Dos brioches aos restos de comida, Paulo Guedes incorpora Maria Antonieta

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Uma das frases mais famosas da História, mas que jamais teriam sido ditas, é aquela em que a imperatriz responde aos franceses que pediam pão que eles deveriam comer brioches. A frase que não teria sido dita é sempre apresentada como um exemplo de como a insensibilidade dos poderosos resulta em levantes populares.  Quase 200 anos depois da frase emergir, eis que no Brasil o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, resolveu incorporar a imperatriz francesa que terminou decapitada, e resolveu dizer que uma das saídas para matar a fome de milhões de brasileiros pobres seria aproveitar os restos de comida que sobram nos pratos da classe média (ver vídeo abaixo);

Paulo Guedes parte do princípio do esquecimento da situação real que a maioria dos brasileiros atravessa neste momento com a combinação dos efeitos devastadores da pandemia da COVID-19 com o avanço da inflação que apresenta valores recordes, sem que haja qualquer medida de reação efetiva por parte do governo Bolsonaro para reverter ambas as situações.

Mas Paulo Guedes aposta na nossa ignorância coletiva ao afirmar que os pratos dos europeus tem menos comida do que a dos brasileiros porque eles são mais educados do que nós.  A primeira coisa é que essa é uma mentira porque os europeus se alimentam muito bem, não tendo hoje em suas populações a mesma proporção de famélicos que o Brasil possui.  Outra coisa é que já é conhecimento corrente que boa parte da destruição ambiental que ocorre hoje no Brasil, e no sul global como um todo, se deve ao atendimento de demandas alimentares dos europeus. 

Não chega a ser nenhuma surpresa que Paulo Guedes tenha o tido de raciocínio elitista e eurocentrista que verbalizou em vídeo, mas que ele não esteja firmemente repudiado por movimentos sociais e partidos que se dizem de esquerda.  É que este comportamento além de não ser novo por parte de Paulo Guedes ocorre em um momento especialmente agudo da pandemia. Ao se deixar passar batido este tipo de fala, o que se faz é que as políticas que decorrem da postura que ela expressa. Com isso, a boiada vai passando com toda tranquilidade. 

Corrida contra o vírus: Atualização do estudo da DHL revela os aprendizados em logística após um ano de COVID-19

dhl report

• Com a participação de mais de 350 de suas instalações em todo o mundo, DHL já distribuiu mais de 200 milhões de doses de vacinas, para mais de 120 países e territórios

• Estima-se que a partir de 2022, serão necessárias entre 7 e 9 bilhões de doses adicionais ao ano para manter as taxas de reinfecção baixas e reduzir o ritmo de mutação do vírus

• Adaptação local do last mile, modelos de distribuição e manutenção de um estoque consistente de vacinas seguirão sendo fatores essenciais pós-2021

São Paulo, junho de 2021: Já passou mais de um ano desde que o mundo se deparou pela primeira vez com a notícia do novo vírus SARS-COV-2. O que vimos na sequência foi a maior crise de saúde mundial em 100 anos. A logística e as cadeias de suprimento têm desempenhado um papel vital na gestão da pandemia desde o início, garantindo a disponibilidade e a distribuição dos principais dispositivos usados no combate à pandemia, como medicamentos e suprimentos médicos, vacinas, kits, testes, suprimentos auxiliares, tratamentos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

A DHL tem feito parte da estratégia global de resposta à pandemia desde o início e já foi responsável pelo transporte de mais de 200 milhões de doses de todas as vacinas aprovadas, para mais de 120 países e territórios, por meio de 9 mil voos operados pela DHL, tendo envolvido mais de 350 de suas instalações em todo o mundo. Mais de 50 colaborações bilaterais e multilaterais foram criadas com parceiros da indústria farmacêutica e do setor público, incluindo diversos novos serviços especializados nesta área. O estudo da DHL “Aprendizados sobre a resiliência diante da pandemia” avalia o desempenho global no enfrentamento da crise e destaca o que o setor de logística aprendeu durante a corrida contra a COVID-19, identificando as principais ações de preparação para melhor gerenciar emergências de saúde pública no futuro.

“Uma vez que as vacinas contra a COVID-19 ficaram prontas, era crucial que a logística e a gestão de supply chain fossem eficientes o bastante para atender a todos os continentes com a urgência necessária”, disse Claudia Roa, Vice-Presidente do Setor Farmacêutico e de Equipamentos Médicos da DHL nas Américas. “Na DHL, desenvolvemos e implantamos soluções especializadas para a distribuição de vacinas, que possibilitaram a movimentação de volumes inéditos até então, sempre levando em conta a urgência com que as vacinas precisam chegar a cada país. A logística e o gerenciamento da supply chain desempenharam um papel fundamental durante a pandemia e, no decorrer dessa batalha, aprendemos lições valiosas”.

Foram registradas importantes conquistas em pesquisa e desenvolvimento, produção e gestão da supply chain, bem como políticas que ajudarão a superar a crise como uma comunidade global. As bases para isso foram construídas por meio de pesquisa e desenvolvimento, que possibilitou a criação de uma vacina com uma agilidade cinco vezes maior do que qualquer outra vacina da história, e também pelo aumento da produção de vacinas em tempo recorde, quadruplicando a capacidade de produção verificada antes da pandemia de COVID-19. Por meio da logística e supply chain, as vacinas que salvam vidas estão sendo entregues a pacientes de todo o planeta. Embora tenha sido necessário cumprir requisitos sem precedentes na cadeia fria de distribuição – até -70°C de temperatura para transporte e armazenamento – a logística possibilitou a distribuição em uma velocidade três vezes mais rápida do que a de costume. Além disso, as ações multilaterais realizadas por diferentes atores da saúde pública e do governo possibilitaram a criação de uma estrutura propícia para acelerar o desenvolvimento e a implementação das vacinas.

