Manifesto de seções sindicais do Andes – Regional/RJ contra a implementação autoritária e forçada de ensino remoto

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Nós, de Seções Sindicais do ANDES-SN do Estado do Rio de Janeiro, expressamos publicamente nosso repúdio à ação das administrações de instituições federais e estaduais de ensino do estado, em conjunto com a associação “Redetec” e a empresa pública “MultiRio” (ligada à Prefeitura do Rio de Janeiro), de promover um curso de capacitação em ensino remoto para docentes com o seguinte mote: “conheça o programa de capacitação que visa apoiar o Ensino Remoto Emergencial a ser implementado na fase de isolamento social imposto pela COVID-19”.

1. Refutamos a ideia de que a universidade “não está fazendo nada”: é uma visão equivocada e simplista que desconsidera que o trabalho acadêmico-docente compreende o tripé ensino, pesquisa e extensão. No período de isolamento social, estamos realizando, além de tarefas administrativas, as relativas à divulgação científica, desenvolvendo orientações, submetendo projetos, estudando, publicando, fazendo e avaliando relatórios, além de uma série de atividades acadêmicas e extra-acadêmicas;

2. As aulas estão suspensas devido à pandemia, e as universidades seguem os protocolos da OMS e sanitários, medidas necessárias para evitar o contágio e o colapso nos serviços de saúde. Trata-se de um motivo de força maior e seguiremos sem atividades presenciais até que haja condições adequadas de retorno às salas de aula. Não aceitaremos quaisquer medidas que ponham em risco a integridade de nossos(as) trabalhadores(as) e de toda a comunidade acadêmica;

3. Diante das medidas de isolamento social, é preciso que as atividades remotas sejam debatidas e construídas por toda a comunidade acadêmica, com a participação de todos os setores da universidade, respeitando e fortalecendo o sentido da autonomia universitária;

4. Defendemos a autonomia universitária e repudiamos toda e qualquer iniciativa proveniente de instituições exteriores à universidade, sejam elas públicas ou privadas. As universidades dispõem de quadros próprios qualificados para informar o debate sobre ensino remoto e uma comunidade acadêmica capaz de identificar, propor e construir soluções que venham ao encontro de seus interesses;

5. Consideramos inválida qualquer iniciativa de implementação de aulas remotas não pactuadas nos conselhos universitários e instâncias deliberativas das Universidades, IF e CEFET, sem a participação da coletividade dos docentes, discentes e servidores técnicos. Decisões tomadas sem transparência ou respaldo das respectivas comunidades acadêmicas são autocráticas e contrárias ao espírito democrático e inclusivo que deve reger a vida universitária;

6. Quaisquer tentativas de implementar ensino ou aulas remotas desrespeitando as instâncias democráticas das Instituições de Ensino são ilegítimas, autoritárias e serão consideradas por nossas entidades um constrangimento e interpretadas como assédio moral. Tomaremos todas as medidas cabíveis para que os direitos de nossas categorias sejam respeitados.

Assinam esse manifesto:

  • Adcefet
  • Adesfaetec
  • Adopead
  • Aduenf
  • Aduff
  • Adunirio
  • Asduerj

Invisíveis e letais

Esforço para combater o coronavírus deve puxar novas medidas para reduzir poluição do ar

AIR POLLUTIONPesquisa da Harvard University sugeriu que as taxas de mortalidade por COVID-19 nos EUA aumentaram onde houve uma alta concentração de material particulado fino

Por Leo Cesar Melo*

Em diversas cidades do mundo, especialmente nas grandes metrópoles, a qualidade do ar melhorou significativamente com a implantação das medidas de isolamento social para conter o avanço da pandemia causada pela novo coronavírus, que em todo o planeta já infectou quase 9 milhões de pessoas e provocou a morte de mais de 400 mil. Antes mesmo de concentrar toda sua atenção na luta contra o  COVID-19, uma das principais preocupações da Organização Mundial da Saúde era com a questão da poluição do meio ambiente. Em 2019, a OMS fez um alerta de que a poluição do ar era o maior risco ambiental para a saúde da humanidade.

De acordo com a organização, por ano, 7 milhões de pessoas morrem prematuramente por doenças provocadas pela poluição atmosférica, causada principalmente pelos altos volumes de emissões da indústria, dos transportes e da agricultura. Além disso, 90% dessas mortes ocorrem em países de baixa e média renda.

Se nada for feito para reverter esse quadro, a tendência é que a situação se agrave. Portanto, para frear o avanço do problema, os principais agentes poluidores precisam urgentemente focar na eliminação, diminuição ou compensação de suas ações. Isso serve especialmente para as indústrias e para alguns segmentos de infraestrutura.

No Brasil, um dos setores que vem apresentando bons resultados nesse sentido é o de energia limpa. Por conta dos avanços nas políticas que favorecem o biogás, proveniente de materiais orgânicos e que por ser renovável pode substituir o uso de combustíveis fósseis. Iniciamos 2020 com mais de 400 plantas de biogás em operação, um crescimento de 40% na comparação com 2019. As indústrias podem auxiliar no crescimento desse mercado e ao mesmo tempo se favorecer dele, já que hoje existem diversas soluções viáveis de reaproveitamento de resíduos para geração de energia. Com isso cai a necessidade de compra de energia, algo bastante custoso para a produção e ao mesmo tempo reduzem os gastos com a destinação de resíduos.

