Epidemia de COVID-19 avança de forma heterogênea e ainda sem controle no Brasil

epicovid 2Conclusão é de estudo conduzido por pesquisadores do Imperial College London e apresentado em seminário on-line organizado pela FAPESP. Maior inquérito sorológico realizado no país também aponta discrepância entre estados e que casos reais da doença superam em sete vezes os notificados (imagem:Pixabay)

Por Karina Toledo  para Agência FAPESP

A quarentena decretada em março por prefeitos e governadores de todas as regiões brasileiras promoveu uma queda substancial na taxa de contágio do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Mas, ao contrário do observado em países asiáticos e europeus que também adotaram medidas de isolamento social, o achatamento da curva epidemiológica no Brasil não foi suficiente para fazer o número de casos e de mortes por COVID-19 parar de crescer.

Segundo estimativa feita por pesquisadores do Imperial College London (Reino Unido), no final de fevereiro, o número de reprodução (Rt) do SARS-CoV-2 em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estava entre 3 e 4. Isso significa que, nesses locais, cada indivíduo infectado transmitia o vírus para mais de três pessoas em média, fazendo a epidemia avançar rapidamente. No início de maio, estima-se que o Rt havia caído para valores entre 1 e 2.

“Houve uma redução acentuada na intensidade da transmissão, o que significa que o isolamento social ajudou a salvar muitas vidas e das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Mas em nenhum estado o Rt caiu abaixo de 1. E somente quando isso ocorrer poderemos dizer que a epidemia está sob controle. O número de infecções diárias cairá significativamente, seguido pelo número de mortes”, disse Thomas Mellan, primeiro autor de um estudo que buscou descrever a evolução da COVID-19 em 16 estados brasileiros por meio de modelagem matemática. Ainda em versão preprint (sem revisão por pares), o artigo foi postado na plataforma medRxiv em 18 de maio.

Na avaliação do pesquisador, a adesão insuficiente da população ao isolamento social parece ser um dos fatores que explicam a menor eficácia dessa “intervenção não farmacológica” na contenção da doença no Brasil. “O motivo exato não está claro, mas ao analisar o Relatório de Mobilidade Comunitária do Google [baseado em dados de localização de usuários em 131 países] observamos que a redução da mobilidade da população brasileira durante a quarentena é menor do que a registrada na maioria dos países europeus”, contou Mellan à Agência FAPESP.

Alternativas metodológicas

A metodologia do estudo foi apresentada por Mellan e por seu colega do Imperial College London Samir Bhat no dia 21 de maio, durante o webinar “COVID-19 – Epidemiological monitoring and measurement of infectivity rates in key countries”, organizado pela FAPESP e transmitido ao vivo pelo canal da Agência FAPESP no Youtube.

Na ocasião, Bhat explicou que o objetivo do trabalho foi estimar a taxa de ataque (número de pessoas infectadas) e o Rt do novo coronavírus no Brasil, usando como referência o número de mortes por COVID-19 confirmado pelo Ministério da Saúde.

“Há várias estratégias para determinar esses indicadores epidemiológicos: vigilância populacional de infecções [testagem em larga escala para detectar casos sintomáticos e assintomáticos], análises genéticas [inferir o Rt com base em linhagens virais sequenciadas], inquéritos de soroprevalência [avaliar por amostragem o porcentual da população que tem anticorpos contra o vírus], estimar com base no número de casos reportados [método fortemente influenciado pela quantidade de testes realizados no local] ou estimar a partir do número reportado de mortes, que julgamos ser a forma mais segura para países como o Brasil, mas não é livre de erro”, ponderou Bhat.

Os resultados do estudo britânico indicam que cinco estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas – concentram 81% das mortes relatadas até o momento no país. Estima-se que, nesses locais, a porcentagem de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 varie de 3,3% (com intervalo de confiança de 95%, podendo variar de 2,8% a 3,7%) em São Paulo para 10,6% (de 8,8% a 12,1%) no Amazonas. O estado com a segunda maior taxa de ataque foi o Pará (5,05%), seguido por Ceará (4,46%) e Rio de Janeiro (3,35%). Entre os 16 estados estudados, Minas Gerais apresentou menor proporção de infectados (0,13%), seguido por Santa Catarina (0,23%) e Paraná (0,25%).

Considerando a margem de erro da pesquisa, os números estimados pelo grupo do Imperial College London para São Paulo e Paraná estão próximos do encontrado nas capitais desses estados por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) na primeira fase do estudo EPICOVID19-BR: 3,1% na cidade de São Paulo e 12,5% em Manaus (AM). Realizado entre os dias 14 e 21 de maio, o inquérito sorológico abrangeu coleta e análise de amostras de sangue de mais de 25 mil pessoas, em 133 cidades. O objetivo foi calcular o porcentual da população que já desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2. O trabalho foi coordenado pelo reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, que foi um dos palestrantes do seminário on-line promovido pela FAPESP na semana passada.