“Todos os setores, indústrias e nações devem trabalhar em conjunto para vencer com sucesso a fase aguda desta pandemia”, acrescentou Roa. “Firmar parcerias sólidas e alavancar a análise de dados será fundamental para combater com sucesso essa e qualquer outra pandemia no futuro”.

Colaboração é essencial para a distribuição global de vacinas

Para atingir níveis elevados de imunização, estima-se que será necessário cerca de 10 bilhões de doses até o final de 2021. Até o momento, apenas quatro países alcançam taxas de vacinação superiores a 50% de suas respectivas populações – e muitos dos países e territórios restantes têm infraestruturas menos desenvolvidas, o que torna a implementação ainda mais desafiadora nesses locais. Para acelerar a entrega de vacinas, os seguintes aspectos precisam ser levados em conta:

• Os diferentes setores da economia e os governos devem promover a colaboração, com foco específico no estabelecimento de parcerias sólidas e na criação de uma infraestrutura de dados de apoio.

• Para garantir os fluxos de abastecimento, é necessário realizar uma gestão proativa das capacidades de transporte e dos fluxos sustentáveis de devolução de embalagens. Isso é de extrema importância, uma vez que mais de 95% das doses da vacina para a COVID-19 no mundo são fabricadas em apenas oito países, a partir dos quais devem ser distribuídas para o resto do mundo.

• Também devem ser implementados modelos de distribuição terrestres no trecho final da entrega (last mile delivery) com base nas necessidades locais específicas, priorizando a localização estratégica dos armazéns, a sincronização dos fluxos de vacinas e produtos auxiliares, bem como a quantidade e a localização dos pontos de vacinação existentes em cada local.

A infraestrutura logística e as capacidades estabelecidas deverão ser mantidas nesse nível nos próximos anos, uma vez que serão necessárias entre 7 e 9 bilhões de doses adicionais de vacinas todos os anos para manter as taxas de reinfecção baixas e reduzir o ritmo de mutação do vírus – isso sem contar com as flutuações sazonais.

“Embora tenhamos sido ágeis durante esta pandemia, devemos nos manter preparados para grandes fluxos de pacientes e volumes de vacinas, preservar a infraestrutura e a capacidade logística instaladas e nos planejar para as flutuações sazonais, fornecendo uma plataforma estável e bem equipada ao longo dos próximos anos”, explicou Roa.

Planejamento futuro

De acordo com o estudo, o planejamento futuro é algo essencial para identificar e prevenir crises de saúde por meio de cooperação ativa, ampliação dos sistemas globais de alerta, agenda integrada de prevenção de epidemias e investimentos específicos em P&D. Também é recomendado expandir e institucionalizar medidas de contenção e combate ao vírus (por exemplo, rastreamento digital de contatos e criação de reservas nacionais) a fim de garantir a preparação estratégica e tempos de resposta mais eficientes. Para facilitar a rápida distribuição de insumos e medicamentos – incluindo produtos para diagnóstico, tratamento e vacinação – os governos e a indústria precisarão manter as capacidades de produção permanentemente disponíveis, com pesquisas sobre modelos, sistemas de produção e planos de provisionamento, além de expandir as capacidades locais de implementação.

Para ler o estudo na íntegra, clique no seguinte link: https://www.dhl.com/pandemic-resilience.

Maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 apresenta sintomas prolongados da doença

pós covidEm seminário on-line organizado pela FAPESP, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos divulgaram resultados preliminares de estudos sobre a saúde mental e a qualidade de vida desses sobreviventes seis meses após alta hospitalar (foto: Engin Akyurt/Pixabay)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

A maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 tende a apresentar sintomas prolongados ou sequelas da doença, condição que tem sido chamada de COVID longa ou subaguda. É o que apontam dados preliminares de estudos que estão monitorando fatores como saúde mental, qualidade de vida, reabilitação física, financeira e cognitiva dessas pessoas.

“Há mais de um ano sofremos as consequências da pandemia de COVID-19 e, com o tempo, fomos percebendo que, para além de problemas relacionados à transmissão, infecção e mortes, a COVID-19 pode trazer também consequências de longo prazo para pacientes. Como essas implicações ainda não estão completamente entendidas pelos cientistas, é muito importante estimular a troca de conhecimento e de experiências entre pesquisadores de todo o mundo”, disse Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, na abertura do seminário on-line “Long and post-acute COVID-19”, realizado no início de junho. O evento integra a série FAPESP COVID-19 Research Webinars, organizada com apoio do Global Research Council (GRC).

No evento, cientistas do Brasil e dos Estados Unidos apresentaram resultados preliminares de estudos que estão desenvolvendo a respeito do impacto prolongado da COVID-19.

No Brasil, 882 pacientes que estiveram internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) estão tendo aspectos da vida pós-COVID monitorados por pesquisadores a fim de aprofundar o entendimento sobre a presença de sintomas da doença seis meses após a alta hospitalar. Todos os participantes do estudo tiveram a forma grave da doença, sendo que dois terços precisaram de atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Com seis meses de análise, os pesquisadores observaram que é alta a ocorrência de sintomas após a alta hospitalar. Do total de pesquisados, 89,3% apresentaram sintomas persistentes, como cansaço, dores pelo corpo e dispneia. Além disso, 58,7% relataram pelo menos um sintoma emocional ou cognitivo, como perda de memória (42%), insônia (33%), concentração prejudicada (31%), ansiedade (28%) e depressão (22%).

