Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp

União Europeia e BR-319: a hipocrisia verde na estrada para o colapso da Amazônia

Sob o falso discurso do “desenvolvimento sustentável”, a pavimentação da BR-319 e a mineração de potássio em Autazes ameaçam destruir o último grande bloco preservado da floresta amazônica, acelerar a degradação florestal, empurrar o bioma para um ponto de não retorno climático e expor a hipocrisia ambiental da União Europeia

A reunião entre representantes do governo do Amazonas e embaixadores da União Europeia para discutir a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes expõe uma das contradições mais brutais do capitalismo verde contemporâneo: a tentativa de apresentar como “desenvolvimento sustentável” um projeto que pode acelerar o colapso ecológico da maior floresta tropical do planeta.

O discurso oficial é cuidadosamente construído. A BR-319 aparece como símbolo de integração nacional, soberania e progresso econômico. O projeto de mineração de potássio em Autazes é vendido como solução estratégica para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. Na superfície, a narrativa parece racional e pragmática. Mas basta observar a história recente da Amazônia para perceber que o que está em curso é algo muito mais grave: a abertura definitiva do último grande bloco relativamente preservado da floresta amazônica brasileira para uma explosão de desmatamento, degradação florestal, grilagem de terras, mineração, expansão pecuária e conflitos fundiários.

A falácia central do discurso pseudo-pró-desenvolvimento consiste em fingir que a pavimentação da BR-319 pode ocorrer sem reproduzir exatamente o modelo predatório que historicamente acompanha toda expansão rodoviária na Amazônia. Estradas nunca funcionaram apenas como corredores de transporte. Elas operam como vetores de ocupação descontrolada. A vasta maioria do desmatamento amazônico ocorreu historicamente ao longo de eixos rodoviários. A BR-163, a Transamazônica e a própria expansão do chamado “arco do desmatamento” comprovam isso de forma inequívoca.

No caso da BR-319, os efeitos destrutivos já começaram mesmo antes da pavimentação integral. A simples retomada de manutenção e melhoria da estrada coincidiu com o crescimento acelerado de ramais clandestinos, avanço da grilagem, aumento de focos de incêndio e expansão do desmatamento em sua área de influência. A ideia de que o Estado brasileiro teria capacidade de controlar esse processo é uma ficção política conveniente. Os próprios órgãos ambientais vêm sendo sistematicamente enfraquecidos há anos, enquanto redes ilegais de ocupação territorial se expandem com enorme capacidade operacional e apoio político local.

Mas existe um aspecto ainda mais grave — e frequentemente invisibilizado — no debate sobre a BR-319: a aceleração massiva da degradação florestal. O estudo conduzido por Eraldo Matricardi e colaboradores e publicado na revista Science em 2020 demonstrou que, entre 1992 e 2014, a área de floresta degradada na Amazônia brasileira superou a área completamente desmatada. Foram cerca de 337 mil km² de florestas degradadas, contra aproximadamente 308 mil km² efetivamente desmatados. Vale destacar que participei diretamente como um dos colaboradores desse trabalho científico, o que permite afirmar com ainda maior convicção que os impactos indiretos da expansão rodoviária sobre a integridade ecológica amazônica continuam amplamente subestimados no debate público e governamental.

Essa descoberta desmonta outra manipulação central do discurso oficial. A destruição amazônica não ocorre apenas quando a floresta desaparece totalmente do mapa. Ela também acontece quando a floresta permanece aparentemente “em pé”, mas perde progressivamente sua integridade ecológica. Estradas como a BR-319 aceleram precisamente esse processo por meio da fragmentação florestal, da extração seletiva de madeira, da abertura de ramais ilegais, das queimadas recorrentes e dos incêndios de sub-bosque.

O resultado é uma Amazônia biologicamente empobrecida, climaticamente fragilizada e muito mais vulnerável ao fogo e às secas extremas. Uma floresta degradada ainda pode aparecer verde em imagens de satélite convencionais, mas sua biomassa diminui, sua biodiversidade colapsa e sua capacidade de armazenar carbono e reciclar umidade é profundamente reduzida.

Esse processo é particularmente perverso porque cria um ciclo de retroalimentação da destruição. Florestas degradadas tornam-se mais secas e inflamáveis. Isso favorece incêndios mais intensos, que ampliam ainda mais a degradação. Em um contexto de aquecimento global acelerado, o sistema pode entrar em espiral de colapso.

É precisamente nesse ponto que o debate sobre o chamado “ponto de não retorno” da Amazônia assume centralidade. Cientistas alertam há anos que a combinação entre desmatamento, degradação florestal e mudanças climáticas pode empurrar o bioma para uma transição irreversível em direção a uma savanização parcial. A floresta amazônica depende criticamente de sua própria umidade reciclada para sustentar os regimes de chuva da América do Sul. Quando a floresta perde densidade e continuidade, reduz-se também sua capacidade de gerar os chamados “rios voadores”, comprometendo o equilíbrio climático regional.

A BR-319 corta justamente uma das regiões ainda mais intactas da Amazônia brasileira. Sua pavimentação tende a conectar novas frentes de destruição ao arco do desmatamento, abrindo caminho para a interiorização definitiva do colapso ecológico amazônico. Em outras palavras: trata-se de uma intervenção potencialmente capaz de romper a última grande barreira geográfica contra a expansão da devastação em larga escala.

Tudo isso ocorre num momento de extrema vulnerabilidade climática. A Amazônia já enfrenta secas históricas, rios em níveis criticamente baixos, aumento da mortalidade de árvores e incêndios florestais sem precedentes. Há ainda crescente preocupação científica em torno da possibilidade de um novo super El Niño  em 2026, capaz de produzir efeitos devastadores sobre a capacidade hídrica da floresta. Em um cenário de secas extremas prolongadas, a degradação induzida pela BR-319 pode atuar como catalisador de uma crise ecológica de dimensões continentais.

É nesse contexto que a postura da União Europeia se revela particularmente hipócrita. Bruxelas gosta de se apresentar internacionalmente como liderança global na defesa da sustentabilidade, da transição ecológica e do combate às mudanças climáticas. No entanto, quando entram em cena interesses estratégicos ligados a fertilizantes, mineração e cadeias globais de commodities, os princípios ambientais rapidamente tornam-se flexíveis.

