Valorização da Cultura e do Patrimônio em destaque na Casa de Cultura Villa Maria

🏛️A Casa de Cultura Villa Maria recebe entre os dias 29 e 31 de outubro o III Encontro de Estudos do Patrimônio Cultural, realizado pela @diretoriadecultura_uenf em parceria com o @iffluminense.

📌 Com a temática “Sons ancestrais, futuros possíveis: ofícios, poéticas e valorização cultural”, o encontro propõe um espaço de debate e reflexão sobre a riqueza e a complexidade das expressões culturais da região.

📝 A iniciativa vai reunir órgãos importantes na atuação pela preservação do patrimônio histórico e cultural na região e em todo o Estado, como @mis.rio, @museuhistoricodecampos , @arquivodecampos, @patrimonioinepac , @iphangovbr , @uenf_oficial , @iffcamposcentro @iffguarus. Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos (COPPAM) e Instituto e @ihgcg.rj .

⚠️ Spoiler: Logo no primeiro dia, serão apresentados planos de trabalho da Diretoria de Cultura da UENF com MIS-RJ e IPHAN.

Abaixo a programação completa.

Relatos de uma breve viagem de 1.000 km ou mais por Minas Gerais

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No Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo, o escritor que amava cachorros e gatos

Em 14 dias de um misto de recesso e férias na Uenf, tive a oportunidade de viajar por mais de 1.000 km apenas dentro do estado de Minas Gerais, em um trajeto que começou em Lima Duarte, passou por Cordisburgo, Felício dos Santos, Diamantina e Serro. Como geógrafo, afora destacar o desafio que é dirigir nas estradas de Minas Gerais, só posso dizer que quem nunca fez uma viagem desse tipo não tem ideia do que está perdendo (ver imagens abaixo).

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A trajetória que eu cumpri é muito legal porque ao longo do caminho sempre pode se deparar com uma paisagem deslumbrante  que se mistura com um mosaico de vegetações (da Mata Atlântica ao Cerrado), distintas formas de relevo, e uma rica cultura que aparece em uma culinária tão saborosa quanto diversa, e, principalmente, no encontro com pessoas que mostram bem porque Minas Gerais pode ser inesquecível.

É verdade que como um turista interno também pude observar os efeitos da seleção de determinados lugares como pontos de atração turística, o que tende a deslocar os segmentos mais pobres de seus locais tradicionais, e a transformação dos lugares em pontos de espetáculo com o consequente aumento do custo de vida.

Mas essa também foi uma viagem para aprender que existe muita resistência cultural e valorização do conhecimento genuinamente brasileiro, o que ficou evidente nas visitas que fiz ao Museu Casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo e ao Museu Casa da Chica da Silva em Diamantina. Nos dois locais foi possível não apenas visualizar a história, mas conversar com jovens e idosos sedentos para compartilhar conhecimentos que iam além da versão pasteurizada que nos é entregue sobre esses dois personagens históricos.

Essa também foi uma viagem para rever amigos de outras viagens e lamentar não se ter tempo para poder usufruir mais tempo da acolhida e da hospitalidade generosa com quem aparece de tempos em tempos para bater um papo apressado.

Obviamente falar de uma viagem por um trecho de Minas Gerais é falar sobre uma culinária que é muito mais diversa do que nos acostumamos com os restaurantes de comida que se diz mineira.  Os sabores distintos servem para mostrar uma riqueza que fica cada vez menos evidente sob o peso de uma cultura pasteurizada para atender as demandas do capitalismo global.  O que dizer de um torresmo feito na hora ou de um pastel de angu com seus diferentes recheios?  Não foi à toa que na maioria dos dias dessa viagem nem percebi a presença de uma rede multinacional de comida ultraprocessada, nem sem senti falta para falar a verdade.

Finalmente, depois disso tudo, apenas uma certeza: voltar pelos mesmos caminhos, ou pelo menos parte deles, é algo para futuras viagens, pois ainda há muito o que se ver, conversas para retomar, e aromas e sabores para apreciar.

Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF realiza sua X Jornada

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Com a temática Transversalidades em Políticas Sociais: Ciência, Cultura e Meio Ambiente , nossa jornada deste ano falará sobre as articulações publico-privadas na ciência e na cultura, trará propostas e debates sobre o conceito de desenvolvimento, falará sobre questões étnico raciais e suas relações com o meio ambiente, além de levantar questionamentos acerca da participação. 

Recomenda-se que seja feita inscrição prévia via link, contudo as inscrições para ouvintes poderão ser realizadas no dia, exceto quem for apresentar trabalho artístico e/ou acadêmico que terá obrigatoriamente que se inscrever previamente. Teremos emissão de certificados de apresentação e como ouvintes no evento.

Inscrições gratuitas podem ser feitas [Aqui!].

Projeto da UFSCar publica e-book que reúne reflexão e arte a partir de festivais culturais durante a pandemia

Publicação é gratuita e tem acesso livre a todo o público na internet

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“Arte porque é pandemia: cultivando cuidados criativos por meio de festivais remotos”: esse é o título de obra lançada recentemente que reúne as reflexões e as obras de arte produzidas por diversas pessoas e apresentadas nos Festivais Culturais remotos CutlivAR-TE e Uni-Diversa, realizados durante a pandemia por um grupo da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com apoio do InformaSUS-UFSCar. 