“Esses sintomas estão todos inter-relacionados. Em outras palavras, o que verificamos é que uma pessoa que reclama de perda de memória também relata insônia, ansiedade e depressão. É importante destacar que esses resultados foram ajustados em relação aos sintomas apresentados antes de as pessoas terem COVID-19”, afirmou Geraldo Busatto, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM21) do HC-FM-USP e coordenador do estudo.

Busatto explica que, durante o estudo, foram realizadas entrevistas estruturadas com os pacientes, o que permitiu aos pesquisadores categorizar diagnósticos de transtornos psiquiátricos. “Há uma variedade de transtornos entre esses pacientes e um índice similar de estresse pós-traumático (13,65%) em relação aos dados disponíveis sobre a população em geral. No entanto, encontramos índices altos de alucinações (8,71%) e delírios (6,35%)”, ressaltou.

Também foi pedido que os participantes realizassem tarefas cognitivas. “Em comparação com a média brasileira, esses pacientes tiveram um resultado pior, isso especialmente entre os que tinham entre 60 e 75 anos. Já nos testes que analisaram fluência verbal, não houve diferença entre os pacientes e a população brasileira em geral. Isso mostra que, provavelmente, o déficit causado pela COVID-19 não é uniforme, algumas áreas da cognição devem apresentar mais déficits que outras”, disse Busatto.

Qualidade de vida pós-COVID

Outro estudo que também está sendo realizado no Brasil e que envolve mais de 55 centros de pesquisa pretende investigar as consequências de longo prazo da COVID-19 na qualidade de vida de cerca de mil indivíduos adultos que foram hospitalizados.

“Os dados preliminares mostram que seis meses após a alta hospitalar a mortalidade é alta (6,9%), e a re-hospitalização, comum (16%). Entre os pacientes que fizeram uso de ventilação mecânica, esses dados são maiores: 24% morreram seis meses depois da alta hospitalar, contra 2% dos que não precisaram de ventilação mecânica. Em relação à re-hospitalização, ela foi de 40% contra 10% em relação à ventilação mecânica. São diferenças estatísticas significativas, mesmo após o ajuste de covariantes como idade e comorbidades”, contou Regis Goulart Rosa, médico intensivista do Hospital Moinho de Vento em Porto Alegre (RS) e um dos coordenadores do estudo.

Foi observada ainda perda de funções físicas importantes para a realização de atividades do dia a dia. “Houve piora acentuada nos primeiros três meses, apresentando relativa melhora até o sexto. No entanto, entre os pacientes que utilizaram ventilação mecânica, mesmo após seis meses de alta, eles ainda não tinham atingido os mesmos patamares de antes da COVID-19”, afirmou Rosa.

Um estudo semelhante, realizado com pacientes norte-americanos, vai monitorar por seis meses 1.500 sobreviventes da COVID-19. O intuito é acompanhar variações na saúde cardiopulmonar e mental, bem como questões socioeconômicas.

Os dados de 253 pacientes coletados um mês após a alta hospitalar mostram que 54,9% apresentavam algum sintoma cardiopulmonar. Entre os pesquisados, 15,9% continuavam a precisar de suplementação de oxigênio em suas residências. Ainda de acordo com a pesquisa, os pacientes também apresentavam sintomas como tosse (23%), falta de ar antes de dormir (13,4%), batimentos cardíacos irregulares ou acelerados (19,1%) e dor no peito, cansaço ou angina (11,3%).

“Uma descoberta preocupante está no fato de que muitos dos pacientes que apresentam alguma dessas dificuldades retornam para suas casas sem nenhum auxílio para lidar com esses novos problemas. Isso se soma ao aspecto destacado na pesquisa de que 53% dos respondentes tiveram suas finanças drenadas após a hospitalização. Além disso, 38% tiveram que pedir ajuda para que parentes cuidassem deles e 20% tiveram que mudar de trabalho. Há um impacto socioeconômico da COVID-19 e também da COVID longa”, disse Catherine Hough, que coordena o estudo realizado na Oregon Health & Science University.

A recuperação da COVID-19 pode ser lenta para muitos pacientes. O estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que 85% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente um mês depois da alta hospitalar. Do total, 65% apresentavam alguma incapacidade e 63% tinham algum problema cognitivo significativo. “Ao analisar os mesmos dados três meses após a alta dos pacientes, observamos pouca mudança em relação a esses sintomas: 75% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente, 60% apresentavam alguma incapacidade e 54% apresentavam algum problema cognitivo significativo.”

Hough ressaltou que os estudos sobre a COVID longa precisam considerar doenças e outros problemas de saúde que já estavam presentes antes da infecção pelo SARS-CoV-2. O vírus, segundo a pesquisadora, “pode ser um amplificador de problemas anteriores”.

Quebra-cabeça

Os mecanismos imunológicos que levam a essa variação de sintomas e sequelas pós-COVID também estão sendo pesquisados. “Há uma variação grande na forma como o sistema imunológico humano monta uma defesa contra o coronavírus, por isso temos essa multiplicidade de prognósticos: assintomático, leve, moderada, ou COVID-19 severa. Da mesma forma, sabemos que, enquanto algumas pessoas vão apresentar apenas a versão aguda da doença, outras terão uma versão mais prolongada, com sintomas e sequelas que poderão perdurar por meses”, explicou Carolina Lucas, pesquisadora do laboratório Akiko Iwasaki, na Yale School of Medicine nos Estados Unidos.

