Cientistas precisam de tempo para pensar

Chamadas de vídeo. Mensagens instantâneas. Chamadas de voz. E-mails. Mídias sociais. Smartphones. Tablets. Laptops. Desktops. Mais dispositivos digitais equivalem a menos tempo para se concentrar e pensar

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Por Nature

Os efeitos negativos disso sobre os pesquisadores são abordados pelo cientista da computação Cal Newport em seu último livro, Slow Productivity1. O título do livro desafia a ideia, comum a muitos locais de trabalho, de que a produtividade deve sempre aumentar. Um estudo mostrou que a ciência está se tornando menos disruptiva, embora agora haja mais artigos sendo publicados e bolsas concedidas do que nunca2. Newport, que estuda tecnologia no local de trabalho na Georgetown University em Washington DC, diz que pesquisadores e outros trabalhadores do conhecimento precisam desacelerar e gastar mais tempo pensando, para se concentrar em manter e melhorar a qualidade em seu trabalho.

Newport presta um serviço à comunidade de pesquisa ao destacar uma força de trabalho sobrecarregada. As instituições já deveriam estar acessando a expertise que existe dentro de suas paredes na busca por respostas, mas não estão fazendo isso. Novas tecnologias de comunicação têm enormes benefícios, incluindo acelerar a pesquisa, como foi necessário durante a pandemia da COVID-19. Mas elas também estão espremendo o tempo de pensamento. O livro de Newport nos lembra que há pesquisadores que saberão como ajudar. Tempo de pensar — ​​o tempo necessário para se concentrar sem interrupções sempre foi essencial para o trabalho acadêmico. É essencial para projetar experimentos, compilar dados, avaliar resultados, revisar literatura e, claro, escrever. No entanto, o tempo de pensar é frequentemente subvalorizado; raramente, ou nunca, é quantificado nas práticas de emprego.

Uma maneira de pensar sobre a prática de fazer malabarismos com pesquisa, e-mail e mensagens instantâneas é visualizar alguém trabalhando ao lado de uma caixa de correio física. Imagine abrir e ler cada carta assim que ela chega e começar a redigir uma resposta, mesmo que mais cartas caiam na caixa

— o tempo todo tentando fazer seu trabalho principal. Pesquisadores dizem que suas listas de tarefas tendem a aumentar, em parte porque os colegas podem contatá-los instantaneamente, geralmente por bons motivos. Pesquisadores também frequentemente precisam escolher o que priorizar, o que pode fazer com que se sintam sobrecarregados.

Newport dá sugestões sobre como recuperar o tempo de reflexão, incluindo limitar o número de itens em listas de tarefas e equipes de projeto reservando tempo para concluir tarefas que exigem todos os membros, evitando assim que membros individuais enviem e-mails uns aos outros. Para instituições, Newport recomenda um sistema transparente de gerenciamento de carga de trabalho

— uma maneira de os gerentes verem tudo o que um colega deve fazer — e então ajustar a carga de trabalho se houver mais tarefas do que tempo disponível.

O tempo de reflexão é frequentemente subvalorizado; raramente, se é, quantificado em práticas de emprego.”

Sem dúvida, um bom conselho, isso pode ser mais fácil de implementar em ambientes industriais do que em acadêmicos. Em muitos laboratórios de pesquisa acadêmica, os pesquisadores se reportam a um único pesquisador principal, com pouca estrutura de gestão. Isso ocorre em parte porque é difícil justificar aos financiadores acadêmicos o orçamento para pagar por funções de gestão e administração.

Mas Felicity Mellor, pesquisadora de comunicação científica no Imperial College London, é cética sobre dar aos gerentes uma função no tempo de reflexão. Em muitos casos, os pesquisadores já estão sentindo o peso dos sistemas de monitoramento e avaliação de suas instituições. Mellor argumenta que incluir mais uma caixa em um formulário de avaliação pode não cair bem. Ela também acha que as instituições não aceitarão isso. “Você consegue imaginar a resposta se um cientista preenchesse uma planilha de ponto onde diz ‘oito horas gastas pensando’?” Em última análise, ela diz, criar uma cultura de pesquisa mais favorável precisa de uma mudança muito mais fundamental. Isso sugere uma reformulação ainda mais radical do modelo de financiamento atual para pesquisa acadêmica, como escrevemos no mês passado (veja Nature 630, 793; 2024), juntamente com mudanças em outros aspectos da ciência acadêmica.

Verificação de qualidade

A tese de Newport levanta uma questão muito mais fundamental: qual é o impacto do tempo de concentração perdido na ciência — não apenas na estrutura e no processo da ciência, mas também no conteúdo e na qualidade da pesquisa?

Em 2014, Mellor coliderou um projeto de pesquisa, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido, chamado The Silences of Science, publicado como um livro dois anos depois3. Os pesquisadores discutiram essa questão e outras em uma série de workshops, mas o trabalho não continuou após o término da bolsa. Essas explorações precisam ser revividas, mas também precisam incorporar o impacto das tecnologias de inteligência artificial. Essas ferramentas estão sendo implementadas em ritmo acelerado em todo o mundo para automatizar muitas tarefas administrativas de rotina. Os pesquisadores precisam avaliar se essas ferramentas podem liberar mais tempo de pensamento para os pesquisadores; ou se elas podem ter o efeito oposto.

As tecnologias de comunicação certamente evoluirão ainda mais e continuarão distraindo os pesquisadores de seu trabalho. Mais estudos investigando o efeito dessas tecnologias na ciência são necessários urgentemente, assim como estudos sobre como o tempo de pensamento pode ser protegido em um mundo de comunicação instantânea. Esse conhecimento ajudará pesquisadores e líderes institucionais a tomar melhores decisões sobre a implantação das tecnologias — e, esperançosamente, permitirá que os pesquisadores criem aquele espaço e tempo tão importantes para pensar.


Fonte: Nature

Produção científica brasileira cai pelo segundo ano consecutivo

Queda foi de 7,2% em 2023 comparada com 2022, segundo relatório da editora Elsevier e da Agência Bori

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Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm diminuindo desde 2013 (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Enrico Di Gregorio | Revista Pesquisa FAPESP 

A produção científica no Brasil caiu 7,2% em 2023 comparada a 2022, ano que havia registrado a primeira queda desde 1996. As informações são do relatório da editora científica Elsevier e da Agência Bori divulgado na terça-feira (30/07). É a primeira vez que a produção científica do Brasil, quantificada em 2023 em 69.656 artigos, cai por dois anos seguidos. Outros 34 países sofreram retração no mesmo setor, um aumento de 12 nações em relação ao ano anterior. Enquanto isso, 17 países tiveram alta na produção científica e apenas a Áustria não variou. A redução em massa impactou na produção científica mundial, que concentrou o maior número de países em decréscimo desde 1997. No total, o relatório avaliou 53 países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos entre 2022 e 2023.

O Brasil seguia uma tendência de crescimento constante até 2021, quando registrou uma queda que não ocorria desde 1996. Os primeiros sinais dessa tendência apareceram em 2020, quando o ritmo de crescimento desacelerou. “A primeira hipótese para explicar essa queda é a falta de verbas. Sem dinheiro não se faz pesquisa”, diz o cientometrista Estêvão Gamba, cientista de dados da Agência Bori. “A segunda é a pandemia: houve um boom de publicações naquele período e depois veio uma queda.”

