Agronegócio e pandemia da COVID-19: uma mistura explosiva

Já abordei anteriormente a íntima ligação entre a variante estadunidense da fazenda industrial com o aparecimento de pandemias, incluindo a da COVID-19.  Pois bem, para quem quiser saber mais sobre esta questão em geral, bem como no caso específico do Brasil, a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique acaba de ser publicada é um prato cheio de conhecimento. É que boa parte da edição é dedicada a investigar e demonstrar a relação íntima entre grandes criações de animais e abatedouros industriais no espalhamento da COVID-19 no Brasil e nos EUA.

le monde pandemia

No caso brasileiro, o artigo assinado pelos professores Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo, Campus Avançado Tupã (SP),  e Lindberg Nascimento Júnior do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina, teve como foco o papel jogado pelos frigoríficos no espalhamento da COVID-19 na região Sul do Brasil, onde ficou patente uma clara sincronia entre a presença dos abatedouros e o grau de disseminação da pandemia (ver figura abaixo).

le monde covid frigorificos

Os professores Heck e Nascimento Junior mostram que ao impedir o isolamento social dos seus trabalhadores, os frigoríficos impuseram a difusão da pandemia não apenas nos municípios sede, mas também nas regiões de entorno, onde parte dos seus contratados reside.  Somado a esse padrão geográfico, os pesquisadores mostram que as condições de alta precariedade em que o trabalho dentro dos frigoríficos ocorre contribui de forma direta para o adoecimento dos seus empregados, bem como das famílias destes.

Já o artigo assinado pelos professores Larissa Bombardi do Departamento de Geografia da USP,  Immo Fiebrig, professor associado honorário da Escola de Biociências a Universidade de Nottingham na Inglaterra, e Pablo Luiz Maia Nepomuceno do Departamento de Geografia da USP.  Em seu artigo, os três pesquisadores abordaram  a possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por COVID-19 nos EUA. Essa investigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus, já que as plantas industriais onde ocorre o abate de animais teriam se transformado em hotspots de disseminação do SAR-Cov-2. 

Ao relacionar a presença de grandes rebanhos de suínos com as plantas de abate, Bombardi e seus colegas confirmaram a existência de uma relação inequívoca   na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos EUA (ver figura abaixo).

le monde covid suinocultura

Bombardi e colegas argumentam que a transformação de porcos em uma mera “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e para o meio ambiente.  Por causa disso eles concluem que não é de se estranhar que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século.

Outros artigos também sinalizam a incompatibilidade do modelo de fazenda industrial com a manutenção de níveis aceitáveis de segurança alimentar, de condições de vida minimamente dignas para os animais, bem como a prevalência de condições adequadas para os trabalhadores da indústria da carne animal.  Um elemento que aparece de forma eloquente, por exemplo, no artigo assinado  pelo  doutor José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp. Em seu artigo, Ribeiro Junior coloca em xeque a falácia de que o “agronegócio mata a fome do mundo”. É que segundo dados levantados por , a pandemia pode ser responsável pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. em que pese os lucros fabulosos auferidos pelas corporações que controlam a produção e distribuição de alimentos no mundo.

Quem desejar acessar a íntegra da edição de janeiro de 2020 do Le Monde Diplomatique Brasil, basta clicar [Aqui!]. 

Fim do auxílio emergencial em meio à avanço da pandemia equivale a jogar fósforo aceso na gasolina

bolso nero

Com o anunciado fim do chamado “Auxílio Emergencial, em poucas semanas nem as maiores peripécias do presidente Jair Bolsonaro irão impedir que a dura realidade se instaura em milhões de lares brasileiros, onde faltarão os recursos necessários para colocar um pouco de comida na mesa.  Quem se dá ao trabalho de olhar o que está acontecendo nas ruas das cidades brasileiras com milhões de pessoas vagando em busca de comida não consegue entender como o governo Bolsonaro está cometendo um erro de cálculo político tão imenso, especialmente em um contexto de expansão da pandemia da COVID-19 que imporá uma redução na atividade econômica, jogando ainda mais pessoas em um já imenso exército de desempregados.

A resposta para esse aparente mistério está no apego do ministro Paulo Guedes a um receituário econômico que foi abandonado pela imensa maioria dos governos nacionais que, para combater a expansão da pandemia da COVID-19,  optou por destravar as torneiras dos recursos necessários par manter a suas respectivas populações com condições mínimas de sobrevivência. Em outras palavras, o fim do “Auxílio Emergencial” é uma consequência direta da manutenção da ortodoxia neoliberal pelo governo Bolsonaro. 

