Infecção por Covid-19 explode entre trabalhadores da Vale no Pará e cidade entra em colapso

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Por Maurício Angelo para o “Observatório da Mineração”

Os números oficiais falam em 1603 casos confirmados e 61 mortes por Covid-19 em Parauapebas (PA) até o momento. Mas a cidade que se formou e cresceu em função da mineradora Vale enfrenta um colapso de saúde que é ainda pior do que os números mostram.

Vídeos obtidos pela reportagem, relatos e fontes diversas acusam a Vale de omitir resultados de exames para que não constem no sistema municipal de saúde. A mineradora e a prefeitura negam. A OAB e o Ministério Público Federal e Estadual entraram com ações para averiguar a situação da cidade frente a pandemia.

As evidências apontam que centenas de funcionários da empresa estariam com Covid-19 no Complexo Carajás, o maior projeto de extração de minério de ferro do mundo.

Bairros que concentram trabalhadores da Vale, como o Cidade Jardim, são um dos mais afetados pelo coronavírus. Os funcionários da mineradora são atendidos preferencialmente no hospital Yutaka Takeda, construído pela Vale nos anos 80 e mantido pela empresa. Informações dizem que a Vale concentra todas as informações que passam por lá.

E trabalhadores entrevistados contam a dificuldade em conseguir fazer o exame para a Covid-19, que só é liberado – e com muita briga – após 10 dias que a pessoa começa a sentir os sintomas.

É o caso de Evaldo Fidelis, 35 anos, operador de equipamentos da Vale na mina de Carajás. Há 2 meses, no fim de março, Evaldo foi uma das fontes que me contou sobre as aglomerações de funcionários que a Vale mantinha no Pará. Era uma bomba relógio, disse na matéria para o Intercept. Na época, Parauapebas tinha apenas 26 casos suspeitos e todo o estado do Pará, 7 casos confirmados.

Hoje, Parauapebas está em colapso, pelo menos 4 funcionários da Vale morreram por Covid-19 – o primeiro em 10 de abril, como revelei no Observatório –  e o estado do Pará registra 28.600 casos e quase 2.500 mortes.

A bomba explodiu. E, com negligência de todas as esferas de governo, a mineração considerada essencial por Bolsonaro (após as minhas denúncias) e a absoluta falta de fiscalização, explodiu – para variar – no colo do mais fraco.

Evaldo Fidelis contraiu a Covid-19 um mês depois da primeira reportagem, no fim de abril. E o que ele passou mostra como as medidas que a Vale alega ter tomado se mostram totalmente ineficientes e como os dados oficiais sobre o número de contaminados não são confiáveis.

Em 25 de abril Evaldo foi trabalhar normalmente na Mina de Carajás, assumindo o seu turno à meia-noite. O teste de temperatura feito pela Vale diariamente em alguns trabalhadores não acusou nenhuma alteração. No meio da madrugada, Evaldo começou a se sentir mal, com tosse forte.

Recorreu a um hospital particular da cidade, o Santa Terezinha. Nenhum teste para a Covid-19 foi feito. Sinusite, disse o médico, que recomendou que ele repousasse em casa. Após nova ida ao médico, nova negativa e uma semana com a sua saúde piorando progressivamente, perdendo totalmente o olfato e o paladar, febre alta e tosse constante, Evaldo procurou o Yutaka Takeda, hospital da Vale no alto da serra de Carajás.

Com 10% do pulmão comprometido, o médico que o atendeu reconheceu que o seu quadro indicava Covid, mas disse que não poderia fazer o exame porque o protocolo do hospital só permitia o exame após 10 dias de sintomas. Regras da direção, alegou.

Com quadro gravíssimo e a esposa e a mãe já também sentindo os sintomas da doença, Evaldo recebeu um coquetel de medicamentos (azitromicina, paracetamol, loratadina e unizinco) e foi mandado para casa. Os três começaram a tomar os medicamentos. A esposa e a mãe nunca fizeram exames para a Covid e não constam nas estatísticas do município.

Completados os 10 dias, Evaldo retornou ao Yutaka Takeda, exigindo fazer o exame da Covid-19. Chegou por volta de 13h. Só foi conseguir fazer o exame por volta de meia-noite. À 1h saiu o resultado que finalmente comprovou que Evaldo estava mesmo com a Covid-19.

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“Senti que ficaram me enrolando para ver se eu desistia”, conta Evaldo. O novo médico acrescentou mais um medicamento: a ivermectina, usada para combater vermes e parasitas, e com uso veterinário. Nem a azitromicina nem a ivermectina tem qualquer eficácia comprovada contra a Covid-19,  assim como a cloroquina, apesar das receitas terem explodido e o uso ser defendido por bolsonaristas.

