STF reconhece a Moratória da Soja, mas permite punições aos seus signatários: em plena emergência climática, estamos jogando com fogo

Em matéria publicada pelo ClimaInfo nesta quarta-feira (12), somos informados de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que contém uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que a Corte reconheceu a validade da Moratória da Soja e determinou o encerramento de processos que questionavam o acordo sob alegações de irregularidade concorrencial, considerou legítimas leis estaduais que retiram benefícios fiscais de empresas que participam desse mecanismo de proteção ambiental.

Em outras palavras, o STF reconheceu que a Moratória da Soja é legítima, mas permitiu que governos estaduais criem mecanismos econômicos capazes de punir as empresas que decidam continuar participando dela. A decisão produz, assim, uma situação paradoxal: preserva-se formalmente um dos mais importantes instrumentos privados de combate ao desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia, enquanto se legitima a utilização do poder público para aumentar o custo econômico de participar dele.

O problema se torna ainda mais grave quando essa decisão é confrontada com as evidências científicas acumuladas sobre o agravamento da crise climática. O desmatamento das florestas tropicais não representa apenas perda de biodiversidade. A remoção da vegetação libera carbono, reduz a capacidade dos ecossistemas de armazená-lo e interfere na evapotranspiração e na reciclagem da umidade, afetando o funcionamento do sistema climático regional. Na Amazônia, a continuidade desse processo ameaça progressivamente a própria capacidade da floresta de sustentar seu regime climático e hidrológico.

No Cerrado, onde a Moratória da Soja não se aplica, o avanço da fronteira agropecuária sobre a vegetação nativa também representa uma ameaça crescente à biodiversidade, aos recursos hídricos e à estabilidade climática. Aliás, no mesmo dia em que publicou a matéria sobre a decisão do STF, o ClimaInfo noticiou novos dados do MapBiomas mostrando o avanço do agro e a redução da vegetação nativa brasileira.

É justamente nesse contexto que a Moratória da Soja precisa ser avaliada. Criada em 2006, ela estabeleceu um mecanismo pelo qual grandes empresas passaram a se comprometer a não adquirir soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois da data de referência estabelecida pelo acordo. Ao separar, ao menos parcialmente, a expansão da soja da derrubada direta da floresta amazônica, a Moratória demonstrou que cadeias produtivas podem ser submetidas a critérios ambientais mais rigorosos do que aqueles estabelecidos pelo mínimo exigido pela legislação.

É exatamente aí que reside um dos aspectos mais preocupantes da decisão do STF. Existe uma diferença fundamental entre os estados estabelecerem critérios para a concessão de benefícios fiscais e utilizarem esses instrumentos para penalizar empresas justamente porque elas decidiram adotar compromissos ambientais. O precedente pode contribuir para transformar a legislação ambiental brasileira não em um piso mínimo de proteção, sobre o qual empresas e cadeias produtivas poderiam estabelecer compromissos mais ambiciosos, mas em uma espécie de teto ambiental, acima do qual comportamentos empresariais ambientalmente mais responsáveis poderiam ser economicamente desestimulados.

Uma decisão que ignora o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade

A gravidade dessa contradição fica ainda mais evidente quando lembramos um tema que tratei recentemente aqui no Blog do Pedlowski: o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade (World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice).

O documento, elaborado por William Ripple, Christopher Wolf, Johan Rockström e diversos outros pesquisadores, dá continuidade aos grandes alertas científicos dirigidos à humanidade em 1992 e 2017. Desta vez, porém, o diagnóstico é ainda mais contundente: os autores concluem que a Terra já se encontra em um estado de emergência planetária, provocado pela combinação entre mudança climática, perda de biodiversidade, degradação das terras e das águas, poluição e padrões insustentáveis de produção e consumo. O alerta destaca ainda que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, aumentando os riscos de mudanças de grande escala e potencialmente irreversíveis no sistema terrestre.