O presidente Bolsonaro, entre um mergulho em outro em praias ocupadas por seus apoiadores, sintetizou a disposição do seu governo com a singela frase “Toca a vida“.  A questão é que Bolsonaro sabe que dadas as condições estruturais da economia brasileira, não há como “tocar a vida”, a não ser que seja passando fome e sede.

O agravamento do cenário difícil que vivemos em 2020, e que jogará ainda mais brasileiros na condição de miséria extrema (o número inicialmente é de 15 milhões de pessoas), colocará uma pressão extraordinária sobre prefeitos e governadores. O problema é que estes também estão sendo pressionados a abraçar as mesmas políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes. Como governadores e prefeitos se comportarão ainda é um mistério, mas suponho que as eventuais resistências serão pontuais, e a maioria optará por apertar as contas para alcançar um impossível equilíbrio das contas públicas, optando por restringir gastos com políticas sociais.

Todo esse cenário disparado pelo fim do pagamento do “Auxílio Emergencial” acabará mostrando rapidamente o seu potencial de gerar uma forte explosão social nas principais cidades brasileiras. E que ninguém venha depois alegar algum tipo de surpresa, pois a decisão de jogar fósforo aceso em gasolina foi anunciada publicamente e adotada sem maiores resistências.

Geraldo Venâncio, o sortudo, caiu antes de subir

geraldoAo defender medidas de lockdown para conter a pandemia da COVID-19, o médico Geraldo Venâncio tornou-se uma espécie de “Viúva Porcina” da nova administração municipal ao deixar de ser, sem nunca ter sido. Mas esta condição poderá se mostrar rapidamente um momento de imensa sorte

Li com pouca surpresa a informação de que o experiente Geraldo Venâncio acabou não sendo nomeado para ser o secretário municipal de Saúde no governo de Wladimir Garotinho (PSD).  Apesar das justificativas educadas do sempre educado Dr. Venâncio, não posso deixar de desconfiar que a sua defesa da adoção cientificamente lógica e racional de uma forma mais rígida de isolamento social para conter a expansão da COVID-19 acabou lhe custando  a nomeação.

Mas dada a flagrante onda de irresponsabilidade coletiva que grassa em certos segmentos da sociedade campista, que tendo rendido cenas dantescas de aglomeração em meio à expansão de uma pandemia letal, eu fico com a impressão de que cair antes de subir vai acabar se provando um bafejo de imensa sorte do Dr. Geraldo Venâncio. É que a História não é conhecida por ser clemente com aqueles que podendo conter o espalhamento de doenças letais, optam pelo caminho contrário.

Em tempo: conversando há alguns dias com a minha irmã que é servidora pública lotada na secretaria municipal de Saúde em minha cidade natal, ela me expressou alegria em ter alguém com experiência na área da saúde assumindo o posto de secretários, em vez de um estranho vindo da área da administração de empresas como ocorreu há alguns anos atrás. É que segundo ela, a experiência com um administrador de empresas em um lugar em que a saúde humana deve ser priorizada ficou longe de dar certo.

Aí é que eu fico com a impressão de que Geraldo Venâncio está sendo ainda mais sortudo ao se livrar das pressões que certamente ocorrerão para se priorizar a gestão focada nas relações de custo/benefício em vez do necessário foco na gestão primária da saúde, impedindo com isso a necessidade de se gastar com remédios. Por isso mesmo é que tem horas que cair é melhor do que subir.

Governo Bolsonaro e sua agenda tóxica resultaram na liberação recorde de 945 agrotóxicos no biênio 2019-2021

comida agrotóxicos

Se está patinando em adquirir até insumos básicos para viabilizar a vacinação da população brasileira para debelar a pandemia da COVID-19, em seus dois anos de existência o governo Bolsonaro fez a alegria dos fabricantes de venenos agrícolas. É que fechado o ano de 2020, podemos contabilizar a liberação de 945 agrotóxicos (ver planilha completa Aqui!), muitos deles de alta periculosidade para a saúde humana e o meio ambiente (incluindo águas e solos).

Já ressaltei em postagens anteriores o claro cinismo que marca a atitude do presidente Jair Bolsonaro em face do uso da Coronavac, vacina produzida e comercializada pela empresa chinesa Sinovac. É que todas as vacinas já desenvolvidas por outras empresas dependem de insumos produzidos na China para poderem ser produzidas e vendidas a preços relativamente mais altos do que a da Sinovac.  Além disso, como já demonstrado ao longo de 2020, uma parcela significativa dos agrotóxicos liberados nos dois anos de governo Bolsonaro são produzidos exclusivamente na China, sem que se ouça qualquer menção do presidente ou de algum dos seus filhos sobre o processo de envenenamento dos brasileiros pelos “agrotóxicos chineses”.

