Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza registram diminuição na carga do coronavírus em seus esgotos nas últimas semanas, mas Rio segue com valores altos

Em comparação ao último boletim da Rede Monitoramento COVID Esgotos, as três capitais tiveram redução da carga viral. Já o Rio de Janeiro permaneceu com cargas consideráveis do novo coronavírus em todos os pontos de monitoramento

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Boletim de Acompanhamento nº 04/2021 da Rede Monitoramento COVID Esgotos, com dados até 24 de julho, semana epidemiológica 29, identificou uma tendência de redução da carga viral do novo coronavírus em três capitais: Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza em relação ao último boletim publicado em 7 de julho. No sentido oposto, o Rio de Janeiro teve a maior carga viral já medida no período abrangido pelo último Boletim, ocorrida na semana de 27 de junho a 3 de julho. Veja as informações por cidade a seguir, sendo que todos os dados constam do Boletim nº 4/2021.

Belo Horizonte (MG)

Em Belo Horizonte, houve uma redução da carga viral nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho) respectivamente de 37,4 bilhões de cópias por dia do vírus para cada 10 mil habitantes; 36,7 bilhões; 36,4 bilhões; e 13 bilhões. A carga verificada na semana 29 foi a menor registrada em 2021.

Em Belo Horizonte, nas semanas 26 e 27 o ponto de monitoramento do Interceptor Córrego Cardoso registrou uma concentração de novo coronavírus elevada – acima de 25 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras –, indicada em vermelho nos mapas disponíveis no Boletim nº 4/2021. Na semana 27 outro ponto com alta concentração do vírus foi o Interceptor Córrego Gorduras.

Já nas semanas epidemiológicas 28 e 29 houve o surgimento de pontos com baixa concentração, entre 1 e 4 mil cópias por litro, indicados em amarelo. É o caso do Interceptor Córrego Terra Vermelha, que esteve nesse patamar em ambas as semanas. Somente na semana epidemiológica 29 os pontos de monitoramento da Estação de Tratamento de Esgotos Onça (ETE Onça) e do Interceptor Córrego Vilarinho tiveram concentração viral num patamar baixo. Nos demais pontos de monitoramento, a concentração ficou na faixa intermediária entre 4 mil e 25 mil cópias por litro, representada pela cor laranja nos mapas do Boletim.

Já nos pontos especiais de monitoramento na capital mineira, todos eles apresentaram níveis não detectáveis ou baixa concentração viral em algum momento entre as semanas epidemiológicas 26 e 29. Esses pontos incluem o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, lar de idosos, Rodoviária de Belo Horizonte, Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), shopping localizado em área de alta renda (SHC-01) e shopping localizado em área de baixa renda (SHC-02). Veja no Boletim nº 4/2021.

Brasília (DF)

Com um histórico de medições iniciado no fim de março deste ano, Brasília apresentou respectivamente uma carga de 434, 224, 229 e 181 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho). Essa carga viral é determinada em oito estações de tratamento de esgotos (ETEs), que atendem a cerca de 80% da população do Distrito Federal.

As cargas medidas nas semanas epidemiológicas 27, 28 e 29 são as menores do histórico, que tinha o menor valor registrado para a semana 19 (11 de maio), em 236 bilhões de cópias por dia a cada 10 mil habitantes. Portanto, há uma tendência de redução da carga do novo coronavírus nos esgotos do DF, que ainda segue elevada.

Entre as semanas epidemiológicas 26 e 29, somente a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Brasília Norte permaneceu no patamar intermediário de concentração viral, entre 4 e 25 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras, indicado em laranja nos mapas a seguir. Nesse período todas as ETEs monitoradas ficaram no patamar médio de concentração viral e/ou no patamar elevado, acima de 25 mil cópias, indicado em vermelho nos mapas do Boletim nº 4/2021.

Vale destacar a elevação da concentração viral, e da carga, nas áreas atendidas pelas ETEs Melchior e Samambaia na semana epidemiológica 29 em comparação à 28. Juntas essas duas estações de tratamento atendem a uma população estimada de aproximadamente 1,3 milhão de habitantes.

Fortaleza (CE)

Fortaleza possui um histórico de dados desde 8 de junho, na semana epidemiológica 23, quando foi medida a maior carga viral nos esgotos da capital cearense: 34 bilhões de cópias por dia do novo coronavírus para cada 10 mil habitantes. Nas semanas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho) houve uma tendência de redução da carga viral. Nessas semanas, os valores identificados foram respectivamente de 15,2 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil habitantes; 12,1 bilhões; 10,1 bilhões; e 2 bilhões.

Nas semanas epidemiológicas 26 a 29, Fortaleza teve pontos onde o vírus não foi detectado (áreas em verde); foi detectado em concentração baixa (em amarelo), entre 1 e 4 mil cópias a cada 10 mil habitantes; e em concentração intermediária (em laranja), acima de 4 mil e até 25 mil cópias. Nas últimas semanas epidemiológicas, as maiores concentrações do novo coronavírus foram detectadas nas regiões da capital cearense que contribuem com esgoto para as estações elevatórias Reversora do Cocó e Praia do Futuro. Porém, nas duas regiões foi observada uma tendência de redução nas concentrações virais nas últimas semanas.

Rio de Janeiro (RJ)

As concentrações e cargas virais do novo coronavírus no esgoto do Rio de Janeiro permaneceram muito elevadas nas semanas epidemiológicas 26 (de 27 de junho a 3 de julho), 27 (4 a 10 de julho), 28 (11 a 17 de julho) e 29 (18 a 24 de julho): respectivamente 1,82 trilhão de cópias por dia a cada 10 mil habitantes; 700 bilhões; 748 bilhões; e 926 bilhões de cópias do novo coronavírus. A carga medida na semana 26 foi a maior do histórico iniciado em novembro de 2020, superando os 1,68 trilhão de cópias medidos em 24 de maio na semana epidemiológica 21.

Além disso, as concentrações permanecem bastante elevadas – acima de 25 mil cópias do vírus por litro – em todos os nove pontos monitorados, sendo quatro ETEs na capital fluminense (Alegria, Barra, Penha e Vargem Grande) e uma em São João de Meriti (ETE Sarapuí). Ainda na capital, nas estações elevatórias Leblon e André Azevedo, assim como nas ETEs Pavuna e ETIG, as concentrações estão em níveis bastante elevados, indicados em vermelho nos mapas disponíveis no Boletim nº 4/2021.

Na semana epidemiológica 26, foram observadas as maiores concentrações já registradas em todo o período de monitoramento para as estações elevatórias André Azevedo, ETE Ilha do Governador e ETE Sarapuí. Por outro lado, nas últimas três semanas de monitoramento, houve uma redução significativa das concentrações virais na região atendida pela Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Alegria, que recebe contribuição de aproximadamente 1,2 milhão de habitantes.

Recife (PE)

A amostragem de esgoto em Recife já foi iniciada, mas os resultados das análises ainda não estão disponíveis.

Curitiba (PR)

Os dados de Curitiba das últimas semanas epidemiológicas ainda não estão disponíveis em virtude de questões com os reagentes laboratoriais utilizados no monitoramento do novo coronavírus nos esgotos da capital paranaense.

Sobre a Rede Monitoramento COVID Esgotos

A Rede Monitoramento COVID Esgotos, lançada em webinar realizado em 16 de abril, acompanhará as cargas virais e concentrações do novo coronavírus no esgoto de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Esse trabalho, uma das maiores iniciativas brasileiras de monitoramento da COVID-19 no esgoto, busca fornecer subsídios para auxiliar a tomada de decisões para o enfrentamento da pandemia atual.

O último Boletim de Acompanhamento se soma aos boletins já publicados da Rede Monitoramento COVID Esgotos e aos 34 Boletins de Acompanhamento produzidos no contexto do projeto-piloto Monitoramento COVID Esgotos, realizado com base em amostras de esgotos em Belo Horizonte e Contagem (MG). As lições aprendidas com o projeto-piloto são a base para os trabalhos da Rede.

