Quando até o Estadão desconfia: Flávio Bolsonaro e o peso do cavalo chamado Master

Editorial de O Estado de S. Paulo afirma que o candidato do PL está “sob suspeita” e expõe uma contradição cada vez mais difícil de esconder entre o discurso anticorrupção do bolsonarismo e suas relações com Daniel Vorcaro

Há momentos em que uma posição política ganha significado adicional não apenas pelo que é dito, mas por quem resolveu dizê-lo. É justamente isso que torna especialmente relevante o editorial publicado por O Estado de S. Paulo no sábado, 12 de setembro, sob o título nada ambíguo “Flávio é um candidato sob suspeita”. Não estamos diante de um jornal que possa ser acusado seriamente de possuir simpatias históricas pela esquerda brasileira. Quando o Estadão chega à conclusão de que Flávio Bolsonaro enfrenta um problema de natureza ética para apresentar-se como candidato à Presidência da República, alguma coisa importante mudou de lugar.

O editorial parte de um fato que se tornou impossível contornar: Flávio Bolsonaro está formalmente sob investigação da Polícia Federal por causa de sua participação na busca de recursos junto a Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O próprio Flávio Bolsonaro já reconheceu que procurou Vorcaro em busca de dinheiro, embora sustente que tudo não passou de uma operação entre particulares, sem qualquer contrapartida política. A dimensão financeira da empreitada, entretanto, está muito longe da imagem inocente de um filho passando o chapéu para produzir um filme sobre o pai: a negociação chegou à casa dos R$ 134 milhões, enquanto documentos divulgados pela imprensa indicam que aproximadamente R$ 61 milhões chegaram efetivamente a ser transferidos.

É justamente aí que a história do Dark Horse deixa de ser uma curiosidade cinematográfica e passa a integrar o enredo muito mais amplo do Banco Master. A Polícia Federal reconstruiu contatos e encontros entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, inclusive a partir do material apreendido no celular do banqueiro. Há ainda registros da proximidade entre ambos, inclusive mensagens em que Flávio Bolsonaro tratava Vorcaro como “irmão”.

A defesa apresentada pelo candidato — a de que se tratava de “dinheiro privado” destinado a um “filme privado” — tampouco encerra a questão. O problema não é simplesmente saber se havia uma rubrica orçamentária do governo federal pagando diretamente a produção cinematográfica. A pergunta relevante é de onde saía o dinheiro, por quais estruturas financeiras ele circulava, quais interesses cercavam seus financiadores e que tipo de relação se estabeleceu entre um banqueiro e membros de uma família que ocupa posição central na política brasileira. Chamar o dinheiro de “privado” não funciona como água benta capaz de purificar automaticamente sua origem.

E aqui surge uma ironia especialmente indigesta. O Banco Master não aparece nessa história como uma empresa qualquer distribuindo patrocínios culturais. O colapso do banco colocou no centro do debate justamente a natureza de suas operações financeiras e os prejuízos potenciais associados a elas. Por isso, investigar o caminho percorrido pelo dinheiro que saiu do universo empresarial de Vorcaro em direção ao projeto cinematográfico dos Bolsonaro não representa criminalizar relações privadas. Representa fazer uma pergunta elementar sobre a circulação de recursos em torno de agentes econômicos e políticos poderosos.

Há ainda outro aspecto que torna o editorial do Estadão particularmente significativo. Durante anos, o bolsonarismo construiu parte substancial de sua identidade política apresentando-se como força destinada a limpar os estábulos da República. A corrupção seria sempre praticada pelos outros; seus próprios integrantes representariam a ruptura moral com a velha política. O caso Master produz uma inversão quase perfeita dessa narrativa. Agora são justamente personagens centrais do bolsonarismo que precisam explicar relações financeiras milionárias com Daniel Vorcaro.

