Estudo do Imazon mostra grande avanço do desmatamento e da degradação florestal na Amazônia

Apenas em agosto, foram derrubados 1.415 km². Além disso, a degradação florestal causada pela extração de madeira e pelas queimadas cresceu 54 vezes

desmatamento e queimadas

Sobrevoo do Greenpeace em julho mostrou queimada em Rondônia (Foto: Christian Braga/Greenpeace)

Por Imazon

O desmatamento acumulado na Amazônia já chegou a quase 8 mil km² apenas em oito meses, sendo o maior dos últimos 15 anos. Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), somente em agosto foram derrubados 1.415 km² de floresta, uma área quatro vezes maior do que Belo Horizonte.

Outro problema foi a degradação florestal causada pela extração de madeira e pelas queimadas, que cresceu 54 vezes na região em relação ao mesmo mês do ano passado. A área degradada passou de 18 km² em agosto de 2021 para 976 km² em agosto de 2022, uma alta de 5.322%.

Além de ameaçar diretamente a vida de povos e comunidades tradicionais e causar perdas na biodiversidade, esse aumento na destruição também afeta a camada de ozônio e contribui para o aquecimento global em um momento de emergência climática. Por isso, neste Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio, é importante olhar para a floresta em pé como uma das soluções para proteger as populações das consequências desse desequilíbrio do clima, entre elas a maior frequência e intensidade de eventos extremos como secas e tempestades.

“Já passamos da metade do ano e o que vem acontecendo são recorrentes recordes negativos de devastação da Amazônia, com o aumento no desmatamento e na degradação florestal. E infelizmente temos visto ações insuficientes para combater esse problema”, lamenta a pesquisadora Bianca Santos, do Imazon.

SITE SAD JAN AGO 2008 2022 - Desmatamento na Amazônia chega a quase 8 mil km² em 2022, pior acumulado em 15 anos

Monitoramento da degradação pode ajudar no combate ao desmatamento

O instituto classifica como desmatamento quando a vegetação foi totalmente removida, o chamado “corte raso”, e como degradação florestal quando parte da mata foi retirada por causa da extração de madeira ou afetada pelo fogo. Por isso, é comum que uma área classificada como degradada seja posteriormente desmatada.

“Em muitos casos de áreas que sofrem degradação florestal por exploração madeireira, após a retirada total das espécies de valor comercial, é feita a remoção completa das árvores para destinar aquela área a outros tipos de uso, como por exemplo a agropecuária ou até para a especulação imobiliária, no caso da grilagem”, explica Bianca.

É por isso que monitorar também a degradação, e não apenas o desmatamento, é muito importante para a Amazônia. “Se os órgãos ambientais agirem para proteger as áreas degradadas recentemente, podem evitar que elas sejam desmatadas nos meses seguintes”, completa a pesquisadora.

Pará lidera no desmatamento e Mato Grosso na degradação

Apesar da área destruída na Amazônia em agosto deste ano ter sido 12% menor do que no mesmo mês de 2021, quando foram desmatados 1.606 km², Bianca alerta que é extremamente cedo para comemorar. Isso porque a devastação de 2022 foi a terceira pior para o mês de agosto desde 2008, quando o instituto implantou seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD). O segundo pior ano foi 2020, quando 1.499 km² de floresta foram postos abaixo.

SITE SAD AGO 2008 2022 - Desmatamento na Amazônia chega a quase 8 mil km² em 2022, pior acumulado em 15 anos

Os estados que mais desmataram em agosto foram Pará (647 km²), Amazonas (289 km²) e Acre (173 km²), que registraram respectivamente 46%, 20% e 12% de toda a derrubada na Amazônia.

“Nesses três estados, assim como nos outros que compõem a região, estamos identificando o avanço do desmatamento nas florestas públicas não destinadas. São áreas pertencentes aos governos dos estados ou federal que ainda não tiveram um uso definido, cuja prioridade estabelecida em lei é para a criação de novas áreas protegidas, como terras indígenas ou quilombolas e unidades de conservação. Porém, por essa falta de destinação, essas terras acabam sendo as preferidas dos grileiros, que as invadem com a expectativa de obter a posse”, afirma a pesquisadora.

Já o estado que teve a maior área de floresta degradada em agosto foi Mato Grosso (657 km²), o que representa 67% do registrado em toda a Amazônia. Pará (240 km²) e Acre (28 km²) ficaram em segundo e em terceiro, com respectivamente 25% e 3% das áreas degradadas na região.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Imazon [Aqui!].

Com aumento de queimadas, degradação pode ser ameaça à Amazônia

Pesquisadora do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), Clarissa Gandour, explica como focos de fogo, que devem se tornar ainda mais frequentes entre agosto e setembro, geram degradação ambiental

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  • O desmatamento não é o único dano ambiental que afeta a Amazônia brasileira. A degradação florestal – a perda gradual de vegetação – é uma uma ameaça relevante à preservação da floresta. Ela afeta uma área bem maior do que o desmatamento em corte raso. Entre 2017 e 2020, o sistema Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (DETER) emitiu uma média de 17.000 quilômetros quadrados de alertas de degradação florestal por ano. Isso é quase o dobro da área desmatada anualmente medida pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) neste mesmo período.
     
  • As queimadas são uma das principais causas de degradação florestal na Amazônia. Entre 2017 e 2020, os alertas referentes a áreas queimadas na Amazônia representaram 70% da área degradada detectada pelo DETER. A ocorrência de fogo na Amazônia é mais comum no período de seca, com auge nos meses de agosto e setembro. Os números são preocupantes. Só no mês passado, dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) mostram que o número de focos de incêndio foi 8% maior em relação ao mesmo período do ano passado.
     
