Reportagem revela como rede complexa de ONGs, corporações, bancos de desenvolvimento e capital filantrópico está remodelando a “bioeconomia” da Amazônia

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva faz um joinha após receber um tradicional cocar indígena do Cacique Raoni Metuktire, chefe do povo Kayapo, durante uma cerimônia em Brasília, Brasil, em abril de 2023. (Foto AP/Eraldo Peres/Alamy).

Por Monica Piccinini para “YourVoiz” 

Uma rede complexa de ONGs, corporações, bancos de desenvolvimento e capital filantrópico está remodelando a “bioeconomia” da Amazônia. Mas, à medida que o dinheiro entra na região, novas questões surgem sobre poder, influência e quem realmente determina o futuro da floresta tropical.

Nos últimos vinte anos, a linguagem usada para descrever a floresta amazônica foi gradualmente mudando. Antes visto principalmente como um ecossistema vulnerável que precisa de proteção contra o desmatamento e exploração, agora é cada vez mais descrito em termos econômicos como um sistema de valor mensurável e importância crescente nas discussões financeiras e políticas.

Grandes instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o World Resources Institute (WRI) e fundos climáticos globais têm sido centrais na promoção dessa ideia, desenvolvendo estruturas que conectam a conservação a abordagens baseadas no mercado.

Alguns dos doadores do WRI incluem Cargill, Bezos Earth Fund, Bill and Melinda Gates Foundation, CLUA, Google, Good Energies Foundation, Ford Foundation, Gordon and Betty Moore Foundation, Meta, Rockefeller Philanthropy Advisors, Skoll Foundation, Oak Foundation, Banco Mundial, Departamento de Estado dos EUA, Walmart e muitos outros.

À primeira vista, o conceito é simples e atraente: uma floresta viva pode valer mais do que uma desmatada, se seu valor ecológico for devidamente reconhecido e valorizado.

Mas essa mudança traz consequências. Quando uma floresta se torna um sistema econômico, ela não é mais guiada pela proteção ambiental ou por prioridades sociais. Em vez disso, ela passa a ser moldada por expectativas financeiras, métricas, metas de desempenho e a necessidade de gerar retornos.

Nesse contexto, a conservação não é mais apenas sobre proteção. Ela passa a se vincular a ideias de eficiência, produtividade e escala.

A Amazônia, em outras palavras, não está apenas sendo preservada, está sendo reorganizada.

A arquitetura oculta

Grande parte dessa transformação acontece fora de vista. Muito antes de os projetos alcançarem territórios ou comunidades específicas, suas bases são lançadas em outros lugares, por meio de planejamento financeiro, parcerias institucionais e estratégias de investimento.

O que está surgindo não é apenas financiamento para conservação, mas um sistema projetado para tornar a natureza investidora.

Esse sistema depende de parcerias entre instituições públicas, bancos de desenvolvimento e investidores privados. Juntos, eles estão construindo estruturas financeiras que transformam a conservação em algo que pode ser financiado em larga escala.

Organizações como a Corporação Financeira Internacional, IFC (membro do Grupo Banco Mundial), o banco brasileiro de desenvolvimento, BNDES, e o banco estatal alemão de desenvolvimento, KfW, são centrais para a construção desses frameworks, estruturando instrumentos que permitem que capital se mova para regiões historicamente consideradas muito arriscadas para investimento.

Mas o financiamento não vem sem condições. Os projetos devem ser mensuráveis, escaláveis e alinhados às expectativas dos investidores.

Isso cria um efeito sutil de filtragem. Iniciativas enraizadas em tradições locais e formas não comerciais de gestão da terra não são explicitamente excluídas, mas muitas vezes têm dificuldade em se encaixar nesses quadros e, por isso, muitas vezes permanecem à margem.

Finanças mistas: o motor da bioeconomia

No cerne desse sistema está a “finança mista”, um modelo que combina dinheiro público, financiamento filantrópico e investimento privado para reduzir riscos e atrair capital em grande escala.

BID, o IFC e fundos como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) são fundamentais no desenho desses mecanismos, muitas vezes trabalhando em coordenação com atores nacionais como o BNDES. A intenção é mobilizar grandes volumes de capital para conservação, tornando projetos financeiramente viáveis para investidores privados.

Na prática, esse modelo redistribui o risco financeiro de forma altamente estruturada. Instituições públicas e atores filantrópicos, como a Fundação Gordon e Betty Moore e alianças como a Climate and Land Use Alliance, normalmente absorvem prejuízos iniciais ou oferecem garantias, permitindo que investidores privados participem com retornos mais previsíveis.

O mecanismo é eficaz em certo sentido: ele traz níveis de financiamento que a conservação historicamente teve dificuldades em alcançar.

Mas isso também levanta uma questão mais profunda: se o risco é compartilhado, quem se beneficia das recompensas?

A influência do financiamento misto vai além do financiamento, ela molda como os projetos se apresentam. Como os investidores exigem previsibilidade, as iniciativas geralmente são projetadas em torno de resultados mensuráveis, como créditos de carbono, commodities certificadas e receitas ligadas à biodiversidade.

Isso pode impulsionar a inovação, mas também pode limitar o que é possível. Projetos focados em saúde ecológica de longo prazo, continuidade cultural ou formas não comerciais de gestão podem ter dificuldade para atrair apoio.

Com o tempo, isso tem um efeito cumulativo. O sistema não financia apenas a bioeconomia, ele a define. Ela determina o que é visível, o que cresce e o que fica para trás.

O risco também assume novas formas. Ele aparece quando narrativas sobre sustentabilidade avançam mais rápido que a realidade no terreno, ou quando pequenos sucessos são amplificados apesar das pressões ambientais contínuas.

Preocupações com greenwashing nem sempre vêm de alegações totalmente falsas. Frequentemente, elas emergem da própria estrutura, de um sistema onde retornos financeiros e reputação estão intimamente ligados.

Nesse processo, a Amazônia não está apenas sendo protegida, mas também atraída para sistemas financeiros que remodelam como a natureza é valorizada e como o sucesso é medido.

Intermediários

No Brasil, certas organizações atuam como intermediárias-chave, como o Fundo Brasileiro de Biodiversidade (FUNBIO), que está no centro desses fluxos financeiros.

Ativa desde 1996, a FUNBIO foi criada com o apoio do GEF e parceiros multilaterais. Opera como um centro financeiro, arrecadando fundos de governos, corporações e instituições filantrópicas, e redistribuindo-os para projetos por toda a Amazônia e Brasil.

Lista de doadores e parceiros do FUNBIO. Fonte: FUNBIO

Esse papel confere a essas instituições influência significativa. Eles não financiam apenas iniciativas, ajudam a determinar quais são bem-sucedidos, quais modelos são expandidos e quais abordagens são priorizadas.

Embora essa concentração possa melhorar a eficiência, ela também concentra o poder de tomada de decisão dentro de uma rede relativamente pequena.

Um exemplo claro é o Projeto de Carbono da Floresta de Suruí, lançado em 2009 e gerenciado em parte pela FUNBIO em parceria com o povo indígena Paiter-Suruí. O projeto foi amplamente visto como um esforço pioneiro para conectar a conservação aos mercados de carbono, mas também revelou algumas das tensões por trás desses modelos.

Com o tempo, alguns líderes comunitários disseram que os pagamentos de créditos de carbono demoraram a chegar e que as decisões-chave estavam sendo tomadas por um pequeno grupo, e não pela comunidade em geral. Ao mesmo tempo, a extração e o desmatamento ilegal continuaram no território, enfraquecendo o impacto do projeto. Para alguns, isso levantou questões difíceis sobre quem realmente se beneficia dessas iniciativas e se o sistema é tão transparente ou justo quanto parece.

As divulgações financeiras ilustram a amplitude dessa rede. Programas ligados ao FUNBIO envolveram financiamento e parcerias com entidades como BNDES, KfW, IDB, Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, Good Energies Foundation, CLUA, Bezos Earth, Petrobras, Eneva, ExxonMobil, Chevron, Vale, Anglo American, Natura, JBS, Heineken e outras, abrangendo domínios público, privado e filantrópico.

Na prática, um único projeto de conservação pode envolver financiamento de bancos de desenvolvimento, setores de petróleo, mineração e agronegócio, doadores filantrópicos e ONGs ambientais, tudo ao mesmo tempo. Essas parcerias em camadas podem mobilizar grandes quantias de dinheiro, mas também criam teias complexas de dependência.

Lista de fontes de financiamento do FUNBIO para 2024.

Filantropia

Fundações filantrópicas tornaram-se indispensáveis para esse sistema, muitas vezes intervindo onde outros não querem ou não podem.

Organizações como a Fundação Gordon e Betty Moore, a Fundação Good Energies (Porticus) e a Aliança para o Clima e Uso do Solo (CLUA) fornecem financiamento em estágio inicial que permite que projetos se desenvolvam e se tornem atraentes para grandes investidores. Sem esse apoio inicial, muitas iniciativas não seriam implementadas.

