Pesquisa indica estratégia para produção de vacinas de maior eficácia

Com participação de cientista da UFSCar, artigo publicado na Nature indica que geometria de nanopartículas afeta resposta imune a vacinas

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Pesquisador da UFSCar coordena etapa de investigação teórica e modelagem (Imagem: André Moura)

Para desencadear a resposta imune que nos protege em infecções futuras, vacinas carregam, além do antígeno – vírus inativados ou partes dele, dentre outras estratégias –, os chamados adjuvantes, compostos que ajudam na ativação do sistema imune. Artigo publicado ontem (19/1) na Nature, com participação de cientistas brasileiros, mostra que a atenção a um atributo geométrico de nanopartículas usadas como adjuvantes, a quiralidade, pode resultar em vacinas mais eficazes.

A quiralidade define um objeto – ou molécula – com tal distribuição espacial que não pode ser sobreposto à sua imagem refletida em um espelho. Macroscopicamente, um exemplo conhecido são as nossas mãos direita e esquerda. Microscopicamente, podemos dizer que a vida é quiral, pois moléculas essenciais como aminoácidos e açúcares apresentam quiralidade.

Assim como, ao cumprimentarmos alguém, o encaixe é melhor entre mãos direitas (ou esquerdas), a interação de uma molécula biológica com compostos com orientação à esquerda ou à direita acontece de formas distintas, sendo mais precisa se há encaixe entre elas, ou seja, se ambas têm, por exemplo, orientação à esquerda (ou, mais precisamente, são enantiômeros à esquerda, nome dado aos isômeros das moléculas quirais).

Por isso, a quiralidade pode resultar em diferentes propriedades e, importante no caso de materiais usados nas vacinas, em respostas biológicas distintas. O encaixe, no entanto, não significa, necessariamente, algo bom, como a capacidade de prevenção ou tratamento de doenças, podendo também levar a algo que é tóxico ou venenoso.

Um exemplo famoso é a talidomida, fármaco usado para tratar náuseas em gestantes que, na década de 1960, descobriu-se causar má formação nos fetos. No medicamento, enquanto um dos enantiômeros tem o efeito terapêutico, o outro causa os problemas no desenvolvimento fetal. Como, neste caso, não é possível manter apenas um dos enantiômeros, não existe possibilidade de uso seguro da substância por gestantes.

Porém, no caso de nanomateriais, é possível obter a forma enantiopura estável, ou seja, composta apenas por um dos enantiômeros.

Na pesquisa relatada na Nature, o objetivo foi justamente comparar nanomateriais quirais – enantiômeros à esquerda e à direita – e seu correspondente aquiral (simétrico) no que diz respeito à resposta do sistema imune. Para tanto, foram usadas nanopartículas de ouro. Em estudos in vitro (com células de origem animal) e in vivo (em animais – camundongos – vivos), os resultados mostraram maior eficácia na ativação da resposta imune nas nanopartículas orientadas à esquerda.

Para a realização do estudo, o primeiro passo foi a preparação das nanopartículas com os atributos desejados – aquiral, quiral à esquerda e quiral à direita –, induzindo a quiralidade desejada por meio de uma combinação de peptídeos e luz circularmente polarizada, que é uma forma quiral de luz. Depois, o estudo in vitro consistiu na incubação dessas partículas junto a células do sistema imune, com acompanhamento de diversas respostas, como a velocidade de entrada das nanopartículas nessas células; a expressão, pelas células, de marcadores bioquímicos associados à ativação da resposta imune; dentre outros parâmetros. In vivo, as medidas confirmaram os resultados encontrados nas células e, para testar as respostas no nível sistêmico, os pesquisadores usaram as nanopartículas como adjuvantes em vacinas contra uma cepa do vírus influenza (H9N2) aplicadas nos camundongos.

Em todos os experimentos, a resposta gerada pelos enantiômeros à esquerda foi ampliada em relação aos enantiômeros à direita e às partículas aquirais. Além dessa constatação, os pesquisadores também investigaram e descrevem no artigo os mecanismos biológicos que podem explicar essas diferenças. Segundo os responsáveis, a descoberta abre caminho para o uso dessas nanoestruturas produzidas com controle de sua quiralidade na produção de respostas imunes sob medida. Além disso, alertam para a importância da parametrização da quiralidade em estudos biomédicos e toxicológicos, já que enantiômeros distintos de um mesmo princípio ativo podem ter impactos muito distintos sobre os organismos vivos.

“As pessoas podem se perguntar por que não realizamos o estudo pensando na COVID-19, ou mesmo com a cepa de influenza que circula atualmente. No entanto, a pesquisa começou muito antes da pandemia, e é importante lembrar que as vacinas contra a Covid só puderam ser produzidas tão rapidamente porque o conhecimento aplicado veio sendo produzido nas últimas décadas”, situa André Farias de Moura, docente no Departamento de Química (DQ) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que é um dos autores do artigo. “Temos agora um primeiro passo dado, uma prova de conceito, e sabemos que podemos seguir nessa direção”, complementa Moura, vinculado também ao Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF).

O trabalho é mais um capítulo na parceria de Moura com o grupo de pesquisa coordenado por Nicholas A. Kotov, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e com o grupo de Chuanlai Xu, na Universidade de Jiangnan, na China. Além deles, assinam o artigo outros pesquisadores da Universidade de Michigan; parceiros na Universidade de Jiangnan; e os brasileiros Felipe M. Colombari, Weverson R. Gomes e Asdrubal L. Blanco, todos eles egressos do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar.

A parte experimental da pesquisa acontece nos laboratórios parceiros. Na UFSCar, Moura coordena a etapa de investigação teórica e modelagem e simulação computacional, que ajuda a compreender os mecanismos por trás dos resultados encontrados empiricamente.

No Brasil, a pesquisa teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de bolsa do Programa de Educação Tutorial (PET) do Ministério da Educação. Contou também com o uso de recursos de computação científica de alto desempenho do Laboratório Nacional de Computação Científica (supercomputador Santos Dumont) e da Cloud@UFSCar.

O artigo publicado na Nature é intitulado “Enantiomer-dependent immunological response to chiral nanoparticles” e já está disponível no site da revista (Aqui!).

Confira também vídeo com Moura produzido pelo Laboratório Aberto de Interatividade (LAbI) da UFSCar (em https://www.youtube.com/watch?v=nsGzCFqX5ak).

Instituto Butantan lança dossiê sobre todo conteúdo publicado sobre a eficiência da Coronavac

O material contém mais de 700 páginas e comprova, mais uma vez, que a vacina é segura eficaz e recomendada para todos os públicos

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A partir desta sexta-feira (7), o dossiê digital CoronaVac – O que a ciência comprova, que reúne pesquisas de efetividade e ensaios clínicos publicados nas principais plataformas científicas de todo o mundo, passa a ficar disponível para especialistas em saúde pública, médicos, pesquisadores e sociedade civil.

O material traz temas como a alta resposta imune provocada pela CoronaVac, a capacidade da vacina de combater as variantes do SARS-CoV-2, sua segurança para gestantes, bebês, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com comorbidades e imunossuprimidos, além de dados sobre a importância da dose de reforço e os registros de segurança, que mostram a baixa incidência de efeitos adversos do imunizante.

Com mais de 700 páginas e dividido em oito capítulos, o dossiê contempla pesquisas veiculadas em publicações internacionais como The Lancet, Vaccine, Frontiers of Immunology, Future Oncology, entre outras. Cada capítulo possui uma introdução resumida em português e diversas publicações originais em inglês.

Veja os capítulos do dossiê abaixo:

Capítulo 1 – Alta resposta imune 

Em janeiro de 2021, a CoronaVac teve sua eficácia comprovada conforme as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nos meses seguintes também foram publicados outros artigos científicos que confirmam a capacidade de proteção e segurança da vacina do Butantan.

Capítulo 2 – Combate às variantes do coronavírus

A efetividade da vacina contra as variantes beta, gama e delta do SARS-CoV-2 foram demonstradas em estudos realizados no Brasil e em outros países.

Capítulo 3 – Segurança para gestantes e para os bebês 

Estudos comprovaram 85% de eficácia da CoronaVac na prevenção de casos graves entre gestantes e puérperas e mostraram que a proteção do imunizante é passada aos bebês pelo leite materno.  

Capítulo 4 – Proteção a indivíduos com comorbidades

A CoronaVac é segura e gera soroconversão em pessoas que têm HIV, hepatite B, câncer, doenças reumáticas, entre outras imunodepressões. 

Capítulo 5 – Eficácia em idosos

A CoronaVac foi o imunizante que iniciou a vacinação contra a Covid-19 no Brasil, protegendo profissionais da saúde e pessoas acima de 60 anos. Em poucos meses, a queda da mortalidade entre idosos já pode ser sentida, comprovando novamente a efetividade da vacina. 

Capítulo 6 – Proteção a crianças e adolescentes 

Estudos de ensaios clínicos com jovens de três a 17 anos mostram que a CoronaVac é segura e gera forte resposta imune nesta população. 

