Ultrapassar pontos de não retorno aumentaria impactos econômicos da mudança climática

Cambio

O risco de ultrapassagem de pontos de não retorno no sistema climático – os chamados tipping points – poderia aumentar em cerca de 25% o custo econômico dos danos causados pela mudança climática em comparação com projeções anteriores. A estimativa reflete o cenário principal de um estudo publicado hoje (16/08) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences .

Pontos de não retorno ocorrem quando o aquecimento global empurra as temperaturas para além de um limite crítico, levando a impactos acelerados e irreversíveis. Entre os pontos de ruptura mais investigados pelos cientistas está o tipping point da Amazônia, que pode ser atingido se a floresta perder mais de 25% de sua área de ocorrência. A concretização desta hipótese secaria o bioma e o transformaria em uma bomba de emissão de carbono, além de alterar o regime de chuvas na América do Sul.

O trabalho publicado hoje foi realizado por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Nova York, da Universidade de Delaware e da London School of Economics and Political Science. Os autores – Simon Dietz, James Rising, Thomas Stoerk e Gernot Wagner – destacam que o cenário principal do estudo pode ser muito conservador, e que os custos dessas rupturas podem ser significativamente maiores: há uma chance de 10% de os pontos de não retorno pelo menos dobrarem os custos dos impactos da mudança climática, e uma chance de 5% de que eles tripliquem.

“Os cientistas climáticos há muito tempo enfatizam a importância dos pontos de ruptura do clima, como o degelo permafrost, a desintegração da camada de gelo e as mudanças na circulação atmosférica. No entanto, exceto por alguns poucos estudos fragmentados, a economia climática ignorou esses dados ou os representou de forma altamente estilizada”, afirma Simon Dietz, autor principal do artigo e professor da London School of Economics and Political Science. “Fornecemos estimativas unificadas dos impactos econômicos de todos os oito pontos de ruptura climática cobertos pela literatura econômica até o momento.”

As perdas econômicas indicadas no estudo ocorreriam em quase todos os lugares do mundo, e as estimativas incluem danos climáticos pela elevação do nível do mar em 180 países. Os autores acreditam que o modelo pode ser atualizado à medida que mais informações sobre os pontos de ruptura forem descobertas.

Os oito pontos de ruptura considerados no estudo são:• Ponto de não retorno da floresta tropical amazônica (também chamado de dieback ou tipping point) liberando CO2, que flui de volta ao ciclo do dióxido de carbono;

• Colapso da circulação meridional de capotamento do Atlântico (AMOC), interferindo em uma série de sistemas climáticos e na regulação da temperatura do planeta;

• Desintegração da Folha de Gelo da Antártida Ocidental, aumentando a elevação do nível do mar;

• Desintegração da Folha de Gelo da Groenlândia, o que aumenta a elevação do nível do mar;

• Perda de gelo marinho ártico, resultando em mudanças na forçagem radiativa, que afeta diretamente o aquecimento.

• Descongelamento do permafrost, levando ao feedback de carbono, resultando em emissões adicionais de CO2 e metano, que fluem de volta para os ciclos dos dois gases;

• Dissociação dos hidratos de metano oceânicos resultando em emissões adicionais de metano, que fluem de volta para o ciclo do metano.

• Variabilidade da monção de verão indiana afetando diretamente o PIB per capita na Índia.

Anistia Internacional lança o relatório “Parem de queimar nossos direitos”

Entidade alerta que a crise climática impacta direitos humanos, aprofunda desigualdades, e faz recomendações para os países e empresas

Pakistan - Floods - Portrait in floodwaters

A crise do clima ameaça os direitos humanos em proporções nunca antes vistas. É esse o alerta que a Anistia Internacional faz com o lançamento do relatório “Parem de queimar nossos direitos” . O futuro de toda a humanidade está em grande risco, e o presente de milhões de pessoas já está ameaçado, com o aprofundamento de inúmeras desigualdades. A Anistia Internacional avalia que os esforços dos Estados para enfrentar as mudanças climáticas continuam muito abaixo do que é preciso para que a situação possa ser revertida. A maioria dos países industrializados continua sem controlar as emissões poluentes de modo satisfatório.

“As mudanças climáticas são uma crise de direitos humanos. De acordo com a normativa internacional dos direitos humanos, os Estados têm obrigações legais de enfrentar a crise do clima. Exigimos que o governo do Presidente Jair Bolsonaro e o Congresso Nacional ajam para atenuar os efeitos das mudanças climáticas sobre a população brasileira e implementem políticas públicas de conservação da natureza e proteção dos direitos humanos baseadas nas evidências científicas. As autoridades públicas no Brasil têm contribuído para que haja um desmonte da agenda ambiental, mas não há mais espaço para o negacionismo. A vida de brasileiros e brasileiras deve vir em primeiro lugar”, explica Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

Pensar em respostas para a crise climática implica em dar centralidade aos direitos humanos – principalmente dos grupos mais impactados. O relatório destaca que as mulheres são mais afetadas, principalmente as que estão subjugadas a trabalhos que dependem mais dos recursos naturais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhas e outras pertencentes às comunidades tradicionais. Esses povos estão intrinsecamente ligados ao ambiente natural, que os provê com sustento, moradia e remédios. As áreas onde vivem são frequentemente propensas a desastres climáticos e a expropriações e remoções forçadas, violam seus direitos humanos básicos. 

“Neste relatório, a Anistia Internacional cobra dos governos e das empresas um compromisso com a superação da crise climática que ameaça o nosso futuro enquanto espécie – e que já ameaça o presente de muitos. Não existem atalhos para salvar a humanidade. É urgente que as pessoas que estão no poder cumpram com os compromissos assumidos e atuem para reverter essa crise climática, antes que seja tarde demais.”, avalia Jurema. 

O relatório aponta que o nível de 1,1°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais já causa impactos devastadores – com ondas de calor, incêndios florestais, tempestades tropicais e secas – que ameaçam direitos à água, aos alimentos, à moradia, à saúde, ao saneamento, ao trabalho, entre muitos outros. A Organização Mundial de Saúde já prevê que as mudanças climáticas devem provocar 250 mil mortes a mais, por ano, nos anos entre 2030 e 2050 – causadas por malária, desnutrição, diarreia e pelo estresse térmico. O Programa Mundial de Alimentação calcula um aumento de 20% na fome e na desnutrição até 2050.

Há um longo percurso para reduzir esse impacto. Manter o aquecimento global no limite de 1,5°C ainda é possível, muito embora a janela para essa possibilidade já esteja se fechando. Isto exige que as emissões de gás de efeito estufa sejam reduzidas, globalmente e até 2030, em 45% – em comparação com os níveis de 2010. Até 2050, a redução deve ser até o nível zero. No entanto, a poluição continua a crescer e atingiu um nível recorde em 2019. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, essa meta pouparia 420 milhões de pessoas de serem expostas ao calor extremo.

E mesmo ao pensar em meios alternativos, governos e empresa devem considerar as populações que serão impactadas por projetos de outros tipos de energia, que não os combustíveis fósseis. Os povos indígenas, quilombolas e as comunidades tradicionais precisam ter seu direito à consulta e ao consentimento livre, prévio e acesso à informação garantidos, quando da instalação de projetos que afetem seus territórios, como por exemplo, projetos de energia renovável, fazendas de cultivo de biocombustíveis e projetos de conservação que costumam ser empreendidos com violação aos direitos dos povos indígenas e das comunidades que vivem nesses locais.

Para contemplar uma resposta adequada, a Anistia Internacional incluiu nesse relatório, uma agenda com recomendações aos estados. Apresentamos alguns abaixo:

– Proteger as pessoas com a eliminação urgente das emissões de gases de efeito estufa através da adoção de planos climáticos nacionais e outras ações.

– Ajudar as pessoas afetadas a se adaptar às inevitáveis mudanças do clima…

– Garantir que as ações sobre o clima sejam compatíveis com os direitos das pessoas

– Assegurar o direito de todos à informação, à participação e à reparação

– Proporcionar às pessoas afetadas compensação por perdas e danos

– Aumentar a cooperação e a assistência internacionais

– Proteger os direitos humanos das pessoas desalojadas ou em risco de desalojamento devido às mudanças do clima

– Reconhecer o direito a um meio ambiente seguro, limpo, saudável e sustentável

– Regulamentar as empresas

No que diz respeito às populações, os países devem:

– No contexto da pandemia de Covid-19, pactuar e implementar uma recuperação justa e ambientalmente sustentável que coloque os direitos humanos e a ação climática em seu centro.

– Enfrentar as desigualdades que a pandemia e a crise climática exacerbaram e trouxeram à tona.