A disposição europeia de dialogar e potencialmente apoiar projetos associados à pavimentação da BR-319 e à mineração em Autazes revela uma velha lógica colonial reciclada em linguagem verde: preservação ambiental no discurso diplomático; flexibilização ambiental na prática quando estão em jogo interesses econômicos e geopolíticos.

A mineração de potássio em Autazes sintetiza perfeitamente essa contradição. O projeto avança sobre uma região ambientalmente sensível e envolve impactos severos sobre territórios indígenas, particularmente do povo Mura, cujos direitos vêm sendo progressivamente relativizados em nome de uma suposta urgência econômica. O que se apresenta como “transição sustentável” revela-se, na realidade, mais um capítulo do extrativismo predatório que transforma a Amazônia em zona de sacrifício para abastecer mercados globais.

Há ainda um elemento profundamente autoritário na retórica oficial: a tentativa de desqualificar qualquer crítica à BR-319 como sendo “anti-desenvolvimento”. Trata-se de uma armadilha ideológica clássica. Questionar a pavimentação da rodovia não significa defender isolamento ou pobreza. Significa reconhecer que repetir, em pleno colapso climático global, o mesmo modelo destrutivo das décadas de 1970 e 1980 representa uma aposta deliberada na intensificação da crise ecológica.

A pergunta central continua sendo: desenvolvimento para quem? Para as populações amazônicas, que enfrentarão secas mais severas, incêndios florestais, conflitos fundiários e perda de segurança hídrica? Ou para grupos minerários, cadeias agroexportadoras e interesses geopolíticos internacionais?

A Amazônia já envia sinais claros de exaustão ecológica. Persistir na pavimentação da BR-319 em meio ao agravamento da emergência climática global não é um projeto de desenvolvimento. É a institucionalização da destruição em larga escala travestida de modernização. E talvez a tragédia maior seja justamente esta: a devastação da floresta deixou de ser clandestina. Agora ela é discutida em reuniões diplomáticas, celebrada em discursos oficiais e legitimada por governos e atores internacionais que continuam falando em sustentabilidade enquanto ajudam a empurrar a Amazônia para o abismo.

Pequenos fragmentos florestais isolados são importantes para a preservação das populações de aves

florestas isoladas 1Pequenos remanescentes florestais são frequentemente considerados marginais, mas seu valor pode aumentar se as paisagens circundantes forem menos áridas e a cobertura arbórea próxima for mantida ou restaurada. Crédito da imagem: Alexandre C. Lees.

Por  Rodrigo de Oliveira Andrade para “scidev.net” 

[SÃO PAULO, SciDev.Net] Os pequenos fragmentos florestais que restam após a exploração madeireira e o avanço da agricultura ou a criação de reservatórios hidrelétricos podem ajudar a proteger mais espécies de aves do que se imagina, especialmente quando seu ambiente imediato é menos hostil e abundante em cobertura arbórea.

A conclusão desafia uma premissa ecológica amplamente aceita: a de que remanescentes florestais menores e mais isolados tendem a abrigar poucas espécies e geralmente são considerados de baixo valor para a conservação da biodiversidade. Ela deriva de um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Além disso, a pesquisa se destaca porque “fornece evidências convincentes de que o valor ecológico de um remanescente florestal não pode ser compreendido apenas por sua área de superfície”, disse o ecologista Juan Pablo Ramírez-Delgado, pesquisador da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, Canadá, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma revista em 11 de maio.

O trabalho original combinou dados de pesquisas sobre aves em escala de paisagem em regiões tropicais e subtropicais da América Latina, África e Ásia com imagens de satélite da cobertura arbórea ao redor de fragmentos florestais para medir até que ponto um ambiente com maior cobertura florestal pode atenuar o risco de extinção de espécies locais.

Realizada por 58 cientistas de 19 países, a pesquisa comparou dois tipos de remanescentes florestais: ilhas florestais criadas por reservatórios hidrelétricos — consideradas uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat — e fragmentos florestais terrestres, geralmente formados por desmatamento e cercados por áreas agrícolas.

Ilhas florestais são uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat. Crédito da imagem: Anderson Saldanha Bueno.

“Como as ilhas representam o cenário mais extremo de isolamento, pudemos avaliar como a melhoria da paisagem circundante influencia o número de espécies de aves em fragmentos florestais”, disse ao SciDev.Net o biólogo Anderson Saldanha Bueno, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil, e principal autor do estudo publicado na PNAS .

No total, foram analisados ​​mais de 1.000 remanescentes florestais — 336 ilhas florestais e 669 fragmentos terrestres — e cerca de 2.000 espécies de aves. Entre elas, cinco espécies estão criticamente em perigo, 12 em perigo, 44 ​​vulneráveis, 83 quase ameaçadas e 1.810 classificadas como de menor preocupação.

A pesquisa descobriu que o que acontece fora do fragmento — na chamada paisagem circundante — pode influenciar decisivamente a persistência e o número de espécies de aves que o habitam.

Em particular, fragmentos florestais rodeados por áreas agrícolas apresentam taxas de extinção de aves mais baixas em comparação com fragmentos do mesmo tamanho localizados em ilhas formadas por barragens ou reservatórios.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores.”

Anderson Saldanha Bueno, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil

E as perdas de espécies associadas à redução da área — um indicador conhecido pelos ecologistas como relação espécie-área — foram menores tanto em ilhas quanto em fragmentos terrestres quando outros fragmentos florestais estavam próximos, em um raio de até 300 metros.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores”, acrescentou Bueno.

“Em outras palavras, aumentar o número de árvores em apenas 300 metros ao redor de um fragmento reduz significativamente a taxa de extinções locais, especialmente entre as aves dependentes da floresta”, explicou ele.

Segundo Bueno, o número de aves pode duplicar quando o ambiente imediato consiste em áreas terrestres com maior número de árvores. Crédito da imagem: Luis Fábio Silveira.

Segundo o pesquisador, isso ocorre porque as árvores próximas facilitam a movimentação das aves entre os fragmentos e oferecem alimento e abrigo, reduzindo o isolamento das populações.

