O maravilhoso mundo de Daniel Vorcaro: papéis podres, amigos poderosos e um Dark Horse

Se Franz Kafka tivesse conhecido Brasília, talvez tivesse desistido da literatura por falta de imaginação, pois o caso do Banco Master está demonstrando que, no Brasil, realidade, ficção e sátira podem disputar uma corrida em que a realidade costuma vencer com vários corpos de vantagem.

No centro da história está Daniel Vorcaro, personagem que passou em poucos anos da relativa obscuridade ao seleto clube dos banqueiros capazes de circular pelos salões onde política, dinheiro e poder se encontram sem precisar marcar audiência. O crescimento do Master ocorreu em meio a uma extraordinária expansão de operações financeiras que agora estão sendo destrinchadas por investigadores e órgãos reguladores. A CVM acaba, inclusive, de condenar o Banco Master, Daniel Vorcaro e outros envolvidos por práticas fraudulentas ocorridas entre 2018 e 2019, período em que o grupo procurava viabilizar a aquisição do antigo Banco Máxima. Mais interessante ainda é que a história do Master atravessou governos e construiu relações em diferentes quadrantes políticos, confirmando que o dinheiro sofre de uma conhecida dificuldade para distinguir direita de esquerda.

A situação mudou quando apareceu a Polícia Federal e Daniel Vorcaro acabou preso quando se preparava para deixar o país em um avião privado, enquanto as investigações começaram a revelar uma impressionante rede de contatos envolvendo políticos, empresários e integrantes das instituições que deveriam fiscalizar justamente esse tipo de atividade. De repente, o Banco Master deixou de parecer apenas um banco com problemas e começou a adquirir a aparência de uma espécie de rede social VIP da República: quanto mais se investigava, mais gente importante aparecia.

No meio dessa história surgiu ainda o Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter procurado Daniel Vorcaro em busca de recursos para o filme e declarou que estava apenas fazendo aquilo que qualquer filho dedicado faria: procurando patrocínio privado para contar a história do pai. Segundo informações tornadas públicas, Daniel Vorcaro teria colocado R$ 61 milhões na produção, enquanto Flávio chegou a solicitar R$ 134 milhões. Convenhamos que é uma homenagem filial de proporções cinematográficas, pois há filhos que dão gravatas no Dia dos Pais, enquanto outros procuram banqueiros para levantar dezenas de milhões de reais.

O roteiro ficaria apenas curioso se Flávio Bolsonaro não estivesse agora disputando a Presidência da República apresentando-se como adversário da corrupção e utilizando justamente o escândalo Master como arma política. O homem que procurou Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai transformou-se, por alguma maravilhosa alquimia eleitoral, em acusador das relações de terceiros com Daniel Vorcaro. O Dark Horse talvez ainda nem tenha chegado às telas, mas já poderia disputar o prêmio de melhor roteiro político adaptado.

Como toda boa produção brasileira sobre poder precisa chegar ao Supremo, eis que André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF representariam monitoramento ilegal e violação do Estado de Direito, mas existe um inconveniente político difícil de esconder debaixo do tapete: o próprio nome de André Mendonça apareceu no emaranhado de relações que as investigações do caso Master passaram a escrutinar. Temos, portanto, uma situação extraordinária em que integrantes da instituição investigadora produziram informações envolvendo autoridades e uma dessas autoridades participou da decisão que afastou justamente o chefe da instituição investigadora.

Não é necessário acusar ninguém de crime para perceber o tamanho do problema institucional, pois a questão deixou de ser apenas aquilo que cada autoridade fez ou deixou de fazer e passou a envolver algo muito mais elementar: quem investiga os investigadores, quem investiga os julgadores e, sobretudo, quem julga quando o próprio julgador aparece no universo dos fatos investigados?

Talvez essa seja a grande contribuição histórica do Banco Master, pois Daniel Vorcaro conseguiu produzir uma espécie de teste de estresse da República brasileira. Ao puxar um fio, apareceram banqueiros, políticos, ministros, advogados, empresários, contratos milionários, relações pessoais e até uma superprodução cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. O Master foi liquidado, mas sua verdadeira contabilidade talvez esteja apenas começando a ser conhecida, e não se trata daquela registrada nos balanços bancários, mas da contabilidade muito mais interessante das relações entre dinheiro e poder.

É precisamente nesse ponto que a sátira deixa de ser engraçada, porque o caso Master revela como parcelas das elites brasileiras circulam por uma zona onde negócios privados, relações políticas e instituições públicas parecem perigosamente próximas. As ideologias proclamadas diante das câmeras tornam-se surpreendentemente flexíveis quando as portas se fecham, permitindo que um banqueiro converse com gente situada em diferentes pontos do espectro político porque, nas alturas da República, talvez exista uma ideologia muito mais ecumênica do que aquelas apresentadas ao eleitorado: a proximidade com o dinheiro e com quem pode abrir portas.

Por isso, transformar o Master simplesmente em escândalo “do bolsonarismo”, “do lulismo”, “da direita” ou “da esquerda” pode acabar servindo justamente aos personagens que precisam ser investigados. O que emerge dessa história é algo estruturalmente mais desagradável: um sistema de relações entre dinheiro e poder capaz de atravessar governos, partidos e instituições, enquanto cada grupo tenta convencer a população de que Daniel Vorcaro só conhecia profundamente os integrantes do campo adversário.

Daniel Vorcaro talvez tenha começado essa história querendo construir um banco e terminado ajudando involuntariamente a produzir uma radiografia da República. O problema é que, diante do que começa a aparecer na chapa, o diagnóstico talvez não recomende simplesmente trocar o médico, mas examinar com muito mais cuidado o hospital inteiro.

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