Crise hídrica: em processo de vazante, rio Madeira tende a níveis mínimos

rio madeira

Em Porto Velho (RO), o nível do rio Madeira está abaixo da média para a época do ano e tende à zona de atenção para mínimas. A previsão do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), no primeiro Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Madeira para esse período de estiagem, é que o rio Madeira atinja a cota de 4 metros na segunda quinzena de agosto. Nesta segunda-feira (19), a estação de Porto Velho registra o nível de 5,48 metros, tendo baixado 11 centímetros nas últimas 24h. A partir da segunda quinzena de agosto, a cota pode atingir patamar em que a navegação passa a ter restrições. A Delegacia Fluvial de Porto Velho passa a adotar restrições quando o rio atinge nível inferior a quatro metros.

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Para a operação de secas, a zona de atenção é a faixa laranja no gráfico

O prognóstico indica que havendo atraso no início da estação chuvosa para além de outubro, a condição de seca poderá se aproximar de anos de estiagem mais severa, a depender também da evolução das chuvas até lá e se o regime da vazante for mais ou menos acelerado. Em 2020, o SGB-CPRM monitorou a pior seca da história em Porto Velho : o rio Madeira atingiu 1,58m.

Na última semana, a tendência geral foi de redução dos níveis dos rios nas estações da bacia monitoradas pelo SGB-CPRM, um comportamento normal para o período. Boa parte das bacias monitoradas apresentaram chuvas abaixo da climatologia. Para a próxima semana, estão previstas precipitações abaixo da climatologia no sudoeste da bacia e dentro do normal nas outras áreas da bacia. Para a semana posterior, o modelo meteorológico consultado prevê chuvas dentro da climatologia para a bacia do Madeira como um todo.

O Serviço Geológico do Brasil atualiza constantemente os dados das estações fluviométricas em cprm.gov.br/sace/madeira, onde também são publicados os boletins de monitoramento. Os dados hidrológicos utilizados nos boletins são provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN) de responsabilidade da Agência Nacional de Águas (ANA), operada pelo SGB-CPRM.

MAB denuncia que atual crise hídrica foi fabricada

O governo Bolsonaro e os agentes empresariais que controlam o setor elétrico nacional afirmam que há uma crise de escassez hídrica que levou ao esvaziamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas.

crise hídrica |

Segundo seus argumentos, a região sudeste passa pela pior seca dos últimos 91 anos. Para lidar com essa realidade, o governo Bolsonaro publicou a Medida Provisória nº 1.055, de 28 de junho de 2021, que prevê ações emergenciais e regras excepcionais para o uso dos recursos hidroenergéticos. Na mesma lei, autorizou que os custos serão ressarcidos por meio de encargos na conta de luz da população. Ou seja, o povo vai pagar a conta.

Para evitar desgastes políticos, aterrorizam a população brasileira com campanhas publicitárias cuja mensagem é que estamos sendo castigados pela falta de chuva. Portanto, diante dessa situação, se não formos “educados” o bastante para um suposto “consumo racional”, seremos castigados com racionamentos de energia elétrica e aumentos na conta de luz. Esse foi o tom do pronunciamento feito em rede nacional pelo Ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, na noite desta segunda-feira (28).

É verdade que o volume dos reservatórios nacionais possui apenas 40% de água armazenada, a segunda pior situação desde a privatização do setor na década de 1990. Porém, como chegamos a esta situação? Aqui residem as mentiras e ocultamentos, como mostraremos a seguir.  

Não foi falta de chuva

É falso alegar que os reservatórios estão vazios por uma suposta seca no sudeste brasileiro. Os dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) revelam que o volume de água que entrou nos reservatórios das usinas hidrelétricas brasileiras durante o último ano é o quarto melhor ano da última década, equivalente a 51.550 MW médios. No entanto, o volume de energia produzida por hidrelétricas ficou em 47.300 MW médios, ou seja, 4.250 MW médios abaixo da quantidade de água que entrou nos reservatórios no mesmo período, o equivalente a uma usina de Belo Monte. O fato é que entrou mais água nos reservatórios (energia natural afluente) do que saiu pelas turbinas para gerar energia (vazão turbinada). 

O discurso da “crise hídrica” também esconde que o esvaziamento dos reservatórios das usinas foi provocado principalmente durante o ano de 2020, em plena pandemia, quando ocorreu uma queda média de 10% no consumo nacional de eletricidade desde o início do Covid-19 em nosso território. Os reservatórios foram esvaziados sem que houvesse necessidade de atender a um aumento na demanda, uma vez que ela diminuiu.  

Assim, em diversas usinas, a começar por Itaipu, a operação foi realizada com evidente interesse de gerar escassez para explodir as tarifas. Toda essa água vertida poderia ter sido armazenada ou transformada em energia, sem aumento dos custos. Mas não foi o que aconteceu. Os donos das hidrelétricas não perderam dinheiro com isso, pois o chamado déficit hídrico é cobrado integralmente nas contas de luz da população.

escuridãoFoto: André Borges

Quem ganha com o esvaziamento dos reservatórios?

Se algumas usinas jogaram água fora, outras foram operacionalizadas para produzir acima da média, principalmente as privadas, o que também levou ao esvaziamento.  Estas, além de lucrar com o que constava nos contratos de comercialização, também faturaram alto vendendo o excedente a preços abusivos no chamado “Mercado de Curto Prazo” (MCP), via Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Aqui, predomina a lógica de que quanto mais vazios os lagos, mais alto é o preço. 

O esvaziamento dos reservatórios também permite ao governo Bolsonaro autorizar o funcionamento de todas as usinas termelétricas (a gás, petróleo, carvão, bagaço-de-cana, etc), inclusive as mais caras. E sabemos que, em geral, os donos das hidrelétricas também são donos das termelétricas.

Para se ter uma comparação, enquanto dezenas de hidrelétricas estatais vendem energia a R$ 65,00/MWh, dezenas de usinas térmicas estão sendo autorizadas a funcionar cobrando acima de mil reais pela mesma quantidade de energia. Por exemplo, a usina térmica William Arjona (MS) foi autorizada pela ANEEL a cobrar R$ 1.520,87/MWh. Tudo isso beneficia os mesmos empresários e tudo vai cair na conta de luz do povo. 