Capítulo 7 – Multiplicação de anticorpos na dose de reforço 

A dose de reforço da CoronaVac eleva a proteção contra a Covid-19 para 80%, segundo números do governo chileno. Além disso, aumenta mais de 12 vezes o nível de anticorpos de quem tomou duas doses. 

Capítulo 8 – Raros efeitos adversos

Entre todas as vacinas aplicadas no Brasil, a CoronaVac é a que causa menos efeitos adversos, e mais leves, de acordo com números de ensaios clínicos e de estudos científicos.

Para acessar o material completo, basta acessar [Aqui!]. 

Atividade física pode intensificar e prolongar resposta de vacinas contra a COVID-19

Estudo foi realizado com pacientes do Hospital das Clínicas que tomaram duas doses da Coronavac e tinham doenças reumáticas autoimunes

Reg. 054-21 Pessoas Caminhando. 2021/11/11 Foto: Marcos Santos/UA pesquisa investigou a associação entre atividade física e anticorpos anti-Sars-CoV-2 persistentes, seis meses após esquema

Por Ivanir Ferreira para o Jornal da USP

Estudo conduzido por pesquisadores da USP e realizado com 748 pacientes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) mostrou que atividade física feita de forma regular está associada ao aumento da resposta imunológica à vacina contra covid-19, que tende a diminuir com o passar do tempo. A pesquisa investigou a associação entre a prática e anticorpos anti-Sars-CoV-2 persistentes, seis meses após esquema de duas doses de Coronavac em pacientes com doenças reumáticas autoimunes (artrite reumatoide, lúpus, esclerose sistêmica, miopatias inflamatórias, entre outras).

Os dados foram divulgados dia 28 de dezembro na plataforma Research Square, em fase de pre-print, ainda sem revisão por cientistas externos: Associação de atividade física com maior persistência de anticorpos por 6 meses após a segunda dose de Coronavac em pacientes com doenças reumáticas autoimunes.

Em entrevista ao Jornal da USP, o primeiro autor do artigo, Bruno Gualano, professor do Departamento de Clínica Médica da FMUSP e especialista em fisiologia do exercício, explica que a imunogenicidade persistente (capacidade da vacina provocar resposta imune a longo prazo) dos pacientes foi avaliada seis meses após ter acontecido a vacinação completa e “aqueles que eram fisicamente ativos exibiram taxas de soropositividade (presença de anticorpos contra o coronavírus) mais elevadas do que os inativos”.

Na opinião do pesquisador, em um cenário global com escassez de vacinas e respostas imunológicas heterogêneas, é fundamental reunir conhecimento sobre os fatores de risco potenciais associados à baixa persistência da imunidade. “A proposta é desenvolver estratégias para aumentar a durabilidade da imunogenicidade, bem como priorizar os indivíduos para receber uma dose de reforço. As evidências que sugerem que a atividade física pode atuar como uma espécie de adjuvante das vacinas são de extrema importância”, reforça.

Redução de anticorpos

Segundo o artigo, alguns estudos têm demonstrado que os anticorpos induzidos pela vacina contra o coronavírus diminuem com o tempo. Os anticorpos neutralizantes (NAb) contra a variante Beta, por exemplo, foram reduzidos consideravelmente seis meses após o recebimento da segunda dose da vacina da Moderna e da Janssen, da Johnson & Johnson; e a resposta humoral (resposta de anticorpos) da população em geral também diminuiu substancialmente seis meses após o recebimento da Pfizer Biontech, principalmente entre homens, pessoas maiores de 65 anos e pacientes com imunossupressão.

Campanha de vacinação contra a Covid-19 – Foto: Cristine Rochol/PMPA

E embora a Coronavac tenha demonstrado eficácia na prevenção de casos graves de covid-19, indivíduos que receberam esse esquema vacinal de duas doses também tiveram declínio em sua resposta imunológica após seis meses o ciclo completo de vacinação. No caso de pacientes com doenças reumáticas autoimunes, dados deste mesmo estudo clínico, que é liderado pela pesquisadora Eloisa Bonfá (FMUSP) , mostraram o mesmo padrão de diminuição da imunidade.

Análises de produção de anticorpos

Para avaliar a imunogenicidade persistente, ou seja, o quanto que a vacina havia conferido proteção aos pacientes após seis meses de ter completado o esquema vacinal, foram feitos exames sorológicos para verificar as taxas de soropositividade – anticorpos IgG e a presença de anticorpos neutralizantes (NAb), que são indicativos de resposta humoral  à vacina. Para a designação se o paciente era ativo ou inativo fisicamente foi utilizado o parâmetro da Organização Mundial da Saúde (OMS), ou seja, ativa é aquela pessoa que realiza alguma atividade física moderada ou vigorosa por pelo menos 150 minutos por semana.

Detectado produção de anticorpos mais robusta em pessoas ativas

Fazendo os ajustes para idade, sexo, uso de medicamentos e obesidade, dos 748 pacientes analisados (421 ativos e 327 inativos), seis meses após completado o esquema vacinal, ambas as taxas de positividade de anticorpos –  IgG anti-SARS-CoV-2 e neutralizantes – foram significativamente maiores para os ativos do que para os inativos, relata o artigo. “Para cada 10 pacientes inativos que apresentaram soropositividade , 15 ativos tiveram o mesmo resultado”, aponta Gualano.

Com base nos estudos realizados pelo grupo, Gualano conclui que “a atividade física parece não somente montar uma resposta de anticorpos à vacina mais robusta, como também parece aumentar a durabilidade do efeito protetor do imunizante. “Se isso se confirmar, teríamos uma ferramenta barata e  potencialmente capaz de reduzir a baixa resposta vacinal de grupos de risco, como pessoas com sistema imune disfuncional”, diz.

Tendo em vista os conhecidos benefícios da atividade física na prevenção de doenças crônicas e até mesmo casos graves de covid-19, somados aos benefícios agora observados para a resposta das vacinas, os autores recomendam a promoção clínica de atividade física. “Um estilo de vida ativo pode exercer papel crucial no combate da covid-19”, conclui o pesquisador.

Esse estudo faz parte de um amplo ensaio clínico de fase 4 (estudo de efetividade) coordenado pela professora Eloisa Bonfá com a participação de diversos pesquisadores do HCFMUSP.

Mais informações: e-mail brunogualano@yahoo.com.br ou gualano@usp.br, com Bruno Gualano.

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Este texto foi publicado inicialmente pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Espalhamento exponencial da Ômicron causa reação de governos em toda a Europa

Contra avanço rápido de ômicron, Holanda fecha escolas e Inglaterra instaura passaporte sanitário

ômicron europaCiclista usa máscara durante passeio em Amsterdã © MARTIN BERTRAND / HANS LUCAS / AFP

A transmissão da variante ômicron da COVID-19 avança em um ritmo “nunca antes visto”, alertou nesta terça-feira (14) a OMS (Organização Mundial de Saúde). Diante da rápida transmissão, países europeus aumentam as medidas de restrição sanitária às vésperas das festas de fim de ano.

Descoberta no final de novembro, a variante já foi detectada em 77 países. “A realidade é a ômicron está provavelmente na maioria dos países, ainda que não tenha sido detectada. Ela está se espalhando a uma velocidade que não vimos com nenhuma outra variante”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.

O diretor da OMS lembrou que apesar de a nova variante estar na origem de doenças menos graves, “o número de casos pode sobrecarregar novamente os sistemas de saúde despreparados”.

Diante do rápido aumento de casos na Europa, diversos países europeus decidiram aumentar as restrições de circulação durante o final do ano.

Na Holanda, o primeiro-ministro Mark Rutte anunciou o fechamento das escolas de ensino fundamental na próxima semana. As aulas terão fim uma semana antes do previsto. A decisão foi tomada devido às altas taxas de infecção entre os pequenos, que podem levar o vírus para casa.

Além disso, cada holandês só poderá receber até quatro convidados em casa para o período de festas.

“Obviamente não é a mensagem feliz que esperávamos na véspera do Natal. Mas não é uma surpresa”, afirmou Rutte, durante o anúncio feito em Haia.

O governo também decidiu estender até 14 de janeiro a limitação de horário para comércios não essenciais. Lojas, bares e restaurantes devem fechar suas portas a partir das 17h e não podem começar a funcionar antes das 5h.

Reino Unido exigirá passe sanitário a partir de quarta

No Reino Unido, que já perdeu quase 150 mil vidas desde o início da pandemia de COVID-19, são registrados diariamente 200 mil novos casos.

Apesar de sofrer rejeição de alguns membros do partido conservador, o governo de Boris Johnson conseguiu aprovar nesta terça a adoção do passaporte sanitário para casas noturnas e grandes salas no Reino Unido e obrigação vacinal para trabalhadores do sistema de saúde.