Mas é preciso reconhecer que um dos grandes méritos da máquina de propaganda do governo Bolsonaro é desviar a atenção dos assuntos que realmente interessam e inocular elementos paliativos e insignificantes na narrativa que molda a agenda política brasileira. 

Um dos complicadores do debate acerca do debate necessário sobre o grave risco que o uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos altamente tóxicos pelos grandes latifundiários que controlam a pauta de exportação brasileira é que os partidos da esquerda institucional, mormente o PT, aparentemente não veem isso como um problema.  A única exceção significativa nessa situação de aprovação tácita de um modelo de agricultura envenenada é o PSOL cuja atuação resultou em 2016 na apresentação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (a ADI 553) que questiona as imorais isenções fiscais dadas aos fabricantes de venenos agrícolas. Mas a falta de uma maior capacidade de mobilização política em torno da questão vem permitindo que a ADI 553 tramite na velocidade de um cágado de pata quebrada, permitindo que o Tsunami de aprovações de agrotóxicos gere bilhões de reais em lucros para as corporações que fabricam agrotóxicos.

O estudo aqui divulgado em que são demonstradas alterações no DNA de trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos durante suas atividades profissionais em Goiás é apenas a ponta do iceberg de problemas infringidos à saúde humana no Brasil. Antecipo que apesar de todas as dificuldades de financiamento à pesquisa científica, ainda iremos ver emergindo evidências cientificamente corroboradas de outros distúrbios causados à saúde dos brasileiros por causa da exposição direta ou indireta a agrotóxicos, muitos deles banidos em seus países de origem, incluindo a China que hoje domina o fornecimento de venenos agrícolas no nosso país (um exemplo disso é o herbicida Paraquate que apesar de oficialmente banido continua sendo usado no Brasil em função de estratégias legais usadas pelos representantes do setor produtor de venenos agrícolas e associações que defendem os interesses do latifúndio agroexportador).

Também prevejo que veremos a continuidade da aprovação expedita de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro em 2021. Por isso mesmo, a partir do “Observatório dos Agrotóxicos”, o “Blog do Pedlowski” continuará documentado as aprovações e oferecendo as principais informações contidas nos atos oficiais de liberação de mais produtos para um mercado ambicionado pelas grandes corporações multinacionais. Apesar de trabalhoso, essa ação será continuada porque a última coisa que podemos nos permitir enquanto durar o governo Bolsonaro é o direito à ignorância.

Sem vacinação contra a COVID-19, Brasil ficará ilhado até na América do Sul

maduro bolso

A informação de que o  governo de Nicolás Maduro acaba de firmar um convênio com a Rússia para adquirir a vacina Sputnik V em número suficiente para imunizar 10 milhões de seus habitantes (o país caribenho possui uma população total de 32 milhões) é mais um sinal de que o Brasil corre o sério risco de ficar isolado não apenas do resto do mundo, mas também da América do Sul.

É que além da Venezuela já começaram o processo de vacinação a Argentina e o Chile, sendo que o governo de Alberto Fernandez já sinalizou que irá compartilhar seu estoque de vacinas com a Bolívia e o Uruguai, no que representa uma espécie de diplomacia da vacina.

Enquanto isso, o governo Bolsonaro está atolado num pântano onde estão misturados negacionismo científico e incompetência não apenas para assegurar a compra de vacinas, mas também das seringas necessárias para aplicá-las quando estas estiverem finalmente disponíveis para uso em território nacional. A situação brasileira é ímpar e especialmente problemática, na medida em que possuímos uma das maiores populações do mundo, mas estamos sob o tacão de um governo que mostra completo desrespeito pela segurança sanitária dos brasileiros.

O primeiro resultado desse descompasso será a manutenção do número de infecções e mortes pela COVID-19 em números altíssimos.  Com mais de 7,5 milhões de infectados e 192 mil mortos, a ausência de uma processo nacional de vacinação o Brasil deverá se manter virtualmente paralisado, e com grandes possibilidades de vivenciar uma forte crise social, caso seja mantida a decisão de encerrar o pagamento do chamado “auxílio emergencial” pelo governo federal a partir de janeiro.

