Controladores do Magalu destinam 10 milhões de reais para combate à COVID-19

Famílias Trajano e Garcia doaram respiradores artificiais, leitos, colchões e travesseiros para hospitais e governos estaduais

MAGALU

As famílias Trajano e Garcia, controladoras do Magazine Luiza, maior plataforma digital de varejo do país, anunciaram hoje que vão doar 10 milhões de reais em equipamentos e outros itens que serão usados no tratamento das vítimas brasileiras da pandemia de COVID-19 (novo coronavírus). O valor está sendo destinado à compra de respiradores artificiais, leitos, colchões e travesseiros para equipar hospitais públicos e filantrópicos de todo o país.

Já foram doados monitores cardíacos para o Hospital Emílio Ribas, de São Paulo, centro de referência nacional em infectologia, e ventiladores pulmonares para uma unidade do Sistema Público de Saúde (SUS) localizada na Vila Guilherme, bairro onde fica a sede do Magalu, na cidade de São Paulo, e para a Santa Casa da cidade de Franca, no interior do estado. Por meio da Communitas, organização da sociedade civil que promove parcerias entre os setores público e privado, as famílias Trajano e Garcia destinaram 2 milhões de reais para compra de ventiladores pulmonares para o estado de São Paulo. Um milhão de reais foi doado para a Amigos do Bem, ONG que trabalha para a melhoria das condições de vida de populações carentes no sertão nordestino.

Também foram doados, até o momento, 4 000 colchões e travesseiros para os governos estaduais do Pará e da Bahia. Esses itens serão usados para equipar abrigos para moradores de rua e para outras populações socialmente vulneráveis, com sintomas de COVID-19.

A modelagem dos cenários da COVID-19 poderá salvar muitas vidas e reduzir perdas econômicas

doc79nfjdvlw0yj8kf7k4e

No início dos anos 1990 participei de um projeto de pesquisa que envolvia a construção de um modelo de simulação do uso da terra e a perda de florestas em Rondônia, o qual foi denominando de “Dynamic Ecological-Land Tenure Analysis”, ou simplesmente “DELTA“.  Ali se previu com alto nível de acerto o destino das hoje desaparecidas florestas da região central do estado de Rondônia.

A partir do DELTA, muitos outros modelos de simulação envolvendo o uso da terra e seus efeitos na cobertura florestal da Amazônia já foram desenvolvidos, o mais conhecido deles sendo o “Dinâmica EGO” que foi desenvolvido pelo pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, Britaldo Soares Silveira-Filho.

Pois bem, nos últimos dias,  temos visto um crescente debate sobre a acurácia dos modelos de previsão matemática e sua utilidade para orientar as estratégias governamentais para enfrentamento da pandemia da COVID-19. O que já se sabe é que ainda temos um grande número de variáveis cujo comportamento no ambiente de dispersão do coronavírus é de difícil modelagem, contribuindo para o aumento das incertezas.

Mesmo a modelagem produzida pelo respeitado Imperial College of London e que dá números variados de mortes, inclusive para o Brasil, dos diferentes cenários de isolamento sofre com as incertezas geradas pela ausência de informações mais compreensivas de como a pandemia opera em diferentes condições ecológicas, sociais, culturais e econômicas. 

Por outro lado, a possibilidade de que, na ausência de modelos mais complexos, a modelagem se dê de forma mais parcimoniosa, adotando basicamente cenários que dêem a noção mais básica de como a expansão da infecção se dá  usando, por exemplo, as taxas de variação adotada para as medidas adotadas para isolamento social (indo, por exemplo do cenário mais restrito que as autoridades chinesas adotaram para o Wuhan para o que está sendo difundido pelo presidente Jair Bolsonaro).

Um exemplo de modelo de pessoas infectadas de acordo com cenários de intensidade de grau de isolamento social já foi produzido pela Secretaria Municipal de Saúde de Telêmaco Borba (minha cidade natal), que mostra que há sim uma diferença substancial de infecções e de ocupação de leitos hospitalares e de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) (ver figura abaixo).