“A proteção de florestas extensas e intactas continua sendo essencial, mas as descobertas indicam que os esforços de conservação devem ir além”, observou Ramírez-Delgado em seu comentário na PNAS .

“Medidas como o reflorestamento em áreas próximas aos remanescentes, o plantio ou a preservação de árvores dispersas e a promoção de mosaicos agrícolas mais complexos podem contribuir para reduzir o risco de extinção local”, acrescentou.

“O que distingue este estudo é a força, a escala e a clareza da comparação. Em vez de se concentrarem em ilhas oceânicas, os autores usam ilhas de reservatório como um raro experimento natural para explorar como o contexto da paisagem influencia a biodiversidade após a fragmentação”, acrescentou.

Para a bióloga Eliana Cazetta, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia, Brasil, que não participou do estudo publicado na PNAS , a conclusão é importante para a conservação. “Nem todas as soluções dependem da expansão de áreas protegidas”, disse ela à SciDev.Net . “A melhoria do ambiente imediato de fragmentos florestais existentes também pode contribuir para a redução da perda de biodiversidade.”

Segundo ela, isso pode ser alcançado por meio do plantio de árvores, da restauração da vegetação degradada e da conexão de fragmentos florestais, como reservas legais e áreas de preservação permanente. “Dessa forma, é possível aumentar substancialmente o número de espécies sem expandir a área total de floresta remanescente.”

“Em vez de ignorarmos os pequenos fragmentos florestais, precisamos reconhecê-los como peças-chave para a conservação da biodiversidade”, conclui Bueno.


Fonte:  SciDev.Net

Políticas anti desmatamento estão falhando em proteger a Amazônia brasileira contra a degradação florestal

Incêndio na Amazônia brasileira

Antonio passou os últimos sete anos correndo em direção a incêndios dos quais a maioria foge. Bombeiro na Amazônia brasileira desde 2019, ele trabalha dentro da Reserva Extrativa Chico Mendes, um dos lugares mais biodiversos do mundo. 

Mas as coisas estão mudando, e rápido. “2024 foi o ano mais extremo para incêndios”, disse Antonio. “Nunca tinha visto nada igual. A floresta queimava como pastagem seca – era assustadora para aqueles de nós que arriscam a vida para protegê-la.”

O que Antonio e seus colegas bombeiros estão testemunhando no local foi comprovado por um novo estudo. Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade de Cambridge, descobriu que as políticas que ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia brasileira nas últimas duas décadas falharam em sua maioria em deter a degradação florestal: uma forma de destruição mais lenta e potencialmente mais perigosa. Seus resultados são publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

Diferente do desmatamento, onde áreas inteiras de floresta são desmatadas para agricultura, indústria ou infraestrutura, uma floresta degradada ainda possui árvores de pé. No entanto, foi tão danificado por incêndios, extração ilegal, fragmentação, secas e caça excessiva que perdeu grande parte de seu valor ecológico. O chão da floresta, desprovido de sombra e umidade, vira uma caixa de polvora.

“Ainda há uma floresta lá, mas está tão danificada que o carbono que antes armazenava começa a vazar, os animais desapareceram e novas espécies de gramíneas colonizam as bordas da floresta”, disse o autor principal, Dr. Federico Cammelli, do Departamento de Geografia de Cambridge e do Instituto de Pesquisa para a Conservação. “Incêndios em florestas tropicais são de baixa intensidade, as chamas frequentemente passam despercebidas sob a copa, mas após um ou dois anos, as árvores morrem enquanto estão em pé, e a floresta se transforma em um cemitério de árvores mortas em pé.”

Pesquisas anteriores mostraram que, entre 2001 e 2018, as emissões líquidas de carbono da degradação florestal na Amazônia brasileira foram comparáveis ou até maiores do que as do próprio desmatamento. Até 2050, a degradação pode afetar toda a Amazon brasileira, mas mal apareceu nas políticas destinadas a protegê-la.

O Brasil fez progressos reais no desmatamento. A primeira fase do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia do governo, lançado em meados dos anos 2000, reduziu o desmatamento de árvores em cerca de 60 a 80 por cento. Acordos no setor privado – incluindo uma moratória sobre a soja proveniente de terras desmatadas e o compromisso das empresas de processamento de carne de não obter gado de áreas recém-desmatadas – também contribuíram para o sucesso da região.

No entanto, os pesquisadores descobriram que quatro grandes políticas destinadas a reduzir o desmatamento em três estados brasileiros não diminuíram a degradação. Até o momento, poucas pesquisas foram feitas sobre esse tema devido à falta de dados sobre degradação e seus fatores. Os pesquisadores integraram os dados recém-disponíveis sobre degradação com conjuntos de dados de políticas para comparar os impactos de quatro tipos de intervenções políticas dos setores público e privado em diferentes fatores de degradação.

Quando o desmatamento desacelera, parte da degradação também diminui, já que as florestas sofrem menos com os chamados efeitos de borda onde áreas desmatadas tocam florestas intactas. “No entanto, não encontramos evidências conclusivas de que qualquer uma das políticas da cadeia de suprimentos, como a moratória da soja ou os acordos sobre gado, enfrentasse outros grandes fatores de degradação antropogênica, como incêndios, extração madeireira e fragmentação”, disse Cammelli.

Em um caso, sugere a pesquisa, até mesmo políticas bem-sucedidas de desmatamento podem agravar a degradação. O acordo G4 sobre o setor de gado, assinado pelos quatro maiores empacotadores de carne do Brasil, parecia estar ligado a um aumento na extração de madeira: possivelmente porque, à medida que a pecuária se tornou mais regulada, algumas empresas migraram para o setor madeireiro menos regulado.

De volta a Chico Mendes, Antonio vê algumas das consequências dessas lacunas nas políticas. Ele disse que a estação seca agora dura mais a cada ano, as florestas estão ficando mais frágeis e as chuvas chegam com violência repentina, derrubando pontes e bloqueando estradas.

Ele não está otimista de que a lei está acompanhando. “As leis ambientais deveriam ser mais rigorosas, e os infratores deveriam ser devidamente punidos”, disse ele. “Se perdermos a floresta, perdemos nossas vidas indiretamente.”