Outro resultado inevitável será a proibição da circulação de brasileiros fora das fronteiras nacionais, visto que com o avanço do processo de vacinação na maioria dos países, qualquer país que não vacinar seus cidadãos será alvo de proibição para viagens e até a realização de trocas comerciais. A suspensão temporária da autorização para a entrada de turistas brasileiros pelo governo da Argentina é apenas a primeira de muitas que deverão ocorrer até que a vacinação em massa alcance a maioria dos brasileiros. 

O impressionante é que nada disso parece empurrar o governo do presidente Jair Bolsonaro a adotar uma postura mais célere na compra de vacinas e na adoção de medidas que impeçam a transformação da crise sanitária em um processo de convulsão social aberta.

Mas consigo visualizar pelo menos uma coisa boa nessa situação trágica. O brasileiro médio, especialmente aqueles segmentos bolsonaristas, terá que pensar duas vezes antes de levantar o nariz pedante para nossos vizinhos sul americanos. É que está ficando mais do que patente que estamos ficando para trás em termos de capacidade de mobilizar nossas forças institucionais para fazer o básico, no caso a vacinação contra a COVID-19. 

Ao adiar o lockdown inevitável, novo governo municipal garante colapso da saúde e o aumento de corpos esperando enterro

valasValas coletivas são abertas em Manaus para dar vazão à demandas de enterros dos mortos pela COVID-19

Não é preciso ser nenhum infectologista famoso para se saber que a fragilização das medidas de isolamento social e o atraso no processo de vacinação acarretarão um aumento exponencial no número de infectados e de óbitos pela COVID-19. É que largada à mercê da própria sorte, a maioria da população resolveu ligar o famoso “fod….-se” e se colocou de peito aberto (e sem máscara) para o coronavírus. O resultado dessa combinação de inépcia governamental e falta de auto cuidado por parte da população será visto já no mês de janeiro, com as expectativas sendo as mais sombrias.

Por causa do cenário traçado acima, considero que o novo governo municipal de Campos dos Goytacazes comete um erro gravíssimo ao adiar um lockdown que será inevitável dada o espalhamento exponencial do SARS-Cov-2 em meio aos festejos de final de ano.

Além disso, me parece emblemático que o anúncio da postergação de uma medida que será inevitável em poucas semanas tenha se dado na sede da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic). É que os comerciantes de Campos dos Goytacazes têm sido de uma insensibilidade social atroz ao pressionar pela retomada de uma normalidade que se sabe impossível, na medida em que o governo liderado por Jair Bolsonaro sabota todos as possibilidades de conter a expansão da pandemia.

Melhor faria o prefeito Wladimir Garotinho se ouvisse seu próprio secretário de Saúde, Geraldo Venâncio, que teve a rara coragem de defender o aperto nas medidas de isolamento social para conter a pandemia. É que dada a situação de catástrofe em que receberá as contas municipais, coragem teria de ser a principal do governo que se inicia. E não há nada menos corajoso neste momento até a Acic para anunciar que o inevitável terá que esperar sabe-se lá até quando. Provavelmente até que os cemitérios de Campos dos Goytacazes tenham fila de espera para se enterrar os mortos da pandemia ou que as várias lojas funerárias fiquem sem estoque, como já voltou a ocorrer em Manaus (ver vídeo abaixo).

Mas voltando ao futuro secretário municipal de Saúde, Geraldo Venâncio, eu só posso imaginar a saia curta em que ele se encontra neste momento: aplicar os critérios científicos que demandam a imposição imediato do lockdown ou seguir a vontade dos membros da Acic e da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).  Dr. Geraldo Venâncio, fique com a ciência, pois o julgamento da História será terrível para quem ignorar o que os cientistas já demonstraram serem os melhores caminhos neste pandemia letal.

Finalmente, aos leitores deste blog, peço encarecidamente que todos adotem suas medidas de isolamento social e utilizem as medidas de profilaxia básica que envolvem o uso de máscaras faciais e de asseio pessoal. Na falta do Estado que sobre a conscientização coletiva.

Nem quase 200 mil mortos pela COVID-19 interrompem o “Neymarpalooza”

Neymar-basquete

O Brasil conta hoje com mais de 191 mil mortes causadas pela COVID-19, podendo chegar a 200 mil ainda na primeira semana de 2021. Enquanto isso, o jogador de futebol do Paris Saint Germain, Neymar Junior, promove uma festa de arromba no município de Mangaratiba com a participação de 150 a 500 convidados. O evento é tão bem estruturado que já ganhou o apelido de “Neymarpalooza”.  Para evitar que as imagens do que acontecer do evento não vazem rapidamente para a internet “on time” haverá o recolhimento de telefones celulares. Também circula a informação de que um espaço acusticamente isolado foi construído para evitar que os vizinhos da sede do “Neymarpalooza” se sintam incomodados.  

