Crise hídrica no Uruguai: “Nível assustador de improvisação” do governo

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A água engarrafada é cara no Uruguai. Fonte: Camilo dos Santos @LaDiaria
Por Redação da Amerika21

Montevidéu . A crise hídrica no Uruguai continua inabalável. As reservas estão se esgotando e o governo estima que restarão de sete a 10 dias de água potável.

A capacidade normal da represa, que abastece Montevidéu e região metropolitana, é de 67 milhões de metros cúbicos. Em 1º de julho continha apenas 1,87% desse volume.

A concessionária estatal Obras Sanitárias do Estado (OSE) já mistura a água do Rio Santa Rica com a do Rio da Prata para manter o abastecimento de água potável. O aumento de cloreto e sódio na água misturada já ultrapassou os valores máximos permitidos.

Após um simples ajuste administrativo pelo Departamento de Saúde dos níveis máximos permitidos de sódio, cloretos e trialometanos, alguns já estão rotulando a crise como uma crise ambiental, hídrica e de saúde. O acesso à água potável, definido como “recurso vital”, está consagrado na constituição uruguaia como um direito fundamental.

A falta de água potável, em particular, vai ser contrariada com cisternas que abasteçam os distritos e com o aumento da oferta de água potável em garrafas. No caso deste último, vários modelos estão sendo discutidos sobre como os custos para os consumidores devem ser reduzidos.

Segundo os críticos, o presidente Luis Lacalle Pou declarou o estado de emergência nesta área tarde demais, o que permite procedimentos mais curtos para as medidas necessárias. Enquanto isso, a construção febril de um reservatório temporário que represará a água do rio San José e a direcionará para San Severino.

Luis Aubriot, membro do Instituto de Ecologia e Ciências Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade da República, disse ao jornal La Diaria: “As obras são decisões urgentes com um nível de improvisação que assusta dada a importância da água “A bacia do rio Santa Lúcia é de importância estratégica e falta um planejamento de longo prazo. Há um planejamento mais detalhado para outras áreas, como agricultura ou energia, mas a água não parece ser tão importante.”

Marcel Achkar, geógrafo e pesquisador do mesmo instituto, expressou uma opinião semelhante. Abordou o uso da terra e o modelo de desenvolvimento escolhido no Uruguai em relação à ocorrência de seca. Não há muitos na política dispostos a questionar o modelo de desenvolvimento.

Ambos os cientistas faziam parte de um grupo que redigiu um manifesto em novembro passado alertando que “o abastecimento de água potável está cada vez mais em risco no sul do país, principalmente nas áreas metropolitanas”. O manifesto já apresentava sugestões para melhorar a situação, mas até agora o governo as ignorou.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Desmatamento no Cerrado e crise hídrica no Brasil: mais um dano causado pelo avanço descontrolado do “ogronegócio”

O jornal “Folha de São Paulo” trouxe ontem uma matéria em que são apresentados dados correlacionando o avanço do desmatamento no Cerrado com o ressecamento de rios em bacias hidrográficas importantes, incluindo a do Rio São Francisco.  A questão é que apesar de exercer um papel fundamental na regulação hídrica no Brasil, a vegetação do Cerrado sequer é conisderada uma floresta, permitindo assim que o desmatamento avance quase livremente em todo o bioma, ainda que concentrado atualmente no chamado Matopiba (ver figura abaixo).

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O fato é que apesar de não ser tão valorizado quanto a floresta amazônica, o Cerrado é altamente biodiverso e possui características que propiciam a acumulação de água subterrânea que acaba favorecendo a recarga hídrica em toda a extensão do bioma. 

Mas agora com o avanço da monocultura da soja no Matopiba, inclusive sob a facilitação de governos do PT como é o caso da Bahia, o Brasil corre o risco de ver grandes rios se transformando em leitos secos, o que seria uma crise de proporções apocalípticas, visto que o impacto sobre o abastecimento de água irá alcançar áreas fora do Cerrado.

Aliás, como já informado aqui mesmo, em janeiro deste ano, um artigo do qual sou um dos co-autores foi publicado pela revista científica Sustainability mostrando os graves impactos que o desmatamento do Cerrado está causando no fluxo de água de 81 bacias hidrográficas dentro do bioma.  Ali alertamos para as tendências atuais e os riscos de falta de água que o avanço das monoculturas estão causando. Entretanto, até agora, os dados ali apresentados não parecem ter gerado nenhum senso de urgência, apesar das estimativas críticas que apresentamos (ver figura abaixo).

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E tudo isso para quê? Aparentemente para alimentar o “ogronegócio” que desmata e polui em troca de um modelo de acumulação de riqueza que só favorece um punhado de latifundiários do “ogronegócio’ brasileiro.

Flexibilização da proteção às margens dos rios pode deixar a população mais exposta a desastres naturais e crise hídrica

Projeto de lei aprovado pelo Congresso nesta quarta-feira, 8/12, altera o Código Florestal e dá autonomia aos municípios para legislarem sobre as Áreas de Preservação Permanente (APP) em centros urbanos. Especialistas veem riscos de aumento das pressões locais pelo uso de áreas que deveriam ser preservadas

unnamed (39)Vista do mirante do Parque Passaúna, em Curitiba – Foto Pixabay

O Congresso Nacional aprovou nessa quarta-feira, 8/12, um projeto de lei que transfere da União para os municípios a competência para definir as regras de proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O texto aprovado, que segue para sanção da Presidência da República, altera o Código Florestal e pode permitir a realização de intervenções e obras, além de facilitar a regularização de construções irregulares. A alteração na legislação foi recebida com preocupação por pesquisadores e organizações comprometidas com a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável no Brasil, que temem o aumento das pressões pelo uso de áreas que deveriam ser preservadas. De acordo com o Código Florestal, margens de rios são Áreas de Preservação Permanente (APP).