COVID 19

A grande utilidade de modelos mais simples é a comunicação social em curto prazo, oque serve para aumentar a aderência da população às medidas adotadas em prol do distanciamento social ou, até mesmo, de isolamento total da população, que está ocorrendo em diferentes partes do Brasil.

Por outro lado, para fazer frente aos desafios econômicos de médio e longo prazo que inevitavelmente vão decorrer do impacto da COVID-19 no Brasil, me parece inevitável que a comunidade científica brasileira se concentre no desenvolvimento de modelos que incorporem cenários mais complexos e menos lineares. A boa notícia é que existe conhecimento instalado no Brasil e no mundo para que possamos criar modelos que sejam suficientemente rigorosos para orientar as ações nas diferentes escalas de governo.

O primeiro passo para que possamos começar a construir tais modelos será reverter a concepção dominante no governo federal de que a pandemia não é um problema tão significativo quanto efetivamente o é.  Já o segundo será reverter a noção de que o conhecimento científico não possui utilidade aplicada para que possamos gerar soluções efetivas para o controle da COVID-19 e para o estabelecimento de medidas que permitam uma recuperação mais rápida da atividade econômica. 

Entretanto, por ora, penso que os governos estaduais e municipais sigam o exemplo de Telêmaco Borba e comecem a produzir seus próprios modelos matemáticos de simulação do impacto da COVID-19 em suas respectivas jurisdições.  No mínimo isto orientará onde o montante dos investimentos e onde os mesmos serão melhor aplicados em curto ou até curtíssimo prazo.

Finalmente, o que considero ser uma boa notícia é que, apesar de todos os esforços do presidente Jair Bolsonaro e a pressão de seus apoiadores que querem reabrir o comércio a qualquer custo, a situação geral do Brasil não é que foi vivenciada em países como Itália, Espanha e até nos EUA, pois a pronta de governos estaduais e municipais contribuiu parece ter contribuído para um achatamento mais precoce da curva de contaminação. 

Em carta pública, profissional da saúde traça quadro sombrio da situação do sistema de saúde de Campos dos Goytacazes

UPH-Travessão-Fachada-549x360

Carta aos médicos e gestores da política publica de saúde de Campos dos Goytacazes

O meu lugar de fala é de cidadã campista, profissional da saúde desde 1989, ativista desde então, junto com a classe trabalhadora, especialmente camponeses, trabalhadores rurais e moradores de comunidades periféricas, e mulher que foi casada com dois médicos.

Meu atual marido trabalhou, como médico, em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) durante 10 anos e muitos anos atuou aonde não havia médicos e dentistas, países em guerra na América Central. Quando ele se depara com a situação vergonhosa da política pública de saúde de Campos dos Goytacazes se indigna e propõe ajudar. Hoje, com febre e tosse ele não pode atuar. Eu assustada e ele, após tentar me convencer que é só uma gripe, diz: se der positivo em 15 dias estou imunizado e posso ajudar voluntariamente em Travessão. Evidente que não permitirei. Afinal, a última palavra é a dele: sim senhora!

Diante dessa experiência vivida a pouco, sem querer aqui engrandecer meu marido até porque ele não ficaria feliz com tal reverência, venho por meio desta:

1) reconhecer o compromisso de muitos profissionais de saúde, inclusive os médicos que estão na linha de frente neste momento trágico;

2) aplaudir a dedicação do diretor clínico (Dr. Guilherme Abreu) para que a Unidade Pré-Hospitalar de Travessão (UPHT) funcione corretamente dentro das dificuldades materiais e humanas existentes, assumindo muitas vezes vários plantões na semana para que a unidade não ficasse desfalcada de atendimento;

3) implorar aos gestores e médicos que garantam atendimento médico diário e emergencial na UPHT, conforme previsto em escalas de plantão: dois médicos clínicos por dia, 24h com aumento de acordo com demanda;

4) sensibilizar gestores e médicos sobre a situação das prescrições medicamentosa de pessoas com doenças crônicas.