Mas precisamos avançar muito mais, e por outros setores. O mundo deve encarar o problema da poluição ambiental com a mesma firmeza que está enfrentando o novo coronavírus. As atitudes tomadas em relação à pandemia para a superação dessa crise estão mostrando como a inovação e a ciência são capazes de solucionar os problemas. Que usemos esse exemplo para gerar outras grandes mudanças a favor do desenvolvimento sustentável.

* Leo Cesar Melo é CEO da Allonda Ambiental, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis

Crise no governo do Brasil: escândalos e mais de um milhão de pessoas infectadas com coronavírus

Escândalos, problemas econômicos e infecções crescentes por coronavírus enfraquecem enormemente o governo do presidente de direita Jair Bolsonaro. Os pedidos de demissão estão ficando mais altos

congresso nacionalEdifício do congresso nacional na capital do Brasil, Brasília. Foto: Adveniat / Jürgen Escher

Por Thomas Milz para a KNA

Uma tempestade está se formando no Brasil: vários escândalos estão enfraquecendo o governo de Jair Messias Bolsonaro, enquanto a economia está caminhando para uma queda histórica em face do crescente número de infectados pelo coronavírus. Na última sexta-feira, o Brasil quebrou a barreira de um milhão de infecções. No sábado, a marca de 50.000 mortes por COVID-19 foi ultrapassada. Isso coloca o Brasil em segundo lugar no mundo, atrás dos EUA.

Mais de um milhão de infectados e 50.000 mortos

No início da semana passada, especialistas viram primeiros sinais de queda no número de infectados por coronavírus no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil, o epicentro da pandemia da COVID-19. Com quase 2.000 mortos, um novo recorde semanal foi estabelecido lá, como noticiou a mídia brasileira no sábado. A Organização Mundial da Saúde  (OMS) anunciou outro recorde no domingo: com 54.700 novas infecções em um dia, o Brasil quebrou o recorde do dia anterior, em 26 de abril que pertencia aos EUA.

No entanto, o número de mortes por  COVID-19, localizado em 50.659 no domingo, provavelmente será ainda maior. Segundo especialistas, 21.289 mortes previamente registradas como doenças respiratórias graves podem ser casos de COVID-19. Devido à falta de testes, a verdadeira extensão da doença dificilmente será estimada.

As cidades que haviam afrouxado as medidas de isolamento social para conter a expansão do coronavírus devido à pressão das associações empresariais, agora precisavam apertá-las novamente, como na metrópole de Porto Alegre, na região sul. No Rio de Janeiro, a região mais afetada depois de São Paulo, milhares lotaram as praias bloqueadas no fim de semana. Nem a polícia nem os oficiais do departamento de regulamentação intervieram para fazer cumprir o requisito da máscara.

Os governos locais atualmente estão sozinhos na luta contra o coronavírus. Diante de vários escândalos, o governo federal é quase incapaz de agir, tanto o cargo de Ministro da Saúde como o de Ministro da Educação não estão preenchidos. Não existe uma ideia de como e quando as escolas e universidades abrirão novamente.

Investigação ao filho de Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que está sob investigação por campanhas de ódio e “fake news”  (notícias falsas), anunciou sua renúncia na quinta-feira. Horas depois, ele fugiu para Miami com seu passaporte diplomático. Somente depois que ele desembarcou nos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro renunciou oficialmente. Atualmente, os brasileiros estão proibidos de entrar nos EUA com passaportes simples.

O próprio presidente Jair Bolsonaro está sob pressão depois que os investigadores detiveram um ex-policial (Fabrício Queiroz) que estava escondido na casa de seu advogado por mais de um ano na quinta-feira. O ex-policial é amigo íntimo de Bolsonaro há 30 anos e foi considerado um intermediário entre sua família e milícias que operam no Rio de Janeiro. Flavio, filho de Bolsonaro, senador, teria lavado centenas de milhares de euros com a ajuda desse intermediário.

Pedido de demissão

Os problemas legais da família Bolsonaro estão dificultando cada vez mais o trabalho do governo. O ministro da Justiça Sergio Moro renunciou em abril depois que Bolsonaro tentou influenciar a investigação policial do Rio. Enquanto isso, não há ideia de como ajudar a economia atingida pela pandemia causada pelo coronavírus. A produção econômica pode cair em até 9% em 2020, e o déficit orçamentário ameaça aumentar em cinco vezes. No Congresso, as reivindicações pelo impeachment de Bolsonaro estão ficando mais fortes.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Domradio.de [Aqui!].

A pandemia e a ignorância tecnologizada assediam as universidades

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Por Isaac Enriquez Pérez*

Formada na Europa ao longo do Século X como uma organização – embora sob o controle da Igreja Católica – orientada para a sistematização do conhecimento, e consolidada durante os séculos 18 e 19 como um bastião da reflexão e pensamento crítico e anticlerical , a universidade contemporânea – pelo menos desde os anos de 1970 – está sob o olhar atento do burocratismo, da corrupção, dos interesses adquiridos, do estabelecimento de pensamento hegemônico neoconservador e pós-moderno, negação e a ultra especialização de suas disciplinas e conhecimentos compartimentados.