A Rede Monitoramento COVID Esgotos tem o objetivo de acompanhar a presença do novo coronavírus nas amostras de esgoto coletadas em diferentes pontos do sistema de esgotamento sanitário de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. A rede busca ampliar as informações para o enfrentamento da pandemia de COVID-19. Nesse sentido, os resultados gerados sobre a ocorrência do novo coronavírus no esgoto das cidades em questão podem auxiliar na tomada de decisões por parte das autoridades locais de saúde.

Com os estudos, o grupo pretende identificar tendências e alterações na ocorrência do vírus no esgoto das diferentes regiões monitoradas, o que pode ajudar a entender a dinâmica de circulação do vírus. Outra linha de atuação é o mapeamento do esgoto para identificar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos como uma ferramenta de alerta precoce para novos surtos, por exemplo.

A vigilância do novo coronavírus no esgoto também pode auxiliar nas tomadas de decisão relacionadas à manutenção ou flexibilização das medidas de controle para a disseminação da COVID-19. Também pode fornecer alertas precoces dos riscos de aumento de incidência do vírus de forma regionalizada.

A Rede é coordenada pela ANA e INCT ETEs Sustentáveis com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com os seguintes parceiros: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, a Rede conta com a parceria de companhias de saneamento locais e secretarias estaduais de Saúde.

Sobre os parceiros do projeto

ANA

Criada pela Lei nº 9.984/2000, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é a agência reguladora dedicada a implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos, a Lei das Águas, e coordenar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). Com a aprovação do novo marco legal do saneamento básico pela Lei nº 14.026/2020, também cabe ao órgão editar normas de referência para a regulação dos serviços públicos de saneamento básico.

Esse trabalho é feito por meio de ações de regulação, monitoramento, gestão e planejamento de recursos hídricos. Além disso, a ANA emite e fiscaliza o cumprimento de normas, em especial as outorgas em corpos d’água de domínio da União – interestaduais, transfronteiriços e reservatórios federais. Também é a responsável pela fiscalização da segurança de barragens de usos múltiplos das águas outorgadas pela instituição.

INCT ETEs Sustentáveis

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (INCT ETEs Sustentáveis) estuda questões sobre o esgoto sanitário, notadamente para países em desenvolvimento, de forma a contribuir para a promoção de mudanças estruturais e estruturantes nos serviços de esgotamento sanitário, a partir da capacitação profissional, desenvolvimento de soluções tecnológicas apropriadas às diversas realidades nacionais, construção e transmissão de conhecimento para a sociedade, órgãos governamentais e empresariais.

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Enquanto 35 municípios fecham escolas por piora na pandemia, governador Cláudio Castro aglomera em Campos dos Goytacazes

claudio castro 1(In) devidamente sem máscara, o governador Cláudio Castro (PSC) faz pose de congraçamento com o prefeito Wladimir Garotinho em reunião política realizada na sede da Cãmara de Dirigentes Lojistas (CDL) em Campos dos Goytacazes. Fonte: página do prefeito Wladimir Garotinho no Facebook

O Brasil e o Rio de Janeiro não são mesmo para principiantes. É que hoje o jornal “O Globo” informou que, por causa da piora nos níveis de contaminação do coronavírus, 35 municípios fluminenses , a começar pela capital, o governo estadual suspendeu aulas presenciais para evitar a piora da situação.

Quem lê uma notícia dessas  imagina que diante dessa situação, o governador “por acaso” Cláudio Castro (PSC) estaria no Palácio Guanabara realizando uma reunião de seu gabinete de crise para examinar de perto a situação, visto a chegada com força no território fluminense da temível variante Delta. 

Mas imaginou isso, se enganou. E que neste 06 de agosto, Cláudio Castro estava em uma espécie de “grand tour”  na cidade de Campos dos Goytacazes, onde promoveu aglomerações e ainda teve tempo para animadas selfies com os participantes dos diferentes eventos em que esteve (ver imagem abaixo).

claudio castro posandoAo lado do prefeito Wladimir Garotinho  (PSD), o governador do Rio de Janeiro posa para animada selfie em uma das muitas aglomerações em que causou em seu “grand tour” na região Norte Fluminense. Fonte: página do prefeito Wladimir Garotinho no Facebook

O problema é que se olharmos a lista de 35 municípios com aulas presenciais suspensas por causa da piora da pandemia da COVID-19, vamos identificar vários municípios do Norte Fluminense. Este fato reforça a incoerência que é ter um governador causando aglomerações em inaugurações e encontros políticos. 

E que ninguém se surpreenda se o Rio de Janeiro voltar a se colocar em uma situação crítica por causa da capacidade alta de contágio que a variante Delta possui. É que aqueles que deveriam mostrar o devido cuidado com a catástrofe sanitária em que nos encontramos, como cobrar posturas responsáveis do cidadão comum?

De volta para o futuro: o ensino híbrido sempre existiu, o nosso problema é outro

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Na metade do ano dois da pandemia, agita-se o movimento de volta para o futuro no ensino superior. Às vésperas do fim da maioria das medidas de restrição devidas à COVID-19 no Reino Unido, apesar da volta de um preocupante aumento no número diário de infecções por lá, uma matéria publicada no The Guardian, traz a manchete de que a “COVID-19 tem sido um grande catalisador” de mudanças para as universidades no mundo pós-pandêmico[I]. O mote é o anúncio recente de que a Universidade de Manchester manterá permanente as aulas no formato remoto e que outras instituições tendem a seguir esse caminho. O bom jornalismo do portal inglês aprofunda as opiniões dos concordantes e dos discordantes, muitas das quais, ambos os lados, são vistas por aqui.

Os líderes de muitas universidades na terra da rainha declaram que o mundo digital “aumenta a experiência dos estudantes”. Os investimentos futuros serão em propriedades digitais e não mais em instalações físicas e juram que o custo disso é alto, enquanto os céticos alfinetam dizendo que essa mudança é, ao contrário, justamente para diminuir os custos. Outros se entusiasmam, dizendo que a situação em que vivemos é o tal grande catalisador de boas e grandes mudanças proporcionadas pelas realidades virtual e aumentada oferecidas pela tecnologia. Sorriem também para as vastas possibilidades no mercado internacional de estudantes, já que, “em vez de ter que viajar por meio mundo até uma universidade no Reino Unido, eles [os estudantes] poderão estudar de seus países natais, uma opção mais barata e acessível para a maioria dos jovens.” Por outro lado, muitos consideram isso um engodo. De fato, parece uma burla desse novo e querido anseio das universidades, a internacionalização -, pois o diploma da universidade X pode ser obtido remotamente, mas isso não tem nada a ver com a experiência real da convivência presencial em outro lugar. E levar essa experiência de volta ao país de origem. As autoridades universitárias alardearão o aumento dos indicadores de internacionalização ao mesmo tempo que diminuem o valor e o número das bolsas de estudo, reservando a experiência real para uma elite ainda menor.

Os docentes e administradores discordantes advertem que é preciso pensar um pouco mais: devagar com o andor. A percepção é de que os estudantes estão ansiosos pela volta do “cara-a-cara” na sua formação. Movimentos estudantis pedem reembolso, pois se sentem logrados pagando o mesmo pelo ensino remoto, lembrando que no Reino Unido o ensino superior público também é pago. Na matéria do The Guardian, um dos entrevistados lembra que obviamente seminários e laboratórios são melhores em grupos presenciais pequenos, mas mesmo as grandes aulas presenciais são melhores, pois percebe-se se a aula está sendo boa ou não pela reação corporal dos estudantes, permitindo ajustes. De um modo geral, aulas expositivas em grandes turmas são vistas – lá e cá – como pouco efetivas, que dirá quando são remotas. E uma citação direta de um dos entrevistados:

“Enquanto você disser que as aulas são online, isso perpetua a noção de que toda a experiência do estudante é online. Quando estudantes dizem que querem aulas [presenciais], não que dizer que querem aulas, eles querem ir aos cafés com os colegas após as aulas e conversar sobre elas[II]. Eles querem se engajar. Portanto, o que você realmente deve fazer é se perguntar: como o seu campus deve ser usado para estimular o engajamento?”