A definição das faixas mínimas a serem protegidas nas margens dos rios, conforme especificado na lei federal, visa garantir que as funções gerais dessas áreas sejam minimamente resguardadas, tanto no espaço rural quanto no urbano. A tentativa de remeter a definição de APP ao legislador municipal pode facilitar a redução dessas áreas. Uma das consequências diretas deve ser o aumento dos riscos de deslizamentos de encostas e a potencialização dos efeitos das enchentes, causando prejuízos econômicos, sociais e sanitários. Além disso, recursos hídricos desprotegidos comprometem o fornecimento de água, agravando a crise hídrica e potencializando uma iminente crise energética.

A Aliança Bioconexão Urbana, formada por oito organizações que defendem o uso de Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar desafios das cidades, realça que proteger as nascentes e cursos d’água deveria ser uma prioridade nacional, já que os recursos hídricos são estratégicos para o abastecimento da população, irrigação de lavouras, geração de energia e o desenvolvimento das mais variadas atividades econômicas. “As APPs contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos, reduzem os efeitos das ilhas de calor em grandes cidades e regiões metropolitanas e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre essas áreas e colocando a população em risco. Ao poder induzir desmatamentos, a mudança na lei também vai contra o acordo de desmatamento zero até 2030 assumido pelo Brasil durante a COP26”, alerta André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, uma das organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana.

Menos áreas verdes

A transferência de competência na legislação sobre APPs também pode facilitar a redução de áreas verdes em grandes cidades, gerando ainda maior gasto público com serviços como o abastecimento de água. Caso isso ocorra, a medida vai na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso no Brasil e em outros países em relação às chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que utilizam infraestrutura verde como estratégia para solucionar diversos desafios enfrentados pelas cidades.

Para Cecília Herzog, paisagista urbana, especialista em Preservação Ambiental das Cidades e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), os legisladores deveriam considerar que a natureza oferece uma série de serviços ecossistêmicos essenciais à qualidade de vida da população. “Diversos estudos comprovam que a manutenção da infraestrutura natural nas margens de rios reduz os sedimentos depositados nas águas e, consequentemente, gera economia de recursos ao poder público nos sistemas de tratamento e distribuição de água. Manter áreas verdes nas margens dos rios é uma maneira inteligente de gerar economia em gastos com dragagem dos reservatórios e também na aquisição de produtos químicos para tratamento”, salienta a especialista.

Além de preservar os recursos hídricos, APPs contribuem para a preservação da biodiversidade e podem ser importantes para melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, conforme explica André Ferretti. “Com a adoção de parques e corredores ecológicos nas margens dos rios, é possível estimular a atividade física e o lazer, além de diversas atividades culturais e econômicas, gerando um ciclo virtuoso a partir do contato com a natureza. Áreas verdes devem ser compreendidas como grandes ativos das cidades”, ressalta.

E-book gratuito

Para saber mais sobre como as Soluções Baseadas na Natureza são importantes para que as cidades se preparem para os desafios das mudanças climáticas, a Fundação Grupo Boticário disponibiliza gratuitamente o e-book “Cidades Baseadas na Natureza – infraestrutura natural para resiliência urbana”. O material traz exemplos de diferentes metrópoles que adotaram com sucesso a infraestrutura verde para solucionar problemas urbanos. Baixe aqui.

O agro é pó, e não pop… e tome “haboob caipira” para provar isso

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A mídia corporativa até agora deu uma cobertura do tipo “passar o pano” para um intenso processo de invasão de nuvens de poeira que vem ocorrendo em Ribeirão Preto (SP) e outros municípios como Franca (que ficam a cerca de 80 km de distância  um da outro). Segundo informou de forma bem prosaica o jornalista Wanderley Preite Sobrinho para o site UOL, o fenômeno que está ocorrendo no coração do latifúndio agro-exportador brasileiro, que transformou a paisagem dos municípios atingidos em uma espécie de Dubai caipira, se chama “haboob” e resulta da ocorrência de fortes temporais de chuva com ventos fortes que, ao entrarem em contato com o solo seco, encontram resquícios de queimada, poeira e vegetação, os quais acabam criando um “rolo compressor” de sujeira que pode chegar a até 10 quilômetros de altura (ver vídeos abaixo).

O problema é que a matéria escrito Wanderley Preite Sobrinho “esqueceu” de mencionar que Ribeirão Preto e os municípios mais próximos têm a maioria das suas terras agrícolas destinadas principalmente ao plantio da monocultura da cana-de-açúcar, o que facilitou a ocorrência deste “haboob”, provavelmente porque os temporais encontraram muita terra nua após a colheita anual de grandes extensões desta lavoura. Assim, ainda que a situação do uso da terra seja ligeiramente diferente, a proximidade espacial fez o município, mais conhecido pelo plantio da monocultura do café, também sofresse os impactos deste fenômeno climático. Em comum, a remoção praticamente total da cobertura florestal.