Cammelli afirmou que a vontade política é vital. Uma atualização da política ambiental brasileira publicada em 2023 inclui a degradação florestal entre os critérios para direcionar a aplicação da lei ambiental a municípios com histórico ambiental precário, além de exigências específicas para reduzir o desmatamento.

“Incêndios frequentemente se espalham por muitas propriedades e envolvem responsabilidades complexas: quem é responsável pela ignição, quem pela propagação do fogo? Eles são melhor tratados na escala da paisagem. O setor madeireiro continua pouco regulamentado, e muito pode ser feito para combater o desmatamento ilegal”, disse ele.

Os pesquisadores estão defendendo uma mudança fundamental na forma como governos, empresas e reguladores pensam sobre a melhor forma de proteger as florestas.

O Regulamento de Desmatamento da UE, que proíbe a importação de produtos ligados à destruição florestal, define a degradação de forma muito restrita, dizem os pesquisadores, e em grande parte ignora os danos causados pelo fogo e a fragmentação causados pela produção de soja e carne bovina. Os pesquisadores estão incentivando a UE a expandir sua definição de degradação.

Apesar dos compromissos com o desmatamento, os pesquisadores não encontraram exemplos publicamente documentados de empresas operando na Amazônia brasileira que tivessem estabelecido metas concretas para combater especificamente a degradação florestal.

“Evitar o desmatamento e a degradação é muito mais importante para o clima e a natureza do que restaurar o que já se foi”, disse a autora sênior Professora Rachael Garrett, também do Departamento de Geografia e do Instituto de Pesquisa em Conservação de Cambridge. “Existem certas coisas que você não pode recuperar.”

“A cada ano”, disse Antonio, “a floresta e a vida selvagem se tornam mais vulneráveis.”

A pesquisa foi apoiada em parte pela União Europeia e pela Fundação Nacional Suíça para a Ciência.

 

Referência 


Federico Cammelli et al. ‘
Políticas focadas no desmatamento não reduzem a degradação na Amazônia brasileira.‘ Anais da Academia Nacional de Ciências (2026). DOI: 10.1073/pnas.2507793123


Fonte: University of Cambridge

Entre a retórica verde e a realidade marrom: Desmatamento e degradação florestal no governo Lula

Como alguém que vem estudando a mudança na cobertura vegetal na Amazônia há quase três décadas, não me animo com os dados divulgados recentemente pelo governo Lula sobre a remoção ocorrida entre agosto de 2025 e janeiro de 2026 no corte raso de florestas no Brasil. Duvido ainda mais de qualquer possibilidade de que se atinja o chamado Desmatamento Zero até 2030. Os motivos para a minha incredulidade são gerados pelo próprio governo Lula, que hoje atua em várias frentes para avançar a franja de desmatamento na Amazônia e no Cerrado com seus projetos de ferrovias, estradas e hidrovias, que oferecem grandes vantagens comparativas para quem deseje instalar mais monoculturas de exportação em áreas hoje ocupadas por florestas.

É preciso dizer que o motor principal do desmatamento é justamente o abraço dado pelo governo Lula à reprimarização da economia brasileira, que premia, desde o primeiro mandato do presidente, os grandes grupos privados que controlam o chamado agronegócio. Apesar do discurso voltado para a base social que já o elegeu três vezes, Lula mantém um compromisso evidente com os grandes latifundiários que controlam a produção de soja e outros grãos voltados à exportação. Para quem duvidar, basta verificar os valores destinados anualmente ao latifúndio agroexportador e à agricultura familiar no Plano Safra.

É preciso lembrar que a decisão de desmatar ou degradar florestas baseia-se na racionalidade (ou irracionalidade) dos ganhos de curto e médio prazo que os agentes esperam obter. Alterar a cobertura florestal tem um custo conhecido, e os períodos de alta e baixa do desmatamento estão mais relacionados à flutuação do preço das commodities nos mercados internacionais do que a ações concretas de aplicação das leis ambientais. Aliás, com o início da vigência da nova legislação de licenciamento ambiental, praticamente todo desmatamento tende a se tornar legal ou legalizável, o mesmo valendo para atividades degradadoras como mineração e extração seletiva de madeira.

Também é importante lembrar que a ênfase nos anúncios de controle do desmatamento constitui outra falácia. Como já demonstrado na literatura científica — inclusive em artigo do qual fui coautor na revista Science, em 2020 —, as florestas brasileiras são hoje alvo de processos de degradação que superam a área do desmatamento, causando danos iguais ou mais graves do que aqueles associados ao corte raso. Ao negligenciar a degradação florestal, o governo Lula apresenta apenas parte da realidade, criando a sensação de controle quando, na verdade, a situação permanece crítica.

A verdade é que o apoio continuado ao latifúndio agroexportador, seja via financiamento direto ou pela instalação de infraestrutura, funciona como um combustível permanente para a perda de florestas no Brasil. Isso ocorre apesar dos sinais evidentes de que o desmatamento e a degradação florestal na Amazônia e no Cerrado estão secando importantes rios brasileiros e condenando a população a situações drásticas de escassez hídrica nas próximas décadas. Mesmo que toda a destruição cessasse abruptamente, esse cenário já se mostra inevitável — e tende a se agravar, pois as condições para o avanço desses processos seguem sendo garantidas em diferentes níveis de governo, seja por omissão ou por cumplicidade direta.

O pior que se pode fazer diante de um cenário em que a retórica segue em uma direção e a prática em outra é aceitar a ideia de que tudo vai bem, ignorando os cenários socioambientais dramáticos que se desenham, apenas para que latifundiários e corporações multinacionais continuem acumulando fortunas. Em contraste, povos indígenas que há mais de um mês bloqueiam as atividades da multinacional Cargill, em Santarém, na luta contra a privatização do rio Tapajós, demonstram formas concretas de defesa do futuro comum. Que isso fique claro: dificilmente será a partir dos auditórios climatizados de Brasília que essa trajetória será revertida.