O entrevistado acrescenta que baniu a expressão “ensino híbrido”, pois considera-a totalmente inútil para discutir a situação presente. Concordo com o colega além-mar, pois, como anunciado no título acima, ensino híbrido já existia há muito tempo. Vejamos: o “híbrido” se refere a essa mistura entre presencia e virtual. Nos idos dos anos 1980 o ensino híbrido era possibilitado aos estudantes, pelo menos no curso de física na Unicamp. Não era obrigatório assistir as aulas, pelo menos para boa parte dos professores. Você poderia, se quisesse, estudar na biblioteca – equipamento da época para o ensino remoto – e só apresentar-se nas avaliações. E tirar dúvidas com os professores fora da sala de aula, que não se ofendiam pelas faltas. Muitos colegas se formaram com esse “ensino híbrido”. Eu ia na maioria das aulas, mesmo porque não eram muitas, mas ficava imaginando os colegas de alguns outros cursos que ficavam de manhã e de tarde, se segunda a sexta, sentados olhando os professores de olhos abertos ou fechados. E a biblioteca era tão interativa quanto as plataformas digitais de hoje, embora não oferecessem tanta diversidade e variedade de fontes. Aqui dou a mão à palmatoria, hoje podemos dar acesso, via essa “biblioteca aumentada” a muito mais informações e materiais aos estudantes. No entanto, com o passar do tempo e o avanço do gerencialismo nas universidades o controle de frequência passou a ser cada vez mais valorizado, na minha opinião tendo mais a ver exatamente com controle do que ensino. E assim, enquanto debatemos que o número de aulas precisa diminuir em favor de outras práticas de ensino, colocamos novamente as aulas na centralidade da experiência universitária. Com a possibilidade das aulas remotas “catalizadoras” de um “brilhante” futuro corremos o risco de um retrocesso mediado pela tecnologia. O problema não é o “híbrido” que já existia, mas sim o de escamotear a questão do que de fato será considerado a experiência universitária no futuro. Argumentos econômicos já surgem onde não é necessário, como a junção de turmas nas aulas online. Para que dar a mesma aula duas ou três vezes se é possível juntar numa turma só? Porque nenhuma aula é igual, as construções de significado são diferentes em momentos e turmas diferentes e o docente pode melhorar a mesma aula a cada vez que é dada e, se necessário, retomar as mudanças para a primeira turma na semana seguinte.

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Ensino híbrido, portanto, não é coisa recente em seu conceito, e a aprendizagem remota, graças à tecnologia, povoa o imaginário ainda há mais tempo. Vejamos o trabalho do ilustrador Arthur Radebaugh (1906-1974), “engenheiro da imaginação” nos anos 1950 e da década seguinte, que influenciou a visão de progresso e de futuro de mais de uma geração nos EUA[III]. Suas tiras de quadrinhos eram publicadas aos domingos e destaco a que ilustra a coluna: “educação aperta botão”. O quadrinho se refere provavelmente a todos os níveis de ensino, mas a legenda exalta a possibilidade de que as “escolas de amanhã” terão mais alunos e menos professores. O ensino será por meio de aulas e avaliações remotas. Nota-se que essa visão é pré-internet: apenas a professora é remota, os alunos são presenciais socializando com máquinas. A internet de hoje, imprevisível na época, possibilita agora que todos estejam remotos.

Na discussão do que será nosso futuro é importante não se deixar seduzir apenas pelas possibilidades do enxoval tecnológico e sim lembrar o que significa a universidade e que presencial e virtual não são a mesma coisa. Caso contrário, preservaremos os anéis no lugar dos dedos. A coluna é cheia de opiniões, que não refletem necessariamente a opinião da universidade onde estou, mas precisamos é de evidências para discutir o futuro e as que temos são ainda poucas e enviesadas pela emergência que nos aflige.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.


[I]https://www.theguardian.com/education/2021/jul/13/covid-has-been-a-big-catalyst-universities-plan-for-post-pandemic-life

[II] Importante no ensino superior e nas ciências: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/comunicacao-da-universidade-e-cantinas

[III] O link traz várias dessas ilustrações: https://designyoutrust.com/2018/12/closer-than-we-think-40-visions-of-the-future-world-according-to-arthur-radebaugh/

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da Unicamp [Aqui! ].

Segurança contra contaminação em utensílios de plástico

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*Por Daniel Minozzi

Sim, estamos vivenciando momentos que ficarão para a história. A pandemia da COVID-19 nos colocou em uma situação que até pouco tempo era fruto de imaginação influenciada por produções cinematográficas ou livros, seja na ficção, como os filmes Contágio (2011) e Epidemia (1995), seja ao relatar a devastação de outras pandemias como a da peste bubônica (bactéria Yersinia pestis) e varíola (vírus Orthopoxvírus variolae), entre outras. O fato é que, entretenimento ou vida real, convivemos com microrganismos.

Antes de abordar os riscos de saúde causados por eles, é importante ressaltar que a existência de micróbios não é totalmente maléfica, pelo contrário, a maioria são inofensivos e, até mesmo, essenciais para a sobrevivência de diversos seres vivos, desde as plantas aos animais, como nós. O que precisamos ter atenção é como esses seres do mundo microscópico interagem conosco e com nosso meio. Alguns, infelizmente, são nocivos ao nosso organismo e precisamos agir para evitar ou amenizar ao máximo possível os pontos de contaminação.

Atualmente, contamos com diversos sanitizantes, sendo o álcool o mais conhecido. Porém, assim como outros meios de higienização, utilizando produtos de limpeza em geral, a ação de desinfetar precisa ocorrer sempre, já que é totalmente pontual e passageira. Sem contar que, em determinados produtos, mesmo após uma boa limpeza ainda é possível identificar, de forma visual ou pelo odor, a presença de algum microrganismo.

Um exemplo clássico é o caso de utensílios de plástico que, sofrendo ou não com o desgaste de uso, fatalmente se tornam ferramentas de contaminação cruzada. Dentre os casos mais perceptíveis ou fáceis de lembrar, temos as tábuas de carne, potes ou containers de alimentos, cabo de instrumentos de corte (cutelaria), lixeiras, escova de dentes, chuveiro, etc. Todos acabam promovendo a proliferação de bactérias, como Escherichia coli e Salmonella, além de fungos como o Aspergillus, por exemplo.

A boa notícia é que empresas que mesclam ciência e tecnologia estão há um bom tempo no mercado desenvolvendo soluções que promovem a vários materiais um efeito de auto esterilização. A Nanox, por exemplo, conta com diversos casos no segmento de utilidades domésticas, promovendo esse efeito – conhecido também como antimicrobiano, em filme plástico esticável, como o Alpfilm Protect, diversas linhas de utilidades da Plasútil, cabo do instrumentos da linha de cutelaria da Tramontina, película protetora Promasafe da Promaflex, entre outras. E mais, muitos desses com eficiência comprovada contra o vírus da pandemia.

Cada vez mais esse apelo está fazendo sentido, algo entre as poucas coisas que esse cenário de crise sanitária acelerou. As pessoas estão mais interessadas e familiarizadas com esse tema, de modo a procurar nas prateleiras dos supermercados e das lojas em geral produtos que promovam maior segurança, tranquilidade e praticidade. O conceito de material inteligente se instalou e, como uma espécie de talismã, significará um ambiente, um lar mais protegido, mas não com superstição e sim com ciência.

*Daniel Minozzi é químico, mestre em ciências de materiais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e fundador e Diretor da Nanox, empresa especializada em nanotecnologia.