– Assegurar que as medidas de adaptação priorizem os grupos, comunidades e indivíduos mais impactados pelos efeitos da crise do clima;

– Garantir que as medidas destinadas a proteger as pessoas dos efeitos da mudança climática não resultem na violação de outros direitos humanos;

– Evitar o uso da resposta às mudanças climáticas para justificar violações dos direitos humanos;

– Garantir às pessoas o direito à informação sobre os efeitos das ações climáticas e de participação nos processos decisórios;

– Garantir que a transição para sociedades mais resilientes e de carbono zero seja uma oportunidade para reduzir a pobreza e corrigir desequilíbrios

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 10 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. Presente em mais de 150 países, a organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, atua no Brasil desde o período do Regime Militar (1964-1985) e teve seu escritório inaugurado no país, em 2012.

Os pulmões doentes da Amazônia

A região amazônica “tombou” devido ao desmatamento desenfreado. Agora ele emite mais dióxido de carbono do que absorve. Isso já está tendo efeitos devastadoresgado queimada

Desmatamento colossal, monoculturas, secas, incêndios. A floresta amazônica está gravemente ameaçada (rebanho de gado durante um incêndio florestal na região de Nova Fronteira, 3 de setembro de 2019). Por Leo Correa / AP / dpa

Por Norbert Suchanek, Rio de Janeiro, para o Junge Welt

Meados de julho de 2021. Durante o segundo ano da pandemia de COVID-19, o calor catastrófico e o inferno de fogo no oeste dos Estados Unidos e Canadá, bem como as inundações do século na Alemanha e na Bélgica, competem pela maior manchete com o voo espacial do o multibilionário Jeffrey Bezos na floresta de folhas da mídia de massa global. Enquanto isso, a notícia do século 21 que é mais importante para a humanidade está lentamente sendo registrada pela grande mídia e empurrada para o final da página: a Amazônia tombou. O sumidouro de carbono aparentemente infinito que absorve as emissões de gases do efeito estufa dos países industrializados e compensa o efeito estufa não existe mais.

Certamente não faltaram avisos. Há décadas, pesquisadores e ambientalistas brasileiros e internacionais vêm reivindicando o fim do desmatamento da floresta amazônica. A maior região de floresta tropical do planeta, importante para o clima global, pode perder sua função de armazenamento de carbono e frear o aquecimento global. Mas a mudança de governos do Brasil – responsável pela maior parte da Amazônia – deixou a questão da boca para fora e ignorou ecologistas e pesquisadores do clima, apesar de duas conferências ambientais da ONU no Rio de Janeiro em 1992 e 2012. Agora, seus piores medos parecem ter se tornado realidade.

Superexploração por apenas 50 anos

A bacia amazônica tem uma área de cerca de 7,25 milhões de km2 e é mais de vinte vezes o tamanho da Alemanha. A área original da floresta amazônica, que se desenvolve há 50 milhões de anos, é estimada em cerca de 5,3 a mais de seis milhões de km2. Cerca de 60% da Amazônia, 4,2 milhões de km2, está no Brasil.

Ao contrário da crença popular, o desmatamento da Amazônia não começou com a conquista europeia da América Latina no século XVI. Por quase 500 anos, a exploração econômica da maior região de floresta tropical do mundo foi essencialmente limitada aos abundantes recursos florestais naturais e renováveis, como cacau, borracha e castanha do Brasil, que leva o nome do estado brasileiro do Pará.

A destruição da floresta em grande escala só começou na década de 1970 com estradas como a lendária Transamazônica e programas de colonização e subsídios que atraíram milhões de colonos, principalmente do sul do Brasil, e investidores internacionais. O governo militar brasileiro da época e seus especialistas em economia viam o uso de produtos naturais da floresta, que eram costumeiros até então, como “atrasado”. Substituíram uma economia sustentável que alimentava a população amazônica e ao mesmo tempo trouxeram divisas com corte implacável, pastagens artificiais de gado e monoculturas: uma política econômica de destruição da floresta tropical com o sul e sudeste da Amazônia, o chamado desmatamento arco, formado pelos estados de Maranhão, Pará, Mato, que continua até hoje Grosso, Rondônia e Acre, como a primeira vítima.

Independentemente dos povos indígenas e grupos populacionais tradicionais, pelo menos 19 corporações multinacionais hackearam mais de sete milhões de hectares de terras para extração de madeira, pecuária, agricultura e especulação imobiliária em 1982, de acordo com os pesquisadores franceses Hervé Théry e Jean Eglin em seu relatório »O Saque da Amazônia «(Le Pillage de l’Amazonie). Até mesmo áreas altamente produtivas de castanheiras foram derrubadas e a população da floresta, que vivia dela de maneira sustentável por séculos, mergulhou na pobreza ou foi levada ao êxodo.

“As causas diretas do desmatamento na região são predominantemente a agricultura industrial em grande escala (principalmente soja) e a pecuária extensiva”, resume o relatório de 2015 “Desmatamento na Amazônia (1970-2013)” da Rede Amazônica para dados sócio georreferenciados -informações ecológicas (RAISG). O desmatamento está intimamente ligado à construção de estradas pelo governo, explica o pesquisador da Amazônia Philip M. Fearnside. “Com a construção e expansão de estradas rurais e uma rede de estradas de acesso, mais colonos estão invadindo a área e aumentando drasticamente o desmatamento.” Ao mesmo tempo, a presença de colonos na floresta aumenta a pressão política para a construção de estradas ainda mais pavimentadas e melhores. Especulação de terras, barragens,

De acordo com dados do estudo de 1997 “Desmatamento e meios de subsistência na Amazônia brasileira” da Universidade de São Paulo, havia apenas 292 empresas madeireiras em toda a região amazônica no início da década de 1970. Só no estado do Pará, já eram mais de 2.000 em 1995. De acordo com dados do Instituto de Pesquisas Espaciais do INPE, responsável pelo monitoramento florestal por satélite, entre 1978 e 1988, uma média de cerca de 20 mil quilômetros quadrados de floresta tropical foi desmatada a cada ano apenas na Amazônia brasileira. Os piores anos de desmatamento ainda estavam por vir. Em 1995, o Brasil perdeu 29.000 km2, em 2003 mais de 25.000 e em 2004 quase 28.000 km2 da floresta amazônica.

Em 2013, o INPE calculou o desmatamento total em 762.979 km2 desde 1973. Isso significa que, de acordo com o relatório de 2017 “O clima futuro da Amazônia” da Amazônia e do pesquisador de clima Antonio Donato Nobre, mais de 42 bilhões de árvores foram destruídas nos últimos 40 anos, milhões por dia. Convertido para o tamanho de um campo de futebol, isso equivale a 12.635 campos de futebol limpos por dia, 526 campos de futebol por hora.

Em 2019, a especialista em Amazônia Kirsten Thonicke do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) alertou: “Ainda hoje, 20 por cento dos 5,3 milhões de km2 de floresta tropical foram desmatados.” Esta área é maior do que toda a União Europeia e foi resultou em um aquecimento de 0,8 a 0,9 graus na região e estendeu a estação seca. Outros cientistas presumem uma destruição de amônia ligeiramente menor de 17%.

Mas, independentemente de ser 17 ou 20%, é muito. Isso é especialmente verdadeiro para o Pará e Mato Grosso, com uma perda total de floresta tropical de 34,42% e 32,35%, respectivamente, de acordo com os últimos dados do INPE de maio de 2021.

Emissor líquido de CO2

Até agora, a ciência assumiu que a Amazônia, apesar do desmatamento das últimas décadas, continuaria a equilibrar o clima global e neutralizar o efeito estufa, removendo milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera todos os anos e armazenando-o em a forma de carbono em sua massa vegetal em crescimento. Mas obviamente não tem sido assim há pelo menos dez anos. Pelo contrário: operações de corte e queima e cortes rasos transformaram a maior floresta tropical em produtora líquida de CO2. É o que mostra pela primeira vez o estudo “A Amazônia como fonte de carbono ligada ao desmatamento e às mudanças climáticas”, publicado em julho na revista Nature , por uma equipe internacional de cientistas liderada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais INPE.

De 2010 a 2018, os pesquisadores sobrevoaram a região amazônica em quatro regiões representativas do nordeste ao sudoeste em pequenas aeronaves a cada quinze dias e mediram as concentrações de CO2 a uma altura de 300 a 4.400 metros acima do dossel. Isso foi seguido por uma avaliação de dados de dois anos. “A primeira notícia muito ruim é que as operações de corte e queima produzem cerca de três vezes mais CO2 do que a floresta absorve”, explica Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e autora principal do estudo. “A segunda má notícia é que as emissões de CO2 em regiões onde o desmatamento é de 30% ou mais são dez vezes maiores do que em áreas com desmatamento inferior a 20%.”

Especificamente, a área de floresta tropical emitiu em média 1,51 bilhão de toneladas de CO2 na atmosfera, principalmente por corte e queima, enquanto absorve apenas 450 milhões de toneladas de CO2 e o armazena em sua biomassa. “É uma notícia terrível”, disse Luciana Gatti. Porque isso torna a Amazônia um produtor líquido de 1,06 milhão de toneladas de dióxido de carbono por ano, o que coloca tantas nações industrializadas na sombra. Em vez de desacelerar a mudança climática, a região da floresta tropical da América do Sul tem aquecido a atmosfera muito mais do que a Alemanha, por exemplo, que conseguiu reduzir laboriosamente suas emissões anuais de CO2 de 1,05 bilhão de toneladas em 1990 para 644 milhões de toneladas no ano passado.

