Desmatamento aumenta no cerrado brasileiro

O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil, proclamam os ambientalistas

cerrado queimado

Por Jeff Tollefson para a Nature [1]

O desmatamento no Cerrado, uma vasta savana arborizada na fronteira com o sul e leste da Amazônia brasileira, aumentou 9% em 2017 em comparação com 2016, segundo dados de satélite divulgados no mês passado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos.

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O desmatamento do Cerrado, deve-se em parte às fracas proteções ambientais. Crédito: Roberto Jayme / Reuters

No total, estima-se que 7.408 km2 de terra foram desmatados para dar lugar a pastagens e plantações de gado. Embora a taxa de desmatamento no Cerrado permaneça bem abaixo dos níveis anuais documentados de 2013 a 2015, cientistas e ambientalistas, no entanto, alertam que a savana continua sendo o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente. Em comparação, o INPE registrou 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017, uma queda de 12% em relação ao ano anterior .

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“No Cerrado, estamos falando de um bioma com metade do tamanho da Amazônia e que já perdeu metade de sua vegetação nativa”, diz Ane Alencar, diretor de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que tem como base em Brasília. Uma série de fatores está por trás das tendências atuais de desmatamento, incluindo regras ambientais mais fracas no Cerrado do que na Amazônia.

Enquanto os proprietários de terras podem liberar apenas 20% de suas propriedades na floresta amazônica, eles podem reduzir até 80% da floresta no Cerrado. Cientistas e ambientalistas também alertam que a fiscalização ambiental na região continua fraca. A maior parte do desmatamento atual provém da expansão agrícola maciça nos estados do nordeste do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Grande parte da terra está sendo convertida em pastagens para gado, mas os cientistas dizem que a poderosa indústria de soja do Brasil se tornou uma importante protagonista no desmatamento no Cerrado. “O que estamos vendo agora é um padrão diferente de ocupação”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília. “As fronteiras de desmatamento estão sendo conduzidas agora por grãos de soja em uma região completamente nova”.

Proteger as florestas, a biodiversidade e os recursos hídricos na região exigirá ações adicionais dos governos estadual e federal no Brasil, bem como das corporações que compram e vendem commodities agrícolas, diz Alencar.


Publicado originalmente em inglês [1]

Aliança entre Temer e ruralistas pode custar meta climática ao Brasil

Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paris

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O presidente “de facto” Michel Temer assinando a MP 759 que anistiou a grilagem de terras. 

DO OC – A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia.  

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/alianca-entre-temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-brasil/

Relatório do Global Forest Watch mostra que no campeonato do desmatamento, o Brasil já é campeão mundial

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O consórcio “Global Forest Watch” acaba de divulgar o seu relatório anual sobre o desmatamento em escala mundial  e os números não são nada animadores, especialmente no tocante aos biomas tropicais, que perderam algo semelhante a um campo de futebol por segundo a cada dia em 2017 [1].

E nessa copa do mundo da perda de florestas e da biodiversidade nela contidas, o Brasil deu de goleada de 4 a 1 na segunda colocada, a República Democrática do Congo (ver figura abaixo).

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Um dado ainda mais preocupante é o que indica que a taxa média dos últimos 3 anos está em um curva ascendente, indicando que poderá ocorrer uma elevação ainda maior do desmatamento total acumulado (ver figura abaixo).

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Em uma nota no seu blog oficial, o Global Forest Watch aponta que o aumento constante na perda de cobertura de árvores tropicais é alarmante e os novos dados demonstram cada vez mais que os atuais esforços para reduzir o desmatamento são insuficientes. Na mesma nota, o Global Forest Watch lembra que, além de proteger a biodiversidade e fornecer meios de subsistência humanos, as florestas também desempenham um papel fundamental no armazenamento de carbono. E que embora a conservação florestal possa fornecer cerca de 30% da solução para limitar o aumento da temperatura global a 2 ° C, um limite que os cientistas dizem ser necessário para evitar os piores impactos da mudança climática, apenas 2% do financiamento disponíveis para proteção do clima são para o setor florestal.  A nota conclui dizendo que se o mundo quiser acabar com as mudanças climáticas com seriedade, todos os países devem redobrar seus esforços para reduzir o desmatamento.