Frontiers do charlatanismo homicida

Adivinhe o que a Frontiers publicou agora

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Por Leonid Schneider para “For Better Science”

Frontiers é realmente a melhor editora acadêmica do mundo. Honestamente, eu quero dizer isso. Meus olhos estão abertos agora, eu entendi que a ciência nunca foi sobre ciência real, mas sobre a publicação de artigos para avançar sua carreira pessoal, negócios e agenda, a todo custo. E a Frontiers é realmente o melhor provedor de serviços que existe, cientistas, empresários e malucos entenderam há muito tempo que seus custos de publicação de € 3 mil serão bem investidos na Frontiers. Com a publicação científica, não é o tipo de ciência que está dentro (se houver), é como ela é embalada e comercializada, e a Frontiers é realmente a melhor lá. Se a Frontiers fosse uma marca de moda, estaríamos todos andando por aí completamente nus com penas enfiadas no traseiro.

Bem, não é apenas diversão e jogos. Claro, a Frontiers publica um monte de coisas bobas , suas teorias bizarras de autismo são clássicas, suas atividades paranormais na clarividência e na vida após a morte são ouro da comédia e que melhor maneira de entrar na pandemia se não o antivaxxaria hilariante, mas rigorosamente revisado por pares, pela Frontiers?

Portanto, é claro que não é surpreendente que a Frontiers aparentemente busque juntar-se à carnificina do COVID-19 com remédios charlatães. Pena que o guru da cloroquina Didier Raoult já tenha (cortesia da Elsevier) seu próprio conjunto de periódicos, com revisão por pares muito mais rápida e fatores de impacto mais elevados, e não precise perder tempo e dinheiro com o Frontiers. Tendo falhado com Pierre Kory e sua ivermectina, a editora Swiss Open Access agora serve a você alguns dos charlatães mais perigosos que existem: os da equipe da proxalutamida .

 

A história do medicamento contra queda de cabelo proxalutamida, feito por uma empresa farmacêutica chinesa, comercializado e patenteado por uma startup de caixa de correio californiana, reaproveitado por médicos brasileiros com aço de batalha com cloroquina como uma cura milagrosa COVID-19, e elogiado pelo presidente fascista Jair Bolsonaro, é contado neste artigo .

Portanto, o que se segue é uma espécie de atualização extensa, parte dela já relatada em Schneider Shorts anteriores.

Fronteiras no charlatanismo homicida

Agora, o que acontece com os ensaios clínicos fraudulentos e antiéticos onde os investigadores são amigos de um ditador fascista e têm envenenado seus pacientes com várias terapias COVID-19 charlatãs?

Bem, eles publicam sua descoberta na Frontiers, é claro, um investimento de míseros 3 mil euros, e então esses médicos brasileiros desonestos e seus parceiros farmacêuticos chineses lucram muito.

 

John McCoy, Andy Goren, Flávio Adsuara Cadegiani, Sergio Vaño-Galván, Maja Kovacevic, Mirna Situm, Jerry Shapiro, Rodney Sinclair, Antonella Tosti, Andrija Stanimirovic, Daniel Fonseca, Edinete Dorner, Dirce Costa Onety, Ricardo Ariel Zimerman, Carlos Gustavo Wambier A proxalutamida reduz a taxa de hospitalização para pacientes ambulatoriais masculinos com COVID-19: um ensaio randomizado duplo-cego controlado por placebo Fronteiras na medicina (2021) doi: 10.3389 / fmed.2021.668698

O estudo declarou:

“Um total de 268 homens foram randomizados em uma proporção de 1: 1. 134 pacientes que receberam proxalutamida e 134 que receberam placebo foram incluídos na análise de intenção de tratar. […] Aqui, demonstramos que a taxa de hospitalização em homens tratados com proxalutamida foi reduzida em 91% em comparação com o tratamento usual. ”

Esse mesmo lixo tóxico já foi desmascarado como fraudulento em sua versão pré-impressa no PubPeer e por Smut Clyde em meu site . O fato é que, antes da proxalutamida, os médicos usavam outro anti-andrógeno, a dutasterida, isso não é mencionado na seção de métodos do artigo da Frontiers. E seu braço de controle eram os antiparasitários ivermectina e nitazoxanida, mais o antibiótico azitromicina, além de muitos outros medicamentos, provavelmente misturados em um balde, o que explicaria a mortalidade inicialmente anunciada de quase 50% no braço de controle.

Aqui está Smut Clyde tentando desemaranhar as coisas (eu inseri os hiperlinks):

“ Eu provavelmente gastei muito tempo hoje tentando entender o que aconteceu com o ensaio clínico Dutasterida. Ele evoluiu de várias maneiras. Notavelmente, entre 23 de junho e 25 de julho de 2020 , adquiriu um terceiro grupo de 120 pacientes, que receberiam Proxalutamida (além de ivermectina e azitromicina). Presumivelmente, isso foi por insistência da Kintor Corporation, fabricantes de Proxalutamida, que procuravam uma aplicação para seu medicamento (além de “queda de cabelo” e “câncer de próstata resistente a bloqueadores de andrógeno”), e interveio para financiar o estudo – conforme observado em seu comunicado de imprensa. O trabalho da Biologia Avançada agora era encontrar essa aplicação.

Entre 28 de julho e 10 de dezembro , o inútil tratamento com ivermectina foi suspenso e substituído por nitazoxanida. Eu não tenho ideia do porquê.

Entre 10 e 29 de dezembro , conforme se aproximava o final do ensaio, os pesquisadores descobriram que os pacientes não haviam sido tratados sistematicamente com ivermectina, nitazoxanida OU azitromicina, e o aspecto de ‘tratamento de base’ foi substituído por “Padrão de tratamento conforme determinado pelo IP ”. Os pacientes podem estar recebendo QUALQUER COISA e ainda serem elegíveis.

Enquanto isso, todos os resultados foram descartados, exceto “Porcentagem de indivíduos hospitalizados devido a COVID-19”. Todas as outras medidas? Não é mais relevante. Mentes suspeitas podem chegar à conclusão de que essas outras medidas não mostraram nenhuma diferença.

‘Apresentando “sinal de Gabrin”, isto é, alopecia androgenética’ foi descartado como um critério de inclusão. “Ousadia do padrão masculino” foi todo o fundamento lógico para o estudo , mas simplesmente desapareceu.

Ah, sim, e o grupo Dutasteride simplesmente desapareceu. Agora, apenas dois grupos no estudo, comparando a Proxalutamida com o placebo. O que aconteceu a todos os pacientes tratados anteriormente com dutasterida?

O resultado é tornar absurdos vários preprints [ Cadegiani et al medRxiv 2020 , Cadegiani et al ResearchSquare 2020 ] comparando dutasterida e placebo, que se referem ao NCT04446429 para detalhes e aprovação ética. Estes citam 130 indivíduos (64 no grupo D e 66 placebos), ou um subconjunto de 87 que foram estudados em mais detalhes (43 Ds, 44 placebos).

Mas espere, tem mais! Existe um segundo ensaio clínico de Biologia Aplicada para dutasterida: NCT04729491 . Nenhuma aprovação de ética é mencionada. O estudo terminou em 15 de setembro e foi retrospectivamente registrado em 28 de janeiro. Aparentemente, isso é possível. 

Nenhum resultado é apresentado na entrada CT, mas este é o ensaio citado em outros artigos e preprints da dutasterida. Aparentemente, também é possível, ao final de um ensaio clínico, extrair casos inconvenientes e reatribuí-los a um segundo ensaio recém-gerado. Eu não faço as regras . O jornal Frontiers divulga algumas informações sobre o atendimento padrão:

“O atendimento usual consistia em várias combinações de medicamentos e era individualizado de acordo com as necessidades de cada paciente. Azitromicina 500 mg por dia por 5 dias e nitazoxanida 500 mg duas vezes por dia por 6 dias foram oferecidos a todos os novos pacientes do estudo. Os seguintes medicamentos foram prescritos conforme a necessidade: dipirona, paracetamol, ondansetrona, dexametasona, rivaroxabana e enoxaparina. Nos casos de internação, medicamentos adicionais foram prescritos de acordo com o julgamento clínico da equipe do hospital. A adesão ao tratamento com os medicamentos do estudo não foi monitorada durante o estudo. Os medicamentos usuais prescritos por médicos fora do estudo não foram documentados. ”

Bem, aqui está ele, o medicamento de tratamento usual prescrito pelo Dr. Cadegiani para seus infelizes pacientes com COVID-19, como uma combinação: medicamento contra malária hidroxicloroquina , antiparasitários ivermectina e nitazoxanida, antibiótico azitromicina, antidepressivo fluvoxamina , antiinflamatórios colchicina e dexametasona, antiandrógenos bicalutamida, espironolactona e dutasterida, remédio para azia dexlansoprazol, anticoagulante apixaban, vitamina D e vitamina C, além de quem sabe quais outros medicamentos.