A essas ameaças são adicionadas várias crises; a saber: a) cortes no orçamento, que se traduzem em privatizações de fato da universidade pública e uma reconversão silenciosa do direito do cidadão à educação em um serviço voltado para usuários ou consumidores. b) O fundamentalismo de mercado não se expressa apenas na disciplina fiscal e no “austericídio” da universidade pública, mas na irradiação sutil de uma racionalidade tecnocrática que favorece o individualismo e a gestão empresarial (a suposta meritocracia que prevalece nas avaliações e acreditações do trabalho acadêmico). c) A mercantilização da ciência e do conhecimento e sua desapropriação como bens públicos globais, com vistas a formar um paradigma tecnocientífico sujeito à rentabilidade das grandes corporações. d) a precariedade de suas relações de trabalho nas universidades; especialmente aqueles acadêmicos que trabalham por horas e sob contratos temporários. E e) a crise epistemológica, que paira sobre as formas convencionais de construção e transmissão do conhecimento e se origina na fragmentação e dispersão do conhecimento, assim como o fim das certezas e cegueira do conhecimento..

As nuvens cinzentas que posicionam a tecnificação do conhecimento e a trivialização de valores como a verdade não são suficientes, nos cenários abertos pela crise epidemiológica contemporânea, destaca a difusão e imposição do treinamento telemático universitário como mecanismo para evitar contágios após a radiação do Coronavírus SARS-CoV-2. Países europeus como Itália e Espanha anunciam a extensão da atividade de ensino on-line para o próximo ano acadêmico. Até universidades americanas e estrangeiras anunciam o retorno às salas de aula presenciais até 2022, mesmo sem riscos epidemiológicos.

Deve-se destacar a noção de universidade ou educação a distância: embora as tecnologias da informação e comunicação contribuam para a massificação do conhecimento e aproximem o processo de ensino / aprendizagem de amplas camadas da população que sofre exclusão social Nos sistemas educacionais tradicionais, a educação a distância é um complemento para a universidade presencial e não seu substituto. Com a universidade on-line, é possível atingir populações defasadas que, na época, não gozavam do direito à educação, seja por falta de renda, tempo, motivação ou disposição. Mulheres que interromperam o treinamento escolar devido à maternidade prematura; jovens que foram forçados a entrar no campo do trabalho e que cancelaram ou adiaram suas expectativas educacionais; adultos que abandonaram, desde a juventude, a possibilidade de treinamento; e outros candidatos rejeitados nos processos de admissão de universidades públicas, têm a oportunidade de retomar seus estudos com as vantagens oferecidas pela educação on-line em termos de horários e formas de aprendizado flexíveis e adaptáveis.

Além disso, essas tecnologias contribuem para a disseminação massiva de conhecimento. Através do chamado acesso livre, é possível fazer coleções científicas, humanísticas e artísticas inestimáveis que ofereçam respostas aos grandes problemas mundiais à disposição da humanidade.

No entanto, com a pandemia de COVID-19 é alimentada a obsessão de prefigurar uma cidade virtual que apela não apenas ao distanciamento físico, mas também ao distanciamento em formas de socialização. Entronizando assim a atomização da sociedade e o individualismo hedonista .

O conhecimento é, por sua própria essência, uma construção social; um processo coletivo de criação que merece interação e proximidade com os outros. Não é uma tarefa estereotipada de indivíduos isolados em laboratório e fora do mundo externo, nem visa seguir determinados protocolos. Existe uma interação estreita de gnosia / práxis, que adquire o caráter de totalidade articulada, logo que diálogos multidirecionais são construídos e a noção de comunidade acadêmica é moldada com o objetivo de criar significados que configuram o sentido da realidade através de uma linguagem dotada de conceitos e conceitos. categorias. Essa linguagem só pode ser criada em interação com “a outra” e no âmbito de um processo de conscientização e empatia que mereça proximidade física e que, além disso, no caso das universidades,

A interação física é essencial na relação professor / aluno e aluno / aluno, pois reproduz padrões simbólicos e de convivência que excedem em muito a escola. Os debates coletivos em sala de aula, nos corredores, nos espaços comuns das universidades, são cruciais para a construção do conhecimento e a formação da cidadania.

O estabelecimento massivo da universidade a distância significa isolar o aluno em uma sala, acompanhado por uma tela que, embora crie ação social desacoplada da presença física em um determinado espaço, não transcende uma lógica de comunicação multidirecional e práticas coletivas que permitem deliberação fundamentada além do efêmero e das ansiedades que ele gera. Nesse sentido, a universidade a distância faz parte do chamado Screen New Deal e da reprodução de relações assimétricas de poder, associadas ao novo padrão de acumulação bio / tecno / científica.