Pegue o programa ARPA como exemplo. Criada em 2002 e gerenciada pelo FUNBIO, essa aliança tem trabalhado para conservar e gerenciar de forma sustentável 60 milhões de hectares de terra, uma área aproximadamente o dobro do tamanho da Alemanha. Seu financiamento vem de uma mistura de grandes players, incluindo a Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, o governo alemão (por meio da KfW), GEF, Anglo American, Amazon Fund, IDB, Banco Mundial, Margaret A. Cargill e BNDES. O próprio projeto é gerenciado e entregue pela FUNBIO.

Parceiros da ARPA. Fonte: FUNBIO

Somente em 2024, a Fundação Gordon e Betty Moore injetou mais de 24 milhões de dólares em projetos no Brasil, principalmente na região amazônica.

Mas a filantropia não é neutra. Ao escolher quais iniciativas financiar, essas organizações influenciam a direção da própria bioeconomia.

Projetos que prometem escalar e se alinhar com abordagens orientadas pelo mercado têm mais chances de receber apoio. Enquanto isso, alternativas, especialmente aquelas focadas em direitos fundiários ou soluções não comerciais, podem ter dificuldades para competir.

O Fundo de Desenvolvimento Econômico Soros, apoiado pela rede Open Society de George Soros , identificou o Brasil como um destino-chave para investimento de impacto, especialmente em áreas como agricultura regenerativa, bioinsumos e soluções baseadas na natureza. Sua abordagem enfatiza a escalabilidade de modelos comercialmente viáveis que vinculam a preservação ambiental aos retornos financeiros, reforçando a tendência mais ampla de alinhar a conservação com estruturas orientadas pelo mercado.

Isso levanta uma questão importante: quem está realmente moldando o futuro da Amazônia? Comunidades locais, governos nacionais ou redes globais de financiadores?

Participação corporativa

As corporações agora estão profundamente envolvidas na bioeconomia.

Empresas dos setores de petróleo, mineração e agronegócio contribuem para fundos ambientais e participam de iniciativas de conservação, muitas vezes como parte de estratégias mais amplas de sustentabilidade.

Esses esforços podem apoiar a restauração e o desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, eles operam dentro de uma economia reputacional, onde o engajamento ambiental visível pode melhorar a imagem pública e a confiança dos investidores.

Isso cria uma tensão clara. As mesmas indústrias historicamente ligadas a danos ambientais agora estão ajudando a financiar seu reparo.

Comercialização

A expansão dos negócios baseados na biodiversidade oferece uma das ilustrações mais claras de como a bioeconomia funciona na prática.

Corporações como a empresa brasileira de cosméticos Natura estão construindo mercados globais em torno de produtos derivados da floresta, muitas vezes em parceria com comunidades locais.

O envolvimento da Natura em iniciativas como o programa Amazônia Viva, desenvolvido em conjunto com o IFC o FUNBIO, ilustra como cadeias de suprimentos comerciais podem ser integradas ao financiamento da conservação.

Em um nível, o modelo da Natura demonstra que economias baseadas em florestas podem gerar renda sem desmatamento. Em outra, revela as complexidades de escalar tais sistemas.

À medida que a demanda aumenta, as cadeias de suprimentos precisam se expandir e padronizar. Isso pode pressionar as práticas locais, remodelando-as para atender às expectativas do mercado global.

O equilíbrio entre oportunidade e restrição é frequentemente frágil.

Narrativas sustentáveis sobre carne bovina

A participação dos grandes produtores de carne adiciona outra camada de complexidade.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, por meio do JBS Fund for The Amazon, destaca outra dimensão da bioeconomia: a participação de setores historicamente ligados ao desmatamento, degradação ambiental e violações de direitos humanos. O fundo apoia projetos de conservação e desenvolvimento sustentável, posicionando a empresa como parte da solução de desafios ambientais.

No entanto, um corpo substancial de reportagens investigativas e análises fiscales levantou preocupações contínuas sobre a transparência das cadeias de suprimentos e o impacto ambiental da JBS.

Isso destaca uma contradição mais ampla: as empresas podem apoiar iniciativas de sustentabilidade enquanto continuam práticas que contribuem para danos sociais e ambientais.

Capital de mineração

Um padrão semelhante pode ser observado no setor de mineração, especialmente no caso da gigante mineradora brasileira Vale. A empresa investiu em programas de biodiversidade, projetos de restauração e parcerias de bioeconomia, posicionando-se dentro da linguagem da responsabilidade ambiental.

Mas o histórico ambiental de Vale inclui um dos desastres industriais mais devastadores da história do Brasil. O desastre da barragem das Marianas em 2015, operado por uma joint venture entre Vale e BHP, liberou milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos, causando destruição generalizada e desencadeando reivindicações legais de centenas de milhares de pessoas afetadas.

Nesse contexto, o envolvimento de Vale em iniciativas ambientais e bioeconômicas ganha ainda mais importância. Por meio de entidades como a Fundo Vale, a empresa cofinancia projetos de conservação e desenvolvimento ao lado de instituições públicas e ONGs, integrando-se a estruturas de sustentabilidade que enfatizam a restauração e a resiliência.

Essas iniciativas são frequentemente apresentadas como parte de uma transição para práticas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, eles convivem com atividades de extração em andamento que têm impacto social e ambiental significativo.

Isso reflete uma tendência mais ampla: iniciativas de sustentabilidade frequentemente acompanham, em vez de substituir, indústrias extrativas.

Web institucional e aceleradores

Organizações como WWF, IDESAM, Conexsus Sitawi ocupam uma posição fundamental conectando finanças e implementação no terreno.

Lista de doadores. Dados das demonstrações financeiras da Conexsus para 2024.

Contratos de investimento para aceleração de negócios. Dados das demonstrações financeiras de 2024 do IDESAM.

Apoiadores do projeto Sitawi. Dados das demonstrações financeiras de 2024 da Sitawi.

Eles projetam projetos, gerenciam o financiamento e trabalham diretamente com as comunidades. Isso lhes confere um papel importante de transição, mas também os coloca em uma posição delicada.

Muitos dependem do financiamento dos mesmos atores que devem responsabilizar.

Novas plataformas como a Amaz e redes ligadas ao Instituto Arapyaú visam expandir negócios baseados na Amazon, conectando-os a investidores, mentores e mercados. Esses aceleradores são frequentemente apresentados como veículos de empoderamento, permitindo que empreendedores locais acessem oportunidades antes inalcançáveis.

Essas iniciativas podem ampliar oportunidades, mas também atraem empresas locais para sistemas globais, onde o sucesso é definido pelo crescimento e retorno financeiro. A participação vem cada vez mais acompanhada de condições.

O Fundo Amazonas

Fundo Amazonas representa um dos maiores recursos internacionais de financiamento para a conservação florestal.

Gerenciada pelo BNDES, recebeu bilhões em contribuições, principalmente do governo norueguês. A gigante estatal de energia do Brasil, Petrobras, também é doadora. A estrutura do fundo canaliza o financiamento climático internacional em programas nacionais, muitas vezes atuando por meio de intermediários como o FUNBIO.

Esse sistema multilayer permite investimentos significativos, mas também introduz camadas de complexidade. A tomada de decisão é compartilhada entre múltiplos atores, tornando a responsabilidade mais difícil de rastrear.

É importante notar que Aloisio Mercadante atua como presidente tanto do Amazon Fund quanto do BNDES.

Quem se beneficia?

No centro da bioeconomia estão os povos indígenas e as comunidades locais.

Seu conhecimento, práticas e relação de longa data com a terra ajudam a moldar muitos projetos que agora atraem atenção global e investimentos. Mas a parcela de benefícios financeiros que chegam a eles frequentemente permanece limitada. Em muitos casos, a responsabilidade de entregar resultados recai principalmente sobre eles, sem uma participação equivalente nas recompensas.

Esse desequilíbrio está no centro do debate sobre a bioeconomia. A bioeconomia está redistribuindo valor ou reforçando desigualdades existentes?

Não existe uma única resposta. Os resultados variam de um projeto para outro, moldados pelas condições locais e pela forma como cada iniciativa é projetada. Mas a própria questão permanece inevitável e cada vez mais urgente.

A bioeconomia amazônica não é uma solução simples. É um sistema complexo e em evolução, moldado por objetivos ambientais, interesses financeiros, prioridades políticas e realidades sociais.

Oferece a possibilidade de direcionar investimentos para a conservação e criar novas vias econômicas que mantenham a floresta de pé.

Mas também corre o risco de enraizar a natureza ainda mais profundamente em sistemas financeiros que há muito tempo são impulsionados pela extração.

A tensão permanece sem solução.

A questão definidora permanece: a bioeconomia, em última instância, servirá à floresta e às pessoas que dela dependem, ou aos sistemas que a financiam?


Fonte: YourVoiz

Artigo na “The Lancet” aponta para necessidade global de combater ação corporativa em prol dos alimentos ultraprocessados

O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados ​​(AUPs) na dieta humana está prejudicando a saúde pública global. No entanto, as respostas políticas ainda estão surgindo — assim como os esforços de controle do tabaco décadas atrás — indicando a necessidade de compreender as causas profundas e acelerar a ação global. Este artigo, o terceiro de uma série de três partes publicada no Lancet , dá vários passos para ampliar o conhecimento sobre essas causas e para fundamentar uma resposta global de saúde pública. Primeiro, os autores mostram  que a indústria de AUPs é um fator-chave do problema, uma vez que suas principais corporações e atores interdependentes expandiram e reestruturaram os sistemas alimentares em quase todo o mundo, favorecendo dietas ultraprocessadas.