Os festivais foram realizados em 2021 e tiveram como objetivo mostrar a importância da arte em um momento de mudanças na vida cotidiana, assim como vem ocorrendo na pandemia da Covid-19. Os eventos também abriram espaço para a reflexão sobre o papel da arte em momentos de crise para repensar quem somos, que presente estamos oferecendo e como podemos construir futuros possíveis.

Diversas formas de expressão da arte foram expostas durante os festivais e, junto de importantes reflexões, estão reunidas na obra atual, que pode acessada no site da Comissão Permanente de Publicações Oficiais e Institucionais (CPOI) da UFSCar [Aqui!]

As autoras da publicação são Carla Silva, docente do Departamento de Terapia Ocupacional (DTO) da UFSCar; Alice Bispo Fernandes de Andrade, graduanda em Terapia Ocupacional da Universidade; Helena Zoneti Rodrigues, graduanda em Filosofia da UFSCar; e Larissa Campagna Martini, docente do Departamento de Medicina (DMed) da Instituição. O acesso ao material é gratuito e o download pode ser feito [Aqui!].  

Arte e cultura dos povos originários: IPAM lança o terceiro ciclo do Amazoniar

‘Cultura e arte dos povos indígenas da Amazônia como forma de resistência’ é o tema do novo ciclo deste projeto. Inscreva-se!
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Em setembro, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) inicia o terceiro ciclo do Amazoniar, projeto que tem como objetivo promover um diálogo global sobre a floresta amazônica e sua influência nas relações entre o Brasil e o mundo. Serão quatro encontros entre setembro e outubro deste ano, com o tema ‘Cultura e arte dos povos indígenas da Amazônia como forma de resistência’.

“Os povos indígenas da Amazônia são detentores de profundos saberes sobre a região e usufruem da arte e da cultura para transmitir poderosas mensagens de inclusão e de resistência, com expressões criativas e que refletem suas identidades. São múltiplas linguagens com o poder de comunicar e transformar, que desempenham um papel fundamental na tomada de consciência sobre inúmeras emergências da Amazônia e da sua população”, diz Lucas Ramos, coordenador do Amazoniar.

Segundo o pesquisador sênior do IPAM e moderador dos próximos encontros do Amazoniar, Paulo Moutinho, diversos estudos científicos mostram que os territórios indígenas já demarcados ou aguardando demarcação na Amazônia foram os que mais preservaram as características originais de florestas e de vegetação nativa. “Tal preservação resulta, em grande medida, do modo de vida e cultura dos povos indígenas. Por isso é tão importante resguardar esta riqueza cultural e o direito destes brasileiros às suas terras”, explica. Para Moutinho, o mundo tem muito a aprender com a cultura dos indígenas. “São séculos de conhecimento tradicional acumulado que poderão ser fundamentais para a nossa sobrevivência futura. É essa conexão da Amazônia com o mundo que queremos fomentar com o Amazoniar.”

Todos os encontros acontecerão pelo Zoom, ao vivo, e terão interpretação para inglês.

Inscreva-se:

23/09 às 10h (Brasília) – Ouça essa história: a riqueza da literatura e das lendas indígenas

07/10 às 10h (Brasília) – Vozes indígenas: cantos tradicionais e atuais e como se misturam

21/10 às 10h (Brasília) – Perspectiva indígena: os povos tradicionais através da fotografia e do audiovisual

O que abordaremos nos encontros do terceiro ciclo do Amazoniar?

Quebrando estereótipos sobre os povos indígenas

Neste encontro que abre o novo ciclo do Amazoniar, o IPAM convida o público para uma conversa com Alana Manchineri, coordenadora dos jovens comunicadores da COIAB, e Denilson Baniwa, artista e educador. Eles vão compartilhar suas vivências pessoais, para iniciar a discussão sobre como as comunidades indígenas utilizam expressões artísticas para combater mitos e estereótipos.

Data: Quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Horário: 14h (Lima) / 15h (Nova York) / 16h (Brasília) / 21h (Europa Central)

Inscrições

Ouça essa história: a riqueza da literatura e das lendas indígenas

O segundo encontro propõe uma reflexão sobre os valores dos povos indígenas da Amazônia e sua visão de mundo através de lendas e da literatura produzida na região. O evento terá a participação de Daniel Munduruku (a confirmar), escritor e educador, que tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior e é um dos nomes mais importantes da literatura indígena no país.

Data: Quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Vozes indígenas: cantos tradicionais e atuais e como se misturam

No terceiro encontro, o Amazoniar abordará os cantos tradicionais dos indígenas da Amazônia e sua junção com ritmos urbanos populares, como rock e rap, como forma de conscientização da luta indigena. Participarão Cíntia Guajajara, professora, mestra em linguística e vice-coordenadora da Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA), além do músico Matsipaya Txucarramãe .

Data: Quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Perspectiva indígena: os povos tradicionais através da fotografia e do audiovisual

No último encontro do ciclo, o Amazoniar promove uma discussão sobre a produção fotográfica e audiovisual de artistas das comunidades indígenas. Erisvan Guajajara, comunicador e fundador da Mídia Índia, compartilhará suas perspectivas das produções culturais na região.