Historicamente, a universidade era a trincheira da luta – através de idéias – contra dogmatismos teológicos, totalitarismos, racismo, desigualdade de gênero e o caráter exclusivo do capitalismo. Contudo, diante da biossegurança, da higiene e do estado higienizante que lhe é inerente, o pensamento crítico que emana das universidades é praticamente entorpecido, domado e prostrado; esvaziamento do conteúdo antes do bombardeio do apocalipse da mídia (Aqui!), o desendêmico e o ataque ao conhecimento racional (Aqui!) que superdimensionam as características e os impactos da pandemia. Isso significa que, em meio a uma nova crise civilizadora, a universidade está ausente dos contrapesos que devem ser colocados diante do dogmatismo contemporâneo, da indústria da mentira e da construção de infraestrutura para a biovigilância através de alta tecnologia ( inteligência artificial, nuvem virtual, Internet 5G e robotização).

O aprendizado remoto é uma das tendências que se aceleraram com o advento da pandemia de COVID-19. A infraestrutura digital para conectividade é parte integrante dela. No entanto, como a tecnologia não é neutra, está ancorada na estrutura contraditória e desigual de poder e riqueza.

O problema da universidade antes da grande reclusão reside na incapacidade dos primeiros de organizar, de maneira sistemática, a reflexão em torno dos problemas públicos contemporâneos. Ao contrário de sua história milenar e de suas críticas aos poderes, a universidade contemporânea sucumbe a si mesma e direciona suas energias, confrontos e interesses faccionais para erradicar o pensamento crítico e a construção de alternativas e alternativas teóricas, artísticas, humanísticas e de vanguarda. ideológico / político. Subjugada pelas tecnocracias universitárias e pelos labirintos e chicotes do mercado, a universidade rompe com sua essência e funções históricas, estabelecendo e institucionalizando a ignorância tecnológica em seu cerne.

Estufas de teorias críticas e tradições de pensamento; templo da dúvida e questionamento sobre o status quo ; educador de elites políticas, artísticas e intelectuais; habitat natural do corpo discente como um modo de vida; e no cenário da inovação científica e tecnológica, a universidade está ameaçada pela digitalização maciça do processo de ensino / aprendizagem e, ao mesmo tempo, enfrenta os riscos e ansiedades que o cyberleviathan , o panopticon digital e o regime de bio/techno geram e implantam. Totalitário, comprometido em colocar emoções antes da razão e controlar corpos, mente e consciência no contexto da era pós-factual .

Embora as tecnologias contribuam para a solução de problemas públicos, deve-se enfatizar que elas não são uma panacéia, nem todas as soluções passam pela peneira tecnológica. Pelo contrário, seu uso indiscriminado pode abrir outros problemas públicos que ampliam abismos sociais e exacerbam desigualdades. A universidade a distância não sairá dessas tendências e de processos mais amplos, como a (re) concentração de conhecimento e o poder derivado de sua posse e uso.

Em seu trabalho A Metafísica da Juventude , o filósofo alemão Walter Benjamin falou da unidade da consciência e a vontade responderia que elas se formaram na era estudantil. Ele consegue observar que nas universidades de Berlim do início do século XX prevalece a dissociação do aparato profissional do conhecimento e que a vida estudantil é diminuída pela miséria espiritual. Hoje não estamos separados desses espreitadelas.

O caráter distante e efêmero que a educação a distância gera em seus ambientes pode exacerbar essas misérias e acentuar a ignorância dos alunos e a petrificação dos professores. Este não é apenas um risco para a formação escolar e a prática profissional, mas para a própria construção da cultura cidadã e a resolução de problemas públicos. Reivindicar criticamente e não obstante interesses adquiridos, a noção de universidade e suas funções clássicas, não implica apenas colocar a digitalização – como complemento – em sua dimensão adequada, mas erradicar o mantra de mercado como o único caminho. Caso contrário, a humanidade não terá os instrumentos mínimos para enfrentar problemas globais, como epidemias – cada vez mais recorrentes e desconhecidas Aqui!).

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*Isaac Enriquez Pérez é Acadêmico na Universidade Nacional Autônoma do México. Twitter: @isaacepunam

Este texto foi publicado originalmente em espanhol pela Agencia Latinoamericana de Información -ALAI- [Aqui ].

TV alemã ZDE mostra a pandemia da COVID-19 no Brasil como ela realmente é

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Um dos aspectos inquietantes que sempre rondam a minha mente é de como os brasileiros, mesmo após passadas as marcas de 1 milhão de infectados e de pelo menos 50 mil mortos pela COVID-19, ainda se arriscam às ruas como se nada de especial estivesse acontecendo. Aos olhos do resto do mundo, essa situação causa profunda estranheza, pois a letalidade da pandemia já é algo mais do que estabelecido.

Como tenho assistido a muitos programas de TVs estrangeiras, me arrisco a dizer que parte do problema está na forma pela qual a pandemia da COVID-19 está sendo apresentada aos brasileiros pela mídia corporativa, especialmente pelas redes de TV. É que, apesar de buscarem mostrar um suposto compromisso jornalístico de apresentar a verdade à população, a cobertura que está sendo feita omite as cenas mais explícitas da letalidade da pandemia, especialmente entre os mais pobres. A cobertura aqui, como em tantos outros casos, tem sido superficial e fragmentada, sendo um dos elementos indutores de uma espécie de letargia que torna as infecções e mortes causadas pela coronavírus, algo que é distante do cotidiano das pessoas; uma espécie de filme que só passa na TV do vizinho.