Estes empresários também estão recebendo o dinheiro cobrado nas contas de luz via bandeiras tarifárias. Logo após o pronunciamento do ministro de Minas e Energia, a Aneel autorizou um aumento de 52% na bandeira vermelha patamar 2. A cobrança extra – cuja justificativa é justamente a “escassez hídrica” – passou de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 kWh consumidos. Este patamar representa um aumento de 17% na conta de luz dos consumidores residenciais, o que significa que, por meio deste mecanismo, o povo brasileiro vai pagar R$ 2,5 bilhões por mês para os mesmos agentes empresariais que esvaziaram as usinas e agora estão faturando alto com a crise energética!

Também há casos escandalosos de usinas recebendo para ficarem desligadas, como é o caso da Eletronuclear. Já que estamos pagando sua energia, por que não gerar e desligar as térmicas privadas, que são mais caras?

Porque chegamos a esta situação? Porque o governo abriu mão do controle e permitiu executar um planejamento que colocou o funcionamento das usinas acima de qualquer racionalidade. Liberalizou por completo ao chamado “mercado”, aos grupos privados que operam as usinas com um único objetivo: o lucro máximo. Uma pilhagem financeira para privilegiar a burguesia que sustenta este governo.

A culpa não é do povo nem do clima

A farsa da crise hídrica revela que, em plena pandemia, prevalece a especulação financeira e o parasitismo empresarial privado no controle das usinas hidrelétricas e termelétricas. Essa é a consequência mais brutal da privatização e da destruição da soberania energética, que agora se aprofunda com a privatização da Eletrobrás, aprovada pelo Congresso na semana passada. 

De quebra, criou-se uma situação em que o governo e as instituições de Estado que comandam a política energética estão completamente capturados pela burguesia financeira e grupos empresariais do setor elétrico. Assim, também agem como serviçais para entregar a Eletrobrás praticamente de graça o mais rápido possível.

Tudo isso causará um tarifaço na conta de luz do povo brasileiro, que durará por muitos anos, como temos denunciado frequentemente. 

Prevendo os aumentos abusivos nas contas de luz, o governo Bolsonaro tenta construir uma mensagem que joga a culpa no clima e no povo. Falseia a realidade para tirar sua responsabilidade sobre os rumos da política energética.

A culpa não é do povo e nem do clima. Se há um responsável pela situação a que chegamos é o próprio governo Bolsonaro e os agentes empresariais que tomaram conta do sistema elétrico nacional. 

O povo brasileiro não pode aceitar tamanha agressão. É necessário um amplo processo de debate com toda a sociedade brasileira, no qual se esclareçam os verdadeiros fatos e os reais interesses por trás dessa farsa. Ao mesmo tempo, precisamos resistir e lutar para derrotar até o fim e a fundo a política energética em curso, liderada por um governo entreguista com características neofacistas. É necessário construir uma nova política para o setor energético nacional, com soberania, distribuição da riqueza e controle popular.

Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Brasil, 29 de junho de 2021

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens [Aqui!].

Governo admite crise hídrica enquanto ignora projeto de Lei da Energia Limpa no Brasil

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NOTA DE POSICIONAMENTO SOBRE PRONUNCIAMENTO DO MINISTRO DE MINAS E ENERGIA

Para o INEL (Instituto Nacional de Energia Limpa) o pronunciamento do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, nesta segunda-feira, reforça a insistência do governo em resolver o problema sistêmico da falta de energia no Brasil com medidas paliativas. Ao citar apenas a necessidade de racionamento, o governo ignora a urgência da aprovação da lei da geração distribuída (a dos painéis nos telhados). Uma fonte que, de fato, pode contribuir com a diminuição da pressão sobre o sistema elétrico nacional, mas que vem sendo ignorada pelos Poderes Executivo e Legislativo nos últimos anos. O Brasil precisa de energia, faça chuva ou faça sol!

O que o brasileiro prefere? Desligar a luz ou instalar painel solar sobre o telhado? O setor de energia solar é vacina contra o racionamento, pois tem grande potencial para evitar outras crises, com o aumento da diversificação da matriz elétrica nacional, diminuição da dependência da geração hídrica e térmica, alinhando o Brasil às melhores práticas internacionais, nos aproximando das metas da agenda 2030. O gargalo da dependência nacional no uso de seus recursos hídricos, no que diz respeito à geração de energia, precisa ser enfrentado com planejamento e uma política de Estado para o sistema elétrico nacional e não apenas com ações emergenciais, como racionamento de energia, ou medidas duras, como os aumentos nas contas de todos os brasileiros.

Nesta terça-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) anunciou que o valor da tarifa da bandeira vermelha 2 será reajustado em 52%, saindo de R﹩ 6,24 pelo consumo de 100 kWh para R﹩ 9,49. Com impostos, esse valor sobe quase 50%. Como de costume, o preço pela falta de um planejamento robusto para o setor elétrico brasileiro é repassado aos consumidores, com aumentos significativos de tarifas de energia.

Enquanto isso, o Projeto de Lei (PL 5829/19) que institui o novo marco legal da geração de energia descentralizada está travado há meses na Câmara dos Deputados e, por enquanto, não há qualquer ação ou esforço do Governo Federal para que a matéria siga o rito natural da democracia e seja apreciada pelo Plenário da Casa. O governo prefere que o brasileiro desligue a luz ao invés de gerar sua própria energia?

O projeto, ignorado pelo ministro em seu pronunciamento, apresenta uma proposta coesa para democratização da energia solar no país, que foi debatida por mais de dois anos e está pronta para votação. O presidente da Câmara, Arthur Lira, até o momento, também não assumiu o compromisso de pautar esse projeto estratégico para o país e a proposta segue obstruída. Contraditoriamente, o deputado pede que o brasileiro passe por “período educativo” para evitar apagão.

Desde 2012, o setor de energia solar gerou R﹩ 38 bilhões em negócios e mais de 224 mil empregos. A previsão é que a aprovação do PL deve resultar na abertura de um milhão de novos postos de trabalho nos próximos 30 anos.

Atualmente, os brasileiros que desejam produzir a própria energia sofrem com a falta de legislação própria e insegurança jurídica, que inviabiliza o crescimento ideal do setor e só garante a manutenção do duopólio das distribuidoras de energia e termelétricas no sistema elétrico nacional.

O Instituto Nacional de Energia Limpa vem à público cobrar que o projeto de lei 5829/19 seja pautado em caráter de urgência no Plenário da Câmara dos Deputados, diante de mais uma grave crise hídrica que impacta negativamente todo o sistema elétrico nacional. Apenas com medidas de planejamento e democratização da energia elétrica, como o Projeto de Lei 5829/19, será possível garantir que, nos próximos anos, o Brasil não volte a sofrer com falta de energia elétrica e, de fato, assuma o protagonismo que seus recursos energéticos renováveis podem proporcionar.