  • O fogo não é um fenômeno natural em florestas tropicais em razão da alta umidade desse ecossistema. Isso significa que o fogo em florestas úmidas, como a Amazônia, resulta da ação humana. Em áreas já desmatadas, ele é tipicamente usado para eliminar remanescentes de biomassa no terreno ou como técnica de manejo agropecuário. O fogo também pode atingir áreas de floresta tanto devido a práticas intencionais quanto a vazamentos acidentais de queimadas em áreas já desmatadas.
     
  • Como florestas tropicais são úmidas, elas não queimam facilmente de uma só vez. O primeiro contato com o fogo consome a vegetação mais frágil e compromete a resiliência da remanescente, que se torna mais vulnerável a queimadas subsequentes. Ou seja, o fogo produz estragos não só durante a sua ocorrência, mas também nos anos posteriores.
     
  • O fogo torna a floresta menos resiliente a danos futuros, contribui para a perda de biodiversidade e afeta a capacidade de a floresta absorver e estocar carbono. Os incêndios também contribuem para o agravamento da crise climática, ao liberar toneladas de gás carbônico para a atmosfera.
     

Ao longo do mês de agosto, o CPI/PUC-Rio realizará uma campanha em suas redes sociais para trazer mais informações sobre #fogoflorestal e #queimadas. Confira no Twitter (CPI_PUCRio), LinkedIn (Climate Policy Initiative/PUC-Rio) e Instagram ( CPI_PUCRio).

Estudo alerta para zoonoses emergentes associadas ao desmatamento no Brasil

zoonosis-Brasil-996x567A doença de Chagas, transmitida por insetos, é uma das zoonoses presentes no Brasil. Um estudo constatou que sete estados brasileiros apresentam alto risco de apresentar surtos de zoonoses. Crédito da imagem: Agência Brasília/Flickr , licenciada sob Creative Commons 2.0

  • Pesquisa no Brasil alerta para fatores de risco para surgimento de nova pandemia
  • Estudo avaliou o risco de zoonoses nos 27 estados do Brasil usando um novo método quantitativo
  • O estudo descobriu que sete estão em alto risco de sofrer surtos de zoonoses.

Esse é o alerta publicado no Science Advances por pesquisadores brasileiros e portugueses após avaliarem o risco de zoonoses —transmissão de doenças , de animais para pessoas— nos 27 estados do Brasil usando um novo método quantitativo.

“Mudanças no uso da terra causadas principalmente pela expansão de economias orientadas para commodities sobre áreas naturais, em particular os setores agrícola e pecuário, são os principais impulsionadores do desmatamento, perda de biodiversidade e urbanização não planejada nos trópicos. Esses também são os principais fatores do aparecimento de doenças zoonóticas”, disse Gisele Winck, principal autora do estudo , ao SciDev.Net .

Com base em um modelo matemático, o método reuniu dados registrados entre 2001 e 2019 sobre os principais fatores históricos, ambientais e socioeconômicos de nove zoonoses de notificação obrigatória: Chagas, febre amarela, febre maculosa, leishmaniose cutânea e visceral, hantavirose, leptospirose, malária e Fúria. Ele então os aplicou para rastrear áreas com maior risco de surtos de doenças.

Assim, constataram que sete estados apresentavam alto risco de ocorrência de surtos de zoonoses (Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima, Maranhão e Mato Grosso).

Entre eles, um denominador comum é a presença de altos níveis de cobertura vegetal, maior número e variedade de mamíferos silvestres e grande distância dos centros urbanos. Dos demais estados, oito apresentaram baixo risco de zoonoses e 12, risco moderado.

Em relação aos pontos geográficos mais vulneráveis ​​para uma nova pandemia, Winck afirma que “as regiões do bioma amazônico são as mais preocupantes, pois possuem maior número de cidades isoladas, com pouca ou nenhuma vegetação e altos índices de destruição de suas biodiversidade”.

Entre os mamíferos pesquisados ​​estavam o veado-do-pantanal, o corço vermelho e marrom (guazuncho), o veado de cauda branca, o javali, o tatu, o morcego marrom, o gambá, entre outros. Eles identificaram mamíferos selvagens cuja caça, segundo eles, deveria ser supervisionada para evitar uma nova pandemia

Winck, do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Reservatórios de Mamíferos Silvestres do Instituto Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), destaca que a caça, além de promover o desequilíbrio dos ecossistemas naturais, propaga doenças porque seus produtos dispensam a fiscalização sanitária.

“Embora a atividade seja legalmente permitida apenas para populações tradicionais, estima-se que milhares de toneladas de animais silvestres sejam caçados ilegalmente e comercializados em mercados populares, mesmo nos grandes centros urbanos”, detalha Winck.

“No nosso artigo identificamos mamíferos associados a uma maior diversidade de parasitas e patogénicos que são frequentemente caçados porque são abundantes e se aproximam das zonas de residência rurais e urbanas”, acrescenta.

“A pergunta a nos fazer não é se uma nova pandemia vai acontecer, mas quando vai acontecer. Se olharmos para a taxa de desmatamento e degradação florestal na Amazônia, não ficaria surpreso se a próxima pandemia explodir nessa parte do Brasil.”

Marcos Pedlowski, Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Rio de Janeiro

Os autores da pesquisa apontam que a atual crise no Brasil é caracterizada pelo descaso com as evidências científicas e ataques às organizações conservacionistas, a flexibilização das leis ambientais e a substituição de mecanismos de promoção da conservação da biodiversidade por meio de políticas ambientais destrutivas.

