A importância das áreas protegidas contra a seca e as mudanças climáticas na Amazônia

Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade

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A Amazônia enfrenta uma seca histórica de proporções alarmantes. Dados do porto de Manaus revelam que o Rio Negro, um dos principais rios amazônicos, alcançou o menor nível registrado em 121 anos de monitoramento. Fenômenos climáticos, como o El Niño, desempenham um papel crucial na redução das chuvas na região, resultando no esgotamento dos rios, no desaparecimento dos igarapés e na invasão de densas nuvens de fumaça decorrentes das queimadas.

Segundo Fabiana Prado, coordenadora do LIRA/IPÊ – Legado Integrado da Região Amazônica -, essa situação dramática tem efeitos devastadores. “A população local sofre com a escassez de água potável, enquanto a agricultura e a piscicultura enfrentam prejuízos significativos. As queimadas, agravadas pelo clima seco, aumentam a fumaça no ar, prejudicando a saúde das comunidades e levantando preocupações sobre a qualidade do ar”, diz. 

Em meio à crise, as áreas protegidas emergem como um contraponto essencial. “Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade, na mitigação dos impactos das mudanças climáticas e na promoção da resiliência da região”, afirma Fabiana. Funcionam como verdadeiros refúgios para a fauna e a flora amazônicas, contribuindo para a regulação do clima e a proteção do solo.

O LIRA, uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, envolve uma rede de 116 organizações da sociedade civil, empresas, cooperativas, instituições de pesquisa e órgãos governamentais, cobrindo uma área de 58 milhões de hectares, com projetos dedicados à conservação de 55 Áreas Protegidas da Amazônia. “O propósito central do LIRA é transformar essas áreas em polos de desenvolvimento regional e territorial, fortalecendo as populações locais e reduzindo a pressão sobre a floresta”, diz Fabiana Prado. Ela destaca ainda a necessidade de ações efetivas para enfrentar essas adversidades.

A seca na Amazônia serve como um alerta urgente para a importância das áreas protegidas e iniciativas como o LIRA. Elas são cruciais para assegurar a sobrevivência da maior floresta tropical do mundo diante de desafios climáticos cada vez mais graves, além de desempenharem um papel fundamental na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. “A conservação da Amazônia é uma causa global, e essas áreas desempenham um papel central na construção de um futuro sustentável”, afirma Fabiana.

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Mais informações: 

https://lira.ipe.org.br/

Fogo descontrolado na Amazônia ameaça ganhos ambientais e proteção do bioma

Incêndios se tornam principal fator de degradação da floresta e ação coordenada é urgente para eliminar riscos, avaliam pesquisadores
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Em artigo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution nesta terça-feira (16), pesquisadores do Brasil e do exterior alertam que os incêndios se tornaram o principal fator de degradação da Amazônia brasileira, passando a ameaçar ganhos ambientais na proteção do bioma, como a efetividade do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

O grupo de cientistas recomenda esforços “urgentes e coordenados” para eliminar os riscos do fogo descontrolado, incluindo a cooperação e apoio internacional em pesquisa e governança.

“Primeiro, é preciso entender o que levou ao aumento do fogo. Com mais dados em mãos, as políticas podem ter maior efetividade. Uma das hipóteses que consideramos para explicar a alta nos incêndios é a ocorrência de uma queima antecipada, aproveitando o início da estação seca amazônica, para evitar sanções mais severas no final do ano, quando teremos que lidar com os efeitos fortes e esperados do El Niño”, explica Paulo Moutinho, cientista sênior no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e um dos autores do artigo.

Apesar da queda de 42% registrada no desmatamento da Amazônia brasileira no primeiro semestre de 2023, na comparação com o mesmo período do ano passado, o fogo continuou subindo. De janeiro a julho deste ano, os focos de incêndio no bioma tiveram alta de 10,76% em relação a 2022.

Pela primeira vez, indicam os pesquisadores, o fogo parece se desassociar do desmatamento na região. Atividades que costumavam aparecer uma depois da outra nos indicadores, agora seguem rumo inverso.

“O fogo na Amazônia geralmente ocorre em áreas que foram desmatadas, ou seja, uma ilegalidade conectada à outra. Por isso, chamamos fogo de desmatamento. Além desse, há outros tipos de fogo característicos do bioma, como o fogo de manejo em pastagens. Mas o fogo de desmatamento era o mais comum, muitas vezes causando incêndios de grande proporção”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM, também autora do texto.

Só 19% dos focos detectados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nos primeiros seis meses de 2023, estavam relacionados a desmatamentos recentes – uma queda, cita a publicação, comparada aos 39% registrados em 2022.

Além da ação humana, o contexto climático oferece condições para o aumento do fogo: um El Niño ativo, com efeitos de mais calor e mais seca, em retroalimentação com as mudanças climáticas, que têm como consequência a alteração de padrões e ciclos naturais, como o da chuva.

“O futuro da Amazônia sob as mudanças climáticas – mesmo se o desmatamento ilegal for zero – permanece pouco claro com as ameaças da emergência no clima, da seca e do fogo”, dizem os pesquisadores em um trecho. “As consequências da inação sobre o fogo na Amazônia e a desatenção aos tipos e causas do fogo são severas e devem ser evitadas”, ressaltam em outro.