HEBER GALARCE – PRESIDENTE DO INEL (INSTITUTO NACIONAL DE ENERGIA LIMPA)

Clima propício para tempos quentes

O relatório preliminar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê ondas de calor, fome e perda de habitat

CLIMATEFoto: dpa / Tobias Kleinschmidt

Por Martin Ling para o Neues Deutschland

As declarações são claras: “A vida na Terra pode se recuperar de uma mudança climática drástica, produzindo novas espécies e criando novos ecossistemas. Os humanos não podem fazer isso. «Essas frases podem ser encontradas no resumo técnico de 137 páginas de um relatório preliminar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) com os resultados preliminares do Grupo de Trabalho II do IPCC, que examina as consequências de aquecimento global.

A AFP teria vazado para trazer a gravidade da situação ao público mundial antes da cúpula da biodiversidade da ONU em outubro e da conferência climática da ONU em novembro: Dezenas de milhões de pessoas passarão fome nas próximas décadas devido às mudanças climáticas, A seca e as doenças sofrem – esse cenário está delineado no rascunho do relatório, que a agência de notícias AFP pôde ver com antecedência com exclusividade.

Em 4.000 páginas, os mais de 700 autores mostram, entre outras coisas, como o aquecimento global afeta a saúde humana. De acordo com o relatório preliminar, o teor de nutrientes das safras está diminuindo devido ao aumento das temperaturas. O teor de proteína do arroz, trigo, cevada e batata deve diminuir de 6,4 a 14,1 por cento, como resultado do qual quase 150 milhões de pessoas também podem sofrer de deficiência de proteína.

À medida que os eventos climáticos extremos aumentam devido às mudanças climáticas, de acordo com o IPCC, há um risco crescente de que as colheitas em vários celeiros em todo o mundo fracassem ao mesmo tempo. Os autores esperam que os preços dos alimentos aumentem quase um terço até a metade do século, colocando outros 183 milhões de pessoas mais pobres em risco de fome.

climate 2O relatório detalha as consequências graves da poluição de gases de efeito estufa da humanidade. XAVIER GALIANA AFP / File

Um pouco mais da metade da população mundial já sofre com o abastecimento de água inseguro. Os autores do relatório acreditam que é provável que entre 30 e 140 milhões de pessoas na África, Sudeste Asiático e América Latina possam ser deslocadas internamente até 2050. Até três quartos das reservas de água subterrânea – a principal fonte de água potável para 2,5 bilhões de pessoas – podem secar até a metade do século – entre outras coisas, devido ao rápido derretimento das geleiras das montanhas. “A escassez de água é um dos problemas que nossa geração enfrentará muito em breve”, diz Maria Neira, da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Haverá deslocamento massivo, migração massiva e devemos tratar tudo isso como um problema global.”

Com o aquecimento global, os mosquitos e outras espécies transmissoras de doenças como a dengue estão se espalhando. O risco de malária e borreliose aumentará e mais crianças morrerão de diarreia devido ao clima. Com AFP

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Impacto da meteorologia na atual crise hídrica

11 fatos que você precisa saber sobre a crise hídrica no Brasil

O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? O fato é que o País, com extensão continental, com abundância de vento, água e sol e com grande potencial para geração renovável, está com problemas. Antes de explicar a relação da meteorologia com o tema, é importante ressaltar que a matriz elétrica brasileira é alimentada principalmente por fontes renováveis (83%), um ponto extremamente positivo quando comparado com a média mundial que é de 25% (BEN, 2020). No Brasil, estamos acompanhando um grande crescimento da produção de energia proveniente de fontes eólicas, a qual ultrapassou recentemente o marco de 18 GW de capacidade instalada, equivalente a 10,3% da matriz elétrica brasileira. Ainda assim, as hidráulicas representam a maior fonte de geração de energia no país, tal que alterações no volume ou padrões irregulares de precipitação afetam todo o setor de energia.

Principais Sistemas Climáticos e a crise hídrica

Apesar do Brasil ser um país com enorme extensão continental, o grande regulador dos padrões meteorológicos que influenciam no continente são os oceanos, que interagem com a atmosfera e regulam o balanço de energia através da redistribuição do vento e da água. O padrão de precipitação de uma região pode ser alterado por diversos sistemas meteorológicos e climáticos, que possuem diferentes resoluções espaciais e temporais. Um dos sistemas climáticos mais conhecidos e monitorados é o El Niño – Oscilação Sul.

O El Niño é um dos sistemas climáticos que mais recebe atenção da mídia e da comunidade científica, por representar cerca de 40% da variabilidade climática no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste (GRIMM et al., 1998; KAYANO, ANDREOLI, 2016). No entanto, outros sistemas também são capazes de alterar o padrão de precipitação nas bacias de geração hídrica, especialmente quando estes sistemas de menor influência atuam simultaneamente. Alguns exemplos destes sistemas são: Oscilação Antártica (OA) ou Modo Anular Sul (SAM), Oscilação de Madden Julian (OMJ), Oscilação Quase Bienal (QBO) entre outras.

Quer saber mais sobre o El Niño? Acesso o Especial mensal de Dezembro.

A atual crise hídrica possui diversas semelhanças com a crise que enfrentamos nos anos de 2014 e 2015. Porém, para compreender o impacto da meteorologia na crise atual, é necessário um maior entendimento dos sistemas citados anteriormente.

A Oscilação Antártica, também conhecida como Modo Anular Sul, é um fenômeno de variabilidade climática que domina a circulação extratropical. Essa circulação está associada a um cinturão de baixa pressão, que se concentra próximo à Antártica em sua fase positiva e se expande até o sul da América do Sul em sua fase negativa (Figura 1). O processo de expansão ou retração do cinturão de baixa pressão normalmente dura de semanas a meses.

Figura 1: Primeira EOF de anomalia mensal de altura geopotencial em 700 hPa (1980-2006) abril (esquerda) e julho (direita) representando as fases positiva e negativa, respectivamente. Adaptado de Vasconcellos (2012).

De forma geral, a fase positiva reduz o avanço dos sistemas frontais pela América do Sul, diminuindo o volume de precipitação no centro-sul brasileiro. Enquanto a fase negativa permite que estes sistemas transientes adentrem o continente, favorecendo positivamente a geração hídrica e manutenção dos reservatórios.

No índice da oscilação Antártica, observa-se o predomínio da fase positiva desde os últimos meses de 2020, padrão que também foi observado nos anos de 2015 e 2016 (Figura 2).

