável êxodo.

Do subúrbio superpovoado ao trabalho de diarista, sempre se soube inviável. Por isso, sempre repudiou a determinação de se casar e construir um biongo (pequena moradia) no bairro, com marido e filhos. Envelheceu resistindo. Incompreendida. Vista como alguém que muito escolhe até ser o escolhido. Até ser vencida pela velhice e pelo fim. Uma que outra hóstia de sol em namoros fortuitos. Pura ilusão repudiada pela certeza de amores impossíveis. Não era direito apenas repetir(se) no cortiço. Um cadáver a parir novos cadáveres. Daí seu não definitivo a João Romão. Ninguém pode servir a dois senhores.

Assim a vida foi envelhecendo e a confiança em si e num tempo mais justo foi mermando. O mesmo já não era sempre novo. Foi branquejando atrevido até ir diminuindo e, por fim, desaparecendo. Agora o sentimento já vê como impossível a realização do desejo. A expectativa, o aguardo, a confiança foram dando lugar à desconfiança e enfraquecendo o coração. O entardecer chegou cedo e o dia deu em chuvoso. O Senhor mandou chuva para regar a terra e o solo assim ficar mais rico e produzir muito. As águas foram colhendo as lavouras, os animais, as casas, até agora há desaparecidos e soterrados. E não choveu pão dos céus e o povo saiu – e ela também – sem colher sua porção para cada dia nem provar se andava ou não nas leis divinas. Ah, como às vezes Deus se esquece de como sofre a gente pobre!

Dona Esperança saiu com seu cão (que já descobriu estar abrigado com mais 12 mil bichos de estimação), a roupa do corpo e alguns documentos. É a terceira vez, a terceira lâmina, a terceira estocada no coração. Desta vez, talvez não sobre nem o alicerce. A arca veio lotada de cães, gatos e pássaros, mas a maioria foi esquecida. Na hora do salve-se quem puder, poucos lembraram que os bichos são sempre crianças. Um barco foi sua tábua de salvação. Para outros, botes, jet-skis e até helicópteros. As ações, desde os salvamentos às doações, foram, predominantemente, do povo em geral, do povo pelo povo, daqui e de tantas outras querências do país e do mundo, mais alguns administradores a posteriori, na tarefa de reconstrução propriamente dita.

As ações públicas, oficiais, salvo as atuações de algumas forças estaduais, foram bem precárias. Da Presidência da República ao Paço Municipal, passando pelo Governo Estadual, mostraram todos um certo descaso, ineficiência, negligência, salvo nas boas horas dos holofotes. Muita propaganda oficial, inclusive da justiça eleitoral, muito grito e pouca lã. O terreno não era favorável, o clima não era favorável, as aeronaves eram tantas e causavam confusão quase como se fossem inimigas. Fora isso, houve também muitos oportunistas atacando de papagaios de pirata. Gente fingida pra cachorro. É o que é e foi o que foi, salvo raras e honrosas exceções ou salvo melhor juízo.

A única coisa que devemos temer é o próprio medo, era um ditado que repetia. Agora só aguardava o sol e as águas baixarem. Engoliu muito choro e, também, viu a morte sem chorar. Já não sonha nem tem desespero ou esperança. Nem ama por não ser poeta. Nem almeja sucesso sem a superação de práticas carcomidas que seguem dissimulando a história. Por ora, não confia em nada e nem ninguém. Menos ainda em si. Não espera a hora, a onda salvadora, a ocasião. É inviável e não espera mais nada. O exército derrotado de uma mulher só. Mas sem viver o medo nem ao meio. Segue a dizer não. Em caixa e em voz altas. Cabeça, tronco e membros plenamente vazios. Inviável. Pensa sem palavras sobre si mesma. Inviável.