A medicina do trabalho da Vale só ligou para Evaldo 15 dias após os primeiros sintomas. Só na sua equipe de 40 trabalhadores, 7 estão com a Covid-19. No geral, em cada turno, são centenas de trabalhadores interagindo e aglomerados em plantão. Hoje, Evaldo ainda se recupera dos sintomas da Covid-19 em casa. Assim como a sua esposa e a sua mãe. Gastou do próprio bolso cerca de R$ 1.000 em medicações e equipamentos para inalação. “A gente fica desamparado”, ele me diz.

O sentimento, para Evaldo, é o mesmo ao de ver a situação em Mariana e Brumadinho.  “A Vale com o seu poder financeiro vai esticar a corda até onde der e vai arrebentar do lado mais fraco. Não importa se serão 50 ou 100 mortes. Depois ela vai tentar reverter isso fazendo o que ela tá fazendo com o governo federal, os estados e municípios. Ela paga para calar a boca dos órgãos que deveriam proteger a sociedade”, critica Evaldo.

Enquanto o trabalhador “está se lascando para sobreviver”, ele diz, “a Vale tá ganhando bilhões na pandemia”. De fato, o minério de ferro já subiu mais de 25% no ano, ultrapassando os 100 dólares por tonelada, inclusive para entregas futuras.

Para Evaldo, que trabalha há 9 anos na Vale, as ações e as “doações” anunciadas pela Vale não passam de obrigações da mineradora. Principalmente em cidades como Parauapebas, onde ela é um dos principais vetores de contaminação pela Covid-19.  

“Como o governo federal não tem política de saúde, a mineradora aproveitou esse vácuo e viu a oportunidade de doar e trazer aviões da China, maior compradora de minério dela, com o poder que tem. Nos holofotes, para quem está de fora, tá tudo a mil maravilhas, mas o trabalhador que tá na mina é que sabe a verdade. Tem que ficar calado doente, se falar sofre boicote”, diz Evaldo.

OAB cobra da Vale informações e ações para conter a pandemia

Na segunda, 25 de maio, a Ordem dos Advogados do Brasil de Parauapebas enviou um ofício para a Vale cobrando informações sobre a gravidade e a extensão da pandemia na cidade. Segundo a OAB, “Parauapebas não dispõe, na rede pública e particular de saúde, estrutura mínima necessária para cobertura dos elevados números de casos que geram demasiada demanda por serviços de saúde”.

Entre as perguntas enviadas, a OAB questiona quantos trabalhadores da Vale e das terceirizadas foram contaminados pela Covid-19, quantos se afastaram, quantos foram remanejados para outras cidades e quantos entraram na fase grave da doença. O pedido de resposta, preferencialmente em 48 horas que se encerram hoje, ainda não foi atendido.

Dos 20 respiradores comprados pelo município, somente 4 estão em funcionamento. O hospital de campanha com 100 leitos criados pela Vale só atende casos de baixa complexidade, enquanto a demanda é sobretudo para casos de alta complexidade, com leitos de UTI. E poucos testes são feitos na cidade.

Para Rubens Motta de Azevedo Moraes Júnior, conselheiro da OAB Pará, Parauapebas não está adotando as medidas que poderia adotar. “Nem o município nem a Vale apresentaram um estudo sobre o impacto entre os seus empregados. O número de casos em Parauapebas mostra um fator extra em relação a outras cidades que é o setor mineral. Enquanto não houver qualquer fiscalização e estudos sobre o impacto que a atividade mineral está causando na sociedade local, as medidas serão ineficientes”, avalia Motta.

No último sábado, 23, a presidente da OAB de Parauapebas, Maura Regina Paulino, fez uma diligência em conjunto com Associação Médica de Carajás, para verificar as condições do atendimento na rede pública municipal de saúde. O resultado, segundo a OAB, é “um cenário de extrema precariedade e violação aos direitos humanos e ao direito constitucional à saúde”.

Após a diligência a OAB do Pará precisou soltar uma nota de solidariedade à Maura Paulino, que passou a sofrer ataques em redes sociais e em uma loja que possui na cidade, que teve o letreiro arrancado. Blogs locais apontam que os responsáveis seriam milícias digitais que agem sob ordens do prefeito Darci Lermen (MDB).