Em um estudo publicado na revista Nature, Lucas identificou quatro assinaturas imunológicas preditoras, que seriam capazes de distinguir e prever a trajetória da doença em cada paciente ao investigar parâmetros imunológicos e clínicos de 113 pacientes, entre casos moderados (fora da UTI) e casos graves (na UTI), ao longo de até 53 dias após o aparecimento de sintomas.

O grupo de pesquisadores observou que, entre os pacientes com doença moderada que se recuperaram, havia ainda uma maior abundância das proteínas envolvidas na cura e no reparo do tecido. No entanto, naqueles com a forma agravada da doença, as citocinas eram mais misturadas, aparecendo em combinações que são incomuns para infecção viral. Mais pessoas morreram nesse grupo.

Há ainda uma questão de timing. Os resultados das análises indicaram que os pacientes em estado grave não conseguiram controlar a carga viral ao longo do tempo e apresentavam níveis mais elevados de interferon, uma classe de proteínas produzidas por células de defesa para combater patógenos.

Outro aspecto identificado pelos pesquisadores está na correlação entre a carga viral e as quantidades de citocinas envolvidas nas funções antivirais, independentemente da gravidade da doença.

A íntegra do webinário pode ser acessada em: https://covid19.fapesp.br/covid-19-longa-e-sub-aguda/545.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui! ].

Estratégia de vacinação contra Covid-19 foi dificultada por conflitos políticos e falta de coordenação

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Diante da pandemia de COVID-19, o mundo precisou parar para rever as estratégias não só de preparação para lidar com uma epidemia de amplitude global, mas também nos processos de vacinação, capazes de imunizar a população. De acordo com uma pesquisa realizada na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP), os conflitos políticos entre presidente e governadores e a falta de definição de grupos prioritários de vacinação dificultaram a estratégia de vacinação no Brasil, além de outras decisões tomadas durante processo de produção ou aquisição das doses.

Publicada na revistaSocial Science & Medicine, a pesquisa traz três dimensões que influenciaram  a vacinação de países de renda média, como o Brasil: a produção e aquisição de vacinas; a regulação do registro para comercialização das vacinas; e o processo de vacinação propriamente dito.

As análises, feitas a partir de uma pesquisa qualitativa, mostraram que as conexões entre produção, regulação e distribuição de vacinas são decisivas para a eficácia das  estratégias de vacinação contra a COVID-19. É o caso das decisões regulatórias, que têm implicações para a velocidade de disponibilização das vacinas no país. Ainda que a Anvisa tivesse pronta capacidade de se adaptar e responder às demandas regulatórias durante a pandemia, a agência ficou à mercê de conflitos políticos que prejudicaram a reputação organizacional, além de semear dúvidas e desconfianças sobre as vacinas.

Outro ponto abordado pela pesquisa foram os processos de transferência de tecnologia para a produção do ingrediente farmacêutico ativo (IFA), que costumam ser uma alternativa para países de renda média obterem maior acesso às vacinas. No entanto, o caso brasileiro ilustra que a teoria é bastante diferente da prática, já que a transferência de tecnologia é um processo que exige adaptação das plantas fabris e acordo legal (inclusive sobre o pagamento de royalties), e que levam tempo para acontecer.

“O caso do Brasil demonstra que capacidades estatais não são suficientes para garantir uma preparação para pandemia, sendo necessário considerar as implicações das contestações políticas ao longo da cadeia de produção, regulação e distribuição de vacinas”, pondera Elize Massard da Fonseca, uma das autoras do estudo. Para a pesquisadora, além do investimento em desenvolvimento industrial, é crucial integrar os sistemas de saúde às iniciativas de pesquisa e desenvolvimento de vacinas.

“Essa integração não pode ser construída da noite para o dia, durante uma pandemia, mas precisa ser fruto de investimentos de longo prazo em produtos estratégicos, que possam ser mobilizados em casos de crises de saúde pública”, alerta a pesquisadora. Fonseca destaca que esse tipo de diretriz é importante especialmente para os países que não têm capacidade de fazer reserva de mercado ou grandes investimentos em produtos em fase de pesquisa ou, ainda, que não se classificam para o recebimento de doações de vacinas para países de baixa renda.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP confirma a existência de uma estratégia federal de disseminação da COVID-19 no Brasil

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Um estudo realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo em parceria com a Organização Não-Governamental Conectas Direitos Humanos até janeiro de 2021 e, desde então, com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, coletou as normas federais e estaduais relativas ao enfrentamento da pandemia da COVID-19 para avaliar o seu impacto sobre os direitos humanos no Brasil. A linha do tempo revela que foi implantada no âmbito do governo Bolsonaro uma estratégia de disseminação da  COVID-19 no Brasil.

O documento é composto de duas partes principais: o relatório, que apresenta a metodologia e a síntese dos resultados do estudo; e a linha do tempo, que apresenta a sistematização dos dados coletados.  O estudo teve por objetivo aferir a hipótese de que está em curso no Brasil uma estratégia de disseminação da Covid-19, promovida de forma sistemática em âmbito federal.  O estudo se baseia em pesquisa documental com dados de caráter público, realizada por equipe interdisciplinar com competências nas áreas de  Saúde Pública, Direito, Ciência Política e Epidemiologia, tendo como fontes normas federais, jurisprudência, discursos oficiais, manifestações públicas de autoridades federais e busca em plataformas digitais. A coleta de dados para fins específicos deste estudo compreendeu o período de 03/02/20 a 28/05/21, e buscou informações correspondentes a eventos (ações e omissões) que demonstram a presença de intencionalidade, aqui compreendida simplesmente como a confluência entre a consciência dos atos e omissões praticados, e a vontade de praticá-los.