A maior lucratividade dos AUPs em comparação com outros tipos de alimentos alimenta esse crescimento, incentivando financeiramente o modelo de negócios ultraprocessado em detrimento de alternativas e gerando recursos para a expansão contínua. Segundo,  os autores do artigo destacam que a principal barreira para o avanço das respostas políticas são as atividades políticas corporativas da indústria, coordenadas transnacionalmente por meio de uma rede global de grupos de fachada, iniciativas multissetoriais e parceiros de pesquisa, para neutralizar a oposição e bloquear a regulamentação.

Essas atividades incluem lobby direto, infiltração em agências governamentais e litígios; promoção de modelos de governança favoráveis ​​às corporações, formas de regulamentação e sociedades civis; e direcionamento do debate, geração de evidências favoráveis ​​e fomento de dúvidas científicas. Em terceiro lugar, os autores apresentam estratégias para reduzir o poder da indústria de alimentos ultraprocessados ​​nos sistemas alimentares e para mobilizar uma resposta global de saúde pública. Para eles, reduzir o poder da indústria de alimentos ultraprocessados ​​envolve romper com o modelo de negócios de alimentos ultraprocessados ​​e redistribuir recursos para outros tipos de produtores de alimentos; proteger a governança alimentar da interferência corporativa; e implementar salvaguardas robustas contra conflitos de interesse na formulação de políticas, pesquisas e práticas profissionais. 

O artigo aponta para a necessidade de mobilizar uma resposta global inclui enquadrar os alimentos ultraprocessados ​​como uma questão prioritária de saúde global; construir coalizões de defesa poderosas em nível global e nacional; gerar capacidades jurídicas, de pesquisa e de comunicação para fortalecer a defesa e impulsionar mudanças nas políticas; e garantir uma transição justa para dietas com baixo teor de alimentos ultraprocessados. Uma resposta global coordenada e bem financiada é essencial — uma resposta que confronte o poder corporativo, recupere o espaço das políticas públicas e reestruture os sistemas alimentares para priorizar a saúde, a equidade e a sustentabilidade em detrimento do lucro corporativo.

É importante lembrar que este é o terceiro de uma série de três artigos sobre alimentos ultraprocessados ​​e saúde humana. Todos os artigos desta série da “The Lancet” estão disponíveis em Aqui!

O enfraquecimento das promessas climáticas corporativas é um sintoma de perda de ímpeto

O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos demonstra a fragilidade dos compromissos quando a atenção e a responsabilização se desviam

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista "BP or not BP", em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista “BP or not BP”, em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Por Hannah Daly para o “The Irish Times”

Há alguns anos, o movimento climático global explodiu de otimismo. Milhões de jovens marcharam, empresas fizeram promessas climáticas ousadas e líderes políticos falaram com urgência sobre uma crise iminente que exigia ação imediata. Hoje, o vento deixou as velas desse movimento e a atenção se voltou para a turbulência geopolítica e econômica global.

Não é de se admirar que a fadiga e a sensação de desânimo tenham se instalado. O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos mostra a fragilidade das promessas quando a atenção e a responsabilidade se desviam.

Em 2020, a BP , a gigante da energia, prometeu cortar a produção de petróleo e gás em 40 por cento até 2030. Sob a liderança do então presidente-executivo Bernard Looney, a empresa também prometeu ser uma produtora de energia líquida zero até 2050. No início de 2023, no entanto, esse compromisso havia encolhido para apenas 25 por cento e, em outubro de 2024, a meta foi abandonada completamente. Em vez de cortar a produção de combustíveis fósseis, a BP agora planeja expandir significativamente a produção de petróleo e gás, visando cerca de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia até 2030, e cortar os investimentos em energia renovável. Justificando essa “reinicialização” , o atual presidente-executivo Murray Auchincloss disse que sua fé na transição para a energia verde havia sido “equivocada” e que o petróleo e o gás seriam necessários por décadas.

A reversão da BP mostra como as empresas podem facilmente se afastar das promessas climáticas quando as pressões financeiras aumentam e a atenção pública diminui.

Outro exemplo vem do setor alimentício. A criação de gado para produção de carne exige vastas extensões de terra e é a principal causa do desmatamento global, além de ser uma grande emissora de metano proveniente da arrotação do gado. A conversão de terras para a produção de carne e exploração madeireira está causando tamanha pressão sobre a Amazônia que a grande floresta tropical corre o risco de cruzar um ponto crítico e irreversível, que a levaria a emitir, em vez de sequestrar, carbono e se tornar uma pastagem.

O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, há muito tempo é associada à destruição da Amazônia. Em 2021, a gigante brasileira se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina na Amazônia até o final de 2025. O compromisso ambicioso foi amplamente aplaudido na época. No entanto, uma investigação recente da Unearthed, do Guardian e da Repórter Brasil pinta um quadro diferente. Apesar dos investimentos em tecnologia e das alegações de avanços em sustentabilidade, os fornecedores da JBS rejeitam abertamente a meta como impossível, e a empresa tem discretamente moderado as expectativas. A lavagem ilegal de gado persiste; brechas continuam generalizadas. Em outras palavras, o que parecia um compromisso firme se tornou algo totalmente menos certo. Notavelmente, a JBS se comprometeu anteriormente em 2009 a combater o desmatamento até 2011, mas não cumpriu.

Tais declarações representam um recuo silencioso da responsabilização, uma transferência de responsabilidade que contradiz diretamente as promessas ousadas que inicialmente renderam à JBS elogios globais. Em 2024, a JBS enfrentou um processo por greenwashing, acusada pelo procurador-geral do Estado de Nova York de enganar os consumidores sobre seu compromisso com o clima, ao mesmo tempo em que continuava a impulsionar o desmatamento.

Esses exemplos da JBS e da BP representam uma tendência alarmante de retrocesso corporativo que prejudica a ação climática global. À medida que a atenção global se desvia do clima para outras questões urgentes, as promessas dos últimos anos correm o risco de se transformar em gestos vazios.

Essa erosão da responsabilidade corporativa é profundamente relevante porque cada promessa quebrada envia uma mensagem ao público e aos formuladores de políticas de que os compromissos climáticos são negociáveis, enfraquecendo ainda mais a ação e a ambição coletivas. Por exemplo, aqui na Irlanda, cumprir nosso próprio compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa exige mudanças nas práticas agrícolas e uma redução drástica no consumo de combustíveis fósseis – ambos prejudicados pelo enfraquecimento dos compromissos corporativos.

Brett Christophers, professor especializado em economia política, observou que promessas ambientais vazias são uma característica previsível do capitalismo, que é o princípio organizador predominante da nossa sociedade. O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

Todo esse retrocesso corporativo ocorre em um cenário alarmante. A concentração atmosférica de dióxido de carbono é de 430 partes por milhão, 50% maior do que os níveis pré-industriais e o nível mais alto em milhões de anos. No ano passado, houve um aumento historicamente alto na concentração de dióxido de carbono, superando o recorde anterior em 27%. Isso é um presságio sombrio de que as mudanças climáticas podem estar se acelerando, à medida que as emissões das atividades humanas continuam aumentando e a capacidade dos ecossistemas de absorver o excesso de emissões pode estar diminuindo. Mesmo agora, com 1,5 grau de aquecimento, as mudanças climáticas estão causando impactos severos nos padrões de vida e criando choques econômicos em todo o mundo.

O tempo não está do nosso lado – simplesmente não há espaço para retrocessos. O verdadeiro progresso exige a redução das emissões, não promessas.

Os aproveitadores da guerra: empresas que alimentam o ataque israelense a Gaza

Revelando as engrenagens corporativas da guerra: um olhar abrangente sobre as empresas por trás da devastadora campanha militar de Israel em Gaza

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Por Alexis Sterling para o “Nation of Change” 

À medida que a poeira assenta sobre Gaza, as reverberações da ofensiva israelita, apoiada por espantosos 3,8 mil milhões de dólares em ajuda militar anual dos EUA, ecoam globalmente. Esta ajuda constitui a espinha dorsal de um arsenal sofisticado, reforçado ainda por um pacote de guerra de 14,3 mil milhões de dólares solicitado pela administração Biden. Estes números não são apenas números; representam uma tábua de salvação de armamentos, um fluxo de poder destrutivo que remodelou a paisagem de Gaza e do seu povo.

O governo dos EUA facilitou a transferência de uma imensa variedade de armas para Israel. No primeiro mês e meio após a declaração de guerra de 7 de Outubro, mais de 15.000 bombas e 50.000 projéteis de artilharia chegaram às mãos israelitas. O sigilo que envolve estas transferências realça a natureza sensível deste apoio, um tema frequentemente deixado de fora do discurso público e da supervisão do Congresso.