Junto à articulação internacional, os autores indicam o comprometimento de países amazônicos para os avanços considerados necessários na gestão “equitativa e segura” contra os incêndios. Também sinalizam que a perda de vegetação nativa deve ser reduzida de maneira concomitante, bem como a transição de uma economia baseada em commodities agrícolas para uma bioeconomia sustentável.

Seca transforma Manaus em uma distopia climática

Os incêndios florestais deixam Manaus com a segunda pior qualidade do ar do mundo, enquanto os baixos níveis dos rios isolam as comunidades

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Jonathan Watts, em Manaus, para o “The Guardian”

Uma seca devastadora transformou a capital amazónica de Manaus numa distopia climática, com a segunda pior qualidade do ar do mundo e rios nos níveis mais baixos dos últimos 121 anos.

A cidade de 1 milhão de habitantes, cercada por uma floresta, normalmente se aquece sob o céu azul. Os turistas viajam em barcos de recreio para o encontro próximo dos rios Negro e Amazonas (conhecido localmente como Solimões), onde golfinhos podem ser vistos frequentemente desfrutando daqueles que são geralmente os recursos de água doce mais abundantes do mundo.

Mas uma estação seca incomum, agravada pelo El Niño e pelo aquecimento global provocado pelo homem, ameaça a imagem da cidade, o bem-estar dos seus residentes e as perspectivas de sobrevivência de toda a bacia amazônica.

A capital das florestas foi envolta numa névoa castanha escura que lembra a China durante a sua fase mais poluída. O porto geralmente vibrante foi empurrado para longe, através das planícies lamacentas secas e cobertas de lixo. 

Um homem observa barcos ancorados no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus

Na semana passada, monitores da qualidade do ar registaram 387 microgramas de poluição por metro cúbico, como resultado da névoa de fumo dos incêndios na floresta amazónica. 
Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Há tantos incêndios na floresta seca que circunda Manaus que os monitores da qualidade do ar registaram na semana passada 387 microgramas de poluição por metro cúbico, em comparação com 122 na capital económica do Brasil, São Paulo. A única cidade no mundo com pior desempenho foi um centro industrial da Tailândia.

Uma recente primeira página do jornal A Crítica mostrou uma fotografia do porto  de  Manaus atingido pela seca sob o título “Saúde em perigo” e uma reportagem sobre os desafios de garantir medicamentos e recursos essenciais numa altura em que os navios de mercadorias não podiam navegar pelo rio. “A Amazônia ferve” dizia a reportagem principal da revista Cenarium, que destacou o calor incomumente alto e a baixa umidade que criaram condições perigosamente secas na floresta.

A seca afetou áreas do Brasil. O estado do Amazonas registrou 2.770 incêndios durante a atual estação seca, que a mídia local disse ter sido o maior já registrado.

Embora fossem esperadas mais secas e incêndios do que o habitual em anos de El Niño como este, os serviços locais de combate a incêndios estavam mal preparados e mal equipados.

O secretário da cidade de Borba disse: “Se os municípios tivessem pelo menos a estrutura mínima instalada, poderíamos ter evitado muitos problemas”.

Jane Crespo, secretária de Meio Ambiente de Maués, uma comunidade a 250 quilômetros de Manaus, disse: “Alguns municípios não têm água suficiente para apagar os incêndios”. 



Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus.
Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. À medida que os seus níveis diminuíram, algumas comunidades foram isoladas, levantando preocupações de um desastre humanitário. Em outros lugares, a navegação só é possível por meio de pequenas embarcações, o que encarece o transporte. Em Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte, as pessoas reclamam que os produtos estão ficando mais caros.

A produção industrial também foi afetada pela falta de abastecimento, ameaçando a economia de Manaus e a sua reputação como zona de livre comércio. As autoridades do estado do Amazonas convocaram uma reunião de emergência para discutir a crise climática regional e apelaram ao governo federal por assistência.

Os lobistas da indústria rodoviária estão a utilizar a crise para pressionar por uma nova estrada pavimentada – a controversa BR 319 – que ligaria Manaus a Porto Velho. Os conservacionistas da Amazónia alertam que isto seria um desastre para uma das últimas áreas remanescentes de floresta intacta e de importância global.

O impacto sobre outras espécies será provavelmente devastador. Além das mortes em massa de golfinhos de rio ameaçados de extinção , inúmeras outras espécies provavelmente sofrerão mortalidade. A micologista Noemia Ishikawa, radicada em Manaus, disse ter notado uma ausência quase total de cogumelos nos campos.

Homens carregam produtos no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus
O porto de Rio Negro está coberto pela fumaça dos incêndios na floresta amazônica. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Philip Fearnside, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica, alertou que a floresta tropical está se aproximando de um ponto de declínio irreversível à medida que as estações secas se prolongam, juntamente com mais dias de calor extremo e sem chuva.