O principal culpado por esta “catástrofe climática” é o Brasil. A parte brasileira da Amazônia emite a maioria das emissões líquidas de CO2 da Amazônia em 870.000 toneladas anuais. O pior é a situação na região sudeste da Amazônia, especialmente no Pará e Mato Grosso, onde mais de 30% da floresta já foi destruída. O desmatamento levou a uma mudança climática regional com uma estação seca mais longa, seca e quente. Os pesquisadores registraram um aumento de temperatura de mais de dois graus nos meses de agosto, setembro e outubro, com uma diminuição simultânea na precipitação de cerca de 25%. Esse estresse climático leva a um círculo vicioso de produção de CO2 que queima as florestas com mais facilidade e faz com que as árvores morram mais cedo.

Devido à seca, explica Gatti, as folhas das árvores geralmente perenes da floresta tropical ficaram marrons e começaram a cair. As árvores param a fotossíntese e não absorvem mais CO2, mas continuam respirando. Esse estresse climático não só leva à redução do armazenamento de carbono, mas, no pior dos casos, à morte das árvores, que posteriormente liberam mais CO2 devido ao processo de apodrecimento de sua biomassa.

Gatti afirma que “o que está acontecendo no sul do Pará e no norte do Mato Grosso é que as espécies de árvores mais sensíveis morrem e apenas as mais resistentes sobrevivem. Ainda hoje, mais árvores morrem no sudeste da Amazônia do que voltam a crescer ”. Isso significa que a floresta dessa região, mesmo que não esteja pegando fogo, emite mais carbono do que absorve a cada ano. Menos árvores levam a menos chuva e temperaturas mais altas, o que aumenta a estação seca e o estresse climático para a floresta remanescente: uma espiral contínua que pode causar grandes círculos”.

“Rios voadores” secam

O naturalista e pioneiro das pesquisas amazônicos Alexander von Humboldt já havia adivinhado a ligação entre floresta tropical, umidade e clima no século 19, que os cientistas de hoje finalmente confirmaram e descreveram com mais detalhes. Estudos mostram que uma grande árvore da floresta tropical pode bombear mais de mil litros de água do solo e permitir que evapore em um único dia. Essa evapotranspiração remove energia do ambiente e, portanto, resfria o clima local, enquanto a água evaporada sobe para as camadas mais altas do ar. Calculado para uma Amazônia intacta, seus mais de 400 bilhões de árvores emitem mais de 20 bilhões de toneladas de água na atmosfera todos os dias e, portanto, produzem um rio atmosférico ou “voador” que é maior do que o poderoso rio Amazonas,

Os ventos carregam essas enormes quantidades de água que produz chuvas de leste a oeste, não apenas por toda a bacia amazônica, mas também até as regiões mais altas dos Andes, onde formam as geleiras, cujo degelo, por sua vez, alimenta os rios do lado pacífico andino. O “rio voador Amazonas” também flui de norte a sul e traz chuvas para o centro e oeste do Brasil nos planaltos do Cerrado e Pantanal, assim como para o sul e sudeste do Brasil, para Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina.

A cada novo corte da árvore amazônica, essas regiões são ameaçadas por um clima desértico. O estudo de Luciana Gatti sugere que esse ciclo vicioso já está em andamento. Mesmo na bacia amazônica ocidental praticamente intacta, com um desmatamento estimado em onze por cento, a equipe de pesquisa registrou queda nas chuvas e aumento nas temperaturas, em parte provocadas pelo desmatamento no leste. Embora essa mudança climática ainda seja menor do que nas partes mais desmatadas da Amazônia, ela também aumenta a mortalidade das árvores e reduz a capacidade de fotossíntese, ou seja, o armazenamento de carbono.

Um estudo publicado em 2019 pela Universidade da Califórnia usou dados de satélite dos 20 anos anteriores para determinar a evolução do conteúdo de umidade na atmosfera sobre a floresta amazônica. Ela também chegou à conclusão: “Nas últimas duas décadas, a atmosfera amazônica ficou cada vez mais seca.” Além disso, há eventos mais extremos. Após a forte seca, especialmente no Norte da Amazônia em 1998, a região amazônica voltou a registrar uma seca extrema em 2005, conhecida como a “seca do século”. Apenas cinco anos depois houve uma seca ainda maior, que foi substituída por outra seca do século na Amazônia em 2015, que agora atingiu o sudeste do Brasil. “O Brasil está secando: a pior seca das últimas décadas”, era a manchete da época.

A Amazônia também experimentou uma seca extrema em 2020. “Agosto, setembro e outubro em particular parecem ser os mais secos em mais de 20 anos”, relatou o Woodwell Climate Research Center. O sul da Amazônia foi particularmente afetado. Em 2020, o Pantanal também experimentou uma drástica escassez de água e incêndios florestais catastróficos como nunca antes. Secas e incêndios florestais também ocorreram na região florestal do Chaco, na Argentina e no Paraguai. Outra indicação de uma espiral girando em direção ao abismo.

O ciclo de secas de cinco anos sugere uma influência do efeito El Niño. Mas essa não é a única causa. O pesquisador do INPE Antonio Donato Nobre: ​​“Antes do intenso desmatamento na Amazônia, as chuvas eram tão abundantes que se dizia que havia apenas duas temporadas na bacia amazônica, uma úmida e outra ainda mais úmida. Hoje existe uma estação seca acentuada, e a duração da estação chuvosa está diminuindo cada vez mais. ”As sucessivas secas extremas neste século já em 2018 deixaram o pesquisador da NASA Sassan Saatchi com o até então válido“ paradigma de pesquisa que a Amazônia , independente de quanto dióxido de carbono nós (os países industrializados) emitimos, grande parte dele é absorvido, com dúvidas.

O documento de pesquisa “Rastreando os impactos da seca e do fogo do El Niño nas florestas amazônicas modificadas pelo homem”, também publicado em julho de 2021, confirmou os temores de Saatchi. A equipe de pesquisa do Brasil, Grã-Bretanha e Suécia examinou as consequências da seca na Amazônia de 2015, que matou cerca de 447 milhões de árvores maiores e 2,5 bilhões de menores na região afetada do baixo Tapajós. Como resultado da seca e dos incêndios florestais resultantes, dizem os pesquisadores, a região liberou mais carbono do que países industrializados como o Reino Unido por pelo menos três anos. Nos três anos após a seca, o crescimento da planta só foi capaz de absorver cerca de um terço das emissões.

Para Luciana Gatti, uma coisa é certa: a Amazônia agora é fonte de carbono. Uma descoberta científica que deveria realmente interessar e sacudir o mundo mais do que o voo de onze minutos para o espaço, prejudicial ao clima, por um empresário implacável chamado Jeffrey Preston Bezos, que nomeou sua empresa de comércio na Internet, que foi fundada em 1994, produzindo fluxos globais de mercadorias depois do rio mais rico em água da terra: a Amazônia ou na Amazônia alemã.

Em seu artigo sobre a pesquisa de Gatti, a jornalista climática Ciara Nugent, da Time Magazine, colocou desta forma: “É um barra alta, mas este é um dos fatos mais deprimentes que já li como jornalista climático: A floresta amazônica – uma região conhecida como ‘o pulmão do mundo’ – agora emite mais carbono do que absorve. “

Guerra contra a ignorância

Mas nem tudo está perdido ainda. Segundo Luciana Gatti, o processo ainda pode ser revertido. Gatti propõe uma moratória ao desmatamento e corte e queima por pelo menos cinco anos em toda a região amazônica, especialmente na região sudeste, que teria que ser reflorestada além da parada imediata do desmatamento. “Nesse cenário, acredito que haja possibilidade de reversão”, diz a pesquisadora.

Mas os sinais do governo Jair Bolsonaro prometem exatamente o contrário. Não há como parar o desmatamento e nem os incêndios florestais à vista. Em junho passado, 2.308 incêndios ocorreram na floresta amazônica brasileira e 4.181 no cerrado. Somente no estado da soja de Mato Grosso, os satélites contabilizaram 2.185 disparos. Esses números recordes de junho não falam a favor de uma reviravolta, mas de um desmatamento contínuo – até que a última árvore seja derrubada ou queimada.

Para Antonio Donato Nobre, que pesquisa na e sobre a Amazônia há mais de 30 anos e conhece as consequências ecológicas melhor do que quase qualquer outro cientista, uma política de desmatamento zero no Brasil era uma necessidade urgente já nos anos 1990. Embora o fim do desmatamento seja obrigatório, inevitável e há muito esperado hoje, não será suficiente para reverter as tendências climáticas ameaçadoras, alertou Nobre em 2017. “Temos que restaurar tudo o que foi alterado e destruído na medida do possível. O reflorestamento em tão grande escala requer a reversão do uso da terra em grandes áreas atualmente ocupadas. ”Dado o cenário atual, no entanto, isso é muito improvável.