O premiê britânico havia alertado domingo que o país passava por um momento de aumento rápido de casos. No entanto, parte dos deputados de seu partido (Tory) votaram contra as novas medidas de restrição sanitária. A aprovação das medidas sanitárias só foi possível graças ao apoio do partido trabalhista, opositor.

Itália vai exigir teste negativo de europeus

O ministério italiano de Saúde anunciou hoje que será exigido um teste negativo para coronavírus de todos os viajantes que chegarem de um país europeu. A medida já era adotada para viajantes de países de fora da União Europeia.

O governo da Itália prorrogou ainda até março de 2022 o período de emergência sanitária, quando o governo tem mais poderes para adotar restrições sanitárias.

(Com informações da AFP e da Reuters)

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rádio França Internacional [Aqui!].

 

THE LANCET: Impacto socioeconômico da COVID-19 é maior e será mais duradouro em populações vulneráveis

covid 19 amazonia

Uma pesquisa publicada hoje pela The Lancet – uma das revistas científicas, voltadas para a área médica, mais prestigiadas no mundo -,  reuniu especialistas para explicar como a queda econômica terá efeito por anos e será pior em países pobres. Sem um consenso para ações preventivas, famílias e comunidades serão afetadas de forma desproporcional. A longo prazo, as desigualdades na saúde, no bem-estar físico e socioeconômico serão ampliadas por todo o mundo. 

Essas populações vulneráveis são, geralmente, invisíveis para os governos, o que resulta em um acesso insuficiente a serviços públicos e programas de igualdade econômica. Além disso, dados oficiais de indicadores de saúde, ligados ou não à COVID-19, não são disponibilizados publicamente em diversos países. Por isso, a verdadeira dimensão da gravidade é subestimada. Há uma urgência por mais dados desagregados e padronizados que informem com precisão as ações e políticas públicas. 

Um dos autores da pesquisa é o Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), professor Virgilio Viana, PhD por Harvard, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral. Ele mencionou os desafios que comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam na parte brasileira da floresta amazônica por conta da COVID-19:

“Esse artigo realça de uma maneira muito clara a importância que a ciência dá para a necessidade de ter um tratamento diferenciado para as populações mais vulneráveis. Em relação à Amazônia, o atendimento às questões de saúde em áreas indígenas e populações tradicionais da Amazônia profunda merece uma atenção especial, como podemos ver com a chegada do vírus nas comunidades. Portanto, essa produção científica aponta para a necessidade de pensarmos o SUS na floresta de maneira a aumentar a sua eficiência e a sua eficácia, a partir da experiência com o nosso trabalho na FAS, que ajudou muitas comunidades e deu suporte durante o período mais difícil da pandemia, principalmente no Amazonas.”

Para entender o efeito da COVID-19, especificamente em pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade, há uma necessidade específica de uma coleta de dados atualizada. O número de hospitalizações, mortes e outros indicadores de bem-estar social e de saúde precisam ser divididos por gênero, idade, raça, etnia, deficiências e outras variáveis.  

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, explica que estes dados podem ajudar a criar políticas públicas: 

“A pandemia nos obriga a resgatar uma perspectiva sobre como a proteção social e a cobertura universal para assistência de saúde foram negligenciadas na última década. Os efeitos populacionais de fenômenos ambientais e sociais são sentidos mundialmente, principalmente por pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é mais possível encarar a desigualdade como se não fosse um problema de todos.”

Quem são os afetados?

Quando falamos em populações vivendo em situação de vulnerabilidade, estão incluídos indivíduos que enfrentam exclusão sistemática e discriminação por causa de fatores como idade, deficiência, raça, etnia, gênero, classe econômica, religião, credo ou crença, identidade de gênero, orientação sexual e situação migratória, além daqueles que estão em conflitos e apátridas. Pessoas que estão encarceradas, com condições crônicas de saúde (ex.: deficiências mentais), vivendo em moradias inadequadas e expostas à degradação ambiental, poluição do ar e em risco durante a mudança climática também são afetadas.

Ao final do artigo, os autores destacam cinco recomendações para melhor auxiliar na proteção de populações vulneráveis, a fim de reduzir desigualdades na área da saúde. A primeira delas refere-se à importância de executar uma cobertura universal de saúde e implementar sistemas de proteção social nos países; a segunda diz respeito ao compromisso de governos e parlamentos para financiar e salvaguardar os serviços sociais e de saúde; como terceira recomendação, há a necessidade da equidade digital para todos; na quarta indicação, a ênfase está na economia do cuidado; e, finalmente, a quinta recomendação evidencia a revitalização das relações entre governos e atores da sociedade civil, de modo a garantir que comunidades, populações vulneráveis e todas as identidades de gênero detenham papel central na tomada de decisões.

O estudo concluiu que o mundo chegou a um momento crucial, exigindo mais do que nunca uma resposta colaborativa para ampliar o acesso universal à saúde e proteção social. É preciso construir estratégias e políticas públicas que levam em conta sistemas de saúde e de assistência social mais resilientes, incluindo aqueles que vivem uma crise humanitária, para mitigar efeitos da pandemia, solucionar a desigualdade e melhorar a resiliência de comunidades vulneráveis.

Carta dos epidemiologistas à população brasileira

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Nós epidemiologistas, profissionais da saúde, estudantes de graduação e pós-graduação, reunidos no 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia da ABRASCO, vimos, através desta carta, denunciar as sérias condições socioeconômicas e de saúde que, agravadas pela pandemia de COVID-19 e pelas políticas de austeridade econômica, têm levado a um imenso sofrimento da nossa população.

A COVID-19 deixou um rastro de milhões de casos e de milhares de mortos no Brasil.  Nos últimos dois anos nosso país sofreu enormes transformações que promoveram mudanças marcantes na vida dos brasileiros. O Brasil registrou o segundo maior número de mortes por COVID-19 no mundo, atrás apenas dos EUA. A política de enfrentamento à epidemia por parte do governo federal foi catastrófica! Agora, nos confrontamos com um enorme declínio econômico, a volta da fome, aumento desastroso do desemprego, e um cenário de ataques à ciência e à educação.

É sabido que a ocorrência de pandemias/epidemias como a COVID-19, AIDS, MERS, SARS, ZIKA, CHIKUNGUNYA, entre outras, são consequências da maior degradação ambiental ocorrida em nosso planeta nas últimas décadas. O Brasil, ao invés de reduzir seus ataques às nossas matas, tem promovido uma das maiores devastações da floresta amazônica e do cerrado deste século. Facilitou a “passagem da boiada” permitindo que grileiros, garimpeiros, madeireiros ilegais e assassinos de indígenas praticassem seus crimes livremente. O garimpo afetou gravemente as populações indígenas, destruindo suas reservas e envenenando seus rios e seus peixes, e levou o coronavírus para estas comunidades que, como consequência, tiveram as maiores taxas de mortalidade do país.

Desde que a pandemia se instalou no país, o Ministério da Saúde do Brasil teve quatro diferentes ministros, nenhum dois quais foi capaz de liderar o processo de mitigação da COVID-19. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas e muitas famílias foram destroçadas. Estudos brasileiros comprovam que, além do boicote às práticas de prevenção, o chefe da nação, ativamente, concorreu para a disseminação da pandemia no país: rejeitou a gravidade do vírus, não providenciou testes, não organizou a atenção básica na pandemia, criou crises diplomáticas que interferiram na aquisição das vacinas, incentivou o uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada e tentou impedir a implementação de medidas não farmacêuticas pelos governadores e prefeitos, permitindo que o SARS-CoV-2 se disseminasse por todo o país. Os maiores afetados por esta ação deliberada foram os idosos, os negros, as populações indígenas, as comunidades quilombolas e todos aqueles que vivem em maior vulnerabilidade.

Apesar de toda a inépcia, depois de um retardo de seis meses, as vacinas chegaram ao país, mas não na quantidade suficiente. Com isto, a vacinação avançou graças à resposta do Programa Nacional de Imunizações (PNI) que, apesar de sua desestruturação central, mostrou sua presença e capilaridade nos estados e municípios. Entre atrasos, erros e suspeitas de corrupção investigadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da COVID-19 no Senado Federal, cerca de 60% dos brasileiros já receberam as duas doses de imunizantes ou a dose única, ultrapassando os EUA. As coberturas alcançadas no Brasil contrastam com a forma premeditadamente errática com que o presidente Bolsonaro lidou com a pandemia. Relembram e reforçam a extensão da confiança que nós brasileiros temos no nosso robusto sistema de saúde público – o SUS, e no histórico de sucesso e de respostas rápidas a crises que muitas vezes conseguimos dar. Vencemos a pólio, o sarampo, o H1N1, nosso Programa Nacional de Controle da epidemia de HIV/Aids foi considerado um modelo mundial, nossos esforços na redução da mortalidade infantil e mortalidade materna e em inúmeras outras ações que, mesmo com reveses e dificuldades enormes, nos enchem de orgulho. Todos sabemos que a pandemia seria ainda muito mais devastadora se não tivéssemos o SUS.

