Como o desmatamento da maior floresta tropical do mundo interfere na saúde da população?

Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental

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Quanto mais próximos os humanos estão dos animais, maiores são as oportunidades de contágio zoonótico, em que um patógeno salta do animal para o humano. Zoë van Dijk para NPR

A preservação do meio ambiente nunca esteve tão em voga quanto ultimamente, o assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.

A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.

São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.

“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos. 

Doenças como a Zika, que somada a Dengue e Chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.

Uma área queimada da floresta amazônica no estado do Pará, Brasil, em 2019. Um crescente conjunto de evidências mostra que a perda e fragmentação da floresta podem aumentar o risco de doenças infecciosas de origem animal, como o coronavírus. Leo Correa / AP

Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.

“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, finaliza o especialista.

Jair Bolsonaro gosta de negar a realidade

Na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro declara seu país vítima de uma campanha de mentiras sobre a Amazônia. Mas as fotos dos incêndios falam por si, comenta Thomas Milz.

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Jair Bolsonaro faz seu discurso virtual na Assembleia Geral da ONU de 2020

Por Thomas Mintz para a Deutsche Welle

É tradição na ONU que o Brasil seja o primeiro país a contribuir com os debates da Assembleia Geral. A novidade este ano foi que a contribuição foi gravada em vídeo, devido à pandemia do coronavírus. Com mais de 137.000 mortes de corona, o recorde do Brasil é atualmente o segundo mais letal depois dos EUA. Assim, Bolsonaro ficou na defensiva logo no início de seu discurso. Pois como você explica o desastre doméstico para o mundo, que conhece sua terrível comparação do coronavírus com uma “gripezinha”?

Não o culpe. Em vez disso, ele foi vítima do Judiciário brasileiro, que amarrou suas mãos na luta contra a pandemia e cedeu os poderes aos governadores. Qualquer um que olhe mais de perto sabe que Bolsonaro na verdade se recusou a lutar contra a pandemia que ele retratou como histeria. Pior ainda – ele confiou no comprovadamente ineficaz medicamento antimalárico cloroquina e colocou o Ministério da Saúde sob o comando de um general que antes organizava a logística das Olimpíadas do Rio. Mas parte de sua mentalidade de populista é a negação de qualquer culpa ou responsabilidade. 

É como exagerar o próprio papel sempre que algo está indo bem. A ajuda para os prejuízos causados pela pandemia da COVID-19 paga a mais de 65 milhões de brasileiros teria protegido a economia de um desastre ainda maior, diz Bolsonaro. Isso é verdade. Mas ele não diz ao público internacional que foi o Congresso brasileiro que instou o governo a fornecer ajuda. Em vez disso, ele está simplesmente mentindo quando diz que o valor total da ajuda é de US $ 1.000 por pessoa. Apenas metade disso foi pago. 

Queimando florestas e  causando uma gigantesca destruição ambiental

A negação da realidade de Bolsonaro se torna ainda mais óbvia em vista da destruição ambiental em curso na Amazônia. Mesmo nas grandes cidades do extremo sul do Brasil, as nuvens de fumaça já podem ser sentidas, e também podem ser vistas em sua gigantesca propagação nas imagens de satélite da NASA. E o fato de que o governo de Bolsonaro está impedindo as autoridades ambientais de proteger as florestas é evidenciado pelos cortes drásticos nos orçamentos ambientais. Até membros de seu próprio governo admitem abertamente a paralisia das autoridades de controle.

Mesmo assim, antes da Assembleia Geral virtual da ONU, Bolsonaro repetia seu mantra de que ninguém protege mais a natureza do que o Brasil. Exceto que a comunidade mundial malévola se recusa a reconhecer isso. “Quanto à Amazônia e ao Pantanal, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de mentiras”, disse Bolsonaro. As instituições internacionais participariam de maquinações sombrias para prejudicar seu governo e o Brasil, e até mesmo “aproveitadores de guerra antipatrióticos” do Brasil participariam. 

Além de organizações como o Greenpeace e o WWF e ativistas como o ator de Hollywood Leonardo DiCaprio, também se dirige contra a própria ONU, cuja conferência climática COP 25 seria realizada no Brasil no outono de 2019. Mas Bolsonaro ficou de lado. Por isso, acusou reiteradamente a ONU de querer tirar a Amazônia do Brasil com a ajuda do acordo climático.

Vítima de potências internacionais?

Mas Bolsonaro com certeza não está interessado na imagem do Brasil no mundo. Em tempos de redes globais de informação e graças ao relato vigilante da mídia, o mundo hoje sabe muito bem o que está acontecendo nas florestas brasileiras. Bolsonaro não tem nada a ganhar com isso. Pelo contrário, o seu discurso dirige-se à sua própria população, a quem tem de responder face às mortes da corona, à crise económica associada ao coronavírus e à destruição do ambiente. E que ele – ao contrário do público mundial bem informado – ainda pode imputar sua distorção dos fatos. 

Acusar poderes obscuros do exterior vai bem para muitos brasileiros. As ameaças das fileiras da União Européia de não ratificar o acordo comercial com o bloco do Mercosul vêm a calhar para ele se mostrar vítima de malandros internacionais. 

Dois problemas estão atualmente movendo o mundo: a pandemia corona e as mudanças climáticas. Ambas as crises têm dimensões globais e só podem ser resolvidas em nível global. Um estadista inteligente, portanto, usaria instituições globais como a ONU para encontrar soluções. Antes de mais nada, no interesse do seu próprio país. Mas Bolsonaro não pensa em soluções. Como populista profissional, ele aceita com gratidão as crises para culpar inimigos imaginários. Você não deve esperar nada construtivo dele.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Na “The Lancet”, médicos brasileiros desafiam os fatos e defendem as ações do governo Bolsonaro no controle da COVID-19

hospitais covid-19

Na “The Lancet”,  médicos brasileiros defendem as ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19, em que pese os mais 135 mil mortes ocorridas no Brasil

Há quem não entenda algumas situações envolvendo a falta de reação da comunidade médica brasileira às ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 no Brasil, especialmente quando o presidente Jair Bolsonaro está a meses defendendo um medicamento, a cloroquina, que não possui nenhuma comprovação de que tenha qualquer utilidade no combate ao coronavírus.

Mas uma carta publicada hoje pela revista “The Lancet” lança luz sobre essa situação ao publicar uma carta assinada por um coletivo de médicos brasileiros (alguns detentores de títulos de doutorado) que não só defendem ardorosamente as ações do governo Bolsonaro, como também exigem que uma das principais revistas científicas da área médica do mundo retire do ar um editorial em que critica duramente as ações do governo Bolsonaro.

Em meio ao bombardeio de declarações pseudo-nacionalistas, uma me chamou a atenção. É que aquela que afirma que “Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil.”

Essa afirmação por si só já deve ter divertido os editores da “The Lancet” a ponto deles decidirem publicar uma carta que, se por um lado tem elementos que envergonham os autores da mesma, por outro, oferecem uma rara entrada no que pensam respeitáveis representantes da classe médica brasileira.

Quem se der ao trabalho de ler a “resposta” abaixo, notará que não se pode culpar os pobres pela eleição e manutenção de Jair Bolsonaro no posto de presidente do Brasil. É que a defesa apaixonada que emerge do texto nos mostra quem racionalmente opta por defender as práticas indefensáveis de um governo indefensável.

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Resposta COVID-19 do Brasil

Por Mauro RN Pontes e Julio Pereira Lima

Foi decepcionante ler o Editorial 1  sobre a resposta do Brasil ao COVID-19, criticando o presidente brasileiro que “desencorajou [ed] as medidas sensatas de distanciamento físico e bloqueio”. Sim, ele insistiu que o bloqueio é ineficaz e terrível para a economia. 

As evidências sugerem que ele estava certo. Um estudo europeu concluiu que o bloqueio pode não ter salvado vidas.

2 Um estudo brasileiro descobriu que um aumento de 1,0% na taxa de desemprego estava associado a um aumento de 0,5% na mortalidade por todas as causas.

 3 A taxa de desemprego esperada (23%) causaria 120 mil mortes no Brasil, segundo projeções dos autores. 3 Portanto, o governo brasileiro implementou medidas de proteção; distribuiu US $ 5,6 bilhões às cidades, estados e diretamente à população por meio de um salário de salvamento de emergência; criaram leitos para unidades de terapia intensiva; e entregou equipamentos de proteção e ventiladores. Esta resposta mostra um “vácuo de ações políticas”?1

Até o momento, o Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil. O Lancet deveria criticar seu próprio país, antes de criticar o nosso.

Sentimos que o preconceito abundou durante a editoria de Richard Horton, incluindo o imbróglio da vacina MMR4(colocando a vida das crianças em risco) e a correspondência incendiária sobre a situação em Gaza5O Lancet elogiou a resposta chinesa à pandemia de COVID-19, mesmo depois que a China foi acusada de encobrir a propagação inicial e a transmissão de humano para humano de COVID-19. O Lancet foi mais duro com o Brasil, sugerindo que deveríamos expulsar o presidente de sua cadeira.

Desconsideramos seu editorial desinformador, 1 que sentimos ser claramente tendencioso contra nosso governo de direita. Infelizmente, o The Lancet não publicou nada contra o governo de esquerda brasileiro, que priorizou estádios de futebol em vez de hospitais.

Como médicos brasileiros, damos a vocês uma resposta clara: o Editor do The Lancet deve abandonar o viés político, retratar o Editorial,1  e focar na ciência, ou então ele “deve ser o próximo a ir”.1

Declaramos não haver interesses conflitantes. Os signatários desta correspondência estão listados no apêndice

Tecnologia em tempos de Covid-19

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Foto: JOHN SCHNOBRICH / UNSPLASH

Por Eduardo Henrique Diniz para a bori

As tecnologias digitais são elementos centrais do novo normal, decorrente da crise gerada pela pandemia da Covid-19. Em primeiro lugar, porque qualquer reação a essa situação foi e está sendo baseada em informação produzida, armazenada e transmitida em formato digital. Mapeamento de genomas, produção de vacinas, rastreamento de infectados, monitoramento de doentes e distribuição de benefícios emergenciais são exemplos de atividades que dependem de infraestrutura digital sofisticada, capaz de gerenciar com precisão e em tempo real uma enorme quantidade de dados.

Além da linha direta de gestão da crise, as tecnologias digitais também exercem papel central em diversas outras atividades de nossas vidas, como no trabalho, na convivência social e no consumo. Lives, reuniões a distância, aulas remotas, vaquinhas digitais, comemorações virtuais e delivery são hábitos e costumes amplamente disseminados durante a pandemia, quebrando resistências de todos os tipos e que vão gerar impactos profundos no comportamento e no modo de vida de populações dos mais diversos quadrantes do planeta.

Diante de mudanças emergenciais, que aparentemente vão se consolidar como alterações estruturais, aperfeiçoar e democratizar a infraestrutura digital disponível na sociedade tornam-se necessidades reais e urgentes. O discurso a respeito da inclusão digital remodelou-se para o da transformação digital, refletindo uma significativa ampliação do acesso a recursos digitais na sociedade. Entretanto, tal acesso mostrou-se desigual, ratificando a concentração de recursos já existente entre a população. Combater essa desigualdade não é mais apenas uma forma de ajudar os menos favorecidos; passou a ser a única maneira de se construir uma transformação digital de fato.