Eles também destacam que a tendência ascendente nas taxas de desmatamento da Amazônia, 182% acima da meta de 2020, representa uma ameaça global. No final daquele ano, quase um terço do Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, queimou devido a um aumento anual de 508% na ocorrência de incêndios, em comparação com a média de 2012-2019.

“A pergunta a nos fazer não é se uma nova pandemia vai acontecer, mas quando vai acontecer. Se olharmos para a taxa de desmatamento e degradação florestal na Amazônia, não me surpreenderia se a próxima pandemia estourasse nessa parte do Brasil. Acho que as observações do artigo da Science Advances devem ser levadas muito a sério”, diz Marcos Pedlowski, que não participou da pesquisa.

Pedlowski, do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense, no Rio de Janeiro, destaca que apesar da grande possibilidade de que o avanço do desmatamento em direção a regiões ainda virgens da Amazônia acabe liberando patógenos ainda mais letais que o SARS-COV-2, as autoridades governamentais não reagem.

“É como se estivéssemos flertando com um desastre iminente, voando às cegas. Mas é preciso enfatizar que, se algo pior acontecesse, não seria por falta de estudos científicos sérios que alertem que isso pode acontecer se as regulamentações atuais não forem modificadas”, acrescenta o especialista.

Link para artigo na Science Advances


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Este texto foi escrito inicialmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Amazônia: degradação da floresta remanescente pode emitir tanto ou mais carbono que o desmatamento

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Em decorrência da ação humana, a maior floresta tropical do mundo já perdeu 30% de sua capacidade de reter CO2. Tema foi debatido em webinário promovido pela Aciesp em homenagem aos 60 anos da FAPESP (foto: Vinícius Mendonça/Ibama)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Desde o início deste século, a Amazônia já perdeu cerca de 30% de sua capacidade de reter dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases de efeito estufa. Se for mantida a atual política, que favorece ou até mesmo promove o desflorestamento e a degradação das áreas remanescentes, essa capacidade pode zerar até o final da próxima década, com a Amazônia deixando de ser um sumidouro para se tornar um emissor de carbono.

O alerta foi feito pelo pesquisador David Montenegro Lapola, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Cepagri-Unicamp), no dia 6 de julho, em webinário promovido pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) para celebrar os 60 anos da FAPESP.

Além do desflorestamento, há um outro fator de impacto, menos conhecido, que é a degradação da floresta remanescente. “Considerando a degradação por seca, a degradação por fogo, a degradação por corte seletivo de madeira e a degradação pelo chamado efeito de borda, de 4% a 38% da floresta remanescente já se encontra degradada, com emissões de CO2 equivalentes ou até maiores do que as das áreas desmatadas”, disse Lapola, enfatizando a necessidade de um novo paradigma de desenvolvimento capaz de reverter o curso da destruição e salvar a floresta.

Em março deste ano, na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26), o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, declarou que o governo brasileiro havia escolhido ir além das leis e políticas existentes e se comprometia a eliminar o desflorestamento ilegal da Amazônia até 2028. No entanto, dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, apenas no primeiro semestre de 2022, 3.971 quilômetros quadrados (km2) da Amazônia Legal foram destruídos. O desmatamento registrado em junho deste ano foi o maior para o mês desde que o instituto iniciou o monitoramento, em agosto de 2015. Aproximadamente 90% desse desflorestamento é desmatamento ilegal.

Os estudos mais consistentes mostram que conter o aquecimento global abaixo de 2 oC, preferencialmente em até 1,5 oC, comparativamente aos níveis pré-industriais, é a única maneira de evitar a catástrofe climática. E essa orientação foi consignada pelo Acordo de Paris, que entrou em vigor no final de 2016. Passados mais de cinco anos, porém, os dados mostram que estamos indo para um aumento de 3 oC, com uma notável irresponsabilidade de vários governos e a indiferença de boa parte da população.

A implementação das metas acordadas em Paris depende das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, conforme as letras iniciais da expressão em inglês) de cada país signatário do acordo. Na primeira versão da NDC brasileira, ainda de 2015, o país assumiu a meta de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 37% até 2025 e em 43% até 2030, tomando como base as emissões de 2005. Na revisão da NDC, publicada no final de 2020, esses percentuais foram mantidos, mas os valores considerados como base de cálculo foram mais altos do que os utilizados na NDC original. Ou seja, não apenas deixou-se de melhorar as metas, como seria desejável, mas também foi embutido, sob os números apresentados, um aumento real das emissões. A promessa feita pelo ministro na COP26, de reduzir em 50% as emissões de GEE até 2030, não encontra, portanto, respaldo em medidas concretas.

A maior ameaça da história

Intitulado “Mudanças climáticas globais: seus impactos e estratégias de mitigação e adaptação”, o webinário organizado pela Aciesp teve o objetivo de apresentar e discutir o segundo capítulo do livro FAPESP 60 Anos: A ciência no desenvolvimento nacional.

A abertura foi feita por Adriano Andricopulo, diretor-executivo da Aciesp, Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, e Paulo Artaxo, integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), vice-presidente da Aciesp e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Além de Lapola, participaram como palestrantes Gabriela Marques Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP); Pedro Leite da Silva Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP; e Mercedes Bustamante, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (ICB-UnB).

As dimensões humanas das mudanças climáticas foram objeto da intervenção de Di Giulio, que tratou de como as sociedades devem estruturar suas políticas públicas para responder aos riscos sociais em curso. “Há uma necessidade de mudanças transformativas em todas as dimensões – principalmente de uma urgente substituição desse modelo predatório de espoliação da natureza por um modelo baseado na solidariedade, no respeito à diversidade biológica e na justiça social”, afirmou a pesquisadora, lembrando que, atualmente, há quase 35 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada e cerca de 100 milhões sem acesso à coleta de esgoto.