Entre as seis grandes transformações propostas pelos cientistas está justamente algo que deveria orientar decisões públicas no Brasil: proteger e restaurar a natureza. O documento afirma que a proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e a restauração daqueles já degradados são essenciais para a estabilidade do sistema terrestre e para o bem-estar humano. Florestas e outros ecossistemas não são, portanto, obstáculos ao desenvolvimento econômico, mas componentes fundamentais da regulação climática, da disponibilidade de água, da conservação da biodiversidade e da própria manutenção das condições que tornam nossas sociedades possíveis.

Sob essa perspectiva, a decisão do STF parece caminhar precisamente na direção contrária ao alerta lançado pelos cientistas. Se estamos diante de uma emergência planetária e se uma das respostas consideradas indispensáveis é fortalecer a proteção dos ecossistemas naturais, como justificar que governos possam utilizar incentivos fiscais justamente para desestimular empresas que voluntariamente adotam mecanismos adicionais de combate ao desmatamento?

Não se trata, portanto, apenas de uma discussão jurídica sobre livre iniciativa, concorrência ou autonomia tributária dos estados. Existe uma questão ambiental muito maior. O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade afirma que a deterioração ambiental continuou avançando desde os alertas anteriores e que a margem disponível para ações corretivas tornou-se menor. Os autores também advertem que a emergência planetária persiste não por falta de conhecimento científico, mas pela incapacidade dos sistemas econômicos e políticos de se ajustarem aos limites físicos e ecológicos do planeta.

A decisão sobre a Moratória da Soja oferece um exemplo quase didático desse problema.

E tudo isso acontece sob um El Niño muito forte

Há ainda um componente que torna o momento particularmente preocupante. Estamos atravessando um período de forte influência do El Niño, fenômeno que pode amplificar extremos climáticos e agravar situações de calor, seca e risco de incêndios em partes do território brasileiro.

Nesse cenário, enfraquecer economicamente mecanismos destinados a impedir a conversão de vegetação nativa equivale a aumentar deliberadamente nossa exposição aos efeitos de uma crise climática que já está em curso. Amazônia e Cerrado cumprem funções fundamentais na regulação climática e hidrológica da América do Sul. Continuar permitindo que interesses econômicos imediatos prevaleçam sobre mecanismos destinados a conter sua destruição significa ampliar os riscos que recaem sobre toda a sociedade.  Por isso, há algo profundamente inquietante nessa decisão. Enquanto os cientistas aumentam o volume do alarme, parte das instituições brasileiras parece continuar operando como se ainda dispuséssemos de décadas para decidir o que fazer. Não dispomos.  O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade é explícito ao afirmar que a emergência planetária já está acontecendo e que as decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes para definir se conseguiremos estabilizar o sistema terrestre ou se avançaremos em direção a transformações cada vez mais difíceis de controlar.

Nesse contexto, a contradição criada pelo STF é difícil de esconder: a Corte reconheceu a legitimidade da Moratória da Soja, mas também legitimou instrumentos capazes de contribuir para torná-la economicamente inviável. A floresta, entretanto, não responde a sutilezas jurídicas. Quando os mecanismos de proteção são enfraquecidos e o desmatamento avança, as consequências aparecem concretamente na forma de emissões de carbono, perda de biodiversidade, alterações no ciclo hidrológico, temperaturas mais elevadas e maior vulnerabilidade a secas e incêndios. 

Em plena emergência climática, sob a influência de um El Niño muito forte e poucos dias depois de cientistas de diferentes partes do mundo emitirem seu terceiro grande aviso à humanidade, permitir que governos penalizem economicamente quem adota mecanismos adicionais de proteção das florestas equivale a jogar com fogo. E, quando estamos falando da Amazônia e do Cerrado, essa expressão corre o risco de ser muito mais literal do que gostaríamos.

 

Casos cruciais para a Amazônia chegam ao STF após derrotas de Lula no Congresso

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Por Gabriela Sá Pessoa para “Associated Press” 

SÃO PAULO (AP) — O Supremo Tribunal Federal do Brasil deve analisar nos próximos dias uma série de casos que podem reformular as proteções à floresta amazônica e às comunidades indígenas que dependem dela.