Figura 2: Média móvel trimestral do Índice AAO. Fonte NOAA CPC.

Por outro lado, a Oscilação de Madden Julian (OMJ) é uma oscilação intrasazonal que se propaga através da faixa tropical do globo, com ciclo em torno de 30 a 60 dias. Esse pulso de convecção promove o aumento/diminuição da precipitação regional. Nas fases 4 e 5 (1 e 8) a oscilação é desfavorável (favorável) à precipitação no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil (DE SOUZA, AMBRIZZI, 2006).

No ano de 2020 a configuração de um bloqueio atmosférico persistente promoveu recordes de temperaturas e baixos volumes pluviométricos entre setembro e outubro no Brasil, principalmente no Sudeste, influenciado pela OMJ (Figura 3). No verão de 2013 a 2014, a OMJ também ficou estacionada por muito tempo nas fases 5 e 6, o que influenciou na presença de bloqueio atmosférico no Sudeste, deixando o tempo seco na região, e com temperaturas elevadas, condições que acarretaram o agravamento da crise hídrica.

Figura 3: Índice da Oscilação de Madden Julian de 16/09/2020 a 14/12/2020.

Ainda não há o entendimento por completo do porquê a OMJ persistiu por tanto tempo nas fases 5 e 6 (desfavorável a precipitação) em 2020 e em 2013/2014. Uma das possíveis explicações é a influência da Oscilação Quase-Bienal (QBO), no qual a fase negativa da QBO é capaz de alterar a duração e intensidade das fases da OMJ.

Na crise hídrica de 2013/2014, foi no verão que o nível do sistema Cantareira (abastecimento humano) começou a ficar mais crítico. O ano de 2014 contou com vários meses com chuva abaixo da média, em 2015 os volumes de chuva apesar de acima da média (influenciados pelo El Niño) não foram suficientes para recuperar o volume dos reservatórios, uma vez que este se encontrava no volume morto. Além do impacto causado pelo consumo acima da média (MARENGO; ALVEZ, 2015)

De forma geral, a fase e posição destes sistemas climáticos, influenciaram também os níveis dos reservatórios de geração de energia e da energia natural afluente (ENA) na crise hídrica de 2014/2015 e estão impactando de forma negativa novamente nos anos de 2020/2021.

E por fim estamos na fase negativa da ODP (Oscilação Decadal do Pacífico; MANTUA; HARE, 2002), que é quando há a diminuição das temperaturas do Oceano Pacífico. A fase negativa da ODP é capaz de aumentar a incidência e intensidade de eventos de La Niña em a diminuição e enfraquecimento do El Niño. Para a fase positiva da ODP o impacto é observado principalmente no leste do Brasil de novembro a fevereiro, sobre o Norte e Noroeste da América do Sul durante março e abril. Enquanto a fase negativa apresenta impacto sobre o Nordeste março e abril (KAYANO, ANDREOLI, 2016).

Diante de todas os fenômenos analisados, a conclusão para a primeira questão: O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? é que sim, estamos na mesma crise hídrica, que teve momentos mais brandos e agora está na sua fase crítica novamente.

Qual a expectativa para os próximos meses?

Estamos praticamente no Inverno e nesta época do ano não se espera por chuva significativa para a região central do Brasil. Não há nenhum fenômeno meteorológico previsto que possa mudar este quadro. No Sul, ao contrário, apesar da pouca sazonalidade anual nas Bacias, é o período das melhores chuvas. A previsão ainda é de irregularidade na precipitação, mas em uma condição muito melhor do que o observado até o início de maio, quando as frentes frias praticamente não provocavam instabilidades sobre a Região. A boa notícia é que não há expectativa de atraso na entrada do próximo período úmido!

Referências Bibliográficas

DE SOUZA, Everaldo B.; AMBRIZZI, Tércio. Modulation of the intraseasonal rainfall over tropical Brazil by the Madden-Julian oscillation. International Journal of Climatology: A Journal of the Royal Meteorological Society, v. 26, n. 13, p. 1759-1776, 2006.

EPE [Empresa de Pesquisa Energética] Balanço Energético Nacional (BEN) 2018 Balanço Energético Nacional (BEN) 2018: Ano base 201 : Ano base 201 : Ano base 2017, 2018. Disponível em < https://ben.epe.gov.br>. Acesso em jun/2020.

GRIMM, Alice M.; FERRAZ, Simone ET; GOMES, Júlio. Precipitation anomalies in southern Brazil associated with El Niño and La Niña events. Journal of climate, v. 11, n. 11, p. 2863-2880, 1998.

KAYANO, Mary T.; ANDREOLI, Rita V. Relationships between rainfall anomalies over northeastern Brazil and the El Niño-Southern Oscillation. Journal of Geophysical Research: Atmospheres, v. 111, n. D13, 2006.

MANTUA, Nathan J.; HARE, Steven R. The Pacific decadal oscillation. Journal of oceanography, v. 58, n. 1, p. 35-44, 2002.

MARENGO, Jose Antonio; ALVES, Lincoln M. Crise hídrica em São Paulo em 2014: seca e desmatamento. GEOUSP Espaço e Tempo (Online), v. 19, n. 3, p. 485-494, 2015.

Sobre a Climatempo

Com solidez de 30 anos de mercado e fornecendo assessoria meteorológica de qualidade para segmentos estratégicos, a Climatempo é sinônimo de inovação. Foi a primeira empresa privada a oferecer análises customizadas para diversos setores do mercado, boletins informativos para meios de comunicação, canal 24 horas nas principais operadoras de TV por assinatura e posicionamento digital consolidado com website e aplicativos, que juntos somam 20 milhões de usuários mensais.

Em 2015, investiu na instalação do LABS Climatempo, no Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP), que atua na pesquisa e desenvolvimento de soluções para tempo severo, energias renováveis (eólica e solar), hidrologia, comercialização e geração de energia, navegação interior, oceanografia e cidades inteligentes. Em 2019, a Climatempo passou a fazer parte do grupo norueguês StormGeo, líder global em inteligência meteorológica e soluções para suporte à decisão, e dois anos depois, em 2021, uniu-se à Somar Meteorologia, formando a maior companhia do setor na América do Sul. A fusão das duas empresas impulsiona a Climatempo a ser protagonista global de fornecimento de dados e soluções para os setores produtivos do Brasil e demais países da América Latina, com capacidade de oferecer informações precisas de forma mais ágil e robusta.

O Grupo Climatempo segue presidido pelo meteorologista Carlos Magno que, com mais de 35 anos de carreira, foi um dos primeiros comunicadores da profissão no país.