Os desafios, no entanto, são imensos para o aperfeiçoamento e a democratização da infraestrutura tecnológica para a era pós-Covid-19. Primeiramente, é fundamental termos capacidade de disponibilizar tecnologia de qualidade a uma grande massa de desprovidos, pois o acesso à informação digital também se torna um bem público universal. Em segundo lugar, a vida durante a pandemia mostrou que o acesso à educação de qualidade, outro bem público universal, tem impacto direto no uso profícuo das infraestruturas digitais disponíveis, sendo possível obter ganhos com essa relação. Além disso, se não quisermos nos tornar apenas consumidores de tecnologia desenvolvida por outros, precisamos investir em ciência e tecnologia. Por fim, necessitamos de um ambiente que promova startups de base digital, ampliando o acesso a crédito e criando suporte legal para a emergência de negócios inovadores.

Todavia, não podemos descuidar dos riscos à democracia, à segurança e à privacidade que esse mesmo ambiente digital pode gerar. O aumento de crimes digitais no período da pandemia e as claras ameaças à privacidade, advindas de diversas tecnologias empregadas em vários países para monitorar indivíduos infectados, são sinais desse novo tempo. Somam-se a isso os impactos da digitalização sobre os sistemas democráticos, como os algoritmos que tomam decisões nem sempre de acordo com a natureza essencialmente humana de nossas relações, e as dificuldades de garantir justiça em um ambiente cada vez mais mediado por
canais digitais.

Enfim, consolidar o novo normal imposto pelos avanços digitais apenas iniciados nessa pandemia vai exigir ainda mais foco em conceitos primordiais como democracia, justiça e equidade social.

Sobre esse artigo

Eduardo Henrique Diniz é professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP). Esta análise está na revista “GV Executivo”, edição de agosto de 2020.

O Brasil foi transformado em um campo de testes para as vacinas contra a COVID-19

Devido à grande circulação do vírus no país, quatro vacinas candidatas estão sendo testadas em 22 mil voluntários, incluindo a da britânica AstraZeneca, relançada no sábado, 12 de setembro.

VACINA 1Na Universidade de São Paulo, 24 de junho. Os ensaios estão sendo conduzidos lá para as vacinas da Universidade de Oxford e AstraZeneca. AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Por  Anne Vigna para o Le Monde

Uma ala do Centro Nacional de Vacinação, no imenso campus da Fundação Oswaldo-Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, foi liberada para instalar uma nova linha de produção, ainda rodeada de celofane. “É aqui que serão fabricadas as futuras vacinas contra a COVID-19”, garante a assessoria de imprensa da Fiocruz, maior centro público de pesquisas médicas do Brasil. Em seus laboratórios farmacêuticos, Bio-Manguinhos e Far-Manguinhos, já são produzidas muitas vacinas administradas no Brasil.

Como parte da parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, a Fiocruz espera um dia produzi-los contra a Covid-19, enquanto os ingleses anunciam a retomada do julgamento no sábado, 12 de setembro, suspenso por uma semana após a reação negativa do paciente.

“Nossa parceria não se limita a testar a vacina”, explica Mauricio Zuma, diretor do laboratório médico de Bio-Manguinhos. É claro que estamos felizes em ajudar nessa luta global. Mas o que nos motiva acima de tudo é ter obtido uma transferência de tecnologia com os ingleses. Caso contrário, o Ministério da Saúde poderia simplesmente ter feito uma negociação comercial e comprado as futuras vacinas. “

Foi em junho que a Fiocruz se tornou parceira local das duas entidades britânicas para organizar os ensaios clínicos fase III de sua vacina. Esses exames não acontecem nesses prédios, mas na rede hospitalar dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A tarefa não é tão simples: trata-se de encontrar 5.000 profissionais de saúde, todos voluntários, que tenham contato frequente com o SARS-CoV-2. “Não adianta testar a vacina em uma pessoa que ficará em confinamento em casa, ela só ficará exposta muito pouco ao vírus. Por outro lado, um médico, uma enfermeira, um fisioterapeuta estão todos em contato com o vírus ”, acrescenta o diretor de Bio-Manguinhos .

“Faça algo concreto”

No Brasil, a equipe é bastante voluntária, como Denise Abranches, cirurgiã-dentista do Hospital Universitário de São Paulo, que foi a primeira a testar a vacina em junho. “Assim que soube desse recrutamento, me apresentei. Sou responsável pela higiene bucal dos pacientes intubados há sete meses na unidade de terapia intensiva. Estou na linha de frente e sou o primeiro interessado em uma vacina. “

O ginecologista Alberto Freitas, do Rio de Janeiro, teve a mesma reação. “Recebi as informações através dos grupos de WhatsApp que existem entre médicos. Junto com meus colegas de consultório, vemos muitos pacientes com COVID-19 e decidimos participar para fazer algo concreto no combate a essa epidemia ”, afirma. Alberto participou do ensaio clínico da Universidade de Oxford, mas não teria problemas para testar outro. Atualmente, quatro empresas farmacêuticas do país realizam ensaios clínicos em 22.000 voluntários.

Além da vacina da Oxford e da AstraZeneca, a farmacêutica chinesa Sinovac fechou outra parceria em junho com o instituto científico público Butantan, para a fase III da vacina CoronaVac, que será testada em 9 mil voluntários. .

Mais recentemente, outras duas empresas americanas conseguiram o direito de fazer testes no Brasil: a Pfizer vai organizar um dos quase mil voluntários da Bahia, enquanto a Janssen, laboratório da gigante Johnson & Johnson, atualmente está recrutando 7.000 em vários estados do país.

VACINA 2Vacina Sinovac no hospital São Sans Lucas em Porto Alegre, Brasil, 8 de agosto. DIEGO VARA / REUTERS

O Brasil está interessado em projetos globais de vacinas por vários motivos. Em primeiro lugar, pela circulação ativa do vírus com mais de 4,1 milhões de casos confirmados no país, número ainda considerado desvalorizado pelo grupo de pesquisadores brasileiros da COVID-19. Segundo dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da OMS, o continente americano concentra o maior número de profissionais de saúde infectados com o vírus no mundo, com 570 mil casos confirmados e 2.500 mortes desde março. A maior parte desse contingente encontra-se no Brasil, com 270.000 casos de profissionais, antes dos Estados Unidos (140.000 casos) e do México (cerca de 100.000 casos).

Por outro lado, a grande diversidade genética da população brasileira – com a presença de genes europeus, africanos e asiáticos – permite uma ampla representatividade do planeta. Por fim, o Brasil conta com instituições científicas renomadas e um grande número de facilidades para considerar ensaios clínicos em larga escala e, eventualmente, produzir as vacinas. Junto com a Argentina e o México, o Brasil é um dos poucos países do continente com essas capacidades.

Também em São Paulo, o Instituto Butantan reformou parte de seus prédios para poder fabricar as futuras vacinas. Esse centro de pesquisas, que agora depende do Estado de São Paulo, também assinou um acordo de transferência de tecnologia com a farmacêutica chinesa Sinovac. “Procuramos parceiros em todo o mundo, inclusive na China, e a Sinovac procurava um parceiro específico na região”, diz Ricardo Palacios, diretor de pesquisas médicas do Instituto Butantan.

Estoque de hidroxicloroquina

Fiocruz e Butantan fazem parte da mesma rede de produtores de vacinas para países em desenvolvimento (DCVMN, por sua sigla em inglês). “Os países do Sul estão um pouco deixados de lado. Mas, graças às transferências de tecnologia, conseguimos avançar com a mesma velocidade e qualidade de pesquisa das empresas privadas dos países ricos ”, explica o Sr. Palacios.

O outro problema que o Brasil terá de superar diante dessa pandemia é o “ceticismo corona” de seu presidente. Em 31 de agosto, Jair Bolsonaro afirmou que “ninguém pode forçar ninguém a tomar a vacina”. A declaração do presidente foi amplamente criticada tanto pelo diretor da OMS quanto por cientistas brasileiros. A intervenção do senhor Bolsonaro está em total desacordo com a lei que ele mesmo assinou em 6 de fevereiro e que especifica precisamente que, “em situação de pandemia, o governo poderá fazer a vacinação obrigatória”.

Mas, para si mesmo, o presidente brasileiro não vê utilidade de uma vacina quando, segundo ele, há uma cura muito eficaz a partir da hidroxicloroquina. Jair Bolsonaro continua a promovê-la ativamente em todas as oportunidades. Talvez porque, após uma produção massiva decidida pelo executivo, o Brasil tenha hoje dezoito anos de estoque desse medicamento eficaz contra a malária.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Após prometer 100 testes diários, Reitor da Uenf lança vaquinha para reabrir laboratório da COVID-19 fechado desde o início de agosto

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Após vários anúncios de que estava em curso uma parceria com a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes para o estabelecimento de um laboratório de referência para a análise da contaminação por coronavírus, a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) informou na página oficial da instituição que a unidade começaria finalmente a funcionar, proporcionando um aceleração na entrega de resultados para todos os que comparecessem para realizar o teste.

Este anúncio que ocorreu no dia 22 de maio, com pompa e circunstância, reuniu o reitor da Uenf  e o prefeito de Campos dos Goytacazes que anunciaram que em torno de 100 testes diários seriam realizados. O reitor Raul Palacio, com justo júbilo, anunciou que o início do funcionamento do laboratório dentro do Hospital Geral de Guarus (HGG) seria uma “muito importante”, pois possibilitaria ao estado ” estabelecer políticas públicas importantes no combate ao coronavírus e auxilia na obtenção de dados reais sobre o desenvolvimento da doença em seu território, permitindo estabelecer um controle adequado no avanço da doença“. 

reitor prefeitoO reitor da Uenf, Raul Palacio, e o prefeito de Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz, anunciam o início do “laboratório de referência” para testes da COVID-19 no HGG

Por sua vez, o prefeito de Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz, afirmou que “através da parceria com a Uenf, o laboratório do HGG passa ser referência regional, não apenas para Campos, mas também para toda nossa região. Até hoje todos os exames realizados em Campos eram enviados para o Laboratório Central (LACEN), no Rio de Janeiro, e a entrega dos resultados levava até 15 dias. Com o laboratório do HGG em funcionamento, podemos fazer até 100 análises por dia e entregar o resultado em até 24 horas”.

Passados quase quatro meses do anúncio do estabelecimento dessa unidade que seria referência na identificação de pessoas contaminadas por coronavírus em Campos dos Goytacazes, eis que o reitor da Uenf declara em uma entrevista à afiliada local da TV Globo que, por falta de recursos federais, a instituição teria decidido lançar de uma vaquinha eletrônica para retomar o funcionamento do “laboratório de referência” que estaria com seu funcionamento paralisado desde o início do mês de agosto (o que, entre outras coisas, cidadãos acorrendo à unidades municipais de saúde têm sido orientados a pagar em torno de R$ 400,00 por testes em um dos laboratórios privados operando em Campos dos Goytacazes (ver vídeo abaixo) (ver vídeo abaixo).