É por isso que talvez a frase mais importante do editorial não esteja propriamente nas acusações que enumera, mas na conclusão política que extrai delas. O Estadão afirma que as suspeitas colocam em questão as próprias condições morais de Flávio Bolsonaro para disputar cargos eletivos. Trata-se de uma declaração extraordinariamente dura vinda de um jornal cuja história editorial dificilmente pode ser confundida com militância progressista.

Convém, naturalmente, preservar uma distinção fundamental: estar sendo investigado não equivale a estar condenado. Flávio Bolsonaro tem direito à defesa, e caberá às instituições determinar se houve crime e estabelecer eventuais responsabilidades. Mas esse princípio jurídico não obriga ninguém a suspender o julgamento político. Um candidato à Presidência da República pode perfeitamente não ter sido condenado criminalmente e, ainda assim, ter de explicar ao eleitorado por que estava envolvido numa operação financeira milionária com um banqueiro situado no centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

Talvez seja justamente esse o significado político mais profundo do editorial. Quando um jornal como O Estado de S. Paulo precisa recordar que existe diferença entre interesse público e interesse privado, entre dinheiro lícito e dinheiro cuja origem precisa ser esclarecida e entre responsabilidade criminal e responsabilidade política, é porque a deterioração do debate já foi longe demais.

E existe uma ironia final difícil de ignorar. O filme que deveria transformar Jair Bolsonaro em personagem épico chama-se Dark Horse. Em português, o termo designa aquele competidor inesperado que surge de fora para surpreender os favoritos. Só que, a esta altura, o cavalo realmente escuro dessa história talvez não seja o personagem que o filme pretendia glorificar.

Daniel Vorcaro, médico-legista do Brasil do andar de cima

Entre whisky caro, cifras milionárias, ministros, parlamentares e um estranho Cavalo de Troia chamado Dark Horse, o caso Master expõe as entranhas de um poder que cobra moralidade dos pobres enquanto festeja longe deles

Os últimos acontecimentos envolvendo Daniel Vorcaro são reveladores da forma como funciona o Brasil do andar de cima. As revelações envolvem não apenas ministros do STF, mas alcançam também membros estrelados do Congresso Nacional. As cifras arroladas são consideráveis, e a mistura de personagens é de impressionar até quem observa o que acontece nos palácios e tribunais com um mínimo de distanciamento crítico.

Entre as coisas que saltam aos olhos, o que mais me chama a atenção é que todos os purismos e reservas cobrados dos pobres em termos de etiqueta e comportamento não são absolutamente seguidos por quem pode participar de festas luxuosas, regadas a whisky caro e frequentadas por jovens mulheres que certamente sabem o tipo de entretenimento que se espera delas.

O que realmente importa é que muitas das relações e decisões que agora deixam ministros do STF em um emaranhado de situações embaraçosas para quem diz prezar o decoro público eram mais do que conhecidas pela classe política que, não raras vezes, era copartícipe das festinhas — vamos chamá-las assim — que Daniel Vorcaro promovia para atrair os incautos, que depois se tornavam parceiros, tal como moscas são parceiras das aranhas enquanto balançam presas em suas teias.

Mas o que realmente importa para mim é que todos esses acontecimentos burlescos nos ajudam a entender como certas decisões claramente danosas para o país e para a maioria da população são aprovadas pelo Congresso Nacional e depois mantidas pelos tribunais superiores. É muita convergência de interesses para que haja algum desvio do percurso que começa a ser traçado em festas para as quais o povo jamais é chamado a participar.

Uma nota especial deve ser reservada para a situação cada vez mais inexplicável que cerca o filme Dark Horse, que vai se mostrando um verdadeiro Cavalo de Troia para Flávio Bolsonaro. Uma pergunta que tenho visto poucos fazerem é por que Daniel Vorcaro teria interesse em investir pelo menos R$ 61 milhões em um filme cuja marca maior seria trazer para dentro do projeto um ator cuja carreira já vinha em declínio, marcado por suas ligações com a extrema-direita e por escolhas ruins de casting. O que parece transparecer é que Vorcaro não estaria simplesmente apostando no retorno comercial de uma produção cinematográfica, mas mirando o futuro político, principalmente um futuro em que a família Bolsonaro voltasse a comandar o país. Diante do que já veio à tona, essa é a hipótese que me parece mais plausível a esta altura do campeonato.