Para Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da Elsevier para a América Latina, a pandemia também teve outros efeitos. “A queda em um grande número de países a partir de 2022 nos leva a considerar que a pandemia pode ter impactado a continuidade de diversos projetos de pesquisa e, portanto, a publicação de seus resultados”, afirma.

Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil vêm diminuindo desde 2013. No caso das instituições estaduais, a redução orçamentária foi registrada desde 2015. Em 2023, a quantidade de dinheiro público destinada para P&D foi 76% do aplicado em 2015. O menor valor foi em 2021, quando só foram investidos 71% do valor de 2015.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), concorda com o impacto dos cortes. Para ele, o financiamento é o que está por trás da retração. “A ciência precisa de investimento constante, tanto em equipamentos, laboratórios, material de consumo quanto em recursos humanos. Há instituições que carecem de centenas ou até milhares de funcionários”, comenta Janine.

Nesse cenário, o Brasil foi o 14° colocado no ranking mundial de publicações científicas. Entre 2019 e 2023, o país publicou 376.220 artigos. As únicas áreas que registraram crescimento nesse período, contudo, foram as ciências sociais, com aumento de 11,6%, e humanidades, com uma alta de 82% em artigos publicados. De 2022 para 2023, todas as ciências registraram queda na produção. A área com maior diminuição foi ciências médicas, com 10% de retração.

O relatório também avaliou o número de artigos nas instituições de ensino e pesquisa que publicaram mais de mil artigos em 2022. Ao todo, foram 31 universidades e centros de pesquisa analisados, mas somente a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) registrou crescimento de 0,3%.

Das instituições que sofreram queda, as mais afetadas foram as universidades Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, e Federal do Espírito Santo (Ufes). É uma mudança em relação ao ano anterior, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) estavam no fim da lista.

Em São Paulo, as universidades de São Paulo (USP), Estadual de São Paulo (Unesp), Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal de São Paulo (Unifesp) figuram todas na lista de queda na produção científica. O cenário chama a atenção pela maior quantidade de verbas destinadas à pesquisa no Estado, por meio da FAPESP.

Para o geneticista Marcio de Castro, diretor científico da Fundação, o impacto da pandemia nas pesquisas é inegável, mas há outros fatores. “Acho que esse decréscimo reflete um cenário maior que afeta principalmente a pós-graduação”, diz ele, que foi pró-reitor de pós-graduação na USP. Castro explica que, nos últimos anos, houve um declínio significativo na relação candidatos-vaga nos programas de mestrado e doutorado em São Paulo. “Precisamos refletir sobre outras causas dessa baixa”, sugere.

Uma das razões é um formato definido por ele como “muito rígido e tradicional” nas pós-graduações, em que os jovens cientistas são formados somente para trabalhar na academia, sem muita abertura para uma formação destinada ao serviço público, empresas, organizações não governamentais e outros meios. “Na USP, dois terços dos jovens que terminam o mestrado não seguem para o doutorado. Vão fazer outras coisas”, explica Castro.

Outros países

No ranking mundial, Taiwan e Etiópia foram os países que tiveram as maiores reduções de produção científica, logo abaixo do Brasil. Em 2022, o país tinha sido o último da lista, enquanto o penúltimo foi a Ucrânia. “São dois anos seguidos no fim da lista”, constata Gamba. “Não podemos olhar para o aumento dos países em decréscimo e achar que é normal o Brasil estar nessa posição”, alerta.

No ano passado, a Ucrânia conseguiu reverter o quadro, apesar de estar em guerra, e ficou em 10° lugar na lista dos que tiveram aumento da produção científica. A lista foi liderada pelos Emirados Árabes Unidos, Iraque e Indonésia, com incremento de 15%. Em 2022, foi encabeçada pela China, seguida por Estados Unidos e Índia – naquele ano, a Índia cresceu 19%, e superou pela primeira vez o Reino Unido na lista anual de acréscimo.

De acordo com Gamba, a subida dos novos líderes também pode ser explicada pela pandemia. Enquanto em algumas nações, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França e Alemanha, a elevada produção científica no período pré-pandemia teve um boom no período de alta da contaminação e depois uma queda, nos países onde a produção era baixa, a elevação impulsionada pela pandemia se manteve.

Um terceiro fator são os problemas econômicos, como baixo crescimento, alta inflacionária e endividamento externo, que afetam países de todos os continentes. “Não tem como esses problemas deixarem de impactar”, diz Gamba. Apesar do cenário de recessão, as perspectivas são positivas. “Calculamos que, com o distanciamento da pandemia e a redução nos cortes, a situação deva melhorar daqui a dois ou três anos no Brasil.” Isso não significa que não haverá desafios. “Vimos mudanças no orçamento para melhor, mas a carência ainda é muito grande”, finaliza Janine.

No relatório deste ano, “2023: ano de queda na produção científica de 35 países, inclusive o Brasil”, foi utilizada a ferramenta analítica Scival, da Elsevier, para coletar dados da base Scopus, que guarda informações de mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de 7 mil editoras científicas no mundo.


Fonte: Agência Fapesp
 

Como perdi e reencontrei minha criatividade científica

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Por Jeffrey McDonnell para a Science

Como estudante de doutorado, passei muitos dias e noites em pé numa encosta íngreme de uma floresta, sob chuva, medindo como as gotas de água se movem para o solo. Eu adorava atividades ao ar livre e era mais uma brincadeira do que um trabalho. Muitas noites eu sonhava com minha pesquisa. Fiquei infinitamente curioso sobre o que vi no campo e emocionado quando consegui relacionar isso com o que li. Minhas ideias pareciam fluir como o fluxo que eu estava tentando compreender. Mas quando me tornei professor, fui inundado de responsabilidades e meu fluxo criativo diminuiu. Levei décadas para descobrir como revivê-lo.

Quando comecei meu primeiro cargo docente, não tinha mais a liberdade de me concentrar apenas na pesquisa ou pensar profundamente sobre qualquer assunto. Eu estava consumido por demandas urgentes – ficar uma aula à frente em meu ensino, completar revisões de artigos para revistas científicos, a batida constante da redação de propostas. À medida que meu laboratório cresceu, tornei-me mais um gerente de pesquisa do que um pesquisador. Deixei que as oportunidades de financiamento orientem as decisões sobre quais pesquisas realizar. Eu era como um diletante científico – passando de um projeto para outro.

Uma década depois, mudei-me para uma nova universidade onde não precisei correr atrás de tanto financiamento. Pude retornar ao tema que estudei para meu doutorado. Aceitei estudantes de graduação e pós-doutorado que estavam interessados ​​em “minhas” perguntas. Durante as reuniões com eles, aprendi como ser uma caixa de ressonância enquanto consideravam novas ideias e novas formas de olhar para a nossa ciência. Descobri que se eu pudesse viver o momento com eles — e não me distrair com minhas responsabilidades no meio da carreira — então poderia desempenhar um papel em seu processo de pensamento criativo.