E a questão aqui é simples: a persistência das grandes monoculturas (independente de qual seja a lavoura dominante) está no cerne da geração deste tipo de fenômeno que antes parecia destinado a ocorrer em regiões desérticas, mas que agora estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil, em regiões que outrora eram ocupadas por grandes extensões de florestas, como era o estado de São Paulo até metade do século XX.

Esse “haboob caipira” é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão ocorrendo em uma velocidade até maior do que a comunidade científica tem previsto. E quanto antes acordarmos para essa realidade, mais cedo iremos pensar seriamente em nos ajustarmos a um clima em ritmo de mudança acelerada.

Voltando à matéria de Wanderley Preite Sobrinho, uma parte hilária da mesma é sobre um pedido da Sabesp para que as pessoas não lavem a calçada para tirar a poeira trazida pelo haboob. O problema é aqui, lavar com qual água se a região passa por uma gravíssima crise hídrica? 

A torneira está secando

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A imensidão do mar dá a impressão de que a água é recurso ilimitado; afinal, ela cobre 70% do planeta. Mas a ilustração deste texto, baseada num modelo criado por pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA, nos dá a real dimensão de sua finitude. A bolha azul maior representa toda água do mundo, seja doce ou salgada, líquida ou congelada, subterrânea ou à flor da terra. Ela tem um diâmetro nove vezes menor que a parte sólida. A outra bolha corresponde a toda água doce que temos. Seu diâmetro é de 272,8 km, 46 vezes menor que o da Terra. O planeta azul, como se vê, não é tão azul assim na prática.

Há ainda uma terceira bolha, que equivale a toda água disponível na superfície terrestre para o consumo, como rios e lagos. Mas ela é tão pequena diante do tamanho da Terra que precisaríamos de uma lupa para enxergá-la: são apenas 56 quilômetros de diâmetro – 226 vezes menor que o do planeta. Parece pouco, não parece? E é, alertam os pesquisadores. Para piorar, 40% das reservas hídricas da Terra podem desaparecer até 2030, segundo a ONG WaterResources. Repetindo: 2030. Daqui a 9 anos. Adivinhem quem está por trás desse embrulho? Acertou quem pensou nas mudanças climáticas.

O Brasil detém 13% de toda a água doce e 20% das reservas subterrâneas (chamadas aquíferos) do mundo. Ainda assim, o país enfrenta a maior crise hídrica dos últimos 90 anos: o fantasma do racionamento de energia volta a nos assombrar, duas décadas depois do anterior. A maior hidrelétrica brasileira, a Itaipu Binacional, que atende cerca de 10% da população, teve em 2021 a menor geração de energia dos últimos 27 anos e já precisou desligar oito de suas 20 turbinas. Na vizinha Argentina, a seca dos rios Paraguai, Paraná e Iguaçu, a maior em 77 anos, levou o governo a decretar emergência hídrica por 180 dias.

A falta de chuvas – que é a mais grave desde 1931 – levou o Operador Nacional do Sistema (ONS) a divulgar uma nota técnica na semana passada alertando para a dificuldade de atender a demanda de energia do país “com o esgotamento de praticamente todos os recursos no mês de novembro”. Quatro dias depois, o governo federal publicou uma chamada pública para contratar usinas térmicas como uma alternativa para a escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, que ainda respondem por 63% da geração de energia no Brasil.

A crise hídrica também vem provocando impactos na economia brasileira, com reflexos no aumento da inflação e, sobretudo, perda de produção rural e prejuízos na agricultura, que consome mais de 70% da água doce do Brasil – e desperdiça de 60% a 80% desse total por usar métodos de irrigação inadequados. A safra de milho, por exemplo, apesar de ter aumentado em 7% a área cultivada em 2021, deve cair 6% em relação a 2020, informa a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A mesma tendência deve se confirmar em outras culturas, como o feijão, a laranja, o café e também na pecuária.

E o aumento dos preços dos alimentos e da inflação não são os únicos impactos para o brasileiro, que está sentindo no bolso o preço dessa crise. Em junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou um reajuste de 52% na bandeira tarifária vermelha, para custear o funcionamento de usinas térmicas, mais caras e poluentes. Mesmo assim, especialistas não descartam a possibilidade de um novo aumento em 2022, diante das previsões de chuvas abaixo da média e reservatórios secos. Especialmente em se mantendo os níveis de desperdício na distribuição de água no Brasil, onde 39% do que se produz é perdido em vazamentos e furtos na distribuição, segundo o Instituto Trata Brasil.

Se a geração de eletricidade está comprometida, para muitos brasileiros falta também o básico: água na torneira e saneamento. No Brasil, mais de 16% da população ainda não têm acesso a água tratada e cerca de 46% não contam com os serviços de coleta e tratamento de esgoto – mais de 100 milhões de pessoas. A baixíssima cobertura do saneamento básico, sobretudo em cidades da região Norte, onde apenas 57% da população têm acesso à rede de água e pouco mais de 10% têm o esgoto coletado, se reflete também na incidência de doenças como diarreia e infecções intestinais, que estão entre as principais causas de morte de crianças na região. Uma verdadeira tragédia brasileira. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, para cada dólar investido em saneamento básico, deixa-se de gastar quatro com saúde pública.