Mas, cá entre nós, dado o controle político exercido pela bancada ruralista no congresso nacional e o silêncio cúmplice da maioria da mídia corporativa brasileira sobre o que está acontecendo em todos os biomas florestais brasileiros, é bem provável que ainda vejamos taxas médias ainda mais altas no Brasil, com a consequente extinção de mais biodiversidade e uma contribuição ainda maior na aceleração das mudanças climáticas.

E não custa lembrar que graças ao chamado “Novo Código Florestal” promulgado pela ex-presidente Dilma Rousseff, o nível de afrouxamento da proteção de áreas de alto valor ecológico ficou ainda maior, com o consequente aumento das taxas médias e totais de desmatamento não apenas nos biomas da Amazônia, mas em outras áreas ainda mais sensíveis tais como os do Cerrrado e da Caatinga. A consequência desse afrouxamento pode ser visto claramente na figura abaixo.

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[1] https://blog.globalforestwatch.org/data/el-2017-fue-el-segundo-peor-ano-en-relacion-a-la-perdida-de-cobertura-arborea-en-los-tropicos 

[2] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/10/dilma-aprova-novo-codigo-florestal-com-nove-vetos-na-lei-original.html

Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado

Desmatamento do Cerrado foi mais intenso que o da Amazônia entre 200 e 2015 (236 mil contra 208 mil quilômetros quadrados)

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Alto Paraíso de Goiás (GO) – Área de cerrado desmatada para plantio no município de Alto Paraíso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Débora Brito – Repórter da Agência Brasil

Com mais da metade de sua área degradada, o Cerrado ainda aguarda o título de Patrimônio Nacional pela Constituição Federal, como já obtido por outros ecossistemas do Brasil. Depois da Amazônia, o Cerrado é o maior bioma da América do Sul. No Dia Mundial do Meio Ambiente, especialistas alertam para os danos irreversíveis que o intenso processo de degradação pode trazer não só para o bioma, mas também para a sociedade, ao pôr em risco a disponibilidade de água e a regulação do clima.

O Cerrado se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados (Km2) do território brasileiro, o que equivale a quase 24% do país. Contudo, a área com vegetação íntegra do bioma já foi reduzida a cerca de 20% de sua cobertura original.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que em 15 anos o desmatamento no Cerrado foi mais intenso que na Amazônia. De 2000 a 2015, o Cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados, enquanto a perda na Amazônia, bioma duas vezes maior, foi de 208 mil quilômetros quadrados. Só no ano de 2015, o volume desmatado do Cerrado correspondeu a mais da metade da área devastada da floresta amazônica.

“A gente vê a expansão do agronegócio de maneira desenfreada no Cerrado, como se isso fosse totalmente natural. Esse é um dos motivos de tentar chamar a atenção para essa situação do Cerrado, que é um bioma que está se esvaindo rapidamente, sendo convertido em pastagens e áreas agrícolas de uma maneira desordenada”, alerta a bióloga Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Políticas e Direitos do Instituto Socioambiental (ISA).

Brasília - Incêndio destrói cerrado na região do Lago Oeste, no Distrito Federal (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas e pela produção de culturas como a soja e a cana-de-açúcar. O processo de expansão da fronteira agrícola, com a exploração predatória, como a produção de carvão vegetal e a pecuária, vem reduzindo gradativamente a extensão do bioma nas últimas décadas.

Patrimônio nacional

Para especialistas, o reconhecimento do Cerrado como Patrimônio Nacional é fundamental para a conservação do bioma. A Constituição de 1988 concedeu o título à Floresta Amazônica brasileira, Mata Atlântica, Serra do Mar, ao Pantanal Mato-Grossense e à Zona Costeira e estabelece que essas áreas e seus recursos naturais devem ser usados “dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente”.

Tramita desde 2003 no Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga ente os biomas considerados patrimônio nacional. A PEC já foi aprovada no Senado e aguarda, desde 2010, apreciação do plenário da Câmara dos Deputados.

“Não faltam elementos para reconhecer a importância do Cerrado como um ambiente fundamental para garantir a qualidade de vida dos brasileiros, por outro lado, ele está sempre em desvantagem, as políticas de conservação do Cerrado não são implementadas ou faltam políticas”, avalia a bióloga Nurit.