A grandeza e a pequenez humanas vêm de braços e abraços. Entre imaginações de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-lhe o espanto e o tremor, e todos os seus ossos estremeceram. Então um espírito passou por diante dela e fez-lhe arrepiar os cabelos da sua carne. Inviável. Vem Deus deslizando entre brumas de mil megatons. Esperança é a última que morre. Ou nunca morre. Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca ceifará. O obscuro do instante se eterniza. Não há rastreadores para os desvios de rotas nem de recursos ou doações. Inviável. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim tu também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. O Senhor fez o mundo e tudo o que nele há nos céus e na terra, e derrama sobre nossas casas todos os seus mananciais. Esperança inviável. A luz dos olhos alegra o coração e a boa nova fortalece os ossos, mas o Senhor não habita em santuários feitos por mãos humanas.

PUCRS realiza pesquisa emergencial sobre situação dos desabrigados

Pesquisadores dos cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo fazem pesquisa colaborativa

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Os cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo, da Escola Politécnica da PUCRS, convocaram estudantes e se uniram com o objetivo de avaliar as dimensões das enchentes, os deslocamentos populacionais, as condições dos abrigos emergenciais, as perspectivas de continuidade, analisando o espaço físico e demandas para projetar alternativas futuras. O trabalho colaborativo, liderado pelas professoras Soraia Musse e Cibele Figueira, também conta com doutores, doutorandos e graduandos do VHLab da PUCRS e outras instituições de ensino, pesquisadores da UFRGS e o arquiteto Rodrigo Marsillac, da prefeitura de Porto Alegre.    

“Utilizando-se modelos computacionais de dinâmica populacional, pretende-se simular o cenário atual e cenários futuros que ainda possam ocorrer em decorrência de aumentos de chuvas, novos bairros alagados e evacuados, ou ainda imigração de pessoas de fora de Porto Alegre para os abrigos”, explica a professora de Ciência da Computação, Soraia Musse.    

O simulador LODUS, criado por Gabriel Fonseca, doutorando orientado por Soraia no Programa de Pós–Graduação em Ciência da Computação (PPGCC), foi utilizado para simular situações reais e que ainda não ocorreram, tanto da dinâmica de movimentação das populações, quanto dos seus perfis, em caso de bairros afetados. Também é possível estimar as necessidades de provisões por pessoa, no tempo e no espaço, estimar necessidades de abrigos que precisam ser abertos e até simular pessoas nos abrigos.    

“Fazemos projeções com base em dados reais e abertos, disponibilizados no site AbrigosRS, criado por voluntários, prevendo futuros que esperamos que não aconteçam. Quero ser otimista e dizer que nossas projeções estão sendo pessimistas”, ressalta a professora.    

Os dados fornecidos pelo site também permitem que os pesquisadores realizem um trabalho de simulação de deslocamento, nos casos de pessoas que precisam ir para um abrigo ou mudar de local, por exemplo. Os mais de 100 abrigos da cidade estão no mapa, com sua taxa de lotação indicada, e última data de atualização disponível.    

Outra frente deste amplo trabalho de pesquisa é observar e relatar a situação atual dos abrigos de Porto Alegre, como um primeiro foco, para que fique de registro para eventuais cenários que possam voltar a acontecer no futuro. Pensando que muitos dos locais que servem de abrigo funcionando normalmente, como escolas, clubes, igrejas e outros, o grupo também pensará alternativas de acolhimento para quem não conseguir sair do abrigo até o prazo de reabertura de atividades. 

Nesta parte, os pesquisadores de Arquitetura e Urbanismo também pensam em como adaptar construções para que sirvam ao propósito de receber centenas de pessoas. Um dos objetivos é criar um guia para construção de abrigos, contendo as necessidades mínimas para ocupação de pessoas, assim como previsão de insumos necessários para a população abrigada. Com a evolução da pesquisa, a ideia é apresentar os resultados ao poder público. 

MST lança SOS Rio Grande do Sul para vítimas das chuvas

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Estimados/as amigos, amigas e camaradas da luta do MST

Nós do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra estamos fazendo uma campanha de arrecadação financeira para contribuir nas ações nos municípios gaúchos.

Cerca de 300 famílias inteiras de assentamentos do MST estão atingidas pelas enchentes. Muitos perderam tudo e maior parte da produção de nosso arroz orgânico foi comprometida ou totalmente perdida.