Vejamos por exemplo, uma matéria que foi ar neste domingo na Alemanha via o canal de TV ZDE, um canal de televisão público e um dos maiores da Europa, que faz uma síntese bastante efetiva de todos os ângulos que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil, e isto tudo em menos de 2 minutos. E o interessante é que nem se precisa entender alemão para seguir o fio da meada da reportagem que mostra cenas que a mídia brasileira vem omitindo da maioria da população.

Entre outras coisas, o que fica apontado na matéria é que no Brasil, os números da COVID-19 continuam a subir, sendo que o nosso país tem o segundo maior número de casos e a terceira maior mortalidade no mundo.  E as causas da expansão da pandemia são relacionados à falta de testagem, inexistência de infraestrutura hospitalar, e a ação do presidente Jair Bolsonaro que é mostrado naquela infame cena em que ele chegou à cavalo em uma manifestação em que seus apoiadores pediam o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal há umas semanas atrás.

Mas o que deve impressionar a audiência alemã são as condições caóticas em que corpos estão sendo retirados em comunidades pobres e a multiplicação de valas coletivas em diferentes partes do território brasileiro.  Essas cenas certamente estão chocando uma audiência que atravessou e perdeu duas grandes guerras mundiais, pois os alemães sabem que só em condições de degradação extrema do funcionamento do Estado é que as Nações devem lançar mão de valas coletivas.

Mas volto a dizer, parte da distância que se está criando entre a maioria da população e os resultados da pandemia da COVID-19 é fruto exatamente da falta de informação sobre o que, de fato, está acontecendo. E não me parece que a culpa por isso seja só do governo Bolsonaro que, como a reportagem da ZDE mostra, tem se esforçado para minimizar a gravidade da pandemia.

Coronavírus em Campos dos Goytacazes: pesquisa inicia nova etapa de testes rápidos neste domingo

Pesquisadores do IBOPE Inteligência vão aplicar testes rápidos para o coronavírus em visitas domiciliares a moradores de 133 cidades do Brasil entre os dias 21 e 23 de junho

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A pesquisa EPICOVID19-BR, que estima a proporção de casos de infecção por coronavírus no Brasil, inicia nova etapa a partir deste domingo (21), com a meta de realizar 33.250 testes rápidos e entrevistas em Campos dos Goytacazes e em mais 132 cidades de todos os estados do país. Cerca de 2,6 mil pesquisadores do IBOPE Inteligência vão às ruas, nos dias 21, 22 e 23 de junho, para visitar residências e convidar 250 moradores a realizar testes rápidos para o coronavírus em cada uma das cidades incluídas na pesquisa.

“É fundamental que a população aceite participar da pesquisa. Em cada cidade, por exemplo, é preciso realizar pelo menos duzentos testes, para que possamos apresentar estimativas sobre a real dimensão da COVID-19. Além de contribuir com o esforço coletivo de enfrentamento da pandemia, o participante tem a oportunidade de realizar o exame e saber o resultado na hora”, diz a epidemiologista Mariângela Freitas da Silveira, integrante da coordenação do estudo.

O Estudo de Prevalência da Infecção por COVID-19 no Brasil (EPICOVID19-BR), coordenado pela Universidade Federal de Pelotas com financiamento do Ministério da Saúde, é o maior levantamento populacional do mundo a estimar a prevalência de COVID-19. A segunda etapa da pesquisa apresentou evidências inéditas sobre a velocidade de expansão do coronavírus em 83 cidades do país. A proporção de pessoas que já contraíram o vírus no Brasil aumentou em 53% no período de duas semanas entre a primeira etapa, realizada de 19 a 21 de maio, e a segunda, de 4 a 5 de junho. Os dados mais recentes também mostram que, para cada diagnóstico confirmado, existem ao redor de seis casos reais não notificados na população. Para se ter uma ideia, as estimativas somam mais de 1,7 milhão de pessoas que têm ou já tiveram o coronavírus, contra o total de 296.305 casos notificados em 120 cidades brasileiras na véspera do segundo levantamento da pesquisa.

Como funciona a pesquisa

O estudo inclui a cidade mais populosa de cada uma das 133 sub-regiões definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o território brasileiro. A seleção das residências e das pessoas que serão entrevistadas e testadas ocorre por meio de um sorteio aleatório, utilizando os setores censitários do IBGE como base.

Para o exame, os pesquisadores coletam uma gota de sangue da ponta do dedo do participante, que será analisada pelo aparelho de teste em aproximadamente 15 minutos. Enquanto aguarda o resultado, o participante responde a perguntas sobre sintomas da Covid-19 nas últimas semanas, busca por assistência médica e rotina em relação às medidas de prevenção e isolamento social. Em caso de resultado positivo, os profissionais comunicam a Vigilância Epidemiológica local.