Durante os ataques das “Espadas de Ferro” de Outubro-Dezembro de 2023 a Gaza, Cisjordânia, Líbano e Síria, numerosas empresas foram identificadas por fornecerem armas e equipamento militar a Israel. Esta lista inclui empresas que desempenharam um papel significativo nestes ataques, fornecendo vários tipos de armamento e apoio.

Os gigantes corporativos por trás do conflito

  • Boeing : Este titã aeroespacial fornece a Israel jatos F-15, helicópteros Apache e uma série de bombas, incluindo aquelas usadas no bombardeio devastador do campo de refugiados de Jabalia, em Gaza.
  • Caterpillar : Suas escavadeiras blindadas, há muito um símbolo do poderio militar israelense, foram fundamentais na invasão terrestre, facilitando o caminho da destruição.
  • BAE Systems : A empresa sediada no Reino Unido fornece o obuseiro de artilharia M109, uma arma que tem trovejado por Gaza, disparando projéteis que incluem munições de fósforo branco proibidas.
  • Elbit Systems : O maior fabricante de armas de Israel fornece uma gama de armas, desde drones a projéteis de artilharia, desempenhando um papel fundamental nas estratégias de vigilância e ataque em Gaza.
  • General Dynamics : Esta empresa é a única produtora da série de bombas MK-80 e projéteis de 155 mm, as munições primárias que cobrem Gaza em explosões.
  • General Electric : Os motores da GE alimentam os helicópteros Apache, um componente chave nos ataques aéreos de Israel.
  • Lockheed Martin : Como maior negociante de armas do mundo, os jatos F-16 e F-35 da Lockheed Martin tornaram-se sinônimos dos céus de Gaza. Os seus mísseis Hellfire têm sido uma marca do conflito actual.
  • Northrop Grumman, AM General, Ford, Oshkosh, Toyota : Essas empresas fornecem veículos blindados e caminhões, essenciais para operações terrestres e transporte de tropas.
  • AeroVironment, Skydio, XTEND : Essas empresas de tecnologia fornecem a Israel drones de última geração, acrescentando uma dimensão crítica às capacidades de vigilância e ataque de Israel.
  • Empresa de manufatura da Colt, Emtan Karmiel : Esses fabricantes de armas de fogo equipam as forças israelenses com rifles e armas de assalto, essenciais tanto para operações de defesa quanto para operações ofensivas.
  • Indústrias Aeroespaciais de Israel : Uma empresa estatal, desenvolve sistemas de armas sob medida, incluindo drones usados ​​extensivamente no conflito.
  • Plasan, MDT Armor (Shladot) : Especializados em veículos blindados leves, os produtos dessas empresas atuam tanto em funções ofensivas quanto de reconhecimento.
  • ThyssenKrupp, Nordic Ammunition Company : Empresas estrangeiras contribuindo com navios de guerra e munições, aumentando a diversidade do equipamento militar de Israel.

O número sombrio de mais de 20.000 palestinos mortos em Gaza é um lembrete claro da eficiência brutal da guerra. Este número inclui pelo menos 7.700 crianças, cujas vidas foram extintas num conflito que não poupou ninguém. O bombardeamento israelita, marcado pela sua intensidade e amplitude, não só custou vidas, mas também deixou uma marca indelével nas infra-estruturas de Gaza, tornando vastas áreas inabitáveis.

No meio das ruínas, o desafio da entrega de ajuda humanitária avulta. O enclave sitiado, que enfrenta a deslocação e a destruição de infra-estruturas civis, é uma crise humanitária de proporções monumentais. O mundo observa como os esforços para fornecer ajuda são dificultados a cada passo, um testemunho do impacto de longo alcance da guerra.

A guerra galvanizou protestos em todo o mundo, com vozes exigindo um cessar-fogo cada vez mais altas. Notavelmente, muitas destas vozes vêm de dentro da comunidade judaica, um sinal do crescente descontentamento e do dilema moral enfrentados pelos apoiantes de Israel em todo o mundo.

A AFSC, uma organização Quaker com raízes profundas na região, tem manifestado o seu apoio a um embargo total de armas a grupos militantes israelitas e palestinianos. A sua posição é clara: a guerra e os ataques a civis nunca abrirão um caminho para a paz ou a segurança, tanto para os israelitas como para os palestinianos. A necessidade de um cessar-fogo permanente e de um compromisso com uma paz justa e duradoura na região é fundamental.

À medida que analisamos as consequências deste último capítulo de um conflito de longa data, o papel das empresas cotadas torna-se evidente. As suas contribuições, sob a forma de armamento avançado e equipamento militar, facilitaram uma guerra que deixou cicatrizes profundas em Gaza e no seu povo.

Nas palavras de Noam Perry do AFSC, “A escala da destruição e dos crimes de guerra em Gaza não seria possível sem transferências massivas de armas dos EUA”.


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Nation of Change” [Aqui!].

Corporações transnacionais intensificam a ofensiva contra os países latino-americanos

As grandes empresas estão cada vez mais processando tribunais de arbitragem e exigindo pagamentos de indenizações no valor de milhões

corporações

As empresas multinacionais fazem cumprir as suas leis ao mesmo tempo que enfraquecem as políticas públicas dos países do Sul Global. Fonte:CORPORATIVAEUROPA

Por Sergei Ferrari, tradução:Klaus E Lehmann, para Currículo Latinoamericano e Amerka21

Entre o início do ano e 24 de julho, o Instituto Transnacional (TNI), com sede em Amsterdã, na Holanda, informou 18 novos processos movidos por grandes empresas norte-americanas e europeias contra países da América Latina e do Caribe. Um total de 364 casos deste tipo estão pendentes na Região, mais de metade dos quais foram instaurados nos últimos 12 anos. Como explica o TNI, a América Latina e as Caraíbas são uma das regiões do mundo mais afetadas pelo impacto da arbitragem internacional, tal como consagrado nos tratados comerciais internacionais.

Este mecanismo (solução de litígios investidor-estado, ISDS) é o meio popular das empresas transnacionais para resolver disputas entre investidores e estados quando vêem os seus interesses afetados. É um instrumento que permite aos investidores estrangeiros processar Estados em tribunais internacionais se considerarem que as políticas públicas desses Estados, incluindo as relacionadas com a protecção do ambiente ou da saúde, afectam os seus interesses e lucros.

Tais ações judiciais, que não reconhecem a jurisdição dos tribunais nacionais dos países em que estas empresas internacionais operam, são movidas por um pequeno grupo de advogados privados. Na sua função de árbitros, têm o poder de decidir sobre qualquer caso. Geralmente, esses advogados priorizam os lucros das empresas demandantes em detrimento do interesse público dos estados demandados. A história mostra que estas arbitragens globais normalmente beneficiam grandes corporações. Como resultado, os julgamentos contra os Estados garantem a estas empresas privadas milhões de lucros à custa dos respectivos cofres do Estado.

Todos contra o México

Durante o primeiro semestre de 2023, o México foi o país latino-americano sujeito a mais ações judiciais: oito no total. Honduras seguiram com três, Venezuela com duas ações e Colômbia, Equador, Costa Rica, Belize e Trinidad e Tobago com uma ação cada.

O caso do México é talvez o mais emblemático do primeiro semestre do ano devido ao número e variedade de grupos empresariais que o atacaram com este tipo de arbitragem.

Uma dessas ações foi movida pela mineradora canadense First Majestic Silver Corp. submetido. Esta é a segunda ação judicial iniciada pela empresa. Com a ação atual, está contestando autuações fiscais contra sua subsidiária local Primero Empresa Minera. O valor solicitado é desconhecido, mas no primeiro processo, o First Majestic pede US$ 500 milhões. A empresa canadiana conta com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre o México, o Canadá e os EUA (NAFTA) e o T-MEC, o novo acordo entre estes três países, em vigor desde julho de 2020, como base jurídica.

Outra ação judicial contra o país asteca foi movida por investidores norte-americanos da Arbor Confections, Inc., Mark Alan Ducorsky e Brad Dukosrsky, por US$ 80 milhões por causa de um arrendamento não pago de uma fábrica de doces em Ciudad Juárez.

A mineradora canadense Silver Bull Resources, Inc. também atacou o México por meio de sua subsidiária nos EUA. Opera a mina Sierra Mojada, no estado de Coahuila, com ricas jazidas de prata, chumbo e zinco. A empresa afirma não ter acesso à mina porque esta está bloqueada pelas comunidades locais. A ação, neste caso de US$ 178 milhões, foi movida junto ao Centro Internacional de Arreglo de Diferencias Relativas a Inversiones do Banco Mundial (Ciadi) .

Enerflex US Holdings Inc. e Exterran Energy Solutions LP iniciaram um novo litígio no início deste ano. As duas empresas petrolíferas e de gás norte-americanas e canadianas acusam o Estado mexicano de as forçar a pagar indemnizações a um dos seus empregados despedidos. Segundo eles, os tribunais mexicanos concederam a este funcionário uma quantia exorbitante. A reivindicação equivale a nada menos que US$ 120 milhões.