“No entanto, apenas uma pequena parte da sociedade esteve e está diretamente envolvida na destruição das florestas”, diz o pesquisador da Amazônia. É uma minoria que empurra o Brasil e a América Latina para o abismo climático. Para combater isso, o primeiro passo é uma campanha semelhante a um esforço de guerra, uma “guerra” contra a ignorância. “Um esforço sem precedentes para educar a sociedade. E que visa principalmente aqueles que ainda se agarram ao equívoco de que a destruição de florestas é inofensiva. “

fecho

Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “Junge Welt” [Aqui!]. 

Novo relatório do IPCC é “alarmante” e mostra pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C até 2100

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O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou hoje um novo relatório sobre as ciências físicas que explicam as mudanças climáticas passadas, presentes e futuras.

O relatório apresenta as projeções mais recentes para o aumento da temperatura, avanços na atribuição de eventos climáticos extremos às mudanças climáticas, riscos maiores de alcançarmos pontos de inflexão em que impactos significativos se tornam irreversíveis e muito mais. Duas descobertas são especialmente relevantes:

• O mundo pode atingir 1,5°C de aquecimento nas próximas duas décadas.
• Ainda resta uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C até 2100, mas será necessária agir de maneira decisiva e muito rapidamente para conter as emissões nesta década, bem como zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050.

Leia o posicionamento de Helen Mountford, vice presidente de Clima e Economia do World Resources Intitute (WRI):

“Se este relatório do IPCC não o assustar ao ponto de agir, deveria. O relatório elabora um quadro muito sério do mundo implacável e inimaginável que nos espera se nosso vício em queimar combustíveis fósseis e destruir florestas continuar. Uma das conclusões mais impressionantes é que podemos atingir 1,5°C de aquecimento uma década antes do que o IPCC havia previsto anteriormente”.

“As manchetes recentes sobre enchentes mortais, incêndios florestais e secas que acontecem ao redor do mundo parecem cenas de um romance distópico de ficção científica, mas são manifestações do aquecimento global que nossa poluição climática já induziu no sistema. Os impactos perigosos e custosos que estamos experimentando agora parecerão moderados em comparação com o que enfrentaremos se não limitarmos o aquecimento a 1,5°C até o final deste século. Isso reforça a urgente necessidade de as nações ricas fornecerem muito mais recursos financeiros aos países em desenvolvimento que são os mais vulneráveis ​​aos impactos climáticos e os menos responsáveis ​​pelas emissões. Este financiamento é essencial para que possam proteger pessoas, fontes de alimentos e recursos hídricos das consequências inevitáveis ​​de um clima em transformação”.

“Embora as descobertas do IPCC sejam alarmantes, elas não podem se traduzir em desesperança ou falta de ação. Pelo contrário, a necessidade de cortar rapidamente as emissões de gases de efeito estufa ficará cada vez maior à medida que as temperaturas aumentam e os impactos climáticos pioram mais e mais. Esse relatório deve estimular cada país, empresa, cidade e cidadão a lutar com todas as forças para evitar todo aquecimento possível”.

“A boa notícia é que sabemos o que é necessário para evitar um futuro calamitoso e ao mesmo tempo gerar empregos e um crescimento econômico de baixo carbono. O relatório mostra que temos uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C, mas só o faremos se agirmos de forma decisiva. Fazer isso exigirá mudanças rápidas e radicais na maneira como usamos e produzimos energia, alimentos, administramos o uso da terra e transportamos pessoas e bens”.

“Nossa oportunidade de evitar impactos ainda mais catastróficos tem uma data de validade. O relatório sugere que esta década é nossa última chance de adotar as medidas necessárias para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Se falharmos coletivamente em reduzir de forma rápida as emissões de gases de efeito estufa até o fim da década, essa meta ficará fora de alcance”.

“Por muito tempo, diferentes interesses impediram o progresso e lançaram dúvidas sobre a ciência do clima, que é sólida como uma rocha. Esses dias devem ficar no passado”.

“Fique atento aos líderes mundiais que estão no cargo hoje. Nosso destino coletivo será determinado por suas escolhas. Este é um momento em que todos precisam remar na mesma direção e exigir que seus líderes tomem medidas climáticas corajosas, como se nosso futuro dependesse disso – porque realmente depende”.

Leia o posicionamento de Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil:

“O relatório do IPCC é explicito, temos 10 anos críticos diante de nós para conter o aumento da temperatura média da Terra. O papel do Brasil é acelerar a transição da sua economia para um modelo bem menos dependente de combustíveis fósseis. Nós podemos fazer isso através de energia limpa e biocombustíveis, e gerando empregos e novos mercados para empresas nacionais como a Petrobrás. Há oportunidades para o país de modernização e revitalização nesta crise global, mas quanto mais demorarmos para nos posicionarmos competitivamente, mais perderemos oportunidades e mercados.”

“Os desmatamentos na Amazônia e em outros biomas brasileiros contribuem para o aquecimento do planeta e não beneficiam o país, seu povo e sua economia formal. A ciência e a história recente do país revelam claramente que podemos produzir mais e melhor sem desmatar, e que os biomas são fundamentais para a agricultura e para garantir a segurança hídrica e energética de nossas cidades.”

Mudanças climáticas: cientistas dizem que nenhum lugar é seguro após calor recorde no Canadá e nos EUA

Governos são chamados a intensificar os esforços para lidar com a emergência climática enquanto os recordes de temperatura são quebrados

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Pessoas descansam na estação de resfriamento do Oregon Convention Center em Portland. Na costa oeste dos Estados Unidos, Seattle e Portland registraram dias consecutivos de calor excepcional. Fotografia: Kathryn Elsesser / AFP / Getty Images

Por Matthew Taylor e Leyland Cecco para o “The Guardian”

Cientistas do clima disseram que nenhum lugar está a salvo do tipo de calor extremo que atingiu o oeste dos Estados Unidos e Canadá nos últimos dias e instou os governos a intensificarem drasticamente seus esforços para enfrentar a escalada da emergência climática.

A devastadora “cúpula de calor” fez com que as temperaturas subissem para quase 50 ° C no Canadá e foi associada a centenas de mortes, linhas de energia derretidas, estradas empenadas e incêndios florestais.

Especialistas dizem que, à medida que a crise climática aumenta as temperaturas globais, todas as sociedades – do norte da Sibéria à Europa, da Ásia à Austrália – devem se preparar para eventos climáticos mais extremos.

Sir David King, o ex-consultor científico chefe do Reino Unido, disse: “Em nenhum lugar é seguro … quem teria previsto uma temperatura de 48 / 49C na Colúmbia Britânica?”

King, que junto com outros cientistas importantes fundou o Climate Crisis Advisory Group no início deste mês, disse que cientistas vinham alertando sobre eventos climáticos extremos por décadas e agora o tempo estava se esgotando para agir.

“Os riscos são compreendidos e conhecidos há muito tempo e não agimos, agora temos um cronograma muito estreito para gerenciar o problema”, disse ele.

No Canadá, os especialistas ficaram chocados com o aumento da temperatura, que na terça-feira atingiu 49,6 ° C (121,1 ° F) na cidade de Lytton , na Colúmbia Britânica, quebrando o recorde nacional pelo terceiro dia consecutivo.

Na costa oeste dos Estados Unidos, Seattle e Portland registraram dias consecutivos de calor excepcional. As autoridades locais disseram que estão investigando cerca de uma dúzia de mortes em Washington e Oregon que podem ser atribuídas às altas temperaturas.

Michael E Mann, professor de ciência atmosférica da Universidade Estadual da Pensilvânia e autor de The New Climate War, disse que, à medida que o planeta esquenta, esses eventos climáticos perigosos se tornam mais comuns.

“Devemos levar isso muito a sério … Você aquece o planeta, verá um aumento na incidência de extremos de calor.”

Mann disse que o clima está sendo desestabilizado em parte pelo aquecimento dramático do Ártico e disse que os modelos climáticos existentes não estão conseguindo capturar a escala do que está acontecendo.

“Os modelos climáticos estão subestimando o impacto que a mudança climática está tendo sobre eventos como a onda de calor sem precedentes que estamos testemunhando no oeste agora”, acrescentou.

Na quarta-feira, o presidente dos EUA, Joe Biden, culpou a crise climática pela onda de calor no oeste dos EUA e Canadá, que autoridades disseram já ter quebrado 103 recordes de calor em British Columbia, Alberta, Yukon e Territórios do Noroeste.

O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA disse que o pico na região foi de 42,2 C na terça-feira em Spokane, Washington, outro recorde local. Cerca de 9.300 casas ficaram sem energia e a concessionária local Avista Utilities disse que apagões planejados seriam necessários, afetando mais de 200.000 pessoas.