A somar aos riscos está uma crescente população humana que está a converter mais florestas em pastagens, que são regularmente queimadas. Fearnside disse que: “Todas as mortes de árvores causadas por esses processos podem contribuir para iniciar um ciclo vicioso, onde a madeira morta deixada na floresta serve como combustível para incêndios florestais, que têm maior probabilidade de começar e se espalhar e são mais intensos e prejudiciais se ocorrerem.

“Incêndios repetidos podem destruir totalmente a floresta. Além dos pontos críticos em termos de temperatura e duração da estação seca, há também um ponto crítico devido à perda de floresta além de um certo limite, que também se acredita estar próximo.”

Breves períodos de chuva rio acima nos últimos dias aumentaram as esperanças de que a estação seca possa estar chegando ao fim, mas os meteorologistas dizem que é muito cedo para prever isso com alguma confiança. No entanto, as tendências climáticas tornam quase certo que esta seca não será um recorde durante muito tempo.


Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A seca e o calor estão reduzindo a capacidade de absorção de carbono pelas florestas

Estudos recentes fornecem novos insights sobre esta relação observada durante a seca severa e a onda de calor de 2022 em grande parte da Europa. A renovação da gestão florestal é fundamental

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Os extremos climáticos e a gestão florestal obsoleta enfraquecem o sumidouro terrestre que nos dá mais oxigênio para viver

Por Reina Campos Cada para a MeteoRed

Os acontecimentos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, são prejudiciais para a sociedade e para o funcionamento dos ecossistemas terrestres. Como consequência, a produção de alimentos, a saúde humana e os recursos energéticos são afetados.

Embora as secas tenham ocorrido durante séculos, a Europa registou recentemente uma elevada incidência destes eventos extremos e as projeções mostram um aumento dos mesmos com o aquecimento global.

Sabemos que a ligação entre a seca e a redução da absorção de carbono está bem estabelecida, mas permanecem questões importantes sobre o impacto das secas recorrentes, a força dos efeitos de compensação sazonais e regionais, as reações terra-atmosfera que podem exacerbar as ondas de calor e as estratégias de gestão florestal numa mudança climática, menciona um estudo.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Nature Communications, salienta que esta situação é preocupante, porque a seca e o calor ameaçam a absorção de carbono pelos ecossistemas que atualmente atenuam o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, ao compensarem um terço das emissões antropogênicas de combustíveis fósseis.

Para fornecer respostas concretas, outro estudo publicado na mesma revista científica, aproveitou os dados disponíveis para mostrar que a seca severa (intensa e prolongada) e a onda de calor de 2022 reduziram a absorção de carbono florestal às escalas local, regional e continental.

Secas e ondas de calor em grande escala ocorrem a partir de padrões de alta pressão na circulação atmosférica que inibem a formação de nuvens e a precipitação, aumentando a energia disponível na superfície da Terra. O melhor feedback terra-atmosfera agrava ainda mais as condições extremamente secas e quentes, à medida que a água transpirada pelas plantas e evaporada dos solos é reduzida. Portanto, o resfriamento se torna menos eficiente e mais energia disponível aquece o ar.

Recomendações para o manejo florestal em nível nacional e internacional

Sugere-se que os governos considerem os graves impactos da seca no sumidouro de carbono florestal para atingir as metas de emissões líquidas zero. Além de reduzir a desflorestação, países tropicais como o Brasil e a Indonésia estão planejando mudanças substanciais no uso da terra para compensar as emissões de gases com efeito de estufa (GEE). “Na Europa, a área florestal tem vindo a aumentar há décadas (10% durante o período 1990-2020) e a mudança no uso do solo representa 1% da meta de redução para 2030”, observa o estudo.

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O stress hídrico evolui (da esquerda para a direita) de uma combinação de défice de precipitação e aumento de temperaturas. Fonte: Wolf e Paul-Limoges (2023).

Para garantir a resiliência do sumidouro de carbono florestal, as melhorias nas práticas de gestão atuais devem incluir mudanças no sentido de combinações de espécies que sejam mais bem adaptadas às condições climáticas futuras, preservando simultaneamente as espécies locais e a biodiversidade.

As estratégias de gestão florestal, em um clima em mudança, precisam combinar abordagens de adaptação e mitigação para permitir o armazenamento resiliente de carbono. Se for devidamente implementado, isto poderá garantir que a meta de emissões líquidas zero seja cumprida e tornar as futuras florestas mais resilientes a eventos extremos, como a seca e o calor de 2022.

O evento de 2023 também poderá rivalizar com os anos de 2018 e 2022 devido a uma combinação de impactos diretos nas regiões mais afetadas, à libertação de carbono de incêndios florestais generalizados no sul da Europa e aos efeitos relacionados na mortalidade de árvores devido a anos consecutivos de seca, indica o estudo.

Embora os impactos do evento de 2022 ainda estejam sendo investigados, a Europa está sofrendo mais um ano de temperaturas extremas e seca em 2023. Após um inverno quente e seco, a Península Ibérica, o sul de França e o noroeste de Itália foram afetados devido a uma grave seca em Primavera tardia. As condições de seca surgiram em grande parte do norte, centro e leste da Europa durante junho e julho, enquanto temperaturas recordes foram observadas juntamente com uma forte onda de calor que atingiu o pico no final de julho.