Por outro lado, toda essa exposição do que agora aparece como as entranhas do poder político confere a Daniel Vorcaro um papel que ele provavelmente jamais almejou: o de uma espécie de médico-legista de um sistema político que está morto em pé. Quanto mais aparecem as relações construídas nos salões reservados, nas festas privadas e nos encontros entre personagens dos poderes político, econômico e judiciário, mais difícil fica sustentar a ficção de que determinadas decisões públicas são tomadas em ambientes impermeáveis aos interesses privados.

O problema agora é reconhecer que já passou da hora de ficarmos escolhendo entre o mal menor. É preciso assumir uma postura ativa em defesa da construção de uma nova ordem política em que esse tipo de festa de arromba se torne impossível, não por alguma súbita conversão moral daqueles que frequentam o andar de cima, mas pela postura ativa da maioria pobre e trabalhadora que, afinal, é quem produz a riqueza que torna este país um dos mais ricos do planeta.

Cui bono? Dark Horse e a tentativa de decapitar a Polícia Federal

Operação da PF sobre o financiamento de Dark Horse torna ainda mais inquietante a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente os responsáveis pela direção e pela inteligência da instituição

A operação deflagrada nesta quinta-feira (10) pela Polícia Federal acrescentou uma peça importante ao quebra-cabeça que envolve o Banco Master, Vorcaro, o filme Dark Horse e a crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e atingiu, entre outros, o deputado federal Mario Frias e Karina Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino e realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União, apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas.

O que torna a operação particularmente relevante é que Dark Horse aparece em duas frentes investigativas distintas. Enquanto a investigação sob relatoria de Flávio Dino procura esclarecer o possível uso irregular de recursos públicos, outra apuração, inserida no caso Master e sob relatoria de André Mendonça, investiga repasses relacionados ao financiamento privado do filme e sua conexão com  Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

É diante desse cenário que a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Leandro Almada, diretor de Inteligência da instituição, precisa ser examinada com especial atenção.  André Mendonça justificou sua decisão afirmando ter sido vítima de um “monitoramento sistemático” e ilegal realizado pela inteligência da PF. É uma acusação grave e que evidentemente precisa ser investigada. O problema começa quando aquele que se considera vítima dos atos investigados utiliza seus poderes jurisdicionais para afastar justamente os dirigentes da instituição responsável pela produção das informações que o atingem.

Foi precisamente essa contradição que Flávio Dino apontou ao determinar a reintegração dos dois delegados. Segundo Dino, André Mendonça não poderia transformar a defesa de seus próprios direitos em fundamento para uma decisão “em causa própria”, sobretudo quando o efeito concreto seria interferir na continuidade de investigações em andamento.   O ministro Flávio Dino destacou ainda que a substituição abrupta da direção e da inteligência da PF poderia comprometer equipes, fluxos de informação e o cumprimento das próprias determinações judiciais.

E aqui chegamos à velha pergunta latina: cui bono? A quem beneficia?  Não é necessário afirmar que André Mendonça decidiu afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada com a intenção de proteger  Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem das investigações. Não existem, até este momento, elementos públicos suficientes para fazer essa afirmação. Mas existe uma pergunta perfeitamente legítima sobre os efeitos objetivos da decisão: quem seria beneficiado pela desorganização da direção da Polícia Federal justamente quando diferentes investigações começam a convergir sobre Dark Horse, recursos públicos, Vorcaro e personagens politicamente ligados ao bolsonarismo?