A coleta resultou na identificação de três tipos de evidências:  a) atos normativos adotados na esfera da União, incluindo vetos presidenciais; b) atos de governo, que compreendem ações de obstrução de medidas de contenção da doença adotadas por governos estaduais e municipais, omissões relativas à gestão da pandemia no âmbito federal, e outros elementos que permitam compreender e contextualizar atos e omissões governamentais; e c) propaganda contra a saúde pública, aqui definida como o discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais, além de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o propósito de desacreditar as autoridades sanitárias, enfraquecer a adesão popular a recomendações de saúde baseadas em evidências científicas, e promover o ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter o avanço da COVID-19.

Os resultados do estudo apontam para uma confluência entre esferas normativa, de gestão e discursiva da resposta federal à pandemia, havendo coerência entre o que se diz e o que se faz. Os autores da pesquisa apontam que procede, portanto, a hipótese da existência de estratégia de disseminação da doença, por meio, em suma, dos seguintes atos e omissões:  

1) Defesa da tese da imunidade de rebanho (ou coletiva) por contágio (ou transmissão) como forma de resposta à Covid-19, disseminando a crença de que a “imunidade natural” decorrente da infecção pelo vírus protegeria os indivíduos e levaria ao controle da pandemia, além de estimativas infundadas do número de óbitos e da data de término da pandemia;

2) Incitação constante à exposição da população ao vírus e ao descumprimento de medidas sanitárias preventivas, baseada na negação da gravidade da doença, na apologia à coragem e na suposta existência de um “tratamento precoce” para a COVID-19, convertido em política pública;

3) Banalização das mortes e das sequelas causadas pela doença, omitindo-se em relação à proteção de familiares de vítimas e de sobreviventes, propalando a ideia de que faleceriam apenas pessoas idosas ou com comorbidades, ou pessoas que não tivessem acesso ao “tratamento precoce”

4)  Obstrução sistemática às medidas de contenção promovidas por governadores e prefeitos, justificada pela suposta oposição entre a proteção da saúde e a proteção da economia, que inclui a difusão da ideia de que medidas quarentenárias causam mais danos do que o vírus, e que elas é que causariam a fome e o desemprego, e não a pandemia;

5) Foco em medidas de assistência e abstenção de medidas de prevenção da doença, amiúde adotando medidas apenas quando provocadas por outras instituições, em especial o Congresso Nacional e o Poder Judiciário;

6) Ataques a críticos da resposta federal, à imprensa e ao jornalismo profissional, questionando sobretudo a dimensão da doença no país; e

7) Consciência da irregularidade de determinadas condutas.

Irresponsável e negacionista, Bolsonaro é contaminado pela Covid-19 |  Partido dos Trabalhadores

Os responsáveis pelo estudo apontam ainda que, embora não exaustiva, a linha do tempo seria suficiente para oferecer uma visão de conjunto de um processo vivido de forma fragmentada. Segundo eles, os resultados da pesquisa afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência da parte do governo federal na gestão da pandemia. Ao contrário, a sistematização de dados revela o empenho e a eficiência em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível, o que segundo o Tribunal de Contas da União, configura a  opção política do governo Bolsonaro de priorizar a proteção econômica..

Finalmente, os pesquisadores chamam a atenção a persistência do comportamento de autoridades federais brasileiras diante da vasta disseminação da doença no território nacional e do aumento vertiginoso do número de óbitos, embora instituições como o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal tenham apontado, inúmeras vezes, a inconformidade à ordem jurídica brasileira de condutas e de omissões conscientes e voluntárias de gestores federais, assim como o fizeram, incansavelmente, entidades científicas e do setor da saúde.

Países ricos não têm nenhum plano para cumprir suas promessas de financiamento climático, indica relatório

Membros do G7 anunciaram recuperação verde pós-pandemia em 2020, enquanto investiam

tearfund
US $190 bi em combustíveis fósseis, revela Tearfund Os planos de financiamento climático dos países desenvolvidos são fracos e imprevisíveis, alerta o relatório da CARE divulgado hoje (3/6) . O estudo “Compromissos Ocos” analisou 24 planos recentes anunciados pelos países ricos e afirma que nenhum deles forneceu informações sobre como e quando as promessas serão cumpridas. A pesquisa afirma também que os países não explicam de que forma seus novos compromissos contribuem com a meta de US $100 bilhões para o financiamento climático das nações pobres estabelecida na Conferência do Clima de Copenhague (COP15), em 2009, para o ano de 2020.

O tema deve estar na pauta do próximo encontro do G7, quando líderes de Reino Unido, Canadá, EUA, Alemanha, França, Japão e Itália se encontrarão na Cornualha, Inglaterra, entre 11-13 de junho. Coréia do Sul, Austrália, Índia e África do Sul também participarão do evento como convidadas.

A recuperação da economia após a COVID-19 também será assunto do G7. Enquanto as principais economias anunciavam em 2020 projetos para “reconstruir melhor”, com sustentabilidade e justiça social, os países do G7 injetaram quase US ﹩190 bilhões em combustíveis fósseis no mesmo período, revela um levantamento liderado pela Tearfund, uma agência internacional cristã de ajuda humanitária.