Data: Quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Sobre o Amazoniar

O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para promover um diálogo global sobre a floresta amazônica e sua influência nas relações entre o Brasil e o mundo.

O primeiro ciclo da série focou nas relações comerciais entre Brasil e Europa. O segundo teve como foco os povos indígenas e o seu papel como principais aliados no combate ao desmatamento e na conservação da floresta, sua contribuição para a ciência e para a cultura, bem como seu impacto no desenvolvimento sustentável da região.

Para fazer parte dessa comunidade global em defesa da Amazônia, cadastre-se na nossa newsletter .

Parece revolução, mas é só neoliberalismo

O professor universitário em meio às cruzadas autoritárias da direita e da esquerda

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Escárnio, trabalho de Hirotoshi Ito, e os universitários: usando camuflagens progressistas, a esquerda está transformando os alunos em consumidores e os servidores públicos em serviçais  

Por  Benamê Kamu Almudras

Um amigo que leciona na área de humanas em uma grande universidade pública paulista, ao chegar para a sua aula em um curso de pós-graduação, percebeu um burburinho inusual entre os alunos. Perguntou-lhes se estava tudo bem, e um deles disse: “Não. Estamos fazendo um motim.” Outros expuseram o motivo da rebelião: a excessiva carga de leitura da disciplina. Meu amigo ficou surpreso, pois a carga de leitura era pequena. Os alunos tinham que ler e debater semanalmente apenas dois ou três projetos de colegas, cada um com vinte páginas no máximo.

O professor perguntou se os alunos teriam alguma sugestão para resolver o problema. Eles propuseram que cada um escolhesse por conta própria os projetos que quisesse ler e os colegas com quem discutir, formando pequenos grupos auto-organizados. Dessa forma, terminariam o semestre mais cedo. Atordoado, o professor disse que pensaria no assunto, para então negociar uma solução satisfatória para todos. Mas um aluno retrucou: “Não, professor. Você sempre quer negociar. O que nós queremos é romper hierarquias e questionar o seu poder.” O professor respirou fundo, disse que lhes escreveria a respeito mais tarde e continuou sua aula.

Depois de consultar colegas e enfrentar uma noite mal dormida, o professor respondeu aos alunos, dizendo que manteria a dinâmica inicial do curso. Vários alunos lhe enviaram longos e-mails de protesto, qualificando sua decisão como autoritária e reivindicando que a vontade deles fosse respeitada. Tomados por um misto de revolta e euforia, diziam estar lutando pela democratização da universidade e contra as estruturas de poder.

Na aula seguinte, o professor apontou aos alunos a pouca razoabilidade das demandas que faziam e explicou a importância da leitura e do diálogo intelectual para a formação de cada um. Resolveu tornar opcional a participação no resto do semestre. Para sua surpresa, ninguém deixou o curso. Os participantes do motim – um terço da turma – lhe pediram desculpas e agradeceram a preleção. Final feliz.

Só que não. Narro esse episódio (sem citar nomes para não expor as pessoas) porque, a meu ver, ele exemplifica um fenômeno mais geral que tem ganhado força e se tornado mais frequente nas universidades brasileiras e do exterior. Para descrevê-lo, tomo emprestada do mesmo amigo uma expressão usada por ele em sua preleção aos revoltosos. Adaptando uma famosa frase de Renato Russo (“Parece cocaína, mas é só tristeza”), esse professor disse aos alunos sobre o motim: “Parece revolução, mas é só neoliberalismo.” A primeira metade dessa analogia é, claro, puramente metafórica: refere-se à agitação política dos alunos. A segunda é metonímica, pois o neoliberalismo é fonte de tristeza e angústia para qualquer pessoa que tenha apreço pela educação pública e por ideias progressistas.

A rebelião contra esse professor é um exemplo de atitude neoliberal da parte dos estudantes. Não me refiro ao neoliberalismo como ideologia político-econômica, mas como forma cultural, em que o mercado, a ética individualizante e o espírito do consumismo são erigidos como o modelo cognitivo e normativo da vida social. Apesar de os alunos apresentarem sua pauta como democrática ou mesmo subversiva, o que eles estavam de fato exigindo era que a universidade fosse como um supermercado ou um restaurante, onde quem decide o que consome (que textos ler), quanto consome (quantos textos ler), por quanto tempo consome (quantas aulas ter) e como consome (como as aulas devem ser) são os consumidores. Subjacente à revolta estava a ideia de que o professor tem função parecida à de um gerente de hotel ou um alfaiate: servir ao cliente e satisfazer seus desejos. E o cliente, sabemos, tem sempre razão!

O episódio que narrei pode ter sido particularmente teatral e pedagógico, mas abundam casos semelhantes nas universidades. Em uma instituição pública fluminense da área de saúde, um aluno exigiu que o programa de pós-graduação desse aos estudantes garantias (termo tipicamente mercantil) de que todos terminariam seu doutorado com êxito. Levando ao extremo a mesma suposição de que o título (note bem, o título, e não o acesso à educação) é um direito de todos, uma aluna de história de uma universidade pública europeia que não escreveu sua tese de doutorado processou o departamento onde estudou, exigindo o diploma ou uma indenização pelo tempo investido (um termo-fetiche do neoliberalismo).

