Água subterrânea do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital mostra sinais de tensão. Um novo estudo indica que os níveis de água subterrânea em partes do país estão caindo em taxas comparáveis às observadas em alguns dos sistemas de aquíferos mais explorados do mundo.

Parintins, Brasil, setembro de 2023. Barcos ficam à beira de um rio cujo nível de água caiu devido à seca. Crédito: Aguilar Abecassis/dpa/Alamy Live News

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A água sempre foi central para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. Dos rios do Amazonas às enchentes sazonais que transformam o Pantanal em um dos maiores pântanos do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas de dinâmica do lençol freático no Brasil usando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um cenário misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam quedas persistentes ligadas à expansão agrícola, atividade mineradora, variabilidade climática e crescente demanda por água.

Segundo os pesquisadores, o declínio da água subterrânea observado em alguns aquíferos brasileiros se assemelha a padrões documentados em sistemas de água subterrânea fortemente estressados em Bangladesh, Índia, Irã e EUA, revelam pesquisadores.

estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis.

A água subterrânea fornece aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e sustenta mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, ela fornece um amortecedor crítico durante secas e ajuda a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais diminuem.

Apesar de sua importância, o monitoramento das águas subterrâneas continua limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

Sobre a questão de saber se a abundância histórica de água do Brasil pode ter incentivado a complacência, Getirana disse:

Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança. O que mudou é que as suposições que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro.

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou uma série de grandes crises de água, incluindo a crise do racionamento de eletricidade em 2001, as severas secas de 2014–2015 e a escassez de água que afetaram várias regiões em 2021. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água.

A água subterrânea tem se tornado cada vez mais parte da solução. O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água aumentou o suficiente para deixar uma pegada detectável no armazenamento de água subterrânea.

O Brasil não enfrenta insegurança hídrica em todo o país atualmente, mas esses achados sugerem que a confiança tradicional do país em recursos hídricos abundantes pode precisar ser reconsiderada em um clima em mudança e sob demanda crescente.

Pressão sob o Cerrado

Alguns dos sinais mais fortes de declínio da água subterrânea ocorrem no centro do Brasil, especialmente em partes do Cerrado e nas bacias de São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por extensa expansão agrícola.

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado por hidrólogos como uma das paisagens mais importantes produtoras de água da América do Sul. Grandes sistemas fluviais têm origem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias da Amazônia, Paraná e São Francisco.

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada.

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos passaram por anos em que pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea ocorria. Naqueles anos, a chuva não conseguiu repor as reservas subterrâneas em taxas históricas. Pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea muito utilizados.

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a enfraquecer, a extração de água subterrânea pode se tornar cada vez mais difícil de sustentar durante secas prolongadas.

A bacia de São Francisco emergiu como uma das regiões que experimentaram as maiores perdas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo de água, seca, mudanças na cobertura do solo e mudanças nos padrões de chuva.

Como observado por Getirana, a água subterrânea pode mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões:

Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são tipicamente as primeiras fontes de água a diminuir. As florestas ajudam a sustentar os recursos hídricos promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciar a circulação atmosférica regional e os padrões de chuva. Aquíferos frequentemente servem como reserva de longo prazo, a conta de poupança do sistema hidrológico.

Nossos resultados sugerem que os sistemas de água subterrânea estão se tornando menos confiáveis em regiões onde a demanda por água é maior. As quedas mais fortes no armazenamento ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes naturais de segurança estão sendo pressionadas por um aumento crescente.

A Amazônia

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora os pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis, as mudanças não são uniformes em toda a bacia.

Getirana e colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até experimentaram ganhos no armazenamento de água subterrânea. Esses achados sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes sob condições ambientais favoráveis.

Perto de Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais.

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em várias áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis para declínios mais persistentes.

Secas recentes levaram os rios Amazonas a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando os ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu inundações severas. Os pesquisadores observam que as condições da água subterrânea podem influenciar o risco de enchentes porque sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuva adicional, aumentando o escoamento.

Em conjunto, esses achados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Refletindo sobre a importância mais ampla das descobertas, Getirana disse:

Acho que uma das lições mais amplas é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do mundo, mas nossos resultados mostram que os sistemas de água subterrânea ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, a mudança no uso do solo e o aumento da demanda por água atuam juntos.

Muitas sociedades historicamente trataram os recursos naturais como efetivamente inesgotáveis porque pareciam abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.

A água subterrânea é particularmente importante porque é em grande parte invisível. Ao contrário de rios ou reservatórios, mudanças no subsolo podem passar despercebidas por anos ou até décadas. Estudos como este ajudam a tornar essas mudanças ocultas visíveis antes que se tornem problemas maiores.

Incêndio, mineração e extração de água subterrânea

O Pantanal, o maior pântano tropical do mundo, também está enfrentando pressão crescente.

Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso do solo e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos secos.

A atividade de mineração também contribui para pressão adicional em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para apoiar as operações de mineração. Isso pode reduzir o nível da água subterrânea, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em grande escala alterou os sistemas de água.