Destruição disfarçada de sustentabilidade: Desenvolvimento sustentável na Amazônia é conversa para boi dormir

Para analistas críticos, o termo “desenvolvimento sustentável” foi cunhado para desviar o debate sobre os malefícios do capitalismo sobre os sistemas naturais da Terra. E já se vão quase quase 4 décadas desde que o termo foi usado originalmente no famoso Relatório Bruntdland. E desde então o que se vê é o avanço desmensurado da destruição de ecossistemas naturais em todo o planeta. A Amazônia brasileira é talvez um das regiões em que já se injetou muito dinheiro em projetos que prometem a concretização desse modelo que promete formas menos destrutivas de utilização das riquezas naturais ali existentes.

Mas o que não se fala de forma minimamenrte clara é que para cada centavo gasto com projetos ‘sustentáveis”, milhares de reais são aplicados em outros projetos que claramente não têm nada de sustentáveis.  E isso acaba sendo obscurecido pela máquina publicitária do governo federal e de seus aliados dentro do que venho chamando de sistema “agroquímico mineral” que é composto por uma amálgama de latifundiários, corporações multinacionais que controlam o sistema alimentar global e grandes mineradoras. 

Hoje recebi uma coletânea de matérias do jornal “Folha de São Paulo” dentro de uma série intitulada “Grandes na Amazônia” que foi publicada entre julho/2025 e janeiro/2026. As matérias apresentam e analisam seis grandes projetos de investimento que incluem a construção ou ampliação de ferrovias, hidrovias, estradas e exploração de rochas destinadas a aumentar a produção nacional de fertilizantes (Aqui!, Aqui!, Aqui! Aqui! Aqui! Aqui!).  As matérias mostram claramente que esses projetos causarão não apenas problemas ambientais, mas servirão para deslocar e impor situações de grande violência sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. E como as matérias jornalíticas mostram, os riscos sociais e ambientais são plenamente conhecidos pelos ocupantes do governo federal, no caso a frente amplíssima construída pelo presidente Luís Inácio.

Conversando hoje com um parceiro científico de longa data, ouvi algo que me parece irrefutável. Ele, um pesquisador com décadas de experiência de pesquisas amazônicas, me disse que lamentavelmente há um grau muito grande de acordo sobre como usar a Amazônia entre as distintas forças politicas que têm ocupado historicamente o governo federal, apesar das distinções pontuais na hora de sustentar a lógica do uso dos recursos ali existentes. Na prática, segundo esse pesquisador,  fica tudo muito parecido quando se trata de definir as linhas de investimento em grandes projetos que nada têm de sustentáveis.

Desta forma, o chamado “desenvolvimento sustentável” tem operado, no caso da Amazônia, mais como discurso legitimador do que como alternativa real ao modelo predatório vigente. Apesar da retórica ambiental, os investimentos públicos e privados continuam priorizando grandes obras de infraestrutura, mineração e agronegócio, aprofundando o desmatamento, os conflitos sociais e a violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais. Esse padrão revela um amplo consenso político em torno de um projeto de uso da Amazônia subordinado ao sistema agroquímico-mineral, incompatível com uma sustentabilidade efetiva.

Como estamos entrando em um ano eleitoral em que certamente teremos novamente campanhas eleitorais que vão reduzir o debate a um combate entre “bem” e “mal” com vistas a impedir um debate mais amplo sobre quais são efetivamente as propostas de uso das riquezas nacionais, pois o debate aberto acaba mostrando que no caso da Amazônia as propostas são essencialmente as mesmas, qual seja, mais desmatamento e degradação florestal para alimentar a expansão do modelo agroquímico mineral.

A floresta amazônica: desmatamento e degradação florestal criam o ambiente propício para a próxima pandemia

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Em todo o mundo, as doenças zoonóticas e transmitidas por vetores (ZVBDs) , doenças que passam de animais para humanos, seja por contato direto ou por meio de vetores como mosquitos, aumentaram significativamente nas últimas décadas, ceifando milhões de vidas a cada ano. Agora, o foco está na floresta amazônica.

Floresta Amazônica: doenças infecciosas aumentam

Estima-se que 75% de todas as novas doenças infecciosas emergentes, juntamente com mais de 60% de todos os patógenos humanos, são transmitidos por animais.

As doenças transmitidas por mosquitos, por si só, colocam mais de 80% da população mundial em risco . Sua disseminação ameaça não apenas a saúde pública, mas também a economia mundial.

Mesmo antes do coronavírus paralisar as economias e lotar os hospitais, doenças infecciosas emergentes custavam ao mundo mais de US$ 1 trilhão por ano. A pandemia tornou esses custos dolorosamente visíveis, mas não criou o problema, apenas o expôs.

Desde 2003, surtos e pandemias tiraram mais de 15 milhões de vidas e drenaram aproximadamente US$ 4 trilhões da economia global.

Um estudo publicado na One Earth , revista de sustentabilidade da Cell Press , alerta que esta crise não é acidental. O desmatamento, a crise climática e a degradação ambiental estão criando a tempestade perfeita para que patógenos prosperem e se espalhem.

A autora principal do estudo, Raquel L. Carvalho, alerta para os riscos na Europa associados às doenças transmitidas por vetores:

A Europa está se tornando cada vez mais um ambiente favorável para doenças transmitidas por mosquitos, já que verões prolongados, temperaturas elevadas e chuvas mais intensas criam condições nas quais as populações de mosquitos podem se estabelecer e se espalhar em regiões onde antes não conseguiam sobreviver.

Desmatamento impulsiona o surgimento da próxima pandemia

Desde a década de 1940, mudanças na forma como os humanos usam a terra, derrubando florestas, expandindo o agronegócio e avançando para áreas selvagens, foram associadas a mais de um terço de todas as novas doenças infecciosas.

A crise climática está criando condições propícias à proliferação de mosquitos, carrapatos e patógenos. O aumento das temperaturas prolonga a temporada de reprodução dos mosquitos e permite que insetos transmissores de doenças se espalhem para locais onde antes os invernos os mantinham afastados.

Enquanto isso, o desmatamento e as mudanças no uso da terra aproximam os humanos dos animais selvagens, aumentando as chances de um evento de contágio. A pobreza e os sistemas de saúde precários aumentam o perigo, transformando a exposição em tragédia.

De acordo com um estudo publicado no International Journal of Emergency Medicine, as mudanças climáticas também estão interrompendo a produção e o fornecimento de alimentos, criando condições que permitem que micróbios e toxinas nocivos prosperem, enquanto condições climáticas extremas e temperaturas em elevação aumentam o risco de doenças transmitidas por alimentos, como Salmonella e E. coli.