“Outro desafio é o da segurança alimentar, neste momento em que o Brasil volta com muita força a estar presente no mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Há mais de 125 milhões de brasileiros e brasileiras em insegurança alimentar e mais de 33 milhões em situação de fome”, informou.

Silva Dias tratou dos desafios da modelagem diante da extrema complexidade do sistema climático e das influências antropogênicas. “Há duas formas principais para entender os mecanismos responsáveis pela variabilidade do clima e o potencial papel do homem: a modelagem climática de um sistema extremamente complexo e a análise observacional do período e de estimadores do clima passado, o paleoclima. Os dois são complementares e devem caminhar juntos”, falou, destacando que é preciso cotejar e selecionar os melhores modelos, que sejam capazes de reproduzir bem o clima atual.

Bustamante associou dois processos extremamente importantes em curso, as mudanças climáticas e o declínio da biodiversidade, ressaltando que a elevação de cada fração de grau implica a intensificação dos eventos climáticos extremos, com múltiplos riscos, e que os impactos serão enormes se o aquecimento global exceder 1,5 oC. “O aquecimento global representa a maior ameaça à diversidade biológica na história humana”, disse.

A pesquisadora lembrou que o Brasil possui extraordinários ativos ambientais, que deveriam ser a oportunidade para uma nova agenda de desenvolvimento. Bem o contrário do que está sendo feito.

O webinário “Mudanças climáticas globais: seus impactos e estratégias de mitigação e adaptação” pode ser assistido na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=0XEw7wATBWs.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Levantamento inédito do MapBiomas Amazônia mostra que perda de florestas desde 1985 equivale a um Chile

Especialistas alertam que a Amazônia poderá alcançar o ponto de ruptura ainda nesta década se o ritmo de destruição persistir

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Entre 1985 e 2020, a Amazônia perdeu 52% de suas geleiras e 74,6 milhões de hectares de sua cobertura vegetal natural – uma área equivalente ao território do Chile. No mesmo período houve um crescimento de 656% na mineração, 130% na infraestrutura urbana e 151% na agricultura e pecuária. Estas são algumas das principais conclusões de um mapeamento inédito do MapBiomas Amazônia que será apresentado nesta quinta-feira, 30 de setembro, por meio da plataforma youtube.com/raisg às 9h do Peru, Equador e Colômbia; 10:00 da Bolívia e Venezuela; e 11:00 do Brasil. A Coleção 3.0 de Mapas Anuais de Cobertura e Uso do Solo da Amazônia incorpora todo o bioma, desde os Andes, passando pela planície amazônica e alcançando as transições com o Cerrado e o Pantanal.

O mapeamento temporal do uso e cobertura de solo do bioma mostrou que se em 1985 apenas 6% da Amazônia havia sido convertidos em áreas antrópicas, como pastagens, agricultura, mineração ou áreas urbanas, em 2020, esse percentual quase triplicou, chegando a 15% de toda a região. O processo varia consideravelmente entre os países, sendo apenas 1% para Suriname, Guiana e Guiana Francesa e, no outro extremo, 19% no Brasil. Estudos recentes sugerem que a perda de 20-25% da cobertura florestal da Amazônia pode significar o ‘ponto de inflexão’ (ponto de ruptura) para os serviços ecossistêmicos da Amazônia. Se a tendência atual verificada pela MapBiomas continuar, essa virada poderá ser alcançada ainda nesta década.

Gerada por técnicos e especialistas de cada um dos países que integram a Amazônia a partir de imagens de satélite, esta terceira coleção de dados inclui novas classes de uso, como Mineração e Infraestrutura Urbana, além de mapas e dados sobre os vetores de pressão nas florestas e outras coberturas, como concessões de mineração, blocos de petróleo, estradas e usinas hidrelétricas. O objetivo é contribuir para o conhecimento da situação atual da região amazônica de forma integral – tanto das mudanças no uso do solo em toda a Amazônia como das pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais.

“Reconstruir a história de nossa Amazônia olhando as mudanças ano a ano em suas coberturas naturais, identificando perdas de coberturas tão importantes como geleiras e florestas em geral, nos ajuda a construir e propor estratégias de conservação mais precisas”, destaca Beto Ricardo, coordenador geral da RAISG. “A Coleção 3.0 do MapBiomas Amazônia mostra uma antropização profunda e rápida em curso na região”, afirma Tasso Azevedo, coordenador geral da MapBiomas. “Nos atuais mapeamentos do MapBiomas em toda a América do Sul este é um padrão marcante. Os dados são inestimáveis ​​para o entendimento da dinâmica de uso dos recursos naturais da região, além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo das emissões e remoções de gases de efeito estufa devido às mudanças e uso do solo na região”, completa.
 
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Sobre Mapbiomas Amazônia

MapBiomas Amazônia é uma iniciativa liderada pela Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) com o apoio do MapBiomas. Em 2019, lançou a Primeira Coleção, abrangendo o período de 2000 a 2017; em 2020, a Segunda Coleção, que cobre 1985-2018. Agora, após intenso trabalho dos integrantes da (RAISG) e colaboração técnica da equipe da MapBiomas Brasil, a Terceira Coleção abrange os 36 anos entre 1985 e 2020: https://amazonia.mapbiomas.org

São mais de 3 décadas de história de Ocupação e Uso de solo da Amazônia em mapas anuais de 1985 a 2020 com resolução de 30 metros. As informações do mapeamento são de livre acesso e download e compatíveis para todos os países da região. A plataforma oferece a possibilidade de visualização dos mapas em nível regional, nacional e até local, identificando as áreas cobertas por florestas, campos naturais, manguezais, agricultura, rios, entre outros, permitindo conhecer a situação da cobertura vegetal, bem como tendências, na unidade que se deseja trabalhar. Permite também entender a dinâmica das mudanças de uso da terra segundo recortes fundiários, como dentro e fora de uma Terra Indígena ou Área Protegida, graças ao fato de que a plataforma oferece não só mapas, mas também estatísticas apresentadas em tabelas e gráficos dinâmicos com as mudanças de uso no período que o usuário necessita.