O “tratamento padrão” do Dr. Cadegiani é tão perigoso que os pacientes tiveram muita sorte de entrar no braço da proxalutamida.

A morte em massa no braço de controle diminuiu um pouco na edição Frontiers do golpe, mas o significado permanece o mesmo: mais de 90% das vidas salvas! Agora, é quase improvável que a Frontiers não tivesse ideia das constantes acusações de fraude contra a equipe da proxalutamida. Mesmo que eles tenham perdido minha reportagem ou a discussão Pubpeer: um artigo brasileiro de 9 de abril de 2021, original em português , intitulado:

“ O estudo da ‘nova cloroquina’ do Bolsonaro tem evidências de fraude e falhas graves “

Fiquei muito orgulhoso de ver um leitor do meu site citado:

“Por isso, pesquisadores como José Galluci Neto, médico assistente que trabalha no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, afirmam que o período de estudo não é viável. “ É impossível ”, resume Gallucci. “ Não é um prazo de forma alguma. “”

O Dr. Goldman dividirá o próximo Prêmio Nobel com Cadegiani por descobrir uma cura para COVID-19?

Posteriormente, jornalistas brasileiros da Globo escreveram em junho de 2021:

“ … , as informações reveladas despertaram em especialistas suspeitas de fraudes e falhas graves – como a morte de um grande número de voluntários, o que deveria ter levado à imediata suspensão da pesquisa. Em sua investigação, a Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa] constatou que o caso é ainda pior.  Todas as premissas do protocolo submetido ao conselho pelos pesquisadores da proxalutamida não foram atendidas. Na prática, eles fizeram tudo diferente do que prometeram ao comitê de ética.

Para começar, os pesquisadores, liderados pelo médico Flávio Cadegiani, registraram o estudo como se fosse ser feito em hospitais de Brasília, mas o fizeram em Manaus e em outras cidades do Amazonas ”. Eles levaram o estudo por sua conta e risco para a Amazônia e distribuíram o medicamento em uma série de hospitais do interior do estado sem qualquer aprovação ”, explicou um assessor do Conep.

Além disso, o protocolo planejava testar a proxalutamida em menos de 300 pacientes com Covid moderada, mas os autores mudaram o rumo da pesquisa sem informar a Conep e aplicaram o medicamento em 615 pacientes gravemente enfermos.

Como se não bastasse, somente quando submeteram os dados finais à comissão, em maio, os autores relataram a ocorrência de “mais de 200 mortes”. Dessa forma, não cumpriram uma norma da Conep, de maio de 2020, que estabelece que as mortes de voluntários devem ser comunicadas à comissão em até 24 horas. 

A taxa de mortalidade também é muito maior do que as 141 mortes que os próprios pesquisadores relataram na entrevista coletiva. Na época, eles disseram que a maioria das mortes teria ocorrido entre voluntários que receberam o placebo – o que provaria 92% de eficácia. 

Basicamente, a terapia de tratamento padrão de Cadegiani era ainda mais letal do que se pensava originalmente.

O estudo da proxalutamida é tóxico em muitos aspectos. Mas a Frontiers ficou mais do que feliz em publicá-lo. Nesse sentido, a BBC News Brasil oferece alguns antecedentes:

“Os autores publicaram suas descobertas na segunda-feira (19/7) em um estudo (já revisado por pares) na revista Frontiers in Medicine , após terem sido rejeitadas por publicações científicas de prestígio como The New England Journal of Medicine e The Lancet.”

For Better Science é referenciado naquele artigo da BBC . No final, ficamos sabendo que Bolsonaro e seu governo ainda estão promovendo a proxalutamida como medicamento COVID-19, independentemente das acusações de fraude e abuso ao paciente.

Maníacos homicidas

É hora de apresentar brevemente a equipe por trás do documento Frontiers.

  • Andy Goren é o fundador e aparentemente o único proprietário da startup californiana Applied Biology , cujo endereço postal é apenas uma caixa de correio e que antes da pandemia se concentrava em golpes com curas para queda de cabelo. Ele finge ser apenas um empregado. A empresa tem um certo Torello Lotti a bordo, um charlatão italiano tão perigosamente insano que foi até preso e levado a julgamento. John McCoy é Vice-Presidente de Biologia Aplicada, outra funcionária da Biologia Aplicada é Maja Kovacevic , ela declara não haver conflito de interesses (COI).
  • Flavio Cadegiani : gênio autoproclamado e diretor científico da Biologia Aplicada, veja acima seu regime de tratamento padrão homicida COVID-19. Também co-inventor do aplicativo homicida brasileiro COVID-19 TrateCov, mais sobre isso a seguir.
  • Ricardo Zimerman , clínico militar brasileiro e maníaco homicida que dirigiu na região de Porto Alegre as prescrições em massa de hidroxicloroquina, ivermectina, vitamina D e zinco (terapia padrão sob sua pressão) enquanto se opunha a todas as restrições do COVID-19. A carnificina resultante do COVID-19 no Brasil, especialmente em Manaus e no estado do Amazonas, também é sua responsabilidade direta. Zimmermann tem uma quantidade impressionante de sangue nas mãos.
  • Carlos Wambier é um dermatologista brasileiro da Brown University nos EUA e também membro do conselho de Biologia Aplicada, mas não declara COI.
  • Jerry Shapiro e Rodney Sinclair são dois outros membros do conselho de Biologia Aplicada, ambos dermatologistas para calvície com suas próprias clínicas particulares, um na América do Norte e outro na Austrália.

O cientista clínico brasileiro Jose Gallucci-Neto comentou em meu site o que mais o Cadegiani tem feito:

“ Cadeggiani também está provavelmente por trás (1) do aplicativo assassino AndroCov (posteriormente renomeado como TrateCov) (usando RedCap) lançado oficialmente pelo Ministério da Saúde brasileiro para“ prescrever ”o infame“ kit COVID ”(HCQ, AZT, Ivermectina, Zn, etc., etc.) para a população. De acordo com o Conselho Federal de Medicina (2), o aplicativo violava muitas questões éticas. O aplicativo também pode implicar em crime de responsabilidade (2) ao presidente ‘BolsoNero’, conforme análise a seguir. O aplicativo TrateCoV indicou cloroquina e outros tratamentos ineficazes para quase todos os pacientes (incluindo crianças pequenas e bebês !!). A palavra cloroquina aparece 86 vezes no código do aplicativo e ivermectina 113 vezes.

Galucci-Neto também forneceu a tradução do artigo relevante de janeiro de 2021 , trecho:

“ Após análise realizada por assessores técnicos e jurídicos sobre o aplicativo TrateCov, lançado recentemente para auxiliar as equipes na coleta de sintomas e sinais de pacientes possivelmente infectados com covid-19, o Conselho Federal de Medicina (CFM) alertou o Ministério da Saúde sobre as seguintes inconsistências na ferramenta:

• Não preserva adequadamente a confidencialidade das informações;
• Permite o preenchimento por profissionais não médicos;
• Garante validação científica para medicamentos que não possuem este reconhecimento internacional;
• Induz a automedicação e interfere na autonomia dos médicos;
• Não deixa claro, em nenhum momento, a finalidade da utilização dos dados preenchidos pelos médicos assistentes. ”

“ O Ministério da Saúde retirou do ar a plataforma do aplicativo TrateCov nesta quinta-feira (21/01). A ferramenta destina-se à orientação dos profissionais de saúde e ficou disponível por uma semana. A ferramenta recomendava o tratamento precoce de pessoas com sintomas de Covid-19 com medicamentos sem evidências científicas – como cloroquina e ivermectina.