E isso não é uma exclusividade nossa: em todo o mundo, 1,2 bilhão de pessoas (35% da população) não tem pleno acesso a água tratada e outras 2,1 bilhões não têm água potável em suas casas. O WaterResourcesGroup estima que, anualmente, cerca de 829 mil pessoas morrem de diarreia provocada pelo consumo de água não potável, ausência de saneamento básico e higiene inadequada em todo o mundo, sendo 300 mil delas crianças menores de 5 anos.

Com isso, a responsabilidade do governo brasileiro sobre a gestão de nossos recursos hídricos passa a ter uma relevância ainda maior: afinal, temos condições favoráveis para assumir um papel de liderança no enfrentamento à crise climática global. Só nos falta um líder.

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Este foi originalmente publicado no site “Uma gota no oceano” [Aqui!].

Crise hídrica: em processo de vazante, rio Madeira tende a níveis mínimos

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Em Porto Velho (RO), o nível do rio Madeira está abaixo da média para a época do ano e tende à zona de atenção para mínimas. A previsão do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), no primeiro Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Madeira para esse período de estiagem, é que o rio Madeira atinja a cota de 4 metros na segunda quinzena de agosto. Nesta segunda-feira (19), a estação de Porto Velho registra o nível de 5,48 metros, tendo baixado 11 centímetros nas últimas 24h. A partir da segunda quinzena de agosto, a cota pode atingir patamar em que a navegação passa a ter restrições. A Delegacia Fluvial de Porto Velho passa a adotar restrições quando o rio atinge nível inferior a quatro metros.

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Para a operação de secas, a zona de atenção é a faixa laranja no gráfico

O prognóstico indica que havendo atraso no início da estação chuvosa para além de outubro, a condição de seca poderá se aproximar de anos de estiagem mais severa, a depender também da evolução das chuvas até lá e se o regime da vazante for mais ou menos acelerado. Em 2020, o SGB-CPRM monitorou a pior seca da história em Porto Velho : o rio Madeira atingiu 1,58m.

Na última semana, a tendência geral foi de redução dos níveis dos rios nas estações da bacia monitoradas pelo SGB-CPRM, um comportamento normal para o período. Boa parte das bacias monitoradas apresentaram chuvas abaixo da climatologia. Para a próxima semana, estão previstas precipitações abaixo da climatologia no sudoeste da bacia e dentro do normal nas outras áreas da bacia. Para a semana posterior, o modelo meteorológico consultado prevê chuvas dentro da climatologia para a bacia do Madeira como um todo.

O Serviço Geológico do Brasil atualiza constantemente os dados das estações fluviométricas em cprm.gov.br/sace/madeira, onde também são publicados os boletins de monitoramento. Os dados hidrológicos utilizados nos boletins são provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN) de responsabilidade da Agência Nacional de Águas (ANA), operada pelo SGB-CPRM.

MAB denuncia que atual crise hídrica foi fabricada

O governo Bolsonaro e os agentes empresariais que controlam o setor elétrico nacional afirmam que há uma crise de escassez hídrica que levou ao esvaziamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas.

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Segundo seus argumentos, a região sudeste passa pela pior seca dos últimos 91 anos. Para lidar com essa realidade, o governo Bolsonaro publicou a Medida Provisória nº 1.055, de 28 de junho de 2021, que prevê ações emergenciais e regras excepcionais para o uso dos recursos hidroenergéticos. Na mesma lei, autorizou que os custos serão ressarcidos por meio de encargos na conta de luz da população. Ou seja, o povo vai pagar a conta.

Para evitar desgastes políticos, aterrorizam a população brasileira com campanhas publicitárias cuja mensagem é que estamos sendo castigados pela falta de chuva. Portanto, diante dessa situação, se não formos “educados” o bastante para um suposto “consumo racional”, seremos castigados com racionamentos de energia elétrica e aumentos na conta de luz. Esse foi o tom do pronunciamento feito em rede nacional pelo Ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, na noite desta segunda-feira (28).

É verdade que o volume dos reservatórios nacionais possui apenas 40% de água armazenada, a segunda pior situação desde a privatização do setor na década de 1990. Porém, como chegamos a esta situação? Aqui residem as mentiras e ocultamentos, como mostraremos a seguir.  

Não foi falta de chuva

É falso alegar que os reservatórios estão vazios por uma suposta seca no sudeste brasileiro. Os dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) revelam que o volume de água que entrou nos reservatórios das usinas hidrelétricas brasileiras durante o último ano é o quarto melhor ano da última década, equivalente a 51.550 MW médios. No entanto, o volume de energia produzida por hidrelétricas ficou em 47.300 MW médios, ou seja, 4.250 MW médios abaixo da quantidade de água que entrou nos reservatórios no mesmo período, o equivalente a uma usina de Belo Monte. O fato é que entrou mais água nos reservatórios (energia natural afluente) do que saiu pelas turbinas para gerar energia (vazão turbinada). 

O discurso da “crise hídrica” também esconde que o esvaziamento dos reservatórios das usinas foi provocado principalmente durante o ano de 2020, em plena pandemia, quando ocorreu uma queda média de 10% no consumo nacional de eletricidade desde o início do Covid-19 em nosso território. Os reservatórios foram esvaziados sem que houvesse necessidade de atender a um aumento na demanda, uma vez que ela diminuiu.  