Por sua vez, a empresa norte-americana Access Business Group LLC, cuja subsidiária é a fabricante de alimentos Nutrilite, processa o México pela expropriação de 280 hectares de terras agrícolas. O México argumenta que a expropriação é legal porque se baseia num decreto presidencial de 1939 de Lázaro Cárdenas, quando duas cidades de Jalisco decidiram devolver terras às comunidades agrícolas locais. A Access Business está buscando mais de US$ 3 bilhões em compensação.

Por sua vez, a Amerra Capital Management LLC, afiliada ao fundo financeiro Amerra e ao banco JPMorgan Chase, abriu um novo processo contra o Estado mexicano por empréstimos e hipotecas não pagos de duas empresas açucareiras. O valor reclamado não é conhecido.

Comum a todos estes processos é que os vários investidores alegam violações dos tratados NAFTA e T-MEC, que incluem escudos legais e salvaguardas legais.

A ofensiva não para

As demais ações judiciais movidas perante tribunais arbitrais por empresas estrangeiras que operam na América Latina e no Caribe não são conceitualmente diferentes daquelas movidas contra o México. Isto aplica-se, nomeadamente, à ação judicial – a terceira do género – movida pelas operadoras holandesas e panamenhas de minas de ouro e diamantes Highbury International AVV, Compañía Minera de Bajo Caroní AVV e Ramstein Trading Inc. tratado (Tratado Bilateral de Inversión, TBI) entre este país sul-americano e a Holanda.

O Banreal Holding SL (investidores espanhóis) também atacou Caracas, reivindicando a expropriação de uma seguradora (La Previsora) e de um banco (Banco Real). Eles confiaram no TIB assinado entre a Espanha e a Venezuela para abrir a ação.

O Banreal Holding SL (investidores espanhóis) também atacou Caracas, reivindicando a expropriação de uma seguradora (La Previsora) e de um banco (Banco Real). Eles confiaram no TBI assinado entre a Espanha e a Venezuela para entrar com a ação.

Usando mecanismos semelhantes, a Lynton Trading LDT atacou o Equador. Embora haja pouca informação sobre este processo, a TNI alega que a empresa é uma das seis empresas offshore detidas por Luis Fuentealba Meier, um investidor chileno com operações de casino em várias partes da América Latina. A empresa era cliente da Mossack-Fonseca, o escritório de advocacia no centro do escândalo dos Panama Papers de 2016.

Esta é uma lista incompleta, mas exemplar, dos 18 novos processos judiciais enfrentados pelos países latino-americanos. Acções judiciais que mostram mais uma vez a extrema vulnerabilidade jurídica dos Estados ao poder transnacional que é encorajado por acordos de comércio livre que lhe dão um empurrãozinho legal para atacar.

O poder dos dólares e euros

O Centro para o Avanço do Estado de Direito nas Américas ( Carola ), da Universidade de Georgetown, em Washington, estima que existam 1.190 processos desse tipo em todo o mundo, 31,18% dos quais na América Latina e no Caribe. Seis em cada dez estados desta região foram processados ​​em arbitragem.

De acordo com o Centro, uma organização líder na investigação do direito e da política latino-americana, a região da América Latina e das Caraíbas esteve envolvida em 371 disputas deste tipo entre investidores e Estados até Dezembro do ano passado. Argentina com 62, Venezuela com 61, Peru com 45 e México com 40 procedimentos são os países do continente mais visados ​​pelas corporações transnacionais.

O TNI em Amesterdão estima que mais de 20 por cento dos casos latino-americanos envolvem os sectores mineiro, do petróleo e do gás, que são de grande importância estratégica. Até o momento, seis em cada dez ações judiciais foram decididas a favor dos investidores, segundo o instituto. Como resultado, os estados foram multados ou comprometeram-se a pagar 33,638 mil milhões de dólares. Segundo as Nações Unidas, um terço deste montante poderia eliminar a pobreza extrema em 16 países da região .

relatório do TNI de Junho de 2021, com dados actualizados até essa data, observa que os processos judiciais contra os Estados se intensificaram desde 2011 como parte do novo ataque neoliberal das últimas décadas. E salienta que 86 por cento dos processos judiciais (em Junho de 2021) são instaurados por empresas ou investidores norte-americanos, canadianos e europeus. As empresas francesas, espanholas, inglesas e holandesas estão entre os europeus mais vorazes envolvidos neste tipo de processos judiciais contra países da América Latina e das Caraíbas.

Isso não é novidade. A história sempre parece se repetir. As empresas multinacionais aplicam as suas leis ao mesmo tempo que enfraquecem as políticas públicas dos países do Sul Global. A “arbitragem arbitrária”, o crescente endividamento dos países do Sul, a evasão fiscal das grandes transnacionais, os paraísos fiscais para as proteger, o sigilo bancário, os fundos abutres, etc., tudo isto faz parte dos numerosos instrumentos financeiros internacionais à disposição dos A maioria da população mundial, que está sendo usada a cada dia e fica mais pobre, não deixa trégua.


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Este texto escrito originalmente em espanho e traduzido para o alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

As corporações surfam em lucros fabulosos, enquanto o número de famintos não para de crescer

“Enquanto te falam dos famintos, dos perdedores dessas crises alimentares, escondem que há vencedores e que são as grandes transnacionais do agronegócio mundial

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Por Clara Sánchez Guevara,  para Alimentos y Poder

No ano de 2022 , a Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Grupo do Banco Mundial (BM), o Programa Alimentar Mundial (PMA) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) declararam a existência de uma crise global de segurança alimentar, impulsionada pelos altos custos de alimentos, combustíveis e fertilizantes, em meio à Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia[1] , afetando 8% do comércio global de alimentos.

Ainda não se sabe o aumento exato da fome no mundo, exceto para os 345,2 milhões de pessoas que, segundo o Programa Mundial de Alimentos, sofrerão de insegurança alimentar aguda em 2023, o que corresponderia a um aumento de 200 milhões de pessoas. os níveis, antes da pandemia[2], estimados através de um índice, entre muitos, com que se mede a fome na terra.

O que se sabe até agora, são os rendimentos anuais das principais megacorporações, parte do conglomerado ABCD que controla o comércio mundial de grãos , colocando-as como vencedoras desta crise alimentar, que por sinal, não começou com a Operação militar da Rússia na Ucrânia, mas um ano antes, durante a pandemia de COVID-19 com o aumento do preço da energia, e claro, impactado pela guerra e sanções.

Assim, e como em anteriores crises alimentares mundiais, cujo reverso é a alta dos preços dos alimentos, ganham nestes cenários estas corporações ABCD, constituídas pelos mesmos comerciantes desde a Guerra Fria, as principais vendedoras de produtos agrícolas do mundo, como Archer-Daniels-Midland Co (ADM)BungeCargill (todas americanas) e Louis Dreyfus Company (França), à qual se juntou a líder chinesa Cofco (China National Cereals, Oil and Foodstuffs Corporation) .

Entre 2019 e 2020, o aumento da receita anual das corporações ABDC mal ultrapassou um bilhão de dólares, entre 2020 e 2021 aumentou para mais de 74 bilhões de dólares. Enquanto em 2022, os houve aumento em mais de 65 bilhões de dólares (falta o relatório final da Cargill).

No entanto, isso não nos impede de afirmar que, entre 2020 e 2022, a receita anual dessas quatro grandes corporações que comercializam e transportam mais de 75% dos cereais e oleaginosas do mundo aumentou mais de 13.000%. Embora seus lucros reais sejam desconhecidos, assim como os volumes vendidos pelo grupo de corporações ABCD que historicamente controla este circuito dentro do sistema agroalimentar global.

Em resumo, enquanto te falam dos famintos, dos perdedores dessas crises alimentares, escondem que há vencedores e que são as grandes transnacionais do agronegócio mundial.

Notas

[1] (Fundo Monetário Internacional, 2022) Declaração conjunta das mais altas autoridades do FMI, Banco Mundial, OMC, FAO e PAM sobre a crise global de segurança alimentar. 

[2] (Programa Alimentar Mundial, 2023) Uma Crise Alimentar Global.


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A versão em português deste texto foi inicialmente publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].

Planos de empresas de alimentos para meta climática de 1,5°C ficam aquém do necessário, dizem ativistas

Grandes produtores de soja e carne bovina acusados ​​de não cumprir promessas de parar o desmatamento

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O gado pasta perto de uma área queimada da floresta amazônica perto de Novo Progresso, estado do Pará, Brasil. Fotografia: João Laet/AFP/Getty

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

As maiores empresas de alimentos do mundo, cujos produtos estão ligados à destruição generalizada de florestas tropicais, não conseguiram criar uma estratégia adequada para alinhar suas práticas de negócios com a meta climática de 1,5°C, de acordo com ativistas.

Os principais produtores de soja, óleo de palma, cacau e gado publicaram seu roteiro para se alinhar com 1,5°C no início desta semana, prometendo desenvolver e publicar metas específicas de commodities e com prazo determinado para interromper o desmatamento, que serão apoiadas pela ciência e verificadas a cada ano. As empresas incluem a empresa brasileira de carne bovina JBS, a empresa agrícola americana Cargill e a empresa de processamento de alimentos de Cingapura Wilmar International.

