Enquanto a ciência climática toca a sirene, os governos apertam o botão da soneca

O alerta de Eliot Jacobson converge com o diagnóstico do IPCC e com os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre sobre a gravidade da crise climática

O professor Eliot Jacobson escolheu um título deliberadamente brutal para seu artigo mais recente, publicado no boletim The Climate Casino: “More Fucked Today than Yesterday”, algo como “estamos mais ferrados hoje do que ontem”. A linguagem rompe com a cautela habitual dos relatórios científicos, mas o diagnóstico central encontra respaldo nas principais instituições que monitoram o clima da Terra. O sistema climático global continua se deteriorando, enquanto governos, empresas e sociedades agem como se ainda dispusessem de tempo abundante para enfrentar a crise.

Jacobson examina indicadores como a temperatura média global, o aquecimento dos oceanos, o desequilíbrio energético da Terra, a redução do albedo e a perda de gelo polar. Esses dados não pertencem a um campo marginal da ciência. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NASA, o programa europeu Copernicus, a Organização Meteorológica Mundial e o IPCC trabalham com as mesmas variáveis para avaliar o estado do sistema climático.

A principal diferença entre Jacobson e os grandes organismos científicos não está nos dados, mas na linguagem e no ritmo da análise. O IPCC reúne milhares de estudos, constrói consensos e organiza suas conclusões por níveis de confiança e probabilidade. Esse processo assegura enorme robustez científica, mas também produz documentos que muitas vezes chegam ao público depois que novos recordes já alteraram o quadro observado. Jacobson acompanha séries atualizadas e procura transmitir a velocidade com que os limites anteriores vêm sendo superados.

Por isso, seu discurso pode parecer mais alarmante do que os relatórios do IPCC. No entanto, ambos apontam para a mesma direção. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC afirma de forma inequívoca que as atividades humanas provocaram o aquecimento global e já produziram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera. Essas transformações aumentam a frequência e a intensidade de eventos extremos e atingem com maior severidade as populações que menos contribuíram para a crise climática.

Jacobson dedica atenção especial ao aquecimento dos oceanos. As águas absorvem a maior parte do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa. Esse acúmulo favorece ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, deslocamento de populações de peixes, proliferação de algas tóxicas e alterações nas cadeias alimentares. O calor oceânico também pode fornecer mais energia para tempestades tropicais e ampliar o potencial destrutivo de eventos extremos.

O desequilíbrio energético da Terra constitui outro eixo de sua análise. O planeta absorve atualmente mais energia do que devolve ao espaço. Os gases de efeito estufa dificultam a saída da radiação infravermelha, enquanto mudanças nas nuvens, nos aerossóis, no gelo e na neve alteram a quantidade de energia solar refletida. Enquanto esse desequilíbrio persistir, o sistema climático continuará acumulando calor.

A redução do albedo amplia ainda mais o problema. Superfícies claras, como gelo e neve, refletem grande parte da radiação solar, enquanto oceanos e solos escuros absorvem mais energia. Quando o gelo derrete, superfícies mais escuras ficam expostas, acumulam calor adicional e aceleram o próprio derretimento. Jacobson chama esse processo de “grande escurecimento” do planeta, expressão que sintetiza a perda progressiva da capacidade terrestre de refletir a energia solar.

A ciência ainda investiga o peso relativo de cada um desses mecanismos, e algumas projeções apresentadas por Jacobson carregam incertezas importantes. A comunidade científica ainda precisa determinar se os recordes registrados desde 2023 indicam uma aceleração estrutural do aquecimento ou se resultam de uma combinação entre mudança climática, El Niño, redução de aerossóis e outras formas de variabilidade natural.

Essa incerteza, porém, não justifica complacência. Em situações que envolvem consequências potencialmente catastróficas, a incerteza deveria reforçar o princípio da precaução. O IPCC afirma que cada fração adicional de grau amplia riscos, perdas e danos. A diferença entre 1,5 °C, 2 °C ou mais de aquecimento não constitui uma abstração estatística, pois representa maior pressão sobre ecossistemas, sistemas agrícolas, infraestrutura, saúde pública e disponibilidade de água.