“Ainda há um grande desconhecimento por parte da população brasileira do que é a realidade de ocupação do Cerrado e como este processo nos afeta. O reconhecimento como patrimônio nacional tem um peso importante para sua proteção, não é uma questão local. A conservação do Cerrado tem repercussões e benefícios para o Brasil inteiro”, completou a professora Mercedes, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

Fragmentos

As consequências da degradação poderão, no futuro, inviabilizar o próprio agronegócio. A mudança no ambiente alterou o regime de chuvas e de produção de alimentos no ecossistema que tem a maior produção agrícola e pecuária do país.

“Metade do Cerrado foi destruída, mas o que sobra dos outros 50% não são áreas inteiras, são áreas fragmentadas, pequenas ilhazinhas de cerrado. E as áreas fragmentadas não conservam aquela diversidade biológica, a mesma flora e fauna das áreas inteiras, mesmo que essa área esteja protegida por uma unidade de conservação”, explica a bióloga Nurit.

“Essas áreas muito fragmentadas não tem condições de sustentabilidade ou de continuar mantendo as funções ecológicas que geram serviços importantes para o ser humano, como a disponibilidade de água e regulação do clima”, completou a professora Mercedes.

As áreas desmatadas do Cerrado são responsáveis ainda pela elevada emissão de gases de efeito estufa. Segundo estudo recente do Observatório do Clima, em 2016, o desmatamento do Cerrado emitiu 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa, volume que corresponde a mais que o dobro da emissão da indústria e equivale a 11% de todo o carbono que o Brasil lançou no ar no mesmo ano.

Meta de redução

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a área desmatada no Cerrado entre 2013 e 2015 foi de quase 19 mil quilômetros quadrados, uma média atual de 9,4 mil quilômetros quadrados por ano. Antes de 2008, essa média era de 15,7 quilômetros quadrados. Segundo o Ministério das Cidades, que coordena o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros, o resultado mostra redução de 37% no ritmo de desmatamento.

O ministério ressaltou que o percentual se aproxima da meta de redução em 40% do desmatamento do Cerrado estabelecida pela Política Nacional de Mudança do Clima até 2020. Mesmo com a redução, a pasta informou que “o governo continuará atuando até conter todo o desmatamento ilegal no bioma”.

Diferentemente da Amazônia, o monitoramento da degradação do Cerrado não é avaliado anualmente, mas, segundo o Ministério do Meio Ambiente, ainda este ano serão lançados os dados referentes a 2016 e 2017, e o Cerrado passará a contar com dados anuais. Também está em fase de testes o chamado Deter Cerrado, que fará monitoramento em tempo quase real do desmatamento, além de auxiliar nas ações de fiscalização.

O governo federal aprovou, em dezembro de 2016, a 3ª fase do chamado PPCerrado, plano de prevenção e controle do desmatamento. O programa, que será implementado até 2020, prevê o ordenamento fundiário e territorial, monitoramento e controle, promoção de cadeias produtivas sustentáveis e instrumentos normativos e econômicos.

No âmbito da fiscalização, o Ministério do Meio Ambiente informou que nos últimos 5 anos foram instaurados cerca de 2,3 mil processos de infração contra a flora. Foram feitas ainda ações de prevenção e controle de incêndios florestais e foi implantado um sistema de monitoramento da cobertura vegetal e outro de alerta de detecção do desmatamento.

Sobre a captação de recursos, o ministério esclarece que em breve o Brasil poderá pleitear pagamento por resultados alcançados na redução do desmatamento no Cerrado, assim como já é feito para a Amazônia. O Fundo Amazônia dispõe de R$ 2,5 bilhões em pagamentos e já investiu cerca de R$ 1,7 bilhão em projetos de combate ao desmatamento.

Alta biodiversidade

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado abriga 5% da biodiversidade do mundo. É a savana com a maior diversidade de árvores e onde vivem 12 mil espécies de plantas nativas, além de mais de 2,5 mil espécies de animais, entre mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis, e cerca de 67 mil espécies de invertebrados. No entanto, 20% das espécies nativas e endêmicas já não são encontradas nas áreas protegidas do Cerrado, onde pelo menos 137 espécies de animas estão ameaçadas de extinção.