A criatividade voltou à minha vida profissional, mas eu ainda não tinha encontrado uma maneira de estimular meu pensamento profundo. Eu era, na melhor das hipóteses, um gerente de criatividade. Mais uma década se passou antes que eu aprendesse como fazer meu próprio fluxo criativo fluir novamente.

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Estar hiperocupado na primeira metade de minha carreira docente era a antítese do pensamento criativo.  JEFFREY MCDONNELL,  Universidade de Saskatchewan

Depois de aceitar um cargo que me permitiu mudar dos Estados Unidos de volta para meu país natal – o Canadá – tive alguns meses entre empregos, o que significava que poderia acompanhar minha esposa à Carolina do Sul em uma missão de trabalho dela. Eu estava livre como um pássaro. E foi aí que começou meu primeiro pós-doutorado real. O momento eureka aconteceu – entre todos os lugares, enquanto eu estava em uma academia andando em uma esteira, observando a chuva cair no gramado lá fora. Ao ver poças se formarem e se fundirem, pude visualizar processos semelhantes que vinha tentando entender no subsolo há décadas. Foi um pequeno raio mental na minha pequena fatia do mundo científico. Mas foi estimulante porque era um tipo de pensamento que eu temia ter secado para sempre. Ficou claro que eu precisava desacelerar e sentir a chuva com mais frequência!

Em meu novo emprego, tentei prestar atenção a essa epifania. Fiz questão de pensar e escrever um pouco em casa todas as manhãs, num quarto com vista para o grande rio que atravessa a cidade. Depois disso, pedalava para trabalhar às margens daquele rio, atividade que me ajudou a processar essas ideias e a lembrar meu objetivo diário de ser curioso. A diversão impulsionou o que eu trabalhei. E logo, tive novas ideias para apresentar para meus estudantes de doutorado e pós-doutorandos.

Ao iniciar uma descida gradual até à aposentadoria, comecei a refletir sobre os altos e baixos da minha criatividade científica e sobre como ajudar os cientistas em início de carreira a evitar algumas das armadilhas em que caí. Certamente não sou um guru da criatividade ou um modelo. E sei que os ambientes que estimulam a criatividade para uma pessoa podem não funcionar para outra. Mas uma lição importante que aprendi foi que estar hiperocupado na primeira metade de minha carreira docente era a antítese do pensamento criativo.

Agora incentivo meus alunos de pós-graduação e pós-doutorados a se desconectarem e reservarem um tempo para pensar, brincar e se divertirem com suas pesquisas. E fazer dessas coisas um hábito permanente em suas vidas – mesmo que medido apenas em pequenos fragmentos de cada dia. Também lhes digo para prestarem atenção às condições e aos locais que estimulam a sua curiosidade e capacidade de pensar profundamente. A criatividade é a força vital do nosso trabalho científico. Ao discuti-lo abertamente, espero que possamos ajudar a próxima geração de cientistas a evitar perdê-lo ao longo do caminho, como eu fiz.

Jeffrey McDonnell é professor da Universidade de Saskatchewan e professor visitante na Universidade de Ludong e na Universidade de Birmingham.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista Science [Aqui!].

Cientistas argentinos se organizam contra a “motosserra” de Javier Milei

Milei-996x567Após fazer seu anúncio de campanha para fechar o Ministério da Ciência, que rebaixou ao posto de Secretaria, Javier Milei – empossado presidente da Argentina em dezembro de 2023 – cortou e suspendeu o envio de recursos para o funcionamento do setor. Crédito da imagem: Presidência da Armênia/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons

O governo de Javier Milei – o economista ultraliberal que tomou posse como presidente do país em dezembro de 2023 – cortou e suspendeu o envio de fundos para o funcionamento do setor, cujos membros começam a organizar-se para resistir a estas decisões.

“Não temos bônus nem aposentadoria, não somos considerados trabalhadores e é fácil dizer adeus.”

Juliana Yantorno, pesquisadora argentina

Depois de fazer o anúncio de campanha para encerrar o Ministério da Ciência, que despromoveu ao cargo de Secretário, Milei ordenou que fosse atribuído ao sector o mesmo orçamento que em 2023, quando o país sofre uma inflação homóloga de 250 por cento.

A esta perda em termos reais somam-se severas restrições ao funcionamento do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET), uma das organizações de pesquisa mais prestigiadas da região.

Entre outras medidas, a gestão de seu novo presidente, o veterinário Daniel Salamone — a quem Milei consultou anos atrás sobre a clonagem de seu cachorro, finalmente realizada nos Estados Unidos da América —, reduziu o número de bolsas de doutorado de 1.300 para 600, interrompeu 40 funcionários administrativos e questionou a continuidade de outros 1.200.

Cientistas organizados

Diante desse cenário, o grupo Jovens Cientistas Precários (JCP) decidiu se organizar em assembleias e “rouds” na sede do CONICET, que inclusive ocuparam pacificamente no dia 14 de fevereiro.

O JCP ganhou visibilidade durante a presidência de Mauricio Macri (2015-2019), que também reduziu o orçamento científico e evitou resolver as reivindicações dos 12 mil bolsistas do CONICET, metade de seu quadro de funcionários.

Esses jovens pesquisadores ganham o equivalente a cerca de US$ 600, muito menos que seus pares chilenos, uruguaios ou brasileiros. “Não temos bônus nem aposentadoria, não somos considerados trabalhadores e é fácil dizer adeus”, diz sua referência Juliana Yantorno, em conversa telefônica com o SciDev.Net .

Os institutos de pesquisa da organização também não estão recebendo as despesas correspondentes às suas despesas de manutenção. A situação é tão crítica que os pesquisadores alocam dinheiro do bolso para comprar suprimentos ou pagar serviços básicos.

Duzentos dos 280 diretores dos institutos que compõem o CONICET formaram no início deste ano a Rede de Autoridades de Institutos de Ciência e Tecnologia (RAICYT), que busca conscientizar sobre a situação e ativar uma campanha de solidariedade internacional que já inclui apoio de três ganhadores do Prêmio Nobel .

A RAICYT também estuda apresentar apelos de proteção contra a possibilidade de perda de projetos de pesquisa em andamento, vários deles com financiamento internacional.

A Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires também está em alerta , alertando que poderá ficar sem recursos em abril, enquanto a Universidade Nacional de San Martín descreveu uma situação “insustentável”, com possibilidade de seus laboratórios deixarem de funcionar funcionam e suas salas de aula permanecem vazias.

De volta aos anos 90?

Salamone — que não respondeu ao pedido de entrevista para este artigo — pretende fazer uma mudança substancial na organização: valorizar a produtividade dos investigadores de acordo com o número de artigos científicos publicados, um fenômeno crescente mas problemático na região .

Procura também atrair fundos de investimento, aumentar a participação privada e promover startups baseadas no conhecimento , opções já em cima da mesa perante representantes das embaixadas chinesa , alemã e americana .

“Ele quer que apoiemos as nossas próprias produções”, diz Yantorno, crítico da entrada do capital privado, já que “geralmente eles se envolvem para copiar e colar [um desenvolvimento financiado pelo Estado] e levá-lo embora”.