Pesquisa disponibiliza canais de informação sobre visitas

Os pesquisadores que realizam as visitas estão identificados por crachá do IBOPE Inteligência e utilizam os equipamentos de proteção individuais (EPIs): máscaras, toucas, aventais, sapatilhas (todos descartáveis), óculos de proteção e luvas. Todos os profissionais são testados e apenas aqueles que tiverem resultado negativo realizam as visitas domiciliares. O estudo tem aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e cumpre todos os requisitos de segurança necessários, para proteger os pesquisadores e a população.

Em caso de dúvidas, os participantes podem entrar em contato para esclarecimentos sobre as visitas às casas pelos telefones 0800-800-5000, (11) 3335-8583, (11) 3335-8606; (11) 3335-8610, ou pelos e-mails pesquisa.covid-19@ufpel.edu.br pesquisa.covid-19@ibopeinteligencia.com.

1 milhão de infectados e e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Um milhão de infectados e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialFotomontagem de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Palácio do Planalto

O novo coronavírus desembarcou em terras nacionais em um momento de fragilidade política, econômica e social que contribui para piorar um cenário que já seria naturalmente complicado

Por Luiz Roberto Serrano para o Jornal da USP*

A pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil num péssimo momento. Qualquer um seria ruim, evidentemente, mas ela desembarcou aqui num momento de confusão e desagregação política, fragilidade econômica e carências sociais historicamente acumuladas. O potencial infeccioso e mortal dessa doença desconhecida exigia que o país a enfrentasse sob o comando de uma liderança firme, clara, decidida, que orientasse, e até mesmo guiasse, a sociedade na travessia do deserto que se vislumbrava à frente.

O primeiro sinal já foi desanimador. Ainda no início de fevereiro, o governo brasileiro hesitou em enviar aviões para resgatar brasileiros em Wuhan, na China, origem da pandemia, alegando que seria uma operação muito cara. Felizmente, enviou. O sofrimento pelo qual passaram, antes de nós, a China, a Itália, Espanha e os Estados Unidos – só para citar alguns países – apontaram caminhos a serem seguidos no combate à covid-19, especialmente em relação ao isolamento social, mas não foram observados e absorvidos, a não ser isoladamente pelo Ministério da Saúde, e a oportunidade de nos precavermos por antecipação foi jogada pela janela.

O fato é que tudo degringolou, com o presidente da República desdenhando da gravidade da pandemia, desautorizando as orientações emanadas do seu próprio Ministério da Saúde, entrando em guerra com os governadores que tentaram conter o avanço da doença, e o Ministério da Economia, de tendência liberal, resistindo e demorando para colocar recursos à disposição de empresas e trabalhadores e da população em geral para preservar, pelo menos, os sinais vitais da economia. Resultado: já alcançamos a marca de um milhão de brasileiros infectados, ultrapassamos os 49 mil mortos e o Produto Interno Bruto desliza perigosamente para uma queda que aponta para 10% em 2020.

O presidente Jair Bolsonaro insistiu desde o princípio que a pandemia não passava de uma “gripezinha”, que a morte é um fato inevitável da vida, participou de manifestações políticas sem máscaras e distanciamentos recomendados para todos os brasileiros e concentra todas as suas energias apenas na permanente disputa política que envolve o seu governo, o congresso, o sistema judiciário e a sociedade. Sua postura mina e combate a orientação de médicos e cientistas e governadores de que o isolamento é a melhor arma no momento para combater o alastramento do vírus e estimula parcela considerável dos brasileiros a não cumpri-lo e a se arriscarem nas ruas e nos locais de trabalho e públicos, especialmente o transporte coletivo.

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialJair Bolsonaro, durante manifestação recente em Brasília – Foto: Reprodução/Twitter

É compreensível que a parcela da população cuja renda depende de atividades diárias, especialmente os trabalhadores informais e as empresas produtivas e de serviço, que só dependem da presença física de sua clientela para operar, se sintam prejudicadas pela política de isolamento e estejam angustiadas para gerar caixa. Até mesmo as grandes empresas, com maior lastro financeiro, sofrem ao operar abaixo de sua capacidade de produção e comercialização, mesmo, entre estas, as que têm canais de venda digitais. É de se esperar que almejem que tudo volte ao normal rapidamente. A questão é que esse rapidamente, esse retorno precoce, pode gerar um aumento na taxa de contaminação na população cujas consequências ainda são imprevisíveis.

Esse sufoco seria menor, em parte evitável, se o governo, principalmente o Ministério da Economia, irrigasse a economia com recursos que azeitassem o seu funcionamento em patamares pelo menos de sobrevivência. Este deveria ser o papel de um Estado que compreendesse e aceitasse sua função de estimulador da atividade econômica em momentos de grave crise. Não é o caso do Ministério da Economia dirigido por Paulo Guedes, de orientação liberal e preocupado, acima de tudo, com o desequilíbrio fiscal sensível que herdou de governos anteriores. Claro, o governo ofereceu recursos às empresas e à população, mas insuficientes, boa parte dos quais ficou empoçado nos bancos, eternamente preocupados com a inadimplência, e chegaram à ponta, a quem deveria recebê-los, lentamente, quando chegaram. Numa crise como a atual, um governo deveria fazer um balanço entre o que é mais importante e urgente para a sociedade e o que é administrável com políticas de longo prazo. O equilíbrio fiscal ou o combate à COVID-19?