Assim, em diversas usinas, a começar por Itaipu, a operação foi realizada com evidente interesse de gerar escassez para explodir as tarifas. Toda essa água vertida poderia ter sido armazenada ou transformada em energia, sem aumento dos custos. Mas não foi o que aconteceu. Os donos das hidrelétricas não perderam dinheiro com isso, pois o chamado déficit hídrico é cobrado integralmente nas contas de luz da população.

escuridãoFoto: André Borges

Quem ganha com o esvaziamento dos reservatórios?

Se algumas usinas jogaram água fora, outras foram operacionalizadas para produzir acima da média, principalmente as privadas, o que também levou ao esvaziamento.  Estas, além de lucrar com o que constava nos contratos de comercialização, também faturaram alto vendendo o excedente a preços abusivos no chamado “Mercado de Curto Prazo” (MCP), via Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Aqui, predomina a lógica de que quanto mais vazios os lagos, mais alto é o preço. 

O esvaziamento dos reservatórios também permite ao governo Bolsonaro autorizar o funcionamento de todas as usinas termelétricas (a gás, petróleo, carvão, bagaço-de-cana, etc), inclusive as mais caras. E sabemos que, em geral, os donos das hidrelétricas também são donos das termelétricas.

Para se ter uma comparação, enquanto dezenas de hidrelétricas estatais vendem energia a R$ 65,00/MWh, dezenas de usinas térmicas estão sendo autorizadas a funcionar cobrando acima de mil reais pela mesma quantidade de energia. Por exemplo, a usina térmica William Arjona (MS) foi autorizada pela ANEEL a cobrar R$ 1.520,87/MWh. Tudo isso beneficia os mesmos empresários e tudo vai cair na conta de luz do povo. 

Estes empresários também estão recebendo o dinheiro cobrado nas contas de luz via bandeiras tarifárias. Logo após o pronunciamento do ministro de Minas e Energia, a Aneel autorizou um aumento de 52% na bandeira vermelha patamar 2. A cobrança extra – cuja justificativa é justamente a “escassez hídrica” – passou de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 kWh consumidos. Este patamar representa um aumento de 17% na conta de luz dos consumidores residenciais, o que significa que, por meio deste mecanismo, o povo brasileiro vai pagar R$ 2,5 bilhões por mês para os mesmos agentes empresariais que esvaziaram as usinas e agora estão faturando alto com a crise energética!

Também há casos escandalosos de usinas recebendo para ficarem desligadas, como é o caso da Eletronuclear. Já que estamos pagando sua energia, por que não gerar e desligar as térmicas privadas, que são mais caras?

Porque chegamos a esta situação? Porque o governo abriu mão do controle e permitiu executar um planejamento que colocou o funcionamento das usinas acima de qualquer racionalidade. Liberalizou por completo ao chamado “mercado”, aos grupos privados que operam as usinas com um único objetivo: o lucro máximo. Uma pilhagem financeira para privilegiar a burguesia que sustenta este governo.

A culpa não é do povo nem do clima

A farsa da crise hídrica revela que, em plena pandemia, prevalece a especulação financeira e o parasitismo empresarial privado no controle das usinas hidrelétricas e termelétricas. Essa é a consequência mais brutal da privatização e da destruição da soberania energética, que agora se aprofunda com a privatização da Eletrobrás, aprovada pelo Congresso na semana passada. 

De quebra, criou-se uma situação em que o governo e as instituições de Estado que comandam a política energética estão completamente capturados pela burguesia financeira e grupos empresariais do setor elétrico. Assim, também agem como serviçais para entregar a Eletrobrás praticamente de graça o mais rápido possível.

Tudo isso causará um tarifaço na conta de luz do povo brasileiro, que durará por muitos anos, como temos denunciado frequentemente. 

Prevendo os aumentos abusivos nas contas de luz, o governo Bolsonaro tenta construir uma mensagem que joga a culpa no clima e no povo. Falseia a realidade para tirar sua responsabilidade sobre os rumos da política energética.

A culpa não é do povo e nem do clima. Se há um responsável pela situação a que chegamos é o próprio governo Bolsonaro e os agentes empresariais que tomaram conta do sistema elétrico nacional. 

O povo brasileiro não pode aceitar tamanha agressão. É necessário um amplo processo de debate com toda a sociedade brasileira, no qual se esclareçam os verdadeiros fatos e os reais interesses por trás dessa farsa. Ao mesmo tempo, precisamos resistir e lutar para derrotar até o fim e a fundo a política energética em curso, liderada por um governo entreguista com características neofacistas. É necessário construir uma nova política para o setor energético nacional, com soberania, distribuição da riqueza e controle popular.

Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Brasil, 29 de junho de 2021

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens [Aqui!].

Governo admite crise hídrica enquanto ignora projeto de Lei da Energia Limpa no Brasil

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NOTA DE POSICIONAMENTO SOBRE PRONUNCIAMENTO DO MINISTRO DE MINAS E ENERGIA

Para o INEL (Instituto Nacional de Energia Limpa) o pronunciamento do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, nesta segunda-feira, reforça a insistência do governo em resolver o problema sistêmico da falta de energia no Brasil com medidas paliativas. Ao citar apenas a necessidade de racionamento, o governo ignora a urgência da aprovação da lei da geração distribuída (a dos painéis nos telhados). Uma fonte que, de fato, pode contribuir com a diminuição da pressão sobre o sistema elétrico nacional, mas que vem sendo ignorada pelos Poderes Executivo e Legislativo nos últimos anos. O Brasil precisa de energia, faça chuva ou faça sol!