Neste ponto, Lino Barañao – Ministro da Ciência entre 2007 e 2018 – tem uma visão mais benevolente: “As empresas de base tecnológica criam empregos e geram rendimentos mais bem distribuídos, uma vez que a maior parte do dinheiro vai para os trabalhadores e não para o capital” .

Embora reconheça que a participação privada ainda é baixa, o investigador sênior do CONICET, Jorge Geffner, alerta que “a solução não está aí, mas sim através de um forte investimento do Estado, que na Argentina não chega a 0,5 por cento” do PIB.

“O país passou por momentos semelhantes”, lembra Barañao. “Na década de 90, quando eu trabalhava no CONICET, ganhávamos US$ 50 por mês.” Aqueles anos seriam lembrados como os da “fuga de cérebros”, cenário que hoje corre o risco de se repetir.

Criticado pelo peronismo (que governou o país durante 16 dos últimos 20 anos) por ter sido o único ministro a manter o cargo durante a gestão Macri, Barañao reconhece que durante a sua gestão “houve ajustes orçamentais, mas a linha foi mantida. Se a estrutura for destruída e os grupos de trabalho desmantelados, nada poderá ser reconstruído. Hoje eles não estão colocando menos combustível na máquina; “Eles estão desmontando isso.”


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Este artigo foi produzido e publicação pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Por que o pacto da COP28 não será suficiente para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas

A conferência da ONU sobre o clima (COP28) no Dubai chegou a acordo sobre um plano para manter o aquecimento global a 1,5 graus C e atingir emissões líquidas zero até 2050. Mas os investigadores alertam que estas promessas não se baseiam em ciência sólida e não conseguirão prevenir os piores impactos do clima.

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Derretimento do gelo marinho no Ártico em julho de 2022. KEREM YÜCEL/AFP VIA GETTY IMAGES

Por Fred Pearce para a Yale Environment 360 

Os negociadores climáticos reunidos no Dubai no mês passado comprometeram-se a traçar um rumo para a estabilização do sistema climático recorrendo à boa ciência. Mas muitos cientistas dizem que estas promessas são, na melhor das hipóteses, mal definidas e, na pior, uma paródia da boa ciência – vagas e cheias de lacunas.

A conferência da ONU sobre o clima, no Dubai, acordou num plano de acção para dois objectivos principais: manter o mundo no caminho certo para limitar o aquecimento global a 1,5 graus C (2,7 graus F) e permanecer abaixo deste limiar, alcançando emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa. até 2050. Os negociadores  prometeram que ambos os objectivos seriam prosseguidos “de acordo com a ciência”.

Mas nenhum dos objectivos tem definições acordadas que permitam avaliar se foram alcançados. Dois estudos publicados durante o evento do Dubai expuseram o problema e revelaram grandes lacunas entre as metas de 1,5 graus e de zero emissões líquidas, expondo as tensões entre a conveniência política e a probidade científica.

Relativamente ao objectivo de 1,5 graus, meteorologistas britânicos  relataram  na revista  Nature que a falta de acordo sobre como medir as temperaturas médias globais poderá atrasar o reconhecimento formal de que o limite foi excedido em até uma década. O resultado, alerta o principal autor Richard Betts, do Hadley Centre do Met Office do Reino Unido, será “distração e atraso justamente no ponto em que a ação climática é mais urgente”, resultando em “ultrapassagem” de temperatura e na necessidade de soluções altamente caras – e não comprovadas –. ações posteriores para reverter o aquecimento.

Entretanto, um  estudo  liderado por Matthew Gidden, modelador climático do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) na Áustria, descobriu que as regras que regem a forma como os países podem declarar que atingiram emissões líquidas zero são fixadas para que os governos possam afirmar conformidade anos antes da realidade científica.

Estas questões técnicas críticas têm estado em grande parte fora do radar até agora – em parte, dizem os investigadores preocupados, porque os cientistas não quiseram confundir ou negar os decisores políticos que procuram obter apoio público para a acção climática. Mas as discrepâncias levantam sérias questões sobre se os governos estão realmente empenhados em respeitar a ciência. “Os políticos estão a tentar encontrar uma forma fácil de cumprir as suas promessas”, disse o ecologista florestal do IIASA, Dmitry Shchepashchenko.

No entanto, a urgência em resolver as incertezas está a aumentar. O ano passado viu o sistema climático entrar no que os investigadores chamam de  “território desconhecido”. Cerca de um terço dos dias em 2023 ultrapassaram o limite de 1,5 graus e setembro foi 1,8 graus mais quente do que nos tempos pré-industriais. As estatísticas brutas traduziram-se em incêndios florestais recordes no Canadá e na perda de gelo marinho em torno da Antártida, ondas de calor de verão sem precedentes do Arizona ao sul da China e inundações extremas em regiões normalmente desérticas do Norte de África.

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus C acima dos níveis pré-industriais entrou pela primeira vez na elaboração de políticas climáticas internacionais através do inovador Acordo de Paris de 2015. Como parte do acordo, os governos prometeram manter o aquecimento “bem abaixo dos 2 graus”, ao mesmo tempo que “prosseguiram esforços” para limitá-lo a 1,5 graus.

Desde então, os cientistas alertaram que qualquer aquecimento sustentado acima de 1,5 graus corre o risco de agravar o clima perigoso e causar mudanças fundamentais e irreversíveis no sistema climático. Assim, na conferência do Dubai, esse objectivo tornou-se inequívoco.

Mas como saberemos se nos mantivemos abaixo ou ultrapassamos?

A Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas calcula que há dois terços de hipóteses de um único ano exceder o limiar até 2027. Tal situação única não violaria, por si só, o objectivo acordado, que se refere às temperaturas médias a longo prazo. Mas nem o Acordo de Paris nem os seus sucessores estabeleceram como essa média de longo prazo deveria ser calculada.

Os cientistas do clima têm tradicionalmente avaliado as tendências de temperatura médias ao longo das três décadas anteriores. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que avalia a ciência climática para a comunidade internacional, favorece agora duas décadas. Mas, em qualquer dos casos, os cálculos baseados em temperaturas passadas recentes significam que a média estará sempre aquém da realidade, mantida baixa pelos primeiros anos mais frios do período. Os resultados não refletirão a situação atual, afirma Betts no  artigo da Nature  publicado durante a conferência de Dubai.

Na prática, uma média de 20 anos refletirá as temperaturas no meio desse período, diz Betts. “O aquecimento de 1,5 seria confirmado… uma década depois de ultrapassar o nível de 1,5 graus C.”

Assim, se o aquecimento médio atingir 1,5 graus em 2030, os registos só serão alcançados no final do período de 20 anos em que 2030 foi o ponto médio – 2040, por outras palavras. Nos anos seguintes, diz Betts, haveria “uma década ou mais” de reivindicações e reconvenções, com os cientistas climáticos dizendo que o mundo quase certamente ultrapassou o limiar, mas os políticos seriam capazes de negar isso e alegar que têm mais tempo para reduzir as emissões. .

Este ritual de negação já estava em evidência no Dubai, segundo Piers Forster, da Universidade de Leeds, principal autor de vários relatórios do IPCC. Ele salienta que o acordo de balanço global da conferência, que resumiu os planos de acção para cumprir os compromissos de Paris, afirmou que houve até agora 1,1 graus de aquecimento, com base numa média retrospectiva, enquanto a média real actual é de cerca de 1,3 graus. Os governos estão “jogando um jogo político para fazer com que 1,5 pareça mais viável”, disse Forster à  Yale Environment 360 .