Ao redor do Mar Morto, décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração do lençol freático contribuíram para uma queda dramática nos níveis da água, acelerando o recuo da linha costeira e formando milhares de dolinas.

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil levantou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nos lençóis freáticos, áreas úmidas e sistemas conectados de água doce.

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao Rio Madeira, uma das vias navegáveis mais importantes da Bacia Amazônica. Embora as consequências de longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

Um desafio emergente

O Brasil não está ficando sem água, mas recursos abundantes não eliminam vulnerabilidades.

O estudo constatou que apenas uma fração da chuva chega, em última análise, alcança e repõe as reservas de água subterrânea. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar enfraquecendo.

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos muitas vezes são vistos principalmente como escassez de chuva.

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas aceleram e a pressão sobre os recursos de terra e água aumenta, é provável que a água subterrânea se torne um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil.

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto ao crescente conscientização pública sobre questões de segurança hídrica:

Estudos sobre disponibilidade de água, seca, água subterrânea e impactos climáticos estão cada vez mais alcançando a grande mídia e o debate público. O conhecimento científico sozinho não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.

O fato de que a segurança das águas subterrâneas e da água estão se tornando temas de conversa nacional no Brasil é animador. Quando a ciência alcança o público e informa a tomada de decisões, cria oportunidades para melhorar o monitoramento, o planejamento e a gestão da água a longo prazo.

Quando questionado sobre o que as pessoas poderiam ver, daqui a décadas, como a primeira indicação de que os sistemas de água subterrânea do Brasil estavam sob pressão, Getirana disse:

O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essas informações façam parte do processo de tomada de decisão. Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta vieram da combinação de observações de satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.

Por décadas, o Brasil baseou-se na suposição de que recursos hídricos abundantes compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. As evidências apresentadas neste estudo sugerem que proteger as águas subterrâneas pode se tornar tão importante quanto proteger rios, florestas e áreas úmidas nas próximas décadas.


Fonte: YourVoiz

Agrotóxicos, desmatamento e crise hídrica: como o agronegócio aprofunda as mudanças climáticas no Brasil

A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática

Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.

Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.

Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.

Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.

A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.

Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.

O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.

As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.

Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.

Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp

União Europeia e BR-319: a hipocrisia verde na estrada para o colapso da Amazônia

Sob o falso discurso do “desenvolvimento sustentável”, a pavimentação da BR-319 e a mineração de potássio em Autazes ameaçam destruir o último grande bloco preservado da floresta amazônica, acelerar a degradação florestal, empurrar o bioma para um ponto de não retorno climático e expor a hipocrisia ambiental da União Europeia

A reunião entre representantes do governo do Amazonas e embaixadores da União Europeia para discutir a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes expõe uma das contradições mais brutais do capitalismo verde contemporâneo: a tentativa de apresentar como “desenvolvimento sustentável” um projeto que pode acelerar o colapso ecológico da maior floresta tropical do planeta.

O discurso oficial é cuidadosamente construído. A BR-319 aparece como símbolo de integração nacional, soberania e progresso econômico. O projeto de mineração de potássio em Autazes é vendido como solução estratégica para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. Na superfície, a narrativa parece racional e pragmática. Mas basta observar a história recente da Amazônia para perceber que o que está em curso é algo muito mais grave: a abertura definitiva do último grande bloco relativamente preservado da floresta amazônica brasileira para uma explosão de desmatamento, degradação florestal, grilagem de terras, mineração, expansão pecuária e conflitos fundiários.

A falácia central do discurso pseudo-pró-desenvolvimento consiste em fingir que a pavimentação da BR-319 pode ocorrer sem reproduzir exatamente o modelo predatório que historicamente acompanha toda expansão rodoviária na Amazônia. Estradas nunca funcionaram apenas como corredores de transporte. Elas operam como vetores de ocupação descontrolada. A vasta maioria do desmatamento amazônico ocorreu historicamente ao longo de eixos rodoviários. A BR-163, a Transamazônica e a própria expansão do chamado “arco do desmatamento” comprovam isso de forma inequívoca.

No caso da BR-319, os efeitos destrutivos já começaram mesmo antes da pavimentação integral. A simples retomada de manutenção e melhoria da estrada coincidiu com o crescimento acelerado de ramais clandestinos, avanço da grilagem, aumento de focos de incêndio e expansão do desmatamento em sua área de influência. A ideia de que o Estado brasileiro teria capacidade de controlar esse processo é uma ficção política conveniente. Os próprios órgãos ambientais vêm sendo sistematicamente enfraquecidos há anos, enquanto redes ilegais de ocupação territorial se expandem com enorme capacidade operacional e apoio político local.

