Vacina desenvolvida na China mostra sinais promissores para o combate ao coronavírus

vacina chinesa

O mundo inteiro vem esperando ansiosamente pelo desenvolvimento de uma vacina  que possa acabar com a pandemia da COVID-19 que matou mais de 330.000 pessoas até  o momento.  Eis que agora, surge a primeira candidata a ser uma vacina viável, segundo artigo publicado no dia ontem (22/05) pela respeitada revista “The Lancet”, que disponibilizou o trabalho em formato digital para que os resultados alcançados por uma equipe liderada pelo professor Chen Wei, professor do Instituto de Biotecnologia de Beijing, e membro da Academia de Ciências Médicas Militares e  da Academia Chinesa de Engenharia.

wei chen

A vacina, classificada como “vetor adenovírus recombinante tipo 5” (Ad5-nCoV), atuaria como uma infecção natural e é especialmente boa em ensinar ao sistema imunológico como combater o vírus, e foi testada em 108 voluntários. Estes voluntários foram   divididos em três grupos, cada um tomando uma dose diferente da vacina.

vacina anticorposRespostas específicas de anticorpos ao domínio de ligação ao receptor e anticorpos neutralizantes do SARS-CoV-2 vivo

O estudo mostra que após 28 dias de inoculação da vacina, nenhuma reação séria foi encontrada nos participantes, indicando que a vacina parece ser tolerada por seres humanos.  Além disso,  anticorpos contra o SARS-CoV-2 começaram a aumentar nos voluntários duas semanas após a injeção, tendo atingido o pico no dia 28 do experimento.   Com base nos resultados obtidos na chamada “fase 1” do experimento,já foi iniciado o ensaio clínico de fase 2, agora com a participação de 508 voluntários envolvidos. É importante notar que  existem outras duas vacinas sendo testadas em seres humanos na China, a ShaCoVacce  a PiCoVacc.

Entretanto, ainda há dúvidas sobre a possibilidade dessa vacina ser usada para todos os grupos etários,  já que ela usa um vírus do resfriado humano vivo, porém enfraquecido, o adenovírus 5, no qual o material genético do coronavírus SARS-CoV-2 foi fundido. O vírus Ad5 é efetivamente um sistema de entrega que ensina o sistema imunológico a reconhecer o coronavírus.  Entretanto, dado que muitas pessoas já tiveram infecções anteriores com adenovírus 5, levantando preocupações de que o sistema imunológico se concentre nas partes Ad5 da vacina e não na parte SARS-Cov-2. 

Afora os elementos científicos que cercam este experimento da equipe liderada pelo professor Chen Wei, obviamente o elemento geopolítico da corrida em torno da descoberta de uma vacina eficiente para controlar a COVID-19. É que o presidente chinês, Xi Jinping, declarou que uma vacina eventualmente desenvolvida pela China seria considerada como um “bem público global“, e que esta designação seria uma a contribuição chinesa para garantir a acessibilidade e a acessibilidade das vacinas nos países em desenvolvimento”.

Uma imagem vale mais do que milhões de palavras para demonstrar a letalidade da COVID-19

Das lentes do fotógrafo Edmar Barros, o mesmo cemitério com 37 dias de separação, a clareza do impacto da COVID-19 em um cemitério em Manaus, capital do estado do Amazonas.

mesmo cemitério

Diante dessa evidência irrefutável da letalidade da COVID-19, especialmente entre os mais pobres, é que me parece que qualquer tentativa de flexibilizar o isolamento social no Brasil neste momento não pode ser caracterizado como algo menos do que um genocídio.

Por isso, aos leitores deste blog, reforço que é fundamental continuarmos o trabalho de solidariedade que é convencer todos os que são próximos, e também não tão próximos, que não é possível relativizar a gravidade que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil. Cuidar de si e todos os que forem possíveis de serem alcançados. Depois a gente faz os devidos acertos políticos com quem permitiu que essa situação alcançasse o nível que está alcançando.

Financial Times prevê mais de 100.000 mortos por COVID-19 no Brasil

APTOPIX Virus Outbreak BrazilFinancial Times prevê que número de mortos por COVID-19 no Brasil deverá ultrapassar 100.000 nos próximos meses

O jornal britânico “Financial Times”, que não chega nem de perto de ser uma versão contemporânea do “Gazeta Renana” de Karl Marx, publicou ontem um artigo assinado pelos jornalistas Bryan Harris e Andres Schiapini sob o título “Brazil emerges as a top global coronavirus hotspot” (ou em português “O Brasil emerge como um dos principais epicentros de coronavírus do mundo”).   Com base nas previsões de vários especialistas consultados, Harris e Schiapini apontam que mais de 100.000 brasileiros irão morrer por causa da COVID-19 no mundo, com a possibilidade de que este número esteja subestimado em função da flagrante subnotificação de casos e falta de uma política de testagem em massa da população.

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Entre as razões estruturais pelas quais a COVID-19 deverá ter um efeito tão devastador no Brasil está a profunda desigualdade social e econômica existente no Brasil, que torna extremamente difícil que os habitantes dos cinturões de pobreza extrema possam adotar as medidas de isolamento social que estão sendo propostas por governadores e prefeitos.  Uma expressão usada para exemplicar esta situação de superpopulação em áreas pobres,  Harris e Schiapini apontam que “as pessoas estão vivendo nas favelas umas em cima da outras”.

Um dado colocado na matéria é particularmente chocante para os que não conhecem o Brasil, pois é citada a cifra de que em 2019 ” a renda média mensal dos 1%  brasileiros mais ricos foi mais de 33 vezes a renda média dos 50% inferiores da população”. Tal desproporção de renda é que estaria alimentando a dispersão particularmente agressiva nas áreas mais pobres.

Entretanto, a matéria do Financial Times é particularmente crítica da postura adotada pelo presidente Jair Bolsonaro na gestão da pandemia da COVID-19 no Brasil, a pontos dos jornalistas incluírem a afirmação que o nosso país está enfrentando dois vírus neste momento: o coronavírus e o bolsonarovírus.  Harris e Schiapini apontam ainda que o tratamento da pandemia por Jair Bolsonaro já levou à saída de dois ministros da saúde, sendo que o último, Nelson Teich, foi substituído por um oficial militar, que não tem experiência na área da saúde ou no complexo serviço de saúde pública do Brasil.