Em um país com um mínimo de regramento social, essa festa macabra resultaria no banimento de Neymar Junior da seleção nacional de futebol, além da perda de patrocinadores importantes.  Mas como estamos no Brasil, Neymar Junior não deve estar nenhum pouco preocupado com eventuais punições, mesmo porque ele deverá arrastar outros membros da seleção brasileira para o evento.

A verdade é que em um país onde o que vale é o montante de dinheiro que a pessoa possui em suas contas bancárias, não há mesmo com que Neymar Junior se preocupar, pois está “tudo dominado”.  Além disso, como Neymar é um apoiador conhecido do presidente Jair Bolsonaro, eu não me surpreenderia se o próprio chefe do executivo federal e seus filhos dessem uma passada no “Neymarpalooza”. Afinal, para eles está tudo “normal” e “dominado”.

Agora, convenhamos, aos que ainda possuem um pouco de responsabilidade em relação ao que está acontecendo no Brasil neste momento, a simples existência do “Neymarpalooza” enquanto milhares de famílias sequer podem se despedir dos seus mortos é uma demonstração de que as coisas no nosso país estão muito fora do lugar, como, aliás, sempre estiveram desde que os portugueses primeiro aportaram nas costas da Bahia. O problema é que, neste evento, os participantes estarão literalmente sambando sobre uma montanha de mortos.

E depois ainda tem gente que ainda não entendeu como foi o possível o Brasil perder de 7 a 1 para a Alemanha. Basta olhar para o que andam fazendo os profissionais do futebol alemão nestes dias pandêmicos e veremos a explicação do massacre germânico em pleno Mineirão. 

Nova cepa de SARS-CoV-2 identificada no Rio de Janeiro

A nova cepa é resultado de cinco mutações na variante que já circulava no Brasil no início do ano. Além disso, como a cepa recém-descoberta no Reino Unido, uma mutação chamada E484K foi observada no domínio de ligação ao receptor da proteína Spike.

“Mas não há motivo para pânico”, disse à SciDev.Net Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, líder do estudo e pesquisadora do Laboratório de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

“Não há evidências de que essa cepa seja mais transmissível do que a outra variante ou que possa interferir na eficácia das vacinas que estão sendo desenvolvidas ”, afirmou.

Os pesquisadores do LNCC sequenciaram 180 genomas SARS-CoV-2 de amostras do estado do Rio de Janeiro e analisaram os resultados em colaboração com o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Secretarias de Saúde de Maricá e de Rio de Janeiro e também o Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels. Dessas amostras, 38 apresentavam as mutações.

Segundo Vasconcelos, o surgimento dessa nova cepa ocorreu em julho de 2020 e foi identificado principalmente nas cidades do Rio de Janeiro, Cabo Frio, Niterói e Caxias. “Por outro lado, a cepa anterior, chamada B.1.1.33, está em declínio”, relatou.

“Esses estudos demonstram a importância de monitorar os genomas circulantes com a maior freqüência e abrangência possível.”

Fernando Spilki, Sociedade Brasileira de Virologia

O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

“Esses estudos demonstram a importância da vigilância dos genomas circulantes da maneira mais frequente e completa possível”, disse Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, que não fez parte da pesquisa , ao SciDev.Net . Segundo ele, “isso ajuda a avaliar ações e preparar o sistema de saúde , diagnóstico e até vacinas para possíveis desafios futuros”.

O Brasil é um dos epicentros da COVID-19 , com o terceiro maior número de casos da doença no mundo, cerca de 7,3 milhões e quase 188 mil mortes, atrás apenas dos Estados Unidos.

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Este artigo foi publicado inicialmente pela SciDev [Aqui!].

Deu no New York Times! ‘Brincando com Vidas’: o Plano de Vacinação da COVID-19 do Brasil está mergulhado no caos

Lutas políticas internas, planejamento aleatório e um crescente movimento antivacinas transformaram o país em um conto de advertência na era do coronavírus

Victor Moriyama para o The New York Times

Ernesto LondoñoManuela Andreoni e 

RIO DE JANEIRO – Enquanto os países se apressavam em seus preparativos para inocular cidadãos contra o coronavírus, o Brasil, com seu programa de imunização mundialmente conhecido e uma robusta capacidade de fabricação de medicamentos, deveria ter levado uma vantagem significativa.