Nas principais cidades do Pará, o estudo apontou que o índice de infectados chega a 24,8% na cidade de Breves, 15,4% em Castanhal e 15,1% na capital Belém. Em Tefé, município do interior do Amazonas, a taxa de soroprevalência foi de quase 20%.

No conjunto das 90 cidades em que o grupo do EPICOVID19-BR conseguiu testar mais de 200 pessoas (número mínimo para fazer as análises), a taxa de soroprevalência foi estimada em 1,4%, podendo variar de 1,3% a 1,6% pela margem de erro da pesquisa. Segundo os autores, os resultados não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde. De qualquer modo, a comparação dos números estimados pelo grupo da UFPel e os números oficiais do Ministério da Saúde aponta que, para cada caso confirmado de COVID-19 nesses municípios, existem sete casos reais na população.

Várias epidemias em uma

Os resultados do EPICOVID19-BR indicam que a região Centro-Oeste é a menos afetada do país até o momento. Nenhum teste positivo foi registrado nas nove cidades estudadas, embora já existam casos e óbitos notificados nesses locais. No Rio Grande do Sul, onde já foram concluídas, entre abril e maio, três ondas de testes sorológicos em nove cidades, a taxa de soroprevalência encontrada também foi baixa: variando entre 0,05% (primeira coleta) e 0,22% (terceira coleta).

A região Norte, por outro lado, tem hoje o cenário epidemiológico mais preocupante do país, segundo a pesquisa brasileira, abrigando 11 das 15 cidades com maior proporção de infectados.

A conclusão vai ao encontro dos resultados do modelo britânico, que mostram uma ampla heterogeneidade nas taxas de ataque dos estados estudados, sendo que as regiões Norte e Nordeste parecem estar em um estágio avançado da epidemia, que, em escala nacional, ainda pode ser considerada incipiente.

“Apesar dessa heterogeneidade, no entanto, em nenhum estado a imunidade de rebanho parece estar próxima de ser alcançada”, afirmam os pesquisadores do Imperial College, referindo-se à taxa necessária de infectados (estimada entre 60% e 70%) para que o vírus não consiga mais se propagar na população. “Dado o estágio inicial da epidemia no Brasil, há perspectiva de agravamento da situação caso outras medidas de controle não sejam implementadas”, concluiu o estudo.

Em busca de soluções

Além de Hallal e dos pesquisadores britânicos, o rol de palestrantes do seminário on-line contou com Cécile Viboud, pesquisadora do Centro Internacional Fogarty, vinculado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, e Michael Levitt, ex-professor da Universidade Stanford (Estados Unidos) hoje baseado em Israel e vencedor do Nobel de Química em 2013. A mediação foi feita pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rui Maciel.

“Este é o primeiro de uma série de seminários on-line que a FAPESP pretende promover na tentativa de contribuir para a busca de soluções contra a COVID-19, instigando cientistas nacionais e internacionais e trazendo à tona perguntas e discussões relevantes”, afirmou durante a abertura Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fundação.

Em sua apresentação, Viboud apresentou resultados de estudos de modelagem que buscaram avaliar o impacto de diversas intervenções adotadas no início de janeiro para conter a epidemia na China, principalmente nas cidades de Xangai e de Wuhan.

“Uma das primeiras coisas que nos interessamos foi quantificar as mudanças no número de reprodução. Inicialmente, vemos um período de rápido crescimento da epidemia, com Rt de 2,5. Após 23 de janeiro muitas intervenções foram feitas, incluindo forte distanciamento social, e o Rt cai rapidamente abaixo de 1, e assim permanece até agora”, contou a pesquisadora.

Já Levitt, que tem sido um crítico contundente das políticas de isolamento social, argumentou que, ao contrário do que sugerem os principais modelos epidemiológicos – entre eles o do Imperial College London –, a COVID-19 não cresce exponencialmente, ainda que nenhuma medida de contenção seja implementada.

“Este seria um fenômeno realmente aterrorizante, pois saltaríamos de três casos para 1 milhão em um período de duas semanas caso houvesse crescimento exponencial puro”, disse.

Após avaliar as informações sobre os casos confirmados na China, Levitt concluiu que a curva epidemiológica da doença segue o padrão da chamada curva de Gompertz ou função Gompertz, modelo matemático em que o crescimento é menor no começo e no fim do período temporal.

“Essa coisa toda sobre achatar a curva não tem sentido, pois a curva começa a se achatar sozinha desde o primeiro dia da epidemia”, argumentou.

Na avaliação de Hallal, de fato a taxa de crescimento de novos casos e de mortes começou a baixar em países como Itália, Espanha e Inglaterra bem antes de ser atingido o porcentual de infectados necessário para a imunidade de rebanho.

“Com as medidas de isolamento, o vírus acaba circulando menos e o número de pessoas suscetíveis que ele encontra não é tão grande. A boa notícia é que não é preciso haver tanta gente infectada para os casos começarem a cair. Por outro lado, como a maior parte da população ainda não tem imunidade, é bem provável que daqui a algum tempo venha outra onda da doença. Não podemos subestimar o valor do distanciamento social”, disse à Agência FAPESP.