A simples ideia da reitoria de uma universidade pública estar lançando mão de uma “vaquinha eletrônica” (como se dizia antigamente, passando o chapéu) junto à população afetada pela pandemia e pela crise econômica que a acompanha para adquirir os insumos necessários para os testes já é um tanto grotesca.  Afinal,  o orçamento da secretaria municipal de saúde de Campos é um dos maiores do Brasil, o que já torna curioso que não haja dinheiro “local” para financiar um laboratório cujo funcionamento o próprio prefeito declarou ser de suma importância.

Mas o problema não para aí. É que os servidores municipais e estaduais de todo o Brasil (os da Uenf e os da PMCG inclusos) tiveram seus salários e direitos trabalhistas congelados até dezembro de 2021 por meio do PLP 39/2020 em troca do desembolso de socorro financeiro a estados e municípios para o combate à COVID-19. No caso de Campos dos Goytacazes, o montante alocado foi de R$ 47.225.433,15, enquanto que o montante direcionado para o estado do Rio de Janeiro teria sido de R$ 247.360.000,00.

E o que seria um item mais justificável para ser adquirido pela prefeitura e pelo governo do estado com essa bolada que no seu nascedouro pune os servidores públicos? Em outras palavras, não há como justificar essa “vaquinha eletrônica” que o reitor da Uenf está promovendo quando se considera os milhões entregues pelo governo federal para o combate à COVID-19 no Rio de Janeiro. Aliás, quem sabendo do que está sendo informado acima, vai tirar de onde não se tem para custear exames que já foram motivo de entrega de recursos do governo federal?

Nisso tudo fica ainda a estranheza de que seja o reitor da Uenf que esteja saindo a campo atrás do dinheiro necessário para fazer funcionar um laboratório localizado em um hospital municipal? Por onde anda o prefeito nessas horas? Tomou o doril que a população não encontra nos hospitais municipais e sumiu? Esse ação com tintas de puro voluntarismo desafia, entre outras coisas, o senso comum. É que no contexto de dura crise econômica e social em um município que tem mais desempregados do que empregados, pedir que a população pague os custos de um laboratório que deveria ser gratuito não faz o menor sentido.

Com a palavra a Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes a quem cabe fiscalizar os atos do prefeito da capital do açúcar e do chuvisco. 

O mundo pós COVID-19

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*Por Marcelo Souza

Hoje, bem que gostaria de ter uma bola de cristal ou alguma espécie de poder para conseguir prever o que acontecerá nos próximos 6 seis meses, mas infelizmente, ou talvez felizmente, não vivemos nas telas de Hollywood. Então só nos resta uma análise dos dados disponíveis e a observação de macro tendências, a fim de elaborar uma predição de como será o mundo pós COVID-19. Na última década, em especial, estávamos vivendo um momento de profundas transformações, uma onda de mudanças jamais vistas, batizada pelo professor Klaus Schwab em 2010, como a quarta revolução industrial. Desde a maneira como compramos, nos entretemos, nos relacionamos, negociamos, registramos ou nos movimentamos, para citar somente algumas áreas, presenciamos a desmaterialização de ativos e tudo, ou praticamente tudo que queremos e precisamos, passou a estar na palma de nossas mãos, a um clique.

Surge uma nova era, a das startups, empresas de garagem que geram valor de mercado, antes inimagináveis, com pouquíssimo capital inicial, incomodando sólidas organizações bem posicionadas no mundo dos negócios. A década de 2020 inicia-se com grande expectativa, como sendo a primeira da nova era: a quarta revolução industrial. Havia muita expectativa para esse novo período e quando tudo parecia tecnologicamente em escala exponencial, surgiu uma ameaça biológica, um vírus que, assim como os unicórnios corporativos, possui uma escala de crescimento exponencial. A partir disso, percebemos que toda a nossa tecnologia, alta capacidade de processamento, capital, governos e recursos vastos, não foram capazes de deter a sua impressionante e global evolução.

Nos dias que antecederam o shutdown do Brasil, assim com os primeiros dias posteriores, o sentimento de angústia e vulnerabilidade profunda, foram únicos e nos vimos em meio à um mar revolto com poucos recursos. Contudo em um momento de profunda reflexão, um slogan surge e nos descreve como sendo capazes de continuar avançando, não importa a tormenta. Dos ovos quebrados se faz um omelete, então sempre haverá oportunidade e em meio às crises, onde todos estão no mesmo barco, surgem novos negócios e maneiras de ver e viver a vida. Sem dúvida alguma, a COVID-19 marcará o mundo e atuará com o um catalisador para acelerar ainda mais a quarta revolução industrial.

Novas tendências ficam claras para o pós COVID-19, principalmente voltadas para social mídia, educação, trabalho remoto, liderança, conectividade, solidariedade, família, economia circular, capitalismo social e meio ambiente. Essas são algumas das áreas sobre as quais é possível predizer grandes mudanças.

Mídias sociais

As mídias sociais, ganharam ainda mais relevância e estão presentes na vida de quase todas as pessoas. O encapsulamento levou os mais avessos à tecnologia a mergulharem nelas e com as plataformas na palmas das mãos, se tornaram consumidores e geradores de conteúdo, consumidores e vendedores dos mais diversos tipos de produtos. As hashtags deram força às opiniões populares.

Educação e Trabalho Remoto

Já era realidade para setores como tecnologia e serviços, mas agora ganha uma escala sem precedentes. Percebemos que não é necessário estarmos todos juntos e no mesmo lugar para gerar valor reuniões se resumiram em um e-mail, dias de trabalho e viagens se compactam em uma rápida conversa virtual, sem contar as aulas dentro de seu quarto ou na varanda de casa. Sem dúvida seremos mais eficazes, o que nos gerará mais tempo para outras atividades.

Liderança

A COVID-19 levará as habilidades de liderança a um novo patamar, à liderança sem contato, por direcionamento aos resultados, sem registro de pontos, sem sessões de trabalho, mas com reuniões muito mais produtivas, eficazes, ágeis e inclusive, muitas vezes, via plataformas.

Conectividade

Estará vivendo todo o seu esplendor, mudando a dinâmica de tudo e todos, com previsão de um mundo conectado em sua totalidade até 2022, acelerando radicalmente tudo a nossa volta. A singularidade Homem – Máquina e a inteligência artificial apoiando a inteligência emocional será cada vez mais real por conta da COVID-19. O que ainda para muitos era mero entretenimento, ganhará uma conotação de essencialidade e ferramenta de sucesso para os negócios.

Solidariedade

A pandemia instaurada no mundo e o isolamento estão gerando uma grande consciência social e solidariedade com o próximo. Todos os dias é possível observar novas iniciativas de apoio aos mais vulneráveis. Concorrentes atuando juntos para produzirem itens necessários como máscaras, álcool em gel, equipamentos hospitalares. Cessar fogo em regiões de conflitos armados, crenças distintas agora juntas. O inimigo é comum e perigoso, não há tempo para brigas. A COVID-19 deixará um legado de um mundo com mais consciência e preocupação com o próximo.

Família

O shutdown que nos forçou ao isolamento e nos conectou mais, mesmo que nesse momento via plataformas, com pessoas com que temos maior vínculo e nossas famílias, esse contato aliado à essa sensação de vulnerabilidade e risco de perda, muda a ótica de performance, carreira e resultados. De que adianta excelentes números sem as pessoas que de fato são importantes para minha vida?

Economia Circular e Capitalismo Social

Ponto que desde 2016 durante o Fórum Econômico Mundial, vem ganhando força. O chamado caminho do meio, entre as teorias da economia, ganhou na quarta revolução industrial a energia necessária para escalar e erar valor com outras primícias. A COVID-19 irá catalisar modelos de negócios como compartilhamento, pensamento social, repúdio à obsolescência programada, preservação de recursos naturais e o setor de serviços. O pensamento passará a ser: para que possuir se posso usufruir?

Meio Ambiente

A Itália que vem sofrendo severo impacto com a COVID-19, registra queda de 40% em suas emissões atmosféricas. Em Veneza é possível contemplar a beleza de águas cristalinas em seus famosos canais, ao ponto de ser possível ver peixes nadando serenamente. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo de petróleo registra forte redução. Praias no litoral paulista e nordestino do Brasil passaram a ser novamente local de visitação de tartarugas marinhas. A interrupção da rotina como estávamos acostumados, está colaborando para a redução de emissões atmosféricas, que geram o aquecimento global. Somente na China, o resultado já supera as 100 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono, CO2, economizadas, sendo uma redução mundial de 6%. A queda de dióxido de Nitrogênio, NO2, nas últimas semanas chega a 39% em escala mundial.

Após a COVID-19 é claro que o mundo nunca mais será o mesmo em relação a diversos aspectos como hábitos, valores, consumo, relacionamento e meio ambiente. A percepção do mundo e de vida não será mais a mesma. Infelizmente, foi necessário sermos assolados por uma pandemia, sofrer a perda de vidas humanas para poder mudar nosso mindset e ver que somos mais frágeis do que imaginávamos, mas que existem outras formas de conduzir nossas vidas, que o que se perde no fogo, se acha nas cinzas.

*Marcelo Souza é CEO da Indústria Fox, pioneira na reciclagem de refrigeradores com destruição dos gases do efeito estufa.

Coronavirus: AstraZeneca suspende temporariamente testes de vacinas

Decidido após a reação negativa de um paciente, o intervalo afeta um dos projetos ocidentais mais avançados. Testes globais foram lançados em vários países, incluindo o Reino Unido e os Estados Unidos.

Virus Outbreak VaccinesPesquisadores do laboratório farmacêutico AstraZeneca trabalham em uma vacina contra o coronavírus, em Garin (Argentina), no dia 14 de agosto. NATACHA PISARENKO / AP

Por Arnaud Leparmentier para o Le Monde

Donald Trump sonha com uma vacina contra a COVID-19 que o salvaria um dia antes da eleição presidencial dos EUA em 3 de novembro. O caminho promete ser delicado: o laboratório britânico AstraZeneca anunciou, terça-feira, 8 de setembro, à noite, a suspensão do ensaio clínico de fase 3 de sua vacina, desenvolvido em conjunto com a Universidade de Oxford, por conta do reação negativa de um dos pacientes do Reino Unido.

“Iniciamos uma pausa na vacinação como parte de nosso processo para permitir a revisão dos dados de segurança” , disse um porta – voz da AstraZeneca ao Financial Times . “Este é um check-up de rotina que deve ocorrer sempre que houver uma condição potencialmente inexplicada em qualquer um dos testes, a fim de garantir que a integridade de nossos testes seja mantida. “ Os dados serão analisados ​​por um comitê independente. A pausa afeta um teste lançado com 30 mil pessoas nos Estados Unidos no final de agosto, com financiamento federal.