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Assessoria de Comunicação da Climatempo

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Mega-fazendas de leite, poços secando e o agravamento da crise hídrica no Arizona

leite1O uso de água por mega-laticínios como este foi acusado de contribuir para a escassez de pequenos agricultores e residentes na bacia Willcox, no Arizona. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Por Anthony Davis para o “The Guardian”

Quando os poços secam na bacia Willcox, aqueles que podem simplesmente cavar mais fundo – deixando as casas altas e secas à medida que o aqüífero é drenado

A comunidade Sunizona, no estado do Arizona , no sudoeste dos Estados Unidos , é apenas uma partícula no mapa. Algumas centenas de casas pontuam a paisagem ao longo de estradas de terra e por alguns quilômetros ao longo de uma rodovia estadual que leva ao sopé das montanhas Chiricahua, perto da fronteira com o Novo México.

Cynthia Beltran mudou-se para Sunizona com seu filho de sete anos no outono passado, embora a área não tenha poços de água potável funcionais, porque era tudo o que ela podia pagar. Ela não pode arcar com os US $ 15.000  de custo de aprofundar seu poço, que secou no ano passado, e estava pagando para uma empresa local entregar água em um caminhão-tanque. Mas, a US$ 100 por semana, ficou muito caro, então agora ela vai contar com um amigo para ajudá-la a buscar água no poço de sua mãe.

“Não tenho para onde ir. Eu não tenho emprego. Não posso pagar o aluguel ”, diz ela.

Os problemas com a água de Beltran estão longe de ser únicos na bacia Willcox, uma área de cerca de 2.000 milhas quadradas (5.200 km2) no canto sudeste do Arizona. Quase 20 poços somente em Sunizona foram perfurados entre 2015 e 2019, depois que secaram. Setenta e cinco poços foram aprofundados nessa época em toda a bacia Willcox, mostram os registros do Departamento de Recursos Hídricos do Arizona (ADWR).

As estimativas apontam para o número de poços secos em mais de 100. Várias casas em Sunizona foram abandonadas por proprietários que não tinham condições de aprofundar os poços existentes ou cavar novos. Mas se você tem dinheiro para perfurar profundamente, não há limite para a quantidade de água que pode extrair.

Embora fixar o declínio de um poço em uma fonte seja virtualmente impossível, o afundamento do aqüífero da área acelerou depois que a Riverview LLP, com sede em Minnesota, comprou e expandiu um laticínio 16 km ao norte de Sunizona em janeiro de 2015. A Riverview já perfurou quase 80 novos poços, a maioria pelo menos 300 metros (1.000 pés) de profundidade e três perto de 800 metros de profundidade.

A Riverview, porém, não é o único novo perfurador de poço invadindo a bacia. Os avisos de intenção protocolados com o estado do Arizona para perfurar novos poços ou modificar poços existentes na bacia aumentaram para 898 de 1º de janeiro de 2015 a meados de novembro de 2020, em comparação com 494 nos cinco anos anteriores. Mas a Riverview perfurou mais poços novos e aprofundou os existentes, de longe, do que qualquer outra organização na bacia.

leite 2Um mapa mostra o número de mega-fazendas ao norte de Sunizona, Arizona (marcadas por um ponto cinza na parte inferior), onde mais de 100 poços secaram. Fotografia: Departamento de Recursos Hídricos de AZ

Kevin Wulf, um porta-voz da Riverview, não contesta que os laticínios são um fator no declínio dos poços do Arizona, mas afirma que dificilmente é o único.

“Eu entendo – nós somos o grande alvo”, disse Wulf em um tour pela leiteria no ano passado. “O boato é: ‘você está aqui para sugar o vale e depois vai embora’. Não queremos fazer isso. ”

O que não se discute é que a Riverview transformou a aparência e a economia da bacia de Willcox em apenas alguns anos. A empresa se tornou a maior operadora da bacia, após a compra de cerca de 20 agricultores, tornando-a central para a economia da região.

Riverview chegou à bacia Willcox quando pagou a um proprietário local US $ 38 milhões (£ 27,5 milhões) pela leiteria Coronado e 2.600 hectares (6.400 acres) no assentamento Kansas ao norte de Sunizona. Desde então, a empresa comprou mais de 20.415 hectares por cerca de US $ 180 milhões (£ 127 milhões), mostram os registros de terras do condado de Cochise. Grande parte disso eram terras agrícolas que a empresa de laticínios comprou para cultivar ração para o gado.

O laticínio Coronado agora abriga 70.000 novilhas cruzadas Jersey (vacas jovens que ainda não amamentaram), criadas para serem enviadas para outras instalações de Riverview no meio-oeste. Dirigir pela estrada do Kansas Settlement é testemunhar uma milha inteira de gado passando como um flipbook: orelhas marrom-mel, grandes olhos de corça, cauda sacudindo. Em um celeiro afastado da estrada, outras 7.000 vacas leiteiras são ordenhadas duas vezes ao dia no carrossel de 90 vacas.

Além disso, cerca de 2.500 vacas leiteiras são ordenhadas na leiteria Turkey Creek. Cerca de 14.000 “cabanas” retangulares brancas são alinhadas em fileiras retas, contendo bezerros de dois a 90 dias de idade. Quando estiver cheio, Turkey Creek abrigará 9.000 vacas leiteiras e 120.000 novilhas.

leite 3A Riverview LLP perfurou quase 80 novos poços na bacia Willcox. No Arizona, não existem regulamentos sobre a quantidade de água que os agricultores podem bombear. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Os críticos da Riverview dizem que a corporação de Minnesota foi atraída para cá pelo mesmo clima político liberal que atraiu muitos agricultores de pistache e nozes da Califórnia e de outros estados para o vale. No Arizona, não existem regulamentos sobre a quantidade de água que os agricultores podem bombear em áreas rurais como esta.

Centros populacionais em outras partes do estado, incluindo Phoenix e Tucson, têm seu bombeamento de água subterrânea controlado pelo Arizona Groundwater Management Act , agora com 41 anos. Mas essa lei isentou as áreas rurais.

“A bacia Willcox é o oeste selvagem – sem regras, água livre”, diz Kristine Uhlman, hidróloga aposentada da Universidade do Arizona. “Você conseguiu o dinheiro para perfurar os poços, você conseguiu a água. Você não precisa planejar ou relatar a ninguém, exceto seus investidores. ”

Wulf diz que a falta de regulamentação do Arizona não teve nada a ver com a decisão da empresa de se mudar para a área de Willcox, dizendo que o principal fator foi o clima ameno da região e a longa temporada de cultivo.