Doenças, vírus, bactérias: fora de controle

Recentemente, temos visto um aumento acentuado na disseminação de doenças causadas por parasitas, vírus e bactérias, incluindo dengue , zika , chikungunya , oropouche , malária , febre maculosa , entre outras.

A disseminação da febre do oropouche, transmitida pelo pequeno mosquito culicoides paraensis , popularmente chamado de maruim, é outro sinal alarmante.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2025, 12.786 casos confirmados de oropouche foram notificados na região das Américas, incluindo mais de 11.888 casos no Brasil.

No Brasil, os surtos de oropouche se originaram na região da AMACRO (um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia) e já se espalharam pelo país até o estado do Espírito Santo, com 6.322 casos registrados em 2025, e pelo mundo.

A floresta amazônica é considerada um dos maiores reservatórios de doenças zoonóticas do mundo. Muitos cientistas têm alertado repetidamente que as perturbações ambientais estão impulsionando o aumento de doenças infecciosas e destacado o risco iminente de um patógeno letal originário da região.

Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse:

As mudanças climáticas desencadearão importantes mudanças ecológicas na Amazônia, muitas delas com potencial para reduzir sua biodiversidade, facilitando a disseminação de vetores de doenças conhecidos e aumentando as chances de surgimento de novas doenças.

Colocando comunidades em risco

Um estudo conduzido por Raquel L. Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP), e sua equipe, analisou 312 artigos que abordaram 39 doenças diferentes em 79 países. Grande parte desse trabalho se concentra nos patógenos em si ou nos insetos e animais que os transmitem. Em contraste, muito menos estudos consideram quem está exposto ou por que alguns grupos são mais vulneráveis ​​após a exposição.

Carvalho destacou lacunas na pesquisa existente:

Apenas 7,4% dos estudos analisaram o panorama completo: risco, exposição e vulnerabilidade. Estudar onde os mosquitos vivem pode indicar o perigo potencial, mas não revela quem corre maior risco ou por que certas comunidades têm maior probabilidade de adoecer.

Doenças como dengue, vírus do Nilo Ocidental e leptospirose prosperam não apenas porque mosquitos e roedores são abundantes, mas também porque as pessoas vivem em moradias precárias, sem saneamento adequado, ou porque as mudanças climáticas levam os mosquitos para novas regiões.

Se esses fatores humanos e ambientais forem ignorados, as previsões de onde e quando os surtos ocorrerão provavelmente sempre falharão.

A maioria dos estudos realizados vem dos Estados Unidos, China e Europa, enquanto as regiões tropicais, onde os riscos de doenças são maiores, permanecem pouco estudadas. Brasil e Quênia se destacam como exceções, mas vastas regiões da África, América do Sul e Ásia recebem pouca atenção.

Os lugares com maior probabilidade de produzir a próxima pandemia também são os menos preparados para preveni-la.

Construindo uma resposta melhor

Os pesquisadores do estudo explicaram que a prevenção requer um quadro mais completo dos riscos, ou seja, a combinação de dados ecológicos com realidades humanas e sociais.

Pobreza , educação, moradia e acesso à saúde são tão importantes quanto as mudanças climáticas e o uso da terra.

Por exemplo, na África Oriental, a malária foi mapeada de forma mais eficaz quando pesquisadores combinaram dados sobre mosquitos com medidas de pobreza e assistência médica. Em Nova York, as previsões da doença de Lyme melhoraram quando os cientistas consideraram tanto a abundância de carrapatos quanto o comportamento humano. Compreender juntos o perigo, a exposição e a vulnerabilidade nos fornece ferramentas para a prevenção.

Carvalho destacou que enfrentar a ameaça não será fácil, mas insiste que um monitoramento mais forte e a cooperação internacional são essenciais:

É claro que não há uma solução óbvia, mas sistemas de vigilância mais fortes, especialmente em focos de doenças, podem atuar como um radar de alerta precoce.

A cooperação científica transfronteiriça pode garantir que nenhuma região fique para trás. Além disso, uma abordagem de Saúde Única, reconhecendo que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas, deve orientar todas as decisões.

As comunidades que vivem na pobreza, as mais próximas da linha de frente das mudanças ambientais, são as primeiras a sofrer. Se continuarmos a ignorar a complexidade do risco de doenças, condenaremos essas populações vulneráveis ​​a pagar um alto preço, deixando o resto do mundo exposto.

A pandemia do coronavírus nos ensinou uma lição, nos mostrou o custo de estarmos despreparados. A próxima pandemia pode ser muito pior, impulsionada por extremos climáticos e perturbações ecológicas.

A linha entre negligência ambiental e sofrimento humano é muito tênue. Não deveria ser difícil entender que nossa saúde depende da saúde do nosso planeta, um protege o outro.


Fonte: The Canary

Dados de desmatamento branqueados: relatos de redução da perda de floresta tropical no Brasil são enganosos

.A degradação florestal explodiu na Amazônia em 2024 

Serraria clandestina na região de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 6 de fevereiro

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

A história de sucesso “Menos Desmatamento no Brasil!” recebeu ampla cobertura da mídia em maio passado, inclusive na Alemanha. Tanto o governo brasileiro quanto a Mapbiomas, rede de pesquisa que monitora os ecossistemas do país, confirmaram uma queda significativa no desmatamento na Amazônia no ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 30,6% menos floresta tropical foi destruída em 2024 do que em 2023, enquanto a Mapbiomas calculou uma redução de 16,8% em seu relatório anual de desmatamento (RAD). No entanto, dados sobre perda florestal do renomado World Resources Institute (WRI), também publicados em maio, indicam exatamente o oposto: a floresta amazônica brasileira registrou sua maior perda florestal em 2024 desde o recorde de 2016. Cerca de 110% a mais de desmatamento do que em 2023. A região amazônica perdeu 2,82 milhões de hectares de floresta tropical primária no ano passado, em comparação com “apenas” 1,14 milhão de hectares perdidos em 2023, de acordo com o WRI.