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Este artigo foi originalmente publicado Revista Fapesp [Aqui!].

Live global reunirá Jane Fonda, Wagner Moura, Morgan Freeman, Maria Gadu, Peter Gabriel e Carlos Nobre em prol dos povos da Amazônia nesta quinta

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Amanhã, 28 de maio de 2020, Jane Fonda, Morgan Freeman, Carlos Santana, Peter Gabriel e vários outros artistas se unirão a líderes indígenas, cientistas e uma ampla coalizão de ONGs no Artists United for Amazonía: Protecting the Protectors, um evento global de duas horas, das 21:00 às 23:00 pelo horário de Brasília, com transmissão ao vivo via Facebook e artistsforamazonia.org

Produzido por Artists for Amazonía, o evento será apresentado pela ativista, atriz e co-estrela de “Game of Thrones” Oona Chaplin e promoverá o Fundo de Emergência da Amazônia, lançado no mês passado por uma coalizão de organizações indígenas, ONGs e aliados para responder às necessidades urgentes de povos indígenas da Amazônia ameaçados pela COVID-19. Os recursos arrecadados serão utilizados para prevenção e atendimento imediatos; alimentos e suprimentos médicos; comunicações de emergência e evacuação; proteção e segurança para territórios indígenas; e soberania alimentar e resiliência da comunidade. O Fundo de Emergência da Amazônia pretende arrecadar US﹩ 5 milhões nos próximos 60 dias para que os Guardiões da Floresta se protejam contra a pandemia nos nove países da Amazônia.

O Artists United for Amazonía terá uma mistura inspiradora de apresentações musicais na sala de estar, entrevistas informativas, sabedoria indígena e apelos à ação. Além de Jane Fonda, Carlos Santana, Morgan Freeman e Peter Gabriel, o evento terá participação dos cientistas Thomas Lovejoy e Carlos Nobre (que têm alertado sobre o ponto a partir do qual a floresta começa a se transformar em savana), Wagner Moura, Maria Gadu,Herbie Hancock, Rocky Dawuni, Butterscotch Clinton, Xiuhtezcatl Martinez, Cary Elwes, Alfre Woodard, Wade Davis e os vencedores do Grammy brasileiro Ivan Lins e Luciana Souza. A lista completa está aqui.

No momento, existem quase 120 mil casos confirmados de COVID-19 e mais de 6 mil mortes confirmadas na Amazônia. À medida que o novo coronavírus continua a se espalhar, os povos indígenas estão cada vez mais em risco e podem enfrentar um etnocídio em potencial. Os povos indígenas Achuar no Equador registraram uma dúzia de casos, os Shipibo do Peru registraram 58 mortes e no Brasil houve 147 mortes e 1350 casos. Devido à falta de recursos de saúde em toda a região, os casos provavelmente são subnotificados e as atividades ilegais de desmatamento e extração em terras indígenas aumentam ainda mais o risco de exposição. Em abril, centenas de organizações em todo o mundo assinaram uma moratória contra incursões na Amazônia e pediram o fim de todas as atividades destrutivas que degradem e desmatam ainda mais a Amazônia. Os povos indígenas são os melhores administradores e protetores da floresta amazônica e, portanto, sua proteção é vital para a saúde de nosso planeta. “Não podemos esperar mais pelo nosso governo … estamos em perigo de extinção”, disse Jose Gregorio Diaz Mirabel, coordenador geral da COICA (Coordenador de Organizações Indígenas da Bacia do Rio Amazonas) e membro do povo Wakeunai Kurripaco da Venezuela.

“Este evento faz parte de uma extraordinária aliança de organizações e indivíduos dedicados a preservar a região com maior biodiversidade do planeta”, comenta Sarah duPont, fundadora da Amazon Aid Foundation e co-diretora da River of Gold. “A mineração ilegal e não regulamentada de ouro é uma das formas mais perigosas de desmatamento na Bacia Amazônica e libera mercúrio tóxico no ecossistema. Desde a pandemia, a mineração de ouro explodiu em toda a Amazônia e em territórios indígenas, trazendo consigo violência e a COVID-19. A Amazônia está no ponto de inflexão e os protetores da Amazônia estão ameaçados. O que acontece na Amazônia afeta a todos nós.”

Leila Salazar-López, diretora executiva da Amazon Watch, acrescentou: “A Amazônia e seus povos estão em estado de emergência devido às mudanças climáticas e à pandemia do COVID-19. É um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade. É hora de todos se unirem e agirem em defesa da floresta e em solidariedade com os povos indígenas e tradicionais da Amazônia, que estão protegendo essa grande floresta tropical e nosso clima para toda a humanidade. e vida na Terra. “

Sobre o Fundo de Emergência da Amazônia: O Fundo de Emergência da Amazônia é uma colaboração recém-formada que trabalha em estreita coordenação com a COICA (Órgão Coordenador de Povos Indígenas da Bacia Amazônica) e suas 9 organizações nacionais, além de parceiros e aliados de ONGs na Amazônia e em todo o mundo, para apoiar resposta de emergência à Covid-19. Está hospedada na Rainforest Foundation-US e apoia diretamente subsídios de resposta rápida para prevenção e cuidados urgentes e imediatos; alimentos e suprimentos médicos; comunicações de emergência e evacuação; proteção e segurança para guardiões da floresta; soberania alimentar e resiliência da comunidade.