Na Colúmbia Britânica (BC), pelo menos 486 mortes súbitas foram relatadas em cinco dias durante a onda de calor. O legista-chefe disse que normalmente teria ocorrido cerca de 165 mortes súbitas, sugerindo que mais de 300 mortes poderiam ser atribuídas ao calor.

“Embora seja muito cedo para dizer com certeza quantas dessas mortes estão relacionadas ao calor, acredita-se que o aumento significativo nas mortes relatadas seja atribuível ao clima extremo que BC experimentou e continua a impactar muitas partes de nossa província”, Lisa Lapointe disse em um comunicado.

Lapointe disse que os números são preliminares e vão aumentar à medida que os legistas em comunidades em toda a província inserem outros relatórios de mortes no sistema da agência.

Como se forma uma cúpula de calor e seu efeito na corrente de jato

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“Nossos pensamentos estão com as pessoas que perderam entes queridos”, disse o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, alertando que as altas temperaturas em uma região do país mal preparada para tanto calor era um lembrete da necessidade de enfrentar a crise climática.

Muitos dos que morreram no período de cinco dias eram idosos que viviam sozinhos e foram encontrados em residências com calor e mal ventiladas.

“As pessoas podem ser vencidas pelos efeitos do calor extremo rapidamente e podem não estar cientes do perigo”, disse Lapointe.

Cientistas disseram que a escala da onda de calor nos Estados Unidos e Canadá deve servir como um “alerta” para formuladores de políticas, políticos e comunidades em todo o mundo, especialmente na preparação para a cúpula climática Cop26 da ONU, que será sediada pelo Reino Unido em novembro.

“O risco de ondas de calor está aumentando em todo o mundo tão rapidamente que agora está trazendo um clima e condições sem precedentes para pessoas e sociedades que nunca viram antes”, disse o professor Peter Stott do Met Office. “A mudança climática está tirando o clima do envelope que as sociedades há muito experimentam.”

O professor Simon Lewis, da University College London, descreveu a situação como “assustadora” e alertou que os eventos de calor extremo podem ter um grande impacto sobre tudo, desde o preço dos alimentos até o fornecimento de energia.

“Todo mundo terá que pensar sobre como lidar com essas novas condições e os extremos que vêm junto com o novo clima que estamos criando. Isso significa que todos precisam de planos. ”

Ele disse que é crucial que governos e legisladores prestem atenção aos sinais de alerta e aumentem drasticamente os planos para interromper as emissões de combustíveis fósseis e preparar as sociedades para lidar com eventos climáticos mais extremos.

“Este é um aviso em dois sentidos”, disse Lewis. “Temos que reduzir as emissões a zero rapidamente para cortar as novas ondas de calor extremas e temos que nos adaptar às novas condições climáticas que estamos criando”.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Universidade de Oxford promove webinário para discutir as crises climática e da COVID-19 no Brasil sob o governo Bolsonaro

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Em 2020, o Brasil registrou o maior nível de desmatamento na Amazônia em 12 anos. Esse aumento preocupante está relacionado ao desmantelamento de importantes políticas e regulamentações ambientais, à redução ou congelamento de recursos para a proteção das florestas e de suas populações tradicionais, e às propostas de legalização da ocupação privada de terras públicas.

O país está agora sob pressão crescente devido à Covid-19, que causou o pior colapso do sistema de saúde da história brasileira  A pandemia da COVID-19 já causou mais de 400.000 mortes de brasileiros, o segundo maior número de mortes causadas pela pandemia no mundo.

O Brasil também enfrenta crises econômicas e de fome. Um estudo lançado recentemente constatou que mais da metade da população vive com algum nível de insegurança alimentar.

Junte-se a nós neste webinar de uma hora e meia para discutir como os brasileiros foram profundamente afetados por este momento catastrófico e conecte-se com o trabalho e as reflexões de organizações ambientais e escritores no Reino Unido.

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Palestrantes:
– Adriana Ramos, Coordenadora de Políticas e Leis do Instituto Socioambiental (ISA), membro coordenador do Observatório do Clima
– Douglas Belchior, professor de História, fundador da Uneafro Brasil, membro da Coalizão Negra pelos Direitos do Brasil e do Fundo Brasil de Direitos Humanos
– Eliane Brum, jornalista, escritor e documentarista brasileiro, colunista do El País
– Erika Berenguer, Pesquisadora Associada Sênior do The Environmental Change Institute, membro da Amazon Brazilian the Sustainable Amazon Network
– Jay Griffiths, escritor britânico premiado, autor de ‘Wild, an Elemental Journey’, ‘Kith: The Riddle of the Childscape’, e agora lançando ‘Why Rebel?’
– Niki Mardas, Diretora Executiva da Global Canopy
– Sonia Guajajara, líder indígena brasileira, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Mediada por Jonathan Watts, Editor de Meio Ambiente Global da Guardian. Hospedado pela Global Canopy e pelo Oxford Centre for Tropical Forests.

Haverá interpretação ao vivo para inglês e português.

Os interessados em se increver neste evento, podem clicar [Aqui!].

EUA tentam assumir protagonismo na luta contra as mudanças climáticas. E agora, Bolsonaro?

Joe Biden convida 40 chefes de governo para a cúpula do clima em abril. Vladimir Putin e Xi Jinping também são convidados, apesar de todas as tensões. E: Os EUA prometem melhoria em termos de emissões.

bidenO presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer retomar a tradição de George W. Bush e Barack Obama e realizar uma cúpula sobre o clima com outros chefes de governo. © Carlos Barria / Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer fazer avançar os esforços para proteger o clima e também convidou os presidentes da Rússia e da China para uma cúpula online. O governo dos Estados Unidos anunciou que Biden emitiu convites para um total de 40 políticos internacionais para o evento online nos dias 22 e 23 de abril. Além do chefe do Kremlin, Vladimir Putin, e do chefe de Estado e do partido da China, Xi Jinping, eles também incluem a chanceler alemã, Angela Merkel, e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen. O evento será transmitido ao vivo pela Internet.

EUA querem anunciar meta de emissões mais ambiciosa

De acordo com a Casa Branca, a cúpula tem como objetivo sublinhar a urgência de medidas mais fortes para a proteção do clima e seus benefícios econômicos. Antes disso, os EUA anunciariam “uma meta ambiciosa de emissões” para 2030 como uma nova contribuição para o Acordo Climático de Paris. Biden pediu a outros chefes de estado e de governo que usem a reunião online para se comprometer com uma maior economia também. A próxima conferência climática da ONU será em novembro em Glasgow, na Escócia.

Pouco depois de assumir o cargo em janeiro, Biden anunciou que iria convocar uma cúpula do clima em 22 de abril – Dia da Terra . Os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush e Barack Obama, já haviam realizado reuniões nas quais as maiores economias do mundo trocavam opiniões sobre a mudança climática. Sob o comando do antecessor de Biden, Donald Trump, que repetidamente expressou dúvidas sobre a mudança climática, as conferências não existiam mais e os EUA se retiraram do Acordo de Paris. No dia em que prestou juramento, Biden ordenou seu retorno. Ele reiterou repetidamente que os EUA desempenhariam um papel de liderança na implementação do acordo.

Ao contrário do republicano Trump, o democrata Biden fez da proteção climática um de seus objetivos mais importantes – a Casa Branca fala de uma “emergência climática”. Pouco depois de assumir o cargo, Biden nomeou o ex-secretário de Estado John Kerry como enviado especial do clima, membro do Conselho de Segurança Nacional nessa função. Na semana passada, Kerry pediu mais ambição internacional na proteção do clima em um congresso online organizado pelo governo federal.

Ainda não está claro se Putin e Xi participarão da cúpula online. As tensões com a China e a Rússia se intensificaram sob Biden. Os EUA e seus aliados decidiram sancionar a China por reprimir a minoria muçulmana uigur. Em entrevista, Biden também afirmou que achava que Putin era um assassino e ameaçou a Rússia com novas sanções porque o país havia tentado influenciar a eleição presidencial. Os governos dos dois países rejeitam as acusações.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Die Zeit  [Aqui!].

Cientistas alertam sobre ‘futuro horrível de extinção em massa’ e distúrbios climáticos

Novo relatório diz que o mundo não está conseguindo compreender a extensão das ameaças representadas pela perda de biodiversidade e pela crise climática

fogoFumaça e chamas aumentam de um incêndio ilegal na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

O planeta está enfrentando um “futuro horrível de extinção em massa, saúde decadente e transtornos climáticos” que ameaçam a sobrevivência humana por causa da ignorância e da inação, de acordo com um grupo internacional de cientistas, que alertam que as pessoas ainda não perceberam a urgência do biodiversidade e crises climáticas.

Os 17 especialistas, incluindo o professor Paul Ehrlich da Universidade de Stanford, autor de The Population Bomb, e cientistas do México, Austrália e Estados Unidos, dizem que o planeta está em um estado muito pior do que a maioria das pessoas – até mesmo os cientistas – entendem.