Mas existe um aspecto ainda mais grave — e frequentemente invisibilizado — no debate sobre a BR-319: a aceleração massiva da degradação florestal. O estudo conduzido por Eraldo Matricardi e colaboradores e publicado na revista Science em 2020 demonstrou que, entre 1992 e 2014, a área de floresta degradada na Amazônia brasileira superou a área completamente desmatada. Foram cerca de 337 mil km² de florestas degradadas, contra aproximadamente 308 mil km² efetivamente desmatados. Vale destacar que participei diretamente como um dos colaboradores desse trabalho científico, o que permite afirmar com ainda maior convicção que os impactos indiretos da expansão rodoviária sobre a integridade ecológica amazônica continuam amplamente subestimados no debate público e governamental.

Essa descoberta desmonta outra manipulação central do discurso oficial. A destruição amazônica não ocorre apenas quando a floresta desaparece totalmente do mapa. Ela também acontece quando a floresta permanece aparentemente “em pé”, mas perde progressivamente sua integridade ecológica. Estradas como a BR-319 aceleram precisamente esse processo por meio da fragmentação florestal, da extração seletiva de madeira, da abertura de ramais ilegais, das queimadas recorrentes e dos incêndios de sub-bosque.

O resultado é uma Amazônia biologicamente empobrecida, climaticamente fragilizada e muito mais vulnerável ao fogo e às secas extremas. Uma floresta degradada ainda pode aparecer verde em imagens de satélite convencionais, mas sua biomassa diminui, sua biodiversidade colapsa e sua capacidade de armazenar carbono e reciclar umidade é profundamente reduzida.

Esse processo é particularmente perverso porque cria um ciclo de retroalimentação da destruição. Florestas degradadas tornam-se mais secas e inflamáveis. Isso favorece incêndios mais intensos, que ampliam ainda mais a degradação. Em um contexto de aquecimento global acelerado, o sistema pode entrar em espiral de colapso.

É precisamente nesse ponto que o debate sobre o chamado “ponto de não retorno” da Amazônia assume centralidade. Cientistas alertam há anos que a combinação entre desmatamento, degradação florestal e mudanças climáticas pode empurrar o bioma para uma transição irreversível em direção a uma savanização parcial. A floresta amazônica depende criticamente de sua própria umidade reciclada para sustentar os regimes de chuva da América do Sul. Quando a floresta perde densidade e continuidade, reduz-se também sua capacidade de gerar os chamados “rios voadores”, comprometendo o equilíbrio climático regional.

A BR-319 corta justamente uma das regiões ainda mais intactas da Amazônia brasileira. Sua pavimentação tende a conectar novas frentes de destruição ao arco do desmatamento, abrindo caminho para a interiorização definitiva do colapso ecológico amazônico. Em outras palavras: trata-se de uma intervenção potencialmente capaz de romper a última grande barreira geográfica contra a expansão da devastação em larga escala.

Tudo isso ocorre num momento de extrema vulnerabilidade climática. A Amazônia já enfrenta secas históricas, rios em níveis criticamente baixos, aumento da mortalidade de árvores e incêndios florestais sem precedentes. Há ainda crescente preocupação científica em torno da possibilidade de um novo super El Niño  em 2026, capaz de produzir efeitos devastadores sobre a capacidade hídrica da floresta. Em um cenário de secas extremas prolongadas, a degradação induzida pela BR-319 pode atuar como catalisador de uma crise ecológica de dimensões continentais.

É nesse contexto que a postura da União Europeia se revela particularmente hipócrita. Bruxelas gosta de se apresentar internacionalmente como liderança global na defesa da sustentabilidade, da transição ecológica e do combate às mudanças climáticas. No entanto, quando entram em cena interesses estratégicos ligados a fertilizantes, mineração e cadeias globais de commodities, os princípios ambientais rapidamente tornam-se flexíveis.

A disposição europeia de dialogar e potencialmente apoiar projetos associados à pavimentação da BR-319 e à mineração em Autazes revela uma velha lógica colonial reciclada em linguagem verde: preservação ambiental no discurso diplomático; flexibilização ambiental na prática quando estão em jogo interesses econômicos e geopolíticos.

A mineração de potássio em Autazes sintetiza perfeitamente essa contradição. O projeto avança sobre uma região ambientalmente sensível e envolve impactos severos sobre territórios indígenas, particularmente do povo Mura, cujos direitos vêm sendo progressivamente relativizados em nome de uma suposta urgência econômica. O que se apresenta como “transição sustentável” revela-se, na realidade, mais um capítulo do extrativismo predatório que transforma a Amazônia em zona de sacrifício para abastecer mercados globais.

Há ainda um elemento profundamente autoritário na retórica oficial: a tentativa de desqualificar qualquer crítica à BR-319 como sendo “anti-desenvolvimento”. Trata-se de uma armadilha ideológica clássica. Questionar a pavimentação da rodovia não significa defender isolamento ou pobreza. Significa reconhecer que repetir, em pleno colapso climático global, o mesmo modelo destrutivo das décadas de 1970 e 1980 representa uma aposta deliberada na intensificação da crise ecológica.

A pergunta central continua sendo: desenvolvimento para quem? Para as populações amazônicas, que enfrentarão secas mais severas, incêndios florestais, conflitos fundiários e perda de segurança hídrica? Ou para grupos minerários, cadeias agroexportadoras e interesses geopolíticos internacionais?