A matéria lembra ainda que a gravidade do surto combinada com a falta de uma resposta política coerente abalou a confiança dos negócios e levou a moeda a cair.  Em função disso, desde janeiro, o real caiu 32% em relação ao dólar, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deverá cair 7% ou mais em 2020.

O fato é que, dado o público leitor preferencial do Financial Times, esta matéria deverá repercussões sérias entre os chamados investidores internacionais. À parte da “toxicidade” do Real, a instabilidade social e política que deverá se seguir ao imenso número de mortos deverá tornar os investimentos no Brasil pouquíssimo interessantes, mesmo para especuladores do mercado financeiro.

Mas enquanto o Financial Times traça um perfil tão sombrio para a evolução da pandemia no Brasil, as elites econômicas e os governantes parecem estar em um processo paralelo de compreensão da realidade (como se vivem na “Matrix”  das irmãs Wachowski). É que apenas no dia de ontem, ouviu-se a mesma ladainha de que a vida precisa voltar ao normal e o comércio reabrir, inclusive na cidade do Rio de Janeiro onde a própria prefeitura estima que nas próximas duas semanas mais de 40.000 pessoas deverão ser infectadas pelo coronavírus.

Aliás, a cereja no bolo dos negacionistas da gravidade que a pandemia assumiu no Rio de Janeiro foi a volta aos treinos da equipe do Clube de Regatas do Flamengo. É que dada a imensa de massa de torcedores que o time tem não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, as imagens dos seus jogadores batendo bola alegremente, como se não houvesse pandemia, certamente será usada em imagens televisivas para defender a volta ao trabalho.

A verdade inescapável é que se dependermos do compromisso do presidente Jair Bolsonaro e da maioria dos governadores e prefeitos, a pilha de mortos poderá ser maior do que o estimado na matéria do Financial Times. Esta é a verdade pura e simples, pois a realidade é que as elites brasileiras nunca se preocuparam com a vida (e muito menos a morte dos pobres que o modelo de capitalismo implantado no Brasil gerou). A saída para impedira concretização dos piores cenários para esta pandemia terá de sair da ação de movimentos sociais, sindicatos e da população organizada. Lamentavelmente esse esforço terá de se dar em meio à condições marcadas pela extrema miséria e pela violência do aparelho de estado, como vem ocorrendo no Rio de Janeiro nos últimos dias.

Sleeping Giants ganha versão brasileira para dificultar financiamento de fake news por empresas

Movimento expõe empresas do Brasil que financiam, via anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas

Movimento expõe empresas que financiam sites bolsonaristas ...

Inspirada em modelo dos EUA, versão brasileira da conta Sleeping Giants alerta companhias sobre publicidade em páginas que ajudam a propagar a desinformação. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine retiram propaganda

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Telecine e Dell se comprometeram a vetar a anúncios em página denunciada por fake news.

Por Breiller Pires para o jornal “El País”

Com o intuito de minar a sustentação econômica de sites e canais ligados à extrema direita, o movimento Sleeping Giants, nascido há quatro anos, nos Estados Unidos, fincou bandeira em solo brasileiro no último domingo. Após ler uma reportagem do EL PAÍS sobre o perfil no Twitter que desidratou a publicidade online dos principais influenciadores ultraconservadores norte-americanos, um estudante que desenvolve pesquisas a respeito de fake news decidiu criar uma conta em português para difundir prática semelhante no Brasil: alertar empresas de que seus anúncios aparecem em conteúdos pouco confiáveis, associados a notícias falsas e desinformação, e alimentam o financiamento de páginas extremistas.

“Sempre pensei em formas de combater notícias falsas, mas nunca havia encontrado uma eficiente”, diz o administrador da versão brasileira, que, em apenas dois dias, ganhou mais de 20.000 seguidores. “Até que descobri essa maneira simples de aplicar usando a desmonetização.” Por questões de segurança, ele prefere não se identificar e celebra ter obtido aval dos precursores do Sleeping Giants para replicar a iniciativa. Seu fundador na matriz, o publicitário Matt Rivitz, recebeu ameaças de morte depois de um site conservador revelar sua identidade.

Enquanto a conta original norte-americana se define como “um movimento para tornar o fanatismo e o sexismo menos lucrativos”, o perfil adaptado ao contexto político brasileiro pretende “impedir que sites preconceituosos ou de fake news monetizem através da publicidade”. Em pouco tempo de atuação, o Sleeping Giants Brasil já conseguiu que pelo menos seis empresas se comprometessem a revisar políticas de anúncios via Google após serem alertadas de que suas marcas estampavam a página Jornal da Cidade Online. Em 2018, o site disseminou notícias falsas e informações distorcidas a favor da campanha de Jair Bolsonaro, como um artigo insinuando que, no segundo turno da eleição, Ciro Gomes teria se decidido pelo voto no candidato de extrema direita.

Agências de checagem como a Aos Fatos atribuem outras fake news à página, que atualmente tem se dedicado a atacar governadores que apoiam as medidas de isolamento social no enfrentamento à pandemia de coronavírus e, em sintonia com as redes bolsonaristas, utiliza dados imprecisos para defender a eficácia (não comprovada por estudos científicos) da hidroxicloroquina no tratamento da doença. Jornal da Cidade Online exibe anúncios por meio do sistema de publicidade digital desenvolvido pelo Google.

Um dos anunciantes expostos no Sleeping Giants Brasil que aparecem no site é o Telecine, primeiro a manifestar publicamente a intenção de retirar sua propaganda da página alinhada à extrema direita. “Somos totalmente contra a disseminação de fake news e precisamos, juntos, combatê-la”, expressou o perfil do canal fechado ao assumir o compromisso de analisar todos os portais que veiculam seus anúncios. “Restringimos e estamos sempre atentos para não estarmos em sites questionáveis voltados à disseminação de fake news, difamação e linguagem grosseira, conteúdos sensacionalistas e chocantes e propagação de mensagens de ódio, afirma o Telecine. “As restrições que incluímos diminuem drasticamente a probabilidade de termos nossas campanhas veiculadas em sites contrários às nossas políticas, e o trabalho dos nossos times é incansável para corrigir eventuais falhas que possam ocorrer com mídias automatizadas.”