Mas lutas políticas internas, planejamento aleatório e um movimento antivacinas nascente deixaram o país, que sofreu o segundo maior número de mortes da pandemia, sem um programa de vacinação claro. Seus cidadãos agora não têm noção de quando podem obter alívio de um vírus que colocou o sistema de saúde pública de joelhos e esmagou a economia.

“Eles estão brincando com vidas”, disse Denise Garrett , epidemiologista brasileiro-americano do Sabin Vaccine Institute, que trabalha para expandir o acesso às vacinas. “É quase um crime.”

Os especialistas tinham esperança de que a capacidade de imunização do Brasil poderia permitir que ele lidasse com o fim da pandemia melhor do que com o início.

 

 Logo depois que a COVID-19 foi identificada pela primeira vez no país em fevereiro, o Brasil se tornou um epicentro da crise global de saúde. O presidente Jair Bolsonaro rejeitou as evidências científicas, chamou o vírus de um resfriado “miserável” que não justificava o fechamento da maior economia da região e repreendeu os governadores que impuseram medidas de quarentena e fechamento de empresas.

À medida que os esforços de vacinação estão em andamento na Grã – Bretanha nos Estados Unidos , dando às suas populações a chance de começar a imaginar uma vida pós-pandemia, o momento encontrou as autoridades brasileiras mais uma vez despreparadas e atoladas em fortes disputas sobre a política de vacinas.

Uma manifestação no mês passado contra a vacina Sinovac em São Paulo.Amanda Perobelli / Reuters

O Ministério da Saúde apresentou na semana passada um plano de vacinação em resposta a uma ordem do Supremo Tribunal Federal. O plano estabelecia a ordem em que os grupos vulneráveis ​​seriam vacinados, mas faltava um cronograma detalhado e uma estimativa clara de quantas doses estarão disponíveis. O ministério já havia informado que pretendia iniciar a campanha de vacinação em março.

Dias após o anúncio, o Ministério da Saúde ainda estava lutando para fazer pedidos a fornecedores de vacinas sobrecarregados. Funcionários do ministério também enfrentaram dúvidas sobre por que o país não tinha seringas e frascos suficientes para embarcar na ambiciosa campanha de vacinação, necessária para cobrir um país com 210 milhões de habitantes, onde mais de 180.000 sucumbiram ao vírus.

Além disso, a Anvisa, agência reguladora da saúde no Brasil, ainda não aprovou nenhuma vacina contra o coronavírus para uso geral.

“As pessoas vão entrar em pânico se o Brasil continuar atrasado em ter um plano, uma estratégia clara e objetiva”, disse Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, no dia 7 de dezembro, alertando que o Congresso tomará as rédeas do processo se o ramo executivo continuou a tatear.

O governador João Doria de São Paulo, centro, e autoridades de saúde com uma embalagem da vacina CoronaVac após sua chegada da China neste mês.Nelson Almeida / Agence France-Presse – Getty Images

A discussão sobre o acesso e a segurança da vacina também se tornou envolvida em uma disputa partidária.

Bolsonaro criticou repetidamente a vacina CoronaVac, que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech, e rejeitou o plano de seu ministério da saúde de comprar 46 milhões de doses.

Em vez disso, o governo confiou na vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, que está atrasada na corrida para receber a aprovação dos reguladores de saúde.

A cruzada do presidente contra a vacina chinesa criou uma oportunidade política de ouro para um de seus principais rivais políticos, João Doria, o governador do estado de São Paulo. Doria negociou diretamente com os chineses as doses da vacina, que está sendo desenvolvida em parceria com o centro de pesquisas do Butantan, de São Paulo.

Doria disse que as autoridades estaduais não podiam esperar que o governo federal, que passou por três ministros da saúde ao longo da pandemia, agisse em conjunto.

“Não podemos esperar até março para começar a usar uma vacina que pode ser usada em janeiro”, disse ele em entrevista. “Há um consenso no estado de São Paulo e em outros estados de que a espera representa um grande risco para a população, afetando as taxas de mortalidade e o sistema público de saúde.”

Doria prometeu a seus constituintes na semana passada que São Paulo pretende começar a vacinar as pessoas no final de janeiro – uma promessa que depende da aprovação dos reguladores federais, que ainda não receberam os resultados finais dos estudos sobre a eficácia e segurança da vacina.

O gabinete do presidente condenou o plano de Doria de começar a vacinar as pessoas em janeiro, chamando-o de “populismo barato e irresponsável”.

A briga cada vez mais acirrada entre Doria, que deve concorrer à presidência em 2022, e o governo federal politizou perigosamente os planos de vacinação no Brasil.