A mudança no uso da terra é o segundo maior fator de aquecimento global atrás da queima de combustíveis fósseis e a maior causa de perda de biodiversidade, enquanto deter a destruição de florestas tropicais é uma parte fundamental do combate às crises climáticas e de biodiversidade. Para cumprir o 1.5C, toda a conversão do uso da terra deve parar até 2030, com progressos significativos feitos até meados da década, segundo os cientistas .

Embora os ativistas reconheçam que algum progresso foi feito, especialmente com o óleo de palma, eles argumentam que as empresas falharam em grande parte em cumprir a ambição que prometeram em soja e carne bovina.

O desacordo entre ativistas e empresas é sobre a data em que as empresas devem parar o desmatamento. Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal sênior do Greenpeace Brasil, disse que algumas das empresas haviam prometido eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos até 2020 e falharam.

“Não podemos permitir mais lavagem verde ou comportamento imprudente dessas empresas que lucram com a destruição de ecossistemas e apresentam mais atrasos e planos inadequados para deter e reverter a destruição que causam e que continuará a fritar o planeta”, disse ela.

A Malásia e a Indonésia, que abrigam a maior parte do setor mundial de óleo de palma, tiveram sucesso na redução do desmatamento nos últimos anos, em parte por causa de uma melhor regulamentação.

Nico Muzi, diretor-gerente do grupo ambientalista Madre Brava, disse que o plano anunciado na Cop27 representa algum progresso, mas disse que o compromisso ficou aquém do que era necessário, especialmente no setor de carnes. “Há duas omissões flagrantes: uma data limite para parar o desmatamento causado pela soja agora e a exclusão da conversão pela pecuária e expansão da soja da maior região de savana da América do Sul, o Cerrado brasileiro”, disse ela.

André Vasconcelos, da Global Canopy, disse que o plano é encorajador, pois as empresas envolvidas representaram mais de 60% das exportações de soja brasileira, 50% da carne bovina brasileira e 45% das exportações de óleo de palma da Indonésia em 2020, embora alguns dos principais produtores estejam faltando . Mas ele acrescentou que as empresas precisam ir mais longe para que o plano tenha credibilidade.

“Combater o desmatamento é essencial para ficar abaixo de 1,5°C”, disse ele. “Os comerciantes precisam ir mais longe, mais rápido. O roteiro precisa de uma postura proativa para evitar desmatamento e conversão futuros, incluindo um compromisso concreto de não investir em mais desenvolvimento de infraestrutura nas principais fronteiras de desmatamento. É preciso haver um compromisso com uma data de corte comum entre commodities que inclua todos os tipos de ecossistemas”.

Jack Hurd, diretor executivo da Tropical Forest Alliance que ajuda a supervisionar o roteiro através do Fórum Econômico Mundial, disse discordar de que não houve progresso suficiente e disse estar particularmente satisfeito com o movimento na indústria pecuária.

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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Corporações globais dos venenos agrícolas: ganhos bilionários, mas com crescentes pressões contrárias

Lista de classificação das 20 principais empresas agroquímicas globais de 2019 recompostas, agraciadas por 11 empresas chinesa

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Recentemente, a AgroPages divulgou a lista de classificação das 20 maiores empresas agroquímicas globais de 2019. De acordo com a lista, no FY2019, as vendas totais dessas 20 maiores empresas agroquímicas alcançaram US $ 59,53 bilhões, crescendo US $ 3,13 bilhões, ou 5,6%, em comparação com US $ 56,396 bilhões no FY2018. A proporção da concentração foi aumentada ainda mais. Dessa forma, a lista do ranking das 20 melhores empresas foi recomposta. Os novos 4 jogadores principais foram: Bayer CropScience, Syngenta, BASF e Corteva, seguidos de perto por FMC e UPL. Especificamente, os 4 principais participantes responderam por 57% das vendas totais das 20 maiores empresas e os 10 principais participantes representaram quase 90%. Em termos de taxa de crescimento, o UPL liderou a lista, com uma taxa colossal de 66%. O destaque foi que até 11 empresas chinesas figuraram na lista. 

De acordo com dados estatísticos da Phillips McDougall, com base nos níveis ex-fábrica, em 2019 o mercado global de agrotóxicos para lavouras registrou vendas de US $ 59,827 bilhões, representando uma queda de 0,8% em comparação com o nível de US $ 60,304 bilhões em 2018. 2019, o mercado global de pesticidas foi afetado negativamente por uma ampla gama de fatores. Para começar, muitas partes do globo enfrentaram duros desafios climáticos – principalmente as enchentes que infligiram a América do Norte e as secas que afetaram o sudeste da Ásia e a Austrália – limitando assim a aplicação de produtos de proteção à lavoura. Em segundo lugar, as disputas comerciais China-EUA têm afetado o cenário global do comércio de safras. Terceiro, as políticas draconianas da Europa sobre o manejo de pesticidas resultaram no banimento do uso de alguns dos produtos fitossanitários básicos. Finalmente, A China impôs regulamentos mais rígidos sobre segurança e proteção ambiental. Em termos de mercados regionais, a América Latina foi a única região que obteve ganhos. A região registrou um crescimento expressivo de 17,6%, compensando efetivamente o declínio em todas as outras regiões.

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Quatro gigantes prometem ser recompostos

Graças à aquisição da Monsanto, em 2019, a Bayer CropScience ultrapassou a Syngenta, liderando a lista com US $ 10,374 bilhões em vendas. Isso permitiu que a Bayer se tornasse a maior empresa de agrotóxicos do mundo, que teve um crescimento de desempenho de 7,6% ano a ano. No portfólio de agrotóxicos da Bayer, o herbicida tem um papel de liderança, respondendo por 46,9%. Em 2019, as vendas de herbicidas chegaram a €5,097 bilhões, um salto de 22,2% com relação ao ano anterior. Em 2019, a Bayer CropScience viu suas vendas na América do Norte – seu maior mercado regional (incluindo pesticidas e sementes) – aumentarem em 86,2%, para EUR 8,743 bilhões.

A Syngenta, que ficou em segundo lugar com uma pequena diferença, registrou vendas de agrotóxicos de US $ 10,118 bilhões, um aumento de 2,1% ano a ano. Herbicida, a maior categoria de produtos da Syngenta, rendeu à empresa US $ 3,538 bilhões em vendas em 2019. O nascimento do Syngenta Group, um titã agroquímico global, foi sem dúvida o maior marco para a indústria agroquímica global no ano. Em 2019, o Grupo Syngenta registrou vendas de até US $ 23 bilhões (incluindo cerca de US $ 14 bilhões em negócios de agrotóxicos), prometendo reescrever o ranking da lista mais uma vez.

Em 2019, as vendas de agrotóxicos da BASF Agricultural Solutions cresceram 3,0%, para US $ 7,123 bilhões. Herbicida, representando 41,1%, é a principal categoria de produtos da BASF e registrou EUR 2,616 bilhões em vendas em 2019. A América do Norte representa o maior mercado regional da BASF. Em 2019, as vendas da empresa na região atingiram EUR 3,108 bilhões (incluindo pesticidas e sementes), aumentando 43,5% ano a ano e respondendo por 39,8% das vendas totais da empresa. Europa; América do Sul, África, Oriente Médio como um todo; e a Ásia representou 27,1%, 23,0% e 10,0%, respectivamente.

Seguindo a BASF, a Corteva registrou vendas de agrotóxicos de US $ 6,256 bilhões, queda de 2,9% ano a ano. Do portfólio de defensivos agrícolas da Corteva, a América do Norte é o maior mercado regional, cujas vendas em 2019 alcançaram US $ 2,205 bilhões (representando 35,2%), queda de 9,6% ano a ano. América latina; Europa, Oriente Médio e África como um todo; e o Pacífico Asiático representou 28,1%, 21,8% e 14,9%, respectivamente.

Empresas intermediárias miram alto

As empresas que ocupam o 5º ao 9º lugar na lista – incluindo FMC, UPL, ADAMA, Sumitomo Chemical e Nufarm – com vendas combinadas de US $ 17,77 bilhões, representaram 30% das vendas totais dos 20 principais jogadores. Exceto a ADAMA, que teve uma queda modesta nas vendas, os outros jogadores intermediários obtiveram crescimento em seu desempenho de vendas. A UPL viu o aumento mais forte de 66% com relação ao ano anterior, liderando a lista em termos de taxa de crescimento.

Em 2019, a FMC ocupou o 5º lugar na lista com vendas de US $ 4,61 bilhões, um aumento de 7,6% ano a ano. Esse crescimento se beneficiou principalmente de maiores volumes e preços elevados dos agrotóxicos da empresa. A empresa registrou o maior aumento na América Latina, onde suas vendas cresceram 19% ano a ano. A alta de preços também foi um dos fatores críticos que impulsionaram seu desempenho.

Beneficiando-se da aquisição bem-sucedida da Arysta LifeScience, a UPL teve um aumento colossal de 66% em suas vendas de agrotóxicos, com os agrotóxicos respondendo por 88% de seu negócio total. Exceto na Europa, as vendas denominadas em rúpias do negócio geral da UPL registraram crescimento de dois dígitos em todos os mercados regionais, com o mercado latino-americano registrando o salto mais forte de 24% com relação ao ano anterior. Em termos de vendas de pesticidas, a UPL ficou em 4º lugar no Brasil e em 1º lugar no México e na Colômbia.