A Dell, que também aparece em banners exibidos pelo Jornal da Cidade Online, atendeu à solicitação do Sleeping Giants Brasil. “Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.” Em nota enviada ao EL PAÍS, a empresa de computadores diz manter parceria com a DoubleVerify, serviço que mede a efetividade das entregas de anúncios, para monitorar suas campanhas publicitárias, além de possuir “uma extensa lista de negativação de sites de fake news e com conteúdo duvidoso, que é constantemente atualizada”.

Nesta quarta, o Submarino afirmou ter bloqueado anúncios no Jornal da Cidade Online e estar tomando providências para barrar sites semelhantes. “Caso vejam mais outro caso, podem me mandar, tá? Obrigado por avisarem!”, postou o perfil da empresa. O Banco do Brasil também comunicou a retirada de propagandas do site, repudiando a divulgação de fake news, o que gerou reação do vereador Carlos Bolsonaro. O filho do presidente criticou a decisão da entidade e saiu em defesa do Jornal da Cidade Online. “Marketing do Banco do Brasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas. Não falarei nada pois dirão que estou atrapalhando…”, comentou o vereador do Rio de Janeiro.

Outras grandes empresas e marcas como O Boticário e Samsung são citadas por seguidores do Sleeping Giants Brasil entre anunciantes do Jornal da Cidade Online, que tem o topo da página preenchido por um anúncio fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS). A reportagem do EL PAÍS ainda identificou anúncios da Polishop no site. Segundo o marketing da empresa, a propaganda exibida se baseia na ferramenta de display do Google, que rastreia sites recentemente visitados por usuários ao direcionar anúncios. O TCE-MS não respondeu aos questionamentos enviados ao órgão.

Em nota, a Samsung afirma aplicar o bloqueio padrão a sites que propagam desinformação e que revisa constantemente seus anúncios automáticos para aprimorar as inserções. “A Samsung reforça seu compromisso ético com a transparência e reitera que não compactua com a disseminação de notícias falsas”, escreve a empresa de tecnologia, que não especificou se o Jornal da Cidade Online se encaixa em seus parâmetros de páginas que deveriam ser bloqueada. Já O Boticário informou que incluiu o Jornal da Cidade Online em uma lista de sites vetados em campanhas online, identificados como páginas tendenciosas ou de conteúdos sensíveis a exemplo de álcool, drogas e violência. “Quando percebemos algo que passou despercebido, incluímos imediatamente na lista de bloqueios”, diz a marca de beleza. “Nossos parceiros são escolhidos de acordo com o perfil do nosso consumidor, somado às especificidades da mensagem que queremos passar. E grande parte da entrega do Google é pautada em mídia programática, pois foca nos usuários, e não no anunciante.”

Sistema permite vetar sites e canais específicos

Mídia programática é uma das maiores fontes de receita de sites e influenciadores de extrema direita. A ferramenta proporciona aos anunciantes a compra de espaços publicitários de acordo com dados de usuários da internet, enquanto produtores de conteúdo recebem por visualizações e cliques em anúncios exibidos em suas páginas. O serviço é oferecido por plataformas como Facebook e Google, desenvolvedor do Adsense, um dos meios de publicidade mais populares do mercado. Entre seus filtros de controle, as empresas podem evitar que anúncios sejam veiculados para determinados grupos de pessoas, em conteúdos peneirados por palavras-chave ou até mesmo em páginas específicas negativadas pelo anunciante.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas”, afirma o porta-voz do Google. “Temos políticas contra conteúdo enganoso em nossas plataformas e trabalhamos para destacar conteúdo de fontes confiáveis. Agimos rapidamente quando identificamos ou recebemos denúncia de que um site ou vídeo viola nossas políticas.” De acordo com a empresa, somente em 2019, mais de 21 milhões de páginas tiveram anúncios retirados e 1,2 milhão de contas foram encerradas por desrespeitar as regras da plataforma.

Em seu perfil, o Sleeping Giants Brasil ressalta que, devido ao sistema de anúncios em larga escala, “a maioria das empresas não sabe que está financiando esse tipo de mídia [de extrema direita ou propagação de fake news], então buscamos conscientizá-las”, em vez de promover campanhas de boicote às marcas, para que retirem propagandas de conteúdos sensacionalistas e, consequentemente, os desmonetizem. No YouTube, que também é gerido pelo Google, a reportagem identificou mais ações de publicidade exibidas em canais ultraconservadores.

Uma campanha da Mastercard, estrelada chef de cozinha Alex Atala, precede o início de vídeos do canal O Giro de Notícias (GDN), com mais de 1 milhão de inscritos. Em publicações recentes, o apresentador bolsonarista Alberto Silva se concentra em incitar manifestações pelo fim do Congresso e do STF, além de minimizar o impacto da pandemia no país. No último dia 6 de maio, ele subiu um vídeo com o título “Urgente – Descoberta a cura do Covid-19”, em que repercute matéria do Estadão sobre uma pesquisa holandesa em torno de um anticorpo com potencial para neutralizar o coronavírus. Embora leia a parte da notícia que destaca a necessidade de mais testes antes de certificar a eficácia do anticorpo em seres humanos, Silva trata o estudo como “cura”, além de identificar a repórter que assina a matéria como cientista. Em 2017, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que um site mantido pelo influenciador retirasse do ar uma notícia que atribuía afirmação falsa ao cantor Gilberto Gil.

Campanha da Mastercard veiculado em vídeo de canal bolsonarista.
Campanha da Mastercard veiculado em vídeo de canal bolsonarista.

No vídeo em que aparece o anúncio da Mastercard, o apresentador relata que o PT estaria “fazendo reunião na calada da noite” com “a turma do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, entre outras pessoas, com o objetivo dpegar o presidente Bolsonaro”. Entretanto, ao longo da fala de 10 minutos, Silva não menciona quando nem onde teria acontecido a suposta reunião. “A mídia programática é uma parte importante de nossa estratégia e mix de marketing em geral”, escreve a Mastercard em comunicado enviado ao EL PAÍS. “Estamos monitorando continuamente essa abordagem, fazemos ajustes contínuos para que nosso conteúdo seja exibido apenas em canais adequados e comprometidos com altos padrões éticos de publicidade, não apoiando a disseminação de notícias falsas.”