Parauapebas acumula questionamentos na justiça. O Ministério Público Federal entrou com uma ação contra o decreto municipal que considerou diversas atividades como essenciais, o MP do Pará questiona em Ação Civil Pública a abertura do comércio pelo prefeito, um advogado popular também pede a compra de tomógrafos e uma ação dos sindicatos de enfermeiros cobra a compra de equipamentos de proteção para trabalhadores da saúde.

Vídeos mostram funcionários aglomerados com Covid-19 e suposta falta de registro na rede pública de saúde. Vale e prefeitura negam

Os vídeos abaixo, enviados para a reportagem, mostram funcionários de terceirizadas da Vale em Carajás sendo recolhidos após triagem que apontou suspeita de Covid-19, reunidos em ônibus. Outro vídeo mostra que os funcionários estariam sendo atendidos em um laboratório em Parauapebas e que os registros não seriam encaminhados para a rede municipal. Assista.

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Este vídeo não existe

Em nota, a assessoria de comunicação de Parauapebas disse que “a Secretaria Municipal de Saúde informa que a mineradora Vale realizada as notificações compulsórias dos casos confirmados de funcionários e que esses casos são inseridos no boletim do município”.

Sobre o caso, a Vale disse à reportagem que “mantém diálogo com os órgãos competentes e comunica as autoridades de saúde sobre casos suspeitos e/ou confirmados. Em respeito à privacidade de seus empregados, a empresa não comenta sobre resultados de exames. A Vale reforça ainda que segue os protocolos de saúde e segurança estabelecidos pelas autoridades e agências de cada um dos países em que opera”.

De acordo com a mineradora, “a Vale está realizando a testagem de todos os seus empregados e terceiros, e retirando do ambiente de trabalho aqueles que testaram positivo, ainda que assintomáticos, bem como todos os que eventualmente possam ter tido contato com o empregado que testou positivo”.

Sobre o caso de Parauapebas, a Vale afirma ainda que “nas comunidades, a Vale está colaborando para reduzir vetores de contaminação. Em parceria com a Prefeitura de Parauapebas, será feita testagem em massa na população do município, usando o sistema drive thru. A empresa também está realizando ações de limpeza de ruas e espaços públicos”.

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Esta postagem foi originalmente publicado pelo Observatório da Mineração [Aqui!].

Montana Química realiza série de ações sociais para minimizar impactos da pandemia

Empresa doa quase 1 tonelada de álcool em gel, novo produto de seu portfólio, e participa de programas de apoio aos setores da pintura e da construção civil

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Preservar para o futuro é um valor fundamental da Montana Química. Além de refletir-se nas suas soluções para tratamento e conservação da madeira, que ajudam a proteger substratos e incentivam o uso de madeira de plantio, eguiado iniciativas da empresa para auxiliar clientes, colaboradores e pintores no cenário da pandemia. As ações estão integradas a uma campanha da Montana denominada “Preservando o Bem”.

Entre os feitos da campanha estão doações de quase 1 tonelada de álcool em gel 70º INPM. A ABBA (Associação Brasileira Beneficente Aslan), entidade de São Paulo que ajuda crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, foi beneficiada com 515 quilos. Por sua vez, a Associação Brasileira dos Pintores Profissionais (ABRAPP) recebeu da Montana 333 kg do produto.

Outros 85 kg foram destinados à CEAG-10 da FIESP (Comissão de Estudos e Assessoria do Grupo 10, que representa empresas do setor químico), no ABC paulista. As entregas ocorreram no início de maio. A Montana também doou 16 kg para o Canal do YouTube Papo de Pintor, que fará a distribuição a profissionais cadastrados.

O Álcool 70º Montana Química, novidade no portfólio da empresa, é indicado para a limpeza de bancadas, pias, mesas, paredes, chão e quaisquer outras superfícies.

Solidariedade e aconselhamento

A Montana também participa, desde abril, do projeto Cores Solidárias, em parceria com a ABRAPP. O objetivo é a doação de vales-alimentação para pintores que viram a renda diminuir ou até mesmo zerar em virtude das medidas de distanciamento social. Até o momento, quase R﹩ 230 mil foram arrecadados pela iniciativa, beneficiando mais de 1,4 mil profissionais. Empresas e pessoas físicas que quiserem contribuir com a campanha podem se informar no sitdABRAPP.

Toda a mobilização da Montana começou assim que a pandemia foi oficializada. Em março, a empresa iniciou a divulgação de dicas para lojistas e pintores continuarem seus negócios em meio à COVID-19. Por meio de e-mail, de sua páginninternee das redes sociais, a empresa vem divulgando textos informativos sobre temas como e-commerce, grupos de WhatsApp e parcerias na cadeia de valor. Também em março, a Montana doou kits de proteção, compostos por álcool em gel e máscaras, para todos os seus colaboradores.