Nossos desafios, contudo, ainda são enormes. Mais de 20 milhões de brasileiros com a primeira dose, ainda não tomaram a segunda dose e não estão, portanto, adequadamente protegidos. É urgente que os gestores de saúde promovam as condições para que o SUS faça a busca ativa destas pessoas, e vários municípios mostraram que isto é possível.

Realçamos, contudo, que mesmo depois de atingirmos o controle da pandemia, o SUS, cronicamente subfinanciado, continuará sobrecarregado, lidando com as demandas de saúde represadas e com as sequelas da COVID-19. Por isto, nossa luta pela revogação da Emenda Constitucional 95 que congelou os gastos públicos precisa ser incessante. Com todos os ataques, o SUS foi efetivo em garantir que a vacinação chegasse em todos os pontos do país. A pequenez do atual governo ficará na sombra da grandeza do nosso SUS.

Não podemos esquecer de que a pandemia nos atingiu em meio a uma crise política e econômica imposta sobre o nosso país com o golpe parlamentar de 2016 aprofundada pelas desigualdades já existentes. O Atlas das situações alimentares no Brasil deixa claro que no período entre 2004 e 2013 a fome e o risco de fome apresentaram uma tendência de queda, enquanto que entre 2017-2018 se observa um aumento dessas duas situações que se agravaram mais recentemente.

A alta vulnerabilidade em que se encontram diversos segmentos de trabalhadores ocupa centralidade no Brasil. As dificuldades quanto à garantia do emprego e da sobrevivência, marcam o atual momento histórico no país. A remoção de direitos e garantias sociais pela reforma trabalhista de 2017 ampliou as desigualdades e repercussões da atual crise sanitária. Como consequência, muitos trabalhadores não puderam atender às recomendações de distanciamento físico para contenção da COVID-19. Excluídos do mercado formal de trabalho passaram a depender de programas temporários e insuficientes de transferência de renda e muitos engrossaram a multidão daqueles vivendo em situações extremas de insegurança alimentar, sem saber se ou quando vão poder comer.

Hoje, se de um lado temos famílias desesperadas, buscando restos de alimentos no lixo ou comprando ossos para cozinhar; temos cerca de 15 milhões de desempregados no país; mais uns 50 milhões em trabalhos informais e outros novos empregos com salários menores, de outro lado, assistimos à concentração de renda ser incrementada durante a pandemia: 1% dos brasileiros mais ricos se tornaram donos de metade das riquezas do país. São tristes recordes que o Brasil insiste em ostentar, reforçando aquilo que há de pior da desigualdade social.

Não colher, esconder e manipular dados virou especialidade deste governo. Bolsonaro tentou substituir o sistema de medição de desmatamento da Floresta Amazônica para omitir os dados corretos. Enquanto seu ministro do Ambiente assinava compromissos na recente reunião da COP26, o país registrava desmatamento recorde e atrasou a divulgação de dados do monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE). Na saúde, em meio à pandemia, em meados de 2020, o Ministério da Saúde ocultou o número total de infectados pelo SARS-CoV-2 e o acumulado de óbitos no país, tentando apagar o efeito desastroso de sua estratégia de deixar a transmissão do vírus circular livremente entre os brasileiros. Com o Censo Demográfico de 2021 persegue a mesma estratégia. O que foi dificultado pela pandemia em 2020, agora é adiado para 2022, sob alegação de falta de verba. A pesquisa, principal instrumento para a formulação de políticas públicas nas áreas da saúde, educação e situação das desigualdades, e que deveria ser realizada a cada 10 anos, não poderá revelar o panorama dramático resultante da crise econômica e social pós pandemia na população brasileira e o papel do governo.

Na educação o caos não foi menor. Os ataques do governo à ciência, às universidades e às agências de fomento à pesquisa são impiedosos. Os orçamentos da Capes e do CNPq caíram 73% desde 2015, e juntas, estas duas agências tiveram uma redução real de quase 10 bilhões de reais em seus orçamentos. O orçamento de 2021 é quase ¼ daquele de 2015. O Enem, exame que democratizou o acesso às universidades brasileiras, foi o mais excludente, com o menor número de inscrições, implicando em uma maior exclusão de estudantes de escola pública e de estudantes negros no ensino universitário.

Através de nossa entidade, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), que agrega pesquisadores, profissionais e estudantes das diversas áreas da saúde coletiva, nos mobilizamos e juntamente com outras entidades de saúde e com o Conselho Nacional de Saúde elaboramos um Plano de Enfrentamento à COVID-19, que foi lançado publicamente em ato político no dia 3 de julho 2020 com a participação de muitas entidades, movimentos e parlamentares e no dia 28 de julho 2020 foi entregue ao Ministério da Saúde. Neste plano, analisamos a situação da pandemia e todas as suas consequências e apresentamos recomendações para autoridades políticas, sanitárias, gestores e sociedade em geral.

Neste congresso temas altamente relevantes sobre a saúde no Brasil foram amplamente apresentados e discutidos com participação de importantes nomes da comunidade científica brasileira e internacional. Debatemos exaustivamente a situação da pandemia de COVID-19 e é nosso dever e compromisso colocar nosso conhecimento e nossa experiência a favor da defesa da vida e da saúde dos brasileiros.

Temos a certeza que a saída da atual crise sanitária deverá ser de forma coletiva. É urgente fortalecer o SUS para que ele possa responder aos desafios atuais e futuros, assim como defender, de forma incondicional, todas as instituições brasileiras de ensino e pesquisa. Nosso compromisso é com a diminuição das desigualdades e com a garantia de acesso universal e público às ações de saúde e à educação. Assim sendo, apelamos para que toda a população entenda que a pandemia de COVID-19 não terminou, é necessário que todos tenham acesso a vacinação completa e que sigam as medidas de saúde pública que há quase dois anos repetimos em todos os espaços insistentemente: máscaras, distanciamento físico e evitar aglomerações. É nossa responsabilidade exigir que o governo federal cumpra seu dever de garantir saúde e educação para todos, direitos conquistados em nossa Constituição Federal.

Nos solidarizamos com todas as famílias que perderam seus entes queridos e conclamamos todas e todos para se somarem à luta em defesa da vida, da democracia e do SUS. Continuamos firmemente trabalhando e contribuindo para a superação desta que é a mais grave crise deste século. Viva o SUS!

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Este texto foi originalmente publicado no site da Associação Brasileira de Saúde Coletiva [Aqui!].

Com falta de investimento em Educação e Ciência, Brasil perde talentos e cai em índice de competitividade

Pesquisas científicas e projetos inovadores podem ser cortados
elcio abdallaÉlcio Abdalla, coordenador e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP)
O corte contínuo de verbas em Ciência e Tecnologia, que vem acontecendo no Brasil nos últimos anos, não está afetando apenas as pesquisas científicas, mas pode levar a um fenômeno de difícil reversão: a fuga de cérebros, o que já pode ser visto em número. No ranking do Índice Global de Competitividade por Talento, o Brasil despencou 25 posições de 2019 para 2020: da posição 45 foi para a 70. Na lista das nações que mais atraem talentos, o país também caiu muito em quatro anos: perdeu 28 posições.

A emigração intelectual coincide com a redução do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, que perdeu quase metade dos recursos de 2015 para 2016 e vem sofrendo mais cortes de 2019 para cá. Só em outubro, o Ministério da Economia decidiu cortar do Orçamento 90% dos recursos que seriam destinados a vários projetos científicos, inclusive a bolsas e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A verba destinada para a ciência, que era de R$690 milhões, vai ficar em apenas R$55,2 milhões.

As consequências para o país serão nefastas. Por aqui, a quase totalidade das pesquisas científicas e em inovação são feitas pelas universidades públicas, financiadas pela FAPESP, pelo Ministério da Educação e outras instituições, como a Finep. Élcio Abdalla, coordenador e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), é coordenador do Bingo, um radiotelescópio inédito no país, financiado pela Fapesp, pelo governo da Paraíba com colaboração chinesa, que corre o risco de ser interrompido com a queda de investimentos. Além disso, em sua sala de aula ele tem visto: a fuga de cérebros é um fenômeno que tende a crescer. Revertê-lo é mais difícil, diz.

Hoje no projeto há três colaboradores de altíssima competência, que estão saindo definitivamente do Brasil por falta de oportunidades aqui.”São alguns excelentes pesquisadores, alunos recém formados, que estão indo embora e não necessariamente porque queriam, mas porque são extremamente qualificados e aqui não são remunerados adequadamente em pesquisa, e, pior que isto, por vezes não encontram trabalho. China, Alemanha, Estados Unidos são alguns dos destinos deles e, pelas perspectivas que vemos desse governo, de cada vez maior desvalorização do conhecimento, a perspectiva de que esses cérebros podem retornar é baixa. Mesmo que voltemos a investir, serão anos para retomarmos os níveis atuais”.