Betts quer que o IPCC acabe com o subterfúgio adoptando um “indicador mais instantâneo”. Seu artigo sugere o cálculo da temperatura média combinando 10 anos de temperaturas históricas com 10 anos de previsões de modelos de temperaturas futuras. Isso seria controverso. Mas, por enquanto,  diz ele , “sem uma métrica acordada, não pode haver consenso sobre quando o nível de 1,5ºC foi alcançado”.

O segundo desafio à integridade científica das negociações climáticas da ONU é como avaliar o progresso nas promessas feitas pelos governos de alcançar zero emissões líquidas até 2050. Os compromissos exigem que quaisquer emissões contínuas de gases com efeito de estufa sejam compensadas até essa data por ações humanas. para capturar quantidades equivalentes, nas florestas ou em outros lugares. Mas existe uma grande preocupação entre os cientistas de que o sistema acordado pelos negociadores para calcular estas “compensações” seja contraditório e amplamente aberto a abusos.

A  meta líquida zero  foi proposta pela primeira vez pelo IPCC. Foi amplamente adoptado há dois anos na conferência climática de Glasgow, quando 74 nações se comprometeram a alcançá-lo, e consagrado no acordo do Dubai como objectivo principal da política climática. Mas existem duas metodologias muito diferentes em utilização para calcular o zero líquido: um método científico utilizado pelos cientistas do IPCC para medir o carbono no mundo real, e um método muito mais flexível, adoptado pelos negociadores e agora incorporado nos acordos climáticos da ONU.

Gidden e outros cientistas climáticos alertam que esta fórmula flexível da ONU para calcular as compensações não conseguirá travar o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa, levando ao aumento contínuo das temperaturas.

A maioria das compensações consideradas pelos governos envolve a gestão florestal – muitas vezes apelidada de soluções baseadas na natureza para as alterações climáticas. Mas decidir que absorção de carbono nas florestas é antropogénica – e, portanto, potencialmente qualificada como uma compensação contra as emissões – e que absorção é natureza é difícil, porque o carbono é constantemente capturado e libertado naturalmente pelas florestas.

Cientistas e negociadores da ONU concordam que apenas as florestas geridas diretamente devem ser qualificadas como potenciais compensações. Mas além disso, há desacordo.

De acordo com a abordagem do IPCC, apenas o carbono capturado por ações humanas diretas em florestas manejadas, como o plantio de árvores ou a redução da exploração madeireira, deveria ser qualificado. O carbono capturado no interior de florestas geridas como resultado de processos naturais não deve ser contabilizado, uma vez que faz simplesmente parte do ciclo natural do carbono entre os ecossistemas e a atmosfera.

Mas os negociadores do clima adoptaram uma abordagem diferente. Dizem que à escala local pode ser quase impossível distinguir claramente entre o que é natural e o que é antropogénico. Assim, resolveram o problema ao permitir que todo o carbono capturado dentro das florestas geridas se qualificasse para compensação de emissões.

Os resultados das duas abordagens podem ser muito diferentes, concluiu o estudo de Gidden. Muitas das grandes florestas do mundo estão actualmente a capturar carbono em grande escala, através de um crescimento adicional impulsionado por condições mais quentes e húmidas e pelo efeito fertilizante do dióxido de carbono extra na atmosfera. De acordo com as regras da ONU, esta absorção natural aumenta a quantidade de carbono que os países podem compensar com as suas emissões, o que acelera o seu caminho para poderem afirmar ter alcançado o zero líquido.

O estudo de Gidden concluiu que as regras da ONU permitem que os governos compensem colectivamente entre 4 e 7 mil milhões de toneladas de CO2 anualmente provenientes de processos naturais que não se enquadram na abordagem do IPCC. Isto representa entre 10 e 18 por cento do total atual de emissões de combustíveis fósseis, um número que ele espera que aumente ainda mais até 2050.

É justo, alguns podem dizer. Se a captura de carbono for real, não importa se os processos por detrás da captura são naturais ou antropogénicos. “A atmosfera não se importa de onde vem o dióxido de carbono”, concorda Giacomo Grassi, investigador do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e co-autor do artigo de Gidden. Mas, acrescenta, “a forma como o afundamento de terras é contabilizado como antropogénico ou natural ainda é importante para avaliar o progresso [político]”.

Também é importante porque a tarefa de reduzir as emissões deve ser partilhada de forma justa, em vez de dar uma oportunidade a alguns países com boas florestas. E porque, argumenta Grassi, os processos naturais de captura de carbono são quase sempre temporários e passíveis de retrocesso, especialmente à medida que as alterações climáticas continuam a acelerar.

As alterações climáticas podem actualmente estar a impulsionar a captura em muitos locais, mas as secas, as altas temperaturas e os incêndios poderão em breve transformar estes sumidouros de carbono novamente em fontes de carbono. Na verdade, dizem os cientistas, isso é extremamente provável. Gidden espera que, depois de meados do século, as florestas que atualmente capturam carbono comecem a libertá-lo novamente em grandes quantidades, criando um enorme défice no cumprimento do carbono zero.

O impacto global das regras flexíveis da ONU permitirá à ONU “declarar que as emissões líquidas zero globais foram alcançadas vários anos antes do que seria o caso de acordo com a definição do IPCC”, diz Chris Jones, analista do ciclo do carbono no UK Met Office, que revisou o artigo de Gidden. Pior ainda, podem declarar sucesso e nunca atingir o verdadeiro zero líquido.

Outros especialistas no ciclo do carbono vão mais longe, dizendo que a metodologia da ONU é uma bola de demolição que destruirá as esperanças de alcançar um verdadeiro zero líquido. Trata-se “essencialmente de preencher um cheque em branco para os países com florestas que pretendem continuar a queimar combustíveis fósseis”,  diz  Wolfgang Knorr, ecologista da Universidade de Lund, na Suécia. Ele chama-lhe um “truque contabilístico [que] acabará por aparecer como dióxido de carbono adicional na atmosfera e aquecimento adicional. Mas quando todos perceberem isso, nenhum dos responsáveis ​​agora estará no cargo.”

A diferença entre os dois métodos de contabilização do carbono é enorme em alguns países. A Rússia, que abriga mais de um quinto das árvores do mundo, está actualmente a assistir a um rápido crescimento florestal como resultado de temperaturas mais altas. A maioria dos conservacionistas afirma que as suas vastas florestas em toda a Sibéria estão próximas do seu estado natural. Eles argumentam, como diz Shchepashchenko, que nesses locais “os processos naturais não podem ser considerados como resultado do manejo florestal”.

Mas Moscovo vê as coisas de forma diferente. Declarou que a maior parte destas florestas remotas são “geridas” e, portanto, que a sua acumulação de carbono é válida para compensar as emissões de carbono do país. A mais recente declaração da Rússia publicada pela ONU   sobre emissões subtrai um sumidouro de carbono florestal de 540 milhões de toneladas das emissões globais do país de 2,12 mil milhões de toneladas, reduzindo as suas emissões “líquidas” declaradas em um quarto. Os ministros falaram do desejo de alargar ainda mais a definição de florestas geridas para “maximizar” a sua contribuição para a compensação de emissões.