“A escala das ameaças à biosfera e todas as suas formas de vida – incluindo a humanidade – é de fato tão grande que é difícil de entender até mesmo por especialistas bem informados”, escrevem eles em um relatório na Frontiers in Conservation Science que faz referência a mais de 150 estudos detalhando os principais desafios ambientais do mundo.

O atraso entre a destruição do mundo natural e os impactos dessas ações significa que as pessoas não reconhecem o quão vasto é o problema, argumenta o jornal. “[O] mainstream está tendo dificuldade em compreender a magnitude dessa perda, apesar da erosão constante da estrutura da civilização humana.”

O relatório alerta que migrações em massa induzidas pelo clima, mais pandemias e conflitos por recursos serão inevitáveis, a menos que ações urgentes sejam tomadas.

“O nosso não é um chamado à rendição – nosso objetivo é fornecer aos líderes um ‘banho frio’ realista sobre o estado do planeta, que é essencial para o planejamento de evitar um futuro medonho”, acrescenta.

Lidar com a enormidade do problema requer mudanças de longo alcance no capitalismo global, educação e igualdade, diz o jornal. Isso inclui a abolição da ideia de crescimento econômico perpétuo, precificando apropriadamente as externalidades ambientais, interrompendo o uso de combustíveis fósseis, controlando o lobby corporativo e dando poder às mulheres, argumentam os pesquisadores.

O relatório vem meses depois que o mundo falhou em cumprir uma única meta de biodiversidade da ONU Aichi, criada para conter a destruição do mundo natural, a segunda vez consecutiva que os governos falharam em cumprir suas metas de 10 anos de biodiversidade. Esta semana, uma coalizão de mais de 50 países se comprometeu a proteger quase um terço do planeta até 2030.

Um recife de coral dominado por algas nas SeychellesUm recife de coral dominado por algas nas Seychelles … a crise climática está mudando a composição dos ecossistemas. Fotografia: Nick Graham / Lancaster University / PA

Estima-se que um milhão de espécies estão em risco de extinção, muitas em décadas, de acordo com um relatório recente da ONU .

“A deterioração ambiental é infinitamente mais ameaçadora para a civilização do que o Trumpismo ou a Covid-19”, disse Ehrlich ao Guardian.

Em The Population Bomb, publicado em 1968, Ehrlich alertou sobre a explosão populacional iminente e centenas de milhões de pessoas morrendo de fome. Embora ele tenha reconhecido que alguns horários estavam errados, ele disse que mantém sua mensagem fundamental de que o crescimento populacional e os altos níveis de consumo das nações ricas estão causando destruição.

Ele disse ao Guardian: “Growthmania é a doença fatal da civilização – deve ser substituída por campanhas que tornem a equidade e o bem-estar os objetivos da sociedade – não consumir mais lixo”.

Grandes populações e seu crescimento contínuo levam à degradação do solo e à perda de biodiversidade, alerta o novo artigo. “Mais pessoas significa que mais compostos sintéticos e plásticos perigosos descartáveis ​​são fabricados, muitos dos quais contribuem para a crescente toxificação da Terra. Também aumenta as chances de pandemias que alimentam caças cada vez mais desesperadas por recursos escassos. ”

Extinção em massa de pássaros no sudoeste dos Estados Unidos ‘causada pela fome’

Os efeitos da emergência climática são mais evidentes do que a perda de biodiversidade, mas ainda assim, a sociedade não está conseguindo reduzir as emissões, argumenta o jornal. Se as pessoas entendessem a magnitude das crises, as mudanças na política e nas políticas poderiam corresponder à gravidade da ameaça.

“Nosso ponto principal é que, ao perceber a escala e a iminência do problema, fica claro que precisamos muito mais do que ações individuais, como usar menos plástico, comer menos carne ou voar menos. Nosso ponto é que precisamos de grandes mudanças sistemáticas e rápidas ”, disse o professor Daniel Blumstein da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que ajudou a escrever o artigo, ao Guardian.

O documento cita uma série de relatórios importantes publicados nos últimos anos, incluindo:

Bushfires em Eden, Austrália

A Austrália viu uma temporada de incêndios florestais devastadores em 2020. Foto: Tracey Nearmy / Reuters

O relatório segue anos de severos avisos sobre o estado do planeta dos principais cientistas do mundo, incluindo uma declaração de 11.000 cientistas em 2019 de que as pessoas enfrentarão “sofrimento indizível devido à crise climática”, a menos que grandes mudanças sejam feitas. Em 2016, mais de 150 cientistas do clima da Austrália escreveram uma carta aberta ao então primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, exigindo ação imediata para reduzir as emissões. No mesmo ano, 375 cientistas – incluindo 30 vencedores do Prêmio Nobel – escreveram uma carta aberta ao mundo sobre suas frustrações com a inação política em relação às mudanças climáticas.

O professor Tom Oliver, ecologista da Universidade de Reading, que não esteve envolvido no relatório, disse que era um resumo assustador, mas confiável, das graves ameaças que a sociedade enfrenta em um cenário de “negócios como de costume”. “Os cientistas agora precisam ir além de simplesmente documentar o declínio ambiental e, em vez disso, encontrar as maneiras mais eficazes de catalisar a ação”, disse ele.

O professor Rob Brooker, chefe de ciências ecológicas do James Hutton Institute, que não esteve envolvido no estudo, disse que o estudo enfatizou claramente a natureza urgente dos desafios.

“Certamente não devemos ter dúvidas sobre a enorme escala dos desafios que enfrentamos e as mudanças que precisaremos fazer para lidar com eles”, disse ele.

Encontre mais cobertura da era da extinção aqui e siga os repórteres da biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Guardian” [   ].

Bancos de desenvolvimento que financiam fazendas industriais em todo o mundo

Bilhões de dólares estão sendo bombeados para as indústrias de carnes e laticínios, apesar de sua vasta contribuição para a catástrofe climática que se aproxima

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Por Andrew Wasley , Alexandra Heal para o Bureau of Investigative Journalism

Dois dos principais bancos de desenvolvimento do mundo investiram bilhões de dólares no setor pecuário global, apesar das advertências de que a redução do consumo de carne e laticínios é essencial para enfrentar a crise climática.

A International Finance Corporation (IFC) – o braço de empréstimos comerciais do Banco Mundial – e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) forneceram US$ 2,6 bilhões para a criação de porcos, aves e carne bovina, bem como para o processamento de laticínios e carne nos últimos 10 anos.

O governo do Reino Unido é um grande financiador de ambos os bancos e seu próprio banco de desenvolvimento, o CDC, também investiu dezenas de milhões de libras esterlinas no setor pecuário global na última década, incluindo financiamento para um confinamento de carne bovina em escala industrial na Etiópia e empresas de aves. no Níger e em Uganda.

Os bancos de desenvolvimento são instituições financeiras que fornecem capital de médio e longo prazo para fins de crescimento econômico nos países mais pobres. A IFC e o BERD se comprometeram publicamente a combater as mudanças climáticas provocadas pelo homem e a tomar decisões de investimento com o clima em mente.

Mas uma investigação do Bureau of Investigative Journalism e The Guardian revelou que o financiamento da IFC e do BERD – que envolvia investimentos diretos, empréstimos e outros apoios financeiros – foi usado em megafarmas em escala industrial, matadouros e na expansão de empresas multinacionais de carnes e laticínios.

Em um caso recente, um confinamento de gado de corte em Madagascar, de propriedade de um conglomerado de mais de 20 empresas, recebeu um financiamento no valor de US$ 3,5 milhões para produzir carne para exportação para o Oriente Médio e para o mercado doméstico. Em outro, a Smithfield Foods, a maior empresa suinícola do mundo, recebeu uma injeção substancial de dinheiro da IFC por suas atividades na Romênia.

carne 1Cientistas têm repetidamente alertado sobre a considerável pegada climática da criação de animais

Uma crise iminente

Os cientistas têm repetidamente alertado sobre a pegada climática considerável da criação de animais – produz quase 15% das emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem – e disseram que, a menos que o consumo global seja reduzido, os esforços para enfrentar significativamente as mudanças climáticas fracassarão.

“A expansão da produção e do consumo de carne e laticínios é incompatível com os objetivos do acordo climático de Paris”, disse o professor Pete Smith, presidente de ciência de plantas e solo da Universidade de Aberdeen e principal autor de um relatório histórico da ONU sobre o impacto de uso da terra e agricultura nas mudanças climáticas. Ele citou uma pesquisa mostrando que metade da população global precisa mudar para dietas vegetarianas ou veganas até 2050 para cumprir as metas de Paris.

“Embora alguns investimentos de agências de desenvolvimento e bancos em agricultura animal para melhorar a segurança alimentar nos países mais pobres do mundo possam ser justificáveis, investimentos maciços em sistemas de produção pecuária em países que já têm altos níveis de consumo e em empresas multinacionais de carnes e laticínios, claramente não é ”, acrescentou.