O INPE, por outro lado, estima 628.800 hectares de destruição da floresta tropical em 2024, em comparação com 906.400 hectares no ano anterior. Os menores números de desmatamento foram calculados pelo Mapbiomas, uma rede não governamental de universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Segundo o relatório, a área desmatada na Amazônia caiu de 454.230 hectares em 2023 para 377.708 hectares no ano passado.

Então, quem está certo? Os números do WRI são do Laboratório Global de Análise e Descoberta de Terras da Universidade de Maryland (UMD). Tanto o INPE quanto o Mapbiomas, assim como a UMD, coletaram os dados de desmatamento usando imagens de satélite, mas com diferentes métodos de análise e limitações do sistema.

A base de dados varia

O INPE avalia os dados usando seu sistema de monitoramento florestal Prodes. Este sistema registra cortes rasos maiores que 6,25 hectares. Os pesquisadores da UMD, por outro lado, consideram o desmatamento tão pequeno quanto 0,09 hectares e também registram perdas devido ao fogo , que o Prodes não inclui. No ano passado, de acordo com o WRI, 60% da destruição florestal foi causada pelo fogo. Devido a uma seca intensa e prolongada na Amazônia, os incêndios, que geralmente são iniciados por humanos, destruíram mais área florestal do que em outros anos. E quando mais área queima, menos floresta tem que ser desmatada com motosserras para expandir pastagens de gado ou campos de soja.

Outra diferença importante é o período de avaliação. Enquanto o Prodes considera os doze meses entre agosto e julho, os dados da UMD referem-se ao ano civil, ou seja, de janeiro a dezembro de 2024.

Por fim, o Mapbiomas combina dados de desmatamento de sistemas independentes de monitoramento, como o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento) do Instituto Amazonas para a Humanidade e o Meio Ambiente (Imazon), com dados de sistemas do INPE, como o Prodes, e se concentra exclusivamente no corte raso e na remoção completa da vegetação natural. O Mapbiomas não inclui perdas devido a incêndios florestais ou exploração madeireira seletiva em suas estatísticas de desmatamento, razão pela qual os números são significativamente menores. “Como o Mapbiomas não contabiliza a crescente perda florestal devido a incêndios no Brasil, uma proporção crescente da mudança florestal geral não é adequadamente representada”, resume a plataforma online do WRI, Global Forest Watch (GFW).

Os danos florestais são maiores

Para avaliar se a proteção florestal na região amazônica está de fato melhorando ou piorando, precisamos de dados sobre degradação florestal, além de estatísticas de desmatamento. Florestas danificadas, por exemplo, devido à exploração madeireira seletiva e estradas florestais, têm uma cobertura vegetal mais rala, são mais suscetíveis à seca e pegam fogo com mais facilidade. Por outro lado, iniciar incêndios em florestas tropicais intactas e úmidas não é uma tarefa fácil.

De acordo com o instituto de pesquisa Imazon em Belém do Pará, houve um aumento explosivo na degradação florestal na região amazônica em 2024. Segundo o relatório, 3,64 milhões de hectares de floresta tropical foram degradados, cerca de seis vezes mais do que em 2023. De acordo com o Imazon, os danos florestais registrados no ano passado pelo sistema de monitoramento do SAD foram os maiores desde que o instituto começou a monitorar florestas em 2009, superando em muito o recorde anterior estabelecido em 2017, quando 1,15 milhão de hectares de floresta amazônica foram degradados.

Segundo o Imazon, o aumento da degradação florestal na região amazônica está diretamente ligado ao aumento dos incêndios florestais no ano passado. A seca e a exploração madeireira também contribuíram para esse processo de degradação.


Fonte: JungeWelt

Fogo e agricultura impulsionam a degradação do solo no sul da Amazônia

Estudo mostra que perdas de carbono e nitrogênio do solo persistem por quase uma década após queimadas e que a conversão para agricultura causa impactos ainda mais severos

Floresta degradada pela queima no chamado Arco do Desmatamento da Amazônia (foto: Mário Lucas Medeiros Naval/Cena-USP)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Incêndios florestais frequentes e expansão agrícola estão degradando a saúde dos solos do sul da Amazônia, com danos duradouros sobre os estoques de carbono (C) e nitrogênio (N) e sobre a funcionalidade geral do solo dos ecossistemas. É o que mostra um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros na Estação de Pesquisa Tanguro, localizada na região de transição entre a Floresta Amazônica e o Cerrado, no Arco do Desmatamento Amazônico.

“Estamos falando de um fogo que não é natural. No Arco do Desmatamento, as queimadas recordes resultam da combinação da expansão agrícola e pecuária, degradação de florestas nativas vizinhas e secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas – todas promovidas pela ação humana”, afirma o pesquisador Mário Lucas Medeiros Naval, primeiro autor do estudo. “Nosso trabalho mostra como essas queimadas sucessivas têm impacto de longo prazo na matéria orgânica e em outros atributos essenciais do solo e como isso se compara à agricultura da região”, comenta.

O estudo, publicado na revista Catena, analisou os efeitos da conversão da floresta para agricultura e da frequência de queimadas sobre a matéria orgânica do solo, além de diversos indicadores físico-químicos de saúde do solo. Foram comparados quatro cenários: floresta intacta, floresta queimada anualmente, a cada três anos e área convertida para agricultura, sob sistema de plantio direto e com rotação de culturas.

“Nossos resultados mostram uma diminuição nos estoques de carbono no solo de 17% com queimas anuais, 19% com queimas trianuais e 38% com a conversão agrícola”, diz Naval. “Mesmo quando a agricultura adota boas práticas, como rotação de culturas e plantas de cobertura, ainda assim gera perdas mais severas de carbono do solo do que o fogo que incide sobre florestas nativas.”

O pesquisador explica que a área estudada é uma floresta de transição, que se assemelha ao cerradão, com árvores de 20 metros de altura em média. “Ela não é tão alta como a floresta do centro da Amazônia, mas também não é cerrado stricto sensu. E é justamente nessa região que a fronteira agrícola tem avançado com mais força, principalmente com a soja”, afirma.

A pesquisa foi realizada em uma área experimental de 150 hectares, gerenciada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), dentro da reserva legal de uma propriedade privada, onde há a Estação de Pesquisa Tanguro. “Tivemos acesso a uma área grande, com 50 hectares para cada tipo de tratamento, o que nos permitiu uma amostragem representativa”, destaca o pesquisador.