Os casos abrangem desde direitos territoriais indígenas, retrocessos recentes em salvaguardas ambientais e projetos de infraestrutura. Apesar de suas diferenças, compartilham um caminho comum até chegarem ao tribunal.

Nos últimos anos, um Congresso majoritariamente conservador aprovou medidas que, segundo ambientalistas, violam direitos constitucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tem priorizado uma agenda ambiental, vetou algumas medidas por completo e partes de outras.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

Os casos ilustram as limitações enfrentadas pelo governo Lula. Apesar das conquistas notáveis ​​na redução do desmatamento e no direcionamento de recursos para fomentar investimentos ecológicos , o governo frequentemente enfrenta dificuldades para se contrapor a um Congresso conservador, onde os interesses do agronegócio exercem influência significativa.

“O governo é muito fraco na arena legislativa”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos. “Frequentemente se opõe a projetos de lei antiambientais, mas não tem força política para persuadir o Congresso a votar a favor deles.”

O governo Lula não só está em minoria no Congresso, como também tem menos poder de negociação do que os governos brasileiros anteriores. Nos últimos anos, os parlamentares têm conquistado maior controle sobre o orçamento federal, uma ferramenta fundamental de negociação política.

O agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do Brasil, também detém a maioria no Congresso e impulsionou medidas que enfraquecem as proteções ambientais. Como resultado, o Supremo Tribunal Federal (STF) surgiu como um mecanismo de controle do Congresso, ajudando a preservar partes da agenda ambiental de Lula quando os parlamentares pressionam na direção oposta.

O gabinete do chefe de gabinete do presidente, que coordena as relações do governo com o Congresso, afirmou em comunicado à Associated Press que não comentaria casos pendentes no Supremo Tribunal.

O Brasil é o maior produtor mundial de soja e carne bovina. Embora a maior parte da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a maior parte da soja é exportada. De janeiro a julho de 2026, a China, maior parceiro comercial do Brasil, comprou 50% das exportações de carne bovina e 70% das exportações de soja do país, segundo dados oficiais de comércio exterior.

A Frente Agrícola Parlamentar não respondeu ao pedido de comentário. Grupos do agronegócio afirmam há tempos que se opõem ao desmatamento ilegal e apontam para o aumento da produtividade agrícola, mesmo com a redução do desmatamento.

Proteger a floresta tropical é fundamental para combater as mudanças climáticas . A Amazônia ajuda a regular o clima e os padrões de chuva, além de armazenar vastas quantidades de carbono que, se liberadas, poderiam acelerar ainda mais o aquecimento global.

Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil começou a analisar as moções finais que buscavam esclarecimentos sobre uma decisão de 2025 que rejeitou a tese do “Marco Temporal”, uma teoria jurídica apoiada pela bancada do agronegócio que restringiria as reivindicações territoriais indígenas aos territórios que eles ocupavam ou que estavam sob disputa judicial quando a Constituição entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.

Os defensores da medida afirmam que o prazo final oferece segurança jurídica aos proprietários de terras. Grupos indígenas argumentam que ele ignora décadas de expulsões e deslocamentos forçados, particularmente durante a expansão agrícola do Brasil no século XX.

Os juízes estão analisando as moções apresentadas pelo governo, partidos políticos, agricultores e organizações indígenas, com votações previstas para 18 de agosto. Entre outras questões, espera-se que abordem as regras de indenização e os possíveis prazos para a conclusão da demarcação de terras indígenas.

Ricardo Terena, advogado da organização de defesa dos direitos indígenas Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, afirmou que algumas das propostas poderiam efetivamente paralisar futuras demarcações, adicionando entraves administrativos e ampliando os direitos de indenização para ocupantes não indígenas, permitindo que permaneçam em terras disputadas até que o pagamento seja efetuado.

Segundo a organização sem fins lucrativos Survival International, os Kawahiva remanescentes são caçadores-coletores nômades que sobreviveram a ataques e doenças e continuam evitando o contato com pessoas de fora.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil também deverá analisar outros dois conjuntos de casos importantes: leis estaduais que levaram ao fim da moratória da soja e uma nova lei de licenciamento ambiental que acelerou a aprovação de projetos de infraestrutura estratégicos.