Pandemia mostrou importância do investimento em ciência

A pandemia da Covid-19 e a consequente busca por vacinas deixou claro que os países com maior investimento saíram na frente – e devem continuar liderando o mundo:

“A produção científica, o investimento em pesquisa, retorna para a sociedade em quase todas as áreas. Desde inovações e descobertas que tornam bens de consumo melhores e mais acessíveis até a produção de medicamentos e vacinas, procedimentos médicos, obras de engenharia que melhoram a mobilidade urbana e desenvolvimento agropecuário que torna a produção de alimentos mais barata e de melhor qualidade. Investir em inovação e ciência é criar autonomia para o país. Percebemos isso agora, nas vacinas. Aqueles com capacidade de desenvolver e produzir saíram na frente. Isso não é uma simples coincidência, são as nações que mais valorizam a ciência”, explica Élcio. Não apenas isto, há também benefícios tecnológicos que revertem diretamente na economia do país, como já tem acontecido.

Os dados confirmam: os quatros países que mais investem em pesquisa estão na frente em inovação. Eles são Coreia do Sul e Alemanha, que investem quase 4% em pesquisa; e Japão e Estados Unidos, que repassam cerca de 3%. No Brasil, esse montante é um pouco maior que 1%. E vale lembrar: essas quatro nações têm PIB maior que o nosso. Ou seja, elas direcionam mais dinheiro não só percentualmente, mas também em números absolutos. Nos EUA, só para pesquisas envolvendo a COVID-19 foram destinados mais de 6 bilhões de dólares. No Brasil, apenas US $100 milhões.

As principais fontes desses recursos são justamente algumas instituições que podem ter corte de verba, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), ligados ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Igualmente importante é a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação. Todos eles sofreram cortes significativos, essenciais, no Orçamento de 2021.

Projeto inédito e revolucionário pode sofrer

Um dos projetos que sofre com o corte de verbas e investimento é o coordenado por Abdalla, o Bingo. Trata-se de um radiotelescópio, financiado principalmente pela Fapesp e pelo Governo da Paraíba, inédito no país e que conta com pesquisadores do Brasil, da China, África do Sul, Reino Unido, Coréia do Sul, Portugal e França. O objetivo é explorar novas possibilidades na observação do universo a partir do céu brasileiro. O sertão da Paraíba, pela alta visibilidade e baixa poluição, foi o local escolhido. A FINEP, que contribuiria significativamente, não está colocando verbas no projeto, apesar de termos, na análise técnica, logrado aprovação do apoio pretendido por duas vezes, em 2018 e em 2021.

“A proposta do radiotelescópio BINGO é estudar a energia escura e também o fenômeno Fast Radio Bursts [“Rajadas Rápidas de Rádio”, em tradução livre], ainda pouco conhecido. Além disso, entender e conhecer o nosso céu pode trazer conhecimentos importantes e estratégicos sobre o que acontece em cima de nós, quais fenômenos, que tipo, por exemplo, de satélites, estão passando por aqui. É informação importante para toda a sociedade”, conta Élcio.

Há um extenso plano educacional que segue diretrizes internacionais, aprovado pela Secretaria de Educação do Estado da Paraíba. Há também um plano de divulgação muito importante. Isto tudo sem detalhar aqui as contribuições tecnológicas do projeto, já em andamento, assim como a formação de um conjunto de pesquisadores capazes de trazer conhecimento estatístico vital para a economia e que podem contribuir inclusive no sistema financeiro nacional, o que também já está acontecendo.

O BINGO contribuirá com a visão do Hemisfério Sul para um trabalho sobre o fenômeno que já vem sendo realizado por meio do Chime (Canadian Hydrogen Intensity Mapping Experiment) no Hemisfério Norte. O chamado “setor escuro do Universo” estará no foco das descobertas. No sertão, longe da poluição eletromagnética, será possível saber mais sobre estruturas desconhecidas da galáxia, pulsares que ainda precisam de observação e perceber novos sinais do espaço.

O coordenador do projeto observa que “cerca de 95% do conteúdo energético do universo é completamente desconhecido, e o BINGO olhará para a distribuição detalhada da matéria conhecida para verificar os vínculos do setor escuro”. E mostrar para o cidadão comum como seus impostos beneficiam o país é um dos objetivos que Élcio tem com esse projeto:

“O assunto não é necessário apenas para a comunidade científica, mas para a população em geral. De fato, há um enorme projeto educacional conectado às pesquisas, é ciência e educação para todos. Não podemos simplesmente falar para doutores, temos que colocar as pessoas a par, já que são elas que pagam pela nossa pesquisa. O ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] do pãozinho vai para esse trabalho também. Então nós temos, até como obrigação, contribuir para um desenvolvimento real e mostrar ao cidadão que a ciência é importante, que a ciência muda o mundo – como de fato mudou nos últimos três séculos a face da civilização”, sintetiza Élcio Abdalla.

Empresa suíça faz projeções econômicas para Brasil e América Latina, e traça panoramas futuros do mercado de seguros

Relatório aborda projeções de recuperação econômica e PIB para Brasil, América Latina e global, além de trazer panoramas do próximo período do mercado de seguros

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Abaixo são apresentadas algumas informações específicas sobre América Latina, com projeções do PIB e inflação para a América Latina. Logo em seguida, o relatório com dados mais amplos.
• A recuperação econômica está em andamento na América Latina e projetamos um retorno ao nível do PIB pré-pandêmico em 2022. No entanto, esperamos um crescimento econômico mais lento na região em 2022 e 2023 do que em 2021, devido ao aperto da política monetária e persistência estrutural problemas existentes antes da pandemia, como finanças públicas insustentáveis e baixa produtividade. Retrocessos pandêmicos e aumento da inflação são alguns dos principais riscos para a recuperação, enquanto a instabilidade política e social e a incerteza política irão obscurecer ainda mais as perspectivas à medida que entrarmos em outro período eleitoral pesado na região.
• Projeta-se que o PIB real regional cresça 6% em 2021, seguido por um crescimento mais moderado de menos de 3% em 2022 e 2023.
• Para os dois maiores países da região, Brasil e México, projetamos um crescimento da ordem de 5% e 6% neste ano, respectivamente. Para o Brasil, esperamos crescimento de menos de 1% no próximo ano e 2% em 2023. Ao passo que projetamos crescimento de cerca de 3% para o México no próximo ano e 2,2% em 2023.
• O ano do Brasil será fortemente afetado pelo processo eleitoral de outubro próximo. Esperamos muita volatilidade financeira à medida que os investidores avaliam as perspectivas de continuidade ou mudança na direcionalidade das políticas públicas.
• O forte crescimento global, principalmente nos principais parceiros comerciais da região, Estados Unidos e China, e os altos preços das commodities foram fatores importantes para a recuperação da América Latina neste ano. No entanto, o pico do crescimento global ficou para trás, portanto, os formuladores de políticas terão que contar com as condições domésticas para lidar com o malabarismo simultâneo de uma crise de saúde pública e uma recessão econômica.
• Esperamos que a inflação permaneça elevada na América Latina, apesar da redução dos efeitos de base da baixa inflação do ano passado. A inflação segue sendo alimentada pelo impacto da depreciação cambial, da alta dos preços das commodities, da recuperação do consumo, do rompimento das cadeias produtivas e da crise de energia. Maiores rendimentos dos EUA podem pressionar ainda mais o câmbio e causar repasse da inflação de importação.
• Há uma mistura de fatores transitórios e estruturais, como mudanças de preços relativos devido a mudanças induzidas por pandemia no comportamento do consumidor, desalinhamento da demanda e capacidade de produção, tensão da cadeia de abastecimento global e interrupções relacionadas com a pandemia dos mercados de trabalho. .
• A recente piora da dinâmica inflacionária também aumentou os riscos de estagflação (alta inflação, baixo crescimento e alto desemprego) para os próximos anos, especialmente no Brasil. A inflação do Brasil subiu novamente em outubro, 10,7% no comparativo anual contra 10,3% no comparativo anual em setembro. Nossas projeções incluem outro aumento de 150pb em dezembro para uma taxa básica de juros de 9,25% para 2021 e 11,25% para 2022. A taxa começou o ano em 2%.
• Os níveis da dívida em relação ao PIB aumentaram na região no ano passado devido à crise da COVID e não se espera que diminuam no curto prazo. O baixo crescimento econômico para os próximos anos é uma ameaça ao ajuste fiscal necessário somado aos grandes desequilíbrios fiscais existentes antes da pandemia, especialmente no Brasil. Essa situação, então, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida de longo prazo e aumenta os riscos de crédito soberano, podendo levar a rebaixamentos de classificação. A Colômbia perdeu sua classificação de grau de investimento da Fitch e S&P este ano.Tabela: Crescimento real do PIB e inflação na América Latina

Tabela PIB

Forte crescimento previsto para os mercados globais de seguros à medida que aumenta a demanda por proteção contra riscos, diz o Swiss Re Institute

• Espera-se que os prêmios de seguros globais cresçam 3,4% em termos reais em 2021, 3,3% em 2022 e 3,1% em 2023
• O mercado mundial de seguros deverá exceder US$ 7 trilhões em prêmios pela primeira vez em meados de 2022, mais cedo do que o esperado
• Rentabilidade do seguro apoiada por maior conscientização quanto ao risco tanto no segmento de vida quanto não-vida, após a pandemia da COVID-19, e o fortalecimento contínuo do preço de segurosZurique, 17 de novembro de 2021 – O último estudo sigma do Swiss Re Institute prevê que o setor de seguros globais atinja um novo recorde em prêmios globais até meados de 2022, ultrapassando US$ 7 trilhões. Isto vem antes do que a Swiss Re estimou em julho e reflete a crescente conscientização quanto ao risco, aumentando a demanda por proteção e o fortalecimento contínuo do preço de seguros nas linhas comerciais de seguros não-vida. A perspectiva do setor de seguros também é apoiada por uma forte recuperação cíclica do choque da COVID-19, mas espera-se que o crescimento econômico desacelere nos próximos dois anos devido a uma crise de preços de energia em desdobramento, problemas prolongados do lado da oferta e riscos de inflação. Suporte estrutural de longo prazo para o crescimento é necessário, como mostra a análise de resiliência do Swiss Re Institute neste relatório sigma.