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialO auxílio emergencial foi criado para socorrer trabalhadores informais durante a pandemia. Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Como efeitos colaterais graves, é preciso registrar o desmonte do Ministério da Saúde, órgão gestor e gerador de imprescindíveis políticas públicas, especialmente do SUS, que é o sustentáculo do atual combate à pandemia, de norte a sul do Brasil. Qual a perspectiva de reconstrução desse órgão vital para a saúde pública no Brasil quando os especialistas da área foram afastados e não há sinais de que profissionais do ramo voltem a ter espaço em seus quadros, especialmente os diretivos?

At last but not at least, o que será da educação e da ciência no Brasil? Não foi a COVID-19 que instalou uma séria crise na educação brasileira, ela vem de antes, graças à desimportância que o atual governo dá ao tema, vital para o futuro do país. Os recentes titulares do Ministério da Educação não tinham qualquer intimidade com o tema e se guiavam por dogmas ideológicos retrógrados. Não há perspectiva de melhora.

Nestes tempos de COVID-19, o isolamento aconselhava pesados investimentos num sistema de aulas à distância nos ensinos fundamental e médio, cujo alunato, em sua maioria, é carente de recursos tecnológicos eficientes para acompanhá-lo. Não foi feito com a necessária abrangência, até porque é uma tarefa de grande porte num país com as dimensões do Brasil. Haverá sérias lacunas a preencher quando as aulas forem retomadas.

O esforço e a eficiência das Universidades, especialmente as públicas, na promoção de pesquisas sobre medicamentos, terapias, equipamentos para o combate à COVID-19, deu-lhes uma notoriedade ímpar diante da sociedade brasileira, evidenciando sua importância para a ciência brasileira e o desenvolvimento do país. Parte significativa delas, entre elas a USP, mobilizou seus recursos para o ensino à distância para que a formação dos quadros que dirigirão o país no futuro prosseguisse com o mínimo de prejuízo no momento. Mas dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia não emanou qualquer orientação.

A retomada da vida normal na sociedade brasileira no período pós-pandemia, que não se sabe, ainda, quando e como se dará, é profundamente desafiador, exigirá um grande esforço de reconstrução e renovação em todas as áreas da vida da sociedade. Aprendemos com os acertos e erros cometidos neste período tão perturbador? Sairemos melhor do outro lado?

A resposta está nas mãos de todos os brasileiros.

*Luiz Roberto Serrano é Superintendente de Comunicação Social da USP

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: a pandemia dos agrotóxicos avança com mais 27 liberações, totalizando 212 em 2020

pandemia pesticidesEm meio à pandemia da COVID-19, governo Bolsonaro continua avançando a boiada na liberação de agrotóxicos, incluindo produtos banidos na União Europeia e nos EUA

Em uma nova demonstração de que naquilo que se faz eficiente o governo Bolsonaro não para, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União da última 4a. feira (16/06) o Ato No. 36 de 05 de junho que libera mais 27 agrotóxicos para comercialização no mercado brasileiro.  Com essa nova rodada de aprovações, o total de agrotóxicos liberados em 2020 já alcança 212, o que implica em um total de 715 ao longo dos 18 meses que já dura o mandato do presidente Jair Bolsonaro, o que se configura em um recorde histórico de liberação de venenos agrícolas liberados no Brasil.

Ao examinar a lista de aprovados foi possível detectar mais uma vez a aprovação de cerca de 30% de produtos contendo princípios ativos proibidos na União Europeia, e a continuidade de uma prática peculiar que é produzir formulações que contém de conterem produtos proibidos e aprovados pela EU (ver gráfico abaixo).

ato 36 status euStatus dos agrotóxicos liberados pelo Ato 36 na União Europeia

Outro aspecto que se mostra persistente nessa nova rodada de aprovações é o fato de que a China continua sendo o país que mais vende os produtos técnicos (em outras palavras, a matéria prima de onde são geradas as formulações vendidas no mercado brasileiro) (ver gráfico abaixo).

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País de origem do fabricante primário dos 27 agrotóxicos liberados pelo Ato 36

Este padrão a crescente dupla dependência da agricultura de exportação brasileira em relação à China, na medida em que os chineses compram a maior parte da soja produzida no Brasil, enquanto são os principais fornecedores de agrotóxicos que terminam abastecendo principalmente essa cultura. Tal dependência tende a se agravar, na medida em que crescem as possibilidades de boicote às commodities agrícolas brasileiras em outras partes do mundo, justamente por causa do uso excessivo de agrotóxicos considerados como altamente perigosos e que, por isso, já foram banidos por alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil, a começar pela União Europeia.

Em relação aos produtos aprovados, os mesmos consistem do que pode se chamar de um “museu de velhas novidades”, na medida em que a maioria deles já estão sendo vendidos no Brasil. Entretanto, vale ressaltar a aprovação de outra formulação do herbicida Dicamba que teve sua venda proibida recentemente proibida nos EUA por ter tido seus impactos tóxicos subestimados durante o seu processo de liberação.