Depois de remover o aplicativo, o Ministério da Saúde afirmou, em nota, que o pedido tinha sido “hackeado e ativado de forma inadequada” e que a plataforma foi lançado como um projeto piloto e não funcionava oficialmente como um simulador “.

Mas é claro que o charlatanismo nacional de Cadegiani e Zimerman não seria possível sem o apoio do alto escalão, do líder fascista do Brasil, Jair Bolsonaro . Matéria da Reuters  sobre a eminência brasileira escuro que fez a conexão: Helio Angotti , descrito como “ um conhecido-pouco Ministério da Saúde oficial ” nomeado pelo próprio Bolsonaro. Angotti e o presidente são seguidores do “ esotérico filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, que promove falsas teorias da conspiração, incluindo a alegação de que a Pepsi usava células de fetos abortados como adoçante ”.

Segundo a Reuters , Angotti está sob investigação federal no estado do Amazonas por improbidade administrativa “ por obrigar os profissionais de saúde de lá a prescrever hidroxicloroquina “. Seu objetivo parece ser causar o caos e a carnificina máximos, espalhando a negação da covidota contra vacinas, bloqueios, máscaras faciais e em apoio a curas de charlatães, e Cadegiani e Zimerman são exatamente os bandidos certos para esse trabalho sangrento. Este último foi um dos três consultores que Angotti contratou para provar que a visão da cloroquina de Bolsonaro estava correta.

Zimerman foi enviado por Angotti para gerenciar o assassinato em massa em Manaus , forçando hospitais a usar hidroxicloroquina durante a escassez de oxigênio, enquanto Cadegiani foi encarregado de envenenar brasileiros, mesmo crianças, por meio do aplicativo TrateCov, que vende cloroquina, conforme relatado pela Reuters :

“O Ministério da Saúde enviou pelo menos 120.000 comprimidos de hidroxicloroquina para o estado do Amazonas e levou 12 profissionais médicos para a cidade de Manaus para pressionar os profissionais de saúde a usarem antimaláricos. Zimerman, De Souza e Costa faziam parte do grupo, segundo nota de 23 de fevereiro enviada por um dos colegas de Angotti ao Ministério Público do Amazonas, em resposta às suas indagações sobre a forma como o ministério está lidando com a crise de Manaus. A SCTIE de Angotti financiou suas viagens, diz o comunicado.

O ministério também implantou um aplicativo de telefone de curta duração que pretendia ajudar os profissionais médicos a diagnosticar COVID-19 com um questionário de sintomas – depois os instruiu a prescrever antimaláricos como a hidroxicloroquina. O aplicativo foi baseado em uma ferramenta de diagnóstico que os consultores da Angotti ajudaram a desenvolver ”.

Mas o que eu sei, Frontiers são os verdadeiros especialistas em integridade de pesquisa. Se eles dizem que todas essas acusações contra Cadegiani, Zimerman e outros são mentiras.

Sistema podre

Frontiers é apenas um sintoma de um sistema de publicação acadêmica totalmente podre, que está além do reparo. Foram Elsevier e a supostamente erudita Sociedade Internacional de Quimioterapia Antimicrobiana (ISAC) que permitiram o charlatanismo ilegal de cloroquina de Raoult.

Outra sociedade erudita decidiu promover a proxalutamida.

Este é o recente documento de posição COVID-19 da Sociedade Europeia de Endocrinologia (ESE) para delinear ” a prevenção e o tratamento da doença “:

Puig-Domingo M, Marazuela M, Yildiz BO, Giustina A COVID-19 e doenças endócrinas e metabólicas. Uma declaração atualizada da Sociedade Europeia de Endocrinologia. Endócrino (2021) DOI: 10.1007 / s12020-021-02734-w 

Esta é a citação relevante dele:

Corr. autora, Professora Andrea Guistina, emite orientações de tratamento COVID-19

“ Dados da literatura dermatológica sugerem que homens calvos são mais propensos a COVID-19 [ 128 ], bem como que a alopecia androgenética é frequente também em mulheres com COVID-19 [ 129 ]. No entanto, uma das observações mais impactantes neste campo veio de pacientes com câncer de próstata. Na verdade, aqueles pacientes sob terapia de privação de andrógeno [ 130 ] demonstraram em alguns estudos ser menos vulneráveis ​​à infecção por SARS-CoV-2, em comparação com pacientes que não foram privados de andrógeno [ 131] O mais intrigante é que os recentes estudos duplo-cegos controlados por placebo mostraram que os moduladores seletivos do receptor de andrógeno aceleram a depuração viral e reduzem o tempo de remissão clínica em pacientes do sexo masculino sem câncer de próstata hospitalizados com COVID-19 leve a moderado, bem como um novo inibidor do receptor de andrógeno mostrou efeitos positivos semelhantes em homens e mulheres com COVID-19 [ 132 , 133 ]. 

As referências 128-133 são aos estudos de Cadegiani, Zimerman, Wambier et al. Informei a liderança da European Society of Endocrinology e o autor correspondente do artigo sobre a suspeita de fraude e abuso de pacientes: NENHUM deles respondeu.

E então, é claro, o golpe da proxalutamida não foi a primeira tentativa da Frontiers de sabotar os esforços de socorro à pandemia. Antes, era ivermectina.

Para ser justo, o seguinte artigo de um parágrafo em Frontiers, do charlatão norte-americano Pierre Kory , presidente da chamada Frontline COVID-19 Critical Care Alliance (FLCCC), teve vida curta. Ele viu a luz do dia em 13.01.2021 e foi extinto em 01.03.2021:

Pierre Kory, G U. Meduri, Jose Iglesias, Joseph Varon, Keith Berkowitz, Howard Kornfeld, Eivind Vinjevoll, Scott Mitchell, Fred Wagshul e Paul E. Marik Revisão das evidências emergentes que demonstram a eficácia da ivermectina na profilaxia e no tratamento de COVID -19 Front. Pharmacol. doi: 10.3389 / fphar.2021.643369

Houve grandes protestos nas redes sociais, então o artigo de Kory foi APAGADO pela Frontiers, não apenas retirado. Ele se foi completamente. O único vestígio de sua existência passada é um editorial bobo da Frontiers , postado apenas depois que os jornalistas começaram a perguntar . Toda a ideia de permanência ligada a um DOI não se aplica a editores trolls como Frontiers, então aqui está um registro arquivado da WayBack Machine . E aqui está uma captura de tela:

O lixo foi republicado no American Journal of Therapeutics, da Wolter-Kluwer, porque é assim que funciona a publicação científica. Em seguida, foi relatado por muitos meios de comunicação (por exemploCNBC ou Times of India ) celebrando que o beliche de ivermectina de Kory foi aprovado na revisão por pares, sem mencionar a confusão da Frontiers.

Chuveiro de dinheiro

O investimento de € 3 mil naquele jornal da Frontiers rendeu centenas de milhares de vezes aos médicos e empresários da proxalutamida. A empresa chinesa Kintor Pharmaceutical, que vende proxalutamida e paga Biologia Aplicada, recebeu uma Autorização de Uso de Emergência (EUA) COVID-19 para proxalutamida no Paraguai, conforme recente comunicado à imprensa :

“O primeiro hospital a usar proxalutamida nos EUA, o Hospital Barrio Obrero, parte da rede MSPBS do Paraguai, relatou resultados iniciais promissores. Dos primeiros 25 pacientes internados com COVID-19 tratados com Proxaluatmida, apenas 1 paciente (4%) morreu. Essa taxa de mortalidade foi inferior à taxa de mortalidade usual de pacientes internados com COVID-19 no Paraguai. Além disso, a proxalutamida demonstrou benefícios potenciais em 7 dos pacientes que inicialmente necessitaram de oxigênio de alto fluxo ”

O Paraguai é só o começo, obrigado Fronteiras. Aqui está outro comunicado à imprensa:

“A Kintor Pharmaceutical Limited (HKEX: 9939) anunciou hoje que celebrou um acordo de licenciamento com a Shanghai Fosun Pharmaceutical Development Ltd. (“ Fosun Pharma Development ”), sobre a comercialização de proxalutamida para o tratamento da indicação de COVID-19 na Índia e 28 países africanos (as “Regiões de Colaboração”). A Kintor e a Fosun Pharma Development colaborarão nos pedidos de autorização de uso de emergência, promoção e vendas de proxalutamida para o tratamento da indicação COVID-19. ”

 


 

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no blog “For Better Science” [Aqui!].