“Acreditamos que a união e a solidariedade são peças-chaves para que, juntos, possamos superar este momento. Estamos comprometidos em apoiar o setor e a sociedade, compartilhando conhecimentos e recursos para reduzir o impacto da crise”, afirma Michel Sentinelo, gerente de marketing e comunicação da Montana Química.

Sobre a Montana Química

A Montana Química construiu a reputação de especialista no tratamento, proteção e preservação de madeira no mercado graças ao seu principal valor, presente no coração da empresa desde 1953: preservar para o futuro. A multinacional investe continuamente em pesquisa e desenvolvimento, parque industrial e capacitação do seu capital humano para desenvolver produtos e serviços de alta qualidade. A Montana possui duas unidades de negócios: industrial, que abrange a linha de preservação e produtos de alto desempenho para madeira, e varejo, que abrange a linha de acabamentos e complementos.

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Informações para a imprensa: 2PRÓ Comunicação

Jorge Soufen Jr. – jorge.junior@2pro.com.br

Carolina Mendes – carolina.mendes@2pro.com.br

Myrian Vallone – myrian.vallone@2pro.com.br

Telefone: (11) 9-9170-9079

Análise sobre os pontos que têm fragilizado o combate à COVID-19 no Brasil

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A pedido dos estudantes que participam da Gestão Ativa, empresa júnior que atua com os cursos de Administração Pública, Ciências Sociais e Pedagogia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF),  produzi uma avaliação do que considero os principais que têm dificultado uma ação mais eficaz dos diferentes níveis de governo no controle e combate da pandemia da COVID-19 (ver vídeo abaixo).

É preciso mencionar que esse esforço de análise só foi possível a partir da provocação instigadora dos estudantes que tocam a empresa junior dos cursos de graduação pertencentes ao Centro de Ciências do Homem da Uenf, aos quais agradeço a oportunidade de falar sobre a crise de gerenciamento que vem marcando a expansão letal da COVID-19 no  Brasil.

A blitz em Wilson Witzel e o aprofundamento da crise política no Brasil

witzel bolsoO hoje governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC/RJ), posando com camisa do então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.

A população do Rio de Janeiro amanheceu mais uma vez com notícias de ações da Polícia Federal para apurar supostas irregularidades na área da Saúde cometidas por um governador em exercício, no caso o ex-juiz Wilson Witzel. Essa operação alcunhada de “Placebo” por causa de alegado superfaturamento na montagem dos famigerados hospitais de campanha é uma espécie de “déjà vu” porque nos últimos anos tivemos casos rumorosos envolvendo os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

A diferença nesse caso é a rara celeridade com que a detecção das supostas irregularidades no governo estadual do Rio de Janeiro resultou em uma operação da Polícia Federal que a mídia corporativa informa está vasculhando endereços oficiais e pessoais de Wilson Witzel.  E, curiosamente, com um destacamento da Polícia Federal lotada no Distrito Federal.

Essa celeridade inaudita já levanta o espectro da perseguição política por parte do presidente Jair Bolsonaro que hoje tem em Witzel um enorme desafeto. Contribuiu para a presença desse espectro, as declarações de véspera da deputada federal Carla Zambelli (PSL/SP) (uma das ardorosas aliadas da família Bolsonaro no congresso nacional) que teria previsto com o poder de um oráculo a deflagração da operação policial de hoje. Se isso for confirmado, há, inclusive que se apurar se isso não contribuiu para a destruição de provas, já que entre o anúncio de Zambelli e a deflagração da operação Placebo passaram-se horas suficientes para destruir um caminhão de provas.

Mas colocando-se de lado a evidente disputa política que ocorre atualmente entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador fluminense, ninguém pode discordar de que é necessário apurar se realmente, em meio a uma pandemia letal, ocorreram crimes contra o estado do Rio de Janeiro com a prática de sobrepreço, por exemplo.  Ser contra a apuração e a punição de crimes de corrupção não parece razoável, especialmente se isso ocorre quando milhares de pessoas estão pessoas por falta de estruturas próprias de saúde.