A Amazônia já envia sinais claros de exaustão ecológica. Persistir na pavimentação da BR-319 em meio ao agravamento da emergência climática global não é um projeto de desenvolvimento. É a institucionalização da destruição em larga escala travestida de modernização. E talvez a tragédia maior seja justamente esta: a devastação da floresta deixou de ser clandestina. Agora ela é discutida em reuniões diplomáticas, celebrada em discursos oficiais e legitimada por governos e atores internacionais que continuam falando em sustentabilidade enquanto ajudam a empurrar a Amazônia para o abismo.

Pequenos fragmentos florestais isolados são importantes para a preservação das populações de aves

florestas isoladas 1Pequenos remanescentes florestais são frequentemente considerados marginais, mas seu valor pode aumentar se as paisagens circundantes forem menos áridas e a cobertura arbórea próxima for mantida ou restaurada. Crédito da imagem: Alexandre C. Lees.

Por  Rodrigo de Oliveira Andrade para “scidev.net” 

[SÃO PAULO, SciDev.Net] Os pequenos fragmentos florestais que restam após a exploração madeireira e o avanço da agricultura ou a criação de reservatórios hidrelétricos podem ajudar a proteger mais espécies de aves do que se imagina, especialmente quando seu ambiente imediato é menos hostil e abundante em cobertura arbórea.

A conclusão desafia uma premissa ecológica amplamente aceita: a de que remanescentes florestais menores e mais isolados tendem a abrigar poucas espécies e geralmente são considerados de baixo valor para a conservação da biodiversidade. Ela deriva de um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Além disso, a pesquisa se destaca porque “fornece evidências convincentes de que o valor ecológico de um remanescente florestal não pode ser compreendido apenas por sua área de superfície”, disse o ecologista Juan Pablo Ramírez-Delgado, pesquisador da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, Canadá, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma revista em 11 de maio.

O trabalho original combinou dados de pesquisas sobre aves em escala de paisagem em regiões tropicais e subtropicais da América Latina, África e Ásia com imagens de satélite da cobertura arbórea ao redor de fragmentos florestais para medir até que ponto um ambiente com maior cobertura florestal pode atenuar o risco de extinção de espécies locais.

Realizada por 58 cientistas de 19 países, a pesquisa comparou dois tipos de remanescentes florestais: ilhas florestais criadas por reservatórios hidrelétricos — consideradas uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat — e fragmentos florestais terrestres, geralmente formados por desmatamento e cercados por áreas agrícolas.

Ilhas florestais são uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat. Crédito da imagem: Anderson Saldanha Bueno.

“Como as ilhas representam o cenário mais extremo de isolamento, pudemos avaliar como a melhoria da paisagem circundante influencia o número de espécies de aves em fragmentos florestais”, disse ao SciDev.Net o biólogo Anderson Saldanha Bueno, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil, e principal autor do estudo publicado na PNAS .

No total, foram analisados ​​mais de 1.000 remanescentes florestais — 336 ilhas florestais e 669 fragmentos terrestres — e cerca de 2.000 espécies de aves. Entre elas, cinco espécies estão criticamente em perigo, 12 em perigo, 44 ​​vulneráveis, 83 quase ameaçadas e 1.810 classificadas como de menor preocupação.

A pesquisa descobriu que o que acontece fora do fragmento — na chamada paisagem circundante — pode influenciar decisivamente a persistência e o número de espécies de aves que o habitam.

Em particular, fragmentos florestais rodeados por áreas agrícolas apresentam taxas de extinção de aves mais baixas em comparação com fragmentos do mesmo tamanho localizados em ilhas formadas por barragens ou reservatórios.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores.”

Anderson Saldanha Bueno, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil

E as perdas de espécies associadas à redução da área — um indicador conhecido pelos ecologistas como relação espécie-área — foram menores tanto em ilhas quanto em fragmentos terrestres quando outros fragmentos florestais estavam próximos, em um raio de até 300 metros.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores”, acrescentou Bueno.

“Em outras palavras, aumentar o número de árvores em apenas 300 metros ao redor de um fragmento reduz significativamente a taxa de extinções locais, especialmente entre as aves dependentes da floresta”, explicou ele.

Segundo Bueno, o número de aves pode duplicar quando o ambiente imediato consiste em áreas terrestres com maior número de árvores. Crédito da imagem: Luis Fábio Silveira.

Segundo o pesquisador, isso ocorre porque as árvores próximas facilitam a movimentação das aves entre os fragmentos e oferecem alimento e abrigo, reduzindo o isolamento das populações.

“A proteção de florestas extensas e intactas continua sendo essencial, mas as descobertas indicam que os esforços de conservação devem ir além”, observou Ramírez-Delgado em seu comentário na PNAS .

“Medidas como o reflorestamento em áreas próximas aos remanescentes, o plantio ou a preservação de árvores dispersas e a promoção de mosaicos agrícolas mais complexos podem contribuir para reduzir o risco de extinção local”, acrescentou.

