Abraham Weintraub é apenas o sintoma de uma doença mais grave

weintraub olhoAbraham Weintraub, Mestre em Administração na área de Finanças pela Faculdade Getúlio Vargas e professor da Unifesp, está ministro da Educação no governo Bolsonaro, onde tem causado graves danos às universidades públicas

Acostumado a ser avaliado nas variadas esferas que compõe a vida de um professor universitário, sempre me fascino com o fato que temos um ministro da Educação, o “professor” Abraham Weintraub, cujo CV Lattes (uma espécie de pedra filosofal da ciência brasileira) não alcança nem os de vários dos meus orientandos. Aliás, noto com curiosidade que Weintraub não atualiza o seu CV Lattes desde o longínquo dia de 07  de março de 2017; coisa que não me seria permitida já que como membro de dois programas de pós-graduação não me seria permitida por causa das cobranças feitas pelo processo de avaliação realizada pela “Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior” (CAPES), agência que, interessantemente, está subordinada ao mesmo ministério que comandado por ele.

Eu me pergunto por que depois de tanto tempo trabalhando para desmanchar o sistema universitário que é a base fundamental do sistema nacional de ciência e tecnologia, não há uma exposição mais contundente das limitações acadêmicas de Abraham Weintraub, já que sua inapetência para o uso correto da língua portuguesa, ele mesmo já demonstra cotidianamente nas redes sociais.  Esse silêncio explica, ainda que parcialmente, toda a desenvoltura com que Weintraub consegue agir, seja atacando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou toda uma área de conhecimento que é o das Humanidades.

A verdade é que se o Brasil fosse um país que respeitasse minimamente o seu sistema educativo, Abraham Weintraub não seria ministro da Educação, nem tampouco seria docente em uma universidade pública, já que seu despreparo acadêmico é evidente. Mas como estamos no Brasil, Weintraub é ambas as coisas, sem que ninguém se dê ao trabalho de perguntar sobre como isso é tolerado pelos cardeais que ocupam as direções das organizações acadêmicas brasileiras compostas pelos personagens mais ilustres da ciência brasileira. A verdade é que Abraham Weintraub é muito fraco até para levar a cabo o projeto de privatização para o qual ele foi colocado no posto de ministro da Educação para executar.

Mas já conheci muitos Weintraubs ao longo dos meus 40 anos de vida universitária, desde que adentrei os bancos escolares da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E após encontrar os incontáveis similares de Abraham Weintraub, a única explicação que eu tenho é que há um molde de ondes esses personagens emergem, pois eles são onipresentes, sempre com posições que a maioria prefere descontar como “malucas” ou “excêntricas”, como se a loucura concedesse uma espécie de passe livre a posturas que vão de encontro ao que as universidades deveriam oferecer em termos da necessária construção de um sistema acadêmico e científico que possa contribuir para um modelo societário que nos permita desmantelar o que aí está e, que, claramente serve apenas a uma minoria privilegiada.

O interessante é que esses personagens que seguem o molde acadêmico “a la Weintraub” não falham. Hoje ao ler que um outro grupo de militares de pijama havia divulgado outro manifesto contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, e que entre os aderentes havia uma “professora doutora”  fui verificar o quilate do CV Lattes da signatária. E não deu outra, a produção mostrada por ela é pouco melhor do que a registrada por Weintraub. A peculiaridade em relação a essa outra personagem foi descobrir que ela é integrante da Academia Brasileira de Defesa, da qual é “Acadêmica Perpétua” (seja isso lá o que for). E a partir daí, ela se soma na tentativa de intimidar o STF. No melhor estilo Weintraub.

Em comum o que os “Weintraubs” têm é seu evidente desprezo pelo que outros conquistaram a mais a partir do próprio esforço, bem como a tentativa de impor aos outros aquelas tendências obscuras que possuem dentro de si.  Entretanto, o problema real é que, estando na posição de ministro da Educação, Abraham Weintraub não só causa danos incomensuráveis ao que se levou tanto tempo para construir, mas como habilita os seus assemelhados a se portarem como seus representantes direitos dentro das instituições onde estão, em uma espécie de oficialização do besteirol como critério relevante para definir a qualidade acadêmica.

multa weintraub

Governo do Distrito Federal multou Abraham Weintraub por não usar máscara em público

Por último, acabo de saber que Abraham Weintraub foi multado pelo governo do Distrito Federal por ter comparecido ontem sem máscara a uma manifestação organizada pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Esse tipo de punição, ainda que irrelevante do ponto de vista financeiro, explicita ainda mais a essência do que este personagem representa. É que se nem em meio a uma pandemia mortal, que já ceifou mais de 40.000 mil vidas apenas no Brasil, o sujeito se adequa a regras básicas de civilidade,  como aceitar que ele seja ou esteja ainda na posto que está? 