A ferramenta de mapeamento do uso do solo foi desenvolvida pelo MapBiomas para ser aplicada inicialmente no Brasil. Para a totalidade do bioma amazônico, foi aprimorada com a contribuição das organizações membros da RAISG para adequar os resultados e análises à geografia de cada um dos países. Em particular, foi necessário levar em consideração as variações altitudinais típicas da Amazônia andina. Atualmente, a ferramenta de mapeamento MapBiomas inclui 28 classes, que vão desde geleiras andinas a formações florestais nas planícies amazônicas.

Sobre a Raisg

RAISG é a Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas, um consórcio de organizações da sociedade civil dos países amazônicos voltado para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais da Amazônia, elaborados com protocolos comuns para todos os países da região; tornou possível visualizar a Amazônia como um todo, bem como as ameaças e pressões que pairam sobre ela. RAISG é o resultado da cooperação de oito organizações da sociedade civil que atuam em seis países amazônicos: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. https://www.amazoniasocioambiental.org/es/

Sobre Mapbiomas

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para a compreensão das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da ocupação e uso do solo no Brasil. Em agosto de 2021, foi publicada a Coleção 6 de MapBiomas com mapas de cobertura e uso do solo do Brasil de 1985 a 2020. A ferramenta desenvolvida pela MapBiomas para todas as suas iniciativas disponibiliza informações geradas com resolução espacial de 30 metros. Os dados são processados ​​usando algoritmos de classificação automática por meio de informações na nuvem do Google Earth Engine. https://mapbiomas.org/

A extração ilegal de madeira atinge o núcleo intocado da Amazônia, mostram pesquisas “aterrorizantes”

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  • Imagens de satélite mostram que a atividade madeireira está se espalhando de áreas periféricas da Amazônia em direção ao núcleo da floresta tropical, de acordo com pesquisas inovadoras.
  • O mapeamento por satélite de sete dos nove estados amazônicos do Brasil mostrou um padrão “assustador” de avanço da exploração madeireira que desmatou uma área três vezes o tamanho da cidade de São Paulo entre agosto de 2019 e julho de 2020 sozinho.
  • No nível estadual, a falta de transparência nos dados madeireiros torna impossível calcular quanto da produção de madeira é ilegal, dizem os especialistas.
  • Evidências de corte em reservas indígenas e unidades de conservação – onde a extração de madeira é proibida – deixam claro que a extração ilegal de madeira é responsável por grande parte da atividade, segundo o relatório.
  • Um dos principais temores sobre a Amazônia brasileira está começando a se materializar: a exploração madeireira está começando a se mover da periferia da floresta em direção ao núcleo do bioma, mostram novas pesquisas inovadoras.
Por  Juliana Ennes para o Mongabay News

Rastreando árvores cortadas por meio de dados de mapeamento de satélite, a pesquisa descobriu que as atividades madeireiras desmataram 464.000 hectares (1,15 milhões de acres) da Amazônia brasileira – uma área três vezes o tamanho da cidade de São Paulo – entre agosto de 2019 e julho de 2020. Mais da metade (50,8%) da exploração madeireira estaria concentrada no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas (15,3%) e Rondônia (15%).

“Há cerca de 20 anos, temíamos que a floresta fosse devastada no chamado ‘arco do desmatamento’ e o movimento migrasse das áreas periféricas em direção à região central da Amazônia”, disse Marco Lentini, coordenador sênior do projeto do Imaflora , uma ONG de desenvolvimento sustentável envolvida no projeto de mapeamento. “Nosso mapa mostra que isso está acontecendo agora: a extração de madeira está indo em direção ao núcleo da Amazônia.”

Ele disse que o padrão de extração era de “migração de fronteira”, acrescentando: “Isso é algo que nos apavora. Temos que estabilizar essa fronteira.”


A maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil viu a polícia recuperar 226.000 metros cúbicos (8 milhões de pés cúbicos) de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará em março de 2021. Imagem cortesia da Polícia Federal no estado do Amazonas.

A pesquisa, divulgada na semana passada, foi desenvolvida pela rede Simex formada por quatro organizações ambientais brasileiras sem fins lucrativos: Imazon, Imaflora, Idesam e Instituto Centro de Vida (ICV). As instituições afirmam que formaram a aliança para mapear, pela primeira vez, o desmatamento em quase toda a Amazônia. Eles conseguiram mapear sete dos nove estados que compõem a Amazônia brasileira – Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima – que juntos respondem por quase 100% da produção de madeira da floresta tropical.

Embora o mapeamento não tenha sido capaz de especificar a quantidade exata de árvores extraídas ilegalmente de florestas intocadas, a maior parte das ilegalidades concentrou-se na tríplice fronteira entre Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, onde foi detectada intensa atividade madeireira em uma reserva indígena e uma unidade de conservação. , segundo Vinicius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do ICV, organização sem fins lucrativos com sede em Mato Grosso. “As áreas protegidas nesta região apresentam grande presença de exploração madeireira e baixo nível de fiscalização, com muitos indícios de ilegalidade.”