Sobre Artistas for Amazonía: A Campanha Artists for Amazonía está aproveitando o poder de influenciadores criativos e de entretenimento para catalisar ações globais em resposta à crise na floresta amazônica e às ameaças aos defensores da terra indígena. Juntos, defendemos a proteção permanente da Amazon.

Sobre a Amazon Aid Foundation: A Amazon Aid Foundation (AAF) é uma organização sem fins lucrativos que utiliza o poder da multimídia para educar sobre a importância da Amazônia e as implicações de sua destruição. Os projetos premiados da AAF afetam a mudança de política global e ativam o público em todo o mundo a se envolver em abordagens sustentáveis ​​para proteger a Amazônia e exigir produtos de origem responsável. A AAF apóia e promove os esforços de advocacy relacionados aos direitos humanos e indígenas, água potável, proteção de espécies e habitat e a regulamentação da mineração de ouro ilícita e não regulamentada e do uso de mercúrio.

Para outras informações:

Elena Teare – elena@amazonwatch.org ou +1.925.385.8757

Jessie Nagel – jessie@hypeworld.com ou +1.213.324.8363

Infecção por Covid-19 explode entre trabalhadores da Vale no Pará e cidade entra em colapso

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Por Maurício Angelo para o “Observatório da Mineração”

Os números oficiais falam em 1603 casos confirmados e 61 mortes por Covid-19 em Parauapebas (PA) até o momento. Mas a cidade que se formou e cresceu em função da mineradora Vale enfrenta um colapso de saúde que é ainda pior do que os números mostram.

Vídeos obtidos pela reportagem, relatos e fontes diversas acusam a Vale de omitir resultados de exames para que não constem no sistema municipal de saúde. A mineradora e a prefeitura negam. A OAB e o Ministério Público Federal e Estadual entraram com ações para averiguar a situação da cidade frente a pandemia.

As evidências apontam que centenas de funcionários da empresa estariam com Covid-19 no Complexo Carajás, o maior projeto de extração de minério de ferro do mundo.

Bairros que concentram trabalhadores da Vale, como o Cidade Jardim, são um dos mais afetados pelo coronavírus. Os funcionários da mineradora são atendidos preferencialmente no hospital Yutaka Takeda, construído pela Vale nos anos 80 e mantido pela empresa. Informações dizem que a Vale concentra todas as informações que passam por lá.

E trabalhadores entrevistados contam a dificuldade em conseguir fazer o exame para a Covid-19, que só é liberado – e com muita briga – após 10 dias que a pessoa começa a sentir os sintomas.

É o caso de Evaldo Fidelis, 35 anos, operador de equipamentos da Vale na mina de Carajás. Há 2 meses, no fim de março, Evaldo foi uma das fontes que me contou sobre as aglomerações de funcionários que a Vale mantinha no Pará. Era uma bomba relógio, disse na matéria para o Intercept. Na época, Parauapebas tinha apenas 26 casos suspeitos e todo o estado do Pará, 7 casos confirmados.

Hoje, Parauapebas está em colapso, pelo menos 4 funcionários da Vale morreram por Covid-19 – o primeiro em 10 de abril, como revelei no Observatório –  e o estado do Pará registra 28.600 casos e quase 2.500 mortes.

A bomba explodiu. E, com negligência de todas as esferas de governo, a mineração considerada essencial por Bolsonaro (após as minhas denúncias) e a absoluta falta de fiscalização, explodiu – para variar – no colo do mais fraco.

Evaldo Fidelis contraiu a Covid-19 um mês depois da primeira reportagem, no fim de abril. E o que ele passou mostra como as medidas que a Vale alega ter tomado se mostram totalmente ineficientes e como os dados oficiais sobre o número de contaminados não são confiáveis.

Em 25 de abril Evaldo foi trabalhar normalmente na Mina de Carajás, assumindo o seu turno à meia-noite. O teste de temperatura feito pela Vale diariamente em alguns trabalhadores não acusou nenhuma alteração. No meio da madrugada, Evaldo começou a se sentir mal, com tosse forte.

Recorreu a um hospital particular da cidade, o Santa Terezinha. Nenhum teste para a Covid-19 foi feito. Sinusite, disse o médico, que recomendou que ele repousasse em casa. Após nova ida ao médico, nova negativa e uma semana com a sua saúde piorando progressivamente, perdendo totalmente o olfato e o paladar, febre alta e tosse constante, Evaldo procurou o Yutaka Takeda, hospital da Vale no alto da serra de Carajás.