Compartilhamos vídeo da situação de algumas das nossas áreas na região metropolitana, em especial a do Assentamento de Eldorado do Sul [Aqui!].

Informações Bancárias:

Banco: 350 Agência: 3001

Conta: 30253-8

CNPJ: 09.352.141/0001-48

Nome: Instituto Brasileiro de Solidariedade

CHAVE PIX: 09352141000148

O MST sugerindo uma contribuição mínima de 50 reais

Esses recursos serão utilizados para reconstrução de 420 casas de famílias assentadas que foram destruídas, viabilizar as cozinhas comunitárias nas áreas afetadas seja assentamentos ou bairros e na compra de material de higiene; além de organizar atendimento de água potável.

Posteriormente disponibilizaremos do relatório de aplicação!

Emergência climática continua no Brasil: Acre é a bola da vez, mas não esta sozinho

acre chuvas

Com 32 mil afetados por chuvas, Acre entra em situação de emergência

Depois das cenas devastadoras que foram produzidas por chuvas intensas no litoral norte do Rio de Janeiro, agora a destruição climática está se abatendo sobre o estado do Acre, incluindo a capital do estado, Rio Branco.  Aliás, chuvas intensas também estão causando estragos de grande monta em outras partes da região Norte, incluindo o Amazonas. Segundo o que me informou o professor Irving Foster Brown, que atua na Universidade Federal do Acre, as inundações que estão causando caos neste momento se devem a uma confluência de chuvas intensas que ocorreram em Rio Branco (em torno de 180 mm em 48 horas) e das precipitações igualmente intensas que ocorreram nas cabeceiras do Rio Acre.

acre

A ocorrência de chuvas intensas e transbordamento de rios é uma marca do novo estado climático que é agravado no caso da Amazônia pelo intenso processo de desmatamento e degradação que está ocorrendo na Amazônia. O estado do Acre, por exemplo, que já foi um símbolo da resistência em defesa das florestas, agora se transformou em um dos polos mais dinâmicos dentro do chamado Arco de Desmatamento.

Por detrás desse processo de intensa remoção das florestas está, obivamente, o avanço das monoculturas de exportação, principalmente a soja e a cana-de-açúcar que, por sua vez, empurram as pastagens cada vez mais para regiões anteriormente intocadas da bacia Amazônica.

Essa conexão entre perda de florestas e mudanças climáticas que causam devastação em cidades que são marcadas pela profunda desigualdade social é conhecida, mas os promotores desse modelo continuam levando suas ações como se ela não existisse. Por isso mesmo, tivemos nesses primeiros meses de 2023 a continuidade das altas taxas de desmatamento na maioria dos biomas brasileiras, especialmente na Amazônia.

Como o último relatório do IPCC aponta que a janela de tempo para se impedir uma grande catástrofe climática está se encurtando cada vez mais, a manutenção desse quadro de ignorância proposital sobre a necessidade de deter a perda de florestas em prol de termos um mínimo de chances de que ela seja impedida, eu diria que não me sinto otimista neste momento. 

Aliás, o meu pessimismo aumenta ainda mais quando vejo as concessões sendo feitas pelo governo Lula para o latifúndio agro-exportador e para as empresas de petróleo que representam parte significativa das emissões de gases estufa. A verdade é que a ministra Marina Silva, com todas as suas qualidades e defeitos, está sendo deixada a ver navios em um contexto em que isso beira o suicídio climático. 

TV Cultura estreia documentário sobre Tragédia da Chuva no litoral de São Paulo

Com reportagem de Laís Duarte, produção inédita da emissora vai ao ar neste sábado (18/3), a partir das 20h

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Neste sábado (18/3), estreia na TV Cultura o documentário São Sebastião – Uma tragédia no paraíso. Produzida pelo Jornalismo da emissora, a produção inédita relata a situação dos desabrigados pela pior chuva da história do Brasil, Vai ao ar às 20h.