A operação desta quinta-feira torna essa pergunta ainda mais incômoda. Andrei Rodrigues chegou a argumentar perante Flávio Dino que seu afastamento estava interferindo diretamente na organização da equipe responsável pelo caso Dark Horse, retardando o acesso ao material investigado e comprometendo a rapidez da apuração.  Portanto, já não estamos discutindo uma consequência abstrata. O próprio diretor-geral da PF afirmou judicialmente que a decisão de André Mendonça estava produzindo efeitos sobre uma investigação concreta que agora resulta em 49 mandados de busca e apreensão.

Há ainda outra dimensão que não pode ser ignorada. André Mendonça é o relator do caso Master e, ao mesmo tempo, tornou-se personagem da controvérsia produzida pelos relatórios da inteligência da Polícia Federal. Com sua decisão, passou a ocupar simultaneamente as posições de autoridade atingida pelos relatórios, julgador da legalidade desses documentos e responsável pelo afastamento daqueles que comandavam a instituição que os produziu. Juristas ouvidos pelo UOL apontaram justamente essa sobreposição como uma das vulnerabilidades da decisão.

Nada disso prova que André Mendonça esteja tentando proteger alguém. Mas demonstra por que a aparência de conflito de interesses tornou-se praticamente incontornável.  E existe uma coincidência temporal difícil de ignorar: menos de 48 horas depois da tentativa de decapitar a direção e a inteligência da Polícia Federal, a instituição colocou nas ruas uma operação que alcança justamente o universo político e financeiro de Dark Horse.  Talvez seja por isso que a pergunta mais importante neste momento não seja descobrir antecipadamente quais eram as intenções de André Mendonça. Em instituições republicanas, intenções são difíceis de demonstrar; consequências são muito mais fáceis de observar.

E a consequência potencial daquela decisão era bastante concreta: retirar simultaneamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência de uma Polícia Federal que está investigando alguns dos personagens política e financeiramente mais poderosos do país.  Por isso, diante da Operação Make Up, vale repetir a velha pergunta que costuma ser particularmente útil quando dinheiro, poder e política começam a circular pelos mesmos corredores: 

Cui bono? Quem ganharia com uma Polícia Federal decapitada justamente agora?

O maravilhoso mundo de Daniel Vorcaro: papéis podres, amigos poderosos e um Dark Horse

Se Franz Kafka tivesse conhecido Brasília, talvez tivesse desistido da literatura por falta de imaginação, pois o caso do Banco Master está demonstrando que, no Brasil, realidade, ficção e sátira podem disputar uma corrida em que a realidade costuma vencer com vários corpos de vantagem.

No centro da história está Daniel Vorcaro, personagem que passou em poucos anos da relativa obscuridade ao seleto clube dos banqueiros capazes de circular pelos salões onde política, dinheiro e poder se encontram sem precisar marcar audiência. O crescimento do Master ocorreu em meio a uma extraordinária expansão de operações financeiras que agora estão sendo destrinchadas por investigadores e órgãos reguladores. A CVM acaba, inclusive, de condenar o Banco Master, Daniel Vorcaro e outros envolvidos por práticas fraudulentas ocorridas entre 2018 e 2019, período em que o grupo procurava viabilizar a aquisição do antigo Banco Máxima. Mais interessante ainda é que a história do Master atravessou governos e construiu relações em diferentes quadrantes políticos, confirmando que o dinheiro sofre de uma conhecida dificuldade para distinguir direita de esquerda.

A situação mudou quando apareceu a Polícia Federal e Daniel Vorcaro acabou preso quando se preparava para deixar o país em um avião privado, enquanto as investigações começaram a revelar uma impressionante rede de contatos envolvendo políticos, empresários e integrantes das instituições que deveriam fiscalizar justamente esse tipo de atividade. De repente, o Banco Master deixou de parecer apenas um banco com problemas e começou a adquirir a aparência de uma espécie de rede social VIP da República: quanto mais se investigava, mais gente importante aparecia.

