Financiada por Daniel Vorcaro, a mina da Jangada será tema de audiência pública na Assembleia de MG

Moradores de Brumadinho pedem socorro à Assembleia Legislativa de Minas. A mina da Jangada faz parte do complexo minerário de Córrego do Feijão, epicentro do rompimento da barragem da Vale, que causou 272 mortes e devastou a bacia do Rio Paraopeba

A comunidade denuncia que a retomada das operações da mina pode acarretar sérios danos para a população do entorno, afetando o abastecimento de água da região. A audiência, convocada pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT), pretende debater os riscos e as irregularidades relacionados à expansão das operações no Complexo Jangada-Córrego do Feijão, da Vale/Itaminas, em Brumadinho, que seguem adiante apesar da tragédia-crime em 2019. 

A mesa será composta por representantes do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público Federal (MPF), Agência Nacional de Mineração (ANM), Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), Prefeituras de Brumadinho e Sarzedo, Vale S.A. e Itaminas Comércio de Minérios S.A., Associação Comunitária da Jangada e Instituto Cordilheira

Contexto

O mapa acima mostra a proximidade da cava de exploração (Jangada) com a comunidade homônima e, também, com a barragem que causou a morte de 272 pessoas em 2019. Fonte: Mongabay

Desde agosto de 2025, a Itaminas passou a explorar a cava da Jangada, arrendada da Vale e localizada ao lado da cava do Córrego do Feijão, no Complexo Paraopeba, em Brumadinho. A  principal preocupação da comunidade é o risco de rebaixamento do lençol freático e contaminação das nascentes que abastecem as casas. Moradores e lideranças locais afirmam que, apesar da tragédia de 2019, o modelo de exploração mineral e a relação entre as mineradoras e o poder público permanecem os mesmos, sem garantias suficientes de segurança hídrica e ambiental.

A comunidade cobra estudos hidrogeológicos independentes, maior transparência sobre a qualidade da água e respostas sobre o licenciamento ambiental. O caso também ganhou novos contornos após investigações da Polícia Federal sobre suspeitas de corrupção em licenciamentos ambientais em Minas Gerais e questionamentos sobre possível conflito de interesses envolvendo o atual presidente da Feam, que já prestou serviços à Itaminas.

A Repórter Brasil mostra os riscos envolvidos com a retomada da mineração na região. Na reportagem, é citado como a Itaminas, fundada em 1959, mantém operações e planta industrial em Sarzedo, que fica ao lado de Brumadinho. Em 1986, uma barragem de mineração em Itabirito operada pela Itaminas se rompeu e gerou sete mortes. No ano passado, a companhia mudou de dono. Foi vendida por Bernardo Paz, fundador do museu Inhotim, para três sócios: Rodrigo Gontijo (da AVG Mineração), Argeu Geo e Daniel Vorcaro, preso após fraude milionária com o Banco Master. Este último deixou a sociedade recentemente. (Leia na íntegra (Aqui!) )

Assista ao curta documentário produzido pelo Instituto Cordilheira e entenda mais sobre o caso.

Reportagens sobre o caso:

Serviço

Data: 26 de maio, terça-feira Horário: 16h

Local: Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) – Rua Rua Rodrigues Caldas, 79 Santo Agostinho, Belo Horizonte

 

A crise de Flávio Bolsonaro pode redefinir a eleição presidencial

 

O enfraquecimento de Flávio Bolsonaro altera o tabuleiro eleitoral e reabre o debate sobre a ausência de uma alternativa de esquerda ao lulismo

A bomba que caiu sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, após a revelação de que o filho primogênito do ex-presidente teria solicitado R$ 134 milhões ao agora desmoralizado ex-banqueiro Daniel Vorcaro, colocou o processo eleitoral em uma espécie de animação suspensa. Atingida de forma potencialmente letal pelas denúncias de favorecimento financeiro, a candidatura de Flávio Bolsonaro talvez sequer consiga ultrapassar a fase de pré-campanha.