Em meio à tragédia, a repórter Laís Duarte e os repórteres cinematográficos Alexandre Silva, Marco Antonio Gallo e Euclides Jose testemunharam cenas tocantes de solidariedade entre os moradores que perderam parentes e amigos. Imagens que dão esperança aos sobreviventes que precisam recomeçar do zero.

O documentário traz imagens das principais áreas destruídas em São Sebastião, o resgate de vítimas soterradas e o trabalho de amparo às famílias que perderam tudo. E conta também com relatos de quem perdeu amigos e parentes e de quem conseguiu escapar da lama.

A produção relembra ainda outra tragédia no litoral de São Paulo, ocorrida em 17 de março de 1967, em Caraguatatuba, quando cerca de 500 pessoas morreram.

Tragédia no Litoral Norte

Cerca de dez milhões de brasileiros moram em áreas de risco, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. E na madrugada do dia 19 para 20 de fevereiro, em pleno carnaval pós-pandemia, uma chuva de mais de 600 milímetros atingiu seis cidades deixando um rastro de morte, centenas de casas destruídas e as principais estradas do litoral paulista fechadas. São Sebastião, Caraguatatuba, Guarujá, Bertioga, Ilhabela e Ubatuba.
 

Bertioga registrou 682 milímetros. São Sebastião, 626 milímetros por metro quadrado. São os maiores volumes acumulados já registrados no país. A Barra do Sahy foi o ponto mais atingido e as famílias mais pobres as que mais sofreram. Mães e pais tiveram que acordar seus filhos às pressas, enquanto suas casas eram inundadas pela lama, galhos de árvores e todo o entulho que despencou junto com os morros. Muitos não tiveram sequer uma chance de reação. Morreram dormindo ou quando davam os primeiros passos para fugir de casa.
 

Do alto dos morros desceu a avalanche de detritos. As casas foram esmagadas tirando a vida de mulheres, homens, idosos e muitas crianças. A união e solidariedade dos moradores não esmoreceram. Uma corrente humana se formou para dar comida, roupa e alojamento aos desabrigados e desalojados. Mantimentos chegaram de todas regiões. Os governos federal, estadual e municipal se uniram para socorrer os sobreviventes, reabrir estradas e reconstruir moradias.

Documentário “São Sebastião – Uma tragédia no paraíso”

Dia 18/3/23 (sábado), às 20h
Reportagem de Laís Duarte
Imagens: Alexandre Silva, Marco Antonio Gallo e Euclides Jose
Assistentes: Carlos Jardim, Erinaldo Clemente e Ricardo Coelho
Produção: Ricardo Ferreira
Edição: Jorge Valente, Simão Scholz e Leandro Silva

MCTI anuncia expansão do monitoramento do Cemaden para 2.120 municípios brasileiros

Número representa mais que o dobro das cidades monitoradas pela unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Sala de Situação do Cemaden – Cachoeira Paulista/SP

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou, nesta quinta-feira (2), a expansão do sistema de monitoramento do Cemaden, que alcançará 2.120 municípios do país. O número representa mais que o dobro das cidades hoje monitoradas pelo instituto de pesquisa do MCTI. O anúncio foi feito durante o 10º Seminário Técnico-Científico de Análise de Dados do Desmatamento na Amazônia Legal, promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

“Com esse esforço, dobramos a cobertura monitorada, atingindo 70% da população brasileira”, disse a ministra.

A expansão significa que o Cemaden passará a monitorar, 24 horas por dia, sete dias por semana, mais municípios localizados em Regiões Metropolitanas, emitindo alertas sobre alagamentos, inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

“Após quatro anos de um governo negacionista, que desacreditou a ciência e promoveu desmonte das políticas ambientais, o MCTI trabalha na construção de uma arrojada agenda de mitigação dos impactos causados pelas mudanças climáticas”, afirmou a ministra.

Ela também antecipou que, em colaboração com outros Ministérios e a comunidade científica, o MCTI trabalha na construção de um novo arcabouço que contemple a produção de dados meteorológicos, o monitoramento climático, a emissão de alertas de risco e as ações de prevenção e redução dos impactos provocados por eventos extremos.

