Jair Bolsonaro gosta de negar a realidade

Na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro declara seu país vítima de uma campanha de mentiras sobre a Amazônia. Mas as fotos dos incêndios falam por si, comenta Thomas Milz.

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Jair Bolsonaro faz seu discurso virtual na Assembleia Geral da ONU de 2020

Por Thomas Mintz para a Deutsche Welle

É tradição na ONU que o Brasil seja o primeiro país a contribuir com os debates da Assembleia Geral. A novidade este ano foi que a contribuição foi gravada em vídeo, devido à pandemia do coronavírus. Com mais de 137.000 mortes de corona, o recorde do Brasil é atualmente o segundo mais letal depois dos EUA. Assim, Bolsonaro ficou na defensiva logo no início de seu discurso. Pois como você explica o desastre doméstico para o mundo, que conhece sua terrível comparação do coronavírus com uma “gripezinha”?

Não o culpe. Em vez disso, ele foi vítima do Judiciário brasileiro, que amarrou suas mãos na luta contra a pandemia e cedeu os poderes aos governadores. Qualquer um que olhe mais de perto sabe que Bolsonaro na verdade se recusou a lutar contra a pandemia que ele retratou como histeria. Pior ainda – ele confiou no comprovadamente ineficaz medicamento antimalárico cloroquina e colocou o Ministério da Saúde sob o comando de um general que antes organizava a logística das Olimpíadas do Rio. Mas parte de sua mentalidade de populista é a negação de qualquer culpa ou responsabilidade. 

É como exagerar o próprio papel sempre que algo está indo bem. A ajuda para os prejuízos causados pela pandemia da COVID-19 paga a mais de 65 milhões de brasileiros teria protegido a economia de um desastre ainda maior, diz Bolsonaro. Isso é verdade. Mas ele não diz ao público internacional que foi o Congresso brasileiro que instou o governo a fornecer ajuda. Em vez disso, ele está simplesmente mentindo quando diz que o valor total da ajuda é de US $ 1.000 por pessoa. Apenas metade disso foi pago. 

Queimando florestas e  causando uma gigantesca destruição ambiental

A negação da realidade de Bolsonaro se torna ainda mais óbvia em vista da destruição ambiental em curso na Amazônia. Mesmo nas grandes cidades do extremo sul do Brasil, as nuvens de fumaça já podem ser sentidas, e também podem ser vistas em sua gigantesca propagação nas imagens de satélite da NASA. E o fato de que o governo de Bolsonaro está impedindo as autoridades ambientais de proteger as florestas é evidenciado pelos cortes drásticos nos orçamentos ambientais. Até membros de seu próprio governo admitem abertamente a paralisia das autoridades de controle.

Mesmo assim, antes da Assembleia Geral virtual da ONU, Bolsonaro repetia seu mantra de que ninguém protege mais a natureza do que o Brasil. Exceto que a comunidade mundial malévola se recusa a reconhecer isso. “Quanto à Amazônia e ao Pantanal, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de mentiras”, disse Bolsonaro. As instituições internacionais participariam de maquinações sombrias para prejudicar seu governo e o Brasil, e até mesmo “aproveitadores de guerra antipatrióticos” do Brasil participariam. 

Além de organizações como o Greenpeace e o WWF e ativistas como o ator de Hollywood Leonardo DiCaprio, também se dirige contra a própria ONU, cuja conferência climática COP 25 seria realizada no Brasil no outono de 2019. Mas Bolsonaro ficou de lado. Por isso, acusou reiteradamente a ONU de querer tirar a Amazônia do Brasil com a ajuda do acordo climático.

Vítima de potências internacionais?

Mas Bolsonaro com certeza não está interessado na imagem do Brasil no mundo. Em tempos de redes globais de informação e graças ao relato vigilante da mídia, o mundo hoje sabe muito bem o que está acontecendo nas florestas brasileiras. Bolsonaro não tem nada a ganhar com isso. Pelo contrário, o seu discurso dirige-se à sua própria população, a quem tem de responder face às mortes da corona, à crise económica associada ao coronavírus e à destruição do ambiente. E que ele – ao contrário do público mundial bem informado – ainda pode imputar sua distorção dos fatos. 

Acusar poderes obscuros do exterior vai bem para muitos brasileiros. As ameaças das fileiras da União Européia de não ratificar o acordo comercial com o bloco do Mercosul vêm a calhar para ele se mostrar vítima de malandros internacionais. 

Dois problemas estão atualmente movendo o mundo: a pandemia corona e as mudanças climáticas. Ambas as crises têm dimensões globais e só podem ser resolvidas em nível global. Um estadista inteligente, portanto, usaria instituições globais como a ONU para encontrar soluções. Antes de mais nada, no interesse do seu próprio país. Mas Bolsonaro não pensa em soluções. Como populista profissional, ele aceita com gratidão as crises para culpar inimigos imaginários. Você não deve esperar nada construtivo dele.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

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