A mudança climática e a digitalização são tendências significativas que estão moldando a economia mundial e os mercados de seguros. A rápida descarbonização está se tornando imperativa e a abordagem da sociedade para a transição a uma economia verde determinará as perspectivas econômicas. O setor de seguros pode apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, não apenas absorvendo perdas por desastres, mas também promovendo investimentos sustentáveis de infraestruturas que ajudam a mitigar o impacto de condições climáticas extremas voláteis. A adoção de tecnologias digitais não está apenas desempenhando um papel no aumento do crescimento da produtividade global, mas a pesquisa da Swiss Re também descobriu que a pandemia transformou a receptividade dos consumidores para interagir digitalmente com os seguros, apontando para o potencial de crescimento. Uma terceira tendência significativa é a crescente divergência do crescimento dos países e dos indicadores socioeconômicos, como a desigualdade – um potencial risco adverso.

“A recuperação econômica que estamos vivendo é cíclica e não estrutural, com resiliência macroeconômica mais fraca hoje do que antes da crise da COVID-19. Como tal, devemos ser tudo menos complacentes. Dada sua capacidade e experiência para absorver riscos, a indústriade seguros é crucial para tornar as sociedades e economias mais resilientes. No entanto, para um crescimento inclusivo e sustentável, todos devem estar a bordo. O “crescimento verde” só é sustentável se for também inclusivo. Temos uma oportunidade única de construir um sistema de mercado melhor. Para isso, todas as partes interessadas deverão aceitar e internalizar os custos da mudança climática, e os formuladores de políticas deverão levar em conta os efeitos distributivos de suas políticas econômicas entre suas populações. Isso ajudará a criar a transição que precisamos para um caminho sustentável rumo a uma economia líquida zero até 2050″, disse Jerome Haegeli, Swiss Re Group Chief Economist.

O estudo sigma do Swiss Re Institute prevê que o crescimento do PIB global será forte em 2021, em 5,6%, diminuindo para 4,1% em 2022 e 3,0% em 2023. A inflação é o risco macroeconômico prevalecente a curto prazo, alimentada pela crise energética e por questões prolongadas do lado da oferta. Espera-se que a pressão de preços seja mais aguda entre os mercados emergentes e no Reino Unido e nos EUA.

A recuperação do mercado reflete a resiliência do setor de seguros. O Swiss Re Institute estima que os prêmios globais de seguro não-vida crescerão 3,3% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,3% em 2023. Prevê-se que as taxas de catástrofes de propriedades melhorem em 2022, após um ano de perdas acima da média. Os preços de seguros de responsabilidade civil também devem ser mais fortes no próximo ano devido ao aumento da inflação social, enquanto as linhas pessoais devem se beneficiar dos primeiros sinais de melhoria dos preços do setor de automóveis nos EUA e na Europa. Espera-se que o prêmio do seguro de saúde e médico global aumente, impulsionado pelo crescimento da economia dos EUA e por uma demanda estável do mercado avançado. Espera-se uma forte expansão nos mercados emergentes, com a China projetada para crescer 10% em cada um dos próximos dois anos, em grande parte impulsionada pela forte demanda por seguros médicos, incluindo coberturas de doenças críticas.

Espera-se que os prêmios de vida globais aumentem 3,5% em 2021, 2,9% em 2022 e 2,7% em 2023. Produtos de proteção devem ter uma forte demanda, apoiados por maior conscientização quanto ao risco, recuperação dos seguros em grupo e maior interação digital. Espera-se que os negócios de poupança cresçam moderadamente nos próximos dois anos, refletindo uma leve melhoria nos rendimentos de títulos públicos e uma recuperação no emprego e na renda das famílias. Como a pandemia continua a afetar o setor de seguros de vida, o excesso de mortalidade mostra uma tendência mista.

Ao contrário de muitos países europeus, os EUA experienciaram um contínuo excesso de mortalidade desde o início da pandemia e os benefícios pagos por morte aumentaram no primeiro semestre deste ano. As seguradoras de vida na América Latina têm enfrentado sinistros relacionados à pandemia sem precedentes, já que a região foi atingida de forma particularmente dura pela COVID-19. No Brasil, os sinistros do seguro de vida mais que dobraram em abril de 2021, enquanto a pandemia é o evento mais caro já registrado para a indústria de seguros local no México, totalizando US$ 2,5 bilhões em perdas seguradas em 18 meses até setembro de 2021. Isto supera a perda de US$ 2,4 bilhões do furacão Wilma em 2005.

O aumento da conscientização quanto ao risco está gerando uma demanda mais forte por proteção de seguro. O choque pandêmico destacou o importante papel que o setor de seguros desempenha como um absorvedor de riscos em tempos de crise, fornecendo alívio financeiro às famílias, empresas e governos. Ao mesmo tempo, as disrupções nas cadeias de produção mostram que é necessária uma melhor proteção para melhorar a resiliência da sociedade e o recorde de condições climáticas extremas este ano acrescentam urgência à corrida global para zero emissões líquidas. Os consumidores também estão abertos ao seguro digital e online, e espera-se que cresça rapidamente. Entretanto, o aumento da desigualdade pode exacerbar a inflação social, que é definida como o aumento dos sinistros de seguros impulsionado por grandes custos de litígio.

“As condições de mercado sugerem que a dinâmica positiva de preços continuará em todas as linhas e regiões. O desenvolvimento de sinistros mais elevados, impulsionado pela inflação em todas as linhas de negócios, a inflação social contínua nos EUA e as taxas de juros persistentemente baixas serão os principais fatores para o fortalecimento de preço do mercado”, disse Jerome Haegeli.

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Sobre a Swiss Re

O Grupo Swiss Re é um dos principais fornecedores mundiais de resseguros, seguros e outras formas de transferência de risco baseadas em seguros, trabalhando para tornar o mundo mais resiliente. O grupo antecipa e gerencia riscos, desde catástrofes naturais a alterações climáticas, populações envelhecidas ao crime cibernético. O objetivo do Grupo Swiss Re é fazer com que a sociedade prospere e progrida, criando novas oportunidades e soluções para os seus clientes. Com sede em Zurique, na Suíça, onde foi fundado em 1863, o Grupo Swiss Re opera com uma rede de aproximadamente 80 escritórios a nível mundial.

‘Geografia dos descontentes’: pandemia escancara desigualdades urbanas

Moradores das periferias das grandes cidades tiveram poucas possibilidades de realizar o trabalho remotamente, sofreram com deslocamentos maiores aos locais de trabalho e mais tempo de exposição no transporte coletivos

favela-predios-desigualdade-social-sao-paulo“O ‘fique em casa’ não pôde contemplar a maior parte dos trabalhadores”, aponta Raquel Rolnik

Por Redação RBA

São Paulo – A COVID-19 surgiu no contexto de um planeta marcado por profundas desigualdades, que devem se aprofundar ainda mais em um cenário pós-pandemia. No Brasil, um dos campeões no quesito desigualdade, a imunização baseada unicamente em critérios etários acabou beneficiando bairros mais ricos das grandes metrópoles e as áreas urbanas que concentram maior número de deslocamentos para o trabalho também contaram com o maior número de óbitos.

A situação é evidenciada pelo estudo “A COVID-19 e as desigualdades”, divulgado pela Rede Nossa São Paulo em setembro, mostra que, de janeiro a julho de 2021, no distrito de Cidade Tiradentes, uma pessoa internada em função do agravamento da doença tinha praticamente 2,4 vezes mais chances de morrer do que alguém nas mesmas condições no distrito do Morumbi.