Além disso, é preciso lembrar que, embora brigados no momento, Jair Bolsonaro e Wilson Witzel são praticamente inseparáveis em termos ideológicos, especialmente no que tange ao uso da força extrema para obter um apaziguamento social que se mostra totalmente deletério para o interesse da maioria pobre da população fluminense. A ligação entre Bolsonaro e Witzel é tão grande que o secretário de Ciência e Tecnologia, Leonardo Rodrigues, um dos acusados de terem praticados crimes de corrupção, é o segundo suplente do senador Flávio Bolsonaro, tendo convivido de forma próxima com o próprio presidente Jair Bolsonaro.

xleonardo_flavio.jpg.pagespeed.ic.YTdaazNep0Leonardo Rodrigues, suplente de Flávio Bolsonaro e atual secretário de Ciência e Tecnologia Foto: Reprodução / Redes Sociais

Além disso, sob o comando de Wilson Witzel, as polícias do Rio de Janeiro adotaram uma tática de violência extrema dentro de comunidades controladas pelo narcotráfico, o que motivou o jornal estadunidense a publicar uma longa matéria intitulada “License to Kill: Inside Rio´s Record Year of Police Killings” (ou em português “Licença para matar: dentro do ano recorde de assassinatos pela polícia”). Nesse sentido, há ainda que se lembrar que mesmo durante a pandemia da COVID-19, ocorreram diversos assassinatos de jovens negros dentro de comunidades da cidade do Rio de Janeiro, sendo que em algumas delas as operações policiais ocorreram durante a distribuição de cestas básicas para famílias que se encontram em dificuldades para adquirir alimentos.

license to killMatéria publicada pelo “The New York Times” no dia 18 de maio de 2020 abordou as ações letais em número recorde realizadas pela polícia fluminense em comunidades pobres da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2019.

Desta forma, me parece que qualquer propensão a tomar posição em favor de Wilson Witzel em razão da possível interferência do presidente Jair Bolsonaro deverá levar em conta os diversos aspectos envolvendo não apenas os fatos já publicizados sobre as acusações de corrupção envolvendo o governo do Rio de Janeiro, mas também a natureza da relação política que levou os dois ao poder.

De toda forma, há ainda que se esperar o pronunciamento do governador Wilson Witzel, um ex-juiz com esperada experiência na análise processual deste tipo de operação. Se ele encontrar furos nos procedimentos que levaram à autorização da operação Placebo, é bem provável que ele saia rapidamente da defesa para o ataque. E dependendo do calibre que ele tiver nas mãos para realizar este contra-ataque, é bem possível que tenhamos um aprofundamento ainda maior da crise política que hoje se mistura com o avanço da pandemia da COVID-19.

Vacina desenvolvida na China mostra sinais promissores para o combate ao coronavírus

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O mundo inteiro vem esperando ansiosamente pelo desenvolvimento de uma vacina  que possa acabar com a pandemia da COVID-19 que matou mais de 330.000 pessoas até  o momento.  Eis que agora, surge a primeira candidata a ser uma vacina viável, segundo artigo publicado no dia ontem (22/05) pela respeitada revista “The Lancet”, que disponibilizou o trabalho em formato digital para que os resultados alcançados por uma equipe liderada pelo professor Chen Wei, professor do Instituto de Biotecnologia de Beijing, e membro da Academia de Ciências Médicas Militares e  da Academia Chinesa de Engenharia.

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A vacina, classificada como “vetor adenovírus recombinante tipo 5” (Ad5-nCoV), atuaria como uma infecção natural e é especialmente boa em ensinar ao sistema imunológico como combater o vírus, e foi testada em 108 voluntários. Estes voluntários foram   divididos em três grupos, cada um tomando uma dose diferente da vacina.

vacina anticorposRespostas específicas de anticorpos ao domínio de ligação ao receptor e anticorpos neutralizantes do SARS-CoV-2 vivo

O estudo mostra que após 28 dias de inoculação da vacina, nenhuma reação séria foi encontrada nos participantes, indicando que a vacina parece ser tolerada por seres humanos.  Além disso,  anticorpos contra o SARS-CoV-2 começaram a aumentar nos voluntários duas semanas após a injeção, tendo atingido o pico no dia 28 do experimento.   Com base nos resultados obtidos na chamada “fase 1” do experimento,já foi iniciado o ensaio clínico de fase 2, agora com a participação de 508 voluntários envolvidos. É importante notar que  existem outras duas vacinas sendo testadas em seres humanos na China, a ShaCoVacce  a PiCoVacc.

Entretanto, ainda há dúvidas sobre a possibilidade dessa vacina ser usada para todos os grupos etários,  já que ela usa um vírus do resfriado humano vivo, porém enfraquecido, o adenovírus 5, no qual o material genético do coronavírus SARS-CoV-2 foi fundido. O vírus Ad5 é efetivamente um sistema de entrega que ensina o sistema imunológico a reconhecer o coronavírus.  Entretanto, dado que muitas pessoas já tiveram infecções anteriores com adenovírus 5, levantando preocupações de que o sistema imunológico se concentre nas partes Ad5 da vacina e não na parte SARS-Cov-2. 