Outra professora de uma universidade pública localizada no Planalto Central recebeu de um aluno um e-mail em que ele declarava ter decidido que o melhor para ele seria não escrever o trabalho final da disciplina – e solicitava ser aprovado mesmo assim. Uma amiga que leciona ciências exatas em uma universidade mineira recebeu de seus alunos uma lista de temas que eles queriam ver tratados na palestra a ser dada por uma pesquisadora visitante. No meio da pandemia, um pós-graduando – bolsista com dedicação exclusiva – enviou uma mensagem de última hora a seu orientador, dizendo que não participaria de uma reunião online de seu grupo de pesquisas porque estava cansado.

Outra colega, da área de comunicação social e residente em uma grande cidade do Nordeste, se assustou quando um aluno de graduação criticou duramente em aula um importante texto que ele não tinha lido nem queria ler, pois tinha ouvido falar mal do autor em um documentário (outro fetiche neoliberal: o consumo doméstico de informação midiática). Quando a professora retrucou, dizendo que o aluno não poderia atacar o texto sem tê-lo lido, ela foi acusada de autoritarismo.

Parece, entretanto, que, aos olhos de tão exigentes consumidores, os professores também podem errar ao propor mais diálogo. Um estudante de ciência política questionou em público o método didático de um colega (baseado em discussões e debates) e solicitou que o professor desse mais aulas expositivas. Alegou que era muito disperso e se perdia ao ouvir os colegas. A mim um aluno sugeriu que eu modificasse o programa de um curso porque ele achava parte da bibliografia “maçante”. É também corriqueira a impolidez de pós-graduandos brasileiros, que não agradecem a seus orientadores por esforços que foram muito além de suas obrigações, não pedem desculpas por falhas que cometem e exigem reuniões, atestados e assinaturas, amiúde com prazos impraticáveis, em vez de pedi-los com boa antecedência e de forma cortês, como se espera em interações com professores, colegas, amigos e… prestadores de serviços.

Não uso estes últimos termos por acaso. A privatização do público denunciada por Hannah Arendt é hoje uma realidade tão abrangente e onipresente que, como o ar que respiramos ou como o diabo que vive nos detalhes, já nem a percebemos mais. Quando a coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores competindo no mercado, perde-se a ideia de que o professor é um servidor público dedicado a formar cidadãos instruídos e qualificados. Mesmo na educação pública, e entre aqueles que falam em seu nome, cresce o desejo de que ela passe a servir, de modo neoliberal, a esse consumidor autocentrado e oportunista que busca minimizar custos e maximizar benefícios. Assim, o professor universitário é tratado cada vez menos como um servidor público e cada vez mais como um prestador de serviços a indivíduos – um serviçal privado.

A força do neoliberalismo como fenômeno cultural se revela até nos ambientes mais progressistas, entre pessoas identificadas (por elas mesmas e por outros) como sendo de esquerda e que dizem estar lutando contra injustiças sociais. Mais assustador é que tais pessoas apresentam sua fantasia neoliberal como se fosse um projeto emancipador. Com isso, expande-se a suposição devastadora de que o professor, caso não aceite o papel de um serviçal privado, só pode ser um opressor.

Suspeito que isso se deva, em parte, à maneira distorcida como alguns alunos veem a assimetria inerente à educação, imaginando que os corpos docente e discente são como classes sociais – de um lado, a classe exploradora; de outro, a explorada. Eles supõem que o professor detenha uma superioridade essencial e que a posição de aluno seja involuntária e permanente. Esquecem que ninguém nasce professor e que a assimetria da sala de aula é contextual e temporária. O professor é apenas alguém com mais experiência e conhecimento em determinada área, e não um sujeito social dotado de um poder inerente ou de mais conhecimentos genéricos que os alunos. Aliás, muitos alunos de universidades públicas com atitudes como as que descrevi têm eles próprios a intenção de seguir a carreira docente, o que torna ainda mais absurda a identificação que fazem do professor com o opressor.

Essa identificação enganosa provavelmente se deve também ao perfil demográfico do corpo docente. A despeito de variações que possam ocorrer nas diferentes instituições e áreas de conhecimento, há em geral, entre professores universitários, uma sub-representação de grupos discriminados e oprimidos por razões raciais, étnicas, religiosas, de gênero, de sexualidade ou de classe. Como muitos alunos são afetados por essas discriminações, não é de estranhar que alguns vejam seus professores como sujeitos privilegiados e dotados de grande poder.

Se isso ajuda a explicar a visão de que o professor é um opressor, é certo que não a justifica, pois há vários problemas nessa concepção. Primeiramente, ela ignora a desigualdade de posições sociais e institucionais entre professores, pois pressupõe que todos somos oriundos de setores sociais dominantes ou privilegiados, ou associados a eles. Embora algumas formas de hierarquização e discriminação sejam facilmente visíveis e identificáveis, outras não são. Há, por exemplo, muitos professores de universidades conceituadas que passaram por grandes dificuldades econômicas em sua juventude, sofreram preconceito e opressão ao longo da vida e, por terem estudado em universidades de menor prestígio (ou até de mais prestígio, mas estrangeiras), nunca são plenamente aceitos como pares por seus colegas, que julgam ter melhor pedigree social e acadêmico. E, dadas as desigualdades de ordem salarial, origem geográfica e classe entre professores, muitos enfrentamos dificuldades materiais reais, além do desprestígio social que marca toda a categoria.