O anúncio, que fez com que as ações da AstraZeneca caíssem nas negociações não oficiais após o fechamento de Wall Street, veio quando os chefes de nove grupos farmacêuticos, incluindo a AstraZeneca, advertiram Donald Trump, sem citá-lo, contra uma autorização apressada de uma vacina. Em seu comunicado à imprensa, eles reafirmaram seu “compromisso de desenvolver e testar vacinas potenciais contra a Covid-19 com altos padrões éticos e princípios científicos sólidos” . Os laboratórios especificam, em particular, que não solicitarão “uma autorização para o uso de emergência de uma vacina até que esta tenha demonstrado a sua segurança e eficácia através de um estudo clínico de fase 3” .

Corrida contra o tempo político

Em questão, a corrida contra o relógio político que substituiu a corrida contra o relógio médico. “Vamos ter a vacina muito rápido, talvez antes de uma certa data. Você sabe de que data estou falando ”, disse Trump na segunda-feira, 7 de setembro, enquanto suas equipes de campanha, citadas pelo New York Times, acreditam que uma vacina pré-eleitoral seria o “ Santo Graal ”. Dos nove signatários (AstraZeneca, BioNTech, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Merck, Moderna, Novavax, Pfizer e Sanofi), três estavam em ensaios clínicos de fase 3 ( Moderna, Pfizer, em associação com BioNTech e AstraZeneca). Se o chefe da Pfizer avaliou que poderia ter resultados já em outubro, a Moderna mencionou o fim do ano, enquanto o anúncio do revés pela AstraZeneca mostra que nada é certo.

Autoridades federais apelidaram o plano de uma vacina de “operação ultrarrápida “, mas seu cientista-chefe, Moncef Slaoui, disse na semana passada que as chances de obter uma vacina até no final de outubro eram “muito, muito baixas” . Desde o início da pandemia, 189.000 morreram de Covid-19 nos Estados Unidos.

Na semana passada, as autoridades federais dos Centros de Controle de Doenças convidaram os governadores e autoridades de saúde dos cinquenta estados federados a se prepararem para uma possível distribuição da vacina já neste outono, para pessoal médico e estratégico e para pessoas em risco (mais de 65 anos, população indiana, em particular): os produtos se chamam “vacina A” e “vacina B”, mas, segundo a imprensa americana, são vacinas desenvolvidas pela Pfizer-BioNTech e Moderna.

Desconfiança pública

O caso, de fato, merece preparação, essas vacinas potenciais devem ser armazenadas em temperatura muito baixa (menos 20 graus Celsius, menos 70 para a Pfizer-BioNTech). O governo se comprometeu a disponibilizar 300 milhões de doses até janeiro de 2021, o que significa solicitar injeções com antecedência, das quais não sabemos a eficácia. Essa estratégia tem sua lógica: é melhor correr o risco financeiro de perder as doses se os testes não forem conclusivos do que de um atraso na fabricação, que é custoso em termos humanos e financeiros, em caso de resultado favorável. Mas pode despertar desconfiança.

As empresas farmacêuticas estão, porém, preocupadas com a politização da ciência, o que pode levar à comercialização de uma vacina que não atenda aos padrões habituais da Food and Drug Administration (FDA) e acentuar a desconfiança da população americana. . Isso costumava ser reduzido a poderosos movimentos antivacinas – os Estados Unidos também foram atingidos pelo ressurgimento global do sarampo em 2019 – mas agora é mais amplo, devido ao temor de manipulação política. De acordo com o New Yorker , entre um terço e metade dos americanos poderiam recusar a vacina contra a Covid-19. O Ministério da Saúde pretende lançar até novembro uma campanha publicitária a favor da vacinação, com o apoio de personalidades americanas.

O FDA anunciou que não permitirá uma vacina que não seja mais de 50% eficaz, em comparação com um placebo. Mas a atitude do presidente Trump afetou sua credibilidade. Este último defendeu com unhas e dentes a suposta eficácia da hidroxicloroquina, autorizada com urgência pelo FDA no final de março, antes de ser revogada em meados de junho. O FDA também autorizou o uso de plasma coletado de pacientes que desenvolveram anticorpos contra a COVID-19, mas essa decisão foi criticada, na ausência de um estudo com um grupo de placebo.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!].

Jair Bolsonaro, um mestre predigistador, em (en) cena no 7 de Setembro da COVID-19

Neste dia 7 de Setembro, com o Brasil tendo ultrapassado 126 mil mortos por COVID-19, o presidente Jair Bolsonaro pôs novamente o seu show na Esplanada dos Ministérios, com direito a caminhada sem máscara com crianças.  Mas ele e sua equipe também abusaram dos ângulos fechados para mostrar o encontro, onde também não portava máscara, com um punhado pequeno de apoiadores sob a desculpa de celebrar o dia da Independência.

Mas as imagens abaixo mostram que esse encontro não passou de mais um truque de ilusão, pois o que no ângulo parecia massivo, do alto se revelou uma reunião de poucos, ainda que apaixonados apoiadores.

bolso 2 tempos

O problema para o presidente Jair Bolsonaro é que com o preço de 5 Kg de arroz ultrapassando R$ 40,00 na maior parte do Brasil, ele precisará mais do que truques de mágica para continuar governando sob risco de sair de cena de forma inglória.

E não nos esqueçamos que no ritmo que anda o Brasil ainda conviverá com a COVID-19 até que haja a aplicação em massa de uma vacina que ainda está por vir. Até lá continuaremos contando os mortos e ouvindo a negação cada vez mais insustentável de que a COVID-19 não passa de uma “gripezinha”.

Relatório mostra que tolerância ao desmatamento e  COVID-19 apresentam riscos fundamentais para os negócios da JBS

A empresa brasileira JBS SA é a maior processadora de carnes do mundo por vendas. A empresa opera cinco unidades de negócios principais: JBS Brasil, Seara, JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride. Este artigo avalia a exposição ao desmatamento e os riscos físicos e de transição das operações da JBS no Brasil. A CRR localizou e monitorou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos da JBS em seis estados da Amazônia. Além disso, o CRR calcula a receita e o impacto do EBITDA do desmatamento, da demanda chinesa e do COVID-19 em três cenários prospectivos.

Baixe o PDF aqui: JBS: Desmatamento Extraordinário na Cadeia de Suprimentos, COVID-19 Pose Fundamental Business Risks

CRR realizará um webinar sobre este relatório em 11 de setembro

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Principais conclusões:

  • A JBS tem uma presença crescente no mercado chinês. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20. A empresa se beneficiou da crescente dependência chinesa das importações de carne depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país.
  • Desde 2016, a JBS expressa a intenção de listar seus ativos internacionais nos Estados Unidos. A listagem nos Estados Unidos consistiria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou sua intenção de vender metade de suas ações.
  • As operações de carne bovina da JBS no Brasil têm uma exposição exagerada ao risco de desmatamento. A JBS opera 20 frigoríficos na Amazônia Legal. O monitoramento da conformidade do fornecedor pela empresa é limitado ao seu fornecimento direto. Seus riscos indiretos da cadeia de suprimentos permanecem inalterados.
  • Desde 2008, foram desmatados 20.296 ha na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhões de ha em sua cadeia de suprimentos indireta.
  • Tanto o desmatamento quanto o COVID-19 podem impactar as receitas da empresa, a estrutura de custos e o valor dos ativos. Os riscos de negócios incluem o fechamento de fábricas COVID-19; ação do acionista; restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; o crescente cansaço do consumidor chinês por carne importada; e disponibilidade de substituições baseadas em plantas.
  • Em um cenário de “alto impacto”, o EBITDA da JBS poderia ser impactado negativamente em 26% ou US $ 1,3 bilhão, levando ao aumento dos custos de financiamento. O custo de capital da JBS pode aumentar, já que quase um terço de seu financiamento é feito por meio de investidores e bancos europeus que estão adotando políticas ESG mais rígidas.

JBS depende cada vez mais das receitas dos EUA e dos mercados de exportação da China

Maior processadora de carnes do mundo com sede no Brasil, mas com atuação global

A JBS SA é uma empresa brasileira que atua principalmente no processamento de carnes. As atividades da JBS se concentram na produção de uma variedade de produtos bovinos, suínos e de aves. Seus produtos são distribuídos sob diversas marcas, como Friboi, Swift, Bertin, Pilgrim’s, entre outras. A empresa também opera negócios relacionados, como couro, biodiesel, higiene pessoal e limpeza, gestão de resíduos sólidos e embalagens metálicas. A JBS atua em 15 países diferentes.

A JBS é a maior processadora de carnes do mundo em vendas. Possui 400 unidades produtivas, instalações e escritórios, dos quais 230 são destinados à produção de produtos bovinos, suínos, ovinos e avícolas. A empresa está listada na bolsa de valores de São Paulo desde 2007 e recebeu apoio financeiro significativo do banco de desenvolvimento brasileiro BNDES. Com esse financiamento público, a JBS fez diversas aquisições nacionais e internacionais. A família fundadora Batista mantém uma participação de 39,8 por cento.

A empresa opera cinco unidades de negócios principais:

  • A JBS Brasil compreende a produção brasileira de carne bovina e couro da empresa. A JBS administra 37 frigoríficos em todo o Brasil e 24 instalações de produção de couro de todo o mundo. Além disso, possui 18 centros de distribuição e cinco confinamentos para gado de corte. A JBS Brasil gerou receita de R $ 16,9 bilhões (US $ 3,1 bilhões) no 1S20, (14,0% da receita consolidada ajustada para eliminações entre empresas), um aumento de 21,1% em relação ao 1S19. A participação nas receitas do mercado de exportação aumentou de 40% no 1T20 para  51% no 2T20.
  • A Seara é a unidade produtora e exportadora de frangos e suínos da empresa . A unidade produz carnes para o mercado interno brasileiro e exporta para mais de 100 países. Ele tem 30 unidades de processamento de aves, oito unidades de processamento de suínos, 20 instalações de alimentos preparados, e 18 centros de distribuição localizados em todo o Brasil. A Seara foi responsável por 1% da receita da JBS no 1S20, da qual 54,7% veio do mercado externo no 2T20.
  • JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride controlam as operações da empresa na América do Norte, Europa e Austrália. Entre outras instalações, essas três unidades de negócios operam 18 abatedouros de bovinos, cinco abatedouros de suínos e 36 unidades de avicultura. A JBS USA foi responsável por 1% da receita no 1S20.

A JBS tem uma presença cada vez maior no mercado chinês, maior destino das exportações da empresa. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20 . A empresa se beneficiou nos últimos anos da crescente dependência da China nas importações de carne, depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país. Em janeiro de 2020, a JBS assinou um memorando de entendimento com o WH Group, um grande frigorífico com sede em Hong Kong, para fornecer até R $ 3 bilhões (reportados como US $ 717 milhões na época) em produtos bovinos, de aves e suínos para os chineses mercado anualmente. Esta parceria ocorreu após um acordo em novembro de 2018 com a Alibaba no valor de US $ 1,5 bilhão.

Listagem nos EUA, desinvestimento do BNDES não antes de 2021

O IPO foi adiado em 2017 devido a investigações visando proprietários

Desde 2016, a JBS tem manifestado repetidamente sua intenção de reestruturar seus negócios com uma listagem de seus ativos internacionais nos Estados Unidos. O principal fator por trás desses planos de reestruturação é o descasamento entre a estrutura de capital da empresa e sua estrutura operacional. Uma listagem nos Estados Unidos desbloquearia o valor para o acionista de um modelo de negócios que depende principalmente de transações em dólares americanos, mas que reporta suas finanças em reais. Sinais de que a empresa estava progredindo com essa listagem ressurgiram em novembro de 2019.