Afora os elementos científicos que cercam este experimento da equipe liderada pelo professor Chen Wei, obviamente o elemento geopolítico da corrida em torno da descoberta de uma vacina eficiente para controlar a COVID-19. É que o presidente chinês, Xi Jinping, declarou que uma vacina eventualmente desenvolvida pela China seria considerada como um “bem público global“, e que esta designação seria uma a contribuição chinesa para garantir a acessibilidade e a acessibilidade das vacinas nos países em desenvolvimento”.

Uma imagem vale mais do que milhões de palavras para demonstrar a letalidade da COVID-19

Das lentes do fotógrafo Edmar Barros, o mesmo cemitério com 37 dias de separação, a clareza do impacto da COVID-19 em um cemitério em Manaus, capital do estado do Amazonas.

mesmo cemitério

Diante dessa evidência irrefutável da letalidade da COVID-19, especialmente entre os mais pobres, é que me parece que qualquer tentativa de flexibilizar o isolamento social no Brasil neste momento não pode ser caracterizado como algo menos do que um genocídio.

Por isso, aos leitores deste blog, reforço que é fundamental continuarmos o trabalho de solidariedade que é convencer todos os que são próximos, e também não tão próximos, que não é possível relativizar a gravidade que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil. Cuidar de si e todos os que forem possíveis de serem alcançados. Depois a gente faz os devidos acertos políticos com quem permitiu que essa situação alcançasse o nível que está alcançando.

Ricardo Salles comete sincericídio e sugere uso da COVID-19 para enfraquecer as leis ambientais no Brasil

ricardosalles-abreNa reunião de 22 de abril, Ricardo Salles pediu que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada”.  

Um dos momentos mais interessantes e reveladores do que já foi mostrado na divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril veio na fala do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles (ver sequência de imagens abaixo).

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Dentre as pérolas oferecidas por Ricardo Salles está o pedido para que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada“.  

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Além disso, Salles afirmou que “então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Salles ainda sugeriu que o governo fizesse mudanças relacionadas ao meio ambiente sem o aval do Congresso Nacional.  Para que isso seja possível, Salles ressaltou que a  Advocacia Geral da União (AGU) precisaria ficar de prontidão para eventuais contestações do governo na Justiça.  Nesse sentido, Salles afirmou que “então pra isso nós temos que tá com a artilharia da AGU preparada para cada linha que a gente avança ter uma coi … mas tem uma lista enorme, em todos os ministérios que têm papel regulatório aqui, pra simplificar“.

Em suma: para Ricardo Salles, a pandemia da COVID-19 seria proveitosa no sentido de avançar o processo de desmanche da governança e da legislação ambiental, evitando que tais mudanças tivessem que passar pelo Congresso Nacional. Se isso não for o suprassumo do oportunismo político, sinceramente não sei o que seria.

Em minha modesta opinião, será essa fala de Ricardo Salles que criará mais embaraço para o Brasil nas relações econômicas e políticas, pois fica explícito o processo de desmanche que ele comanda à frente do Ministério do Meio Ambiente. É que, ao contrário do que parecem acreditar os membros do governo Bolsonaro, o período pós-pandemia não será tão tolerante com a destruição ambiental em curso no Brasil.

Mas mais do que nunca, Salles tem carimbado na testa o rótulo de “Exterminador do meio ambiente”.  Nada mais justo para quem se aproveita de uma pandemia mortal para destruir a governança ambiental duramente construída no Brasil.

No vídeo abaixo é possível ver o momento exato da fala “passa a boiada” de Ricardo Salles.

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Este vídeo não existe

As entranhas do governo Bolsonaro são expostas ao vivo na TV

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A tarde hoje começou com uma ameaça nada velada do general da reserva e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que chegou a falar em uma ameaça institucional caso seja aprovada a decisão de recolher o telefone celular do presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

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A manifestação do general Heleno foi entendida por muitos como uma ameaça ao Supremo Tribunal Federal às vésperas da decisão do ministro José Celso de Mello Filho sobre a liberação do vídeo completo da reunião ministerial do dia 22 de abril que terminou motivando o pedido de demissão do então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Se a intenção do general Heleno foi realmente coagir a decisão do ministro decano do STF, Celso de Mello, a aposta foi um famoso “tiro pela culatra”, pois neste momento milhões de brasileiros já estão assistindo ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril no que pode ser classificada como uma exposição ao vivo das vísceras de um governo em plena pandemia da COVID-19.