Em 2019, as vendas de agrotóxicos da ADAMA, uma subsidiária do Syngenta Group, somaram US $ 3,611 bilhões (representando 90,3% de suas vendas totais), permanecendo praticamente estável em comparação com o nível de 2018 e permitindo que a empresa ocupasse a 7ª posição na lista das 20 maiores empresas. Entre os vários defensivos agrícolas da ADAMA, o herbicida representa a maior categoria de produtos, cujas vendas em 2019 alcançaram US $ 1,72 bilhão, representando 47% das vendas totais de todos os agrotóxicos. Quando se trata de vendas regionais (incluindo defensivos agrícolas e intermediários e ingredientes), Europa e América Latina, com vendas de US $ 1,030 e US $ 1,022 respectivamente, classificadas entre as melhores dos 5 principais mercados. Especificamente, o mercado europeu viu uma queda de 2,6% em suas vendas; enquanto o mercado latino-americano viu o maior, 9,3% de aumento ano-a-ano. Além do que, além do mais,

Afetada por condições climáticas extremas na América do Norte, a Sumitomo Chemical, que ficou em 8º lugar na lista, registrou US $ 2,575 bilhões em vendas no ano fiscal de 2019, um aumento modesto de 1,5% ano a ano. Notavelmente, no início de abril de 2020, a Sumitomo Chemical concluiu oficialmente sua aquisição das operações da Nufarm na América do Sul. Após esta aquisição, o negócio de agrotóxicos da Sumitomo Chemical na América do Sul ultrapassará o da América do Norte e verá as vendas na região excederem JPY 100 bilhões.

Devido às secas prolongadas na Austrália, a Nufarm, que ficou em 9º lugar na lista, viu seu crescimento nas vendas de agrotóxicos denominados em AUD em todas as regiões, exceto na Austrália e na Nova Zelândia. Por categoria de produto, as vendas de herbicidas aumentaram 8% para AUD 2,29 bilhões, com o crescimento dos herbicidas fenoxi compensando uma queda de 3% nas vendas de glifosato devido às condições climáticas desfavoráveis ​​na Austrália. As vendas de glifosato representaram aproximadamente 10% da margem bruta total da empresa em 2019. Outras receitas de herbicidas aumentaram 21% em relação ao ano anterior, sendo Dicamba, Flumioxazin, Bromoxinil e Fluazifop os principais contribuintes. As vendas de inseticidas aumentaram 21% para AUD 462 milhões, com crescimento impulsionado principalmente por uma contribuição de um ano inteiro dos portfólios europeus adquiridos e crescimento contínuo no Brasil.

As vendas de fungicidas aumentaram 30%, para AUD 410 milhões. O crescimento foi impulsionado principalmente por uma contribuição do ano inteiro dos portfólios europeus adquiridos com misturas de tebuconazol e procloraz apresentando forte crescimento, apesar do fornecimento restrito limitar as vendas.

Empresas chinesas ganham destaque

Nove das 11 empresas após as 9 primeiras na lista estavam sediadas na China, com a Yangnong Chemical completando as 10. Outras duas empresas japonesas foram Kumiai Chemical e Nissan Chemical, que classificaram em 15º e 16º, respectivamente.

Em 2019, a Yangnong Chemical viu suas vendas de agrotóxicos dispararem 58,8% com relação ao ano anterior, para US $ 1,251 bilhão, um salto que mudou sua posição de 14º em 2018 para 10º em 2019. Em 2019, Yangnong Chemical implementou uma importante reestruturação de ativos usando CNY 913 milhões em dinheiro para comprar uma participação de 100% na Sinochem Crop Care e uma participação de 100% na Shenyang Sinochem Agrochemicals R&D Co., Ltd, ambas controladas pela Sinochem International. Essa reestruturação colocou a empresa em uma posição muito mais forte para inovar agrotóxicos, promover preparações, operar de forma integrada (pesquisa, produção e comercialização) e competir no mercado. Além disso, a Yangnong Chemical, com base em sua força de sólidas capacidades de segurança de abastecimento, tenta satisfazer a demanda de clientes valiosos e clientes em potencial em casa, expandindo assim as vendas de agrotóxicos. A empresa é pró ativa no desenvolvimento de mercados para seu novo produto, a piraclostrobina, para criar um novo ponto de crescimento. Ela continua a aprofundar sua colaboração com a Sinochem Crop Care, aumentando drasticamente as vendas de preparações. Ele aumenta consistentemente a profundidade de sua cooperação estratégica com multinacionais agroquímicas em novos projetos e novos produtos. Enquanto isso, a empresa realiza o registro do produto com eficácia para estabelecer uma base sólida para a expansão dos negócios.

Beneficiando-se do progresso constante da “plataforma de acesso rápido ao mercado” globalmente, bem como de um profundo compromisso com suas marcas proprietárias, a Shandong Weifang Rainbow Chemical Co., Ltd. viu suas vendas atingirem US $ 880 milhões em 2019, um aumento de 8,8% no ano -no-ano. Depois da Rainbow Chemical, a Beijing Nutrichem divulgou vendas de pesticidas de US $ 757 milhões, uma queda acentuada de 19% com relação ao ano anterior. Esta queda nas vendas apontou principalmente para as fracas exportações da indústria em meio a situações complicadas de comércio internacional durante o período do relatório, disse a empresa. Diante desse cenário, a empresa aprofundou sua estrutura de negócios e encolheu seus negócios comerciais. No entanto, devido à suspensão da produção de sua subsidiária Yancheng Southchem, seu negócio de autoprodução viu uma queda na receita, resultando em menos lucro operacional. Além do mais, devido à desaceleração do setor,

Em 2019, a Nanjing Red Sun, que ocupava a 13ª posição na lista, viu suas vendas de agrotóxicos cairem 22,4%, para US $ 691 milhões. Adversidades e pressões internas e externas colocaram desafios aos resultados operacionais, observou a empresa. Diante dessas adversidades e pressões, a empresa viu o preço de seus principais produtos, como o paraquat, cair em meio à volatilidade e viu seus custos operacionais abrangentes subirem, levando a um declínio substancial nos resultados operacionais. Em resposta, a empresa se compromete com uma abordagem de negócios de “concentração no negócio principal, refinando as cadeias industriais de força e diversificando a linha de produtos principais”. Sob esta abordagem, a empresa se baseia em seus pontos fortes na tecnologia de pesticidas verdes decorrentes da transformação de pesticidas tradicionais usando “digitalização + tecnologia bioquímica”, bem como em seus pontos fortes em produtos e cadeias industriais. Trabalha em estreita colaboração com seus parceiros para estabilizar a produção e o fornecimento de produtos essenciais. Em particular, a empresa pressionou muito para promover e vender o Aquacide, seu carro-chefe, cujas vendas e participação de mercado aumentaram significativamente em comparação com os níveis do ano anterior. Isso não apenas freou a queda no desempenho da empresa no período atual, mas também estabeleceu uma base sólida para que a empresa se tornasse a pioneira no mercado a colher maiores benefícios. Trabalha em estreita colaboração com seus parceiros para estabilizar a produção e o fornecimento de produtos essenciais. Em particular, a empresa pressionou muito para promover e vender o Aquacide, seu carro-chefe, cujas vendas e participação de mercado aumentaram significativamente em comparação com os níveis do ano anterior. Isso não apenas freou a queda no desempenho da empresa no período atual, mas também estabeleceu uma base sólida para que a empresa se tornasse a pioneira no mercado a colher maiores benefícios. Trabalha em estreita colaboração com seus parceiros para estabilizar a produção e o fornecimento de produtos essenciais. Em particular, a empresa pressionou muito para promover e vender o Aquacide, seu carro-chefe, cujas vendas e participação de mercado aumentaram significativamente em comparação com os níveis do ano anterior. Isso não apenas freou a queda no desempenho da empresa no período atual, mas também estabeleceu uma base sólida para que a empresa se tornasse a pioneira no mercado a colher maiores benefícios.

Em 2019, a Lier Chemical viu suas vendas de agrotóxicos cair 3,3% com relação ao ano anterior, para US $ 586 milhões. Vários fatores foram responsáveis ​​pelo declínio nas vendas. Em primeiro lugar, os principais produtos da empresa contribuíram com menos lucro, em parte devido a quedas drásticas no preço de seus principais produtos, decorrentes do acirramento da competição de mercado, e em parte aos aumentos de preços de algumas matérias-primas. Em segundo lugar, a empresa precisava ter seus produtos registrados antes de chegarem aos mercados internacionais. Terceiro, os custos operacionais da empresa aumentaram à medida que ela investiu mais em pesquisa e desenvolvimento de produtos.