Segundo a pesquisa, carvão, petróleo e gás receberam US $189 bilhões em apoio, em comparação com US $147 bilhões para formas limpas de energia, desde o início da pandemia. Nos planos de recuperação, mais de 8 em cada 10 dólares foram comprometidos com combustíveis fósseis sem nenhuma contrapartida verde.

O histórico recente do Reino Unido destaca a tensão entre as ambições verdes do governo e as decisões de gastos reais do Tesouro: o país assumiu os maiores compromissos per capita com os combustíveis fósseis do G7, com apenas 4% deste apoio tendo qualquer critério de sustentabilidade associado. Por outro lado, o Reino Unido anunciou o fim do apoio público a projetos de combustíveis fósseis no exterior e a proibição em 2030 de novos carros a gasolina e diesel.

Além da Tearfund, colaboraram com a pesquisa o Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável ( IISD ) e a ODI , que trabalharam com organizações em cada país para analisar 517 políticas aprovadas desde o início da pandemia.

“Se cada um dos líderes do G7 não anunciar claramente em Cornualha, no dia 11, um aumento significativo no financiamento climático para cumprir e superar sua promessa de US $100 bilhões até 2020 e aumentar em trilhões de dólares as medidas de recuperação verde global, isso só pode ser interpretado como uma quebra maciça de confiança e responsabilidade”, avalia Tasneem Essop, diretora executiva da Climate Action Network.

Para Mohamed Adow, diretor do think tank Power Shift Africa, as descobertas dos dois estudos são “terríveis”. “O processo da ONU, e de qualquer negociação razoável, só funciona se uma das partes puder confiar na outra para fazer o que foi acordado, o que foi prometido. Os países mais ricos prometeram 100 bilhões de dólares até 2020 e ainda assim decidiram simplesmente não cumprir esta obrigação”, declarou.

A jovem ativista Vanessa Nakate, do Fridays For Future Uganda, afirmou que os países ricos têm “obrigação moral” de ajudar países pobres na transição dos combustíveis fósseis. “A demanda por eletricidade na África pode dobrar nos próximos dez anos e, com o atraso dos países ricos, o dinheiro está saindo de seus bancos para construir mais infraestrutura de combustíveis fósseis que nós não queremos.”

Diann Black-Layne, embaixadora de Antígua e Barbuda, comentou os resultados em evento da ONU, e afirmou em nome do grupo de países-ilha (AOSIS) que o financiamento climático não pode ser confundido com financiamento ao desenvolvimento. “O financiamento necessário para se recuperar após um furacão não é financiamento para o desenvolvimento. Sejamos claros: o financiamento climático paga pelo impacto da poluição de outros”.

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

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Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Documento lançado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) aponta a relação dos agrotóxicos com o agravamento da COVID-19. Maior mercado consumidor mundial desses produtos, que tende a aumentar, o Brasil avança para chegar a meio milhão de mortos.

Trata-se do relatório Agronegócio e pandemia – uma sindemia está agravando a pandemia de covid-19?.

“Segundo os pesquisadores, os agrotóxicos têm efeitos no sistema imunológico e neurológico. E a covid-19 é uma doença sistêmica, o que pode agravar os quadros de infecção”, disse à repórter Girrana Rodrigues, da TVT, a médica Lia Giraldo, professora da pós-gradução em Saúde Pública no Instituto Aggeu Magalhães, em Pernambuco.

Sindemia dos agrotóxicos

Essa relação dos agrotóxicos com a covid-19, aliás, tem um nome ainda pouco conhecido: sindemia. É a interação sinérgica entre duas ou mais doenças que se desenvolvem simultaneamente em indivíduos de um dado grupo populacional marcado por condições socioeconômicas desfavoráveis, como populações indígenas, negras e de trabalhadores rurais pobres, afetando negativamente a evolução de cada uma dessas doenças.

“Quando relatórios nos mostram que a saúde da população está sendo prejudicada, que o sistema imunológico da população está sendo enfraquecido, que diversas dessas comorbidades agravam ainda mais os efeitos da covid-19 são causadas pelos agrotóxicos, a gente consegue reforçar e ter muito mais clareza de que a luta contra os agrotóxicos é necessária”, disse o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel.

 O estudo aponta ainda que o desflorestamento e a exploração de recursos naturais, acentuados nos dias atuais, podem causar outras pandemias tão graves como a COVID-19. “Desflorestar, que é o que o agronegócio faz, cria um ambiente propício a novos episódios dessas pandemias zoonóticas”, disse Lia Giraldo.

A saída é a agroecologia

Para reverter esse quadro, segundo os especialistas, a única saída é uma política pública que incentive a expansão da agroecologia.

“Nós temos por um lado o agronegócio, que desde os anos 1960 recebem incentivos estatais e até de fora do país para se estabelecer. E por outro lado o modelo da agroecologia, que vive lutando por parcos recursos aqui e ali. Quando a gente tiver, de fato, investimentos em política pública séria e focada na produção de alimentos agroecológicos, as barreiras técnicas deixam de existir”, disse Tygel.

Participaram do estudo do Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Abrasco a Rede Internacional para Eliminação dos Poluentes (International Pollutants Elimination Network – IPEN).

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

A farsa da cloroquina é desmontada na CPI da Covid-19

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Afora os eventuais excessos de retórica que se comete pela presença das câmeras de TV, a passagem da médica Nise Yamaguchi pela CPI da COVID-19 no Senador foi reveladora dos métodos pseudo-científicos que têm sido usados para desinformar a população brasileira acerca dos possíveis tratamentos e da própria natureza do agente causado da doença.