Fora isso, a identificação do professor com o opressor e as revoltas contra docentes fazem com que se gaste tempo e energia atacando pessoas que, na maior parte das vezes, são aliadas dos alunos e lutam pelas mesmas bandeiras que eles, a começar pela defesa de uma universidade pública mais justa, inclusiva e democrática. O motim que descrevi no início deste texto, por exemplo, aconteceu em 2017, quando a democracia se deteriorava e o autoritarismo crescia aceleradamente no Brasil. Tenho certeza de que os revoltosos viam a situação nacional com a mesma preocupação que seu professor, mas preferiram usar seu tempo e energia lutando por “causas” miúdas como os supostos direitos de estudar menos e de decidir o que ler. Há algo de muito errado e perigoso quando estudantes tentam transformar em pauta política a redução do rigor e da qualidade da educação.

Grave é também o desvio feito pela ofensiva política progressista quando ela passa a atacar seus aliados. A expressão mais atroz dessa deturpação é a proliferação de acusações infundadas de racismo, sexismo, classismo, homofobia e transfobia feitas contra professores. Todas as denúncias desse tipo devem ser levadas a sério e investigadas, pois disso depende a luta por uma universidade mais justa e inclusiva. Sabendo que preconceitos e assédios são uma realidade cotidiana da academia, como de tantas outras áreas, defendo veementemente a importância política dessas denúncias e o direito de todas as pessoas de fazê-las.

O fato de que o racismo, o sexismo, o classismo, a homofobia e a transfobia sejam frequentes nas escolas não significa, porém, que todas as denúncias sejam verdadeiras. Pode-se dizer o mesmo, imagino, de outros ambientes profissionais, mas esse fenômeno ganha contornos específicos no caso da universidade. Embora raramente tenhamos a coragem ou o interesse de falar disso em público, não é segredo para acadêmicos brasileiros e estrangeiros que parte dessas acusações são atos oportunistas de pessoas movidas por objetivos mais imediatos e pouco louváveis, como obter uma aprovação não merecida, diminuir a carga de estudo e conseguir facilidades na concessão de um diploma. A manipulação de injustiças, violências e exclusões para benefício individual é talvez a expressão mais feroz e perversa da neoliberalização cultural da educação pública.

A refinada perversidade dessa manipulação interesseira se dá em diferentes níveis. Para começar, os professores mais comumente acusados são os que estão em situações profissionais mais frágeis, em estágios iniciais da carreira, sem grandes vantagens imediatas a oferecer a seus alunos e cuja destruição moral não traz prejuízo a seus difamadores. Outro alvo comum de acusações infundadas são professores oriundos de grupos sociais discriminados e fragilizados. O preconceito de alguns indivíduos contra o próprio grupo oprimido é uma triste realidade, mas o que quero salientar é que muitas vezes os professores mais atacados e desrespeitados – por calúnia e difamação, assim como por outros atos cotidianos e discretos – são os mais desprovidos de poder, tanto dentro quanto fora da universidade.

Outras vítimas preferenciais são professores altamente mobilizados por questões políticas. Um professor de filosofia pós-colonial ou de história contemporânea tem muito mais probabilidade de ser atacado por uma afirmação que algum aluno considere inapropriada do que um professor de filosofia medieval ou de história antiga. Abundam os casos de professores feministas e ativistas de direitos LGBTQIA+ acusados de sexismo, homofobia e transfobia por darem aula sobre textos tidos como politicamente inapropriados ou por cometerem eventuais deslizes de linguagem passíveis de punição pela impiedosa e infatigável milícia do vocabulário.

Recentemente um professor de uma respeitada universidade pública do Sudeste, especializado em pensamento afro-atlântico, foi chamado de racista por uma mestranda. Ela havia sido reprovada em sua disciplina por não frequentar as aulas, não apresentar um seminário obrigatório, não escrever o trabalho final e não responder a repetidas tentativas de contato. O oportunismo da calúnia fica evidente ao sabermos que a aluna só fez a denúncia seis meses depois de sua reprovação, e no momento que estouraram os recentes protestos antirracistas nos Estados Unidos. Mordendo a isca, os defensores dela não se furtaram a equiparar a reprovação ao brutal assassinato de George Floyd! Quando foi demonstrado que a denúncia era falsa, outro aluno de “pós” – de pós-graduação e de pós-verdade – defendeu os ataques dizendo que, sendo o professor um homem branco (aliás, abertamente gay e em estágio probatório na universidade), não importava se as acusações eram verdadeiras ou não. Se o professor fosse menos forte e decidido, talvez tivesse deixado de dedicar seu ensino e pesquisa a questões raciais, e a luta antirracista teria perdido, graças ao neoliberalismo de esquerda, um aliado em uma instituição de grande visibilidade.