O mapa do Sismex cobre as áreas onde a Polícia Federal realizou a maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil no início deste ano, recuperando 226 mil metros cúbicos (8 milhões de pés cúbicos) de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará. Essa operação desencadeou a demissão do polêmico ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em junho, após ele ter pedido a liberação da madeira.

Dez municípios responderam por quase 200.000 hectares (494.000 acres) de exploração madeireira, cinco deles em Mato Grosso, dois no Amazonas e os demais em Roraima, Acre e Pará. A maior parte da atividade madeireira, 78%, supostamente ocorreu em propriedades privadas. As autorizações legais são freqüentemente usadas para mascarar a extração de madeira em áreas restritas por meio de um processo conhecido como lavagem de árvores, de acordo com as descobertas.

Um estudo mais detalhado desenvolvido pelo Imazon com foco no Pará mostra que mais da metade da exploração madeireira no estado não recebeu nenhuma autorização governamental. De agosto de 2019 a julho de 2020, 50.139 hectares (123.896 acres) de floresta foram devastados, sendo 55% sem autorização dos órgãos ambientais. Isso representou um crescimento de 20% em relação aos 12 meses anteriores, quando a extração não autorizada era de 38%, segundo o Imazon.

O mapa desenvolvido pela rede Simex mostra as concentrações da atividade madeireira no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas e Pará. Imagem cortesia da Simex. Antes do advento do projeto Simex , apenas Pará e Mato Grosso tinham mapas de satélite identificando áreas onde ocorria a exploração madeireira. O Imazon passou a monitorar o Pará em 2008 e o ICV aderiu à iniciativa em 2013, monitorando Mato Grosso. As instituições afirmam que esses estados foram seu foco inicial para a transparência de dados devido à alta atividade madeireira.

A extração de madeira não limpa a área florestal tão extensivamente quanto o desmatamento, e o crescimento da vegetação sobre os locais de extração pode dificultar a visualização via satélite, de acordo com Vinicius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do ICV.

“Com a exploração madeireira, diferente do desmatamento, ainda existe alguma cobertura vegetal. Podemos identificar cicatrizes na floresta feitas pelas estradas utilizadas para a movimentação das toras, bem como áreas desobstruídas para armazenamento. Existe toda uma infraestrutura em torno da exploração madeireira que nos ajuda a encontrar essas áreas ”, disse Silgueiro à Mongabay em entrevista por telefone.

Na maioria dos estados, no entanto, ele disse que é quase impossível verificar quando a atividade madeireira é ilegal, devido à falta de transparência ou barreiras tecnológicas. Muitas vezes, acrescentou, os certificados das atividades florestais legais são arquivados em papel, dificultando o cruzamento da base de dados de certificados com as imagens. Os únicos dois estados com bancos de dados digitalizados são Pará e Mato Grosso. 

Atividade madeireira no estado de Rondônia, com árvores já marcadas e aguardando transporte. Imagem cortesia de Vicente Sampaio / Imaflora.

Outro desafio é que os certificados que permitem o manejo florestal fornecem as coordenadas de localização, mas não o arquivo de formato – o mapa digital – da área, o que dificulta os esforços para identificar por meio de imagens de satélite onde ocorre a extração ilegal de madeira, segundo Lentini.

Apesar desses desafios, há casos em que fica muito claro que a exploração madeireira é ilegal, disse Lentini: quando acontece em áreas protegidas como reservas indígenas e unidades de conservação. O estudo constatou que 6% da extração madeireira na Amazônia, ou 28.112 hectares (69.466 acres), estava em unidades de conservação durante o período de estudo; 5% estava em reservas indígenas, em 24.866 hectares (61.445 acres). “Essas áreas não têm nenhum tipo de autorização para extração legal”, disse Silgueiro.

Um relatório de 2018 do Greenpeace, intitulado “Árvores imaginárias, destruição real ”, destacou a falta de confiabilidade dos sistemas de licenciamento e controle florestal do Brasil, o que torna mais difícil combater a fraude.

“Uma falha crítica na governança florestal dos estados amazônicos está na fraqueza do processo de licenciamento para planos de manejo florestal sustentável”, disse o relatório. Em sua maioria, não são realizadas inspeções de campo antes da elaboração dos planos de manejo, ou essas inspeções são de baixa qualidade, de acordo com o relatório.

“Isso permite que os engenheiros florestais … superestimem os volumes ou adicionem de forma fraudulenta árvores de alto valor comercial ao inventário florestal da área. Posteriormente, os órgãos estaduais emitem créditos pela colheita e movimentação dessa madeira inexistente ”, que será desmatada de florestas em terras indígenas, áreas protegidas ou públicas, segundo apuração do Greenpeace. 

Autoridades ambientais do estado do Pará apreendem madeira ilegal em operação de fiscalização em 2021. Imagem cortesia da Agência Pará.

Silgueiro, do ICV, disse que a extração legal e ilegal persiste em proporções em torno de 60:40. “Quanto mais documentação legal houver para explorar a floresta, mais madeira ilegal haverá”, disse ele. Ele acrescentou que a fraude madeireira só vai parar quando todo o processo se tornar rastreável por meio de tecnologias que ajudam a estimar o volume real de produção de madeira e rastrear cada árvore individualmente. “A rastreabilidade da produção é fundamental”, disse Silgueiro. “Essa tecnologia já existe, mas os estados produtores demoram a adotá-la”.

O impacto ambiental da extração ilegal de madeira é imenso. Estudos recentes mostram que a Amazônia brasileira é agora uma fonte líquida de CO2 , em vez de ser um sumidouro de dióxido de carbono como seria de se esperar, devido a fatores que incluem a exploração madeireira.