O ecossistema tem cerca de 60 unidades de conservação, que protegem cerca de 8% da área total do bioma. Ele também é considerado o berço das águas, pois concentra as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul e a cabeceira de importantes rios, lagos e córregos responsáveis pela distribuição de água no Brasil.

Apesar do grande volume de água, alguns estados e o Distrito Federal estão enfrentando grave crise hídrica. “Se não tiver de fato uma política de conservação voltada para manutenção de recursos hídricos, a gente vai sofrer. Não se trata de inventar a roda, tem soluções que poderiam ser feitas a curto prazo e com efeitos positivos. Uma delas é evitar desperdício, pensar num uso mais sustentável da água na agricultura, em outro modelo de agronegócio que combine conservação e produção, além de usar menos agrotóxicos que poluem a água”, explica a especialista Bensusan.

Importância social

A vegetação do Cerrado está presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo, Distrito Federal, além de ocorrências no Amapá, Roraima e Amazonas. Na área de Cerrado, vive cerca de 40% da população brasileira e diferentes comunidades tradicionais, como indígenas, ribeirinhos, os chamados geraizeiros (do Cerrado do norte de Minas Gerais), quebradores de babaçu e quilombolas.

“Os povos do Cerrado são muito importantes, porque têm formas de vida tradicionais ligadas à natureza e que mantêm essa vegetação e essa fauna. À medida que os modos de vida dessas populações colapsam, a ameaça ao Cerrado duplica, porque essas pessoas têm que migrar para outras formas de uso da terra e dos recursos naturais que são mais predatórias, além da própria ameaça ao modo de vida dessas pessoas”, analisa a bióloga Bensusan.

Políticas de conservação

Um grupo de ativistas e pesquisadores socioambientais está elaborando um conjunto de recomendações de conservação do Cerrado para ser entregue aos candidatos à Presidência da República. As medidas serão definidas na próxima quarta-feira (7) em reunião prevista para listar os principais pontos abordados no Seminário Estratégia Nacional para o Cerrado, que ocorre nesta terça-feira na Câmara dos Deputados.

As medidas são reunidas em três eixos: conservação da vegetação e dos recursos hídricos, defesa dos direitos das comunidades e povos tradicionais e o desenvolvimento de um modelo de agronegócio sustentável. Entre as recomendações, estão a revisão das metas do Plano de Mitigação das Mudanças Climáticas e a criação de fundo de captação de recursos para o Cerrado.

Estudos

Os pesquisadores também estão trabalhando em conjunto com a Universidade de Brasília (UnB), que começou a desenvolver este ano um projeto de sensoreamento remoto para estabelecer conexões entre informações de segurança hídrica, energética e alimentar e as comunidades tradicionais que vivem no Cerrado.

O projeto vai consolidar na forma de mapas diferentes informações do bioma, por exemplo a variabilidade do clima nos últimos anos e as projeções futuras de mudanças climáticas com os possíveis impactos sobre a cadeia produtiva. Os primeiros resultados devem sair até o fim deste ano e serão levados pelos cientistas aos gestores públicos para basear as decisões sobre o tema.

“Hoje, a questão central do Cerrado é fazer uma boa gestão territorial que permita você ter o desenvolvimento da agricultura sem ocupar novos espaços e ao mesmo tempo garantir a segurança de fornecimento de água, alimentos e a utilização racional dos recursos energéticos nessa ocupação”, explica a professora Mercedes Bustamante, coordenadora do projeto.

Edição: Talita Cavalcante

FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-06/desmatamento-e-ocupacao-desordenada-ameacam-conservacao-do-cerrado

INPE e suas “boas” notícias sobre o avanço do desmatamento na Amazônia

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O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou na última 6a. feira os números acerca da taxa consolidada de desmatamento na Amazônia brasileira e tentou dar um olhar positivo sobre a devastação em curso naquele bioma. É que os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) mostram que “apenas” 6.947 km2  em 2017, contra os 7.893 km2 de 2016. Os responsáveis ainda deram uma dourada a mais na pílula e compararam os dados de 2017 com os de 2004 quando desmatamento medido foi de mais de 25.000 km2

A verdade é que o ritmo atual da devastação coloca questões dramáticas não apenas para o Brasil, mas para o resto do mundo devido não só a importância dos biomas amazônicos para a sustentação dos níveis de biodiversidade, mas principal e especialmente para o equilíbrio climático do planeta.