Por último, a redução na absorção de carbono florestal durante a seca e o calor de 2022 já não poderia ser excepcional em um clima mais quente, revelando a vulnerabilidade do sumidouro de carbono florestal a tais cenários climáticos.

Embora possa ser muito cedo para designar estas condições como o “novo normal”, há provas claras de que estes eventos têm aumentado em frequência e intensidade em grande parte da Europa. Está a tornar-se cada vez mais claro que secas e ondas de calor recorrentes desafiam as metas de emissões líquidas zero dos governos dependentes da silvicultura, e que a gestão florestal deve adaptar-se para reter o sumidouro de carbono nas florestas.


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Este texto foi originalmente publicado pela MeteoRed [Aqui!].

Amazônia: “Melhor zerar o desmatamento ontem”

Pesquisador da Amazônia Carlos A. Nobre fala sobre desmatamento, degradação e possível restauração

267712Mina de minério de ferro na floresta amazônica brasileira. Foto: AFP/MAURO PIMENTEL

Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Os países amazônicos querem discutir a preservação da floresta tropical em sua cúpula em Belém. Quão dramática é a situação?

Em toda a região amazônica, que originalmente compreendia cerca de 6,5 milhões de quilômetros quadrados de floresta, pouco mais de 1 milhão de quilômetros quadrados já foram desmatados, cerca de 18%. Outros 17% são áreas degradadas em vários estágios. A maior parte dessas áreas desmatadas e danificadas está localizada no sul da Amazônia, nos estados brasileiros do Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Amazonas, e no sudeste da Bolívia. Um segundo arco de desmatamento se estende ao longo dos Andes entre 400 e 1300 metros de altitude no Peru, Equador e Colômbia.

Quão longe ou quão perto estamos do “ponto sem volta” do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso?

Na verdade, a Amazônia não está longe de um ponto sem volta. Devemos parar o desmatamento, a degradação e os incêndios florestais definido para zero imediatamente e de preferência ontem. Precisamos de uma moratória nesse tipo de mudança de uso da terra, especialmente no sul da Amazônia porque está à beira do colapso. A estação seca nesta região de dois milhões de quilômetros quadrados já dura quatro a cinco semanas a mais do que nos últimos 40 anos. E é 2,5 graus mais quente e 25% mais seco. Esta região é agora uma fonte de emissões – liberando mais carbono do que retira da atmosfera. Portanto, se continuarmos com o aquecimento global e a destruição das florestas, passaremos desse ponto sem retorno em no máximo 20 a 30 anos. Portanto, é fundamental começar imediatamente a restauração de grande parte desses dois milhões de quilômetros quadrados que foram desmatados e degradados.

Entrevista

Carlos A. Nobre é um dos mais renomados pesquisadores da Amazônia. O cientista do sistema terrestre do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo investiga em particular as interações entre a biosfera e a atmosfera e as consequências do desmatamento para o clima. Nobre é um dos co-presidentes do Amazon International Science Panel de mais de 240 pesquisadores.

De acordo com suas declarações e seu programa de proteção da Amazônia apresentado em junho, o presidente brasileiro Lula da Silva quer acabar com o desmatamento “ilegal” na Amazônia até 2030. Isso é suficiente para evitar o colapso?

O Brasil e quase todos os países amazônicos assinaram um acordo durante a cúpula do clima COP 26 em Glasgow em 2021, que 134 países assinaram até o momento e que visa zerar o desmatamento no mundo até 2030. Esse deve ser o nosso principal objetivo. Embora o marco legal brasileiro permita o desmatamento de 20% e em alguns lugares até 50% na Amazônia, não podemos mais distinguir entre legal e ilegal para proteger a área. Os governos de alguns países amazônicos, como a Colômbia, estão trabalhando para interromper todo o desmatamento e essa deveria ser a política do Brasil também. Para salvar o planeta, combater a emergência climática e proteger a biodiversidade, o desmatamento não deve mais ser permitido.

O programa de proteção do Brasil também permite a expansão da extração “sustentável” nas florestas do estado para até cinco milhões de hectares. Isso faz sentido?

​​​​​Como eu disse, desmatamos quase a mesma área que degradamos na Amazônia. Infelizmente, a exploração madeireira praticada bem como o corte “seletivo” levam a uma enorme degradação das florestas. Este não é o caminho para a Amazônia. Para salvar a Amazônia, é necessário acabar com o desmatamento e a degradação florestal e embarcar em grandes projetos de restauração. Na COP 27 do ano passado, nós, o Painel de Ciência da Amazônia, lançamos um projeto para restaurar grandes áreas de floresta, principalmente nas regiões dos dois arcos de desmatamento. Chamamos-lhe »Arcos da Restauração Florestal«.

Grande parte da Amazônia brasileira é considerada terra federal ou estadual “ sem designação ” . O que o governo deve fazer com esta terra?