Os EUA não são tão diferentes. Algumas florestas orientais, especialmente nos Apalaches, estão a absorver carbono a um ritmo rápido, através de uma combinação de regeneração natural após desflorestação histórica e do efeito de fertilização do aumento de CO2 na atmosfera. Aproveitando isto, as submissões da Agência de Protecção Ambiental à ONU compensaram 11,9 por cento das emissões de gases com efeito de estufa do país contra a absorção de carbono nas florestas e outras terras geridas. Mas um estudo do ano passado realizado por William Anderegg, da Universidade de Utah e colegas, destacou uma “impressionante incerteza” sobre como este número poderá mudar no futuro devido às alterações climáticas, incluindo “riscos substanciais de perdas de carbono… em regiões onde os projectos de compensação de carbono florestal são atualmente localizado.”

Os modeladores de carbono e os negociadores climáticos estão aparentemente em desacordo. Apesar da sua evidente importância, Gidden afirma que “o impacto desta discrepância nos parâmetros de referência de mitigação nacionais e globais ainda não é bem compreendido”. Mas precisa de ser resolvido, diz ele, para que o zero líquido seja realmente alcançado “de acordo com a ciência”. E assim por diante.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Yale Environment 360 [Aqui!].

Quando os cientistas recebem gato por lebre: o caso das revistas sequestradas

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Por Fita Gallent Torres e Ruben Comas Forgas  para o “The Conversation”

Periódicos predatórios são uma das práticas ilegais mais conhecidas no sistema de publicação científica, mas não são as únicas. Existe uma forma de fraude mais sofisticada e perigosa : jornais sequestrados .

Esses são sites fraudulentos que clonam periódicos legítimos fazendo-se passar por eles, tentando enganar pesquisadores desavisados, fazendo-os pensar que podem obter uma publicação rápida e fácil em um periódico respeitável em troca de dinheiro. Na realidade, eles estão postando seus trabalhos em um simples portal da web. Eles receberam um porco por uma cutucada.

Tudo começou em 2011, quando um cibercriminoso registrou um domínio expirado (sciencerecord.com) para hospedar sete periódicos fraudulentos e três periódicos sequestrados. Desde então, o aumento dessa prática não foi isento de preocupação. Esse registro foi seguido por muitos outros que, embora fossem casos isolados, logo abriram a caixa de Pandora.

Em 2014, foi publicada uma lista de 19 revistas sequestradas . Apenas um ano depois, esse número chegou a 90 .

Atualmente, graças ao trabalho de alguns pesquisadores que procuram lançar luz sobre esse fenômeno, o número de periódicos clonados identificados já ultrapassa 200. O número real é seguramente muito maior, mas a natureza dessas publicações – que são criadas e desaparecem em um questão de alguns meses – dificulta a identificação.

Como identificar uma revista sequestrada?

Periódicos predatórios violam os direitos intelectuais de periódicos legítimos e comprometem a transferência de conhecimento. Por isso, é importante conhecer os traços que os definem e as estratégias que utilizam para enganar os pesquisadores.

Aqui estão alguns deles:

  • Eles sequestram a identidade de periódicos legítimos copiando literalmente seus títulos e ISSNs e até mesmo registrando domínios expirados de periódicos respeitáveis.
  • Eles podem tirar proveito de revistas legítimas publicadas em formato impresso para oferecer a falsa versão digital delas.
  • Eles reciclam artigos idênticos para criar um arquivo fictício na revista sequestrada para atrair a atenção de autores em potencial.
  • Eles não fazem revisão por pares.
  • Eles usam como álibi os perfis de editores e pesquisadores famosos na área de especialização da revista e os incluem em seus conselhos editoriais sem seu conhecimento ou consentimento.
  • Eles fornecem fatores de impacto falsos.
  • Eles conseguem indexar conteúdo adulterado em bancos de dados internacionais como Scopus e Web of Science.

Recomendações para evitar ser enganado

Identificar uma revista sequestrada pode ser uma tarefa árdua. Por isso é importante atender às recomendações dos especialistas antes de enviar um manuscrito. Alguns deles estão listados abaixo:

  1. Verifique se o endereço da revista na web corresponde ao revisado em bases de dados confiáveis, índices bibliográficos ou diretórios reconhecidos. Da mesma forma, e em paralelo, consulte a página WHOIS , através da qual se verifica o registo e a disponibilidade de um domínio.
  2. Baixe e avalie outros artigos publicados na revista. O pesquisador apreciará sua baixa qualidade, pois não foram submetidos a uma revisão por pares.
  3. Conheça as políticas das revistas quanto aos processos de avaliação e edição, taxas de publicação, custódia de arquivos e direitos autorais.

Por fim, cabe destacar que a publicação nesses periódicos ilegais, cujas páginas na internet desaparecem de um dia para o outro, traz consequências desagradáveis ​​para o pesquisador (descrédito de sua imagem, perda de sua produção científica, prejuízos aos editais de promoção profissional e acadêmica, fraude monetária).

É também uma queixa das revistas legítimas, que as publicações que as suplantam desacreditam, colocando em risco a confiança dos leitores sobre o que consomem.

É importante, pois, que as universidades, os centros de investigação e a comunidade acadêmica tomem as medidas necessárias para evitar essas estafas, den a conhecer esses negócios fraudulentos e acionar os protocolos de atuação pertinentes para proteger e garantir o conhecimento científico e o trabalho de os pesquisadores.

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Este artigo é parte do Projeto de Inovação Pedagógica, nº. referência PID222452, financiado pelo IRIE da Universitat de les Illes Balears, e o projeto “Congressos, revistas e editoras predatórias: desenho de um programa de formação para estudantes de pós-graduação”, financiado pela Universidade Internacional de Valência (VIU). Também faz parte das ações da Rede Ibero-Americana de Pesquisa em Integridade Acadêmica (Red-IA).


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo “The Conversation” [Aqui!  ].

ABC e Ianas reúnem comunidade científica das Américas para debater futuro sustentável da Amazônia

Encontro em Manaus visa apoiar o desenvolvimento de soluções de longo prazo e ancoradas na ciência

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Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Rede Interamericana de Academias de Ciências(Ianas) reúnem em Manaus as Academias de Ciências das Américas para discutir o desenvolvimento de soluções sustentáveis para a região amazônica. O evento Ciência por e para a Amazônia acontece nos dias 2 e 3 de agosto, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“Um encontro como este para promover a ciência feita na Amazônia e pela Amazônia é central neste momento que estamos vivendo de preparação para a COP30, daqui a dois anos. Sem ciência, não é possível construir a sustentabilidade que buscamos para o planeta como um todo, mas especialmente para o bioma amazônico, tão estratégico para as metas que queremos atingir até 2030”, afirma Helena Nader, presidente da ABC e copresidente da Ianas.

Um dos objetivos da reunião intercontinental é gerar contribuições da comunidade científica para a Cúpula dos Países Amazônicos, que será realizada em Belém na semana seguinte, em 8 e 9 de agosto.