O EL PAÍS ainda registrou anúncios de produtos, que direcionam para a loja online da Drogaria São Paulo, em vídeos do Folha Política. Com quase 2 milhões de inscritos, o canal é derivado de um site homônimo, que, em 2018, teve páginas derrubadas pelo Facebook por propagação de notícias falsas e uso de técnicas irregulares que criavam uma espécie de “fazenda de anúncios” em mídia programática. Apesar da Drogaria São Paulo divulgar em seu site vídeos do médico Drauzio Varella alertando sobre a necessidade de cumprimento das recomendações de isolamento social e a falta de comprovação científica da eficácia da hidroxicloroquina, seus anúncios surgem em vídeos do Folha Política que incentivam aglomerações em protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro e fazem lobby pela liberação do medicamento para tratamento do coronavírus. A rede de farmácias não respondeu aos questionamentos da reportagem.

No vídeo em que aparece o anúncio da Mastercard, o apresentador relata que o PT estaria “fazendo reunião na calada da noite” com “a turma do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, entre outras pessoas, com o objetivo de pegar o presidente Bolsonaro”. Entretanto, ao longo da fala de 10 minutos, Silva não menciona quando nem onde teria acontecido a suposta reunião. “A mídia programática é uma parte importante de nossa estratégia e mix de marketing em geral”, escreve a Mastercard em comunicado enviado ao EL PAÍS. “Estamos monitorando continuamente essa abordagem, fazemos ajustes contínuos para que nosso conteúdo seja exibido apenas em canais adequados e comprometidos com altos padrões éticos de publicidade, não apoiando a disseminação de notícias falsas.”

O EL PAÍS ainda registrou anúncios de produtos, que direcionam para a loja online da Drogaria São Paulo, em vídeos do Folha Política. Com quase 2 milhões de inscritos, o canal é derivado de um site homônimo, que, em 2018, teve páginas derrubadas pelo Facebook por propagação de notícias falsas e uso de técnicas irregulares que criavam uma espécie de “fazenda de anúncios” em mídia programática. Apesar da Drogaria São Paulo divulgar em seu site vídeos do médico Drauzio Varella alertando sobre a necessidade de cumprimento das recomendações de isolamento social e a falta de comprovação científica da eficácia da hidroxicloroquina, seus anúncios surgem em vídeos do Folha Política que incentivam aglomerações em protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro e fazem lobby pela liberação do medicamento para tratamento do coronavírus. A rede de farmácias não respondeu aos questionamentos da reportagem.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

WWF da Alemanha mostra avanço maciço do desmatamento nos trópicos durante a pandemia do coronavírus

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O WWF reclama da destruição maciça de florestas durante a crise do coronavírus. A destruição teria aumentado em até 150%. Áreas na Indonésia, Brasil e Congo são as mais afetadas.

Durante a pandemia de coronavírus, a destruição da floresta tropical aumentou enormemente em todo o mundo. Isso surge de um estudo da fundação ambiental WWF, para o qual avaliou dados de satélite da Universidade de Maryland.

“Tudo indica que estamos lidando com um efeito coronavírus quando o desmatamento está explodindo”, diz Christoph Heinrich, diretor de Conservação da Natureza do WWF na Alemanha. A área das florestas tropicais dos 18 países examinados encolheram no mês de março “Coronavírus” em 6500 km2, cerca de sete vezes a área de Berlim.

A destruição da floresta aumentou cerca de 150%

Segundo a análise do WWF, isso significa um aumento na destruição de florestas em média 150% em comparação com os anos de 2017 a 2019. Os países mais afetados em março foram a Indonésia com mais de 1300 km2, o Congo com 1000 km2 e o Brasil com 950 km2.

O Instituto de Pesquisa da Amazônia (Imazon) também registrou o desmatamento de 529 km2 na Amazônia em Abril – um aumento de 171% em relação ao mesmo mês em 2019.

Lei controversa no Congresso Brasileiro

Segundo o Imazon, muitos desmatamentos no Brasil podem ter sido causados ​​por invasores que ainda não possuem títulos de propriedade. O cientista Carlos Souza, que estuda a mudança na floresta amazônica, disse: “primeiro eles ocupam o espaço público e depois tentam obter legalmente essas áreas”.

Isso poderia ser possível no futuro com a chamada lei de apropriação de terras: este projeto de lei foi apresentado pelo presidente da extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, em dezembro. O projeto será tratado no Congresso nos próximos dias. Se adotado, a nova lei legalizaria posteriormente o desmatamento ilegal e a ocupação ilegal de terras públicas antes de 2018. Internacionalmente, Bolsonaro tem sido amplamente criticado por esses e outros planos de suavizar a proteção ambiental no Brasil.

Florestas como fonte de renda na crise do coronavírus

Segundo informações da WWF, as pessoas usam a floresta em muitos lugares como fonte de renda devido a cortes de empregos. O suporte financeiro e técnico pode ajudar a conter a destruição.

Para proteger as florestas, o WWF pede apoio dos países em desenvolvimento e emergentes. A assistência técnica e financeira pode ajudar a reduzir o desmatamento ilegal. Isso inclui não apenas uma melhor aplicação das leis, mas também a criação de fontes alternativas de renda e o alívio de problemas sociais por meio das conseqüências da pandemia de coroa.

No entanto, a alavanca mais poderosa são as relações comerciais internacionais. Há uma necessidade urgente de padrões sociais e ambientais melhores e vinculativos, especialmente para cadeias de suprimentos livres de desmatamento. Segundo dados do WWF, cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na União Europeia contribui para o desmatamento nos trópicos. “A proteção das florestas é uma tarefa comum que ninguém pode evitar”, disse Heinrich, membro do conselho da WWF.

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Este texto foi publicado originalmente em alemão pela rede Tagesschau [Aqui!].

Suécia teve em abril a maior taxa de mortalidade em décadas

Os suecos confiaram nele na crise do coronavírus: o epidemiologista Anders Tegnell. Ele foi fundamental para a adoção de um caminho especial pela governo sueco. Mas agora ele admite que estava errado em suas previsões. Fonte: WELT / Laura Fritsch

Na pandemia causada pelo coronavírus, a Suécia escolheu uma rota especial. Isso pode ter consequências dramáticas: 10.458 pessoas morreram no país em abril – mais do que em qualquer outro mês desde dezembro de 1993.

anders tegnellO epidemiologista Anders Tegnell agora reconhece surpresa com o alto número de mortos resultante da adoção da política do não-confinamento durante a pandemia da COVID-19 na Súecia.