Carla Domingues , epidemiologista que dirigia o programa de imunização do Brasil até o ano passado, lamentou que a vacina contra o coronavírus tenha se tornado uma questão partidária.

“Isso nunca aconteceu nos esforços de imunização”, disse ela. “Isso vai deixar as pessoas confusas. É surreal. ”

Vários governadores convergiram na capital, Brasília , na semana passada para se reunir com o ministro da Saúde e exigir um plano nacional de imunização. Um grupo que representa os governos municipais, a Federação Nacional de Municípios, também emitiu um comunicado pedindo ao governo federal que compre e distribua “todas as vacinas reconhecidas como eficazes e seguras contra a COVID-19”.

Alguns governadores, inclusive nos estados do Paraná e da Bahia, o segundo localizado na região Nordeste do Brasil, começaram a tentar obter e, por fim, produzir doses da vacina Sputnik V de fabricação russa.

Testando a vacina contra o coronavírus Sputnik V da Rússia em uma clínica em Moscou.  Alguns estados brasileiros têm interesse em adquirir a vacina.Sergey Ponomarev para The New York Times

Carlos Lula, presidente do conselho nacional de secretários de saúde, disse que a onda de diplomacia e negociação de vacinas em nível estadual foi surpreendente em um país que passou décadas construindo um dos programas de imunização mais respeitados no mundo em desenvolvimento.

“É um orgulho para o país porque se tornou um modelo para outras nações”, disse ele. “Ainda assim, de repente, não podemos lidar com as tarefas que são o mínimo.”

Mesmo quando os desafios de abastecimento e logística forem superados, especialistas em saúde dizem que o Brasil enfrentará um novo problema: um crescente movimento antivacinação que, segundo eles, o presidente e seus aliados alimentaram com falsidades.

Roberto Jefferson, um ex-deputado que apóia o presidente, afirmou no início deste mês em uma mensagem no Twitter que “os globalistas estavam preparando uma vacina para mudar nosso DNA”.

A mensagem , que foi retuitada mais de 3.000 vezes, afirmava que Bill Gates, o bilionário e filantropo americano, estava por trás de um esquema “genocida” para “matar milhões de pessoas e substituir nosso DNA pela marca da besta”, uma referência ao o diabo.

O crescente movimento antivacinas levou alguns governadores, incluindo Doria, a defender a obrigatoriedade de certas vacinações.

Bia Kicis, legisladora que é uma das principais representantes de Bolsonaro, argumentou que as vacinações contra o coronavírus não deveriam ser obrigatórias porque são “experimentais” e podem alterar o DNA das pessoas. Os especialistas em vacinas consideram as afirmações infundadas.

Bolsonaro disse que as vacinas deveriam ser obrigatórias apenas para cães.

Embora as vacinas nunca tenham sido obrigatórias para adultos no Brasil, sua eficácia e segurança nunca foram amplamente questionadas.

Uma pesquisa divulgada no fim de semana pelo Datafolha, um conceituado instituto de pesquisa de opinião pública brasileira, descobriu que 22% dos entrevistados disseram não ter a intenção de receber a vacina contra o coronavírus, ante 9% em agosto.

A questão está agora no Supremo Tribunal Federal, que neste mês está ouvindo dois casos que poderiam dar às autoridades de saúde a autoridade para tornar certas vacinas obrigatórias.

A Dra. Garrett, do Instituto Sabin, estudou a ascensão do movimento antivacinação nos Estados Unidos, onde trabalhou por duas décadas nos Centros de Controle de Doenças. Ela disse que temia há muito tempo que o movimento encontrasse um ponto de apoio no Brasil, mas ficou consternada com a velocidade e intensidade de sua ascensão na era Bolsonaro.

“Isso encorajou os antivaxxers no Brasil a se apresentarem antes do que deveriam”, disse ela. “Eles têm poder e têm uma voz alta.”

Ernesto Londoño e Manuela Andreoni reportaram do Rio de Janeiro e Letícia Casado de Brasília.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The New York Times” [Aqui!].

Jânio de Freitas vaticina que sem o impeachment de Bolsonaro, o Brasil pode estar se transformando em “um país no finalzinho”

A conduta na balbúrdia da vacina basta para justificar impeachment de Bolsonaro Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto

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Por Janio de Freitas, jornalista

É impossível imaginar o que falta ainda para a única providência que salve vidas —quantas, senão muitos milhares?— da sanha mortífera de Jair Bolsonaro. Mas não é preciso imaginar a indecência da combinação de “elites” e políticos, para ver o que e quem concede liberdade homicida em troca de ganhos.