Cercado por cinco cadeias de montanhas, o aquífero da bacia Willcox equivale a uma conta de poupança abundante. Antes do início do bombeamento agrícola em grande escala, por volta de 1940, havia o suficiente para servir Tucson, a cidade grande mais próxima, por até 970 anos, mostra um relatório da ADWR .

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Um revestimento de poço saliente no condado de Cochise foi deslocado em cerca de 0,9 m (3 pés), pois o declínio dos níveis de água subterrânea causou o afundamento da terra. A bacia de água subterrânea Willcox tem a maior taxa de subsidência de terra no Arizona. Fotografia: Departamento de Recursos Hídricos de AZ

Ao contrário da maioria das bacias de água subterrânea no sudoeste, o aquífero da bacia Willcox é salgado apenas a 30 metros de profundidade e é em grande parte fresco abaixo disso. Em algumas áreas da bacia, pode haver água subterrânea um quilômetro abaixo do solo, diz Uhlman, tornando-se uma grande atração para Riverview e outros agricultores famintos de água que desceram no vale na última década.

Mas, diz Uhlman, o bombeamento de uma conta de poupança deve ser administrado. Entre 1940 e 2015, os níveis de água subterrânea diminuíram 60 a 90 metros em relação aos níveis de pré-desenvolvimento em algumas das principais áreas de bombeamento, de acordo com um estudo de modelagem de água subterrânea ADWR. Um oficial aposentado da ADWR diz que a taxa de declínio aumentou de 0,6 para 1,2 metros por ano antes de 2015 para 0,9-1,5 metros por ano entre 2015 e 2017.

A Riverview perfurou cerca de 21% dos 315 novos poços na bacia entre janeiro de 2015 e outubro de 2019 Ele diz que a água usada para o cultivo de rações caiu em um quarto em relação aos agricultores anteriores, em grande parte por causa dos métodos de irrigação mais eficientes, mas Wulf se recusa a divulgar o uso de água de Riverview.

“Nosso uso total de água é algo que observamos internamente com muito cuidado”, diz ele. Mas a empresa favorece a legislação estadual que exige a medição de todos os poços rurais. Essa proposição estagnou nos últimos anos, por causa da resistência de outros agricultores.

“Sentimos que é preciso haver alguns regulamentos. Não ao ponto da Califórnia, porque fica muito proibitivo lá, mas tem que haver algo. Simplesmente não sabemos o que é ”, diz Wulf.

A afirmação da Riverview de uma queda no uso de água atrai muito ceticismo. Dois fazendeiros locais veteranos, Joe Salvail e John Hart, dizem que embora muitas fazendas vendidas para Riverview tenham uma safra por ano, a empresa mudou para as safras de verão e inverno em algumas terras, aumentando o uso total de água.

“Eles vão plantar uma safra de trigo e segui-la com milho”, diz Hart, que possui 500 hectares de terras agrícolas na área desde 2005. Mas Hart diz que a Riverview não é o único produtor adicionando ciclos de safra; outros fazendeiros estão seguindo o exemplo, devido à queda nos preços das safras e à prática cada vez mais popular de plantar safras de inverno para melhorar a saúde do solo e prevenir a erosão.

Em 2015, um grupo de agricultores, pecuaristas, moradores e funcionários do governo propôs a instalação de medidores em poços e a revisão da maioria dos novos. Mas o plano criou profundas divisões na comunidade e a legislatura estadual o ignorou. Nada aconteceu desde então.

“Os caras que lideraram esse esforço em 2015 ficaram tão abatidos entre os colegas que ninguém quer mais falar sobre isso. Se alguma coisa vai acontecer na questão da água, tem que vir do estado ”, diz Hart.

Wulf concorda. “Apoiamos a regulamentação em nível estadual com base em fatos”, diz ele. “Vimos os problemas locais de água se tornarem realmente emocionais. E isso destrói comunidades quando você começa a falar sobre a avó de fulano e fulano bem. ”

leite 5Os planos de instalar medidores em poços na área criaram divisões profundas na comunidade e deram em nada. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Nesse ínterim, as perspectivas de longo prazo para a água na área são sombrias. Se os níveis de bombeamento continuarem na taxa atual, os níveis de água cairão até 280 metros (920 pés) no assentamento de Kansas em 2115 em comparação com os níveis de 1940, de acordo com o estudo da ADWR . Grande parte da água que permanece no aqüífero será tão profunda que pode não ser prático trazê-la para a superfície, diz o estudo.

Mas grandes fazendeiros como a Riverview conseguirão obter água por muito tempo porque têm dinheiro para ir mais fundo, diz Uhlman. Proprietários de casas e pequenos agricultores com bolsos mais rasos não têm tanta sorte.

“O fato de tirarem água do fundo é como tirar água com canudo de um balde”, diz Uhlman. “Se você for para o fundo, terá água até esvaziar. As pessoas que têm canudos mais curtos estão perdidas. ”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Sob o risco real de racionamento: Brasil vive pior crise hídrica em quase um século

O que explica a nova crise hídrica e quais riscos ela traz para o Brasil?

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Segundo o governo federal, o Brasil está diante da maior crise hídrica em quase um século, o que pode ter efeitos sobre a geração e distribuição de energia. Para explicar as causas, consequências e possíveis soluções para o problema, a Sputnik Brasil conversou com uma pesquisadora do setor.

Os reservatórios de hidrelétricas no Brasil registram baixo volume de água, em razão da incidência de chuvas abaixo do esperado. No início de maio, em entrevista ao site Poder360, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, classificou a situação como a maior crise hídrica desde 1931 e sinalizou que todas as termelétricas brasileiras serão acionadas, tendo em vista que o país entrou no período seco – com menos chuvas – que deve durar até novembro. As mais de cem termelétricas no Brasil utilizam óleo, carvão, gás natural e biomassa para gerar energia e costumam ser utilizadas para compensar demandas não atendidas pelas hidrelétricas.

Albuquerque afirmou ainda que os níveis dos reservatórios preocupam desde outubro do ano passado e que o uso das termelétricas já ocorria ao longo desse período para preservar os níveis de água. Além disso, usinas com gás importado da Argentina e Uruguai também foram acionadas. Ainda segundo o ministério, o risco de racionamento foi afastado pelas medidas, apesar de que a conta de luz das famílias deve aumentar devido ao acionamento das termelétricas. 