Negacionismo olímpico e o que isso nos diz dos atletas brasileiros que recusaram a vacina?

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A notícia de que 10% dos atletas que compõe a delegação brasileira se recusarem a serem vacinados antes de se dirigem para o Japão para participar dos “Jogos Olímpicos” está passando de forma quase que batida pela mídia corporativa  brasileira. Mas isto não me impede de dizer que essa posição dessa minoria é escandalosa e representa uma falta de responsabilidade grotesca. 

É que um evento de menor envergadura como foi a Copa América (ou seria Cova América?) que foi recentemente realizada no Brasil trouxe pelo menos uma nova variante da Sars-Cov-2  vinda da Colômbia para dentro do território nacional, uma adição completamente desnecessária para um cenário já complexo  que é marcado pela presença de várias cepas que, inclusive, podem estar se recombinando.

A posição do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), como era de se esperar, tem sido também de “passar o pano” e isentar esses atletas negacionistas de qualquer tipo de punição, já que o Comitê Olímpico Internacional (COI), não coloca a obrigação de vacinação como uma condição que os atletas participem das Olímpiadas. Esse movimento do COI só pde ser explicado pelos seus interesses comerciais junto aos patrocinadores desse mega evento esportivo.

Madrid,,Madrid,Spain.,April,03,2021.,Laboratory,Technician,With,Vial

A verdade é que a realização das Olimpíadas em um momento em que diversos países estão em meio a um crescimento desenfreado da pandemia da COVID-19 já seria escandaloso. Ao permitir que que parte dos atletas participe sem ser vacinada, o COI acaba transformando o seu megaevento em uma poça biológica de onde poderão ser transportadas para todo o planeta cepas que estão confinadas em determinadas áreas. E isso com a colaboração direta dos atletas negacionistas.

O que deveria ser feito no momento de retorno da delegação brasileira seria colocar todos os atletas em um período de confinamento obrigatório para evitar que eventuais portadores do coronavírus possam passar da condição de atletas para a de difusores de coronavírus. Mas sabemos que isso não irá ocorrer dada frouxidão que está sendo observada em relação aos negacionistas da vacina.

Uma coisa curiosa é que o último levantamento pelo DataFolha mostrou que 6% dos brasileiros não querem se vacinar contra a COVID-19, um valor muito próximo do total dentro da delegação olímpica brasileira que se recusa a ser vacinada. 

Finalmente, para surpresa de ninguém, já se sabe que o hotel que hospeda a delegação brasileira  de judô que está no Japão para participar das Olimpíadas se transformou no foco de um surto de COVID-19. É quase certo que os  judocas negacionistas estejam sendo os primeiros a ser infectados, mas certamente não serão os únicos, o que apenas reforça a irresponsabilidade com que eles trataram o cuidado com seus colegas de delegação.

Agronegócio como vetor de surto de COVID-19 em Campos dos Goytacazes

cana

As evidências de que o chamado “agronegócio” (cujo nome verdadeiro é latifúndio agro-exportador) é um dos principais responsáveis pela ampla circulação do Sars-Cov-2 no Brasil são inúmeras e já estão sendo documentadas pelos pesquisadores brasileiras sob a forma de artigos científicos (Aqui! e Aqui!). Mas agora uma reportagem do Portal Viu mostra que mesmo aqui na planície dos Goytacazes, temos o agronegócio sucro-alcooleiro jogando o papel de reunir trabalhadores em condições propícias para a contaminação e ampla circulação do vetor da COVID-19.

Como bem mostra a reportagem publicada pela Agência Fonte Exclusiva sobre o assunto, um total de 40  trabalhadores envolvidos no corte da cana foram identificados como portadores do coronavírus dentro de uma pousada que abrigava duas dezenas de cortadores de cana, o que demonstra que há um surto em curso, enquanto os trabalhadores são deixadas à mercê da própria sorte após dias exaustivos no corte da cana.

O mais curioso é que segundo novas matérias sobre o assunto apontando que até agora o Ministério Público do Trabalho (MPT) aparentemente ainda não se moveu para apurar as responsabilidades por essa contaminação em massa dos trabalhadores da cana em Campos dos Goytacazes.  Tal fato me parece incompreensível, mas apenas confirma que quando se trata de enfrentar as mazelas causadas pelo modelo agro-exportador, a velocidade dos entes estatais é muito lento, mas muito lento mesmo.

Bolsonaro perdeu a copa para a Argentina, mas ganhou cepa da Colômbia

copa cepa

Muitos podem ter visto como uma grande derrota política de Jair Bolsonaro a perda da Copa América realizada do Brasil para a seleção argentina comandada por Lionel Messi, mas o presidente do Brasil acabou tendo consolo um reforço na sua aparente campanha de disseminação da COVID-19 em nosso país.  É que  a Copa América, o Instituto Adolfo Lutz confirmou,  de duas pessoas infectadas no Mato Grosso indicam a variante B.1.621, até então inédita no território brasileiro.

Segundo a Rede Brasil Atual, ainda pouco estudada, a variante encontrada em Cuiabá é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como em alerta para mais monitoramento. Ela é originária da Colômbia, mas já chegou no Caribe, nos Estados Unidos e em algumas localidades da Europa.

Assim, ainda que perdendo no futebol, Jair Bolsonaro terá como troféu de consolação a cepa colombiana. Já o resto dos brasileiros, ganharam mesmo apenas uma preocupação a mais.

Temendo retaliações, deputado que denunciou escândalo da Covaxin vai pedir proteção policial

luis miranda

O deputado Luís Miranda (DEM/DF) que foi o primeiro a trazer à luz o escândalo envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin deu hoje uma entrevista bombástica à rede CNN onde, entre outras coisas, declarou que irá solicitar proteção policial não apenas para si mesmo, mas também para toda a sua família, a começar pelo irmão que chamou a atenção para os problemas cercando o negócio entre o governo Bolsonaro e o laboratório indiano Bharat Biontech (ver vídeo abaixo).

Se o deputado Luís Miranda levar adiante e detalhar as denúncias que apontou nessa entrevista, os próximos dias e semanas serão de forte tensão política no Brasil, dada a potencial explosividade do que ele poderá revelar. A ver!

 

Covaxin: vacina indiana cercada de suspeitas até na Índia

Brasil de Bolsonaro topou pagar US$ 15 por dose, sete vezes mais do que o governo da Índia, onde vacina do laboratório Bharat é alvo de polêmicas

covaxin 1Enfermeira indiana mostra frascos da Covaxin: vacina mais cara comprada pelo governo Bolsonaro é alvo de suspeitas até na Índia (Foto: Debajyoti Chakraborty / NurPhoto / AFP – 13/05/2021)

Por Florência Costa* para o Projeto Colabora

Em agosto do ano passado, o presidente do laboratório indiano Bharat Biotech, Krishna Ella, durante uma entrevista coletiva realizada na cidade de Hyderabad, onde está situada a sede da empresa, apontou para uma garrafa de água mineral que estava na sua frente e disse: “Essa garrafa de água custa cinco vezes mais do que a nossa vacina”. Ele se referia à Covaxin. Realmente, a Bharat Biotech cobrou pela sua vacina menos de US$ 2 do governo indiano. Mas a iniciativa privada e outros clientes, como o governo brasileiro, pagaram sete vezes mais caro, cerca de US$ 15.