No meio dessa história surgiu ainda o Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter procurado Daniel Vorcaro em busca de recursos para o filme e declarou que estava apenas fazendo aquilo que qualquer filho dedicado faria: procurando patrocínio privado para contar a história do pai. Segundo informações tornadas públicas, Daniel Vorcaro teria colocado R$ 61 milhões na produção, enquanto Flávio chegou a solicitar R$ 134 milhões. Convenhamos que é uma homenagem filial de proporções cinematográficas, pois há filhos que dão gravatas no Dia dos Pais, enquanto outros procuram banqueiros para levantar dezenas de milhões de reais.

O roteiro ficaria apenas curioso se Flávio Bolsonaro não estivesse agora disputando a Presidência da República apresentando-se como adversário da corrupção e utilizando justamente o escândalo Master como arma política. O homem que procurou Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai transformou-se, por alguma maravilhosa alquimia eleitoral, em acusador das relações de terceiros com Daniel Vorcaro. O Dark Horse talvez ainda nem tenha chegado às telas, mas já poderia disputar o prêmio de melhor roteiro político adaptado.

Como toda boa produção brasileira sobre poder precisa chegar ao Supremo, eis que André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF representariam monitoramento ilegal e violação do Estado de Direito, mas existe um inconveniente político difícil de esconder debaixo do tapete: o próprio nome de André Mendonça apareceu no emaranhado de relações que as investigações do caso Master passaram a escrutinar. Temos, portanto, uma situação extraordinária em que integrantes da instituição investigadora produziram informações envolvendo autoridades e uma dessas autoridades participou da decisão que afastou justamente o chefe da instituição investigadora.

Não é necessário acusar ninguém de crime para perceber o tamanho do problema institucional, pois a questão deixou de ser apenas aquilo que cada autoridade fez ou deixou de fazer e passou a envolver algo muito mais elementar: quem investiga os investigadores, quem investiga os julgadores e, sobretudo, quem julga quando o próprio julgador aparece no universo dos fatos investigados?

Talvez essa seja a grande contribuição histórica do Banco Master, pois Daniel Vorcaro conseguiu produzir uma espécie de teste de estresse da República brasileira. Ao puxar um fio, apareceram banqueiros, políticos, ministros, advogados, empresários, contratos milionários, relações pessoais e até uma superprodução cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. O Master foi liquidado, mas sua verdadeira contabilidade talvez esteja apenas começando a ser conhecida, e não se trata daquela registrada nos balanços bancários, mas da contabilidade muito mais interessante das relações entre dinheiro e poder.

É precisamente nesse ponto que a sátira deixa de ser engraçada, porque o caso Master revela como parcelas das elites brasileiras circulam por uma zona onde negócios privados, relações políticas e instituições públicas parecem perigosamente próximas. As ideologias proclamadas diante das câmeras tornam-se surpreendentemente flexíveis quando as portas se fecham, permitindo que um banqueiro converse com gente situada em diferentes pontos do espectro político porque, nas alturas da República, talvez exista uma ideologia muito mais ecumênica do que aquelas apresentadas ao eleitorado: a proximidade com o dinheiro e com quem pode abrir portas.

Por isso, transformar o Master simplesmente em escândalo “do bolsonarismo”, “do lulismo”, “da direita” ou “da esquerda” pode acabar servindo justamente aos personagens que precisam ser investigados. O que emerge dessa história é algo estruturalmente mais desagradável: um sistema de relações entre dinheiro e poder capaz de atravessar governos, partidos e instituições, enquanto cada grupo tenta convencer a população de que Daniel Vorcaro só conhecia profundamente os integrantes do campo adversário.

Daniel Vorcaro talvez tenha começado essa história querendo construir um banco e terminado ajudando involuntariamente a produzir uma radiografia da República. O problema é que, diante do que começa a aparecer na chapa, o diagnóstico talvez não recomende simplesmente trocar o médico, mas examinar com muito mais cuidado o hospital inteiro.