Durante o encontro no Inpa, haverá palestras de atores regionais relevantes, como André Baniwa, diretor do departamento de Territórios na Secretaria de Direitos Ambientais do Ministério dos Povos Indígenas, e María Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado da Cooperação Amazônica (OTCA).

Representantes do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) falarão sobre a construção de um futuro sustentável para a Amazônia. E acadêmicos de todos os países com território amazônico apresentarão suas visões sobre como aliar ciência e políticas públicas para levar mais sustentabilidade à floresta. O vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val, participará deste debate.

No dia 3, as copresidentes da Ianas, Helena Nader e Karen Strier, vão apresentar a Carta de Manaus, na qual as Academias de Ciências e outras organizações científicas do continente se comprometerão a fortalecer parcerias entre países amazônicos e não amazônicos para desenvolver políticas para restauração e conservação da floresta. A versão final do documento será encaminhada às delegações dos países participantes da Cúpula Amazônica, em Belém.

Credenciamento para a imprensa

Clique aqui para acessar a programação completa do evento, que será fechado para convidados. Jornalistas credenciados poderão participar presencialmente. Para se credenciar, o jornalista deve enviar nome, CPF, veículo de imprensa e contato para o endereço carlacamargo@corcovadoestrategica.com.br até às 18h de terça-feira, 1° de agosto. Haverá ainda transmissão ao vivo no canal da ABC no Youtube.

“Science for and by the Amazon”

Data: 2 e 3 de agosto

Local: Bosque da Ciência – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

End.: R. Bem-Ti-VI, s/n – Petrópolis, Manaus – AM, 69060-001

Horário: de 9h às 17h40

Ministra Luciana Santos exalta 75 anos de história da SBPC: “Patrimônio nacional, orgulho de todos os brasileiros”

Evento foi marcado por discursos em defesa da ciência, da democracia e do papel do MCTI no diálogo com a comunidade científica

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Diego Galba (ASCOM/MCTI)

A 75ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) foi aberta neste domingo (23), em Curitiba, com o tema “Ciência e Democracia para um Brasil justo e desenvolvido”. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, exaltou a atuação da entidade ao longo da história na defesa do regime democrático e do conhecimento científico no Brasil.

“Historicamente, a ciência brasileira sempre enfrentou períodos de grandes desafios. Nestes momentos, a SBPC esteve à frente da resistência, lutando para que os tempos sombrios nunca prosperassem. A SBPC chega aos 75 anos como marca indelével do Brasil que acredita na ciência e produz ciência da mais alta qualidade. É um patrimônio nacional, orgulho de todos os brasileiros e de todas as brasileiras”, disse.

A ministra também citou ações do governo federal voltadas à ciência nos últimos seis meses, como a correção das bolsas de estudo e pesquisa; a Chamada Universal do CNPq; o anúncio do primeiro concurso público da pasta em mais de 10 anos, que inclui a recomposição do quadro das unidades de pesquisa; a redução dos juros nos financiamentos para inovação nas empresas e a retomada do valor integral do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

O evento foi marcado também pelas manifestações de pesquisadores e estudantes nos discursos e na plateia em defesa da ciência, da democracia e da continuidade do diálogo entre o MCTI e a comunidade científica.

O presidente da SBPC, Renato Janine Ribeiro, demonstrou o papel da ciência no país como ferramenta para promoção da educação, combate à fome e defesa do meio ambiente. E também frisou a importância do MCTI dentro do governo federal.

“A SBPC não é uma organização partidária, mas isso não nos impede de tomar posições políticas sempre que a política se escreva com P maiúsculo. Nosso principal interlocutor no governo federal é o MCTI. Queremos um ministério à altura do país, que atenda nossos propósitos fundamentais”, defendeu Janine.

O reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Ricardo Marcelo Fonseca, também lembrou o papel estratégico do ministério. “Eu exalto todas as verbas novas anunciadas desse Brasil novo que está acontecendo, como trago um recado dos reitores das universidades federais, no sentido de que nós valorizamos o espaço do MCTI como estratégico dentro do governo.” 

75ª SBPC

A 75ª Reunião Anual da SBPC é realizada na Universidade Federal do Paraná (UFPR) até o dia 29 de julho com a participação de representantes de sociedades científicas, autoridades e representantes do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia. O evento conta com programações presenciais e online compostas por mesas redondas, painéis, minicursos, além de atividades como a SBPC Cultural, a SBPC Jovem e o Dia da Família na Ciência.

Representantes do MCTI e instituições vinculadas participam de diferentes painéis do evento. O Ministério também está presente na ExpoT&C com a Cidade da Ciência. Uma série de estandes traz os principais projetos desenvolvidos pela pasta e suas unidades de pesquisa de forma leve e interativa. Este ano marca a volta das atividades do ministério ao mesmo espaço da ExpoT&C.,
 

Confira toda a programação e outras informações no site da SBPC.

Johnson & Johnson processa pesquisadores que ligaram o uso de seu talco ao câncer

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Por Dietrich Knauth para a Reuters 

12 de julho (Reuters) – A Johnson & Johnson processou quatro médicos que publicaram estudos citando ligações entre produtos de cuidados pessoais à base de talco e câncer, ampliando um ataque a estudos científicos que a empresa alega serem imprecisos.

A LTL Management, subsidiária da J&J, que absorveu a responsabilidade pelo talco da empresa em um controverso spin-off de 2021, entrou com uma ação na corte federal de Nova Jersey na semana passada pedindo para forçar três pesquisadores a “retratar e/ou emitir uma correção” de um estudo que dizia que produtos de talco de consumo contaminados com amianto causavam o desenvolvimento de mesotelioma.

Um dos pesquisadores, Richard Kradin, se recusou a comentar. Os outros dois, Theresa Emory e John Maddox, não responderam aos pedidos de comentários. Os advogados que representaram os três pesquisadores em processos semelhantes no passado se recusaram a comentar.

A J&J está enfrentando mais de 38.000 ações judiciais alegando que os produtos de talco da empresa, incluindo o produto para bebês, foram contaminados por amianto e causaram cânceres, incluindo câncer de ovário e mesotelioma. A J&J está tentando resolver esses processos, bem como quaisquer processos futuros sobre talco, por meio de um acordo de US$ 8,9 bilhões no tribunal de falências.

A J&J parou de vender produtos com base de talco em favor de produtos à base de amido de milho, citando um aumento de ações judiciais e “desinformação” sobre a segurança do produto talco.

A empresa em 2021 começou a explorar a falência como uma solução potencial para os processos, que tiveram um histórico misto no julgamento, incluindo várias vitórias de defesa, mas também um veredicto de US $ 2,1 bilhões concedido a 22 mulheres que culparam o câncer de ovário ao amianto nos produtos de talco da empresa. A J&J disse em processos de falência em abril que os custos de seus veredictos, acordos e honorários advocatícios relacionados ao talco chegaram a cerca de US$ 4,5 bilhões.

O processo da semana passada contra Emory e Maddox, patologistas afiliados à Peninsula Pathology Associates em Newport News, Virgínia, e Kradin, um pneumologista que trabalhou no Massachusetts General Hospital Cancer Center antes de sua aposentadoria, vem na sequência de outra queixa apresentada pela LTL contra outra médica, Jacqueline Moline, que trabalha na Northwell Health em Great Neck, Nova York, por motivos semelhantes.