“O que distingue este estudo é a força, a escala e a clareza da comparação. Em vez de se concentrarem em ilhas oceânicas, os autores usam ilhas de reservatório como um raro experimento natural para explorar como o contexto da paisagem influencia a biodiversidade após a fragmentação”, acrescentou.

Para a bióloga Eliana Cazetta, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia, Brasil, que não participou do estudo publicado na PNAS , a conclusão é importante para a conservação. “Nem todas as soluções dependem da expansão de áreas protegidas”, disse ela à SciDev.Net . “A melhoria do ambiente imediato de fragmentos florestais existentes também pode contribuir para a redução da perda de biodiversidade.”

Segundo ela, isso pode ser alcançado por meio do plantio de árvores, da restauração da vegetação degradada e da conexão de fragmentos florestais, como reservas legais e áreas de preservação permanente. “Dessa forma, é possível aumentar substancialmente o número de espécies sem expandir a área total de floresta remanescente.”

“Em vez de ignorarmos os pequenos fragmentos florestais, precisamos reconhecê-los como peças-chave para a conservação da biodiversidade”, conclui Bueno.


Fonte:  SciDev.Net

Seis municípios de MT estão no topo do ranking de exploração seletiva de madeira na Amazônia

Estudo aponta que retirada de árvores de alto valor comercial provoca abertura de clareiras e alterações no dossel da floresta

Por Mariana Lenz para “Primeira Página”

O corte seletivo de madeira, método de extração onde apenas árvores específicas e de alto valor comercial são removidas, é apontado como uma das principais causas de ‘distúrbio de dossel’ na Amazônia Legal. O dossel é a camada superior da floresta, formada pela continuidade das copas das árvores mais altas.

Essa atividade está concentrada: 83,5% do total ocorre em Mato Grosso e no Pará, e seis dos 10 municípios com maior exploração estão em Mato Grosso em 2024. Os dados são de um levantamento feito pelo MapBiomas, que identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo entre os anos de 1988 e 2024.

Diferente do corte raso, ou desmatamento total, o objetivo do corte seletivo de madeira é retirar madeira sem destruir todo o ecossistema. Geralmente árvores de grande porte ou espécies maduras, são removidas, mantendo o restante da floresta em pé.

Quando a camada de dossel sofre alterações, seja por secas, ventos, incêndios, corte seletivo de madeira, efeito de borda ou outras perturbações, abre-se no local uma clareira, rompendo a continuidade original da floresta, que recebe o nome de distúrbio de dossel.

Segundo o MapBiomas, em 26 anos pelo menos 7% da cobertura de floresta na Amazônia Legal, ou 24,9 milhões de hectares, houve detecção de algum sinal de distúrbio de dossel por pelo menos um mês.

No ano de 2016, foi detectada a maior área mapeada desse distúrbio, com 4 milhões de hectares. Entre 2019 e 2024, a área afetada por esses distúrbios foi de 2,1 milhões de hectares.

Degradação da floresta

Pela primeira vez, os pesquisadores do MapBiomas calcularam a quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil: eles passaram de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. O crescimento de 163% em 38 anos sugere que a vegetação nativa no Brasil está mais exposta à degradação.

Fragmentação é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de vegetação nativa são divididas em porções remanescentes cada vez menores e mais isoladas por conta do desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades.

Os efeitos negativos do desmatamento são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas.

Foto: Marcos Vergueiro/Secom-MT
Quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil aumentam. – Foto: Marcos Vergueiro/Secom-MT

“Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta  o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance  de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, detalha Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas.

Biomas mais afetados

Segundo o levantamento, todos os biomas apresentaram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas (1986-2023). O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente. Seguidos do Pampa com 285%, Cerrado com 172%, Caatinga com 90% e Mata Atlântica com 68%. 

Mata Atlântica e Cerrado são os biomas com maior número absoluto de fragmentos de vegetação nativa com aproximadamente 2,7 milhões cada.

“Enquanto no Cerrado o aumento no número de fragmentos está associado ao avanço do desmatamento e à divisão de grandes remanescentes de vegetação nativa em áreas  menores, na Mata Atlântica, parte desse aumento também pode ser explicada por um processo no sentido oposto ao desmatamento, ou seja, pelo surgimento de múltiplas áreas de recuperação da vegetação secundária”, pondera Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica no MapBiomas.


Fonte: Primeira Página

A Amazônia está secando: o desmatamento empurra a floresta para o ponto de ruptura

Novo estudo publicado na Nature revela que a destruição da floresta reduz a reciclagem de umidade, intensifica secas e pode provocar um colapso climático em larga escala ainda neste século

A Amazônia está mais perto do ponto de ruptura do que imaginávamos.  Um novo estudo publicado na revista científica Nature alerta que o desmatamento está reduzindo drasticamente a capacidade da floresta de produzir sua própria chuva — e isso pode empurrar o maior bioma tropical do planeta para uma transição ecológica irreversível ainda neste século.