Os suecos, que seguiram um caminho especial na pandemia de coroa, registraram a maior taxa de mortalidade em anos. Conforme relatado pela autoridade estatística sueca, 10.458 pessoas morreram na Suécia, que tem uma população de 10,3 milhões no mês passado – mais do que em qualquer outro mês nas últimas décadas.

“Temos que voltar a dezembro de 1993 para ter mais mortes em apenas um mês”, disse Tomas Johansson, da agência de estatísticas. Ao longo de 1993, a Suécia teve mais de 97.000 mortes – a taxa mais alta desde 1918, quando a gripe espanhola era comum na Suécia.

Segundo Johansson, não há explicação oficial para o alto número de mortes em 1993. No entanto, a Suécia foi atingida por uma epidemia de gripe naquele ano.

A Suécia está tomando uma rota especial na pandemia sem restrições de saída. Escolas para crianças menores de 16 anos permaneceram abertas, assim como cafés, bares, restaurantes e lojas. Pede-se às pessoas que respeitem os regulamentos de distância por sua própria responsabilidade.

A via sueca agora está sendo criticada; pois o número de mortes  pelo coronavírus excede o de outros países escandinavos que tinham restrições estritas de saída. Na terça-feira, a Suécia registrou 3.743 mortes por doença pulmonar de COVID-19 causada pelo coronavírus, de acordo com a Universidade Johns Hopkins . O número de infecções foi dado como 30.799.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo canal de TV Welt [Aqui!].

Em meio aos caos criado por Jair Bolsonaro, Brasil atinge a marca macabra de 1.000 mortes diárias

Bolsonaro e Mandetta ignoram recomendação de uso de máscara contra ...

Há quatro dias atrás, o insuspeito jornal “The Washington Post” publicou uma matéria intitulada “Drug promoted by Trump as coronavirus ‘game changer’ increasingly linked to deaths” (o que em português pode ser lido como ” Droga promovida por Trump como “divisor de águas” do coronavírus cada vez mais ligada a mortes”. Obviamente, o artigo assinado pelo trio de jornalistas Toluse OlorunnipaAriana Eunjung Cha e Laurie McGinley falava da hidroxicloroquina, uma variante menos tóxica da hoje famigerada Cloroquina.  O vaticínio final do artigo foi de que as evidências em prol do uso da cloroquina a partir de estudos sérios não são apenas ausentes, mas como estão confirmados vários malefícios do uso do medicamento.

wp cloroquina

Enquanto isso, o congênere brasileiro de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro continuou sua cruzada dupla que, por um lado, insiste no fim das medidas de confinamento social em prol de uma suposta retomada dos empregos e, de outro, demanda a adoção generalizada da mesma cloroquina que foi desmoralizada como ineficiente na matéria mostrada acima.

Há que se lembrar que por causa da insistência na adoção generalizada da cloroquina, o Brasil perdeu em menos de um mês não apenas um, mas dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich), e que estamos navegando a pandemia como um cego que tateia as paredes de uma caverna escura. É que o substituto interino de Nelson Teich, o general  Eduardo Pazuello, reconheceu ser um “leigo nas questões técnicas na área da saúde“.  Em outras palavras, o general Pazuello está desde a saída de Nelson Teich no lugar errado, e na nossa pior hora, quando se trata de enfrentar uma pandemia letal. 

vitimas covid-19

Hoje (19/05) veio a consequência mais concreta do caos que foi instalado no Ministério da Saúde, pois o Brasil acaba de superar a marca macabra de 1.000 mortes diárias  (o equivalente a 13 quedas do avião que vitimou a equipe da Chapecoense) por COVID-19, em um total de 1.179 óbitos em 24 horas, ou um morto a cada 73 segundos! Quando eu previ há algumas semanas que o caos sendo instalado na gestão da pandemia iria causar a chegada dessa quantidade de mortos, tive que conviver com a cara de espanto da pessoa com quem eu conversava.  Lamentavelmente, minha previsão estava certa, e agora temo que cheguemos a números ainda maiores do que os enfrentados em países como EUA, Itália, Espanha, Reino Unido e França.  

Por que essa previsão tão ruim? Simplesmente porque perdemos vários cavalos que passaram encilhados para não chegarmos a esta situação, mas a insistência do presidente Jair Bolsonaro de desacreditar as medidas de isolamento social, combinada com a aquiescência da maioria dos seus ministros, acelerou a curva de contaminação. Agora, nos resta esperar que o vírus siga o seu ritmo, enquanto a rede hospitalar ultrapassa a linha do colapso total.

Esse balanço é fundamental para que depois que passada a grande onda da pandemia, possamos fazer os devidos ajustes de conta com os responsáveis pela catástrofe que está se abatendo sobre um número incalculável de famílias brasileiras, especialmente aquelas vivendo nos grandes bolsões de pobreza que estão espalhados pelas grandes cidades brasileiras. 

Finalmente, para aqueles que estão hoje se perguntando sobre o que é realmente importante neste momento. Eu diria que é se manter saudável, aplicando as regras de confinamento social e de higiene pessoal que são, por enquanto, as ferramentas mais eficazes para se enfrentar a difusão acelerada do coronavírus.

Brasil constrói a própria catástrofe na pandemia

País se torna terceiro do mundo em número de casos de COVID-19 e avança para se tornar o epicentro global da doença, enquanto presidente se esquiva de responsabilidade. E, ao que tudo indica, o pior ainda não passou.

coronafestBolsonaro ignora consenso científico internacional e volta apoiar aglomeração em Brasília

No fim de semana, viu-se novamente um clima de festa entre os jovens na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. E ao longo das famosas avenidas litorâneas da cidade, muitos apreciavam o drinque noturno, muitos sem a máscara de proteção determinada pela prefeitura. Depois de dois meses cheios de restrições, muitas pessoas em bairros mais abastados parecem se se comportar relaxadamente.

Por outro lado, muitos vivem com medo nas favelas, onde o vírus é galopante. “Colocando a proteção facial e sempre limpando as mãos com desinfetante, não acontece nada”, afirma o funcionário de uma pequena mercearia que faz entregas de bicicleta aos clientes em quarentena. Sua esposa, que trabalhava fazendo faxina para famílias com melhores condições, está em casa há meses por medo. “Mal se consegue sobreviver”, diz o marido.