Os produtos de origem animal tendem a ter pegadas ambientais muito mais altas – em alguns casos 10 a 100 vezes mais – do que os alimentos à base de plantas, devido à quantidade de terra, água, fertilizantes emissores de gases de efeito estufa e energia necessária para produzir uma porção de proteína. O setor pecuário usa mais de três quartos das terras agrícolas do mundo, como pasto ou como terra produtora de ração animal, mas fornece apenas 18% das calorias globais.

Na semana passada, em um relatório climático histórico, o Banco Mundial se comprometeu a trabalhar com clientes para incentivar dietas sustentáveis ​​e “direcionar os fatores para o aumento do consumo de carne”, e disse que está considerando advogar por um imposto sobre o carbono no setor pecuário. O relatório exaltou os benefícios climáticos dos substitutos da carne à base de plantas.

Jeremy Coller, chefe da empresa de investimentos Coller Capital e fundador da rede financeira responsável FAIRR, disse que, enquanto o mundo financeiro estava começando a desempenhar seu papel na redução de gases de efeito estufa, era “loucamente desconectado e inconsistente para a IFC e o BERD investirem fundos públicos na agricultura animal intensiva, uma das indústrias de maior emissão do mundo ”.

Ele disse que os produtores de carne devem ser urgentemente encorajados a mudar sua mistura de ração e gado para culturas e espécies favoráveis ​​ao clima, como algas ou algas marinhas, ou diversificar para alternativas de carne mais ecológicas.

carne 2A criação de porcos recebeu uma injeção substancial de dinheiro dos bancos de desenvolvimento. David Tadevosian / Alamy

Nossa análise de registros públicos e dados do setor destaca como os bancos financiaram empresas que operam na Europa Oriental, Ásia, África, Oriente Médio e América Latina. Alguns dos investimentos foram em países onde a oferta de carne é atualmente baixa, como a Etiópia, mas outros foram feitos em locais onde o consumo per capita de carne já é alto ou médio, como Ucrânia, China e Romênia.

O setor de laticínios foi o maior beneficiário de financiamento da IFC e do BERD, com empresas de processamento e fazendas recebendo mais de US $ 1 bilhão. Cada setor de suínos e aves recebeu cerca de US $ 500 milhões.

Demanda crescente

A IFC disse à Repartição que intencionalmente atende à crescente demanda global por carne e laticínios e que o setor pecuário é um pilar essencial da segurança alimentar e redução da pobreza em muitos países. Reconheceu, no entanto, que o setor tinha uma “grande pegada ambiental e climática”.

O Banco Europeu afirmou que os setores de carnes e laticínios representam um elemento importante na dieta de muitas pessoas, mas que os projetos de pecuária representam cerca de 1% de seu investimento total nas empresas. Ambos os bancos disseram que trabalham para reduzir as emissões dos projetos que financiam.

Especialistas que falaram com a Repartição enfatizaram que não deve haver uma abordagem única para lidar com o impacto do setor pecuário na crise climática.

A Dra. Catherine Nkirote Kunyanga, professora do Centro de Segurança Alimentar da Universidade de Nairóbi, disse que expandir a produção pecuária acessível é incrivelmente importante em muitos países onde as famílias ainda não conseguem manter uma dieta saudável devido à renda ou à geografia.

“Uma das coisas que promovemos na nutrição são as pessoas que consomem mais proteína animal, para realmente combater a desnutrição energética protéica, que é muito comum na África”, disse ela, acrescentando que em algumas regiões onde o clima e o solo não se adaptam ao crescimento culturas, a pecuária é a chave para a segurança no emprego e a nutrição.

Ela disse que os apelos globais para reduzir o consumo de carne e laticínios para enfrentar as mudanças climáticas devem ser direcionados aos países ocidentais e que os bancos multilaterais de desenvolvimento devem investir apenas na expansão da pecuária em países com baixos níveis de consumo de carne.

O professor Tahseen Jafry, diretor do Centro de Justiça Climática da Universidade Caledonian de Glasgow, observou: “As comunidades mais pobres de todo o mundo sofrem mais com os impactos climáticos e são essas comunidades que precisam mais de apoio”.

No entanto, o impacto de cada projeto deve ser considerado em relação aos orçamentos de emissões globais e nacionais, de acordo com o professor Tim Benton, diretor do programa de Energia, Meio Ambiente e Recursos da Chatham House.

Mas ele alertou que tentar reduzir a pegada de carbono de um litro de leite ou de uma única galinha é inútil quando a demanda por esses produtos continua aumentando. “Só porque a eficiência dos gases de efeito estufa de uma unidade de carne ou laticínios melhorou, se todo mundo estiver comendo mais, as emissões totais provenientes de carne ou laticínios podem aumentar”.

Ambos os bancos de desenvolvimento disseram à Repartição que avaliam projetos individuais para suas emissões de carbono. O BERD afirmou ainda que havia introduzido práticas para avaliar os riscos climáticos em todo o seu portfólio.

carne 3Os produtores de leite também foram financiados. Fotografia de Teila K / Alamy

Algumas das empresas financiadas pelos bancos de desenvolvimento são agronegócios multinacionais ou suas subsidiárias ou afiliadas. Em 2010, o BERD participou nas subsidiárias da Europa Oriental e da Ásia Central do grupo francês Danone, uma das maiores empresas de laticínios do mundo que gerou vendas de € 25,3 bilhões em 2019. O BERD disse que seu investimento – agora encerrado – havia sido destinada a expandir os mercados de laticínios e as operações da Danone na Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão.

Entre os projetos recentemente aprovados pela IFC está um empréstimo de US $ 54 milhões para a gigante de aves da Índia Suguna, o principal fornecedor de frango do país e um dos 10 maiores produtores mundiais de aves. A empresa atende mercados de exportação e consumidores indianos.

O empréstimo da IFC é, em parte, projetado para ajudar a expansão da empresa no Quênia e Bangladesh, com financiamento destinado à construção de fábricas de ração e incubatórios.

O agronegócio totalmente integrado, que alega trabalhar com 39.000 fazendas em 18 estados indianos, foi anteriormente envolvido em controvérsia depois que foi alegado que um antibiótico, cujo uso a OMS havia dito que deveria ser reduzido, foi encontrado em uso em um de seus contratos fazendas. A empresa negou isso.

Separadamente, a subsidiária de saúde veterinária da empresa – Globion – comercializou vários antibióticos para uso na avicultura. Isso inclui o Colibac, que contém a substância colistina – que foi associada ao surgimento da superbactéria mcr-1 – e que foi proibida para uso em animais de criação na Índia em 2019.

A Suguna não é a única empresa de aves da Índia a ser apoiada pela IFC, com a rival Srinivasa recebendo uma injeção de mais de US $ 20 milhões em 2018.

A Smithfield Foods – agora parte do conglomerado chinês WH Group – também se beneficiou do financiamento da IFC, com empréstimos de US $ 60 milhões para suas operações na Romênia. A Smithfield é a maior produtora de suínos e processadora de suínos do mundo, e recentemente alcançou as manchetes mundiais depois que a pandemia do Covid-19 a forçou a fechar sua principal fábrica de frigoríficos em Dakota do Sul, que supostamente fornece 18 milhões de refeições por dia aos consumidores dos EUA.

Objetivos conflitantes?

Uma pesquisa do Coller FAIRR Index indicou recentemente que 77% dos principais produtores de carne, peixe e laticínios, incluindo a maioria das maiores empresas de carne listadas na Ucrânia e na China, se enquadravam na categoria de “alto risco” ao lidar com as mudanças climáticas, o que significa que eles não medem adequadamente todas as emissões de gases de efeito estufa e não têm metas significativas para reduzi-las.

O governo do Reino Unido prometeu usar sua presidência da COP26, as conversações anuais sobre o clima da ONU, para “esverdear as cadeias de suprimentos locais e internacionais de alimentos e produtos essenciais” e “aumentar o alinhamento dos fluxos financeiros com o valor líquido zero”.

O CDC disse à Repartição que estava prestes a publicar uma nova estratégia de mudança climática para garantir que as empresas agrícolas que investiram implementassem “práticas agrícolas inteligentes em termos climáticos, a fim de reduzir as emissões e aumentar a resiliência a um clima em aquecimento … Também é importante lembre-se de que uma em cada cinco pessoas que vivem na África sente fome. Aliviar os níveis de desnutrição crônica e melhorar a segurança alimentar continuam sendo objetivos vitais de desenvolvimento. ”

A IFC aceitou que a proteína animal tem “uma grande pegada ambiental e climática, mas é importante observar que seu crescimento é impulsionado pela demanda e está ligado às preferências das pessoas em consumir laticínios e carne”.

Justificou os investimentos na indústria pecuária, dizendo que “na maioria dos países em desenvolvimento há uma parcela significativa da população que luta para atender aos seus requisitos mínimos diários de nutrição, incluindo proteínas”.