As “terras devolutas” na Amazônia cobrem uma enorme área de 560.000 quilômetros quadrados. É muito importante que as florestas dessas áreas sejam preservadas e que a restauração florestal em larga escala ocorra em terras públicas já desmatadas. Um total de mais de 20 milhões de hectares de floresta tropical já foram derrubados em reservas naturais, reservas indígenas e nas »terras devolutas«. Então um megaprojeto de restauração florestal como o que lançamos na COP 27, abrangendo pelo menos 50 milhões de hectares, é muito importante. Todas essas terras federais e estaduais que permanecem sem designação devem ser demarcadas como territórios indígenas e usadas para criar um grande número de santuários de vida selvagem.

O que você gostaria de ver como resultado da cúpula dos países amazônicos em Belém?

Claro, temos grandes expectativas com o acordo alcançado na Cúpula de Belém com todos os presidentes dos países amazônicos, possivelmente também com o presidente da França, Emmanuel Macron. Seria desejável que os oito países amazônicos e a Guiana Francesa chegassem a um acordo e, a exemplo da UE, formassem uma União de países amazônicos para combater conjuntamente o desmatamento, a degradação florestal e os crimes ambientais que estão explodindo na região, como o grilagem, garimpo ilegal, tráfico de drogas e combate à pesca predatória.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Pesquisadores entregam recomendações sobre florestas degradadas ao MMA

Documento elaborado por um grupo de pesquisadores de instituições como IPAM, Embrapa, Universidade de Lancaster, MPEG, INPE, CEMADEN, Woodwell entre outras defende aprimoramento do PPCDAm para combater de forma eficiente a degradação, além do desmatamento.

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Um grupo de pesquisadores entrega, nesta terça-feira (25), ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima um policy brief de políticas públicas com recomendações para o combate à degradação florestal na Amazônia.

O documento aponta caminhos para o aprimoramento do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), a fim de tornar a prevenção e o combate à degradação um tema prioritário na agenda ambiental brasileira. Atualmente, este é o principal projeto para conter desmatamento no país, e está na fase de consulta pública. Mas os pesquisadores alertam que temos que ir além de conter desmatamento e combater a degradação na Amazônia também.

A degradação florestal é a deteriorização das florestas remanescentes da Amazônia, resultado de distúrbios causados pela ação humana, como o fogo e a exploração madeireira ilegal. Enquanto o desmatamento remove toda a vegetação de uma área, a degradação mantém alguma parte, mas em um estado enfraquecido. Entre 1992 a 2014, foram degradados 337.427 km², enquanto o desmatamento atingiu 308.311 km². Áreas degradadas também respondem por um volume semelhante de emissões de CO2.

Florestas degradadas tem um valor ecológico mais baixo do que florestas intactas; são menos eficazes na regulação do clima, contêm menos e biodiversidade, e aumentem a vulnerabilidade social das populações locais. Pesquisas estimam que florestas degradadas bombeiam um terço a menos de água para a atmosfera do que florestas intactas, afetando diretamente o abastecimento hídrico e a produção de chuva em diversas regiões do país.

As características das florestas degradadas e do processo de degradação fazem com que as ações focadas no combate ao desmatamento tenham pouco efeito na recuperação e fiscalização dessas áreas. De acordo com o relatório, diversas regiões da Amazônia conseguiram frear o desmatamento, mas ainda sofrem com o avanço da degradação por falta de políticas para esse fenômeno.

Dentre as medidas sugeridas pelo documento, estão o aprimoramento no mapeamento de florestas degradadas e a criação de um fundo de emergência capaz de apoiar a proteção de áreas degradadas em anos de seca, quando incêndios nessas áreas são comuns. O briefing também defende a criação de mecanismos específicos para garantir a qualidade das áreas dentro de reservas legais e outras áreas protegidas, além da necessidade de um grupo de trabalho técnico-científico que atue junto ao Ministério no desenvolvimento de novas políticas.

Cerca de 38% do que resta da Amazônia sofre com algum tipo de degradação, segundo estudo publicado na revista “Science” que conta com a participação de mais de 30 autores de instituições nacionais e internacionais, como a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o IPAM, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Universidade de Lancaster no Reino Unido.

O Policy Brief foi resultado do encontro “Degradação das florestas amazônicas: um diálogo entre ciência e sociedade em busca de soluções”, ocorrido em Belém (PA), no mês passado. Participaram da elaboração, além do IPAM, CEMADEN (Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), Museu Paraense Emílio Goeldi, EMBRAPA(Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), SEMA-PA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente) do Pará, IMAZON (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), Woodwell Climate Research Center, UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), Universidade Federal Rural da Amazônia, NASA (National Aeronautics and Space Administration), UFPA (Universidade Federal do Pará), Universidade de Yale, Universidade de Oxford e Universidade de Lancaster.

Como as florestas são degradadas?

Existem dois agentes principais responsáveis pela degradação da floresta Amazônica: o fogo e a exploração ilegal de madeira. Segundo dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, cerca de 114.000 km2 de áreas florestais na Amazônia foram afetadas por incêndios. Além da emissão de grandes quantidades de CO², incêndios florestais na Amazônia, bioma que não está adaptado a esse tipo de evento, mata metade das árvores da área afetada e torna aquela região ainda mais propensa a novas queimadas.