Abaixo posto um vídeo com parte da arguição realizada pelo senador Otto Alencar (PSD/BA) que demonstra que Nise Yamaguchi tem dificuldade de explicar as diferenças básicas entre a estrutura de um vírus e de um protozoário, quanto mais apontar medidas básicas para a indicação de remédios que possam curar doenças causadas por um e outro.

Toda a gritaria que está sendo feita hoje nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro sobre o tratamento recebido por Nise Yamaguchi na sua arguição apenas é uma tática para esconder que a defesa do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina que ela fez não possui qualquer base científica.  Aliás, é preciso dizer que se a arguição de ontem fosse de uma banca acadêmica, Nise Yamaguchi teria sido reprovada, tal a falta de conhecimento que ela demonstrou sobre a matéria que estava sendo examinada.

Finalmente, há que se lembrar que Nise Yamaguchi não está sozinha na defesa de remédios ineficazes contra a COVID-19, pois o Conselho Federal de Medicina (CFM) tem sido um dos fiadores do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no susposto e inviável tratamento precoce da COVID-19.

The Guardian noticia o #29 de Maio e informa que dezenas de milhares foram às ruas pedir o impeachment de Jair Bolsonaro

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Manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro no sábado. Quase 500.000 brasileiros morreram com coronavírus. Fotografia: Bruna Prado / AP

Por Tom Phillips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas das maiores cidades do Brasil para exigir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por sua resposta catastrófica a uma pandemia de coronavírus que ceifou quase meio milhão de vidas de brasileiros.

Os manifestantes compareceram em mais de 200 cidades e vilas para aquela que é a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início do surto de COVID-19 no Brasil

“Hoje é um marco decisivo na batalha para derrotar a administração genocida de Bolsonaro”, disse Silvia de Mendonça, 55, uma ativista de direitos civis do Movimento Negro Unificado do Brasil, enquanto liderava uma coluna de manifestantes pelo dilapidado centro da cidade do Rio.

Osvaldo Bazani da Silva, um cabeleireiro de 48 anos que perdeu o irmão mais novo para a COVID-19 , disse: “Não podemos perder mais vidas de brasileiros. Precisamos ir às ruas todos os dias até que este governo caia. ” 

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado.

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

No Rio, muitos manifestantes carregavam cartazes caseiros lembrando seus entes queridos que perderam em uma epidemia que matou quase 460.000 brasileiros, o segundo maior número oficial de mortos depois dos Estados Unidos. “Estou aqui em sua memória”, disse Luiz Dantas, 18, segurando uma fotografia do avô, Sebastião, falecido em fevereiro aos 75 anos.

“O culpado tem um primeiro e um segundo nome”, afirmou Dantas, referindo-se ao presidente de extrema direita de seu país, que repetidamente banalizou o coronavírus como uma “pequena gripe” e sabotou esforços de contenção, como distanciamento social ou bloqueio.

“Eu quero justiça”, acrescentou o adolescente, derramando lágrimas enquanto falava.

Irene Grether, uma psicanalista de 69 anos que também estava na manifestação, disse que dois parentes morreram como resultado da inação de seu governo. “Este governo é mais perigoso do que o vírus”, disse ela, enquanto milhares de manifestantes se reuniam perto de uma estátua em memória do líder da resistência antiescravista Zumbi dos Palmares.

Manifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi no Rio de JaneiroManifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi, no Rio de Janeiro, no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

A sobrinha de Grether, uma economista de 46 anos chamada Ana Paula Carvalho, disse acreditar que Bolsonaro deveria ser levado ao tribunal penal internacional de Haia “por crimes contra o povo brasileiro”. “Ele promove a morte e a destruição”, disse ela. “O Bolsonaro é uma tragédia brasileira.”

Bolsonaro defendeu sua resposta à pandemia, alegando que sua oposição obstinada ao bloqueio visa projetar a subsistência e empregos brasileiros. Mas Carvalho disse que ao permitir a propagação descontrolada do vírus – e ao não adquirir vacinas suficientes – Bolsonaro destruiu a economia, assim como vidas. “Hoje o povo brasileiro pode escolher entre morrer de vírus ou de fome”, disse ela.

As manifestações de sábado – que também ocorreram nas principais cidades, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Recife e a capital Brasília, bem como em dezenas de cidades menores – vêm com Bolsonaro em sua pior fase desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019.

As pesquisas sugerem uma raiva crescente com a forma como o populista de direita está lidando com Covid, com 57% da população agora apoiando seu impeachment . Um inquérito do Congresso está atualmente dissecando a calamitosa resposta de Bolsonaro à crise de saúde pública, com revelações prejudiciais sobre a conduta de seu governo sendo transmitidas todas as noites no noticiário.

Bolsonaro parece particularmente abalado com o ressurgimento de seu rival político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente de esquerda que parece prestes a desafiá-lo à presidência na eleição do próximo ano. Em entrevista recente ao “The Guardian”, Lula , cujos direitos políticos foram recentemente restaurados, disse que não tinha dúvidas de que o povo brasileiro se “libertaria” de Bolsonaro em 2022. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, disse Lula sobre a reação de Bolsonaro para a COVID-19.

Roberto Anderson, professor universitário e ambientalista de 67 anos que estava na marcha de sábado, disse que se sentiu encorajado pela grande participação que sugeria que a maré finalmente estava se voltando contra o líder de direita radical do Brasil.