Pessoas com autoridade formal para o conceito que têm emitido, além de suas respeitabilidades, como o jurista Oscar Vilhena Vieira, o ex-ministro da Justiça e criminalista José Carlos Dias e o médico Celso Ferreira Ramos Filho, presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, entre outros altos quilates, têm qualificado com clareza e destemor a anti-ação de Bolsonaro e seus militares na mortalidade pandêmica.  Crime, criminoso (os), organização familiar criminosa, homicidas, desumanidade —são algumas das palavras e expressões aplicadas ao que é feito contra a vida. Contra o próprio país, portanto.

A conduta da Presidência e de seus auxiliares na Saúde, na balbúrdia da vacina, basta para justificar o processo de interdição ou de impeachment, sem precisar dos anteriores crimes de responsabilidade e outros cometidos por Bolsonaro e pelo relapso general Eduardo Pazuello. Nem se sabe mais o número de requerimentos para processo de impeachment apresentados à Câmara. Sobre eles, Rodrigo Maia, presidente da casa. Lançou uma sentença sucinta: “Não há agora exame de impeachment nem vai haver depois”.

Nítido abuso de poder, nessa recusa a priori. É dever do presidente da Câmara o exame de tais requerimentos, daí resultando o envio justificado para arquivamento ou para discussão em comissões técnicas. Rodrigo Maia jamais explicou sua atitude. Daí se deduz que não lhe convém fazê-lo, com duas hipóteses preliminares: repele a possível entrega da Presidência ao vice Mourão ou considera a iniciativa inconveniente a eventual candidatura sua a presidente em 2022.

Seja como for, Rodrigo Maia macula sua condução da Câmara, bastante digna em outros aspectos, e se associa à continuidade do desmando igualado ao crime de índole medieval. Os constituintes construíram um percurso difícil e longo para o processo de impeachment, e que assim desestimulasse sua frequência. Mas deixaram com um só político o poder de consentir ou não na abertura do processo. Fácil via para o abuso do poder. E sem alternativa para o restante do país, mesmo na dupla calamidade de uma pandemia letal e um governo que a propaga.

Há denúncias protocolares da situação por entidades, não muitas, e por um número também baixo de pessoas tocadas, de algum modo, pelo senso de responsabilidade, a inquietação, a dor. Movimento para que os genocidas vocacionais sejam enfrentados, nenhum. As camadas sociais que continuam tranquilas com seus rendimentos são, entende-se, as que podem manipular os ânimos públicos. São também as que têm mais noção do que se passa, mas sem que isso atenue o seu egoísmo e desprezo pelas camadas abaixo. Assim, não há reação ao duplo ataque. Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto.

Mas nem com esse aspecto, ou essa realidade, precisaria descer tão baixo na imoralidade. Sobrassem alguns resquícios de decência nas classes que, a rigor, são o poder no Brasil, a descoberta de que a Abin, a abjeta Agência Nacional de Informação, foi mobilizada para ajudar Flávio Bolsonaro no processo criminal da rachadinha” criaria alguma indignação. E levaria ao pronto afastamento de todos os beneficiários e comprometidos com esse crime contra a Constituição, as instituições, os trâmites da Justiça e a população em geral.

O general Augusto Heleno Pereira negou a revelação da revista Época. É um velho mentiroso. Isso está provado desde os anos 90, quando me escreveu uma carta negando sua suspeita ligação com Nicolau dos Santos Neto, o juiz da alta corrupção no TRT paulista. Tive provas documentais para desmenti-lo. Estava então no Planalto de Fernando Henrique. Com Bolsonaro, além de desviar a Abin em comum com Alexandre Ramagem, que a dirige, Augusto Heleno já esteve em reuniões com os advogados de Flávio, que é agora quem o desmente.

Ramagem, por sua vez, é o delegado que Bolsonaro quis na direção da Polícia Federal, causando a saída de Sérgio Moro do governo. Fica demonstrado, portanto, pelas figuras de Augusto Heleno e Ramagem no desvio de finalidade da Abin, que Bolsonaro tentou controlar a PF para usá-la na defesa de Flávio, de si mesmo, de Carlos, de Michelle, de Fabrício Queiroz e sua mulher Márcia e demais componentes do grupo.

Se nem essa corrupção institucional levar à retirada de toda a corja, será forçoso reconhecer um finalzinho. Não dá pandemia, como disse Bolsonaro. Do Brasil, mesmo.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Folha de São Paulo [Aqui!].