O que o brasileiro prefere? Desligar a luz ou instalar painel solar sobre o telhado? O setor de energia solar é vacina contra o racionamento, pois tem grande potencial para evitar outras crises, com o aumento da diversificação da matriz elétrica nacional, diminuição da dependência da geração hídrica e térmica, alinhando o Brasil às melhores práticas internacionais, nos aproximando das metas da agenda 2030. O gargalo da dependência nacional no uso de seus recursos hídricos, no que diz respeito à geração de energia, precisa ser enfrentado com planejamento e uma política de Estado para o sistema elétrico nacional e não apenas com ações emergenciais, como racionamento de energia, ou medidas duras, como os aumentos nas contas de todos os brasileiros.

Nesta terça-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) anunciou que o valor da tarifa da bandeira vermelha 2 será reajustado em 52%, saindo de R﹩ 6,24 pelo consumo de 100 kWh para R﹩ 9,49. Com impostos, esse valor sobe quase 50%. Como de costume, o preço pela falta de um planejamento robusto para o setor elétrico brasileiro é repassado aos consumidores, com aumentos significativos de tarifas de energia.

Enquanto isso, o Projeto de Lei (PL 5829/19) que institui o novo marco legal da geração de energia descentralizada está travado há meses na Câmara dos Deputados e, por enquanto, não há qualquer ação ou esforço do Governo Federal para que a matéria siga o rito natural da democracia e seja apreciada pelo Plenário da Casa. O governo prefere que o brasileiro desligue a luz ao invés de gerar sua própria energia?

O projeto, ignorado pelo ministro em seu pronunciamento, apresenta uma proposta coesa para democratização da energia solar no país, que foi debatida por mais de dois anos e está pronta para votação. O presidente da Câmara, Arthur Lira, até o momento, também não assumiu o compromisso de pautar esse projeto estratégico para o país e a proposta segue obstruída. Contraditoriamente, o deputado pede que o brasileiro passe por “período educativo” para evitar apagão.

Desde 2012, o setor de energia solar gerou R﹩ 38 bilhões em negócios e mais de 224 mil empregos. A previsão é que a aprovação do PL deve resultar na abertura de um milhão de novos postos de trabalho nos próximos 30 anos.

Atualmente, os brasileiros que desejam produzir a própria energia sofrem com a falta de legislação própria e insegurança jurídica, que inviabiliza o crescimento ideal do setor e só garante a manutenção do duopólio das distribuidoras de energia e termelétricas no sistema elétrico nacional.

O Instituto Nacional de Energia Limpa vem à público cobrar que o projeto de lei 5829/19 seja pautado em caráter de urgência no Plenário da Câmara dos Deputados, diante de mais uma grave crise hídrica que impacta negativamente todo o sistema elétrico nacional. Apenas com medidas de planejamento e democratização da energia elétrica, como o Projeto de Lei 5829/19, será possível garantir que, nos próximos anos, o Brasil não volte a sofrer com falta de energia elétrica e, de fato, assuma o protagonismo que seus recursos energéticos renováveis podem proporcionar.

HEBER GALARCE – PRESIDENTE DO INEL (INSTITUTO NACIONAL DE ENERGIA LIMPA)

Clima propício para tempos quentes

O relatório preliminar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas prevê ondas de calor, fome e perda de habitat

CLIMATEFoto: dpa / Tobias Kleinschmidt

Por Martin Ling para o Neues Deutschland

As declarações são claras: “A vida na Terra pode se recuperar de uma mudança climática drástica, produzindo novas espécies e criando novos ecossistemas. Os humanos não podem fazer isso. «Essas frases podem ser encontradas no resumo técnico de 137 páginas de um relatório preliminar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) com os resultados preliminares do Grupo de Trabalho II do IPCC, que examina as consequências de aquecimento global.

A AFP teria vazado para trazer a gravidade da situação ao público mundial antes da cúpula da biodiversidade da ONU em outubro e da conferência climática da ONU em novembro: Dezenas de milhões de pessoas passarão fome nas próximas décadas devido às mudanças climáticas, A seca e as doenças sofrem – esse cenário está delineado no rascunho do relatório, que a agência de notícias AFP pôde ver com antecedência com exclusividade.

Em 4.000 páginas, os mais de 700 autores mostram, entre outras coisas, como o aquecimento global afeta a saúde humana. De acordo com o relatório preliminar, o teor de nutrientes das safras está diminuindo devido ao aumento das temperaturas. O teor de proteína do arroz, trigo, cevada e batata deve diminuir de 6,4 a 14,1 por cento, como resultado do qual quase 150 milhões de pessoas também podem sofrer de deficiência de proteína.

À medida que os eventos climáticos extremos aumentam devido às mudanças climáticas, de acordo com o IPCC, há um risco crescente de que as colheitas em vários celeiros em todo o mundo fracassem ao mesmo tempo. Os autores esperam que os preços dos alimentos aumentem quase um terço até a metade do século, colocando outros 183 milhões de pessoas mais pobres em risco de fome.

climate 2O relatório detalha as consequências graves da poluição de gases de efeito estufa da humanidade. XAVIER GALIANA AFP / File

Um pouco mais da metade da população mundial já sofre com o abastecimento de água inseguro. Os autores do relatório acreditam que é provável que entre 30 e 140 milhões de pessoas na África, Sudeste Asiático e América Latina possam ser deslocadas internamente até 2050. Até três quartos das reservas de água subterrânea – a principal fonte de água potável para 2,5 bilhões de pessoas – podem secar até a metade do século – entre outras coisas, devido ao rápido derretimento das geleiras das montanhas. “A escassez de água é um dos problemas que nossa geração enfrentará muito em breve”, diz Maria Neira, da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Haverá deslocamento massivo, migração massiva e devemos tratar tudo isso como um problema global.”