O uso oportunista e individualista de questões sociais seríssimas prejudica a luta política não apenas por alimentar as conhecidas reações conservadoras e preconceituosas, mas também por silenciar vozes aliadas e privatizar bandeiras coletivas fundamentais. Muitas vezes as acusações são tão egocêntricas que supõem que, caso um indivíduo não seja beneficiado da maneira que exige, isso demonstra que toda sua categoria está sendo prejudicada. Há casos em que um candidato a pós-graduação, ao não ser admitido em processos seletivos com cotas para grupos discriminados (como todos os programas devem incluir), afirma que sua não admissão é sintoma de preconceito – mesmo que, obviamente, a vaga que ele não obteve seja destinada a outra pessoa da mesma categoria (vemos aqui o problema do fogo amigo: programas que não praticam ações afirmativas não correm o risco desse tipo de acusação e seu racismo passa incólume). É mais uma vez o “eu” autocentrado exigindo direitos de consumidor, sequestrando e usando como disfarce o “nós” coletivo que reivindica direitos sociais justos e corretos.

Essa privatização é mais uma expressão do poder do neoliberalismo cultural no ensino público. Ao contrário do que afirmam alguns, tal privatização não defende a educação: nega a própria ideia de educação. Não é à toa que muitos estudantes (mas não apenas eles) julgam que o incontestável direito à educação equivale a um suposto direito universal a um título, o bem maior almejado pelos consumidores da universidade. Tive a oportunidade de ler várias cartas de alunos, endereçadas a professores e a instituições, que defendiam não tanto o direito de estudar, mas sobretudo o de receber um diploma acadêmico, independentemente do mérito do estudante. Reivindicações desse tipo, fantasiadas de luta democrática e igualitária, negam o pressuposto de que algumas pessoas têm certos conhecimentos específicos que podem ensinar a outras, em geral mais jovens, que ainda não os têm – e que para adquiri-los é preciso estudar. Tais reivindicações impedem a formação de cidadãos esclarecidos e transformam o direito à educação em direito a boas notas, aprovações e títulos.

Mas a força do neoliberalismo cultural na educação não para por aí. Como observou o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, apenas a lógica competitiva de mercado permite entender a proliferação de cruéis, rasos e injustos ataques militantes a intelectuais politicamente engajados. Em suas palavras, “para os atacantes, são chances de melhor se posicionarem no mercado epistêmico: quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital” (Folha de S.Paulo, 11/08/2020).

O artigo não se refere unicamente a agressões a docentes, mas não é coincidência que tenha sido escrito por um professor universitário a respeito de ataques sofridos por uma colega de profissão. Entre os vários supostos erros de que esta professora – a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz – foi acusada, estava o de, apesar de ser branca (judia, vale lembrar), ter dedicado décadas de pesquisa e atuação pública ao combate ao racismo. Afinal, como bem argumentou Gomes, a lógica do mercado raras vezes recompensa e estimula ataques a pessoas retrógradas e conservadoras. Racistas, sexistas, homofóbicos, transfóbicos, antissemitas e semelhantes seguem ilesos em suas reputações e fortalecidos em suas posições de poder, voz e visibilidade. Punindo e calando intelectuais progressistas, o neoliberalismo de esquerda dá mais espaço, mais vigor e mais protagonismo ao neoliberalismo stricto sensu que, pelo lado direito, ataca o ensino público e seus professores de forma igualmente atroz.

Infelizmente, contudo, a esse problema nós, os professores, temos também reagido de maneira tipicamente neoliberal. Por um lado, tendemos a atribuir a particularidades de certas situações e de indivíduos cada caso de abuso, desrespeito, privatização, calúnia ou difamação. Por outro, seguimos com o pacto não declarado de silêncio sobre essas questões por temermos, com razão, punições no mercado acadêmico. E muitas vezes cedemos na concessão das benesses exigidas pelos sujeitos neoliberais, seja por medo de eventual repercussão, seja por autoengano político. Com isso, acabamos por contribuir para a privatização da educação, no sentido amplo e cultural, e, claro, para a deterioração do ensino. Enquanto não entendermos que estamos diante de um fenômeno coletivo – o individualismo é um fenômeno coletivo – e enquanto não agirmos politicamente, ou seja, debatendo publicamente um problema político, a educação pública seguirá sendo atacada não apenas de forma espetacular, mas também rotineira e capilar; não apenas por governos e ideólogos de direita, mas também nos campi, nas ruas e nas mal denominadas redes sociais.

Assim, os professores universitários, sobretudo os de instituições públicas brasileiras, sofremos hoje duas virulentas ofensivas neoliberais. A direita nos ataca de modo neoliberal, combatendo em nome do mercado tudo que nossa educação pública conquistou a duras penas nas últimas décadas: inclusão social, expansão do ensino, ações afirmativas, financiamento à pesquisa, reflexões sofisticadas sobre a sociedade. A esquerda, usando camuflagens progressistas para disfarçar seu neoliberalismo, transforma alunos em consumidores, a educação em distribuição de diplomas, o rigor acadêmico em forma de opressão, os servidores públicos em serviçais privados.