Com 10% do pulmão comprometido, o médico que o atendeu reconheceu que o seu quadro indicava Covid, mas disse que não poderia fazer o exame porque o protocolo do hospital só permitia o exame após 10 dias de sintomas. Regras da direção, alegou.

Com quadro gravíssimo e a esposa e a mãe já também sentindo os sintomas da doença, Evaldo recebeu um coquetel de medicamentos (azitromicina, paracetamol, loratadina e unizinco) e foi mandado para casa. Os três começaram a tomar os medicamentos. A esposa e a mãe nunca fizeram exames para a Covid e não constam nas estatísticas do município.

Completados os 10 dias, Evaldo retornou ao Yutaka Takeda, exigindo fazer o exame da Covid-19. Chegou por volta de 13h. Só foi conseguir fazer o exame por volta de meia-noite. À 1h saiu o resultado que finalmente comprovou que Evaldo estava mesmo com a Covid-19.

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“Senti que ficaram me enrolando para ver se eu desistia”, conta Evaldo. O novo médico acrescentou mais um medicamento: a ivermectina, usada para combater vermes e parasitas, e com uso veterinário. Nem a azitromicina nem a ivermectina tem qualquer eficácia comprovada contra a Covid-19,  assim como a cloroquina, apesar das receitas terem explodido e o uso ser defendido por bolsonaristas.

A medicina do trabalho da Vale só ligou para Evaldo 15 dias após os primeiros sintomas. Só na sua equipe de 40 trabalhadores, 7 estão com a Covid-19. No geral, em cada turno, são centenas de trabalhadores interagindo e aglomerados em plantão. Hoje, Evaldo ainda se recupera dos sintomas da Covid-19 em casa. Assim como a sua esposa e a sua mãe. Gastou do próprio bolso cerca de R$ 1.000 em medicações e equipamentos para inalação. “A gente fica desamparado”, ele me diz.

O sentimento, para Evaldo, é o mesmo ao de ver a situação em Mariana e Brumadinho.  “A Vale com o seu poder financeiro vai esticar a corda até onde der e vai arrebentar do lado mais fraco. Não importa se serão 50 ou 100 mortes. Depois ela vai tentar reverter isso fazendo o que ela tá fazendo com o governo federal, os estados e municípios. Ela paga para calar a boca dos órgãos que deveriam proteger a sociedade”, critica Evaldo.

Enquanto o trabalhador “está se lascando para sobreviver”, ele diz, “a Vale tá ganhando bilhões na pandemia”. De fato, o minério de ferro já subiu mais de 25% no ano, ultrapassando os 100 dólares por tonelada, inclusive para entregas futuras.

Para Evaldo, que trabalha há 9 anos na Vale, as ações e as “doações” anunciadas pela Vale não passam de obrigações da mineradora. Principalmente em cidades como Parauapebas, onde ela é um dos principais vetores de contaminação pela Covid-19.  

“Como o governo federal não tem política de saúde, a mineradora aproveitou esse vácuo e viu a oportunidade de doar e trazer aviões da China, maior compradora de minério dela, com o poder que tem. Nos holofotes, para quem está de fora, tá tudo a mil maravilhas, mas o trabalhador que tá na mina é que sabe a verdade. Tem que ficar calado doente, se falar sofre boicote”, diz Evaldo.

OAB cobra da Vale informações e ações para conter a pandemia

Na segunda, 25 de maio, a Ordem dos Advogados do Brasil de Parauapebas enviou um ofício para a Vale cobrando informações sobre a gravidade e a extensão da pandemia na cidade. Segundo a OAB, “Parauapebas não dispõe, na rede pública e particular de saúde, estrutura mínima necessária para cobertura dos elevados números de casos que geram demasiada demanda por serviços de saúde”.

Entre as perguntas enviadas, a OAB questiona quantos trabalhadores da Vale e das terceirizadas foram contaminados pela Covid-19, quantos se afastaram, quantos foram remanejados para outras cidades e quantos entraram na fase grave da doença. O pedido de resposta, preferencialmente em 48 horas que se encerram hoje, ainda não foi atendido.

Dos 20 respiradores comprados pelo município, somente 4 estão em funcionamento. O hospital de campanha com 100 leitos criados pela Vale só atende casos de baixa complexidade, enquanto a demanda é sobretudo para casos de alta complexidade, com leitos de UTI. E poucos testes são feitos na cidade.

Para Rubens Motta de Azevedo Moraes Júnior, conselheiro da OAB Pará, Parauapebas não está adotando as medidas que poderia adotar. “Nem o município nem a Vale apresentaram um estudo sobre o impacto entre os seus empregados. O número de casos em Parauapebas mostra um fator extra em relação a outras cidades que é o setor mineral. Enquanto não houver qualquer fiscalização e estudos sobre o impacto que a atividade mineral está causando na sociedade local, as medidas serão ineficientes”, avalia Motta.

No último sábado, 23, a presidente da OAB de Parauapebas, Maura Regina Paulino, fez uma diligência em conjunto com Associação Médica de Carajás, para verificar as condições do atendimento na rede pública municipal de saúde. O resultado, segundo a OAB, é “um cenário de extrema precariedade e violação aos direitos humanos e ao direito constitucional à saúde”.