O problema é ainda mais grave quando se considera que os números fornecidos pelo PRODES se refere ao chamado “corte raso” quando há a remoção completa da floresta. É que estão em curso outros processos de degradação, tais como extração ilegal de madeira e garimpos, que servem para abrir caminho para o futuro avanço de monoculturas e da pecuária extensiva que, por sua vez, favorecem a ocorrência de grandes incêndios florestais . 

Quando se considera a combinação do corte raso com outras formas de “degradação” da floresta primária é possível entender que a devastação da Amazônia está indo num passo mais acelerado do que os dados do PRODES nos permitem inferir.

Nunca é demais notar que estados como Pará, Mato Grosso e Rondônia continuam sustentando os seus tradicionais números altos de desmatamento. Entretanto, o fato de que o Amazonas está se colocando no grupo dos grandes desmatadores é particularmente preocupante já que o estado parece estar se transformando paulatinamente na fronteira mais dinâmica do desmatamento amazônico.

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Desta forma, é extremamente importante que sejam realizados mais estudos que integrem as diferentes formas de devastação que estão ocorrendo na Amazônia neste momento, de modo que tenhamos um entendimento mais amplo do que está acontecendo e das possíveis consequências deste processo irracional de destruição de seus biomas e da biodiversidade que os mesmos contém.

 

INPE registra 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017

São José dos Campos-SP, 11 de maio de 2018

A taxa consolidada gerada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontou o resultado de 6.947 km2  de corte raso no período de agosto de 2016 a julho de 2017.

O resultado indica uma diminuição de 12% em relação a 2016, ano em que foram apurados 7.893 km2  e também representa uma redução de 75% em relação à registrada em 2004, ano em que o Governo Federal lançou o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), atualmente coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat complementadas por imagens dos satélites CBERS e ResourceSat, para cartografar e quantificar as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares. O PRODES considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Com o PRODES, o INPE realiza o mapeamento sistemático na Amazônia Legal e produz desde 1988 as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas pelo governo brasileiro para avaliação e estabelecimento de políticas públicas relativas ao controle do desmatamento e ações voltadas a temática de REDD+. Os dados são importantes para toda a sociedade e embasam iniciativas bem-sucedidas como a Moratória da Soja e Termo de Ajuste de Conduta da cadeia produtiva de carne bovina, entre outras.

As tabelas abaixo apresentam a distribuição do desmatamento para o ano de 2017 nos Estados que compõem a Amazônia Legal, bem como a comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2016.

Estado PRODES 2017 (km2) Contribuição (%)
Acre 257 3,7
Amazonas 1.001 14,4
Amapá 24 0,3
Maranhão 265 3,8
Mato Grosso 1.561 22,5
Pará 2.433 35,0
Rondônia 1.243 17,9
Roraima 132 1,9
Tocantins 31 0,4
Total 6.947 100,0
Estado PRODES 2016

(km2)

PRODES 2017

(km2)

Variação (%)
Acre 372 257 -31
Amazonas 1.129 1.001 -11
Amapá 17 24 41
Maranhão 258 265 3
Mato Grosso 1.489 1.561 5
Pará 2.992 2.433 -19
Rondônia 1.376 1.243 -10
Roraima 202 132 -35
Tocantins 58 31 -47
AMZ. Legal 7.893 6.947 -12

O resultado da taxa consolidada, obtida após o mapeamento de 217 cenas do satélite americano Landsat 8/OLI, é 4,9% acima do estimado pelo INPE em novembro de 2017, que foi de 6.624 km2, cálculo gerado à época com base em 95 imagens do mesmo satélite e que cobriram a área onde foram registrados mais de 90% do desmatamento no período anterior (agosto/2015 a julho/2016) e também os 39 municípios prioritários para fiscalização (Decreto Federal 6.321/2007, atualizado em 2017 pela portaria no. 360 do Ministério do Meio Ambiente).