Das partes que já foram mostradas, a mais significativa é a que indica que o ex-ministro Sérgio Moro efetivamente foi pressionado a mudar a direção da Polícia Federal no estado do Rio de Janeiro por causa do medo expresso pelo presidente Jair Bolsonaro de que amigos e familiares poderiam ser alcançados por investigações em curso.

Obviamente outras partes, especialmente aquela em que o presidente Jair Bolsonaro diz querer “armar o povo” para impedir uma ditadura.  Esse “armar o povo” certamente demandará a explicação a que o povo se referiu o presidente.

Com certeza, os próximos dias serão cheios de novas imagens dessa reunião, o que deverá aprofundar ainda mais a crise política que consome o Brasil em um momento que milhares de brasileiros estão morrendo por causa da COVID-19.

Para quem tiver interesse em ler a íntegra do que foi dito durante a reunião ministerial de 22 de abril, basta clicar Aqui!

Financial Times prevê mais de 100.000 mortos por COVID-19 no Brasil

APTOPIX Virus Outbreak BrazilFinancial Times prevê que número de mortos por COVID-19 no Brasil deverá ultrapassar 100.000 nos próximos meses

O jornal britânico “Financial Times”, que não chega nem de perto de ser uma versão contemporânea do “Gazeta Renana” de Karl Marx, publicou ontem um artigo assinado pelos jornalistas Bryan Harris e Andres Schiapini sob o título “Brazil emerges as a top global coronavirus hotspot” (ou em português “O Brasil emerge como um dos principais epicentros de coronavírus do mundo”).   Com base nas previsões de vários especialistas consultados, Harris e Schiapini apontam que mais de 100.000 brasileiros irão morrer por causa da COVID-19 no mundo, com a possibilidade de que este número esteja subestimado em função da flagrante subnotificação de casos e falta de uma política de testagem em massa da população.

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Entre as razões estruturais pelas quais a COVID-19 deverá ter um efeito tão devastador no Brasil está a profunda desigualdade social e econômica existente no Brasil, que torna extremamente difícil que os habitantes dos cinturões de pobreza extrema possam adotar as medidas de isolamento social que estão sendo propostas por governadores e prefeitos.  Uma expressão usada para exemplicar esta situação de superpopulação em áreas pobres,  Harris e Schiapini apontam que “as pessoas estão vivendo nas favelas umas em cima da outras”.

Um dado colocado na matéria é particularmente chocante para os que não conhecem o Brasil, pois é citada a cifra de que em 2019 ” a renda média mensal dos 1%  brasileiros mais ricos foi mais de 33 vezes a renda média dos 50% inferiores da população”. Tal desproporção de renda é que estaria alimentando a dispersão particularmente agressiva nas áreas mais pobres.

Entretanto, a matéria do Financial Times é particularmente crítica da postura adotada pelo presidente Jair Bolsonaro na gestão da pandemia da COVID-19 no Brasil, a pontos dos jornalistas incluírem a afirmação que o nosso país está enfrentando dois vírus neste momento: o coronavírus e o bolsonarovírus.  Harris e Schiapini apontam ainda que o tratamento da pandemia por Jair Bolsonaro já levou à saída de dois ministros da saúde, sendo que o último, Nelson Teich, foi substituído por um oficial militar, que não tem experiência na área da saúde ou no complexo serviço de saúde pública do Brasil.

A matéria lembra ainda que a gravidade do surto combinada com a falta de uma resposta política coerente abalou a confiança dos negócios e levou a moeda a cair.  Em função disso, desde janeiro, o real caiu 32% em relação ao dólar, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deverá cair 7% ou mais em 2020.

O fato é que, dado o público leitor preferencial do Financial Times, esta matéria deverá repercussões sérias entre os chamados investidores internacionais. À parte da “toxicidade” do Real, a instabilidade social e política que deverá se seguir ao imenso número de mortos deverá tornar os investimentos no Brasil pouquíssimo interessantes, mesmo para especuladores do mercado financeiro.

Mas enquanto o Financial Times traça um perfil tão sombrio para a evolução da pandemia no Brasil, as elites econômicas e os governantes parecem estar em um processo paralelo de compreensão da realidade (como se vivem na “Matrix”  das irmãs Wachowski). É que apenas no dia de ontem, ouviu-se a mesma ladainha de que a vida precisa voltar ao normal e o comércio reabrir, inclusive na cidade do Rio de Janeiro onde a própria prefeitura estima que nas próximas duas semanas mais de 40.000 pessoas deverão ser infectadas pelo coronavírus.