A Hubei Xingfa Chemicals, que ocupava a 20ª posição na lista, foi a primeira nova empresa a entrar na lista e em 2019 viu suas vendas crescerem moderadamente 2,8%, para US $ 523 milhões. De acordo com a empresa, no primeiro semestre de 2019, devido a uma série de razões – incluindo melhora na taxa de produção da indústria, aumento da oferta do mercado, aumento do estoque de mercado, bem como redução da compra dos Estados Unidos, um importante consumidor de glifosato , tendo sofrido prolongados eventos climáticos terríveis – o mercado de glifosato estava lento e seus preços caíram em meio à volatilidade. Durante julho e agosto, devido às rígidas regulamentações impostas à indústria do fósforo amarelo no sudoeste da China, o preço do fósforo amarelo subiu, fornecendo suporte de custo mais forte para o glifosato e resultando em uma alta no preço de mercado do glifosato. De setembro a dezembro, devido à queda do preço do fósforo amarelo e também ao aumento do ritmo de operação da indústria, a demanda do mercado de glifosato voltou a desacelerar. Todos esses fatores afetaram o desempenho de vendas da empresa.

A Kumiai Chemical, que ficou em 15º lugar na lista, em 2019 viu suas vendas denominadas em US $ cair drasticamente em 24,7%, mas viu suas vendas denominadas em JPY subir 6,6%, para JPY 72,623 bilhões. De acordo com a empresa, para produtos agrícolas no mercado japonês, embora as vendas em grande escala do herbicida Effeeda para arrozais tenham começado, as vendas de produtos estabelecidos, como Top Gun e GanGan, diminuíram. Como resultado, as vendas de herbicida para os arrozais diminuíram em geral de ano para ano. Por outro lado, as vendas de inseticidas para controle de pragas do arroz aumentaram ano a ano porque novos agentes compostos contendo piraxalto foram lançados e as remessas de agentes compostos contendo isotianil expandiram. Assim, as vendas de agentes para os arrozais em geral foram maiores do que no ano fiscal anterior.

As vendas de produtos especiais em geral aumentaram ano a ano. Para as vendas de ingredientes ativos desenvolvidos internamente, Effeeda, um herbicida para arrozais, e Fantasista, um pesticida para horticultura, mantiveram um crescimento constante, e as vendas de produção consignada e vendas para campos de golfe e outras instalações não agrícolas também tiveram desempenho superior ao anterior ano fiscal.

As vendas para mercados fora do Japão aumentaram em relação ao ano fiscal anterior. As vendas do principal Axeev, um herbicida para agricultura de sequeiro, permaneceram robustas nos Estados Unidos, apesar de um declínio na área cultivada com grãos de soja, um importante produto alvo, devido às chuvas prolongadas do início da primavera e ao atrito comercial entre EUA e China. A ação herbicida do Axeev continuou a ser bem avaliada na Argentina e na Austrália também, e as vendas aumentaram de forma constante lá.

A Nissan Chemical, que ficou em 16º lugar na lista, em 2019 viu suas vendas denominadas em US $ aumentar em 14,7%, para US $ 655 milhões, e viu suas vendas denominadas em JPY subir 2,1% para JPY 64,038 bilhões. No mercado nacional de agrotóxicos, foram fortes as vendas de “GRACIA” (inseticida) lançado em maio no Japão. A receita de “ROUNDUP” (herbicida não seletivo para tratamento de folhas) aumentou em relação ao ano anterior devido a desastres naturais no primeiro semestre do exercício anterior ano, e se manteve estável no segundo semestre deste exercício. No mercado externo de agroquímicos, as vendas de “TARGE” (herbicida) diminuíram, mas as vendas de “GRACIA” para o mercado coreano e de “QUINTEC” (fungicida) adquiriram no terceiro trimestre contribuiu para as vendas.

Desempenho melhor ainda é esperado apesar dos desafios maiores

Desde 2020, o surto repentino de COVID-19 teve impactos sem precedentes na indústria agroquímica global. De acordo com os resultados financeiros do 2º trimestre do ano fiscal de2020 publicados pelos 5 maiores titãs agroquímicos – Bayer, BASF, Corteva, FMC e ADAMA, quatro dessas cinco empresas viram diferentes níveis de declínios em seus resultados do 2º trimestre, exceto ADAMA, que registrou um aumento modesto em seu vendas. COVID-19 impactou temporariamente o desempenho dessas empresas. Além disso, a pandemia está levando essas empresas a transformar e atualizar todos os elementos de suas cadeias de valor. Além do mais, COVID-19 significa fazer a indústria inovar com mais rapidez como um todo. Apesar das diversas pressões no mercado global de agroquímicos por enquanto, à medida que a população continua a aumentar e as pessoas precisam cada vez mais de produtos agrícolas.

fecho

Esta reportagem foi escrita inicialmente em inglês e publicada pela AgNews [Aqui! ].

Carta denuncia “farsa das doações” das corporações que controlam plantio de árvores, commodities agrícolas, petróleo e mineração no Brasil

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Uma rede de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais lança a carta “A farsa das doações no combate à COVID-19 nos setores de plantações de monoculturas de árvores, agronegócio, petróleo e mineração no Brasil”, em que denuncia a falsa solidariedade das empresas no contexto de crise sanitária em que o país está imerso. 

A carta expõe ações das empresas que aproveitam o momento de crise com a pandemia de Coronavírus para fortalecer a imagem de suas marcas com doações a populações em situação de vulnerabilidade, ao passo que seguem operando em meio a pandemia expondo os próprios trabalhadores ao risco de contaminação, como ocorre em vários municípios ladeados pelas empresas onde se verificou explosão de casos. A análise feita pelo grupo denuncia que o contexto de crise sanitária e, principalmente, as ações do Governo Federal levam a um fortalecimento das grandes empresas sobre os territórios.

As organizações e os movimentos sociais questionam a campanha de marketing empresarial beneficente veiculada pela rede Globo no jornal Nacional, a chamada “Solidariedade S.A.”, em que cita o caso da CMPC, empresa de produção de celulose no estado do Rio Grande do Sul, que doou R$ 70 milhões, o que representa meros 7% do faturamento de 2019. Denuncia, ainda, ação do Governo Federal que permitiu que as empresas de celulose renegociassem suas dívidas e lhes fosse concedido novos empréstimos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que representa um ganho financeiro para as empresas que não aparece para a opinião pública. Verbas que, por outro lado, não foram empregadas para auxílio da população em um momento crucial.

A carta ressalta, ainda, o papel desempenhado pelos movimentos sociais e ONGs que — sem receber o mesmo papel de destaque na imprensa — prestam solidariedade a populações carentes das zonas urbana e rural doando alimentos, produtos de consumo não duráveis e material de limpeza com diversos casos em uma rede de apoio construída de Norte a Sul no país.

Quem desejar ler a carta em Português basta clicar [Aqui!], Espanhol [Aqui!], e Inglês [Aqui!].

Rio de Janeiro: (des) governo opera como despachante das corporações. E o povo que se exploda!

A cada notícia de uma nova isenção fiscal bilionária fica mais evidente até para o mais ingênuo dos habitantes do Rio de Janeiro que não vivemos meramente uma crise econômica. Aqui se concentra uma combinação particularmente nefasta de crises: econômica, financeira, fiscal, política e moral.

Como já se desnudou diversas das mentiras alardeadas pelo (des) governo do Rio de Janeiro para explicar a barafunda em que estamos metidos, essa combinação de crises demanda mais do que uma mera denúncia de usos e práticas do grupo que se apossou do controle do estado a partir da entrada de Sérgio Cabral no Palácio Guanabara. É que apenas apontar para os evidentes desvios praticados com a coisa pública, e que emerge de diversas formas nefastas sobre a vida da população, não é suficiente para entendermos porque tudo o que é de ruim parece ser abater sobre o Rio de Janeiro, numa forma muito particular das sete pragas do Egito.

A questão de fundo que merece ser analisada com a devida profundidade se refere à concepção de Estado que está por detrás de tantos malfeitos evidentes. A partir da análise dos discursos e práticas predominantes é possível verificar que há uma evidente inclinação para a aplicação de uma forma particularmente aguda das receitas Neoliberais. Essa receita combina a ação de pilhagem do Estado a partir de contratos superfaturados nas diversas áreas privatizadas com uma generosa política de isenções fiscais para todo tipo de empresa, desde pequenos empreendimentos que incluem termas, restaurantes, cabeleireiros, joalherias até corporações multinacionais como a Jaguar Land Rover, Coca Cola e Nissan.

Enquanto isso acontece como política oficial de (des) governo, a coisa pública vai se desmanchando com uma velocidade impressionante. Nesse terremoto de sucateamento estão sendo engolidos escolas, hospitais e universidades e programas sociais voltados para as camadas mais pobres da população.  A marcha desse desmanche cirurgicamente programado dos serviços públicos é inclemente, mesmo porque não existe uma oposição forte o suficiente para reverter este processo.   E esse é para mim o maior problema que estamos enfrentando, pois tudo parece prosseguir como nada de anormal estivesse acontecendo, inclusive os arranjos e alianças para as próximas eleições municipais.

Esse é o Rio de Janeiro transformando em pasto das corporações onde o Estado se resume a ser um mero despachante de empresas e grupos privados. Resta apenas saber até quando a população vai assistir a tudo de forma pacífica. E se um vagalhão de violência vier, que não se culpe os que reagem a este processo acintoso de destruição da coisa pública que apenas pune quem já é historicamente marginalizado.