Em janeiro, as principais empresas de comércio de grãos se retiraram da moratória da soja, um pacto de quase 20 anos creditado por reduzir o desmatamento da Amazônia ao proibir o cultivo de soja em terras desmatadas. O acordo ruiu depois que os principais estados produtores de soja aprovaram leis revogando os benefícios fiscais para as empresas participantes. O juiz Flávio Dino emitiu uma liminar suspendendo temporariamente a legislação estadual, e o tribunal pleno agora analisará sua decisão.

Também nesta quarta-feira, o tribunal deverá analisar uma contestação à nova lei de licenciamento ambiental que entrou em vigor em fevereiro. A lei agiliza a emissão de licenças para projetos de grande impacto, incluindo minas, rodovias e instalações industriais.

Araújo, do Observatório do Clima, afirmou esperar que a Suprema Corte derrube pelo menos as disposições da lei que os ambientalistas consideram mais claramente inconstitucionais, incluindo aquelas que permitem a autolicenciamento para projetos com impactos ambientais moderados. Ela acrescentou que a lei já está tendo consequências tangíveis na Amazônia, citando a pavimentação de uma rodovia controversa e os planos de dragagem de um importante rio sem a devida avaliação ambiental prévia.

O Ministério do Meio Ambiente defendeu a moratória da soja, afirmando que ela ajudou a reduzir o desmatamento na Amazônia, mesmo com a expansão da produção brasileira. Sobre a lei de licenciamento ambiental, o ministério disse que o governo tentou vetar as disposições consideradas problemáticas e que continua preocupado em manter os padrões mínimos nacionais.

“O Brasil precisa de um sistema de licenciamento ambiental mais eficiente, previsível, tecnicamente robusto e capaz de enfrentar os desafios de uma economia que precisa expandir os investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo que enfrenta as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade”, afirmou o ministério.

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Gabriela Sá Pessoa  trabalha como correspondente da Associated Press na região da Amazônia brasileira. Ela reside em São Paulo, Brasil.

O preço do consenso

O Brasil se tornou um campo de testes global para finanças verdes, agricultura regenerativa e restauração florestal. À medida que governos, empresas e organizações filantrópicas se alinham cada vez mais em torno das mesmas soluções, a concentração de influência por trás dessas iniciativas merece uma atenção mais detalhada

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Poucos países enfrentam um desafio da magnitude do Brasil. Lar de cerca de 60% da floresta amazônica, um dos mais importantes sumidouros de carbono do mundo, o país também é o maior exportador mundial de carne bovina e um dos principais produtores agrícolas. Proteger as florestas sem prejudicar uma indústria que movimenta bilhões de dólares tornou-se um dos principais testes da política ambiental brasileira.

Em vez de desacelerar a expansão agrícola, o Brasil tem buscado conciliar produção e conservação. Governos, multinacionais do setor alimentício, bancos de desenvolvimento , fundações filantrópicas e organizações ambientais estão investindo fortemente em restauração, agricultura regenerativa, rastreabilidade digital do gado, mercados de carbono e bioeconomia. Juntos, argumentam, esses métodos podem reduzir as emissões, permitindo que a produção agrícola continue crescendo.

As parcerias são documentadas publicamente, assim como os acordos de financiamento, os conselhos consultivos e as nomeações governamentais. Menos atenção tem sido dada à frequência com que as mesmas instituições, e por vezes os mesmos indivíduos, reaparecem nessas parcerias. Rastrear essas conexões oferece uma visão mais clara de quem está ajudando a moldar uma das transições ambientais mais influentes do mundo.

A indústria da carne bovina

O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 239 milhões de cabeças, e lidera as exportações globais de carne bovina há mais de duas décadas. Segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina ( ABIEC ), as exportações ultrapassaram 2,8 milhões de toneladas em 2024, gerando cerca de US$ 12,8 bilhões. A China permaneceu como o maior mercado, respondendo por 46% das exportações brasileiras. A carne bovina é fundamental para o superávit comercial e para a economia rural do Brasil, tornando a pecuária política e economicamente indissociável das políticas ambientais.