A abertura de clareiras e estradas para a retirada, o transporte e venda da madeira de árvores derrubadas ilegalmente, também cria degradação na floresta. Esse tipo de perturbação cria áreas mais iluminadas e secas dentro das matas, prejudicando o desenvolvimento das espécies nativas e contribuindo para a ocorrência de incêndios.

O encontro e o Policy Brief foram financiados pelos CNPq e UKRI.

Estudo na Science mostra que ameaças na Amazônia vão muito além do desmatamento

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A área degradada do bioma (38%) é maior do que a desmatada (17 %). Somados, os dois índices indicam que mais da metade das florestas da Amazônia foram destruídas ou alteradas.

Os autores explicam que “durante o processo de degradação, o uso da terra pode ou não mudar, mas a cobertura do solo não muda (a floresta segue sendo floresta)”. O desmatamento significa a conversão total das florestas para outro tipo de uso do solo, como a agricultura ou a pecuária .

Mas, os pesquisadores avisam que é um erro pensar que a degradação causa danos insignificantes em comparação com o desmatamento. Baseando-se em dados de diversos estudos realizados entre 2001 e 2018, quantificando a acumulação de perturbações que alteraram o ecossistema e o funcionamento do bosque, afetando a sua capacidade de armazenar carbono e água.

“Não podemos falar de prevenir o desmatamento sem falar da degradação. O desmatamento zero não é uma meta otimista. Se requer reajustar a discussão sobre a conservação da Amazônia, o processo de degradação já não pode ser ignorado”.

Marcos Pedlowski, Universidad Estatal del Norte Fluminense, Rio de Janeiro

Segundo o estudo, as estimativas sobre emissão de CO 2 e gases de efeito estufa resultantes da perda gradual de vegetação situam-se entre 50 e 200 milhões de toneladas ao ano, um nível comparável à perda de carbono por desmatamento.

“A taxa de acúmulo de carbono pela floresta diminuiu cerca de 30% nos últimos 30 anos. Se continuarmos com este padrão, em mais ou menos 15 anos teremos uma Amazônia emitindo muito mais CO 2 do que absorve ”, afirmou à SciDev.Net David Lapola, ecólogo e líder do estudo.

Lapola, pesquisador do Centro de Investigações Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas, explica que o impacto sobre o estoque de carbono diminui a evapotranspiração da floresta, um processo que devolve a água à atmosfera por meio da transpiração das plantas .

“Quando aumenta o CO 2 , teoricamente a planta transpira menos, provocando menos chuva e umidfade. Com isso, podemos observar uma mudança de vegetação: as árvores com maior afinidade com climas úmidos estão desaparecendo e estão surgindo espécies mais resistentes ao clima seco”, revela.

O trabalho também sugere que a degradação ameaça a biodiversidade e provoca impactos socioeconômicos nas comunidades locais, como a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, por exemplo, as secas prolongadas anteriores às inundações recordes ocorridas em 2022 na Amazônia brasileira.

As perturbações na floresta podem ter diferentes origens mas danificam-na severamente, por vezes de forma irreversível. Crédito da imagem: Serfor-Peru, imagem de domínio público.

Ante este panorama, os pesquisadores da Amazônia consideram que se bem a meta de desmatamento zero para 2030 do governo brasileiro –mencionada no Foro Económico Mundial de Davos, Suíça, pela ministra de Meiio Ambiente e  Mudança Climática do Brasil, Marina Silva –é importante dentro da agenda ambiental global, falar apenas de ações para combater o desmatamento na região não é suficiente.

“As políticas públicas na Amazônia não podem cobrir apenas o desmatamento”, disse Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, ao SciDev.Net., no Rio de Janeiro, coautor de um dos primeiros estudos brasileiros , também publicado em Science , que chamou a atenção sobre o problema da degradação do bioma.

Para Pedlowski, as projeções das próximas décadas vão depender do modelo econômico e social que o Brasil vai adotar.

De acordo com o relatório do Painel Científico da Amazônia, entre os países da Pan Amazônia, o Brasil é responsável por mais da metade da produção de madeira (52%), seguido pelo Equador (11%), Peru (10%) e Bolívia (10%). Venezuela, Colômbia, Suriname e Guiana representam em conjunto o 17% restante.

Mais da metade da seleção extrativa de madeira dos países amazônicos está sendo realizada no Brasil. O país é seguido por Equador, Peru e Bolívia. Crédito da imagem: Serfor-Peru, imagem de domínio público

“Na Amazônia brasileira, a extração seletiva afeta uma grande área de floresta, sendo o segundo fator mais comum de degradação florestal, somente atrás dos chamados efeitos de borda”, destaca o informe.

“Toda essa suposta renda cria muito mais problemas e não gera tanto quanto as pessoas pensam. Os ganhos são superados pelos prejuízos”, garante Pedlowski.

E David Lapola acrescenta que “a degradação favorece alguns, mas oprime muitos”.

Os pesquisadores coincidem em recomendar o desenvolvimento de um sistema de monitoramento das perturbações florestais – imagens medianas de satélite combinadas com um escapamento laser de superfície – e de um modelo de “bosque inteligente”, com a instalação de dispositivos no bosque para monitorar o degradação, especialmente a tala seletiva.