A trajetória do desenvolvimento e fabricação da vacina Covaxin por parte da Bharat Biotech, que começou em maio de 2020, foi cercada de polêmicas em seu país de origem. A vacina indiana transformou-se em um dos principais alvos das investigações da CPI da COVID-19 no Senado brasileiro. Na Índia, a Bharat Biotech recebeu muitas críticas devido à disparidade dos preços oferecidos ao governo indiano e à inciativa privada. Mas o governo de Jair Bolsonaro aceitou de bom grado pagar caro pela vacina indiana.

A Covaxin foi desenvolvida pela Bharat Biotech em associação com o Indian Council of Medical Research, um órgão governamental. Na Índia, os imunizantes são administrados gratuitamente na rede pública, mas são cobrados nos hospitais privados. A Covaxin, no entanto, é a mais cara de todas as vacinas à disposição dos indianos e isso provocou muito debate no país.

Se o preço da Covaxin pode chegar até US$ 16 na rede de saúde privada da Índia, a vacina Covishield – da Oxford-AstraZenaca, produzida no Instituto Serum, o maior laboratório da Índia, que chegou a fornecer dois milhões de doses ao Brasil – custa cerca de US$ 10 por dose. Já a russa Sputnik V, algo em torno de US$ 12.

Diante da controvérsia, a Bharat Biotech afirmou que necessita recobrar o que gastou para o desenvolvimento e a fabricação do produto. Mas especialistas rebateram afirmando que o preço salgado na iniciativa privada é injustificável, já que a farmacêutica recebeu fartos investimentos do governo indiano para a produção e desenvolvimento da vacina.

Há uma semana, a Bharat Biotech comunicou que o preço de US$ 2 acertado com o governo indiano não era “sustentável” a longo prazo, devido aos custos com a produção. Em um comunicado à imprensa, o laboratório afirmou que é por isso que há necessidade manter preços altos para o mercado privado.

covaxin 2Profissional de saúde aplica Covaxin em Bangalore, na Índia: imunização no país começou antes mesmo de testes terem sido aprovados (Foto: Manjunath Kiran / AFP – 09/06/2021)

Covaxin suspeita desde a fase de testes

Outra polêmica que ronda a Covaxin refere-se aos testes. Quando a vacina obteve a aprovação para uso estritamente emergencial pelo Controlador Geral de Drogas da Índia (a Anvisa do país), em janeiro deste ano, os testes da fase 3 ainda não haviam finalizado e revelado a sua eficácia: isso provocou uma avalanche de críticas.

Resultados parciais de testes da fase 3, envolvendo 25,800 participantes, foram anunciados em abril, com indicação de eficácia de 78% contra COVID-19 moderada ou leve e 100% em casos severos. Os dados finais dos testes da fase 3 só foram enviados ao órgão controlador da Índia na segunda-feira, 21 de junho, quando a vacina já estava sendo aplicada em todas as regiões do país.

Em meio ao debate, a Bharat Biotech afirmou que os padrões científicos são transparentes. A empresa lembrou ainda que que publicou, no período de um ano, nove estudos de pesquisa sobre sua segurança e eficácia em cinco publicações de reputação científica. Mas, apenas há 10 dias, a Bharat Biotech informou que os dados completes das fases 1 e 2 e dados parciais dos testes da fase 3 haviam sido verificados por órgãos reguladores da Índia.

Um dos grandes revezes sofridos pela empresa indiana veio do Brasil. Em março, a Anvisa negou autorização para importação excepcional da Covaxin, solicitada pelo Ministério da Saúde. Foi uma decisão por unanimidade: os diretores consideraram que o laboratório indiano não conseguiu apresentar documentação que comprovasse a eficácia e a segurança do imunizante.

Somente agora, em junho, a Anvisa concedeu uma autorização, mas apenas para quatro milhões de doses _ e não 20 milhões de doses do contrato assinado com o Ministério da Saúde do Brasil – e sob contrições restritas. Em uma entrevista a uma TV indiana, Krishna Ella, fundador e presidente da Bharat, reagiu alegando que a Anvisa havia agido movida por um “nacionalismo” brasileiro e pelo desejo de evitar a vacina indiana. “Isso é devido ao nacionalismo. Alguns países querem estrategicamente atrasar a indiana e difamar outros países, afirmou Ella, em resposta às dúvidas levantadas pela Anvisa.

A Bharat Biotech – um laboratório de menor porte na grande disputa global do mercado de vacinas contra COVID-19 – tinha a intenção de aumentar o seu cacife internacionalmente e contava com o Brasil para isso. Até agora, o laboratório indiano exportou seu produto apenas para países como República Maurício, Irã, Mianmar, Paraguai e Zimbábue.

Para completar o cenário de controvérsias, a mídia indiana publicou em janeiro matérias sobre pessoas que participaram de testes sem saber, achando que estavam tomando vacinas já aprovadas. Vários casos foram reportados na cidade de Bhopal (estado de Madhya Pradesh), que ficou famosa no mundo todo em 1984 devido a um vazamento de gás em dezembro daquele ano na fábrica de pesticidas Union Carbide India Limited. Entrevistados afirmaram que receberam a vacina em troca de dinheiro (cerca de US$ 10) e outros disseram que não sabiam que se tratava de teste. A Bharat Biotech negou qualquer transgressão à época e afirmou que as pessoas haviam sido informadas de que estavam sendo submetidas a testes da vacina contra Covid 19.

Isso tudo aconteceu ainda no começo de 2021 quando o governo indiano anunciava que iria imunizar, até agosto, 300 milhões de seus 1.3 bilhão de habitantes. A segunda onda de covid-19 devastou a Índia pouco tempo depois, a partir de abril, provocando uma grande mortandade e cenas chocantes corpos incinerados na ruas ou jogados em rios. Até agora cerca de 389 mil pessoas morreram, oficialmente, na Índia por covid-19. Mas estimativas não oficiais apontam que esse número pode ser quatro vezes maior.

covaxin 3Levantamento do TCU mostra que Covaxin custou quatro vezes mais que AstraZeneca: interesse do governo Bolsonaro na vacina indiana investigado pelo MPF e pela CPI (Reprodução: TV Globo)

Na mira da CPI e do MPF

No Brasil, o Ministério Público Federal está investigando o contrato do Ministério da Saúde com a Precisa Medicamentos para compra da vacina Covaxin, produzida na Índia, único contrato do governo Bolsonaro que teve um intermediário sem vínculo com a indústria de vacinas. O próprio presidente intercedeu pessoalmente para agilizar a compra e enviou uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em janeiro.

Em fevereiro, o governo assinou contrato para compra de 20 milhões de doses da Covaxin, antes mesmo do aval da Anvisa e apesar do alerta da agência sobre a falta de certificado de boas práticas na fabricação da vacina. Pelo contrato, as primeiras doses chegariam ao Brasil em maio, 70 dias após o fechamento da compra, mas até agora nenhuma dose foi entregue.

De acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União, a Covaxin foi a vacina mais cara negociada pelo governo Bolsonaro até agora: R$ 80,70 a unidade, valor quatro vezes maior que a AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Em depoimento ao Ministério Público Federal, o funcionário do Ministério da Saúde responsável pela importação, Luís Ricardo Fernandes Miranda, afirmou que houve pressão superior para a compra rápida da Covaxin.

A CPI da covid-19 também está investigando o interesse do governo na compra da vacina indiana, cara e sem aval da Anvisa. Os senadores querem saber o motivo de o contrato para a compra da Covaxin ter sido intermediado pela Precisa Medicamentos, alvo do Ministério Público do Distrito Federal em investigação de fraude na venda de testes rápidos para COVID-19. Sócio da empresa, Francisco Maximiano, que teve seu sigilo bancário e telefônico quebrado pela CPI, tinha depoimento marcado na CPI para esta quarta, 22 de junho. O depoimento foi adiado já que o empresário alegou estar em quarentena, por ter viajado à Índia.

*Florência Costa é Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo projeto “Colabora” [Aqui!].