A listagem nos Estados Unidos resultaria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. As operações no Brasil continuariam sob a JBS SA, a entidade atualmente listada na bolsa de valores de São Paulo. Considerando que a empresa estava pronta para seguir em frente em março de 2020, os impactos do surto de COVID-19 desviaram o foco da empresa da listagem. Em agosto de 2020, o CEO Gilberto Tomazoni indicou que a empresa retomou os planos de listagem, mas isso “ não pode acontecer este ano

Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou em novembro de 2019 sua intenção de vender metade de suas ações da JBS. A BNDESPar, braço de investimento de capital do banco de desenvolvimento do Brasil BNDES, detém uma participação de 21,3 por cento na JBS. A JBS responde por 20%  da carteira do BDNESPar. O BNDES contratou diversos bancos de investimento e planejou um roadshow para vender sua participação após a divulgação dos resultados da JBS do 4T19. A venda seria feita em uma única parcela e estava prevista para junho de 2020, mas a pandemia do COVID-19 interrompeu esse processo. Em julho de 2020, relatórios disse que a BNDESPar começaria com outros desinvestimentos primeiro, e que vendas mais complexas, como sua participação na JBS, ocorreriam em uma data posterior não revelada.

Como resultado dos repetidos atrasos em sua reestruturação corporativa, a JBS permanece em um estado contínuo de incerteza. Os planos para a listagem nos EUA foram repetidamente desviados devido a investigações criminais em 2017 e surtos de pandemia em suas instalações em 2020.

JBS tem uma exposição exagerada ao desmatamento em sua cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira

As operações de gado da JBS no Brasil há muito tempo estão associadas ao desmatamento na Amazônia. Após intensas campanhas da sociedade civil, a JBS foi um dos maiores produtores de carne bovina do Brasil a firmar Acordos multilaterais de Pecuária com organizações da sociedade civil em 2009 para aumentar a sustentabilidade do setor. A empresa também assinou Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos com o Ministério Público Federal. A JBS tem uma meta de desmatamento zero e se compromete publicamente a abster-se de obter matérias-primas de fazendas que sejam:

  • envolvido com o desmatamento no bioma Amazônia após 2009;
  • enfrentando embargos ambientais;
  • vinculado a qualquer tipo de trabalho forçado;
  • localizadas em terras indígenas ou em áreas de preservação ambiental.

A JBS também está envolvida em várias iniciativas com várias partes interessadas, incluindo a Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura, a Tropical Forest Alliance (TFA) e o Protocolo da Cadeia de Suprimentos.

A JBS rastreia a conformidade do fornecedor por meio de um sistema de monitoramento socioambiental que usa imagens de satélite e georreferenciamento de dados para analisar 50.000 fornecedores de gado na Amazônia diariamente. Por meio desse sistema, a empresa monitora uma área de 45 milhões de hectares (ha). A empresa irá bloquear fornecedores que não estejam em conformidade com as políticas da JBS em compras futuras. A JBS indicou ao CRR que mais de 9.000 fazendas foram bloqueadas até o momento. Os auditores independentes encontraram uma taxa de conformidade de 99,9% com essas políticas.

O sistema de monitoramento da JBS é limitado aos seus fornecedores diretos de gado , e a empresa ainda não possui sistemas para monitorar sistematicamente seus fornecedores indiretos . A empresa declarou publicamente que “a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento de carne bovina é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa”. A empresa informou ao CRR que está em discussões ativas com o Ministério da Agricultura do Brasil para explorar a possibilidade de criar os chamados “GTAs Verdes” – registros de transporte de animais que incluiriam informações sobre embargos ambientais e de trabalho escravo. Essas discussões estão em andamento desde pelo menos 2013, e os relatórios de auditoria independente de 2019 descreveram esses esforços como “ ainda não bem-sucedidos. ” Além disso, a JBS está testando tecnologias de blockchain e índices teóricos de produtividade como medidas para lidar com a exposição indireta da cadeia de suprimentos. O índice teórico de produtividade visa abordar o risco de “lavagem de gado”, avaliando o tamanho de uma propriedade e a quantidade de gado que ela fornece.

Apesar de suas medidas, a JBS continua ligada ao desmatamento ilegal em sua cadeia de abastecimento, e uma proporção não especificada da pegada de desmatamento da cadeia de abastecimento da JBS pode estar violando o Código Florestal do Brasil . Vários meios de comunicação descobriram que a JBS comprou gado de fazendas desmatadas ilegalmente em Rondônia e no Pará . De acordo com um relatório de março de 2020 do Guardian , a JBS indiretamente era proveniente de uma fazenda em Rondônia cujo proprietário estava implicado no assassinato de nove pessoas em Mato Grosso. A JBS nega que exista vínculo entre a empresa e o proprietário da fazenda. Conforme informado em julho de 2020, em Mato Grosso, a JBS transportou vacas de fazendas embargadas para fazendas “limpas” que atendam aos protocolos de abastecimento da JBS. Em 2017, a JBS foi multada em R $ 24 milhões (US $ 4,3 milhões) por comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente no Pará. A JBS indicou à CRR que apelou da multa.

A JBS opera um total de 37 frigoríficos de gado no Brasil, dos quais 20 estão localizados na Amazônia Legal. Um estudo anterior que avaliou os riscos de desmatamento dos frigoríficos com base em zonas de compra projetadas concluiu que a JBS tinha a maior exposição de todos os frigoríficos ativos na Amazônia. Com base em suas localizações, oito frigoríficos da JBS tinham riscos de desmatamento projetados de 600.000 ha cada.

Figura 1 : Localização dos Frigoríficos JBS Bovinos no Brasil

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base no Ministério da Agricultura e JBS .

75.000 ha de desmatamento detectados na amostra da cadeia de suprimentos direta e indireta da JBS 

Com base nos dados de transporte de animais e cadastro rural, o CRR localizou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos (ver Figura 2) para a JBS nos estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará e Tocantins (ver Anexo para Metodologia CRR). Essas fazendas enviaram um ou mais lotes de gado diretamente para um matadouro da JBS ou para outra fazenda que posteriormente vendeu gado para a JBS. Com base nos 90.000 fornecedores informados pela JBS, o conjunto de dados do CRR constitui aproximadamente 1,1 por cento da cadeia de fornecimento direto da JBS em todo o Brasil. A amostra representa cerca de 10 por cento da cadeia de abastecimento direto nos seis estados mencionados acima.

Figura 2: Amostra de 983 fornecedores JBS diretos e 1.874 fornecedores JBS indiretos

Fonte: Chain Reaction Research, com base em dados do Ministério da AgriculturaJBS e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

O conjunto de dados fornece uma amostra granular da origem do gado abatido nas instalações da JBS e permite uma avaliação direcionada dos riscos de desmatamento nas cadeias de suprimento direta e indireta. A Figura 4 ilustra as localizações confirmadas dos fornecedores diretos e indiretos das instalações da JBS nos municípios de Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT). Essas propriedades estão dentro da zona de compra potencial do mesmo matadouro identificado em estudos anteriores .

Figura 3: Localização da amostra dos fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base em Ministério da Agricultura , JBS , Imazon e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

Figura 4: Desmatamento em amostra de fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Desde 2008, foram detectados desmatamentos confirmados de 20.296 ha nas 983 propriedades identificadas na cadeia de abastecimento direta da JBS . Essa mudança no uso da terra representa 0,85% da área acumulada das fazendas identificadas, com um desmatamento médio de 20,65 ha por fazenda. Aproximadamente 70 por cento (14.655 ha) dos desmatamentos detectados ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. Os sistemas de monitoramento da cadeia de suprimento direto da JBS são menos desenvolvidos no bioma Cerrado do que na Amazônia, pois os dados de satélite do desmatamento do Cerrado não são integrados aos sistemas internos da JBS.

Os números absolutos e relativos de desmatamento confirmam que a exposição da JBS é maior em sua cadeia de suprimentos indireta do que em sua cadeia de suprimentos direta. A CRR identificou 50.852 ha de desmatamento nas 1.874 fazendas identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS após a data de corte de 2008 do Código Florestal do Brasil. Isso representa 1,44% da área acumulada dessas propriedades, com uma média de 27,13 ha por fazenda. Apesar dos esforços da empresa para resolver o problema, o desmatamento na cadeia de fornecimento indireto ainda está fora do escopo de sua política de desmatamento zero. Assim, a exposição ao risco de desmatamento associado permanece totalmente não mitigada. A falta de mitigação permite a chamada “ lavagem de gado,” Por meio do qual o gado é transferido de fazendas não conformes para fazendas conformes para que os agricultores mantenham o acesso ao mercado para os matadouros.

Figura 5: Exemplo de fazenda em Novo São Joaquim, Mato Grosso com desmatamento de 371 ha (à esquerda) que fornecia gado a um fornecedor direto da JBS em Tesouro, Mato Grosso com desmatamento mínimo (à direita)

A exposição adicional ao desmatamento pode estar presente em fazendas adjacentes aos fornecedores diretos identificados. A titulação de terras e as autodeclarações fraudulentas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) podem resultar na fragmentação das fazendas em entidades administrativas separadas pertencentes às mesmas empresas ou indivíduos. Em vários exemplos conhecidos, o desmatamento ocorreu em uma parte da fazenda enquanto o gado era fornecido por outra parte que foi registrada separadamente. Na realidade, essas peças pertencem a uma única fazenda com um único proprietário. Essa exposição não é capturada nos números apresentados neste relatório, mas pode constituir um risco adicional de desmatamento não mitigado. A JBS indicou ao CRR que a responsabilidade pela apuração dos dados do CAR é dos órgãos oficiais competentes.

Figura 6: Exemplo de desmatamento em fazenda em Nova Canaã do Norte, Mato Grosso adjacente a fornecedor direto da JBS. Ambas as propriedades estão registradas sob o mesmo proprietário

Pegada de desmatamento estimada de 1,7 milhão de ha até o momento, com 64 milhões de ha de floresta em risco 

A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS desde 2008 pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhão de ha em sua cadeia de suprimentos indireta. Esses números são extrapolações do desmatamento médio por fazenda para o número total de fazendas para as quais existem registros da cadeia de abastecimento (ver Figura 7) e incluem apenas os estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, e Tocantins. Entre outros, os dados excluem dados dos estados amazônicos de Rondônia (quatro frigoríficos da JBS) e Acre (um frigorífico da JBS).

2,1 milhões de ha de vegetação nativa permanecem nas 1.874 propriedades identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Extrapolando esse número, o CRR projeta impressionantes 64 milhões de hectares de florestas remanescentes na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Isso é quase o equivalente à ilha do Sri Lanka ou ao estado americano da Virgínia Ocidental. A mencionada ausência de medidas mitigadoras pode colocar em risco essas florestas nos próximos anos.