Segundo os pesquisadores, o problema não é apenas o aquecimento global isoladamente. O verdadeiro perigo surge da combinação entre mudanças climáticas, secas extremas e avanço do desmatamento. Juntos, esses fatores enfraquecem o mecanismo que mantém a floresta viva: a reciclagem de umidade atmosférica.

A floresta que fabrica chuva

A Amazônia funciona como uma gigantesca bomba de umidade. As árvores absorvem água do solo e a devolvem à atmosfera por meio da transpiração. Esse vapor forma nuvens e gera novas chuvas, criando um ciclo essencial para a própria sobrevivência da floresta.

Os cientistas estimam que até metade da chuva que cai sobre a Amazônia é produzida pela própria floresta. Sem essa reciclagem, o sistema perde estabilidade.

E há um detalhe decisivo: o desmatamento rompe justamente esse mecanismo.

Quando áreas florestais são derrubadas, menos água evapora para a atmosfera. O ar se torna mais seco, as estações secas ficam mais longas e a floresta remanescente passa a sofrer um estresse hídrico crescente. O resultado é um efeito dominó: regiões desmatadas reduzem as chuvas em áreas vizinhas, que também começam a secar.

O risco das “transições em cascata”

O estudo mostra que o maior perigo não está apenas na perda local da vegetação, mas nas chamadas “transições em cascata”.

Na prática, isso significa que o colapso de uma área pode desencadear o colapso de outras regiões a centenas ou até milhares de quilômetros de distância. Como a umidade circula pela atmosfera, a degradação da floresta se espalha pela rede climática amazônica.

Os pesquisadores descobriram que essas cascatas respondem pela imensa maioria das transições simuladas.

Ou seja: a Amazônia não entra em colapso apenas porque fica mais quente. Ela entra em colapso porque deixa de conseguir produzir e distribuir chuva para si mesma.

Um limite perigoso já pode estar próximo

Sem considerar o desmatamento, o estudo estima que a Amazônia enfrentaria um risco crítico de instabilidade em níveis de aquecimento global entre 3,7 °C e 4 °C.

Mas quando o desmatamento entra na conta, o cenário muda radicalmente.

Os pesquisadores concluíram que uma transição sistêmica pode ocorrer com um aquecimento muito menor — entre 1,5 °C e 1,9 °C — combinado a níveis de desmatamento entre 22% e 28% da floresta.

Hoje, o desmatamento acumulado da Amazônia já ultrapassa 15% do bioma.

Isso significa que o sistema pode estar perigosamente próximo de um limiar crítico.

O oeste amazônico pode ser o mais vulnerável

Um dos resultados mais preocupantes do estudo é a identificação das regiões oeste e sudoeste da Amazônia como particularmente vulneráveis.

Essas áreas dependem fortemente da umidade transportada por outras partes da floresta. Quando o desmatamento avança no sul e no leste — especialmente no chamado “arco do desmatamento” — a umidade deixa de chegar às regiões interiores.

A consequência pode ser devastadora: secas mais intensas, aumento de incêndios, perda de biodiversidade e transformação gradual da floresta em ecossistemas degradados, mais semelhantes a savanas secas.

Impactos muito além da Amazônia

Os efeitos não ficariam restritos ao Norte do Brasil.

A Amazônia influencia diretamente os chamados “rios voadores”, correntes atmosféricas que transportam umidade para outras regiões da América do Sul. O enfraquecimento desse sistema ameaça a disponibilidade hídrica e a produtividade agrícola em áreas fundamentais para a economia continental.

Os pesquisadores alertam que regiões agrícolas do sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e da bacia do Rio da Prata podem sofrer impactos severos.

Isso significa risco para a produção de alimentos, geração de energia hidrelétrica e abastecimento urbano.

Um alerta global

O estudo reforça algo que cientistas vêm dizendo há décadas: proteger a Amazônia não é apenas uma questão ambiental regional. Trata-se de um tema central para a estabilidade climática do planeta.

A floresta amazônica é um dos maiores reguladores climáticos da Terra e desempenha papel decisivo no armazenamento de carbono, na circulação atmosférica e no equilíbrio hidrológico sul-americano.

Se a floresta perder sua capacidade de se autorregular, o mundo inteiro sentirá as consequências.

Ainda há tempo — mas a janela está se fechando

Apesar do cenário alarmante, os pesquisadores afirmam que a transição não é inevitável.

O estudo aponta que interromper o desmatamento e restaurar áreas degradadas pode fortalecer novamente a reciclagem de umidade e aumentar a resiliência da floresta.

Projetos de restauração ecológica, especialmente nas áreas mais degradadas do arco do desmatamento, podem funcionar como barreiras contra o avanço do colapso climático.

Mas o tempo é curto.

Cada hectare derrubado não representa apenas a perda de árvores. Representa também menos chuva, mais calor, mais seca e uma floresta progressivamente incapaz de sustentar a si mesma.

A Amazônia não está apenas sendo destruída. Ela está sendo desconectada do sistema climático que a mantém viva.