Link para o resumo do estudo na Science


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui! ].

Science: Ação humana pode afetar Amazônia milhares de vezes mais rápido que processos naturais

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As mudanças causadas pela ação humana na Amazônia são capazes de afetar todo o continente em questão de séculos ou décadas. São, portanto, centenas a milhares de vezes mais rápidas quando comparadas a processos climáticos e geológicos naturais, que se estendem por milhões a dezenas de milhões de anos. Os principais fatores de degradação do bioma relacionados à atividade humana são desmatamento, incêndios florestais, erosão do solo, represamento de rios e desertificação devido à mudança climática global. É o que afirmam cientistas de instituições nacionais e internacionais, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Universidade de Louisiana, nos Estados Unidos, em artigo publicado na revista “Science” nesta quinta (26).

O pesquisador Pedro Val, um dos autores do estudo, explica que os dados foram compilados a partir do primeiro Relatório de Avaliação da Amazônia, documento lançado em 2021 pela rede de cientistas do Painel Científico da Amazônia. O artigo complementa esse conhecimento com dados de estudos publicados mais recentemente sobre impactos ambientais na América do Sul e no mundo.

A transição da paisagem florestal para a paisagem agrícola por meio do desmatamento em larga escala ocorre de forma acelerada na Amazônia, explicam os autores. Isto é preocupante porque o bioma tem papel fundamental no ciclo hidrológico planetário, e as interferências humanas provocam a degradação do regime climático global. Essas transformações geram consequências múltiplas para o bem-estar humano, como insegurança no acesso à água e alimentos, o que pode provocar migrações em massa e instabilidade política.

O artigo alerta que gestores públicos devem agir imediatamente para proteger biodiversidade, população e serviços ecossistêmicos globais associados à Amazônia. “Dentre as principais medidas destacadas, estão a parada completa de desmatamento através de políticas e leis de conservação existentes. As políticas públicas devem desincentivar o desenvolvimento de novas hidroelétricas e de novas exportações de commodities que dependam do desmatamento da Amazônia, como as derivadas da agricultura e mineração. Na esfera global destaca-se a necessidade de migrar para fontes de energia limpa e eliminar o uso de fontes como derivados do petróleo. É necessário migrar para energia eólica e solar”, explica Val.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Mais de um terço da floresta amazônica sofre com degradação causada por humanos, aponta estudo

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Foto tirada em 2015 de uma floresta em chamas em Belterra, na Amazônia brasileira

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O processo de degradação da Amazônia é bem maior do que os cientistas acreditavam ser, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira (26) na revista “Science” e assinado por 35 autores de instituições nacionais e internacionais, como Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Universidade de Lancaster, do Reino Unido. O artigo aponta que cerca de 38% do que resta da área de floresta sofre com algum tipo de degradação, o que provoca tanto ou mais emissões de carbono quanto o desmatamento.

O trabalho é fruto do projeto AIMES (Analysis, Integration and Modelling of the Earth System), ligado à iniciativa internacional Future Earth, que reúne cientistas e pesquisadores que estudam a sustentabilidade. As conclusões resultam de uma revisão analítica de dados científicos baseados em imagens de satélite e dados do chão já publicados anteriormente sobre mudanças na região amazônica entre 2001 e 2018. Os autores definem o conceito de degradação como sendo mudanças transitórias ou de longo prazo nas condições da floresta causadas por humanos. A degradação difere do desmatamento na medida em que este envolve mudanças na cobertura do solo – ou seja, no desmatamento, a floresta deixa de ser floresta.

Foram considerados quatro fatores principais de degradação: fogo na floresta, efeito de borda (as mudanças que acontecem em áreas de floresta ao lado das áreas desmatadas), extração seletiva (como desmatamento ilegal) e secas extremas. Diferentes áreas de florestas podem ser atingidas por um ou mais desses fatores, que têm diferentes origens. “Apesar da incerteza sobre o efeito total desses distúrbios, está claro que o efeito total pode ser tão importante como o efeito de desmatamento para emissões de carbono e a perda de biodiversidade”, diz Jos Barlow, pesquisador da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e coautor do estudo.

Além dos efeitos sobre o clima e das perdas de biodiversidade, os cientistas avaliam que a degradação da Amazônia tem impactos socioeconômicos significativos que devem ser investigados de forma mais profunda futuramente. “A degradação favorece poucos, mas leva fardos a muitos”, afirma David Lapola, pesquisador do CEPAGRI (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura), da Unicamp e líder do estudo. “Poucas pessoas lucram com esse processo e muitas perdem em questões de saúde, de qualidade de vida, de se identificar com o lugar onde vivem”, completa Patricia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coautora do estudo.

Em uma projeção feita pela equipe para 2050, os quatro fatores de degradação continuarão sendo as principais fontes de emissão de carbono na atmosfera, independentemente do crescimento ou cessão do desmatamento da floresta. “Apesar de parecer óbvio, mesmo em um cenário otimista, quando não existe mais desmatamento, a degradação continua sendo fator de emissão de carbono, principalmente pelas mudanças climáticas”, diz Lapola. Para o cientista, impedir o avanço do desmatamento pode contribuir para que mais atenção seja direcionada a outros fatores de degradação da floresta.