“Não há saída para os esforços de mitigação e adaptação das mudanças climáticas, para o combate ao desmatamento ilegal e o enfrentamento das desigualdades sem ciência”, ressaltou a ministra Luciana Santos. “A pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico são ferramentas fundamentais na busca de soluções para estes desafios. Por isso, vamos ampliar os nossos investimentos para que os resultados da melhor ciência sejam revertidos em benefícios para a população”, concluiu.

Seminário

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, lembrou que o desmatamento na Amazônia é um dos maiores problemas do mundo e destacou a importância da soma de esforços para enfrentar este desafio. “O sucesso do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, lançado em 2004, se deve a um esforço coletivo. Não se faz política pública sem ouvir o que a ciência e a sociedade civil têm a dizer.”

Coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o pesquisador Cláudio Almeida alertou para a necessidade de ação urgente e para a importância de produção de dados confiáveis. “É fundamental a produção de um dado público, transparente e confiável”, destacou. “O país tem que ter capacidade tecnológica para manter esse monitoramento, desde a produção da imagem até a operação do sistema, e entregar informação para a sociedade”, defendeu.

Agricultores pedem socorro no Rio de Janeiro

Movimento Pequenos Agricultores e Movimento dos Atingidos por Barragem alertam para as perdas da produção camponesa devido as fortes chuvas

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Por Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

As intensas chuvas dos últimos 20 dias no estado do Rio Janeiro afetaram a produção de hortaliças, verduras, legumes e tubérculos da agricultura familiar. Até o momento nenhum dos órgãos ligados à Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Janeiro fez contato com as famílias produtoras para mensurar e contabilizar as perdas. Além de afetar as famílias produtoras, as perdas afetam de imediato o consumo, pois o ciclo da produção foi interrompido, havendo possibilidade de aumento de preços dos produtos pela diminuição da oferta.

Para os circuitos agroecológicos de comercialização já é possível ver a redução da disponibilidade dos produtos. Bruno Geraldo, coordenador do Raízes do Brasil e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), responsável pela logística da produção da Cesta Camponesa, afirma que “já é notável ver as roças vazias devido os estragos das chuvas e diminuição de produtos disponíveis para cesta”.

Segundo a Rosana Martuchelli, presidente da APROLUC (Associação de Pequenos Produtores Rurais de Lúcios e Comunidades Vizinhas) e militante do MPA, “na região do Vale dos Lúcios em Teresópolis a perda foi entre 60 a 70%”. Rosana alerta ainda que todo município foi afetado e a perca para produtores até momento não foi contabilizado.

Em Magé, baixada fluminense, não foi diferente. Matheus Teixeira, presidente da Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Fazenda Pau Grande, também militante do Movimento dos Pequenos Agricultores, afirma que muitas famílias perderam batata doce e aipim devido ao excesso de chuvas na região.

No município de Cachoeiras de Macacu, segundo Silas, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) as chuvas afetaram os assentamentos São José da Boa Morte e Marubaí. “Essas inundações atingiram mais de 300 propriedades rurais, onde são cultivados alimentos que abastecem o CEASA-RJ, e deixou algumas famílias desabrigadas” alerta Silas. A previsão é de que isto possa provocar alta no preço de alguns alimentos como, por exemplo, o aipim.

Em caráter de urgência o Movimento Pequenos Agricultores e o Movimento dos Atingidos por Barragem reivindicam do Governo do Estado:

1) Equipe técnica que contabilize as perdas da produção das famílias;

2) Liberação imediata de seguro safra para famílias que perderam a produção;

3) Liberação de linha de credito especial para as famílias voltarem a investir na produção;

4) Chamada pública emergencial para áreas afetadas no formato de um PAA modalidade doação simultânea para garantir comercialização da produção.

Agricultura Camponesa Familiar para Rio de Janeiro não passar fome!

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Midia Ninja” [Aqui!].