Após a diligência a OAB do Pará precisou soltar uma nota de solidariedade à Maura Paulino, que passou a sofrer ataques em redes sociais e em uma loja que possui na cidade, que teve o letreiro arrancado. Blogs locais apontam que os responsáveis seriam milícias digitais que agem sob ordens do prefeito Darci Lermen (MDB).

Parauapebas acumula questionamentos na justiça. O Ministério Público Federal entrou com uma ação contra o decreto municipal que considerou diversas atividades como essenciais, o MP do Pará questiona em Ação Civil Pública a abertura do comércio pelo prefeito, um advogado popular também pede a compra de tomógrafos e uma ação dos sindicatos de enfermeiros cobra a compra de equipamentos de proteção para trabalhadores da saúde.

Vídeos mostram funcionários aglomerados com Covid-19 e suposta falta de registro na rede pública de saúde. Vale e prefeitura negam

Os vídeos abaixo, enviados para a reportagem, mostram funcionários de terceirizadas da Vale em Carajás sendo recolhidos após triagem que apontou suspeita de Covid-19, reunidos em ônibus. Outro vídeo mostra que os funcionários estariam sendo atendidos em um laboratório em Parauapebas e que os registros não seriam encaminhados para a rede municipal. Assista.

Em nota, a assessoria de comunicação de Parauapebas disse que “a Secretaria Municipal de Saúde informa que a mineradora Vale realizada as notificações compulsórias dos casos confirmados de funcionários e que esses casos são inseridos no boletim do município”.

Sobre o caso, a Vale disse à reportagem que “mantém diálogo com os órgãos competentes e comunica as autoridades de saúde sobre casos suspeitos e/ou confirmados. Em respeito à privacidade de seus empregados, a empresa não comenta sobre resultados de exames. A Vale reforça ainda que segue os protocolos de saúde e segurança estabelecidos pelas autoridades e agências de cada um dos países em que opera”.

De acordo com a mineradora, “a Vale está realizando a testagem de todos os seus empregados e terceiros, e retirando do ambiente de trabalho aqueles que testaram positivo, ainda que assintomáticos, bem como todos os que eventualmente possam ter tido contato com o empregado que testou positivo”.

Sobre o caso de Parauapebas, a Vale afirma ainda que “nas comunidades, a Vale está colaborando para reduzir vetores de contaminação. Em parceria com a Prefeitura de Parauapebas, será feita testagem em massa na população do município, usando o sistema drive thru. A empresa também está realizando ações de limpeza de ruas e espaços públicos”.

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Esta postagem foi originalmente publicado pelo Observatório da Mineração [Aqui!].

Montana Química realiza série de ações sociais para minimizar impactos da pandemia

Empresa doa quase 1 tonelada de álcool em gel, novo produto de seu portfólio, e participa de programas de apoio aos setores da pintura e da construção civil

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Preservar para o futuro é um valor fundamental da Montana Química. Além de refletir-se nas suas soluções para tratamento e conservação da madeira, que ajudam a proteger substratos e incentivam o uso de madeira de plantio, eguiado iniciativas da empresa para auxiliar clientes, colaboradores e pintores no cenário da pandemia. As ações estão integradas a uma campanha da Montana denominada “Preservando o Bem”.

Entre os feitos da campanha estão doações de quase 1 tonelada de álcool em gel 70º INPM. A ABBA (Associação Brasileira Beneficente Aslan), entidade de São Paulo que ajuda crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, foi beneficiada com 515 quilos. Por sua vez, a Associação Brasileira dos Pintores Profissionais (ABRAPP) recebeu da Montana 333 kg do produto.

Outros 85 kg foram destinados à CEAG-10 da FIESP (Comissão de Estudos e Assessoria do Grupo 10, que representa empresas do setor químico), no ABC paulista. As entregas ocorreram no início de maio. A Montana também doou 16 kg para o Canal do YouTube Papo de Pintor, que fará a distribuição a profissionais cadastrados.

O Álcool 70º Montana Química, novidade no portfólio da empresa, é indicado para a limpeza de bancadas, pias, mesas, paredes, chão e quaisquer outras superfícies.

Solidariedade e aconselhamento

A Montana também participa, desde abril, do projeto Cores Solidárias, em parceria com a ABRAPP. O objetivo é a doação de vales-alimentação para pintores que viram a renda diminuir ou até mesmo zerar em virtude das medidas de distanciamento social. Até o momento, quase R﹩ 230 mil foram arrecadados pela iniciativa, beneficiando mais de 1,4 mil profissionais. Empresas e pessoas físicas que quiserem contribuir com a campanha podem se informar no sitdABRAPP.