Há vários meses a UPHT não conta com serviço diário de atendimento médico de urgência. Anos atrás o Ministério Público fiscalizou as unidades de saúde do município, a partir deste momento as escalas de todos os profissionais foram expostas em local de fácil acesso. A única categoria que nunca cumpriu a escala foi os médicos. Lembro que trabalhei na referida unidade com dois plantonistas algumas semanas após a fiscalização do MP, depois nunca mais.

No último ano (2019) a situação se agravou com a precarização de contratação via Recibo de Pagamento Autônomo (RPA). Vários dias da semana não teve médico, não víamos as escalas expostas. Essa semana, através da rede social, tomamos conhecimento de que constam nas escalas dos médicos, dos meses de fevereiro e março, dois plantonistas clínicos por dia, chegando dias a ter três. Quando a enfermagem chega com os pacientes transferidos para outras unidades os plantonistas perguntam: “cadê os médicos de Travessão?” Essa é a pergunta que fazemos? Queremos saber quem são os médicos da Escala, estão lotados em outras unidades, por quê? Estão recebendo sem trabalhar? Estão cedidos, licenciados? Por que tanta indiferença e desprezo pelos moradores do 7º Distrito e adjacências?

Em um dos decretos o presidente da Fundação Municipal da Saúde (FMS) define a UPHT como referencia para pacientes suspeitos de contaminação por COVID-19. Desde então a equipe de serviço social está pautando junto aos três gestores imediatos a importância de medidas sanitárias, técnicas e humanas, iniciando pela higienização adequada dos ares condicionados e retirada do mofo das paredes.

Sobre a higienização: sexta feira a limpeza doméstica e não hospitalar foi realizada com o incentivo da assistente social e um técnico de enfermagem que se dispôs a fazer. Durante a limpeza uma água preta e fétida escorria dos aparelhos. A limpeza dos ares condicionados das enfermarias e sala de socorro não foi providenciada, ficando para fim de semana ou segunda-feira, fato não realizado até o momento.

Sobre a questão dos recursos humanos: os gestores informaram que, com base no decreto municipal, foi preparada uma escala para os médicos que trabalham nos ambulatórios para atuarem na emergência. O trabalho iniciaria ontem, segunda-feira. Ontem não apareceu, e segundo o administrador, hoje compareceu o médico escalado porém não ficou, justificando que não trabalharia sem o plantonista.

Queremos saber quem são os plantonistas e onde atuam senão na UPHT? Por que os médicos de ambulatório não estão atuando diante de uma situação emergencial como essa? Se nesse momento de apreensão estão confortavelmente em suas casas imaginemos o que farão quando ocorrer o pico da contaminação, e se ocorrer uma epidemia? Vão construir sótãos e se acovardar esperando que os médicos cubanos expulsos de nosso país retornem para nos salvar? O que está ocorrendo, onde estão os médicos? As organizações da categoria precisam se manifestar? A sociedade civil organizada precisa exigir respostas do poder executivo. As instituições de fiscalização do poder executivo precisam agir. É falta de pagamento e condições materiais? Isso tem que ser pautado. Por que os demais profissionais de saúde estão na linha de frente e os médicos lotados na UPHT não?

É importante que os treinamentos, protocolos, fluxograma, rotina sejam definidos. Os médicos de ambulatório que não têm prática de intubação, por exemplo, podem aproveitar a oportunidade para retomar os estudos de fisiologia. Hoje meu companheiro, me apresentou o manejo do ambu e laringoscópio. Não é tão difícil assim. Esse ato é exclusivo do exercício da medicina, a população depende de vocês. É preciso que todos se preparem, estudem, troquem uns com os outros, buscando atuar com competência. A hora é de praticar humildade, solidariedade, solicitude, generosidade. Não é assim que as redes sociais andam invadidas?!