O IPCC também adverte que existe uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente para garantir um futuro habitável. Reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões ainda poderiam desacelerar perceptivelmente o aquecimento nas próximas décadas. Portanto, o clima futuro não está completamente determinado. A humanidade ainda pode limitar parte dos danos, mas cada ano de atraso reduz o orçamento de carbono restante e exige transformações futuras ainda mais abruptas.

O principal obstáculo já não é a falta de conhecimento. A ciência demonstrou a origem humana do aquecimento, identificou seus mecanismos e descreveu grande parte de suas consequências. A dificuldade encontra-se nas instituições políticas e econômicas que continuam protegendo a expansão do petróleo, do carvão, do gás natural, do desmatamento e de padrões de consumo incompatíveis com a estabilidade climática.

O próprio IPCC reconhece a distância entre as metas anunciadas e as políticas efetivamente adotadas. Os compromissos nacionais continuam insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C, enquanto os investimentos em mitigação e adaptação permanecem muito abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, governos seguem aprovando infraestruturas fósseis que permanecerão em operação durante décadas.

Jacobson torna essa contradição impossível de ignorar. Os organismos científicos descrevem uma emergência, mas os governos tratam a crise climática como apenas mais uma agenda administrativa. As conferências internacionais se repetem, as metas se acumulam e as emissões globais continuam incompatíveis com os objetivos oficialmente anunciados.

Essa dissociação entre ciência e decisão política aparece com clareza no Brasil. O país procura se apresentar como liderança ambiental, mas amplia a produção de petróleo, defende novas fronteiras de exploração, incentiva grandes projetos de mineração e autoriza empreendimentos com elevado consumo de energia, água e infraestrutura. A expansão dos datacenters, por exemplo, avança sem que o debate público examine adequadamente seus impactos cumulativos sobre os territórios, os recursos hídricos e os sistemas elétricos.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma das comunidades científicas mais qualificadas do mundo para analisar a crise climática. Os trabalhos do físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e participante das avaliações do IPCC, demonstram as relações entre a floresta amazônica, os aerossóis, a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o clima regional e global. Artaxo alerta há anos que o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global enfraquecem os mecanismos ecológicos que permitem à Amazônia regular o clima e transportar umidade para outras regiões da América do Sul.

As pesquisas coordenadas por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acrescentaram evidências decisivas a esse diagnóstico. A partir de medições atmosféricas realizadas com aeronaves, Gatti e seus colaboradores demonstraram que áreas do leste e do sudeste da Amazônia perderam parte de sua capacidade de absorver carbono. Nessas regiões, as emissões associadas às queimadas, ao desmatamento e à degradação florestal já podem superar a absorção realizada pela vegetação.

Esses resultados mostram que a crise amazônica não pertence apenas ao futuro. As áreas mais desmatadas registram temperaturas mais elevadas, estações secas mais longas e maior vulnerabilidade ao fogo. O desmatamento reduz a evapotranspiração, diminui a formação de chuvas e cria condições que favorecem novas perdas florestais. A degradação passa, assim, a alimentar sua própria continuidade.

As evidências produzidas por Artaxo e Gatti convergem com os reiterados alertas públicos do climatologista Carlos Nobre. Há décadas, Nobre chama atenção para o risco de a Amazônia alcançar um ponto de inflexão, a partir do qual a perda florestal e o aquecimento poderiam desencadear uma transformação extensa e potencialmente irreversível do ecossistema. O prolongamento das estações secas, o aumento das temperaturas, os incêndios recorrentes e a redução da capacidade de reciclar umidade constituem sinais coerentes com esse risco.

Carlos Nobre também destaca que a preservação da Amazônia interessa a todo o continente. A floresta influencia a distribuição das chuvas, sustenta grande parte da biodiversidade planetária e armazena enormes quantidades de carbono. Sua degradação ameaça a produção agrícola, a geração hidrelétrica, o abastecimento urbano e a estabilidade climática muito além das fronteiras do bioma.

Os três cientistas brasileiros analisam dimensões complementares do mesmo processo. Paulo Artaxo investiga as relações entre floresta, partículas atmosféricas, nuvens e clima. Luciana Gatti mede diretamente as mudanças no balanço de carbono. Carlos Nobre integra essas evidências em um diagnóstico sistêmico sobre o risco de ruptura do equilíbrio ecológico e climático da Amazônia.