Políticas anti desmatamento estão falhando em proteger a Amazônia brasileira contra a degradação florestal

Incêndio na Amazônia brasileira

Antonio passou os últimos sete anos correndo em direção a incêndios dos quais a maioria foge. Bombeiro na Amazônia brasileira desde 2019, ele trabalha dentro da Reserva Extrativa Chico Mendes, um dos lugares mais biodiversos do mundo. 

Mas as coisas estão mudando, e rápido. “2024 foi o ano mais extremo para incêndios”, disse Antonio. “Nunca tinha visto nada igual. A floresta queimava como pastagem seca – era assustadora para aqueles de nós que arriscam a vida para protegê-la.”

O que Antonio e seus colegas bombeiros estão testemunhando no local foi comprovado por um novo estudo. Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade de Cambridge, descobriu que as políticas que ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia brasileira nas últimas duas décadas falharam em sua maioria em deter a degradação florestal: uma forma de destruição mais lenta e potencialmente mais perigosa. Seus resultados são publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

Diferente do desmatamento, onde áreas inteiras de floresta são desmatadas para agricultura, indústria ou infraestrutura, uma floresta degradada ainda possui árvores de pé. No entanto, foi tão danificado por incêndios, extração ilegal, fragmentação, secas e caça excessiva que perdeu grande parte de seu valor ecológico. O chão da floresta, desprovido de sombra e umidade, vira uma caixa de polvora.

“Ainda há uma floresta lá, mas está tão danificada que o carbono que antes armazenava começa a vazar, os animais desapareceram e novas espécies de gramíneas colonizam as bordas da floresta”, disse o autor principal, Dr. Federico Cammelli, do Departamento de Geografia de Cambridge e do Instituto de Pesquisa para a Conservação. “Incêndios em florestas tropicais são de baixa intensidade, as chamas frequentemente passam despercebidas sob a copa, mas após um ou dois anos, as árvores morrem enquanto estão em pé, e a floresta se transforma em um cemitério de árvores mortas em pé.”

Pesquisas anteriores mostraram que, entre 2001 e 2018, as emissões líquidas de carbono da degradação florestal na Amazônia brasileira foram comparáveis ou até maiores do que as do próprio desmatamento. Até 2050, a degradação pode afetar toda a Amazon brasileira, mas mal apareceu nas políticas destinadas a protegê-la.

O Brasil fez progressos reais no desmatamento. A primeira fase do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia do governo, lançado em meados dos anos 2000, reduziu o desmatamento de árvores em cerca de 60 a 80 por cento. Acordos no setor privado – incluindo uma moratória sobre a soja proveniente de terras desmatadas e o compromisso das empresas de processamento de carne de não obter gado de áreas recém-desmatadas – também contribuíram para o sucesso da região.

No entanto, os pesquisadores descobriram que quatro grandes políticas destinadas a reduzir o desmatamento em três estados brasileiros não diminuíram a degradação. Até o momento, poucas pesquisas foram feitas sobre esse tema devido à falta de dados sobre degradação e seus fatores. Os pesquisadores integraram os dados recém-disponíveis sobre degradação com conjuntos de dados de políticas para comparar os impactos de quatro tipos de intervenções políticas dos setores público e privado em diferentes fatores de degradação.

Quando o desmatamento desacelera, parte da degradação também diminui, já que as florestas sofrem menos com os chamados efeitos de borda onde áreas desmatadas tocam florestas intactas. “No entanto, não encontramos evidências conclusivas de que qualquer uma das políticas da cadeia de suprimentos, como a moratória da soja ou os acordos sobre gado, enfrentasse outros grandes fatores de degradação antropogênica, como incêndios, extração madeireira e fragmentação”, disse Cammelli.

Em um caso, sugere a pesquisa, até mesmo políticas bem-sucedidas de desmatamento podem agravar a degradação. O acordo G4 sobre o setor de gado, assinado pelos quatro maiores empacotadores de carne do Brasil, parecia estar ligado a um aumento na extração de madeira: possivelmente porque, à medida que a pecuária se tornou mais regulada, algumas empresas migraram para o setor madeireiro menos regulado.

De volta a Chico Mendes, Antonio vê algumas das consequências dessas lacunas nas políticas. Ele disse que a estação seca agora dura mais a cada ano, as florestas estão ficando mais frágeis e as chuvas chegam com violência repentina, derrubando pontes e bloqueando estradas.

Ele não está otimista de que a lei está acompanhando. “As leis ambientais deveriam ser mais rigorosas, e os infratores deveriam ser devidamente punidos”, disse ele. “Se perdermos a floresta, perdemos nossas vidas indiretamente.”

Cammelli afirmou que a vontade política é vital. Uma atualização da política ambiental brasileira publicada em 2023 inclui a degradação florestal entre os critérios para direcionar a aplicação da lei ambiental a municípios com histórico ambiental precário, além de exigências específicas para reduzir o desmatamento.

“Incêndios frequentemente se espalham por muitas propriedades e envolvem responsabilidades complexas: quem é responsável pela ignição, quem pela propagação do fogo? Eles são melhor tratados na escala da paisagem. O setor madeireiro continua pouco regulamentado, e muito pode ser feito para combater o desmatamento ilegal”, disse ele.