“As pessoas estão acordando. Muitas pessoas que votaram em Bolsonaro estão vacilando … e os políticos que o apóiam ainda são oportunistas – no momento em que virem as pessoas se organizando, também mudarão de lado ”, afirmou Anderson.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Assembleia da OMS: contrato pandêmico em vez de liberação de patente?

A Assembleia Mundial da Saúde trata de como uma futura pandemia pode ser evitada

graveyardO número de mortes relacionadas com a pandemia corona é duas a três vezes maior em todo o mundo do que os 3,4 milhões suspeitos anteriormente. Foto: AFP / MICHAEL DANTAS

Por Marc Engelhardt, Genebra, para o Neues Deutschland 

Lutar contra o COVID-19 e se preparar para a próxima pandemia são os verdadeiros temas da 74ª Assembleia Mundial da Saúde, que começou na segunda-feira de Whit em Genebra. Mas já na abertura desta reunião anual de todos os 194 estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) fica claro o quanto o hiato global entre ricos e pobres está ofuscando as discussões.

“Um pequeno número de países que produziu e comprou a maioria da vacina controla o destino do resto do mundo”, criticou o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, referindo-se principalmente aos dez países que atualmente são 75% dos mais de um bilhão de vacinas usadas em seus próprios cidadãos.

“As vacinações dadas até agora teriam sido suficientes para que toda a equipe médica e todos os idosos fossem vacinados em todo o mundo se tivessem sido distribuídas de forma justa”, disse Tedros. O secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertou que a COVID-19 não poderia ser derrotada se um país após o outro fosse vacinado. “Se não fizermos nada agora, os países ricos vacinarão suas populações e abrirão suas economias, enquanto o vírus circula e sofre mutações nos países mais pobres.” O resultado são centenas de milhares de mortes. Como Tedros, Guterres também apoiou o levantamento temporário da proteção de patente para vacinas da COVID-19 durante a pandemia, a fim de dobrar a produção global tanto quanto possível.

As estatísticas globais de saúde apresentadas pela OMS na sexta-feira mostram como essas vacinas adicionais seriam necessárias. Conseqüentemente, o número de mortes em conexão com a pandemia é duas a três vezes maior do que os 3,4 milhões suspeitos anteriormente. Uma das razões para isso é que, especialmente em países pobres, muitas vezes não está claro do que as pessoas morrem.

Na África, por exemplo, de acordo com a OMS, apenas uma em cada dez mortes é registrada de forma confiável, enquanto na Europa é de 98 por cento. Outra razão para o alto número de casos não relatados: muitas outras doenças graves não foram tratadas na pandemia da corona, também porque os sistemas de saúde foram e estão sobrecarregados pelos pacientes da corona. Por outro lado, a iniciativa chamada “ACT Accelerator” lançada pela OMS deve ajudar. Uma “Cúpula Mundial da Saúde” separada da UE e dos países do G-20 em Roma discutiu como ela deveria ser fortalecida na sexta-feira.

A iniciativa, que também inclui o programa de vacinação da Covax, está faltando US $ 18,5 bilhões, além de vacinas, testes da COVID-19, oxigênio e ventiladores, ou seja, praticamente tudo o que é escasso e cobiçado na pandemia. A UE prometeu mais 100 milhões de doses de vacina para os países mais pobres do mundo na sexta-feira, e os fabricantes prometeram bilhões de doses.

No entanto , isso não altera a escassez aguda na maioria dos países do mundo por enquanto. Já os bem vacinados representantes dos países industrializados estão menos preocupados com o presente do que com o futuro.

“Depois que a pandemia é antes da pandemia, devemos estar o mais bem preparados possível para a próxima”, disse a chanceler Angela Merkel no início. Ela fez campanha por um “tratado de pandemia” global que obrigaria os estados a cooperar e ser mais transparentes sobre a próxima pandemia. O problema: a negociação de um contrato desse tipo poderia levar anos, se fosse para ser alcançado. China, Rússia e Brasil estão resistindo a tal acordo, que permitiria à OMS, por exemplo, publicar informações sobre o curso de uma pandemia sem o consentimento dos estados envolvidos.

Os EUA também mostraram pouco interesse até agora. É verdade que três comissões que examinaram o trabalho da OMS durante a pandemia pediram o fortalecimento da organização. Mas se isso realmente acontecerá na próxima semana é, na melhor das hipóteses, incerto. Uma resolução apresentada pela UE, que deve dar à OMS mais oportunidades para investigações independentes sobre suspeitas de pandemias, foi diluída a tal ponto antes do início da assembleia que provavelmente não passará de outro apelo não vinculativo para fortalecer a organização quando a decisão é tomada. E quando se trata de mais dinheiro, de que a OMS precisa com urgência, com seu orçamento anual de pouco menos de dois bilhões de euros, os europeus também falham.

Por um lado, países como a Alemanha já aumentaram suas doações durante a pandemia, outros doadores apontam para os custos da pandemia corona em seu próprio país. Quase todos também se limitam à destinação da maior parte de seus fundos. Mas isso priva a OMS exatamente do que as comissões pedem: mais independência.

Para o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, esse é um problema que afeta não só a organização que lidera, mas também a si mesmo. Seu mandato expira no próximo ano. Se ele será proposto novamente por cinco anos no topo da OMS depende acima de tudo se a luta global contra a pandemia COVID-19 será melhor do que antes nos próximos meses. Ainda não parece.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland [Aqui!].