Figura 7: Estimativas de exposição da JBS ao risco de desmatamento nas cadeias produtivas diretas e indiretas em GO, MG, MS, MT, PA e TO

* As propriedades foram identificadas nos registros do GTA 2019. As propriedades foram localizadas por meio de comparação com os dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI) ** Desmatamento calculado com base em dados anuais do PRODES confirmados desde 2008 *** Vegetação remanescente calculada com base nos dados do INPE e FREL. **** Calculado com base nas médias dos imóveis localizados multiplicados pelo número total de imóveis identificados. Vegetação remanescente calculada apenas para a cadeia de abastecimento indireta devido à falta de medidas de mitigação. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

COVID-19, desmatamento representam ameaças fundamentais ao modelo de negócios da JBS SA

A análise de cenário mostra como os riscos físicos e de transição podem afetar as receitas e o valor dos ativos

Além da longa exposição ao desmatamento, a JBS foi fortemente afetada pelo surto de COVID-19 deste ano, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Nos EUA, surtos em suas fábricas no Colorado , Utah , Michigan , Wisconsin , Texas , Nebraska , Minnesota e Pensilvânia afetaram milhares de trabalhadores. Em resposta, a JBS comprometeu US $ 120 milhões para fundos destinados a combater a pandemia e implementou uma série de medidas preventivas de segurança.

Em 24 de abril de 2020, um surto de COVID-19 em uma avícola da JBS no estado brasileiro do Rio Grande do Sul marcou o primeiro surto em grande escala em uma frigorífica brasileira. Este caso marcou o início de um surto mais amplo em frigoríficos nos estados do sul do Brasil, onde a maioria das instalações de produção de aves e suínos do país. No final de junho, 32 fábricas operadas por várias empresas no estado do Rio Grande do Sul apresentavam trabalhadores infectados com COVID-19. De acordo com promotores do trabalho estaduais, os trabalhadores da carne representam mais de 25% dos 19.710 casos confirmados de infecção no estado. Pelo menos cinco carniceiros gaúchos e 12 familiares ou amigos morreram em decorrência da doença. Testes positivos também foram relatados para trabalhadores das instalações da JBS em Goiás e oito fábricas da JBS em Mato Grosso .

Tanto a crescente preocupação com o desmatamento na Amazônia quanto as respostas globais ao COVID-19 podem ter impactos de longo prazo nos negócios da JBS e apresentar uma gama de riscos comerciais diferentes. Apesar do forte desempenho financeiro da JBS nos últimos trimestres , esses riscos podem impactar negativamente o modelo de negócios da empresa. Esta seção analisa vários cenários para cada um dos riscos identificados, em linha com as metodologias desenvolvidas no contexto da Força-Tarefa para Divulgações Relacionadas ao Clima (TCFD).

1.     Risco Físico: Fechamento de planta por causa de surtos de COVID-19

Após a detecção dos surtos de COVID-19, a JBS fechou temporariamente várias de suas fábricas de carnes nos Estados Unidos e no Brasil, voluntariamente ou por ordem judicial. Conforme relatado em artigos da mídia, fechamentos incluídos;

A maioria desses fechamentos foi temporária e a produção reiniciada em questão de semanas. Em alguns casos, os fechamentos resultaram em interrupções significativas na cadeia de abastecimento , com animais de fazenda mortos nas fazendas fornecedoras, mas não processados ​​em produtos de carne. Na outra ponta da cadeia, os fechamentos deixaram as prateleiras de carnes vazias nas lojas. No Rio Grande do Sul, um porta-voz da associação dos produtores de carne indicou que as paralisações ainda não afetaram os números da produção. No entanto, na época deste relatório, o Brasil tinha o segundo país com mais casos de COVID-19 em todo o mundo e continuava com taxas diárias elevadas de novas infecções. Os frigoríficos continuam a ser os hotspots da COVID-19 e é provável que mais encerramentos se sigam, apesar das medidas de prevenção e controlo tomadas. Além de fechamentos de fábricas, greves, protestos de trabalhadores e falta de pessoal como resultado de surtos de COVID-19, também podem afetar a produtividade.

A JBS não divulgou os impactos cumulativos dos fechamentos em seus números de produção. Com base nas capacidades médias diárias de processamento relatadas no Brasil e nos Estados Unidos, os impactos da paralisação das nove fábricas acima mencionadas são estimados em 10.439 cabeças de gado (13,9% da capacidade instalada), 691.000 frangos (16,1% da capacidade instalada) e 18.520 suínos (4,9% da capacidade instalada) por dia. Os fechamentos afetaram cerca de 4% de todas as instalações de processamento de carnes da JBS.

Figura 8: Cálculos para os impactos do tempo de inatividade diário estimado devido ao fechamento da planta COVID-19

* Calculado com base na capacidade agregada diária informada, dividida pelo número de usinas por país (JBS Formulário de Referência , p.164-166).

O fechamento temporário de fábricas pode impactar tanto as receitas da JBS quanto seus ativos biológicos e intangíveis. Cada dia de fechamento de fábrica tem um impacto linear negativo nas vendas e no lucro bruto. Fechamentos intermitentes repetidos podem ter os maiores impactos sobre os ativos biológicos da JBS (2019: R $ 5 bilhões / US $ 1,25 bilhão), enquanto os testes anuais de redução ao valor recuperável podem afetar o ágio das subsidiárias (2019: R $ 24,5 bilhões / US $ 6,1 bilhões) no saldo da JBS Folha. A Figura 8 mostra os impactos projetados sobre as receitas e ativos em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve sem novos fechamentos de fábricas; um cenário de médio impacto com fechamentos de plantas intermitentes durante 2H20; e um cenário de alto impacto com o fechamento total da fábrica pelos próximos 12 meses.

Figura 9: Impactos financeiros estimados de fechamentos de fábricas relacionadas a COVID-19 em três cenários prospectivos

* As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e nenhum fechamento adicional no futuro. ** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos intermitentes durante 2H20. Os cálculos são baseados em fechamentos de uma semana a cada mês por um período de seis meses. *** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos permanentes por um período de 12 meses. **** Cálculos com base nos impactos assumidos de eventos de 15% nas receitas e nos valores dos ativos. ***** Os cálculos do EBITDA não incluem baixas de ativos. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

2.     Risco de reputação: aumento das preocupações dos investidores e ação dos acionistas

As instituições financeiras internacionais estão cada vez mais cautelosas com os investimentos brasileiros, em particular no setor de frigoríficos. Em junho de 2020, um grupo de 30 investidores institucionais da Europa e Ásia apelou ao governo brasileiro para conter a destruição ambiental. Em uma carta pública, esses investidores sinalizaram sua intenção de se desfazer de ativos brasileiros – tanto corporativos quanto soberanos – e destacaram sua preocupação com a indústria de frigoríficos do Brasil e seu papel no desmatamento. Os investidores signatários representaram US $ 3,7 trilhões de ativos sob gestão. Pelo menos um investidor, Nordea Asset Management, seguiu adiante e anunciou que excluiu a JBS de todos os ativos que vende. Em agosto de 2020, foi relatado que o HSBC “soou alarmes” sobre seu investimento na JBS devido à inação do desmatamento. Essas ações seguem uma série de ações e engajamento dos acionistas com a JBS nos últimos anos:

  • Em março de 2020, 95 acionistas atuais e anteriores iniciaram arbitragem judicial, buscando R $ 1,4 bilhão (US $ 280 milhões) em compensação por danos causados ​​por práticas ilegais da JBS. As alegações dos acionistas são baseadas em declarações falsas e enganosas feitas pela JBS e seus diretores executivos desde seu IPO em 2007.
  • O Conselho de Ética dos Fundos de Pensão do Governo Nacional Sueco relatou seu envolvimento com a JBS em seu relatório anual de 2019: “ A Amazônia está mais uma vez em foco com o aumento de incêndios florestais ilegais durante o outono de 2019. O Conselho de Ética fortaleceu seu foco na produção de soja e pecuária com o objetivo de garantir que empresas como JBS, Bunge e Archer Daniel Midlands comprem seus produtos de partes legalmente desmatadas da Amazônia ”.
  • Em julho de 2018, o Norges Bank colocou oficialmente a JBS em sua lista de exclusão , seguindo uma recomendação do seu Conselho de Ética . Na época, a Norges possuía US $ 143 milhões em ações da JBS e citou “corrupção bruta” como critério de exclusão. A JBS mantém essa lista em março de 2020.
  • Em abril de 2018, a gestora de recursos holandesa APG votou contra a reeleição de três diretores da JBS. A APG está entre os dez maiores acionistas da JBS.

À medida que os investidores se cansam do clima político e econômico do Brasil e das preocupações com o aumento do desmatamento, a JBS SA pode ver uma saída de investidores atuais e reduzir significativamente o interesse de investidores em potencial. A redução do apetite do investidor também pode complicar significativamente o processo de venda de ações do BNDES. A maior parte da ação dos investidores provém atualmente de instituições financeiras europeias, que constituíram a maioria dos signatários da carta de junho de 2020 e assumiram a liderança em processos de envolvimento anteriores. Atualmente, 32% do financiamento total da JBS vem de investidores europeus.

Desinvestimentos, exclusões, recusa em conceder empréstimos e outras ações de instituições financeiras afetariam a estrutura de custos da JBS e, portanto, seu lucro líquido. Em particular, o custo da dívida pode aumentar se os bancos se recusarem a conceder empréstimos e a empresa for forçada a buscar novos financiadores em circunstâncias difíceis. A Figura 9 projeta os impactos financeiros das ações das instituições financeiras em três cenários: um cenário de baixo impacto com desinvestimento dos signatários da carta de junho de 2020; um cenário de médio impacto com desinvestimento dos signatários e de suas matrizes; e um cenário de alto impacto em que metade de todas as instituições financeiras europeias se retiram.

Figura 10: Impactos financeiros estimados da ação dos financiadores relacionados ao desmatamento em três cenários prospectivos

* As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro.    ** As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro e suas empresas controladoras. *** As premissas incluem desinvestimento e recusa em conceder empréstimos de metade de todos os atuais investidores europeus. **** Calculado com base em um aumento de 25 pontos base nas despesas de juros no cenário de impacto médio e um aumento de 50 pontos base no cenário de alto impacto. ***** Calculado como porcentagem em relação ao EBITDA 2019. Fonte: Chain Reaction Research

3.     Risco de mercado: Restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento

A COVID-19 pode resultar em restrições aos mercados de exportação de produtos cárneos da JBS produzidos em fábricas com surtos de vírus. Em junho de 2020, a China anunciou que aumentou suas inspeções de produtos de carne importados depois que uma segunda onda de infecções por COVID-19 começou devido a um surto em um mercado atacadista em Pequim. A alfândega chinesa não aceita mais licenças de importação de 15 frigoríficos . As quatro fábricas suspensas no Brasil incluem uma avícola da JBS. Este movimento ocorreu após uma suspensão anterior das importações de carne bovina da Austrália, possivelmente em retribuição às críticas da Austrália sobre a forma como a China lidou com o surto de COVID-19. As quatro frigoríficas australianas sujeitas a esta suspensão incluem duas fábricas de propriedade da JBS. A abordagem chinesa mais restritiva aos produtos de carne importados pode afetar particularmente as exportações brasileiras da JBS SA para a China, que tem sido um mercado de notável crescimento para a empresa nos últimos anos.