Os autores do artigo propõem a criação de um sistema de monitoramento para a degradação, além de prevenção e coibição do corte ilegal de madeira e controle do uso do fogo. Uma das sugestões é o conceito de “smart forests” que, assim como na ideia de “smart cities” (cidades inteligentes), usaria diferentes tipos de tecnologias e de sensores para coletar dados úteis a fim de melhorar a qualidade do ambiente. “Ações e políticas públicas e privadas para coibir desmatamento não necessariamente vão resolver degradação também”, avalia Lapola. “É preciso apostar em estratégias inovadoras”, completa.

Síntese dos processos de degradação explicados pelo estudo. Fonte: os autores


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [ Aqui!].

União Europeia chega a acordo para proibir produtos ligados ao desmatamento

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Uma área queimada da floresta amazônica é vista em Prainha, estado do Pará, Brasil, em 23 de novembro de 2019

Por Alice Tidey para a EuroNews  

Muitos produtos que contribuem para o desmatamento não serão mais importados e vendidos na União Europeia, de acordo com um acordo provisório firmado pelos legisladores da UE na manhã de terça-feira.

O acordo alcançado pelos representantes do Conselho e do Parlamento abrange óleo de palma, gado, soja, café, cacau, madeira e borracha, bem como produtos derivados como carne bovina, móveis, chocolate, papel impresso e derivados selecionados à base de óleo de palma.

Isso significa que as empresas agora terão que apresentar e emitir uma declaração de “due diligence” de que esses produtos colocados no mercado da UE não levaram ao desmatamento e à degradação florestal em nenhum lugar do mundo após 31 de dezembro de 2020.

“As novas regras visam garantir que, quando os consumidores compram esses produtos, eles não contribuam para degradar ainda mais os ecossistemas florestais. Proteger o meio ambiente em todo o mundo, incluindo florestas e florestas tropicais, é uma meta comum para todos os países e a UE está pronta para assumir sua responsabilidade”, disse Marian Jurečka, ministro tcheco do meio ambiente que liderou as negociações para o Conselho em um comunicado.

O acordo está sendo apresentado como uma grande vitória para o Parlamento, que acrescentou borracha, carvão e vários derivados de óleo de palma ao texto.

Os deputados também trabalharam em uma definição mais ampla de degradação florestal que inclui a conversão de florestas primárias ou florestas em regeneração natural em florestas plantadas ou em outras terras arborizadas e a conversão de florestas primárias em florestas plantadas.

A Comissão Europeia, entretanto, foi encarregada de avaliar se deve estender o escopo da legislação a outras terras arborizadas, bem como a outros ecossistemas e commodities nos próximos dois anos.

Também avaliará se as instituições financeiras da UE devem ser incluídas e proibidas de fornecer serviços aos clientes se houver risco de que esses serviços possam levar ao desmatamento. 

“Não foi fácil, mas alcançamos um resultado forte e ambicioso antes da conferência da biodiversidade COP15 em Montreal”, disse o relator Christophe Hansen (EPP, Luxemburgo) em um comunicado. 

“Esta importante nova ferramenta protegerá as florestas globalmente e cobrirá mais commodities e produtos como borracha, papel impresso e carvão. Além disso, garantimos que os direitos dos povos indígenas, nossos primeiros aliados no combate ao desmatamento, sejam efetivamente protegidos. Também garantimos uma forte definição de degradação florestal que abrangerá uma extensa área de floresta”, acrescentou.

O Greenpeace descreveu a nova legislação como um “grande avanço para as florestas e para as pessoas que as enfrentaram”.

“Não se engane, esta lei fará com que algumas motosserras se calem e impeça as empresas de lucrar com o desmatamento”, disse o porta-voz do Greenpeace na UE, John Hyland.

Mas a ONG criticou o que diz serem as inclusões dos governos da UE de “brechas para suas indústrias madeireiras e proteção frágil para os direitos dos povos indígenas que pagam com seu sangue para defender a natureza”.

Também deplorou a capacidade das empresas que se beneficiam do desmatamento de obter empréstimos de bancos europeus.

O WWF também deu as boas-vindas ao acordo com Anke Schulmeister-Oldenhove, oficial sênior de política florestal de seu escritório de política europeu, dizendo que “fizemos história com esta primeira lei mundial contra o desmatamento”.

“Como um grande bloco comercial, a UE não apenas mudará as regras do jogo para o consumo dentro de suas fronteiras, mas também criará um grande incentivo para que outros países que fomentam o desmatamento mudem suas políticas. A lei não é perfeita, mas inclui elementos fortes “, disse ela também.

Mas a ONG gostaria que outros ecossistemas já fossem incluídos, como as savanas, que segundo ela já estão sob imensa pressão da conversão agrícola e são importantes depósitos de carbono e refúgios para animais. Também vê a definição de degradação florestal como não “suficientemente ambiciosa”.

A legislação agora precisa ser formalmente aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicada pela EuroNews [Aqui!].