Os gráficos abaixo mostram a série histórica do PRODES para a Amazônia Legal e seus Estados, além da variação relativa anual das taxas de desmatamento.

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 FONTE:  http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=4778

Áreas protegidas sob risco na Amazônia: primeiro degrada, depois se extingue

Área desmatada na Amazônia

Em 2005 publiquei com vários colegas um artigo na revista Environmental Conservation onde apontávamos para o fato de que as unidades de conservação existentes no estado de Rondônia tinham se tornado uma espécie de nova fronteira para o desmatamento [1]. O que mostramos naquele trabalho acabou perdido no meio de uma onda de publicações que apontavam de forma normativa para uma espécie de bonança da conservação na Amazônia em meio aos aparentes sucessos das políticas neodesenvolvimentistas do governo Lula.

Agora eis que estão emergindo outros estudos que corroboram algumas das previsões que fizemos há quase 13 anos, apresentando cenários que demonstram que a situação das unidades de conservação em Rondônia  estão sob graça ameaça. Um desses trabalhos acaba de ser publicado pela Academia de Ciências dos EUA no “Proceedings of the National Academy of Sciences” [2].   O artigo assinado por Ateneh T. Tesfaw e colaboradores assinala que as unidades de conservação existentes na Amazônia estão sob a pressão de  uma dinâmica que combina a degradação dos ecossistemas contidos em seus limites com intervenções dos órgãos governamentais que terminam por: 1) mudá-las de categoria (normalmente de uma com uso mais restrito para outra menos protegida), 2) diminuir as suas áreas ou 3) simplesmente extingui-las (o que em inglês é rotulado de “degazettement” ou simplesmente a perda do status de proteção de todo o território da unidade de conservação”) . 

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Mas o artigo vai mais além ao procurar elucidar até que ponto a instalação de hidrelétricas e novos assentamentos agrários contribuem para que determinadas áreas de conservação sejam degradadas, diminuídas ou extintas. O resultado final dessa análise mostra que os impactos não são nada desprezíveis já que a perda de áreas sob conservação é notável (ver figura abaixo).

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Outro elemento crucial levantado no artigo se refere ao fato de que a percepção de “inefetividade” de uma dada área protegida (que se traduz pela existência de taxas altas de desmatamento em seu interior) acaba favorecendo a ocorrência de “barganhas” entre agentes estatais e privados no sentido de possibilitar a diminuição do status de proteção, da área sob proteção, ou mesma de que se faça a extinção da mesma. Isto tudo para que se facilite a instalação de projetos privados, tais como as hidrelétricas que foram construídas em Rondônia.

O problema aqui é que a “fome” por  a liberação de mais áreas para a instalação dos mais diversos tipos de empreendimentos privados parece não ter fim.  Para piorar o que já é ruim, o governo “de facto” de Michel Temer está agindo dentro do congresso nacional para esfacelar o processo de licenciamento ambiental visando justamente liberar mais território para a instalação de projetos de mineração e para a implantação de monoculturas. Em função disso é  provável que tenhamos um processo ainda mais agressivo para rebaixar o nível de proteção, diminuir a área sob proteção e para aumentar o número de unidades de conservação que serão extintas.

Por mais paradoxal que isto possa parecer, o artigo de  Ateneh T. Tesfaw e colaboradores nos mostra que este processo não começou agora e tem tudo para piorar. E se isso ocorrer, não vai ser por falta de informação científica qualificada.


[1] https://www.cambridge.org/core/journals/environmental-conservation/article/div-classtitleconservation-units-a-new-deforestation-frontier-in-the-amazonian-state-of-rondonia-brazildiv/45B8B11C2A5CFA110DF98B1E91FDD51F

[2]  http://www.pnas.org/content/early/2018/02/07/1716462115.short?rss=1

Abismo climático na Amazônia se aproxima, dizem cientistas

América do Sul pode enfrentar problemas de água com a devastação da floresta

 

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Por Reinaldo José Lopes, de SÃO CARLOS

A Amazônia está se aproximando perigosamente da beira do abismo climático, alertam dois respeitados pesquisadores (um brasileiro e outro americano) em editorial publicado numa das principais revistas científicas do mundo.