Toda a mobilização da Montana começou assim que a pandemia foi oficializada. Em março, a empresa iniciou a divulgação de dicas para lojistas e pintores continuarem seus negócios em meio à COVID-19. Por meio de e-mail, de sua páginninternee das redes sociais, a empresa vem divulgando textos informativos sobre temas como e-commerce, grupos de WhatsApp e parcerias na cadeia de valor. Também em março, a Montana doou kits de proteção, compostos por álcool em gel e máscaras, para todos os seus colaboradores.

“Acreditamos que a união e a solidariedade são peças-chaves para que, juntos, possamos superar este momento. Estamos comprometidos em apoiar o setor e a sociedade, compartilhando conhecimentos e recursos para reduzir o impacto da crise”, afirma Michel Sentinelo, gerente de marketing e comunicação da Montana Química.

Sobre a Montana Química

A Montana Química construiu a reputação de especialista no tratamento, proteção e preservação de madeira no mercado graças ao seu principal valor, presente no coração da empresa desde 1953: preservar para o futuro. A multinacional investe continuamente em pesquisa e desenvolvimento, parque industrial e capacitação do seu capital humano para desenvolver produtos e serviços de alta qualidade. A Montana possui duas unidades de negócios: industrial, que abrange a linha de preservação e produtos de alto desempenho para madeira, e varejo, que abrange a linha de acabamentos e complementos.

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Informações para a imprensa: 2PRÓ Comunicação

Jorge Soufen Jr. – jorge.junior@2pro.com.br

Carolina Mendes – carolina.mendes@2pro.com.br

Myrian Vallone – myrian.vallone@2pro.com.br

Telefone: (11) 9-9170-9079

Análise sobre os pontos que têm fragilizado o combate à COVID-19 no Brasil

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A pedido dos estudantes que participam da Gestão Ativa, empresa júnior que atua com os cursos de Administração Pública, Ciências Sociais e Pedagogia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF),  produzi uma avaliação do que considero os principais que têm dificultado uma ação mais eficaz dos diferentes níveis de governo no controle e combate da pandemia da COVID-19 (ver vídeo abaixo).

É preciso mencionar que esse esforço de análise só foi possível a partir da provocação instigadora dos estudantes que tocam a empresa junior dos cursos de graduação pertencentes ao Centro de Ciências do Homem da Uenf, aos quais agradeço a oportunidade de falar sobre a crise de gerenciamento que vem marcando a expansão letal da COVID-19 no  Brasil.

A blitz em Wilson Witzel e o aprofundamento da crise política no Brasil

witzel bolsoO hoje governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC/RJ), posando com camisa do então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.

A população do Rio de Janeiro amanheceu mais uma vez com notícias de ações da Polícia Federal para apurar supostas irregularidades na área da Saúde cometidas por um governador em exercício, no caso o ex-juiz Wilson Witzel. Essa operação alcunhada de “Placebo” por causa de alegado superfaturamento na montagem dos famigerados hospitais de campanha é uma espécie de “déjà vu” porque nos últimos anos tivemos casos rumorosos envolvendo os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

A diferença nesse caso é a rara celeridade com que a detecção das supostas irregularidades no governo estadual do Rio de Janeiro resultou em uma operação da Polícia Federal que a mídia corporativa informa está vasculhando endereços oficiais e pessoais de Wilson Witzel.  E, curiosamente, com um destacamento da Polícia Federal lotada no Distrito Federal.

Essa celeridade inaudita já levanta o espectro da perseguição política por parte do presidente Jair Bolsonaro que hoje tem em Witzel um enorme desafeto. Contribuiu para a presença desse espectro, as declarações de véspera da deputada federal Carla Zambelli (PSL/SP) (uma das ardorosas aliadas da família Bolsonaro no congresso nacional) que teria previsto com o poder de um oráculo a deflagração da operação policial de hoje. Se isso for confirmado, há, inclusive que se apurar se isso não contribuiu para a destruição de provas, já que entre o anúncio de Zambelli e a deflagração da operação Placebo passaram-se horas suficientes para destruir um caminhão de provas.

Mas colocando-se de lado a evidente disputa política que ocorre atualmente entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador fluminense, ninguém pode discordar de que é necessário apurar se realmente, em meio a uma pandemia letal, ocorreram crimes contra o estado do Rio de Janeiro com a prática de sobrepreço, por exemplo.  Ser contra a apuração e a punição de crimes de corrupção não parece razoável, especialmente se isso ocorre quando milhares de pessoas estão pessoas por falta de estruturas próprias de saúde.