Os pesquisadores estão defendendo uma mudança fundamental na forma como governos, empresas e reguladores pensam sobre a melhor forma de proteger as florestas.

O Regulamento de Desmatamento da UE, que proíbe a importação de produtos ligados à destruição florestal, define a degradação de forma muito restrita, dizem os pesquisadores, e em grande parte ignora os danos causados pelo fogo e a fragmentação causados pela produção de soja e carne bovina. Os pesquisadores estão incentivando a UE a expandir sua definição de degradação.

Apesar dos compromissos com o desmatamento, os pesquisadores não encontraram exemplos publicamente documentados de empresas operando na Amazônia brasileira que tivessem estabelecido metas concretas para combater especificamente a degradação florestal.

“Evitar o desmatamento e a degradação é muito mais importante para o clima e a natureza do que restaurar o que já se foi”, disse a autora sênior Professora Rachael Garrett, também do Departamento de Geografia e do Instituto de Pesquisa em Conservação de Cambridge. “Existem certas coisas que você não pode recuperar.”

“A cada ano”, disse Antonio, “a floresta e a vida selvagem se tornam mais vulneráveis.”

A pesquisa foi apoiada em parte pela União Europeia e pela Fundação Nacional Suíça para a Ciência.

 

Referência 


Federico Cammelli et al. ‘
Políticas focadas no desmatamento não reduzem a degradação na Amazônia brasileira.‘ Anais da Academia Nacional de Ciências (2026). DOI: 10.1073/pnas.2507793123


Fonte: University of Cambridge

Em simulação de mudanças climáticas, plantas da Amazônia se reestruturam para absorver nutrientes

Vegetação amazônica se mostra competitiva e resiliente quando submetida a cenário simulado de aumento de gás carbônico e escassez de fósforo no solo

rtigo destaca a importância da continuidade de estudos sobre o fenômeno conhecido como fertilização por CO₂.

 

Um experimento que simula o futuro do aumento das concentrações de CO₂ atmosférico em plena floresta amazônica revela comportamento organizado, competitivo e resiliente da floresta nesse cenário com maior presença do gás, que agrava o efeito estufa, e com solo escasso em fósforo – importante nutriente da flora nativa. Publicadas em artigo na revista Nature Communications na terça (28), as constatações reforçam a importância do bioma no combate às mudanças do clima.

Em condições adversas, as raízes das plantas situadas na serrapilheira ficaram mais longas e finas. As raízes fixadas no solo tiveram aumento de colonização por fungos, o que pode influenciar a competição entre plantas e microorganismos pelos recursos disponíveis.

Ao longo de dois anos, a partir de 2019, os pesquisadores puderam coletar informações de um sub-bosque da Amazônia, com árvores de até três metros de altura, que são submetidas ao aumento da concentração de dióxido de carbono, o CO₂, por câmeras de topo aberto. O experimento é realizado pelo programa AmazonFACE, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O programa é uma parceria dos governos brasileiro e britânico, sediado no Instituto Nacional de Pesquisa (INPA) e co-coordenado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Localizada a 70 quilômetros de Manaus, a iniciativa existe desde 2014; no final de 2023 o experimento com a câmara de topo aberto foi encerrado e em maio de 2026 o experimento FACE, com enriquecimento de CO2 ao ar livre, iniciará.

Um estudo anterior no mesmo experimento revelou que as plantas aumentaram substancialmente o seu crescimento por conta das adaptações, resultando em aumento da assimilação do carbono em 67% e em aumento do diâmetro do caule em 65%. Os resultados acumulados até o momento apontam para uma “fertilização por CO₂”, fenômeno que ainda precisa ser aprofundado, segundo o artigo.

Assim, a pesquisa mostra que tanto plantas quanto microrganismos se reorganizaram rapidamente para absorver nutrientes diante do cenário atípico. “Essa rápida adaptabilidade da comunidade de plantas, investindo em múltiplas estratégias para aquisição de nutrientes, reforça a importância da interação com o fósforo para a possível capacidade da floresta de continuar atuando como um sumidouro de carbono e resiliência da floresta frente às mudanças climáticas”, explica Nathielly Martins, autora principal do estudo.

Para a autora, o estudo contribui para o entendimento de cenários climáticos futuros em todo o planeta. No entanto, a Amazônia é um dos biomas mais afetados por extremos climáticos nos últimos anos, como secas e alagamentos. “Os resultados observados até o momento são únicos e nos guiarão para uma melhor compreensão da floresta amazônica como um todo em resposta às mudanças climáticas”, conclui Martins.


Fonte: Agência Bori

Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa, mostra estudo publicado na PNAS

Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis

Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).

Por Luciana Constantino  para “Agência FAPESP” 

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

Pesquisa publicada na segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)

De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.

O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.

Acompanhamento

O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.


Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)

Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.

Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Passo a passo

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.

Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.

Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

Cenário

Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.

Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.

“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.

O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.


Fonte: Agência Fapesp