O coronavírus atinge particularmente os pobres que, apesar do perigo, não podem simplesmente ficar em casa e não podem contar com nenhuma clínica particular bem equipada no caso de uma emergência. Com 256 mil casos confirmados e mais de 16,8 mil mortes, o Brasil estava em terceiro lugar nas estatísticas globais de coronavírus nesta terça-feira (19/05).

Mas é provável que o número real de mortes seja mais que o dobro, e o número de casos não relatados de infecção pode ser até 15 vezes maior. Sem testes, os especialistas ficam no escuro. E como os hospitais públicos estão superlotados em muitas localidades, cada vez mais pessoas morrem em casa sem serem testadas.

Os números oficiais já são, por si só, suficientemente assustadores. Atualmente, até 15 mil novas infecções e mais de 800 mortes são relatadas todos os dias. As curvas apontam acentuadamente para cima, não há achatamento à vista. Imagens de valas comuns em Manaus e São Paulo rodam o mundo. No centro da cobertura da mídia está o presidente Jair Bolsonaro, que parece estar pouco preocupado com o sofrimento dos cidadãos.

De “gripezinha” a foco da epidemia

Bolsonaro ainda acha que o vírus causa uma “gripezinha” e ele suspeita que, por trás dessa “histeria”, esteja a China. Ele acredita que alguém quer prejudicar a ele e ao presidente dos EUA, Donald Trump. No início de março, Bolsonaro visitou o líder americano na Flórida. Ao retornar, mais de 20 membros da delegação brasileira testaram positivo para o coronavírus, um desastre de relações públicas para Bolsonaro.

Ele desrespeita deliberadamente as regras de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu próprio Ministério da Saúde. De forma demonstrativa, ele tira selfies e aperta as mãos de seus seguidores, que protestam todos os domingos em frente ao Palácio do Planalto pelo fim das medidas de combate à pandemia. O ex-paraquedista disse que, por seu “histórico de atleta”, ele não precisaria se preocupar e “nada sentiria”, caso fosse contaminado pelo vírus.

Além disso, nas grandes cidades do país, há caravanas de carros de apoiadores de Bolsonaro. Eles criticam abertamente os governadores e prefeitos que fecharam shopping centers e lojas, atividades que não são consideradas essenciais na pandemia. Enquanto seus adversários atribuíam a Jair Messias Bolsonaro o número crescente de mortes, ele comentou com escárnio: “E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres.”

Orações e remédio para malária

Mesmo assim, ele pediu aos seus compatriotas que orassem contra o vírus. Além disso, da mesma forma que Trump, ele está exigindo o uso de cloroquina, um medicamento contra a malária. Bolsonaro instruiu os laboratórios das Forças Armadas a fabricar milhões de comprimidos do remédio.

Depois que recusou-se a aprovar o uso da controversa droga, o médico Luiz Henrique Mandetta teve que deixar o cargo de ministro da Saúde em meados de abril. Seu sucessor, o oncologista Nelson Teich, também se recusou a prescrever cloroquina para pacientes com covid-19. Após 28 dias no cargo, Teich jogou a toalha na última sexta-feira.

Até o momento, não foi possível comprovar a eficácia do medicamento contra a covid-19. Em vez disso, em muitos pacientes, ele leva à arritmia cardíaca. Os médicos suspeitam que centenas de brasileiros tenham morrido em casa nas últimas semanas porque se trataram com cloroquina sem supervisão médica.

No entanto, o Ministério da Saúde deverá mudar esta semana o protocolo para o uso da cloroquina: Bolsonaro quer que o medicamento seja usado de forma ampla e, não somente em casos graves com orientação médica, mas também no início do tratamento.

Bolsonaro contra governadores

Os ex-ministros da saúde Mandetta e Teich também caíram em desgraça por apoiarem as medidas de distanciamento social ordenadas por governadores e prefeitos. Bolsonaro, por outro lado, quer reabrir “quase tudo” para salvar a economia brasileira. “Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados”, disse o presidente, apontando que os culpados são os governos locais.

Mas Bolsonaro está de mãos atadas. Porque os governadores e prefeitos são responsáveis por decidir sobre medidas de confinamento. Como os hospitais em algumas regiões já estão sobrecarregados, cada vez mais governos locais estão anunciando medidas drásticas. O bloqueio total já foi anunciado em alguns municípios do Rio de Janeiro, e o governo estadual está prestes a fazê-lo em São Paulo, unidade mais populosa da federação e que já tem mais mortes do que a China. A situação é ainda mais dramática no Norte e Nordeste, onde as cidades de Belém, Manaus e Fortaleza não têm mais leitos hospitalares livres.

Por insistência do Congresso, o governo iniciou pagamentos de ajuda a trabalhadores informais e mães solteiras. O auxílio emergencial de 600 reais será pago durante três meses. Até 50 milhões de pessoas, cerca de um quarto dos brasileiros, têm direito ao benefício. A procura é enorme. Em todo o país, o pagamento caótico da primeira parcela vem causando filas em frente às agências bancárias há semanas ‒ e provocando provavelmente muitas novas infecções.

Mas a recessão iminente pode salvar Bolsonaro, cuja aprovação está caindo nas pesquisas. Para tal, ele tem que conseguir culpar os governos locais pela miséria econômica.

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Brasil- o inferno da pandemia

O coronavírus está se espalhando rapidamente no maior país da América Latina. O presidente Jair Bolsonaro ainda conta com a flexibilização: ele quer se distrair de acusações sérias contra ele. 

hospital de campanhaNovo hospital de campanha no Rio de Janeiro.  Foto: AFP / Carl de Souza

Por   Ramona Samuel und Tobias Käufer para o Berliner Zeitung

Rio de Janeiro: “O pior”, diz Fleury Johnson, “é que não podemos ajudar as pessoas da maneira que é realmente necessária.” O médico de 28 anos trabalha na UPA Mesquita, um centro médico inicial no Rio de Janeiro. A estação está localizada na Baixada Fluminense, o largo cinturão de bairros pobres que circundam a enorme cidade. Nenhum turista e nenhum estrangeiro chegam lá. Como se costuma dizer no Rio, o verdadeiro Brasil está lá em casa. Tudo é diferente lá do que nos bairros ricos de Ipanema ou Copacabana, onde os hospitais também são melhores.