Um lado defende abertamente o neoliberalismo, o outro pensa ser revolucionário. Mas ambos agem de forma mercantil e compartilham o ataque à educação pública e ao pensamento crítico. Ao castigarem os professores por ensinar, pensar e escrever, uns encontram nos outros os melhores aliados de suas cruzadas neoliberais autoritárias contra a liberdade de pensamento e de expressão. Assim como, em 1815, europeus católicos, protestantes e ortodoxos juntaram suas forças retrógradas em uma Santa Aliança contra os ideais republicanos, hoje em dia fanáticos à direita e à esquerda se unem religiosamente em uma aliança, desta vez não declarada, para combater a educação pública e os professores.

Quase todos os docentes de universidades públicas concordamos sobre os graves e evidentes perigos do neoliberalismo autoritário da direita, e fazemos o possível para combatê-lo. Mas para continuar e fortalecer essa luta devemos também romper nosso pacto de silêncio e reconhecer os perigos igualmente autoritários, igualmente violentos e igualmente neoliberais que vêm do outro lado – inclusive de nossos alunos.

É como um passo em direção a esse reconhecimento e a um debate amplo e democrático que escrevo este artigo. Apenas lamento que tenha de assiná-lo com um pseudônimo. O motivo disso está evidente. Nestes tempos de cruzadas autoritárias moralistas e de narcisismo midiático neoliberal, uma crítica como a que fiz aqui tem de lançar mão da privacidade autoral como escudo e refúgio.

* Benamê Kamu Almudras, sob pseudônimo, é docente de graduação e de pós-graduação em uma universidade pública de São Paulo

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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista Piauí [Aqui!].

Qual é a grande surpresa? Roberto Alvim e sua paráfrase goebbeliana são fruto da permissividade geral em relação ao governo Bolsonaro

bolsonaro alvim

O mundo político brasileiro amanheceu hoje bastante agitado em função de um vídeo canhestro do senhor Roberto Alvim, convenhamos um ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros, onde, sob a desculpa de anunciar um programa de fomento às artes, nos moldes conservadores característicos do atual governo,  ele reproduz de praticamente literal uma frase famosa de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista (ver vídeo abaixo).

A citação em questão está no texto do livro “Joseph Goebbels, Uma Biografia”, de Peter Longerich, publicado no Brasil pela editora Objetiva (ver comparação entre o que falaram Alvim e Goebbels abaixo).

alvim goebbels

O tamanho do disparate cometido por Alvim é tão grande que até o seu mentor, o “Jack-of-all-trades da extrema-direita, o “filósofo” Olavo de Carvalho, já deu a entender em sua página na rede social Facebook que Roberto Alvim pode estar com alguns parafusos frouxos na cabeça. Convenhamos que vindo de Carvalho, essa não é uma crítica qualquer.

Mas diferente de muitos analistas que reagem indignados e pedem a cabeça de Roberto Alvim, eu fico me perguntando sobre a razão de tanta surpresa em relação à presença de um sujeito que bebe nas águas de um dos principais teóricos do Nazismo em um cargo de relativa relevância dentro do governo Bolsonaro. 

A verdade é que desde sua assunção ao poder em janeiro de 2019, o próprio presidente Jair Bolsonaro já deu dezenas de declarações que deveria ter um criado um clamor igual ou mesmo maior do que a que está se dando em relação ao “copia e cola” de Roberto Alvim do ideário de Joseph Goebbels.  Nessa retórica ficaram ainda mais evidentes o desrespeito aos povos indígenas, ao meio ambiente, aos direitos de minorias,  e por aí foi em um verdadeira procissão de declarações escabrosas, onde, não raramente, houve uma consequência em termos de ação de governo.

Mas o fato é que até agora a imensa maioria da mídia corporativa brasileira e até de segmentos que se pretendem de esquerda, as declarações de Jair Bolsonaro tem sido recebidas com certa mansidão que naturalizou boa parte do que ele disse.  A questão é que essa tolerância se deu por um acordo com a ação privatizante do seu governo, onde os grandes grupos de mídia tiveram muito a ganhar e já ganharam.

Então essa reação toda ao vídeo estapafúrdio de Roberto Albim pode ser caracterizada de várias formas onde podemos incluir tardía e hipócrita entre as maiores relevantes. Assim, quem tiver ganas de se insurgir contra Roberto Alvim e sua afetuosa relação com o pensamento Goebbeliano, vai ter que bater ainda mais duro em que o nomeou para estar onde está, e fazendo o que faz. Do contrário, teremos apenas mais uma troca de cadeiras em um governo onde isso é comum, mas sem que se mexe na raiz do problema que vem a ser a própria natureza ideológica do governo Bolsonaro e suas consequências materiais para a ação do Estado brasileiro. 

Desta forma, se pelo menos o caso de Roberto Alvim servir para que se cesse a permissividade em relação ao governo Bolsonaro, o ainda secretário especial da Cultura   terá prestado um serviço à saúde e vitalidade da democracia brasileira.  A sua já anunciada demissão do cargo que ocupou de forma breve é sinal que o governo Bolsonaro já percebeu a gravidade do problema. Resta saber agora se a dita oposição de esquerda e a sociedade civil brasileira irão começar a atacar o centro do problema, i.e., a própria natureza ideológica do governo Bolsonaro, ou se vão preferir, como faz a mídia corporativa, continuar a “passar o pano” enquanto passam o trator por cima de todos nós.