Aliás, a cereja no bolo dos negacionistas da gravidade que a pandemia assumiu no Rio de Janeiro foi a volta aos treinos da equipe do Clube de Regatas do Flamengo. É que dada a imensa de massa de torcedores que o time tem não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, as imagens dos seus jogadores batendo bola alegremente, como se não houvesse pandemia, certamente será usada em imagens televisivas para defender a volta ao trabalho.

A verdade inescapável é que se dependermos do compromisso do presidente Jair Bolsonaro e da maioria dos governadores e prefeitos, a pilha de mortos poderá ser maior do que o estimado na matéria do Financial Times. Esta é a verdade pura e simples, pois a realidade é que as elites brasileiras nunca se preocuparam com a vida (e muito menos a morte dos pobres que o modelo de capitalismo implantado no Brasil gerou). A saída para impedira concretização dos piores cenários para esta pandemia terá de sair da ação de movimentos sociais, sindicatos e da população organizada. Lamentavelmente esse esforço terá de se dar em meio à condições marcadas pela extrema miséria e pela violência do aparelho de estado, como vem ocorrendo no Rio de Janeiro nos últimos dias.

Diário do Centro do Mundo revela que apologia à tortura é o verdadeiro significado da tubaína de Jair Bolsonaro

O verdadeiro sentido da “tubaína” de Bolsonaro: gíria de quartéis para tortura por afogamento

BOLSONARO QUEM É DE ESQUERDA TOMA TUBAÍNA QUEM É DE DIREITA TOMA ...

Por Tchelo para o DCM

A falta de respeito de Bolsonaro com as vidas perdidas por causa do Coronavírus, justamente no dia em que, basicamente, morreu um brasileiro por minuto em 24 horas, vai além de uma piada tosca que rima palavras com final “ina”.

Se fosse só para desdenhar a gravidade da pandemia, Bolsonaro poderia ter usado outra rima: brilhantina, nitroglicerina, parafina, água de piscina…

A palavra tubaína não foi escolhida por acaso. Foi escolhida a dedo.

Tubaína é, na verdade, “entuba aí, né”.

O trocadilho é a forma mais pobre de se fazer uma piada. Um jogo de palavras com duplo sentido, bobo e infame que qualquer tiozão consegue fazer. Tipo, “ela queria dar o furo”, sacou?

Ao dizer que quem é de direita toma Cloroquina e quem é de esquerda, tubaína, o presidente faz pouco caso dos brasileiros que contraírem o vírus, insinuando que os que não tomarem o medicamento serão entubados.

Na verdade, repetiu uma piada interna, daquelas que só um círculo de amigos compreende. Talvez por isso tenha passado batido para a maioria das pessoas.

Ao final ele pergunta: entendeu? Deixa claro que existe um segundo sentido. Há quem diga que nos bastidores do Planalto ele faz essa piada baixa faz tempo.

Sabe-se também que tubaína é uma gíria usada em quartéis para a técnica de tortura por afogamento em que se coloca um funil na garganta do torturado e despeja-se água sem parar.

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A “tortura d´água” é uma prática que foi utilizada pela Inquisição durante a Idade Média e consistia em colocar um funil na garganta de um indivíduo e despejar a água sem parar. Tal técnica recebeu nos centros de tortura da Ditadura Militar o apelido de tubaína.

Seguida de sua risada forçada, amedrontadora, a piada de Bolsonaro tenta estimular seu gado a rir com ele, como faz em suas visitas matinais ao puxadinho do planalto.

Nessas ocasiões sempre existem alguns apoiadores que riem enlouquecidamente de suas investidas malcriadas. Será que tem gente contratada para rir dessas desgraças na tentativa de transformar as grosserias do presidente em piada, e assim aliviar o absurdos expelidos pelo seu Jair?

É, ontem foi publicada a mudança no protocolo que libera o uso da cloroquina para uso preventivo.

O próprio sujeito, que todos sabem não ser médico, diz que guarda uma caixinha do remédio para medicar sua mãe de 93 anos em caso de necessidade.

Será que ele realmente administraria o medicamento nela mesmo sabendo – ou fingindo não saber – dos riscos da automedicação?

Atingimos um novo patamar na República do Tio do Pavê.

Agora temos a Presidência do Entuba Aí Né.

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Esta postagem foi originalmente publicada pelo site “Diário do Centro do Mundo” [Aqui!].