Ao longo da parede de concreto da UPA, uma grade azul leva à única entrada para todos os pacientes. “24 horas de cuidados” está escrito na parede. Fleury Johnson está enfrentando o maior desafio de sua vida atualmente: o coronavírus chegou ao seu país de origem. E deve ser derrotado.

“Temos muitos pacientes que se pensa terem COVID-19”, diz Johnson. O que dificilmente pode ser feito: Existem poucos ventiladores para muitos pacientes que realmente precisam deles. E, acima de tudo, há muito poucos leitos de terapia intensiva, porque a enfermaria onde ele trabalha é, na verdade, apenas o primeiro ponto de contato dos pacientes. Mas para onde, com as muitas pessoas doentes? “Os pacientes permanecem simples. E não é possível encontrar um local gratuito nos hospitais. Não temos suporte suficiente. “

A situação na UPA é preocupante. Não é possível diferenciar aqui entre pacientes com sintomas semelhantes aos da gripe dos pacientes que vêm por causa de outras doenças. Muitos que querem obter ajuda aqui nem usam proteção bucal.  E o que faz com que o vírus possa se espalhar ainda mais.

O que a equipe médica da UPA Mesquita experimenta agora é comum em todo o Brasil: centros de saúde e hospitais estão sobrecarregados com o atendimento de pacientes com corona e desmoronam. As razões para isso são caseiras. “Existe uma política neste país que quer reduzir a saúde pública. Há um interesse em privatizar o sistema “, diz a médica Cristina Brito, 42 anos.” O que falta é que as pessoas e seu tratamento estejam no centro da política “.

Cristina Brito

A doutora Cristina Brito critica a política de saúde.  Foto: Cristina Brito

O sistema de saúde brasileiro estava em ruínas e cheio de corrupção antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente e antes da pandemia de corona.

Antes da Copa do Mundo de 2014, várias centenas de milhares de pessoas em todo o país saíram às ruas para demonstrar investimentos em educação e saúde, em vez de em estádios da FIFA. Mas o curso já estava definido.

E piorou: o Brasil ficou impressionado com a organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O aumento esperado não se concretizou. Propagação da corrupção, caixas registradoras foram saqueadas. E a raiva contra a classe política cresceu. O que acabou levando à eleição do populista de direita Bolsonaro. E ele também colocou o lápis vermelho no setor de saúde.

O Brasil já registrou oficialmente mais de 240.000 infecções por coroa e quase 16.000 pessoas morreram. Em relação à população de quase 210 milhões de pessoas, esses são números comparáveis ​​- ainda. Porque nos últimos dias os números aumentaram rapidamente. Ninguém sabe se o Brasil está caminhando para um desastre ou se o topo da curva já foi atingido. E, acima de tudo, ninguém sabe quantas pessoas nos bairros pobres realmente morreram de Covid-19 e não foram incluídas nas estatísticas.

A situação na região amazônica também é dramática. Somente em Manaus, o número de mortes aumentou para mais de 2.000. E a desconfiança das estatísticas oficiais é grande. “Os números que conhecemos como movimento indígena são muito maiores do que aqueles que a autoridade oficial SESAI anuncia”, diz Sonia Guajajara na conversa por vídeo.

Guajajara é o coordenador da Associação dos Povos Indígenas Brasileiros e um dos ativistas mais destacados pelos direitos indígenas. A população indígena é exposta ao vírus sem proteção, as dificuldades para protegê-lo são imensas.

A autoridade competente SESAI deve finalmente tomar medidas para proteger a vida dos povos indígenas. “Precisamos de centros de saúde onde as pessoas são tratadas”, diz Guajajara. “E os hospitais também precisam ser construídos para fornecer serviços básicos aos povos indígenas. Especialmente na região amazônica, onde o sistema de saúde já entrou em colapso. “

Aliás, os povos indígenas do Brasil estão travando outra luta que quase foi esquecida. “Nesta crise, não devemos esquecer que o desmatamento está progredindo”, diz Guajajara. Madeireiros ilegais continuam a penetrar em territórios indígenas, trazendo o vírus com eles. Há também um sistema por trás disso, suspeita Guajajara. O desmatamento já existia sob outros governos. Mas Bolsonaro é contra os direitos humanos, contra os povos indígenas e contra a proteção ambiental. “Ele tem uma política destrutiva. Ele institucionalizou o genocídio no Brasil ”, diz Guajajara. No país, cresce o número de pessoas que suspeitam que o governo nacional não agiu para impedir a propagação da pandemia na Amazônia.

Novos fatos também devem ser criados à sombra da pandemia. Nesta semana, o Congresso decide sobre uma iniciativa legislativa chamada “MP da Grilagem” – liminar para a apropriação de terras. A lei, comenta a Sociedade para os Povos Ameaçados, fornece uma anistia para ocupação ilegal e desmatamento, mesmo de terras indígenas. Os ocupantes ilegais tornam-se proprietários legais.

“Se as regras entrarem em vigor como o poderoso lobby agrícola deseja, os conflitos fundiários surgirão em todo o Brasil. Territórios indígenas na Amazônia, por exemplo, também seriam afetados ”, temia Juliana Miyazaki, consultora da Sociedade de Povos Ameaçados. “Esta lei seria um convite para mais apropriação de terras, mais cortes e queimadas e mais violência contra os povos indígenas em suas áreas protegidas”.

De fato, a pandemia de coroa continua a polarizar o país. Agora existem dois campos. Há o presidente Bolsonaro, que há muito tempo subestimou e subestimou o perigo da pandemia e agora está em campanha pela abertura da vida social. E existem aqueles que lutam rigorosamente contra o vírus.

Às vezes, os campos se reúnem, como aconteceu recentemente durante uma manifestação em Brasília, quando os profissionais de saúde queriam chamar a atenção para as vítimas em suas próprias fileiras. Com cruzes de madeira pretas nas quais os nomes dos médicos e enfermeiros que sofrem de COVID-19 podiam ser lidos. Eles foram atacados, insultados e retratados como mentirosos pelos apoiadores de Bolsonaro. Houve brigas.

O campo de Bolsonaro, por outro lado, organizou carreatas que exigem um “retorno ao trabalho”. Os participantes foram insultados pelos transeuntes. A fenda que atravessa a sociedade está se aprofundando.