Se o Brasil e os demais países amazônicos não acharem uma maneira de evitar que o desmatamento da maior floresta tropical supere os 20% de sua área original, aumentará muito a probabilidade de que boa parte da Amazônia, no futuro não tão distante, simplesmente deixe de ser floresta.

Pássaros voam no meio da Amazônia
Pássaros voam no meio da Amazônia – Keiny Andrade/Folhapress

E isso seria uma péssima notícia não apenas para a biodiversidade da região como também para as dezenas de milhões de pessoas América do Sul afora que dependem da água gerenciada pela floresta —o que inclui tanto os moradores de Manaus quanto os da região Sul do Brasil, do Uruguai e até de áreas da Argentina e do Paraguai.

Ponto de Virada

Os responsáveis pelo alerta são o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, e o biólogo Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason (Virgínia, EUA).

O grande temor da dupla é que, embora não se saiba exatamente qual o chamado ponto de virada do sistema amazônico —ou seja, qual o nível de desmatamento e degradação pelo fogo que faria com que grandes porções da floresta se tornassem inviáveis—, seria péssimo descobrir onde fica esse fiel da balança chegando lá, ou seja, quando já seria tarde demais.

Em países como os próprios EUA, políticos e ativistas conservadores que não aceitam as conclusões científicas sobre as mudanças climáticas costumam usar as incertezas consideráveis a respeito de como será o clima do futuro como argumento para evitar os custos de ações drásticas contra o problema, os quais poderiam afetar a economia.

Nobre diz que não vê esse tipo de argumento ganhando força no cenário político brasileiro, mas usa uma analogia médica para rebatê-lo.

“Quando você começa a sentir alguma coisa estranha, marca uma consulta com o médico, depois pode ouvir uma segunda ou uma terceira opinião. Bom, a incerteza sobre os efeitos das mudanças climáticas é muito menor hoje do que a que vem de uma consulta como essa, e mesmo assim as pessoas não deixam de seguir as recomendações dos seus médicos”, compara. “Vai contra toda a evolução da civilização você achar que não vale a pena minimizar um risco que é bem real.”

O risco de que Nobre fala vem de uma conjunção de fatores destrutivos. O primeiro e mais óbvio é o desmatamento —o qual, como lembra o pesquisador, só não ultrapassou o limite perigosamente alto dos 20% porque muitas áreas abandonadas na Amazônia já se regeneraram; ele estima que o número real hoje esteja entre 15% e 17%.

Desmates e queimadas tendem a tornar a mata mais vulnerável durante períodos de seca, porque a luz solar penetra com mais facilidade, levando ao acúmulo de matéria vegetal inflamável. E há indícios de que os próprios períodos de seca severa têm ficado mais comuns nas últimas décadas, com três episódios fora da curva em 2005, 2010 e 2015, por exemplo. Tais períodos de estiagem parecem estar ligados ao aquecimento anormal das águas do Atlântico, coisa que, por sua vez, é o esperado com uma temperatura média global mais alta.

Todos esses fenômenos podem ter impactos péssimos para a disponibilidade de água em boa parte da América do Sul porque a Amazônia, em grande medida, é capaz de reciclar seus próprios recursos hídricos, por meio dos processos de evaporação e transpiração das árvores e pelas moléculas orgânicas produzidas por elas, as quais ajudam a condensar nuvens de chuva. Boa parte dessa umidade é exportada rumo ao sul durante o inverno —justamente a época mais crítica no que diz respeito à falta d’água em boa parte do continente.

Embora o desmatamento tenha passado por aumentos em anos recentes, na contramão da tendência de redução desde 2004, Nobre considera que não houve mudança na postura governamental em relação ao tema.

“O Brasil tem mantido seus compromissos no Acordo de Paris [maior pacto internacional contra as mudanças climáticas firmado até agora] e continua buscando se colocar como liderança nessa área. A questão é saber até que ponto o discurso está afinado com a prática. E não há dúvida de que há forças políticas que querem expandir a produção de carne e grãos na Amazônia até os limites da demanda do mercado internacional por esses produtos, o que seria muito ruim”, diz o climatologista.

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/02/abismo-climatico-na-amazonia-se-aproxima-dizem-cientistas.shtml