Esses trabalhos demonstram que o Brasil não pode alegar desconhecimento. O país possui dados, instituições e capacidade técnica para compreender os riscos que enfrenta. Apesar disso, as decisões estratégicas do Estado frequentemente subordinam o conhecimento científico aos interesses imediatos das cadeias petrolíferas, minerais, agropecuárias e financeiras.

A contradição se torna ainda mais grave porque o Brasil combina enorme vulnerabilidade climática com elevado potencial de mitigação. O controle do desmatamento poderia produzir resultados rápidos, enquanto a restauração florestal, a transformação dos sistemas alimentares, o fortalecimento do transporte coletivo e a expansão planejada das energias renováveis poderiam reduzir emissões e desigualdades ao mesmo tempo.

No entanto, o Brasil continua tratando a proteção ambiental como obstáculo ao crescimento e o licenciamento como uma formalidade a ser flexibilizada. A mesma lógica aparece na adaptação. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, incêndios e erosão costeira já afetam milhões de brasileiros, mas os governos continuam investindo menos na prevenção do que nas respostas emergenciais posteriores aos desastres.

O mérito do texto de Eliot Jacobson reside em recusar a transformação dos recordes climáticos em uma nova normalidade. Uma temperatura oceânica sem precedentes não representa apenas mais um ponto em um gráfico. Uma temporada excepcional de incêndios não constitui apenas uma anomalia anual. A repetição desses eventos altera as condições de existência das sociedades e dos ecossistemas.

Jacobson também identifica um fracasso da comunicação. A imprensa noticia recordes durante alguns dias e depois retorna à rotina como se o problema tivesse desaparecido. Governos anunciam metas para 2030 ou 2050, mas aprovam hoje projetos que ampliarão as emissões durante décadas. Empresas divulgam compromissos de neutralidade climática enquanto expandem a exploração de combustíveis fósseis.

A linguagem contundente de The Climate Casino procura romper essa normalização. Ela não substitui o rigor científico do IPCC nem dispensa a necessidade de distinguir observações, projeções e hipóteses. No entanto, expõe uma questão que os documentos institucionais nem sempre conseguem comunicar: a distância entre a gravidade das evidências e a lentidão da resposta política tornou-se uma fonte adicional de risco.

Jacobson não anuncia simplesmente um apocalipse inevitável. Ele mostra que cada novo recorde reduz o tempo e as condições disponíveis para agir. O IPCC chega à mesma conclusão ao afirmar que a janela de oportunidade para garantir um futuro habitável se fecha rapidamente.

A leitura conjunta dessas duas formas de comunicação produz uma conclusão incômoda. A humanidade não enfrenta a crise climática por falta de informação. Ela enfrenta a crise porque os interesses que lucram com a destruição ambiental ainda controlam grande parte das decisões econômicas e políticas.

Os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre reforçam esse diagnóstico no contexto brasileiro. A Amazônia já emite sinais claros de alteração funcional, partes da floresta perderam capacidade de absorver carbono e o risco de cruzar limiares críticos cresce com a continuidade do desmatamento e do aquecimento global. O Estado brasileiro não pode celebrar sua ciência no exterior enquanto ignora suas conclusões dentro do país.

Estamos em uma situação pior do que ontem não porque o colapso total aconteça de um dia para o outro, mas porque cada dia de emissões adicionais acumula energia no sistema climático, amplia os riscos e reduz as possibilidades de evitar mudanças irreversíveis. Amanhã poderá ser ainda pior caso a sociedade continue confundindo prudência científica com autorização para a inércia.

A crise climática exige redução imediata das emissões, interrupção do desmatamento, proteção e restauração dos ecossistemas, abandono da expansão das fronteiras fósseis e investimentos públicos maciços em adaptação. A ciência internacional e brasileira já cumpriu sua tarefa de formular o alerta. Resta saber se as sociedades conseguirão construir força política suficiente para transformar esse conhecimento em ação antes que as advertências atuais se convertam em descrições tardias de oportunidades definitivamente perdidas.

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