Como as demais candidaturas de direita não têm conseguido empolgar no confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um nome potencialmente forte como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não se desincompatibilizou a tempo e, portanto, está impedido de disputar a Presidência da República, abre-se um cenário político bastante peculiar. O atual presidente, que previa enfrentar uma disputa dura e polarizada, pode acabar encontrando um caminho eleitoral significativamente menos turbulento diante da ausência de uma candidatura competitiva da direita ou da extrema-direita.

Por outro lado, é impossível ignorar, diante do descontentamento de uma parcela importante do eleitorado com o governo Lula III, o tamanho do erro estratégico cometido pelo Partido Socialismo e Liberdade ao aderir à candidatura petista já no primeiro turno. O partido corre o risco de ter pouca ou nenhuma relevância efetiva em uma eventual campanha de reeleição de Lula e, de quebra, comprometer sua própria viabilidade nas disputas proporcionais.

Ao abdicar de uma candidatura própria, o PSOL perdeu a oportunidade de dialogar diretamente com setores da classe trabalhadora que já não se sentem contemplados pela estratégia de um capitalismo de face supostamente humana, fórmula política que o Partido dos Trabalhadores adotou desde sua chegada ao poder, em 2003.

Nesse contexto, talvez exista uma janela importante para que uma candidatura situada à esquerda do PT deixe de ocupar a condição de mero “traço” nas pesquisas eleitorais. Mas isso dependerá da coragem e da disposição dos partidos que não aderiram ao governo de construir uma campanha voltada aos trabalhadores reais — e não apenas aos seus próprios círculos militantes.

Mas para que essa possibilidade se concretize, não bastará apenas ocupar um espaço eleitoral vazio deixado pelas crises da direita e pelas limitações do lulismo. Uma alternativa efetivamente de esquerda precisará apresentar propostas estruturais para enfrentar a brutal concentração de riqueza que marca a sociedade brasileira, recolocando no centro do debate temas como reforma tributária progressiva, valorização do trabalho, ampliação dos serviços públicos e democratização do acesso à terra e à moradia. Ao mesmo tempo, será inevitável abraçar uma agenda ecológica consequente, baseada na transição para um novo modelo agrícola menos dependente de monoculturas e agrotóxicos, bem como na implantação urgente de políticas de adaptação climática, especialmente nas grandes metrópoles, onde enchentes, ondas de calor e desastres ambientais já atingem de forma desproporcional as populações mais pobres.

Flávio Bolsonaro: do chocolate às superproduções

Depois das mansões milionárias, das transações nebulosas e da épica carreira como vendedor de chocolates, surge agora a tentativa de transformar Jair Bolsonaro em personagem de blockbuster político

A mais recente revelação envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro adiciona mais um capítulo ao já vasto repertório de relações nebulosas entre política, dinheiro e conveniências mútuas no entorno do clã Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas recentemente, Flávio teria negociado com Vorcaro um aporte milionário supostamente destinado à produção de um filme biográfico sobre seu pai — um projeto que, por si só, já suscita perguntas sobre prioridades políticas, interesses privados e os limites entre propaganda e produção cultural.

Naturalmente, a tentativa de vender uma epopeia cinematográfica sobre Jair Bolsonaro como empreendimento “artístico” seria cômica se não fosse também reveladora. Afinal, não se trata apenas de um ex-presidente polarizador tentando consolidar seu próprio mito político através das telas. O que chama atenção é o elenco de personagens envolvidos na operação — especialmente Flávio Bolsonaro, cuja trajetória pública parece oscilar entre negócios improváveis e patrimônio imobiliário surpreendentemente robusto.

E aqui talvez caiba uma pergunta inevitavelmente irônica: quem ainda consegue se surpreender com revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro? Estamos falando de um senador cuja biografia pública já inclui episódios suficientemente pitorescos para transformar qualquer roteiro cinematográfico em mera adaptação documental. Entre a célebre atuação como vendedor de chocolates e a recorrente habilidade de circular em negociações relacionadas a mansões milionárias, o espanto já deveria ter sido aposentado há bastante tempo.