“Um aspecto importante do estudo é que avaliamos os solos nove anos após a última queimada. Mesmo com o tempo de recuperação da floresta, os estoques de carbono e nitrogênio ainda estavam significativamente reduzidos”, acrescenta. Segundo Naval, as perdas de carbono e nitrogênio comprometem propriedades essenciais, dados os múltiplos benefícios da matéria orgânica para diversos indicadores de saúde do solo. “Por exemplo, nossos resultados evidenciam que, diminuindo os estoques de carbono, grande parte da capacidade de troca catiônica [CTC, uma das formas de mensurar a capacidade de retenção de nutrientes do solo] é perdida”, explica o pesquisador. Assim, o estudo também revelou impactos sobre outros indicadores físicos e químicos, evidenciando uma degradação mais ampla da saúde do solo.

A pesquisa demonstrou que a perda de carbono total – somando o carbono armazenado na biomassa acima do solo e o carbono armazenado no solo – chegou a 33% na queima anual e 48% na queima trianual. “Isso mostra que, do ponto de vista do ecossistema como um todo, as frequências de fogo têm impacto diferenciado, ainda que no solo a diferença estatística entre os dois regimes não tenha sido significativa”, explica.

“Ao contrário do Cerrado, onde o fogo é natural do ecossistema e exerce um papel ecológico, na Amazônia nós estamos falando de um elemento que é exógeno e induzido pela mudança no uso do solo, não de queimadas naturais. Queimar a Floresta Amazônica significa interferir em um ambiente não adaptado ao fogo”, resume Naval.

Os autores recomendam a adoção de políticas de contenção da fronteira agrícola, prevenção de incêndios florestais e implementação de sistemas agrícolas mais biodiversos, como as agroflorestas. Segundo eles, essas práticas armazenam grandes quantidades de carbono, essenciais para a estabilidade climática global, e preservam a saúde dos solos amazônicos.

“A busca por alternativas ao modelo convencional de produção agrícola é essencial não apenas para a preservação ambiental, ao evitar novas queimadas, mas também para garantir a segurança alimentar da população” esclarece o pesquisador Plínio Barbosa de Camargo, um dos coordenadores do estudo.

O trabalho integra o projeto internacional Amazon PyroCarbon, financiado pela FAPESP e pelo Natural Environment Research Council (NERC) e UK Research and Innovation (UKRI), ambos do Reino Unido. A iniciativa estuda os impactos do fogo em diferentes regiões da Amazônia e é coordenada por Camargo e Ted Feldpausch, da Universidade de Exeter. “Esse trabalho na Estação de Pesquisa Tanguro é apenas parte de uma iniciativa mais ampla que está mapeando como o fogo afeta os solos amazônicos em vários pontos do bioma”, diz Naval, atualmente mestrando no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP). O financiamento do estudo também contou com bolsa de pós-doutorado fornecida ao segundo autor, Wanderlei Bieluczyk.

O artigo Impacts of repeated forest fires and agriculture on soil organic matter and health in southern Amazonia pode ser acessado em https://doi.org/10.1016/j.catena.2025.108924.


Fonte: Agência Fapesp

Com desmatamento aparentemente sob controle, degradação florestal explode de forma recorde na Amazônia

Entre um ataque e outro ao IBAMA por causa da questão do licenciamento ambiental para ações de petróleo e gás na foz do Amazonas, o governo Lula sai a público para celebrar a diminuição do desmatamento na Amazônia. O que não está sendo dito é que o processo de degradação florestal via extração seletiva de madeira e incêndios nas bordas das regiões já desmatadas está em crescimento inequívoco.

Quem diz isso são os dados fornecidos pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), uma ferramenta de monitoramento da Amazônia Legal baseada em imagens de satélites, desenvolvida pela organização não governamental Imazon em 2008, para reportar mensalmente o ritmo da degradação florestal e do desmatamento na região.

Segundo dados do chamado SAD Degradação, a degradação florestal afetou 33.807 km² quando se observa o calendário do desmatamento. Este número é quase equivalente ao território de Porto Velho, maior capital brasileira, e seis vezes superior que no período anterior, quando a atividade impactou 5.805 km² de vegetação. O número também é o maior da série histórica compreendida entre 2006 e 2025 (ver figura abaixo).

Valores de degradação florestal entre 2009 e 2025 (SAD Degradação/ IMAZON)

Como já foi demonstrado por um artigo publicado pela revista Science em 2020 (ver figura abaixo), da qual sou um dos co-autores, o processo de degradação florestal já alcança uma área maior do que a do desmatamento, e implica em perdas importantes para a biodiversidade amazônica e para os serviços ambientais fornecidos pelas florestas.

O avanço da degradação é um sinal inequívoco de que diversas ações sendo desenvolvidas ou que estão em vias de desenvolvimento estão já causando um processo de aceleração da remoção de madeira e potencializando a penetração de fogo em áreas próximas às áreas já desmatadas. E pior, com o avanço das grandes oscilações de temperatura e chuva, o que está se preparando é o aumento de incêndios em áreas que ainda apesar não terem sido alcançadas pelo desmatamento já se tornaram mais ecologicamente propensas a entrarem em combustão (ou seja, pegar fogo).

Há ainda que se lembrar que projetos como a pavimentação da BR-319 vão não apenas facilitar o acesso a áreas ainda livres de desmatamento, como certamente irão ainda as taxas já elevadas de degradação florestal. É que estrada pavimentada na Amazônia sempre é acompanhada por estradas “extra-oficiais” que são construídas ao arrepio da lei por madeireiros e garimpeiros.  Além disso, como a demanda por soja e outras commodities continuará alta, a degradação de hoje tenderá virar desmatamento amanhã.

Enquanto isso, a COP30 vai instalando árvores artificiais em Belém para amenizar os efeitos do desmatamento que está sendo realizado em uma área quilombola para abrir um novo corredor de transporte para facilitar o escoamento de grãos. Aqui pelo menos um momento de coerência, já que o Pará é um líderes na destruição da floresta amazônica, combinando taxas altas de desmatamento e degradação florestal.