Com o aquecimento global, os mosquitos e outras espécies transmissoras de doenças como a dengue estão se espalhando. O risco de malária e borreliose aumentará e mais crianças morrerão de diarreia devido ao clima. Com AFP

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Impacto da meteorologia na atual crise hídrica

11 fatos que você precisa saber sobre a crise hídrica no Brasil

O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? O fato é que o País, com extensão continental, com abundância de vento, água e sol e com grande potencial para geração renovável, está com problemas. Antes de explicar a relação da meteorologia com o tema, é importante ressaltar que a matriz elétrica brasileira é alimentada principalmente por fontes renováveis (83%), um ponto extremamente positivo quando comparado com a média mundial que é de 25% (BEN, 2020). No Brasil, estamos acompanhando um grande crescimento da produção de energia proveniente de fontes eólicas, a qual ultrapassou recentemente o marco de 18 GW de capacidade instalada, equivalente a 10,3% da matriz elétrica brasileira. Ainda assim, as hidráulicas representam a maior fonte de geração de energia no país, tal que alterações no volume ou padrões irregulares de precipitação afetam todo o setor de energia.

Principais Sistemas Climáticos e a crise hídrica

Apesar do Brasil ser um país com enorme extensão continental, o grande regulador dos padrões meteorológicos que influenciam no continente são os oceanos, que interagem com a atmosfera e regulam o balanço de energia através da redistribuição do vento e da água. O padrão de precipitação de uma região pode ser alterado por diversos sistemas meteorológicos e climáticos, que possuem diferentes resoluções espaciais e temporais. Um dos sistemas climáticos mais conhecidos e monitorados é o El Niño – Oscilação Sul.

O El Niño é um dos sistemas climáticos que mais recebe atenção da mídia e da comunidade científica, por representar cerca de 40% da variabilidade climática no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste (GRIMM et al., 1998; KAYANO, ANDREOLI, 2016). No entanto, outros sistemas também são capazes de alterar o padrão de precipitação nas bacias de geração hídrica, especialmente quando estes sistemas de menor influência atuam simultaneamente. Alguns exemplos destes sistemas são: Oscilação Antártica (OA) ou Modo Anular Sul (SAM), Oscilação de Madden Julian (OMJ), Oscilação Quase Bienal (QBO) entre outras.

Quer saber mais sobre o El Niño? Acesso o Especial mensal de Dezembro.

A atual crise hídrica possui diversas semelhanças com a crise que enfrentamos nos anos de 2014 e 2015. Porém, para compreender o impacto da meteorologia na crise atual, é necessário um maior entendimento dos sistemas citados anteriormente.

A Oscilação Antártica, também conhecida como Modo Anular Sul, é um fenômeno de variabilidade climática que domina a circulação extratropical. Essa circulação está associada a um cinturão de baixa pressão, que se concentra próximo à Antártica em sua fase positiva e se expande até o sul da América do Sul em sua fase negativa (Figura 1). O processo de expansão ou retração do cinturão de baixa pressão normalmente dura de semanas a meses.

Figura 1: Primeira EOF de anomalia mensal de altura geopotencial em 700 hPa (1980-2006) abril (esquerda) e julho (direita) representando as fases positiva e negativa, respectivamente. Adaptado de Vasconcellos (2012).

De forma geral, a fase positiva reduz o avanço dos sistemas frontais pela América do Sul, diminuindo o volume de precipitação no centro-sul brasileiro. Enquanto a fase negativa permite que estes sistemas transientes adentrem o continente, favorecendo positivamente a geração hídrica e manutenção dos reservatórios.

No índice da oscilação Antártica, observa-se o predomínio da fase positiva desde os últimos meses de 2020, padrão que também foi observado nos anos de 2015 e 2016 (Figura 2).

Figura 2: Média móvel trimestral do Índice AAO. Fonte NOAA CPC.

Por outro lado, a Oscilação de Madden Julian (OMJ) é uma oscilação intrasazonal que se propaga através da faixa tropical do globo, com ciclo em torno de 30 a 60 dias. Esse pulso de convecção promove o aumento/diminuição da precipitação regional. Nas fases 4 e 5 (1 e 8) a oscilação é desfavorável (favorável) à precipitação no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil (DE SOUZA, AMBRIZZI, 2006).

No ano de 2020 a configuração de um bloqueio atmosférico persistente promoveu recordes de temperaturas e baixos volumes pluviométricos entre setembro e outubro no Brasil, principalmente no Sudeste, influenciado pela OMJ (Figura 3). No verão de 2013 a 2014, a OMJ também ficou estacionada por muito tempo nas fases 5 e 6, o que influenciou na presença de bloqueio atmosférico no Sudeste, deixando o tempo seco na região, e com temperaturas elevadas, condições que acarretaram o agravamento da crise hídrica.

Figura 3: Índice da Oscilação de Madden Julian de 16/09/2020 a 14/12/2020.