A verdade é que o argumento de que a verdadeira pandemia de novos agrotóxicos no mercado brasileiro, que já é o maior do mundo, serviria para trazer ao Brasil produtos mais modernos e menos tóxicos não se confirma na prática, visto que a maioria dos produtos liberados já estão no mercado. Resta saber agora se o argumento do barateamento dos novos/velhos produtos sobreviverá na prática. Aliás, há que se frisar que chega a ser inacreditável que produtos proibidos  na União Europeia estejam sendo colocados na Categoria 5  (Inprovável de causar dano agudo) para toxicidade humana no Brasil.

Quem desejar acessar a planilha específica do Ato 36, basta clicar [Aqui!]. Já para acessar a base completa de 2020, basta clicar [Aqui!]

Com salários e direitos congelados, docentes da Uenf defrontam-se com a imposição do ensino remoto por causa da COVID-19

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Com salários precarizados e direitos congelados, docentes da Uenf agora estão sendo empurrados para outra forma de precarização em meio à pandemia, as “as aulas remotas”

Os docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense estão em uma das únicas, senão a única, categorias profissionais do serviço público estadual que trabalham sob o regime de Dedicação Exclusiva. Este regime lhes impõe a impossibilidade de possuir outras fontes de renda, sob pena de demissão. Apesar disso, eles amargam mais de 5 anos de salários congelados, além de não estar tendo honrado ao longo desse período os direitos garantidos pelo Plano de Cargos de Vencimentos (PCV), especificamente no tocante aos enquadramentos e progressões em função de mérito e tempo de serviço.

Agora, em meio à pandemia da COVID-19, os docentes da Uenf tiveram suspensos os pagamentos de adicionais de insalubridade e periculosidade em função da alegação de que não estavam sendo expostos aos riscos que garantem o pagamento desses adicionais. Curiosamente, os docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que também tiveram esses adicionais suspensos, acabam de ter o pagamento dos mesmos retomado, e de forma retroativa. Tal fato consiste em um flagrante tratamento diferenciado, e vem gerando forte descontentamento entre os que tiveram seus salários reduzidos, sem que a reitoria da Uenf  que disponha a oferecer qualquer explicação sobre o tratamento diferenciado que foi dado à Uerj.

Mas seguindo o que diz a Lei de Murphy que atesta que “não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar”, os docentes da Uenf se vêem diante da obrigação de oferecer uma modalidade não prevista na instituição em meio à pandemia da COVID-19,  o chamado “ensino remoto”.  

Um dos problemas para que o ensino remoto seja oferecido na Uenf é que a universidade possui uma rede de internet que mal comporta o envio e recebimento de e-mails, que dirá o tráfego intenso que a oferta de disciplinas via remota irá demandar.  Desta forma, o que está implícito em uma eventual oferta dessa modalidade de “educação remota” é que os custos adicionais que isso demandará deverão sair dos bolsos dos docentes, os mesmos que estão com salários congelados e sem o pagamento de direitos garantidos pelo PCV da Uenf. 

Outro aspecto que deveria estar merecendo atenção, mas aparentemente está também sendo deixado para que os docentes se virem como puderem, é que já se sabe que nem todos os estudantes, tanto de graduação como de pós-graduação, possuem acesso a serviços de internet que lhes garantam atender as aulas remotas. Em levantamentos já feitos na Uenf, já até se sabe que uma parcela significativa daqueles que possuem acesso à internet apenas via telefones celulares. Tal dado indica que haverá um número significativo de estudantes que simplesmente não terão como acessar a educação remota que será oferecida no lugar do ensino presencial no qual esses mesmos estudantes estão matriculados, mas temporariamente impedidos de frequentar por causa da pandemia da COVID-19.

Não fossem esses detalhes suficientes, os docentes receberam recentemente um convite para participarem de um vídeo aula cujo título é “Videoaula: A experiência docente e o potencial das aulas remotas” . Uma dessas curiosidades desse convite é que a realização caberá do evento caberá à Empresa Municipal de MultiMeios da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (a MultRio) (ver imagem abaixo).

er multirio

A curiosidade fica por conta do fato de que as universidades estaduais e federais cujos docentes estão sendo convidadas para este evento realizado por uma empresa pertencente ao município do Rio de Janeiro, sendo que essas mesmas instituições de ensino superior participam do “Consórcio Centro de Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro” (Cederj) que há duas décadas oferece a modalidade de ensino à distância (EAD) por meio de pólos regionais existentes em todas as regiões do estado do Rio de Janeiro.

A única conclusão possível é que a MultRio tem algum tipo de conhecimento sobre treinamento de docentes para educação remota que o Cederj nunca foi capaz de desenvolver, apesar de sua longa experiência na modalidade EAD. Ou é isso, ou eu não sei.

De toda forma, os docentes da Uenf terão, em meio à pandemia, de se defrontar com questões bastante sérias sobre a qualidade do ensino que poderão oferecer na forma remota. E, de quebra, com um inevitável aumento das despesas que aparentemente decorrerão da oferta de uma modalidade que sequer existe formalmente na Uenf, sem que existam sequer regras claras para como isso deverá ocorrer. E durma-se com toda essa precarização.