Moline publicou um artigo em 2019 estudando 33 pacientes que disseram que sua única exposição ao amianto veio de produtos de talco, e Emory, Kradin e Maddox seguiram com um estudo de 2020 com 75 pacientes semelhantes.

Todos os quatro médicos forneceram depoimentos de especialistas em processos contra a J&J, e suas pesquisas foram citadas em processos em que não testemunharam, de acordo com as denúncias.

LTL disse que os pesquisadores esconderam o fato de que alguns ou todos os pacientes envolvidos em seus estudos foram expostos ao amianto de outras fontes.

A empresa também está pedindo ao tribunal que obrigue os pesquisadores a revelar a identidade dos pacientes.

Os processos alegam depreciação e fraude de produtos, entre outras reivindicações.

Adam Zimmerman, professor da Faculdade de Direito Gould da Universidade do Sul da Califórnia, disse que as empresas raramente abrem processos por pesquisas com as quais discordam. Será muito difícil para a LTL provar que os pesquisadores prejudicaram intencionalmente a reputação da J&J, o que é necessário para casos de depreciação de produtos em Nova Jersey, mas a empresa pode ver os processos como uma forma de desencorajar outros pesquisadores ou recuperar a narrativa sobre a segurança do talco, disse Zimmerman.

“Quando um litigante começa a processar especialistas adversários, isso é muito agressivo”, disse Zimmerman. “Ele envia uma mensagem de que as luvas estão fora.”

Moline argumentou em documentos judiciais que o litígio da LTL teria um efeito profundamente assustador em pesquisas médicas futuras se a empresa pudesse desmascarar os pacientes “na esperança de difamá-los publicamente”. Seus processos judiciais dizem que o processo da LTL foi feito para “atacar e silenciar” os cientistas, e que ela tem uma obrigação ética de proteger as identidades de seus sujeitos de pesquisa.

Os processos da LTL alegam que a pesquisa dos médicos lhes permitiu coletar milhões de dólares dos advogados dos queixosos para promover uma “narrativa falsa” sobre a J&J. A queixa contra Moline, por exemplo, dizia que ela havia feito uma “pequena fortuna” testemunhando como especialista paga em ações judiciais, recebendo mais de US$ 3 milhões por seu trabalho em ações judiciais relacionadas ao amianto. A LTL alegou que Kradin também ganhou mais de US$ 3 milhões testemunhando como especialista dos queixosos.

Os pesquisadores não puderam ser imediatamente contatados para comentar.

A LTL entrou com processos semelhantes contra os pesquisadores em dezembro de 2022, mas essas reclamações estavam relacionadas ao primeiro pedido de falência da LTL e foram indeferidas junto com o restante da falência em abril.

Os casos são LTL Management v. Moline e LTL Management v. Emory, Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito de Nova Jersey, nºs 23-cv-02990 e 23-cv-03649.

Para LTL: Peter Harvey de Patterson Belknap Webb & Tyler; Allison Brown de Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom; e Kristen Fournier de King & Spalding

Para Moline: Kevin Marino e John Tortorella de Marino Tortorella & Boyle

Para Emory, Kradin e Maddox: Ainda não disponível 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

“Quanto mais subimos na carreira científica menos mulheres cientistas encontramos” | Camila Silveira da Silva

Pesquisadora fala da violência e discriminação que as mulheres ainda enfrentam nos meios científicos e sobre as ações de projeto que busca dar maior visibilidade às mulheres cientistas e estimular meninas a seguir carreira acadêmica

Premio-Estrategia-ODS9O projeto Meninas e Mulheres nas Ciências foi finalista do prêmio Estratégia ODS que destaca projetos que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Foto: Divulgação Estratégia ODS

Por Ciência UFPR

A Ciência UFPR conversou com a professora do Departamento de Química da UFPR, Camila Silveira da Silva. A pesquisadora falou sobre os obstáculos que as mulheres ainda encontram no ambiente da produção científica e sobre o trabalho do projeto Meninas e Mulheres nas Ciências (MMC), que coordena.

A professora, que é licenciada em Química pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) onde também cursou mestrado e doutorado em Educação para Ciência, vem estudando as trajetórias das mulheres cientistas, especialmente nas ciências exatas, buscando destacar suas contribuições e estudando as dificuldades que a discriminação de gênero impõe para mulheres nas carreiras científicas, tendo trabalhos também com a temática de museus de ciência e desenvolvimento de materiais didáticos.

Os materiais e atividades desenvolvidas no projeto de extensão já foram adotados em escolas por todo o Brasil. A iniciativa dá visibilidade às trajetórias de mulheres que marcaram a história da ciência, oferecendo formação para professores e atuando na criação de material didático com foco em pesquisadoras de destaque, além de atividades aplicadas diretamente a estudantes tanto de forma presencial quanto online.

A ideia é oferecer uma perspectiva que rompa com o viés masculino que normalmente é dado para o ambiente científico nesse tipo de material, oferecendo uma alternativa que estimule meninas a se interessar pelo campo científico, rompendo com o estereótipo machista prevalecente. A iniciativa também apoia a pesquisa em torno do tema orientando trabalhos de pesquisa na graduação e pós-graduação

Trechos

“O que mais me chamava a atenção, era o apagamento das mulheres nos materiais didáticos, a dificuldade de elaborar práticas educativas pela falta de referências pedagógicas nas Ciências Exatas, os obstáculos para localizar dados biográficos das cientistas”

“O que eu passei a notar foi a naturalização que elas tinham incorporado em suas práticas profissionais dos processos de exclusão de mulheres, da violência e discriminação de gênero ao partilharem suas trajetórias de vida e acadêmica”

“Os trabalhos liderados por mulheres, em diversas ocasiões, são menos valorizados que aqueles que contam com liderança masculina. São em menor número: as citações de mulheres em artigos, teses, dissertações; as aprovações de projetos com financiamento; as conferências principais nos congressos; a composição nas bancas de concursos; as bolsas de produtividade em pesquisa; a presidência de sociedades científicas; etc. Há, ainda, laboratórios, grupos de pesquisa, orientadoras(es) que não aceitam trabalhar com mulheres, ou se aceitam, as discriminam por seu gênero”

“Outra experiência que gosto de compartilhar é de várias alunas negras, de uma escola pública periférica do Distrito Federal, querendo tirar fotografias com os desenhos de cientistas negras que elas estavam colorindo e dizendo o quanto elas se pareciam com elas, com suas mães e irmãs”

“É fundamental que as meninas sejam motivadas com exemplos positivos de mulheres cientistas, encorajadas em seus sonhos pela escola e familiares, e tenham as condições para que possam seguir seus estudos”

“Como inspirar jovens para as Ciências se o campo científico continuar sendo sexista, racista, elitista, excludente? Como despertar o interesse de crianças e jovens se não temos boas condições de trabalho nas escolas? Essas reflexões precisam gerar ações e políticas públicas que tornem a carreira científica atrativa para as(os) jovens”

Veja a entrevista no site da revista Ciência UFPRhttps://ciencia.ufpr.br/portal/?p=23008