Imagem do banner:  Um caminhão carrega toras cortadas da Floresta Amazônica no estado de Rondônia. Imagem cortesia de Vicente Sampaio / Imaflora.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Mongabay News [Aqui!].

Na antessala dos mega incêndios amazônicos de 2021

fogo amazonia 2021

O latifúndio agro-exportador (que se apresenta sob a fachada aparentemente menos maligna do “agronegócio”) já lançou todas as condições para que 2021 seja um ano em que mega incêndios ocorram em toda a Amazônia brasileira. As imagens de rolos de fumaça subindo aos céus deverão novamente percorrer o mundo, causando choque nos desavisados e atitudes de complacência dos governos que fingem se importar com o aquecimento da Terra e com todas as suas consequências desastrosas, especialmente para os segmentos mais pobres da população humana.

Mas os grandes incêndios que já começam a ocorrer precocemente na Pan Amazônia (sim, toda a bacia Amazônica está sob ataque neste momento) são apenas um sintoma de um processo azeitado de destruição dos ricos biomas amazônicos com o objetivo claro de abrir novas áreas para abastecer os mercados globais, a começar pelo voraz mercado chinês, passando pela União Europeia, e alcançando países que podem até consumir menos, mas consomem, os produtos que a devastação amazônica gera.

O problema é que junto com o desmatamento e os grandes incêndios há o problema da degradação florestal causada por estes dois outros processos. Como já demonstrado no artigo publicado na Science em setembro de 2020 por Eraldo Matricardi e colaboradores, a sinergia entre desmatamento, fogo e degradação está produzindo uma aceleração exponencial da perda de serviços ambientais estratégicos, a começar pelo fornecimento de água e também de chuvas. Com isso, os piores cenários gerados para o agravamento das mudanças climáticas com base na destruição da Amazônia serão provavelmente ultrapassados, e entraremos em um processo de piora significativa das condições ambientais não apenas na Amazônia, mas também em outros partes do Brasil, e de todo o planeta. 

E é importante que se diga que esse avanço da franja de destruição na Amazônia, apesar da fingida preocupação por parte de governos e grandes fundos de investimento de atuação global, são parte intrínseca de um modelo econômico que despreza o conhecimento científico existente sobre a centralidade de se preservar as florestas tropicais.  Na prática o que conta para os “players” que decidem os rumos da economia global é garantir seus lucros fabulosos, ainda que isso signifique que se está rifando a estabilidade ambiental da Terra.

Por essas e outras é que a proteção das florestas amazônicas não se dará sem que haja uma importante mobilização global, que mesmo sendo iniciada desde dentro, vai ter que ocorrer principalmente nos países que consomem as commodities agrícolas que substituem a biodiversidade ali existente.

Nesse sentido, que os grandes incêndios de 2021 possam servir pelo menos para gerar o processo politico que impedirá, por exemplo, que o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul seja viabilizado.  É que os players da economia mundial só preocupam mesmo quando começam a perder dinheiro ou, pelo menos, a ganhar menos.

 Para os habitantes do centro sul do Brasil, uma quase certeza é que terão menos chuvas e mais fumaça em sua linha do horizonte nos próximos meses. Esse será o preço da devastação amazônica e da inação política em relação ao que está sendo feito por lá pelo latifúndio agro-exportador em troca de um punhado de dólares.

Relatório de 2020 do Mapbiomas mostra avanço acelerado do desmatamento na Amazônia

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As imagens da floresta amazônica sob ataque do garimpo ilegal do ouro são uma pequena amostra dos efeitos da paralisação dos instrumentos de controle ambiental pelo governo Bolsonaro

O projeto Mapbiomas lançou hoje o seu relatório anual sobre o desmatamento nos diferentes florestais brasileiros relativo ao ano de 2020, e os resultados apresentados demonstram o avanço da perda da cobertura florestal como via de regra, ainda que as maiores perdas tenham ocorrido na Amazônia e no Cerrado (ver gráfico abaixo).

desmata biomas

No tocante à distribuição do desmatamento na Amazônia, os estados responsáveis pelas maiores taxas continuam sendo aqueles que compõe o chamado “Arco do Desmatamento”, com uma liderança clara do Pará cuja taxa de desmatamento chegou a dramáticos  24.49%, sendo seguido pelo Mato Grosso (12,86%), Maranhão  (12,08%) e Rondônia (10,05%) (ver figura abaixo).

desmata estados

Um dos detalhes mais significativos do avanço do desmatamento nos biomas brasileiros é que a velocidade da perda diária florestas chegou a igualmente dramáticos 3.209 hectares. Se considerarmos que o Mapbiomas está se referindo apenas a corte raso da floresta (i.e., desmatamento),  há ainda que se levar em conta que a alteração dos biomas é ainda mais grave, na medida em que também deve estar ocorrendo, de forma também acelerada, o processo de degradação de florestal cujos efeitos sobre serviços ambientais e perda da biodiversidade são igualmente significativos.

A gravidade dos números verificados para Mapbiomas para 2020 é ainda maior quando se verifica que nos primeiros meses de 2021, quando historicamente ocorre uma desaceleração da mudança na cobertura florestal da Amazônia, os valores encontrados estão os maiores da última década e em aceleração. Com isso, o que teremos em 2021 não será apenas ainda mais desmatamento e degradação via atividades como garimpo e extração seletiva de madeira, e, obviamente, um aumento no número de incêndios florestais (que também são uma forma particularmente eficiente de degradação florestal).