O episódio do suposto financiamento do filme apenas reforça a percepção de que, no bolsonarismo, a política nunca caminhou sozinha. Ela vem invariavelmente acompanhada de redes empresariais, favores cruzados, relações financeiras opacas e projetos pessoais embalados como causas nacionais. A construção da imagem pública de Jair Bolsonaro sempre dependeu de uma poderosa máquina de marketing político; agora, aparentemente, busca-se elevá-la ao status de superprodução cinematográfica.

Resta saber se o público brasileiro ainda possui disposição para consumir esse tipo de narrativa heroica depois de anos marcados por crises institucionais, escândalos financeiros, ataques à democracia e uma permanente confusão entre interesses familiares e funções públicas. Porque uma coisa é certa: se o objetivo era produzir um filme de ficção convincente, talvez a realidade já tenha ultrapassado qualquer possibilidade de roteiro.

E antes que eu me esqueça: quem precisa da Lei Roaunet quando se é amigo de Daniel Vorcaro?

Banco Master: o caso que pode implodir a política brasileira

Relatos de coerção, registros comprometedores e decisões públicas sob suspeita expõem um sistema que atravessa partidos e ameaça a transparência democrática

Quanto mais surgem informações sobre o escândalo envolvendo o Banco Master, mais difícil se torna ignorar os paralelos com outros casos internacionais de cooptação e coerção de elites políticas. A comparação com Jeffrey Epstein não é casual — ainda que, no caso brasileiro, não haja até o momento acusações de crimes da mesma natureza.

O que emerge, contudo, é um padrão perturbador: o uso sistemático de estratégias de sedução, captura e posterior constrangimento como instrumentos de influência política. No centro dessa engrenagem estaria Daniel Vorcaro, associado à promoção de encontros privados, festas e ambientes cuidadosamente preparados — não apenas para entretenimento, mas para registro. Segundo relatos, essas situações teriam sido gravadas, criando um acervo potencialmente explosivo de material comprometedor.

A lógica é conhecida: primeiro, a aproximação; depois, a exposição; por fim, a possibilidade de coerção. Trata-se de um mecanismo que desloca o eixo da influência política do campo público — debate, convencimento, negociação — para o terreno opaco da chantagem e do controle privado. Não é apenas uma questão moral; é uma distorção estrutural do funcionamento democrático.

Agora, com a confirmação da existência de gravações que colocariam figuras públicas em situações embaraçosas — algumas delas autoproclamadas defensoras da moral, dos bons costumes e da família —, assiste-se a um movimento previsível: a tentativa de blindagem das informações sob o argumento do direito à privacidade.

Mas essa alegação merece escrutínio. A partir do momento em que comportamentos privados passam a ser utilizados como instrumento de pressão para influenciar decisões públicas — especialmente aquelas com impacto econômico relevante —, a fronteira entre o privado e o público se dissolve. Não se trata mais de intimidade, mas de interesse coletivo.

Se, como indicado, essas práticas foram mobilizadas para garantir facilidades ao Banco Master, com potenciais prejuízos bilionários para os trabalhadores brasileiros, o caso deixa de ser um escândalo restrito a indivíduos e se transforma em uma questão de responsabilidade pública. E, nesse contexto, o acesso à informação não é um capricho — é uma exigência democrática.

Outro aspecto relevante é o caráter transversal dos envolvidos. Ao que tudo indica, o alcance dessas práticas não respeita alinhamentos ideológicos ou partidários. A teia se estende por diferentes segmentos do espectro político, revelando uma zona de convergência pouco visível: aquela onde interesses privados se sobrepõem a compromissos públicos.

Diante disso, a divulgação integral das informações disponíveis não deve ser vista como exposição gratuita, mas como condição para que a sociedade possa exercer julgamento informado — especialmente em um contexto pré-eleitoral. Saber quem são os agentes públicos suscetíveis a esse tipo de cooptação é fundamental para qualquer escolha consciente nas urnas.

No fim, o caso Banco Master não é apenas sobre um banco, um empresário ou um conjunto de políticos. É sobre os limites — cada vez mais tênues — entre poder, intimidade e controle. E sobre o preço que se paga, coletivamente, quando esses limites são ultrapassados.