Um porta-voz do BERD disse que o banco está “investindo principalmente em maior eficiência, melhorias no uso de energia ao longo das cadeias de suprimentos, bem-estar animal melhorado, gerenciamento e utilização de resíduos (incluindo gerenciamento de estrume) e produção de energia verde”.

O banco também disse que buscava ativamente a redução das emissões de gases de efeito estufa, “inclusive melhorando a eficiência de recursos ao longo das cadeias de suprimentos de carne, do cultivo à distribuição”.

Nota: Os números são cotados com base no dinheiro destinado a projetos específicos. Alguns foram convertidos para USD a partir de outras moedas.

Nosso projeto de Alimentação e Agricultura é parcialmente financiado pelos principais fundos do Bureau e parcialmente pela Hollick Family Foundation (para 2020) e The Guardian. Nenhum de nossos financiadores têm influência sobre as decisões ou resultados editoriais da Redação,

Imagem do cabeçalho: Andrea Matone / Alamy

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Esta reportagem foi escrita originalmente em inglês e publicada pelo Bureau of Investigative Journalism [Aqui!].

Democratas definem projeto para zerar emissões dos EUA até 2050

Pesquisas de opinião sinalizam amplo apoio popular a políticas ambientais ambiciosas

Power Sector Transformation

O Partido Democrata dos EUA divulgou hoje (30/06) um plano de como o Congresso poderia colocar o país no caminho das emissões líquidas zero até 2050 . O relatório do Comitê Seleto da Câmara para a Crise Climática recomenda um conjunto de políticas climáticas ambiciosas. Ao mesmo tempo, uma nova pesquisa de opinião mostra que os americanos apoiam a busca por uma economia 100% limpa até 2050 e acreditam que isso terá impacto positivo no emprego e no crescimento econômico.

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O Plano de Ação para Crise Climática, como foi batizado, inclui recomendações de políticas como:

  • Promulgação de um padrão de energia limpa para atingir emissões líquidas zero no setor de eletricidade até 2040;
  • Alcançar 100% de vendas de carros com emissões zero até 2035 e caminhões pesados ​​até 2040;
  • Tornar todas as novas construções residenciais e comerciais livres de emissões até 2030;
  • Precificar o carbono;
  • Investir em agricultura inteligente em termos climáticos, em pesquisas para remoção de carbono e em inovação para armazenamento de energia;
  • Colocar a justiça ambiental no centro da política federal de clima e meio ambiente.

Uma modelagem feita pela Energy Innovation conclui que a implementação dessas recomendações reduziria as emissões líquidas de gases de efeito estufa dos EUA em pelo menos 39% abaixo dos níveis de 2010 em 2030 e 88% abaixo dos níveis de 2010 em 2050 – incluindo a retirada de carbono para atingir zero emissões líquidas até 2050.

Se 2005 for usado como ano base (como está na Intended Nationally Determined Contributions — INDC — dos EUA), a Energy Innovation indica que essas políticas reduziriam as emissões líquidas nos EUA em 40% abaixo dos níveis de 2005 até 2030 e 86% abaixo dos níveis de 2005 até 2050. É importante observar que esta agenda legislativa não representa reduções adicionais de emissões que poderiam ser alcançadas com a ação presidencial executiva em um próximo governo ou ação subnacional dos EUA, que dá sinais de rápido crescimento

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Pesquisas de opinião divulgadas em 26 de junho mostram que, de maneira geral, os eleitores americanos apoiam a construção de um futuro de energia limpa. A pesquisa do Climate Nexus, do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas de Yale e do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade George Mason mostra que:

  • 71% dos americanos apoiam alcançar uma economia 100% limpa até 2050;
  • Os eleitores acreditam que essa transição terá um impacto positivo no emprego e no crescimento econômico;
  • Aproximadamente dois terços dos eleitores apoiam a proteção das comunidades de cor dos impactos climáticos (67%), um imposto sobre o carbono (65%) e exigem que os serviços públicos gerem 100% de eletricidade a partir de fontes limpas até 2040 (65%);
  • Quase três quartos (73%) apoiam padrões mais elevados de eficiência de combustível para carros e caminhões;
  • Eleitores apoiam o financiamento de energia limpa sobre combustíveis fósseis em respostas a estímulos pandêmicos;
  • Candidatos democratas têm vantagem nas disputas do Congresso e da Presidência em novembro.

O Dr. Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas de Yale, destaca que:

“Os americanos preferem que o financiamento de estímulo vá para a indústria de energia renovável, em vez da indústria de combustíveis fósseis. No geral, os eleitores apoiam o uso da recuperação para combater as mudanças climáticas e construir um futuro de energia limpa”.

O Dr. Edward Maibach, diretor do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade George Mason, ressalta que:

“O público está ansioso para ver seus representantes eleitos agirem contra as mudanças climáticas. Políticas específicas e agressivas para reduzir a poluição e proteger contra impactos climáticos têm amplo apoio”.

Apesar dos esforços de Trump para interromper a ação climática e “trazer de volta o carvão”, a preocupação pública com as mudanças climáticas e o setor de energia limpa continuam crescendo. Em 2019, respondendo à crescente preocupação do público com as mudanças climáticas , a Câmara dos Deputados criou um comitê para entregar recomendações ambiciosas de políticas climáticas ao Congresso. Líderes de cidades, estados, negócios e tecnologia fizeram progressos significativos nos últimos quatro anos para implementar políticas climáticas em menor escala e viabilizar uma economia de energia limpa.

Em 2019, o consumo de energia dos EUA a partir de fontes renováveis ​​ultrapassou o consumo de carvão pela primeira vez em 130 anos. Nos últimos cinco anos, o emprego no setor de energia limpa cresceu 70% mais rápido que a economia em geral. E as energias eólica e solar são agora tão acessíveis que os EUA podem escalar até 90% da geração de eletricidade renovável até 2035 sem nenhum custo adicional.

Informações adicionais sobre a pesquisa

72% dos eleitores dizem que é importante que o Congresso lide com as mudanças climáticas, incluindo 44% que acreditam que é muito importante que o Congresso faça isso. 71% dos eleitores apoiam a legislação para alcançar uma economia 100% limpa, eliminando as emissões de combustíveis fósseis dos setores de transporte, eletricidade, edifícios, indústria e agricultura nos Estados Unidos até 2050. Os eleitores acreditam essa transição terá um impacto positivo (58%) e não negativo (26%) no emprego e no crescimento econômico.

Existe amplo apoio para uma variedade de investimentos em transporte limpo, incluindo veículos elétricos e expansão do acesso ao transporte. Quase três quartos (73%) apoiam a definição de padrões mais fortes de eficiência de combustível para carros, caminhões e SUVs, quase o mesmo percentual de quem apoia o investimento federal para expandir o transporte público (72%) e substituir os ônibus movidos a gás e diesel por ônibus elétricos (69%). Ao americanos apoiam o investimento federal para construir infraestrutura de cobrança de veículos elétricos (65%) e investir na fabricação de veículos elétricas e de peças (62%).

Os eleitores também são fortemente a favor do investimento público para modernizar a rede elétrica e incentivar a eficiência energética do consumidor. Mais de três quartos apoiam o financiamento federal para atualizar a rede elétrica e expandir a produção de energia renovável (78%), ajudar os governos estaduais e locais a melhorar a eficiência energética de edifícios novos e existentes (78%) e instalar painéis solares para reduzir contas de luz em comunidades de baixa renda (77%). Há também um forte apoio a créditos tributários e outros incentivos para os indivíduos melhorarem a eficiência energética de suas casas (84%); para que proprietários e empresas comprem aparelhos que não usam combustíveis fósseis (74%); e para as empresas produzam sistemas de armazenamento de baterias para energia renovável (73%).

Quase três quartos (73%) apoiam o aumento do financiamento federal para proteger comunidades vulneráveis ​​de baixa renda e comunidades de cor contra perigos ambientais imediatos e condições climáticas extremas. E cerca de dois terços (66%) apoiam a criação de um Banco Nacional do Clima para financiar projetos do setor público e privado para reduzir a poluição de carbono e preparar as comunidades para resistir aos efeitos das mudanças climáticas.

Alguns meses antes das eleições gerais de novembro, os candidatos democratas têm vantagem nas disputas do Congresso e da Presidência. Quase metade (48%) dos eleitores dizem que se a eleição para o Congresso em seu distrito fosse realizada hoje, eles votariam no partido Democrata, enquanto 42% votariam no Republicano e 11% votariam em nenhum candidato ou em outro candidato. E quando perguntados como votariam se a eleição para presidente fosse realizada hoje, Joe Biden (48%) desfruta de uma vantagem de sete pontos sobre Donald Trump (41%).

OUTRAS INFORMAÇÕES

O press release oficial sobre o plano pode ser encontrado aqui .

O relatório completo da pesquisa está aqui .