Curiosamente, as consequências econômicas desta destruição em larga escala da biodiversidade e dos serviços ambientais fornecidos pelos biomas amazônicos e do Cerrado já estão sendo medidas e os números são tão devastadores quanto os associados ao desmatamento e à degradação florestal. O problema é que neste momento a dinâmica imposta pelo governo Bolsonaro é de paralisar toda a estrutura de comando e controle em nome de uma forma tosca de geração de receita.

Quem desejar baixar o relatório de 2020 do Mapbiomas, basta clicar [Aqui!].

Devastação desenfreada: Amazônia sofre maior nível de desmatamento em abril dentro de uma década, e degradação florestal também avança

deforestation

O desmatamento da Amazônia no último mês de abril foi de 778 km², o maior valor para o mês registrado nos últimos dez anos, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O índice é 45% maior que o desmatamento registrado em abril de 2020. Em março, também foi registrado um recorde histórico, quando o Imazon constatou 810 km² de floresta devastada.

Os estados com maior área desmatada são: 

  • Amazonas – 28%
  • Pará – 26%
  • Mato Grosso – 22%
  • Rondônia -16%
  • Roraima -5%
  • Maranhão – 2%
  • Acre 1%

“Em Lábrea e Apuí, no Amazonas, municípios que lideram o ranking dos 10 que mais desmataram, houve perda de 126 km² de floresta, o que representa quase 60% de todo o desmatamento do Estado detectado em abril”, diz o Imazon.

Degradação florestal

Os dados do Imazon apontam ainda o total de “degradação florestalna Amazônia Legal, que somaram 99 km² em abril, o que representa um aumento de 60% em relação ao mesmo mês no ano passado, quando a degradação detectada foi de 62 km². O estado do Mato Grosso concentra 75% da área de floresta degradada, seguido pelo Pará (24%) e Roraima (1%).

“O Imazon classifica o desmatamento como o processo de realização do corte raso, que é a remoção completa da vegetação florestal. Na maioria das vezes, essa floresta é convertida em áreas de pasto. Já a degradação é caracterizada pela extração das árvores, normalmente para fins de comercialização da madeira”, explica o instituto.

Com informações do G1.

Estudo mostra que por causa do avanço da degradação florestal, a Amazônia passou de sumidouro a fonte de CO2 atmosférico

amazonia-degradacaoO processo de degradação florestal por extração de madeira, garimpos e incêndios transformaram a Amazônia em uma fonte significativa de carbono atmosférico

No dia 11 de setembro de 2020, a revista Science publicou o artigo “Long-term forest degradation surpasses deforestation in the Brazilian Amazon” produzido por um grupo de pesquisadores liderados pelo professor Eraldo Matricardi do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, da qual fui dos co-autores.  Nesse trabalho, mostramos que o processo de degradação do bioma amazônico por atividades de extração de madeira e fogo havia ultrapassado a área desmatada.

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A fumaça sobe de um incêndio ilegalmente aceso na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images

No artigo citado, adiantamos que outros pesquisadores poderiam utilizar nosso estudo para produzir estimativas sobre, por exemplo, os efeitos do avanço da degradação sobre o estoque de carbono nas florestas amazônicas.  Eis que na última 5a. feira (29/04), a revista “Nature and Climate Change” publicou um artigo intitulado “Carbon loss from forest degradation exceeds that from deforestation in the Brazilian Amazon” que parte exatamente da ideia de que a degradação florestal é um importante agente não apenas de mudança da paisagem, mas também um fator central nas alterações que estão ocorrendo nos estoques de carbono, o que altera significativamente não apenas o ciclo do carbono, mas também o clima e as taxas de biodiversidade.

O grupo liderado pelos pesquisadores Xiangming Xiao (da Universidade Estadual de Oklahoma nos EUA) e Jean-Pierre Wigneron (do INRA Nouvelle-Aquitaine da França) constatou que “a perda de área bruta de floresta foi maior em 2019 do que em 2015, possivelmente devido ao recente afrouxamento das políticas de proteção florestal‘, mas que, no entanto, “a perda líquida de  biomassa acima do solo (AGB) foi três vezes menor em 2019 do que em 2010“.  Além disso, eles também observaram que “durante o período entre 2010–2019, a Amazônia brasileira teve uma perda bruta cumulativa de 4,45 PgC contra um ganho bruto de 3,78 PgC, resultando em uma perda líquida de AGB de  0,67 PgC“. Assim, sendo “a degradação florestal (73%) contribuiu três vezes mais para a perda bruta de AGB do que o desmatamento (27%), dado que a extensão da área de degradação excede a do desmatamento (refletindo o que havíamos indicado no artigo publicado pela revista Science)”.

A consequência dessas descobertas é que o processo de degradação florestal “se tornou o maior responsável pela perda de carbono na Amazônia”, enterrando de vez a ideia de que os problemas causados pela mudança da cobertura florestal estão circunscritos ao desmatamento e, mais importante ainda, que não haverá um controle efetiva da transformação da Amazônia em fonte, em vez de sumidouro, de carbono atmosférico sem políticas públicas que contenham o acesso descontrolado a áreas que ainda estão relativamente fora da ação de grupos que agem ilegalmente para extrair madeira e riquezas minerais (como o caso dos garimpos ilegais de ouro). 

Finalmente, a confirmação de que a degradação florestal da Amazônia é hoje o elemento central para se formular políticas que a mantenham como um importante fator de controle das mudanças climáticas deverá colocar desafios particularmente incumpríveis durante a vigência do governo de Jair Bolsonaro e por causa das ações objetivas de seus ministros anti-ambiente Tereza Cristina e Ricardo Salles.