Em Brasília, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, participa de evento ao lado do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em 28 de setembro de 2020

Em Brasília, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, participa de evento ao lado do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em 28 de setembro de 2020. © FOLHAPRESS / FRAMEPHOTO / CLAUDIO REIS

O atual volume útil de reservatórios nas regiões Sudeste e Centro-Oeste é pior que os índices de maio de 2015, ano em que uma crise semelhante ocorreu, conforme dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Esses mesmos dados são os que apontam que o período entre setembro de 2020 e abril de 2021 foi o de menor incidência de chuvas nas regiões onde estão as hidrelétricas desde 1931, quando essas informações começaram a ser colhidas. 

Diante da crise hídrica, que pode gerar problemas de energia no Brasil, o governo brasileiro montou uma sala de situação para monitorar o problema. A primeira reunião do grupo ocorreu na quinta-feira (13). A sala de situação pretende desenhar um plano de ação para reduzir a vazão nos reservatórios e evitar que o Brasil passe a racionar energia em meio à pandemia da COVID-19. 

Em Sebastianópolis do Sul, em São Paulo, um técnico trabalha em uma termelétrica que funciona à base de biomassa, em 28 de janeiro de 2010Em Sebastianópolis do Sul, em São Paulo, um técnico trabalha em uma termelétrica que funciona à base de biomassa, em 28 de janeiro de 2010. © FOLHAPRESS / PIERRE DUARTE

Risco de racionamento

Para Heloísa Firmo, engenheira civil do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apesar das medidas do governo, há um risco real de a atual crise levar a situações de racionamento de energia no Brasil.

“Há risco de racionamento de energia no Brasil, sim. Hoje em dia, por conta dos últimos anos, a gente no Brasil tem tido muita restrição quanto a reservatórios de regularização. E o que é regularizar? É tornar regular. E para tornar regular a vazão de um rio é necessário um reservatório. Com o passar dos anos, nos últimos dez, 20 anos a gente passou a construir reservatórios, usinas, como a gente chama, a fio d’água, com reservatório muito pequeno ou praticamente sem reservatório”, explica a pesquisadora em entrevista à Sputnik Brasil.

Conforme detalha a professora, com esses tipos de reservatórios, o Brasil tem uma capacidade reduzida de resistir a um período sem chuvas, de quatro a cinco meses, sendo que essa capacidade chegou a ser de até três anos.

“Com o passar dos anos o aumento do número de usinas a fio d’água, em detrimento de usinas com grandes reservatórios, fez com que o sistema elétrico ficasse mais vulnerável. Então, eu diria que há risco, sim, de racionamento de energia no Brasil, de falta de energia”, reforça.

Firmo aponta que o termo mais correto para o risco oferecido pela situação atual seria não de um racionamento, mas de uma racionalização, com cortes programados e pontuais. Mesmo assim, a professora da UFRJ salienta que uma eventual recuperação econômica no Brasil pode agravar o cenário.

“Qualquer retomada na economia vai gerar um aumento na demanda de energia. E aí, sim, acho que o risco de racionamento começa a aparecer mais. Porque, por enquanto, a economia está ainda bastante retraída por conta da pandemia da COVID-19”, explica a professora, que lembra ainda que a crise hídrica pode se estender a outros setores para além do energético, como no agronegócio e no abastecimento das famílias.

Maior participação de energias renováveis

A pesquisadora salienta que o cenário atual está longe do que aconteceu em 2001 no Brasil, quando houve um racionamento radical de energia. Desde aquele período, que ficou marcado na memória de muitos brasileiros, o país introduziu novas fontes de geração de energia, diminuindo a dependência das hidrelétricas – cujo armazenamento em reservatórios deve terminar maio, inclusive, com o pior resultado desde 2001, segundo o governo.

“A entrada das fontes alternativas fez com que a gente tivesse uma diversificação maior, e em um certo sentido, aumentou o mix de plantas de energia. E isso é mais favorável do que em 2001 que foi quando houve aquele racionamento”, diz a engenheira civil.

Apesar da diversificação, as hidrelétricas continuam produzindo mais da metade da energia consumida no Brasil. Segundo dados do governo federal, em 2021 o setor foi responsável por mais de 70% da energia consumida no país até agora, repetindo a média dos últimos anos.

A professora lembra que, apesar da ampla participação da energia hidrelétrica, houve aumento da participação de outras fontes renováveis no Brasil, como a energia eólica, que há dez anos não produzia e hoje chega a quase 10% da geração de energia do país. Firmo lamenta, porém, que ainda há pouco uso da energia solar, que poderia ser uma alternativa interessante para fortalecer a segurança energética brasileira em períodos sem chuvas. Ao longo de 2020, a energia solar representou apenas 1% da energia utilizada no país, abaixo ainda da termelétrica (15%) e da nuclear (2,4%).

Usina de Energia Eólica (UEE) em Icaraí, no Ceará (CE).

© FOTO / DIVULGAÇÃO/ARI VERSIANI/PAC/AGÊNCIA BRASIL. Usina de Energia Eólica (UEE) em Icaraí, no Ceará (CE)

“Não houve um estímulo nos últimos anos à energia solar. Se houvesse um estímulo maior, talvez a gente tivesse um pouco menos vulnerável a essa dependência hídrica, nesse sentido de energia hidrelétrica“, aponta a professora.

A pesquisadora chama a atenção para a dificuldade de armazenamento do grupo das chamadas “energias intermitentes”, como no caso da energia eólica e hidrelétrica. No caso da hidrelétrica, o armazenamento depende dos reservatórios, que ficaram menores no Brasil.

“Esse é um grande problema. Não adianta a gente só aumentar eólica e solar, se a gente não consegue armazenar essa energia. A hidrelétrica, como armazena? Nos reservatórios. Como a gente, hoje, tem menos reservatórios do que tinha em décadas anteriores, proporcionalmente, o sistema se torna mais vulnerável a não atender a demanda”, diz.

Cuidado com a água e incentivo ao armazenamento de energia

A pesquisadora da UFRJ ressalta que a crise hídrica no Brasil tem amplas consequências, uma vez que a água, para além do consumo das pessoas, é fundamental na economia brasileira devido à intensa atividade agropecuária e à dependência hídrica do sistema de energia.

“É necessária uma gestão muito cuidadosa, muito parcimoniosa no uso da água, muito cuidado muita atenção. A água é um bem essencial para a vida e no Brasil ela é essencial ao processo produtivo e à geração de energia”, aponta. 