As preocupações com incêndios florestais e desmatamento também podem resultar em novas exclusões das cadeias de fornecimento corporativas por não conformidade com as políticas de compra responsável. Após os incêndios florestais de 2019 na Amazônia, as marcas globais de moda H&M e VF Corporation suspenderam todo o uso de couro originário do Brasil devido ao papel da indústria de gado nos incêndios. Em maio de 2020, um grupo de mais de 40 supermercados britânicos alertou o governo brasileiro que pode boicotar os produtos brasileiros se a legislação que permite um desmatamento mais rápido na Amazônia for aprovada. Em agosto de 2020, uma campanha do Greenpeace no Reino Unido exigiu ao varejista Tesco que corte todos os laços com a JBS. Com maiores taxas de desmatamento nos primeiros meses de 2020 e indicações de outra intensa temporada de incêndios, mais boicotes, exclusões e suspensões podem ocorrer.

Outras restrições às exportações para a China e a perda de clientes corporativos impactariam as receitas e as margens EBITDA da JBS. A China tem se tornado um mercado de vendas cada vez mais importante e a JBS investe em parcerias para vendas diretas ao consumidor. Clientes corporativos com compromissos de desmatamento zero provavelmente estão presentes em seus canais de vendas de couro e carne bovina. A Figura 10 mostra os impactos financeiros sob três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve, sem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de abastecimento; um cenário de médio impacto com um número limitado de futuras restrições à exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; e um cenário de alto impacto em que o acesso aos mercados chinês e europeu é significativamente restringido.

Figura 11: Impactos financeiros estimados do desmatamento e restrições de exportação relacionadas ao COVID-19 e exclusões da cadeia de abastecimento em três cenários prospectivos

* As suposições não incluem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de suprimentos além das já relatadas. ** As premissas incluem sete fábricas adicionais com futuras restrições de exportação para a China e futuras exclusões da cadeia de suprimentos representando o equivalente a 25% das vendas da UE. *** As premissas incluem acesso futuro totalmente restrito aos mercados chinês e europeu **** Cálculos baseados no número total de frigoríficos (230), vendas reportadas na China (US $ 2.803 milhões) e vendas reportadas na Europa (US $ 780 milhões). ***** Cálculos baseados nos impactos da receita e margens EBITDA da JBS Brasil (5,4%) e Seara (11,1%). As premissas subjacentes incluem uma participação de 75% das instalações brasileiras nos números totais de exportação da JBS. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

4.     Risco de reputação e tecnologia: cansaço crescente do consumidor chinês por produtos de carne importados e ameaças de substituição por proteínas vegetais

Além das restrições da alfândega chinesa, as tendências nas preferências do consumidor chinês também podem impactar negativamente o potencial de exportação de carnes da JBS. Tanto o surto de peste suína africana quanto o surto de COVID-19 levantaram questões entre os consumidores chineses sobre a segurança e a sustentabilidade das proteínas animais. As empresas de pesquisa de mercado projetam que o interesse por proteínas vegetais e carne cultivada em laboratório crescerá entre os consumidores na China nos próximos dez anos. Como as proteínas vegetais não são novidade para os consumidores chineses, a aceitação do mercado de produtos de carne alternativos é provável se os consumidores forem educados sobre os benefícios nutricionais, de saúde e segurança.

Fórum Econômico Mundial também observa que a demanda por proteína vegetal está aumentando na Ásia como resultado das suspeitas dos consumidores sobre possíveis ligações entre a carne animal e o COVID-19. Essa mudança na demanda é mais notável em Hong Kong e na China continental. O surto do vírus acelerou uma tendência contínua que já chamou a atenção dos rivais da JBS baseados em vegetais, Beyond Meat e Impossible Foods. Ambas as empresas internacionais e locais estão produzindo carnes alternativas usadas em bolinhos, macarrão, arroz e produtos de fast-food.

As proteínas de origem vegetal estão se tornando rapidamente um produto substituto viável e econômico das proteínas animais em meio a um rápido declínio nos custos de produção. Em maio de 2020, o CEO da Beyond Meat indicou que a empresa está pronta para competir diretamente com a carne bovina de verdade em termos de preço nos supermercados. O aumento nos preços da carne bovina causado pela COVID-19 desencadeou interrupções na cadeia de suprimentos diminuiu a diferença nos preços relativos. As margens brutas do Beyond Burger fornecem espaço para a empresa reduzir os preços de varejo a fim de capturar participação de mercado de produtos de carne reais. Em março de 2020, a Impossible Foods fez um movimento semelhante ao cortar os preços de seus produtos veganos em 15% . Tanto a Beyond Meat quanto a Impossible Foods entraram no mercado chinês.

As alternativas de carne vegetal podem reduzir a participação da JBS no mercado de carne chinês e suas receitas. Com as recentes parcerias da JBS com o WH Group e o Alibaba, as vendas diretas aos consumidores chineses se tornaram uma fonte de receita importante e crescente que pode estar em risco com esse desenvolvimento. A Figura 11 ilustra os impactos financeiros da perda de participação no mercado para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve em que a JBS perde 5 por cento de sua participação no mercado chinês para alternativas baseadas em plantas; um cenário de impacto médio em que perde 25% de sua participação no mercado chinês; e um cenário de alto impacto com uma perda de participação de mercado de 50%. A empresa pode ser capaz de mitigar esses riscos por meio de maiores investimentos em alternativas baseadas em plantas que a empresa já introduziu em vários mercados.

Figura 12: Impactos financeiros estimados da perda de participação no mercado chinês para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos

* As premissas incluem perda de participação de mercado para os concorrentes e não levam em consideração novas linhas de produtos de base vegetal que a JBS pode introduzir. ** Com base na receita líquida na China de US $ 3.737 milhões em 2019. *** Com base na margem EBITDA de 9,6% em 2019. **** Com base no ágio da JBS multiplicado pela participação chinesa nas vendas de 2019 e multiplicado pela resp. 5%, 25% e 50%.  Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Resumo dos quatro impactos financeiros e os três cenários

A soma dos quatro impactos, após a dedução da contagem dupla, pode impactar as receitas em 22 por cento e o EBITDA em 26 por cento no cenário de “alto impacto”. A dupla contagem refere-se à redução da receita chinesa que é calculada duas vezes no impacto do risco de mercado e no impacto da tecnologia.

Figura 13: Resumo de quatro impactos financeiros em três cenários

Fonte: Chain Reaction Research

EBITDA 2T20 acima do esperado devido ao desequilíbrio entre demanda e oferta

Os resultados do 2T20 surpreenderam os analistas principalmente por causa das margens relativamente altas nas operações de carne bovina nos Estados Unidos e no Brasil, mas o trimestre foi claramente um outlier.Na unidade da JBS Brasil (principalmente carne bovina), os animais “processados” caíram 15%, mas as exportações para a China aumentaram 53% em dólares. A margem EBITDA aumentou de 4,7 por cento no 2T19 para 12,4 por cento no 2T20. A JBS USA Beef (incluindo Austrália e Canadá) teve uma queda de 18% no volume devido ao fechamento de capacidade relacionado ao COVID-19. Porém, em meio a preços mais altos, à medida que a demanda continuava forte, a margem EBITDA cresceu de 8,9% no 2T19 para 20,4% no 2T20. Para o conjunto da empresa, a margem EBITDA do 2T20 foi de 15,5 por cento versus 6,9 por cento no 1T20 e 10,0 por cento no 2T19. A Figura 13 mostra que o 2T20 é um outlier, pois a margem EBITDA se desenvolve em uma faixa de 6,5-9,6 por cento em uma base anual entre 2015 e 2019.

chr 4Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020

O financiamento de US $ 10 bilhões pode estar em conflito com as políticas florestais

A JBS depende fortemente do financiamento da dívida e a dívida líquida / EBITDA se deterioraria significativamente em um cenário de alto impacto. Como os bancos e detentores de títulos têm o maior impacto no custo de capital de uma empresa, o alto nível de endividamento da JBS pode se tornar uma questão ESG importante para os financiadores que contratam a empresa. Cada vez mais, os principais bancos estão emitindo empréstimos vinculados a metas ESG. No final do 2T20, A dívida da JBS consistia em 66,5% de títulos e 33,5% de empréstimos bancários. Quase 94% da dívida é denominada em dólares americanos e 6,1% em reais. No final do 2T20, a dívida líquida era de US $ 10,0 bilhões, o que é superior à estimativa do consenso da Bloomberg de US $ 9,1 bilhões para o final de 2020. Embora a dívida líquida / EBITDA tenha melhorado recentemente, o cenário de alto impacto seria pro forma de US $ 1,3 bilhão dos US $ 4.962 milhões (2019) e levar a uma dívida líquida / EBITDA de 3,2X.

chr 3

Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020; F = previsão baseada em consenso.

Dos 20 maiores financiadores, metade deles – com US $ 10 bilhões em exposição ao JBS – tem políticas de desmatamento ou políticas que estão gradualmente se adaptando ao desmatamento zero. A Figura 15 resume os 20 maiores financiadores (excluindo as participações familiares) da JBS e suas afiliadas, incluindo JBS USA e Pilgrim’s Pride. No total, esses financiadores forneceram US $ 24,4 bilhões em serviços financeiros à JBS e suas afiliadas: US $ 13,5 bilhões em empréstimos, US $ 1,3 bilhão em títulos e US $ 3,3 bilhões em participações. E por meio de serviços de subscrição, a JBS recebeu US $ 6,3 bilhões.

Em 2019, o JPMorgan Chase (exposição de US $ 1,6 bilhão), empresa do grupo JPMorgan Asset Management, divulgou seu primeiro relatório climático baseado nas recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). As políticas do JPMorgan Chase cobrem todas as atividades do grupo . O grupo também é signatário ou membro de muitas outras iniciativas, incluindo o Fórum de Bens de Consumo (CGF), que luta pelo desmatamento zero. O Rabobank (exposição de US $ 1,5 bilhão) é um membro ativo da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), com assento no conselho executivo. O Rabobank também é membro do CGF. Crédito Suiço (exposição de US $ 1,2 bilhão) vê a proteção da biodiversidade como parte integrante de seus compromissos de sustentabilidade. Suas políticas estão alinhadas com o RSPO e o Forest Stewardship Council (FSC), mas o banco não menciona explicitamente metas de desmatamento zero. O Santander participa da RTRS e, por meio da Banking Environment Initiative (BEI), do Soft Commodity Compact. Barclays é signatária da Declaração de Nova York sobre Florestas (NYDF) das Nações Unidas, que visa reduzir a perda de floresta natural pela metade até 2020 e encerrá-la até 2030, e adotou o Compacto de Commodities Soft da Banking Environment Initiative. A iniciativa, de acordo com o Barclays, compromete o banco com o desmatamento zero na área florestal, papel e celulose e óleo de palma. O Deutsche Bank também assinou o NYDF.