 

Jair Bolsonaro e a falácia do desmatamento como traço cultural brasileiro

salles bolsonaroO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles sorriem com o sucesso do desmanche da governança ambiental na Amazônia. Mas o problema seria o traço cultural dos brasileiros

Após ter exitosamente exterminado as estruturas de comando e controle que garantiam formas básicas de governança ambiental no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro saiu pela tangente ao tentar explicar a jornalistas as razões da explosão nas taxas de desmatamento ao afirmar que “... você não vai acabar com o desmatamento, nem com queimadas, é cultural“.

bolso cultura

A primeira coisa que precisa ser dita é que se há uma cultura do desmatamento e do fogo no Brasil, a explicação para isso está fundamentalmente ligada à permanência de um padrão de alta concentração da propriedade da terra e ao aprofundamento de um modelo de forte dependência na exportação de commodities agrícolas como geradoras de reservas de moedas fortes. 

Em segundo lugar, como já está fartamente ilustrado na literatura científica, padrões culturais são ajustáveis e se transformam conforme os incentivos que ocorrem por parte de diferentes agentes societários, incluindo o Estado. O problema aqui é que o governo Bolsonaro foi montado a partir da noção de que seria preciso (e quase um direito divino) aprofundar os padrões ditados pelo latifúndio agro-exportador que é fortemente dependente do aumento da área em produção em face de sua inaptidão para fomentar ganhos significativos de produtividade.

Outro elemento importante é que se forem estudados os custos de produção das principais culturas de exportação, a começar pela soja, o que se observa é que a maioria dos produtores está operando com margens magérrimas de lucro e com fortes pressões advindas do aumento dos custos dos insumos, especialmente fertilizantes e agrotóxicos. Em função disso é que o governo Bolsonaro operou de forma industriosa em duas áreas expressas: 1) garantir a ampliação da área em produção, mesmo sob o risco de aumentar as taxas de desmatamento, e 2) baixar os custos de produção do insumo “agrotóxico”, mesmo sob pena de gerar uma hecatombe química no Brasil a partir da liberação de substâncias que já estão banidas em outras partes do mundo, inclusive na China que é o principal parceiro comercial do Brasil (o herbicida Paraquate é o maior exemplo disso).

Em suas explicações sobre o desastre de imagem que o aumento de 30% no desmatamento na Amazônia entre 2018 e 2019, o governo Bolsonaro está apontando para a necessidade de ampliar o processo de titulação de terras como a principal ferramenta para combater o que se classifica como desmatamento ou queimadas ilegais. Essa receita vem diretamente do receituário do Banco Mundial que há pelo menos três décadas aposta na entrega de títulos como uma ferramenta que poderia ampliar as chances de “usos sustentáveis da terra”.  O problema é que essa é mais uma falácia pró-mercado. Além disso, no caso da Amazônia, boa parte dos “novos desmatamentos” está ocorrendo em terras públicas, sejam elas reservas indígenas ou unidades de conservação.

Em outras palavras, não vai ser com titulação de terras que se resolverá os problemas relacionados à ampliação do binômio desmatamento-queimadas. Aliás, o que a titulação deverá incentivar é a ampliação da invasão de reservas indígenas e áreas de proteção ambiental, pois os grileiros e invasores poderão depois pedir a “legalização” das invasões via a titulação das terras invadidas.

A verdade é que não vejo muita saída para a crise ambiental em desenvolvimento na Amazônia sem muita pressão interna e dos parceiros comerciais do Brasil. É que sem isso, não haverá por parte do governo Bolsonaro qualquer disposição para retomar as ações de comando e controle. Aliás, o mais provável é que sejam desmanteladas as poucas estruturas que ainda restam. Tudo isso em nome do elemento cultural vislumbrado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Divulgando a programação completa da 3a. edição do “Festival Doces Palavras”

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Abaixo divulgo a programa completa da 3a. edição do “Festival Doces Palavras” que ocorrerá entre os dias 02 e 30 de Novembro em uma fórmula descentralizada que atingirá diferentes pontos da cidade de Campos dos Goytacazes com uma variedade atividades artísticas e culturais.

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Há que se louvar o esforço empreendido por ativistas do meio artístico e cultural para garantir a continuidade do “FDP” após a retirada intempestiva do governo municipal não apenas do financiamento,  mas também da organização deste evento que considero particularmente relevante para uma cidade tão necessitada de atividades dessa natureza.

Entretanto, desconfio que o boicote à 3a. edição do FDP será mais um sonoro tiro no pé que será dado pelo jovem prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e pelos seus menudos neoliberais. É que tanta pela ampla gama de organizadores e realizadores, mas principalmente pelo conjunto de atividades que marcarão o evento em 2019, haverá um ganho expressivo já que o FDP assumirá um papel ainda mais fundamental na difusão de movimentos e expressões culturais que mostram o que há de melhor em nosso município. 

Mesmo assim, é lamentável notar que após quase três anos de gestão, Rafael Diniz ainda não entendeu que aportar recursos públicos em eventos como o FDP nunca será gasto, mas sim investimento.

Para quem desejar acessar e baixar a programação completa da 3a. edição do “Festival Doces Palavras”, basta clicar [Aqui!]