 Gados na fazenda Nossa Senhora do Carmo, em Cumaru do Norte, no interior do Pará (foto de arquivo)Gado na fazenda Nossa Senhora do Carmo, em Cumaru do Norte, no interior do Pará (foto de arquivo). © FOLHAPRESS/ EDUARDO ANIZELLI 

A pesquisadora também sinaliza uma possível solução para o ponto fraco das energias intermitentes como estão instaladas no Brasil, e sugere a ampliação do investimento em tecnologias de armazenamento.

“A gente deve realmente investir em sistemas de armazenamento de energia. Por exemplo, usinas hidrelétricas reversíveis ou mesmo baterias. […] A hidrelétrica reversível é uma solução interessante quando você implementa uma usina, por exemplo, eólica junto com uma hidrelétrica reversível. E aí quando a eólica tem sobra de energia, essa hidrelétrica faz o armazenamento“, diz.

Firmo deixa claro que o problema do armazenamento não existe apenas no Brasil, mas é uma demanda de um mundo que caminha na direção da transição energética, buscando novas fontes. Nas palavras da pesquisadora, em meio a esse processo, urge também o desafio de armazenar energia de fontes intermitentes quando não há consumo.

“Essas gerações das fontes intermitentes têm que vir acompanhadas com soluções para armazenamento. Essa é a minha recomendação: a gente aprender a armazenar energia, investir nisso, para fazer sistemas mais inteligentes“, aponta a professora, que conclui acrescentando a necessidade de tecnologias de otimização dos recursos energéticos e hídricos.

A Sputnik Brasil tentou contato com o Ministério de Minas e Energia para comentar a situação, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pela Sputnik New Brasil [Aqui!   ].

UFRJ emite nota sobre os problemas da qualidade da água provida pela Cedae na região metropolitana do Rio de Janeiro

A pedido da Reitoria, grupo de docentes da UFRJ elaborou nota técnica contendo constatações e recomendações

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Estação de Tratamento da Água do Guandu – foto: Divulgação/Governo RJ

Face aos questionamentos recentes sobre a qualidade da água potável distribuída para consumo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) e cientes da responsabilidade acadêmica e social que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem com toda a população, a Reitoria da UFRJ solicitou a um grupo de docentes que desenvolve suas linhas de pesquisa em assuntos relacionados à ecologia aquática, recursos hídricos, saneamento e saúde pública, a elaboração de nota técnica contendo constatações e recomendações.

1. Há uma evidente degradação ambiental nos mananciais que são utilizados para abastecimento público da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Essa degradação compromete a qualidade da água, dificulta seu tratamento e pode colocar em risco a saúde pública.

2. A companhia de saneamento é responsável pelo controle da qualidade da água tratada, respeitando as resoluções legais. A vigilância da qualidade da água é de responsabilidade do setor da Saúde (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais da Saúde), que deve garantir a segurança e qualidade da água a ser distribuída para a população.

3. A população não deve ser responsabilizada para identificar se a água está ou não adequada ao consumo. Além disso, sem que haja identificação e esclarecimento de uma eventual contaminação, a população também não poderá ser induzida a consumir água mineral ou de qualquer outra fonte. Não atender a essas considerações propicia um cenário que piora a segurança da água, além de ser socialmente injusto, pois impõe um gasto extra para o consumidor que deveria ser atendido de forma adequada pela rede de distribuição.

4. A falta de informações claras e precisas também configura um cenário de insegurança. É necessário que haja transparência imediata da real situação da qualidade da água distribuída para consumo pela população do Rio de Janeiro e que os setores responsáveis pelo controle e vigilância da qualidade atuem de forma coordenada, cooperativa e rápida para garantir água segura e de qualidade, conforme determina a legislação.

5. Enquanto a recuperação adequada dos recursos hídricos utilizados para abastecimento público não for realizada, a perspectiva de recorrência de crises semelhantes num futuro próximo é bastante provável. Sendo assim, os investimentos necessários para essa recuperação não podem ser adiados e devem ser considerados prioritários e estratégicos.

Mais detalhes sobre esses aspectos podem ser encontrados na nota técnica. Leia na íntegra aqui.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Assessoria de Imprensa do Gabinete da Reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [Aqui!].

Em São Paulo, desperdício da água volta aos níveis pré-crise hídrica

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Recuperado da crise hídrica que quase secou seus principais reservatórios em 2015, o estado de São Paulo parece ter aprendido muito pouco com o sufoco por que passaram milhões de pessoas, especialmente na sua capitale em sua região metropolitana.

Pelo menos isso é o que pode se depreender quando se verifica que os níveis de desperdícios existentes na rede de distribuição da Sabesp voltaram ao valor d0 ano de 2015, em contraste com 2016 quando medidas de contingenciamento foram adotadas para impedir uma crise total de abastecimento (ver figura abaixo).

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Para que se tenha ideia do desperdício, o montante de litros perdidos em vários pontos da rede de distribuição da Sabesp equivale ao volume da represa de Guarapiranga!

Mas em vez de investir em mudanças estruturais no sistema de captação e distribuição, bem como no processo de educação dos usuários (principalmente o “agrobusiness” que responde por mais de 70% do consumo), o governo de Geraldo Alckmin continua apontando na direção de custosas transposições como a dos Rios Paraíba do Sul e Itapanhaú (Aqui!).

É preciso frisar que essas transposições além de não resolver o problema da escassez hídrica estrutural que continua rondando o estado de São Paulo, ainda cria outros de natureza social e ambiental.

Toda essa indisposição para soluções estruturais se deve ao fato de que a prioridade no modelo de gestão da Sabesp está na distribuição de juros aos seus acionistas, e não no sentido de evitar que a crise de 2014-2016 volte a se repetir. 

Com tanto desprezo para olhar o problema dentro da escala que deveria ser tratado, não será nenhuma surpresa que o caos hídrico volte a se instalar em São Paulo num futuro muito distante. 

Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental/ES promove evento para discutir alternativas para a crise hídrica

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A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES-ES estará realizando o XI SESMA – Seminário Estadual sobre Saneamento e Meio Ambiente e o I Workshop Internacional de Biorremediação de Áreas Contaminadas, idealizado pelo Departamento de Engenharia Ambiental do Centro Tecnológico – DEA-CT, da UFES.

O evento será realizado nos dias 20 e 21 de agosto, das 8h às 18h, no auditório do CCJE, na UFES, em Vitória – ES, com o tema: “Água – Desafios Atuais e Futuros, Nanotecnologia e Membranas Filtrantes”.

Mais informações:
www.abes-es.org.br/evento
eventos@abes-es.org.br
(27) 9.9699-4224