Ainda não há o entendimento por completo do porquê a OMJ persistiu por tanto tempo nas fases 5 e 6 (desfavorável a precipitação) em 2020 e em 2013/2014. Uma das possíveis explicações é a influência da Oscilação Quase-Bienal (QBO), no qual a fase negativa da QBO é capaz de alterar a duração e intensidade das fases da OMJ.

Na crise hídrica de 2013/2014, foi no verão que o nível do sistema Cantareira (abastecimento humano) começou a ficar mais crítico. O ano de 2014 contou com vários meses com chuva abaixo da média, em 2015 os volumes de chuva apesar de acima da média (influenciados pelo El Niño) não foram suficientes para recuperar o volume dos reservatórios, uma vez que este se encontrava no volume morto. Além do impacto causado pelo consumo acima da média (MARENGO; ALVEZ, 2015)

De forma geral, a fase e posição destes sistemas climáticos, influenciaram também os níveis dos reservatórios de geração de energia e da energia natural afluente (ENA) na crise hídrica de 2014/2015 e estão impactando de forma negativa novamente nos anos de 2020/2021.

E por fim estamos na fase negativa da ODP (Oscilação Decadal do Pacífico; MANTUA; HARE, 2002), que é quando há a diminuição das temperaturas do Oceano Pacífico. A fase negativa da ODP é capaz de aumentar a incidência e intensidade de eventos de La Niña em a diminuição e enfraquecimento do El Niño. Para a fase positiva da ODP o impacto é observado principalmente no leste do Brasil de novembro a fevereiro, sobre o Norte e Noroeste da América do Sul durante março e abril. Enquanto a fase negativa apresenta impacto sobre o Nordeste março e abril (KAYANO, ANDREOLI, 2016).

Diante de todas os fenômenos analisados, a conclusão para a primeira questão: O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? é que sim, estamos na mesma crise hídrica, que teve momentos mais brandos e agora está na sua fase crítica novamente.

Qual a expectativa para os próximos meses?

Estamos praticamente no Inverno e nesta época do ano não se espera por chuva significativa para a região central do Brasil. Não há nenhum fenômeno meteorológico previsto que possa mudar este quadro. No Sul, ao contrário, apesar da pouca sazonalidade anual nas Bacias, é o período das melhores chuvas. A previsão ainda é de irregularidade na precipitação, mas em uma condição muito melhor do que o observado até o início de maio, quando as frentes frias praticamente não provocavam instabilidades sobre a Região. A boa notícia é que não há expectativa de atraso na entrada do próximo período úmido!

Referências Bibliográficas

DE SOUZA, Everaldo B.; AMBRIZZI, Tércio. Modulation of the intraseasonal rainfall over tropical Brazil by the Madden-Julian oscillation. International Journal of Climatology: A Journal of the Royal Meteorological Society, v. 26, n. 13, p. 1759-1776, 2006.

EPE [Empresa de Pesquisa Energética] Balanço Energético Nacional (BEN) 2018 Balanço Energético Nacional (BEN) 2018: Ano base 201 : Ano base 201 : Ano base 2017, 2018. Disponível em < https://ben.epe.gov.br>. Acesso em jun/2020.

GRIMM, Alice M.; FERRAZ, Simone ET; GOMES, Júlio. Precipitation anomalies in southern Brazil associated with El Niño and La Niña events. Journal of climate, v. 11, n. 11, p. 2863-2880, 1998.

KAYANO, Mary T.; ANDREOLI, Rita V. Relationships between rainfall anomalies over northeastern Brazil and the El Niño-Southern Oscillation. Journal of Geophysical Research: Atmospheres, v. 111, n. D13, 2006.

MANTUA, Nathan J.; HARE, Steven R. The Pacific decadal oscillation. Journal of oceanography, v. 58, n. 1, p. 35-44, 2002.

MARENGO, Jose Antonio; ALVES, Lincoln M. Crise hídrica em São Paulo em 2014: seca e desmatamento. GEOUSP Espaço e Tempo (Online), v. 19, n. 3, p. 485-494, 2015.

Sobre a Climatempo

Com solidez de 30 anos de mercado e fornecendo assessoria meteorológica de qualidade para segmentos estratégicos, a Climatempo é sinônimo de inovação. Foi a primeira empresa privada a oferecer análises customizadas para diversos setores do mercado, boletins informativos para meios de comunicação, canal 24 horas nas principais operadoras de TV por assinatura e posicionamento digital consolidado com website e aplicativos, que juntos somam 20 milhões de usuários mensais.

Em 2015, investiu na instalação do LABS Climatempo, no Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP), que atua na pesquisa e desenvolvimento de soluções para tempo severo, energias renováveis (eólica e solar), hidrologia, comercialização e geração de energia, navegação interior, oceanografia e cidades inteligentes. Em 2019, a Climatempo passou a fazer parte do grupo norueguês StormGeo, líder global em inteligência meteorológica e soluções para suporte à decisão, e dois anos depois, em 2021, uniu-se à Somar Meteorologia, formando a maior companhia do setor na América do Sul. A fusão das duas empresas impulsiona a Climatempo a ser protagonista global de fornecimento de dados e soluções para os setores produtivos do Brasil e demais países da América Latina, com capacidade de oferecer informações precisas de forma mais ágil e robusta.

O Grupo Climatempo segue presidido pelo meteorologista Carlos Magno que, com mais de 35 anos de carreira, foi um dos primeiros comunicadores da profissão no país.

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