Alguns outros financiadores estão tomando medidas para desenvolver uma política de desmatamento. O Bank of America e o Bancorp afirmam que não farão contatos comerciais com empresas ativas na extração ilegal de madeira ou fogo descontrolado. Há, no entanto, um grande grupo dos 20 maiores financiadores que não possuem políticas florestais. O BNDES e outros bancos brasileiros não têm compromissos concretos de desmatamento zero. O Royal Bank of Canada não tem políticas de desmatamento, semelhantes ao BMO Financial Group (exposição de US $ 1,4 bilhão). Farm Credit Services (exposição de US $ 1,3 bilhão) não tem política ambiental relevante, enquanto BlackRock e Fidelity não têm políticas florestais.

chr 2

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020

Anexo 1: Notas metodológicas para análise de desmatamento 

O perfil dessa empresa inclui uma análise do desmatamento das cadeias de suprimentos diretas e indiretas da JBS. Este anexo descreve as notas metodológicas da abordagem utilizada. Ele descreve o seguinte: 

  • As principais fontes de dados utilizadas
  • Uma descrição do processamento de dados e desenvolvimento de banco de dados
  • Uma descrição da análise de dados e verificações de qualidade
  • As limitações da metodologia

1. Fontes de dados

As principais fontes de dados incluem:

  • Autorizações de transporte de animais (GTAs). Essas licenças são documentos sanitários obrigatórios exigidos no transporte de gado entre duas propriedades. A CRR utilizou os registros do GTA 2019 dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Tocantins para identificar os nomes das fazendas que abastecem direta e indiretamente a JBS.
  • Cadastros rurais e registros de propriedades. O CRR usou os cadastros e registros imobiliários do SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária) e SNCI obtidos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrícola (INCRA).
  • Dados anuais de desmatamento confirmados. O CRR usou os dados anuais oficiais do Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia (PRODES) do governo brasileiro como base para os cálculos do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
  • Dados de vegetação remanescentes. O CRR usou mapas da agência espacial brasileira INPE (para a Amazônia) e os dados do FREL do Ministério do Meio Ambiente (para o Cerrado) para avaliar a vegetação nativa remanescente.

2. Processamento de dados e construção de banco de dados

Três etapas a seguir foram realizadas para construir o banco de dados para este relatório:

  • Limpe e prepare as informações do GTA. Usando o R Studio, um script foi escrito para limpar o texto em nosso conjunto de dados GTA e nos registros de terras SIGEF e SNCI para garantir o maior sucesso possível de correspondência de string. Exemplos dessa limpeza incluem a conversão de caracteres do português para o inglês (ã para a), padronizando o espaçamento entre palavras e padronizando o nome das empresas (ex: JBS exportaçãoto JBS).
  • Identificar fornecedores diretos e indiretos da JBS.Um script foi escrito para pesquisar o conjunto de dados GTA e extrair todas as entradas que tinham um matadouro JBS como destino final. A filtragem foi aplicada para “abate” (abate) e “bovinos” (gado), para limitar os dados à cadeia produtiva da carne bovina da JBS e para garantir que o frigorífico fosse o destino final. Para identificar fornecedores indiretos, a CRR repetiu esse processo com os fornecedores diretos da JBS como destino cadastrado do transporte de gado. Para evitar falsos positivos, incluímos apenas registros em que o nome do proprietário, o nome da fazenda e o município correspondiam. Aplicamos os filtros de engorda (engorda) ou reprodução (reprodução) como finalidade de transporte. Por meio dessa metodologia, foram identificadas 9.730 fazendas de abastecimento direto e 56.421 fazendas de abastecimento indireto à JBS. Cada um desses fornecedores forneceu um ou mais lotes de gado.
  • Localize fornecedores geograficamente . Usando o R studio, a correspondência de strings foi realizada para combinar o conjunto de dados “fornecedor identificado pela JBS” com o cadastro e registros de propriedade do SIGEF e SNCI para os seis estados no escopo desta análise. Para evitar falsos positivos, os registros só foram incluídos se uma correspondência foi encontrada entre os conjuntos de dados em; a) o nome do proprietário; b) o nome da fazenda; ec) o município da fazenda. Se duas ou menos dessas métricas corresponderem, os fornecedores serão excluídos de análises posteriores. Por meio deste método, foram localizadas um total de 983 fazendas de abastecimento direto e 1.874 fazendas de abastecimento indireto. Dois shapefiles com dados georreferenciados foram criados no QGIS (“JBS localizadas em fazendas de fornecimento direto” e “JBS localizadas em fazendas de fornecimento indireto”).

3. Análise de dados e verificações de qualidade

Os shapefiles “JBS localizada em fazendas fornecedoras diretas” e “JBS localizada em fazendas fornecedoras indiretas” foram posteriormente utilizados como mapa base para a análise do desmatamento e vegetação remanescente, através das seguintes etapas:

Sobreposição de dados de desmatamento do PRODES.  O CRR utilizou alertas confirmados de desmatamento do PRODES do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para os anos de 2008-2019. A CRR escolheu 2008 como ano limite por estar em linha com o Código Florestal Brasileiro. Os dados de desmatamento foram cruzados com os dois shapefiles para calcular o desmatamento em cada propriedade localizada, resultando em um total de 20.296 ha para as 983 fazendas de abastecimento direto e 50.852 ha para as 1.874 fazendas de abastecimento indireto.

Sobrepor os dados de vegetação remanescentes.  O CRR usou dados históricos de desmatamento do INPE para a Amazônia desde 1988, e o mapa de base de vegetação nativa FREL de 2000 para o Cerrado. A CRR calculou a área total de terras para as fazendas de abastecimento indireto e diminuiu todas as mudanças na vegetação nativa desde o início desses cronogramas. No entanto, a CRR não realizou esse cálculo para a cadeia de suprimentos direta, partindo do pressuposto de que os próprios sistemas de monitoramento da JBS mitigariam o risco de futura supressão de vegetação nativa nessas propriedades. Os cálculos resultaram em uma projeção de 2,1 milhões de ha de floresta e outros tipos de vegetação nativa remanescentes nas fazendas de abastecimento indireto localizadas.

Projeções da pegada do desmatamento na cadeia de suprimentos direta e indireta. A fim de extrapolar os achados de nossa amostra, o CRR calculou médias para o desmatamento por propriedade. Para as fazendas de abastecimento direto localizadas, a CRR calculou uma média de 20,65 ha por propriedade (20.296 ha de desmatamento dividido por 983 propriedades localizadas). A CRR multiplicou essa média pelo total de 9.730 fazendas de abastecimento direto identificadas para chegar à projeção estimada de 200.000 ha de desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS desde 2008. Esse cálculo foi repetido para as fazendas de abastecimento indireto, resultando em um desmatamento médio maior por fazenda de 27,14 ha por propriedade. A estimativa extrapolada para as 56.421 fazendas de abastecimento indireto identificadas resultou em um número de 1,5 milhão de ha desmatados desde 2008.

Verificações de qualidade. O CRR conduziu uma série de verificações de qualidade durante várias fases da análise de dados. Esses incluem:

  • Confirmação de que os frigoríficos listados como destino nos registros do GTA ainda são de propriedade da JBS por meio da comparação do registro com a lista de ativos constante do documento de referência societário da JBS  .
  • Retirar os registros duplicados de imóveis localizados que possuem registros SIGEF e SNCI para evitar dupla contagem.
  • Cruzando alertas de desmatamento com limites de propriedades para excluir áreas desmatadas que ultrapassam os limites das fazendas.
  • Realizar, em cada etapa da análise, verificações de qualidade das amostras para garantir o funcionamento adequado dos scripts aplicados.
  • Cálculo do desmatamento médio por fazenda para ambas as propriedades com e sem desmatamento para balancear as estimativas projetadas para a exposição total ao risco de desmatamento da JBS e levar em conta a realidade de que nem todas as fazendas fornecedoras apresentam desmatamento.
  • Usando a equação de Cochrane para escolher um tamanho de amostra para uma grande população (Equação 1), para garantir a representatividade de nossa amostra. Com essa fórmula, pode-se determinar que o uso de dados de 384 fazendas seria suficiente para uma amostra representativa. Usamos 983 fazendas, o que é aproximadamente 10 por cento das 9.730 fazendas de fornecimento direto identificadas nos GTAs.

Equação 1: Equação de Cochrane: 

n0

é o tamanho da amostra necessário, Z é o valor z (encontrado em uma tabela z), p é a estimativa de quantas fazendas têm desmatamento (0,5 assume variabilidade máxima; que metade das fazendas contém desmatamento e a outra não), e é o nível desejado de precisão (neste caso 95%) eq é 1-p. 

n0 = Z2pqe2

n0 = (1,96) 2 (0,5) (0,5) 0,052

n0 = 384,16 fazendas

  1. Limitações metodológicas

 

Os dados e métodos analíticos do CRR apresentam uma série de limitações que merecem cautela na interpretação dos resultados apresentados. Eles incluem:

  • Estimativas e projeções conservadoras. Fizemos uma série de escolhas que resultaram em estimativas mais cautelosas e subnotificação potencial dos totais. Esses incluem:
    • Não atribuindo desmatamento adjacente, mas fora dos limites da fazenda. Em vários casos, os alertas de desmatamento transgridem os limites das fazendas. A CRR excluiu todo o desmatamento que ocorreu fora dos limites das fazendas de nossos cálculos, apesar da probabilidade de que sejam parte de um único evento de desmatamento. Consulte a Figura 1a abaixo para obter um exemplo.
    • Projeções baseadas em registros GTA 2019. O CRR projeta a pegada total do desmatamento no número de propriedades incluídas em nossos registros de GTA de 2019. Com isso, exclui fornecedores da JBS que não forneciam para a empresa em 2019, mas sim em outros anos. Também exclui quaisquer fornecedores com registros GTA defeituosos, fraudulentos ou ausentes.
    • Os dados não abrangem os estados amazônicos de Rondônia e Acre. O conjunto de dados GTA não incluiu dados para esses dois estados da Amazônia. São estados com desmatamento significativo nos últimos anos e onde a JBS está presente. As cadeias de suprimento direta e indireta de seus dois frigoríficos em Rondônia e um frigorífico no Acre não estão incluídas em nossos cálculos.
    • A análise não cobre a cadeia de suprimentos de terceiro nível e além. A análise é baseada em fornecedores identificados no primeiro e segundo níveis da cadeia de suprimentos da JBS. Exclui quaisquer fazendas que possam ser posteriormente removidas do matadouro. O gado normalmente muda de propriedade em propriedade várias vezes durante sua vida e quaisquer riscos de desmatamento nessas camadas também são totalmente não mitigados.
  • Sem distinção entre desmatamento legal e ilegal. Esta análise não faz distinção entre desmatamento legal e ilegal e não faz nenhuma reclamação de práticas ilegais por parte da JBS ou de qualquer um de seus fornecedores, exceto se referindo a relatórios de terceiros. Em particular no bioma Cerrado, a maior parte do desmatamento está dentro do escopo do Código Florestal Brasileiro.

chr 1

Obs: O desmatamento é indicado em vermelho e uma fazenda de abastecimento direto da JBS em amarelo. Os eventos de desmatamento na parte inferior da fazenda são todos parte de um evento, embora apenas parte dele contará como desmatamento desta fazenda

fecho

Este relatório foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!   ].