Produção acadêmica e lixo científico no Brasil

Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo no dia 06/01/15, o físico Rogério Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade de Campinas (UNICAMP), e membro  do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq) levantou uma lebre que há muito está sendo falada em voz baixa nos corredores das universidades brasileiras, mas que até agora era quase um tabu (Aqui!), qual seja, o baixo impacto da maioria das publicações produzidas pelas nossa comunidade científica.  Em seu arrazoado construído a partir de um levantamento feito pela revista britânica “Nature”, Cerqueira Leite apontou que o Brasil aporta 2,5% das publicações indexadas em revistas internacionalmente, atrás até do Chile. Além disso, Cerqueira Leite também notou que boa parte do que é incluído nos currículos dos pesquisadores brasileiros se dá na forma de jornais openscience (abertos), e que a maioria dos artigos não passa mesmo é de lixo científico.

O que Cerqueira Leite não disse é que essa situação se dá às barbas, e muitas vezes sob impulso das duas principais agências de fomento à produção científica no Brasil,  o CNPq e a CAPES. O fato é que essas agências foram tomadas pela lógica da quantidade para ocultar a falta de qualidade que decorre do contínuo sucateamento financeiro e intelectual das universidades brasileiras, especialmente em anos da vigência da máxima “Brasil grande, Estado pequeno” que se instalou após as reformas neoliberais impostas no governo de Fernando Collor de Melo.  

Esta realidade é hoje conhecida até do mais jovem pesquisador que está iniciando os seus estudos de Iniciação Científica, e foi elevada aos momentos quase sacralizados pelo Currículo Lattes, que se tornou a principal forma de se obter recursos, cada vez mais escassos diga-se de passagem, e que acabam ficando quase sempre nas mesmas mãos.  Além disso, qualquer avaliação que seja feita hoje pela CAPES e pelo CNPq irá utilizar o total de produções, seja o artigo publicado na Nature ou no “Journal of Applied Sciences da Universidade Federal de Atol das Rocas”.  Mas o pior é que dai decorre uma lógica cínica de que é preciso publicar, seja lá o que for, em nome da sobrevivência. E ai de quem quiser refletir ou criticar essa hegemonia quantitativa!

É dessa adesão quase irrefletida a princípios quantitativos para se aferir mérito que decorre a adesão a pseudo-revistas científicas publicadas em prédios localizados em algum bairro central em países como Romênia, Índia e China. E como, apesar da lembrança colocada no momento do envio do CV Lattes ao CNPq que falsidade ideológica é crime, punições por fraude científica são quase tão raras quanto prisão por crime do colarinho branco. Em função disso, o que se vê é uma inundação de pseudo-artigos que aparecem normalmente em revistas que são colocadas em listas internacionais como devendo ser evitadas por suspeitas de serem fajutas (Aqui!).

Sair dessa cultura de quantidade sobre qualidade não será fácil, pois se prende a uma lógica de mérito que está institucionalizada. Entretanto, se não houver a devida disposição para enfrentar o problema, a ciência brasileira continuará num processo de auto-enganação cujo resultado final é nos manter como um país periférico na produção acadêmica qualificada e, pior, imerso nas profundas desigualdades sociais e econômicas que se mantém intactas por causa dessa situação científica capenga.

Aproveitando a deixa, ainda digo que se alguém está surpreso no número de notas “zero” na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), esta surpresa seria ainda maior se fossem lidas algumas dissertações e teses, e artigos científicos produzidos até nas melhores universidades brasileiras. A baixa proficiência no uso da língua portuguesa é de tal proporção que chega a ser assustador para uma pessoa que, como eu, teve pais cuja escolaridade não passou dos dois anos iniciais do antigo ensino primário. É que, em comparação, meus pais tinham melhor controle e garbo no tratamento da língua portuguesa!  

Agora, parafraseando Karl Marx, para evitar jogar a criança fora com a água suja do banho, eu diria que a saída para esta armadilha criada por quem quer destruir o nosso incipiente parque científico nacional será exigir que se reverta a lógica do mérito a partir de critérios que coloquem a importância e a necessidade de uma produção intelectual que sirva efetivamente para resolver os graves problemas que afligem o Brasil.  E aqui há que se valorizar sim a produção científica qualificada, e que esteja submetida a critérios de robustez, independente da disciplina em que estiver incluída. Do contrário, continuaremos a produzir lixo acadêmico e a sermos motivo de escárnio. E, o que é pior, afundados num ciclo social que mistura pobreza, segregação e violência.