Outro indicador da desigualdade social no Brasil relacionada à realidade da pandemia é o trabalho remoto. Um estudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV Ibre) aponta que somente um em cada cinco trabalhadores tem condições mínimas para trabalhar em regime home office. Quando analisado o potencial dessa modalidade no país, considerando a infraestrutura básica de um computador, acesso à internet e energia elétrica de qualidade, este índice é de apenas 17,8%, menos da metade dos Estados Unidos, que chega a 37%. Ainda segundo a pesquisa, as oportunidades de home office chegam a 52,9% para quem tem ensino superior completo e a 1,5% para aqueles com ensino fundamental incompleto.

Visões de mundo

“No mundo pós-covid, testemunharemos o surgimento de novas geografias de descontentes, reforçadas por disparidades intraurbanas e inter-regionais, principalmente nos países em desenvolvimento”, afirmou o professor da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Haddad, durante seminário on-line promovido pela Fapesp e pelo Instituto do Legislativo Paulista (ILP). As informações são de José Tadeu Arantes, em matéria da Agência Fapesp.

O conceito de “geografia de descontentes”, apresentado por Haddad, tem como base a ideia de que a maneira como as pessoas vivem e trabalham influencia suas visões de mundo e também são determinantes nos desafios que enfrentam no cotidiano.

Pandemia, desigualdades e mobilidade urbana

De acordo com a professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e coordenadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade) Raquel Rolnik, na cidade de São Paulo, as áreas que concentram o maior número de saídas para o trabalho foram também as que acumularam o maior número de óbitos pela COVID-19. O maior tempo de exposição no transporte coletivo afetou os segmentos da população que precisam fazer maiores deslocamentos entre o local de moradia e o local de emprego.

“O ‘fique em casa’ não pôde contemplar a maior parte dos trabalhadores. Só um percentual pequeno da força de trabalho da cidade tinha um tipo de ocupação que lhe permitia trabalhar de casa. Além do fato de a conexão com a internet ser absolutamente diferenciada para os diversos grupos sociais”, afirmou.

Disparidades

Gabriel Poli de Figueiredo, doutorando na FAU-USP e pesquisador do INCT –Internet do Futuro para Cidades Inteligentes –, destacou a evidência das desigualdades na área digital. “Expectativas em relação ao trabalho remoto, à redução dos deslocamentos, de que tudo poderia ser entregue imediatamente e que haveria uma explosão nos tipos de serviços oferecidos por via digital. Mas o que de fato aconteceu? Mais de 70% das pessoas ocupadas nas classes A e B puderam aderir ao trabalho doméstico. Porém, nas classes C, D e E, a adesão não passou de 28%”.

“Também houve uma grande disparidade em relação ao tipo de dispositivo utilizado para a realização do trabalho remoto. Enquanto 77% das pessoas ocupadas nas classes A e B utilizaram o computador, laptop, notebook, nas classes D e E as pessoas tiveram que recorrer ao celular”, explicou o pesquisador.

Com base em uma pesquisa de 18 meses realizada pelo Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP (Nereus), Haddad pontuou que, de forma geral, a pandemia aprofundou desigualdades de forma mais intensa nas famílias pobres de áreas metropolitanas do Sul Global, atingindo em especial bairros densamente povoados, com grande parte do mercado de trabalho informal e pouca presença do Estado. “Estudos de impactos no Brasil, Angola, Colômbia e Marrocos, realizados no Nereus, mostraram que as principais perdas se concentraram nas regiões que mais contribuem para o Produto Interno Bruto [PIB] desses países, que coincidem com as áreas urbanas mais densamente povoadas e fortemente relacionadas com a economia de aglomeração”, apontou.

Mais informações sobre o seminário na Agência Fapesp

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

A re(criação) da classe trabalhadora

Os teóricos da globalização escreveram inúmeros obituários para a classe trabalhadora, mas ignoraram o fato de que o capitalismo cria sucessivamente novas classes trabalhadoras com novas fontes de poder, sofrimento e demandas.

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Beverly J Silver para Jacobin America Latina 

Quando os cientistas sociais se referem ao período 2019-2021, destacam três sinais de uma profunda crise sistêmica: primeiro, a incapacidade da maioria dos Estados de responder adequadamente à pandemia COVID-19, grande reveladora das falhas sociais e governamentais. Em segundo lugar, a aceitação dos Estados Unidos do fracasso da guerra no Afeganistão, o que deixou claro que a “guerra ao terror” falhou em reverter a perda de poder dos EUA globalmente. Por último, mas não menos importante, o tsunami de protestos sociais globais, que começou em 2010-2011 – como consequência da crise financeira de 2008 – e não parou de crescer até 2019.

Se olharmos para o futuro, é claro que qualquer estratégia operária e socialista terá que levar em conta o terreno em que se desenrolam as lutas, ou seja, a instabilidade hegemônica dos Estados Unidos no marco de uma crise capitalista mundial sem paralelo. mais tarde, dos anos 1930. Tal como aconteceu durante a primeira metade do século XX, a atual crise do capitalismo global assume a forma de uma enorme crise de legitimidade: o slogan “socialismo ou barbárie” é urgentemente levantado de novo.

A criação, destruição e reconstrução da classe trabalhadora mundial

O que as mobilizações de classe podem fazer para impedir a queda do presente em direção à “barbárie”? Até poucos anos atrás, a resposta dos teóricos da globalização, esquerda e direita, era unânime: “Não muito”. A tese da “corrida para o fundo” postula que a globalização criou barreiras intransponíveis para a mobilização da classe trabalhadora. Desde a década de 1980, defensores dessa perspectiva escreveram inúmeros obituários para a classe e o movimento operários, enfocando o enfraquecimento e a destruição das classes trabalhadoras existentes, especialmente – e isso é significativo – aquelas engajadas na produção industrial nos Estados Unidos. países.

Esta abordagem alternativa concentra-se na criação e reconstrução das classes trabalhadoras, que por sua vez respondem aos lados criativos e destrutivos do processo de acumulação de capital. Com efeito, a onda mundial de mobilizações dos anos 2010-2011 foi marcada pelos protestos das novas classes em processo de formação e das classes existentes que lutaram pela preservação dos direitos conquistados nos ciclos anteriores. O espectro abrangeu greves de trabalhadores industriais na China, greves ilegais nas minas de platina da África do Sul, jovens desempregados e subempregados que se dirigiram para as praças ao redor do mundo e protestos anti-austeridade que se espalharam do Norte da África aos Estados Unidos.

Há quem pense que a lição dos anos 2010-2011 é que as lutas de classes passaram dos locais de produção para as ruas. Ainda assim, embora não devamos subestimar o significado de “lutas de rua”, seria um grave erro subestimar as greves no local de trabalho, visto que são as fontes de poder por trás desses movimentos. Assim, por exemplo, embora a história padrão dos levantes egípcios de 2011 se centre na ocupação da Praça Tahrir, a verdade é que Mubarak renunciou ao cargo apenas quando os trabalhadores do Canal de Suez – um local fundamental para o comércio internacional e nacional – foram em greve.

Desde a década de 1980, a adoção generalizada da produção “just in time” – o fornecimento de insumos é mantido em níveis mínimos com a perspectiva de redução de custos distribuindo-os “just in time” – aumentou a vulnerabilidade das fábricas localizadas mais adiante. cadeia a greves que ocorrem nas instalações dos fornecedores. Isso acontece mesmo que a fábrica que pare seja na mesma província, como aconteceu, por exemplo, quando uma greve de uma empresa de autopeças obrigou a Honda a fechar todas as suas montadoras na China.

A pandemia e o bloqueio do Canal de Suez em março de 2020 deixaram claro que as cadeias de abastecimento globais são vulneráveis ​​a várias formas de interrupção, incluindo greves de trabalhadores. Até certo ponto, isso não é novidade. No século XX, os trabalhadores do setor de transporte detinham grande poder em virtude de sua localização estratégica nas cadeias de suprimentos globais e nacionais. Daí o papel central que desempenharam no movimento trabalhista em geral. As cadeias de abastecimento globais sem dúvida serão diferentes em meados do século 21 – na verdade, a pandemia e as tensões geopolíticas estão forçando-as a se reestruturarem – mas os trabalhadores de transporte, armazenamento e comunicação provavelmente continuarão a ter mais poder (e talvez mais relevante) ,

Da mesma forma, seria tolice descartar o significado futuro das greves dos trabalhadores industriais, uma vez que a difusão mundial da produção em grande escala, iniciada durante o século XX, resultou na formação de novas classes trabalhadoras e sucessivas ondas de classe trabalhadora. conflitos. No início do século XX, quando o epicentro da produção industrial em larga escala se deslocou para o continente asiático, também mudou a luta dos trabalhadores: se confirmou a tese de que onde há capital há conflito.

Essa frase tem um significado geográfico, pois o capital, quando realocado em busca de mão de obra dócil e barata, acaba criando classes trabalhadoras e novos conflitos em seus locais de destino. Mas também tem um sentido intersetorial, uma vez que à medida que o capital se desloca para novos setores da economia, novas classes trabalhadoras são criadas e surgem conflitos originais.