Além disso, é preciso lembrar que, embora brigados no momento, Jair Bolsonaro e Wilson Witzel são praticamente inseparáveis em termos ideológicos, especialmente no que tange ao uso da força extrema para obter um apaziguamento social que se mostra totalmente deletério para o interesse da maioria pobre da população fluminense. A ligação entre Bolsonaro e Witzel é tão grande que o secretário de Ciência e Tecnologia, Leonardo Rodrigues, um dos acusados de terem praticados crimes de corrupção, é o segundo suplente do senador Flávio Bolsonaro, tendo convivido de forma próxima com o próprio presidente Jair Bolsonaro.

xleonardo_flavio.jpg.pagespeed.ic.YTdaazNep0Leonardo Rodrigues, suplente de Flávio Bolsonaro e atual secretário de Ciência e Tecnologia Foto: Reprodução / Redes Sociais

Além disso, sob o comando de Wilson Witzel, as polícias do Rio de Janeiro adotaram uma tática de violência extrema dentro de comunidades controladas pelo narcotráfico, o que motivou o jornal estadunidense a publicar uma longa matéria intitulada “License to Kill: Inside Rio´s Record Year of Police Killings” (ou em português “Licença para matar: dentro do ano recorde de assassinatos pela polícia”). Nesse sentido, há ainda que se lembrar que mesmo durante a pandemia da COVID-19, ocorreram diversos assassinatos de jovens negros dentro de comunidades da cidade do Rio de Janeiro, sendo que em algumas delas as operações policiais ocorreram durante a distribuição de cestas básicas para famílias que se encontram em dificuldades para adquirir alimentos.

license to killMatéria publicada pelo “The New York Times” no dia 18 de maio de 2020 abordou as ações letais em número recorde realizadas pela polícia fluminense em comunidades pobres da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2019.

Desta forma, me parece que qualquer propensão a tomar posição em favor de Wilson Witzel em razão da possível interferência do presidente Jair Bolsonaro deverá levar em conta os diversos aspectos envolvendo não apenas os fatos já publicizados sobre as acusações de corrupção envolvendo o governo do Rio de Janeiro, mas também a natureza da relação política que levou os dois ao poder.

De toda forma, há ainda que se esperar o pronunciamento do governador Wilson Witzel, um ex-juiz com esperada experiência na análise processual deste tipo de operação. Se ele encontrar furos nos procedimentos que levaram à autorização da operação Placebo, é bem provável que ele saia rapidamente da defesa para o ataque. E dependendo do calibre que ele tiver nas mãos para realizar este contra-ataque, é bem possível que tenhamos um aprofundamento ainda maior da crise política que hoje se mistura com o avanço da pandemia da COVID-19.

Vacina desenvolvida na China mostra sinais promissores para o combate ao coronavírus

vacina chinesa

O mundo inteiro vem esperando ansiosamente pelo desenvolvimento de uma vacina  que possa acabar com a pandemia da COVID-19 que matou mais de 330.000 pessoas até  o momento.  Eis que agora, surge a primeira candidata a ser uma vacina viável, segundo artigo publicado no dia ontem (22/05) pela respeitada revista “The Lancet”, que disponibilizou o trabalho em formato digital para que os resultados alcançados por uma equipe liderada pelo professor Chen Wei, professor do Instituto de Biotecnologia de Beijing, e membro da Academia de Ciências Médicas Militares e  da Academia Chinesa de Engenharia.

wei chen

A vacina, classificada como “vetor adenovírus recombinante tipo 5” (Ad5-nCoV), atuaria como uma infecção natural e é especialmente boa em ensinar ao sistema imunológico como combater o vírus, e foi testada em 108 voluntários. Estes voluntários foram   divididos em três grupos, cada um tomando uma dose diferente da vacina.

vacina anticorposRespostas específicas de anticorpos ao domínio de ligação ao receptor e anticorpos neutralizantes do SARS-CoV-2 vivo

O estudo mostra que após 28 dias de inoculação da vacina, nenhuma reação séria foi encontrada nos participantes, indicando que a vacina parece ser tolerada por seres humanos.  Além disso,  anticorpos contra o SARS-CoV-2 começaram a aumentar nos voluntários duas semanas após a injeção, tendo atingido o pico no dia 28 do experimento.   Com base nos resultados obtidos na chamada “fase 1” do experimento,já foi iniciado o ensaio clínico de fase 2, agora com a participação de 508 voluntários envolvidos. É importante notar que  existem outras duas vacinas sendo testadas em seres humanos na China, a ShaCoVacce  a PiCoVacc.

Entretanto, ainda há dúvidas sobre a possibilidade dessa vacina ser usada para todos os grupos etários,  já que ela usa um vírus do resfriado humano vivo, porém enfraquecido, o adenovírus 5, no qual o material genético do coronavírus SARS-CoV-2 foi fundido. O vírus Ad5 é efetivamente um sistema de entrega que ensina o sistema imunológico a reconhecer o coronavírus.  Entretanto, dado que muitas pessoas já tiveram infecções anteriores com adenovírus 5, levantando preocupações de que o sistema imunológico se concentre nas partes Ad5 da vacina e não na parte SARS-Cov-2. 

Afora os elementos científicos que cercam este experimento da equipe liderada pelo professor Chen Wei, obviamente o elemento geopolítico da corrida em torno da descoberta de uma vacina eficiente para controlar a COVID-19. É que o presidente chinês, Xi Jinping, declarou que uma vacina eventualmente desenvolvida pela China seria considerada como um “bem público global“, e que esta designação seria uma a contribuição chinesa para garantir a acessibilidade e a acessibilidade das vacinas nos países em desenvolvimento”.