Outro aspecto que é preciso ponderar com os médicos e gestores da PPS é a questão das prescrições médicas para pessoas com doenças crônicas. Desde 18 de fevereiro não ocorre consultas ambulatórias no município. Dias antes do carnaval o sindicato dos médicos deliberou greve. Muitas das pessoas que fazem uso contínuo de medicamentos estão com suas receitas vencidas, as crianças que convulsionam várias vezes ao dia estão sem acesso a “receitas controladas”… Como queremos manter as unidades de urgência com prioridade para os possíveis “casos de corona” se os picos hipertensivos irão ocorrer, como ficarão os diabéticos sem sua medicação, se alimentando pior ainda pois a comida agora precisa ser dividida entre as crianças que estão em casa? Esse assunto fica para a próxima carta, se medidas para fazer chegar alimento nas casas das famílias pobres não forem providenciadas.

O município de Campos dos Goytacazes, lamentavelmente, não conta com o Programa Saúde da Família, fechou as Unidades Básicas de Saúde (UBS) nesse momento. A medida mais eficiente seria prorrogar a validade das receitas por três meses para as pessoas cadastradas no Programa Farmácia Popular (cabe registrar que o programa é do SUS) e os novos pacientes, que recebam suas receitas durante as consultas de urgência. A sensibilização e a definição de protocolo para prescrições por médicos de urgências nos casos das crianças, com epilepsia por exemplo,  também é necessário.

Somente agora, finalizando esses escritos, me veio a pergunta: qual será é o valor destinado a cada unidade referência para atender os casos de COVID? Até o momento a referência é fake. Da mesma forma que a unidade (UPHT) inaugurada há menos de dois anos, totalmente insalubre, é fake. De pré hospitalar, só o nome. A empreiteira vai muito bem obrigada. A população e as instituições de direito não cobram ou fiscalizam. A banalização da sujeira em quase todas as unidades de saúde e escolas é uma vergonha e desrespeito à população.

Enfim, encerro com a esperança de que a equipe de trabalho amanhã esteja com a mente e coração abertos ao acolhimento e avaliação de cada demanda; que a unidade esteja em condições mais salubres diante de tantos vazamentos dos ares condicionados e das infiltrações nas paredes/ telhados; e que os vírus COVIDs, os da incompetência e corrupção sejam extintos de uma vez. E, sem assédio moral!

Campos dos Goytacazes, 24 de março de 2020.

Carolina Abreu

CRESS 10.135

Cientista desmente vídeo de Bolsonaro sobre suposta droga milagrosa para a Covid-19. A culpa é da produção?

Já circula amplamente nas redes sociais um vídeo onde o presidente Jair Bolsonaro comunica o possível uso da cloroquina para cura da Covid-19 que, segundo ele,  o fato lhe teria sido comunicado por médicos do Hospital Albert Einstein (o que foi devidamente negado pela renomada instituição).

Pois bem, posto abaixo uma versão do mesmo vídeo, mas com as devidas explicações e desmentido das afirmações de Jair Bolsonaro pelo economista Eduardo  Moreira e pela professora doutora Luciana Costa do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Aí alguém pode se perguntar como a equipe de comunicação da presidência da república teria não só permitido a veiculação de informação, no mínimo, imprecisa por Jair Bolsonaro, mas a própria produção do vídeo que agora acaba sendo desmentido por uma cientista especializada em doenças infecciosas.

A imagem abaixo aparentemente mostra não apenas o momento em que o referido vídeo foi produzido, mas também quem eram os membros da equipe que “produziu” o material, quais sejam, os três filhos do presidente Jair Bolsonaro que possuem cargos eletivos (o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro).

wp-1584830725583.jpg

Apesar dessa não ser primeira vez que essa “equipe” se envolve na produção de materiais visuais do agora presidente Jair Bolsonaro, o momento é especialmente grave e toca na vida de milhões de brasileiros.

A pergunta que se coloca é a seguinte: quem vai ser responsabilizado se a fala do presidente Jair Bolsonaro que este veículo dissemina for responsável por intoxicações graves em quem comprar e usar o cloroquina para combater a COVID-19? O presidente ou os seus filhos? Ou todos eles?