Uma perspectiva hegemônica do trabalhador

Em quais setores devemos nos concentrar hoje? Sem dúvida, muito importante é a “indústria da educação” que, segundo a UNESCO, passou de 8 milhões de professores em todo o mundo em 1950 para 62 milhões em 2000, e cresceu mais 50% em 2019, atingindo um total de 94 milhões de professores. Além do crescimento meteórico dos números, existem outras razões para pensar que os professores estão desempenhando um papel fundamental no movimento operário mundial, análogo ao desempenhado pelos trabalhadores da indústria têxtil no século 19 e pelos trabalhadores da indústria automobilística.

A tendência para o conflito dos trabalhadores na “indústria da educação” tornou-se um fato inquestionável no final do século 20, mas as mobilizações da última década marcaram um ponto de inflexão. Nos Estados Unidos, esse ponto correspondeu ao surgimento da organização Caucus of Rank-and-File Educators (CORE), que, com amplo consenso social, conduziu os professores de Chicago a sua greve de sucesso em 2012. O conflito conseguiu instalar a ideia que os professores não lutavam apenas pelos seus próprios interesses, mas pelos dos alunos e famílias. A greve de Chicago foi seguida por uma onda nacional de greves e mobilizações em todo o país, especialmente em distritos escolares localizados em estados com fortes políticas anti-sindicais.

No Chile, professores de escolas públicas que fizeram greve sob a direção do Colegio de Profesores de Chile (CPC) —com o apoio de estudantes, vizinhos e outros trabalhadores— tiveram um papel central no ciclo de protestos nacionais que exigiam o acesso universal à educação e o abandono da constituição neoliberal herdada da era Pinochet. Ações semelhantes foram observadas na Costa Rica, Honduras e Colômbia e, no Peru, o presidente de esquerda Pedro Castillo chegou ao poder com o apoio do sindicato dos professores.

Essa nova onda de militância docente responde a uma série de reivindicações baseadas em um claro processo de proletarização, que inclui a intensificação do trabalho, a deterioração das condições de trabalho e a perda de autonomia e controle sobre o processo de trabalho nas salas de aula. Em parte, as greves de professores são bem-sucedidas porque suas demandas são complementadas por um forte poder de barganha em seus locais de trabalho. É possível argumentar que a “indústria da educação” fornece os bens de capital mais importantes do século 21, ou seja, aqueles trabalhadores qualificados que devem então ser inseridos em uma “economia da informação”. Ao contrário da maioria das atividades de manufatura, é impossível pressionar os professores ameaçando realocar a produção (além dos experimentos virtuais após a pandemia, o ensino deve ocorrer onde os alunos estão). Da mesma forma, a ‘indústria da educação’ parece resistir à automação (a substituição de professores por robôs não está no horizonte).

Além disso, os professores ocupam um lugar estratégico na divisão mais ampla do trabalho social. A greve dos professores gera um efeito dominó que atinge toda a divisão social do trabalho: interrompe a rotina das famílias e dificulta o trabalho dos pais. Nesse sentido, o poder estratégico dos professores, embora em última instância baseado na sua capacidade de desagregar a economia, é bastante singular, pois depende sobretudo da centralidade da sua atividade na sociedade. No entanto, a menos que esse poder seja exercido no quadro de uma perspectiva hegemônica mais ampla, os professores estão expostos a serem usados ​​como bodes expiatórios e sujeitos à repressão do Estado e do capital. Em efeito,

No entanto, as maiores greves da última década mostram que os professores têm potencial para formular tal perspectiva, ou seja, mostrar que suas lutas particulares envolvem a defesa dos interesses de toda a sociedade. O seu próprio trabalho coloca-os diariamente em contacto com círculos muito mais amplos da classe trabalhadora, visto que são testemunhas de todos os problemas enfrentados pelos alunos e pelas suas famílias. Então, basta que difundam a ideia de que, mesmo que suas demandas busquem um benefício que os afete especificamente como professores, também promovem os interesses dos alunos, de suas famílias, de seus bairros e de suas cidades. Claro, esse potencial hegemônico, fundado em condições estruturais,

Solidariedade para sempre

A automação promovida pela Inteligência Artificial levou muitos intelectuais a sugerir que estaríamos chegando ao “fim do trabalho” e que, conseqüentemente, as disputas trabalhistas vão acabar. Ainda assim, a total desconsideração do trabalho humano nos processos de produção permanece uma fantasia elusiva, e não devemos subestimar a importância contínua das lutas dos trabalhadores nos locais de produção.

Também seria um erro subestimar as manifestações de rua. Na verdade, é possível derivar o entrelaçamento essencial desses dois locais de luta – o local de trabalho e a rua – do Volume I do Capital. Por um lado, chegando ao meio – onde descreve o conflito ininterrupto entre capital e trabalho sobre a duração, intensidade e ritmo da atividade – Marx se refere ao que acontece na “sede oculta da produção”. Por outro lado, no capítulo 25, Marx esclarece que a lógica do desenvolvimento capitalista não só leva a lutas constantes no local de trabalho, mas também a conflitos mais amplos no nível social, uma vez que a acumulação de capital avança junto com a ‘acumulação de miséria. ‘, especialmente na forma de expansão de um exército industrial de reserva de trabalhadores desempregados,

Nesse sentido, a história do capitalismo é caracterizada, não apenas pelo processo cíclico de destruição criativa no ponto de produção, mas também pela tendência de longo prazo de destruir os modos de vida existentes em um ritmo mais rápido do que define a criação de novos. . Isso implica a necessidade de conceituar três tipos de conflitos operários: (1) os protestos das classes operárias em seu processo de formação; (2) os protestos das classes trabalhadoras existentes que estão sendo destruídas e (3) os protestos daqueles trabalhadores que o capital ignora e exclui, ou seja, os membros da classe trabalhadora que, embora dependam exclusivamente dela para sobreviver, é eles podem nunca ser capazes de vender sua força de trabalho.

Os três tipos de conflitos operários são diferentes manifestações de um único processo de desenvolvimento capitalista. Todos os três são visíveis nas lutas atuais. O destino de cada um está intimamente ligado ao dos outros. Uma estratégia socialista deve abranger todos eles. De fato, a perspectiva estratégica de Marx e Engels – articulada no Manifesto do Partido Comunista e em outros lugares – convocou os sindicatos a organizar esses três segmentos da classe trabalhadora mundial em um projeto comum.

Nem é preciso dizer que essa é uma tarefa gigantesca. Mas, além disso, enquanto ainda pecava de certo otimismo, Marx assumiu que esses três tipos de trabalhadores – aqueles que são incorporados como assalariados durante as últimas fases da expansão material, aqueles que são expulsos durante a última rodada de reestruturação e aqueles que são excedentes do ponto de vista da capital – habitavam as mesmas casas e bairros da classe trabalhadora. Eles viveram juntos e lutaram juntos.

Em outras palavras, as distinções dentro da classe trabalhadora – entre trabalhadores empregados e desempregados, ativos e na reserva, capazes de impor perdas onerosas ao capital e capazes apenas de se manifestar nas ruas – não se sobrepunham com diferenças de nacionalidade, raça, etnia ou Gênero sexual. Então, os trabalhadores que incorporaram qualquer um desses três tipos formaram uma única classe trabalhadora com o mesmo poder e as mesmas demandas, e com a capacidade de gerar uma perspectiva pós-capitalista sobre a emancipação da classe como um todo.

Porém, em termos históricos, o capitalismo se desenvolveu ao lado do colonialismo, do racismo e do patriarcado, ou seja, dividiu a classe trabalhadora em função de sua condição e limitou suas capacidades de gerar uma visão comum de emancipação. Em períodos de grandes crises capitalistas, como a que estamos vivendo, essas divisões tendem a se endurecer. O capitalismo em crise fortalece direta e indiretamente os “monstros” do “interregno” gramsciano (movimentos neofascistas, racistas, patriarcais, anti-imigrantes e xenófobos). Então, formas coercitivas de controle social e militarismo são implantadas contra um movimento socialista que é “muito forte” para ser ignorado (pelo capital) e “muito fraco” (até agora) para salvar a humanidade de uma longa era de caos sistêmico.

No entanto, também estamos testemunhando um recrudescimento das lutas dos trabalhadores sem precedentes em um nível histórico em termos de escala e alcance. Embora a magnitude do desafio que a crise do capitalismo global representa para a humanidade também seja inédita, esses novos movimentos estão construindo pontes e, em alguns casos, são capazes de apoiar os protagonistas dos três segmentos da classe trabalhadora a que nos referimos. . É nestas lutas – e através delas – que surgirá um projecto emancipatório capaz de nos tirar deste capitalismo destrutivo, para um mundo onde a dignidade humana vale mais do que o lucro.

* Beverly J Silver, professora de sociologia, diretora do Arrighi Center for Global Studies da Johns Hopkins University e autora de Forces de trabajo (Akal, 2005).

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Este texto foi publicado em espanhol pela revista Jacobin America Latina [Aqui! ].