Jair Messias Bolsonaro, presidente, é responsável por esse desenvolvimento. Contra todos os conselhos dos médicos, ele continua se misturando com as pessoas, causando multidões e zombando dos meios de comunicação que reportam criticamente sobre a propagação do vírus. “Meu nome é Messias, mas não posso fazer milagres”, disse ele com um encolher de ombros recentemente, quando perguntado sobre a propagação do vírus.

Uma luta pelo poder ocorreu em seu próprio gabinete por causa dessa atitude casual. O ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que usou critérios científicos para combater a pandemia e fez campanha pelo fechamento de contatos, perdeu a luta contra Bolsonaro, comprometido com a abertura da vida econômica. Menos de quatro semanas depois, o sucessor de Mandetta, Nelson Teich, desistiu exasperado. No meio da pandemia, há um caos na política de saúde.

“Não levarei meu povo à pobreza apenas para receber elogios da mídia”, disse Bolsonaro há algumas semanas, estabelecendo assim o caminho. Enquanto os governadores e prefeitos às vezes impõem restrições rígidas de saída e paralisam a vida econômica, Bolsonaro se apresenta como advogado de vendedores ambulantes e lojistas. Nesta semana, ele declarou academias, salões de beleza e cabeleireiros como sendo sistemicamente importantes, sabendo que todas essas instalações fazem parte do modo de vida brasileiro. Isso torna ainda mais difícil para os governadores implementar seu curso difícil.

Bolsonaro precisa dessa luta para se libertar de uma crise política doméstica. Nas últimas semanas, o presidente perdeu dois ministros populares, Mandetta e o ministro da Justiça, Sergio Moro, que haviam vinculado o potencial eleitoral tradicionalmente conservador.

Além disso, há uma disputa legalmente controversa sobre uma suposta interferência do presidente nos assuntos da Polícia Federal, que está investigando os filhos de Bolsonaro. Mais e mais políticos estão pedindo que Bolsonaro seja destituído do cargo. Mas isso também abriga o risco de que o presidente possa se apresentar como vítima. Com a “discussão de abertura” que ele iniciou, Bolsonaro tenta suprimir os problemas nas primeiras páginas. E seu ponto de vista está ganhando cada vez mais seguidores.

O médico Fleury Johnson, da UPA em Mesquita, não tem entendimento e, acima de tudo, não tem tempo para debates domésticos desse tipo. Ele não apenas combate a pandemia, mas também os problemas que o equipamento de proteção coloca para ele. É insuficiente e não oferece ajuda a ele como segurança suficiente. Johnson diz: “Todo dia que vou trabalhar, sei que o que acontece lá é muito pior do que o que aparece na mídia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo “Berliner Zeitung” [Aqui!].

Em editorial, jornal “Le Monde” faz dura avaliação da atuação de Jair Bolsonaro na gestão da pandemia

Brasil: a perigosa fuga de Jair Bolsonaro

Apesar de um custo cada vez mais pesado, o presidente brasileiro continua afirmando sem se preocupar que o coronavírus é uma “gripezinha” ou uma “histeria” nascida da “imaginação” da mídia.

bolsonaro le monde
Editorial do jornal “Le Monde” de 18.05.2020
Não há dúvida de que algo podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro, pode afirmar sem se preocupar que o coronavírus é uma “gripezinha” ou uma “histeria” nascida da “imaginação” “mídias. Algo está apodrecido quando Bolsonaro pede às autoridades locais que retirem restrições, afirma que a epidemia “começa a desaparecer” enquanto cemitérios atravessam enterros recordes . Quando seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, defende o “comunavírus”, alegando que a pandemia é o resultado de uma conspiração comunista. Quando o ministro da Saúde, Nelson Teich, renunciou em 15 de maio, quatro semanas após sua nomeação para esse portfólio crucial, por “diferenças de opinião”, no dia em que o país alcançou 240.000 casos confirmados e mais de 16.000 mortos.
Para muitos, as horas sombrias no Brasil, hoje a quinta nação mais afetada pela pandemia, são remanescentes às da ditadura militar de 1964, quando o país foi submetido ao medo e à arbitrariedade. Com uma diferença significativa: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde fatos e realidade não existem Mais. Nesse universo tenso, nutrido por calúnias, inconsistências e provocações mortais, a opinião é polarizada em uma nuvem de idéias simples, mas falsas.
A negação mantida pelo governo Bolsonaro dissuade metade da população de que não é preciso se isolar, enquanto os pedidos de distanciamento físico lançados por profissionais de saúde, governadores e prefeitos são apenas moderadamente acompanhados. A atividade econômica deve continuar a todo custo, disse Bolsonaro, que está lutando acima de tudo para medir a pandemia enquanto faz um cálculo político insano: ele espera que os efeitos devastadores da crise sejam atribuídos aos seus oponentes.
Caos sanitário
Um oficial subalterno expulso do exército e um obscuro deputado de extrema-direita, zombado de seus pares por três décadas, Bolsonaro não era um estadista. Chegando ao poder, devorado pela amargura e pela nostalgia marrom, o ex-capitão da reserva continuou acusando o odiado “sistema”. Postura que, durante uma pandemia aguda, causa caos na saúde e semeia a morte.
Traindo os fatos, os governantes populistas acabam acreditando em suas próprias mentiras. Vemos isso em outras partes do mundo. Mas aqui, neste país que surgiu há apenas vinte e cinco anos da ditadura, onde a democracia permanece frágil e até disfuncional, o fato de politizar dessa maneira uma crise de saúde excessiva é totalmente irresponsável.
Com uma base de 25% dos eleitores, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. Hoje, algumas pessoas evocam o cenário de um golpe institucional. Diante da multidão que veio apoiá-lo em Brasília, o presidente deixou claro em 3 de maio que se o Supremo Tribunal Federal investigasse ele ou seus parentes, ele não respeitaria a decisão dos juízes. Depois de praticar a negação histórica do Holocausto, elogiando a ditadura, negando a existência dos incêndios na Amazônia e a gravidade da pandemia de COVID-19, Bolsonaro e sua tentação autoritária correm o risco de levar o país a uma perigosa corrida adiante.
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Este editorial do jornal “Le Monde” foi originalmente publicado em francês [Aqui!].