Três empresas dominam o setor. A JBS , a maior processadora de carne do mundo, registrou receitas de cerca de US$ 77 bilhões em 2024. A Marfrig , após sua fusão com a BRF, tornou-se parte da MBRF Global Foods, com receitas anuais superiores a US$ 29 bilhões. A Minerva Foods exporta para mais de 100 países e consolidou o abate de cerca de 5,9 milhões de cabeças de gado em 2025. Juntas, as três empresas exercem enorme influência sobre o comércio global de carne bovina e o debate em torno da rastreabilidade, emissões e uso da terra.

Em 2026, a JBS anunciou que estava abandonando sua meta de atingir emissões líquidas zero até 2040.

Gema Hoskins, líder global em clima da ONG Mighty Earth, disse :

Recuar em relação a metas mensuráveis ​​não diminui o escrutínio a que a JBS será submetida por seu histórico de destruição climática e ambiental, incluindo poluição, desmatamento, grilagem de terras, violações dos direitos humanos e corrupção.

A organização sem fins lucrativos Changing Markets Foundation estimou que a JBS sozinha gerou cerca de 241 milhões de toneladas de emissões equivalentes de dióxido de carbono em 2023, mais do que muitas nações industrializadas.

Em seu relatório intitulado “A Agenda da Carne” , a organização escreve:

A realidade é bem diferente da retórica: a indústria é responsável por uma série de crimes bem documentados – do desmatamento às práticas exploratórias, passando pela apropriação de terras e poluição – que permeiam as cadeias de suprimentos de gigantes globais da carne como JBS , Marfrig e Minerva.

Embora a atenção internacional tenha se concentrado principalmente na Amazônia, o Cerrado passou por uma extensa conversão agrícola. Pesquisas da Changing Markets Foundation estimaram que um em cada três bovinos processados ​​pelas três maiores empresas de carne do Brasil provém de áreas desmatadas na região. Grande parte dessa conversão ocorreu em conformidade com o Código Florestal brasileiro, evidenciando a distinção entre conformidade legal e sustentabilidade ecológica.

Os sucessivos governos responderam sem tentar reduzir a produção. No âmbito do Plano Safra 2026/27 , Brasília destinou cerca de US$ 103 bilhões em crédito rural subsidiado para a agricultura comercial e aproximadamente US$ 16 bilhões, por meio do Pronaf, para a agricultura familiar. As linhas de crédito do Programa ABC+ apoiam a restauração de pastagens, sistemas integrados de produção agrícola, pecuária e silvicultura, agricultura de baixo carbono e agricultura de precisão. O objetivo é produzir a partir das terras existentes, em vez de desacelerar a expansão da pecuária brasileira.

A indústria da carne agora apresenta o pastoreio regenerativo, a redução do metano, a restauração florestal e a rastreabilidade digital não apenas como compromissos ambientais, mas como necessidades comerciais, refletindo a crescente pressão de varejistas internacionais e mercados de exportação. Produtividade e sustentabilidade são cada vez mais retratadas como objetivos complementares, e não concorrentes.

Essa mudança vai muito além da pecuária. Com a expansão da agenda ambiental brasileira, profissionais têm transitado entre o governo, organizações ambientais, fundações filantrópicas e o agronegócio, levando consigo conhecimento e influência. Não há nada de incomum em carreiras que abrangem diferentes setores, mas, à medida que a política ambiental se ampliou para incluir finanças sustentáveis, reforma agrária e bioeconomia , essas redes profissionais tornaram-se cada vez mais influentes.

O povo

A crescente sobreposição entre governo, filantropia, organizações de conservação e agronegócio se reflete não apenas em parcerias institucionais, mas também nas trajetórias profissionais das pessoas que moldam a agenda ambiental do Brasil.

Carina Pimenta é um exemplo disso . Antes de se tornar Secretária Nacional de Bioeconomia no Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, ela cofundou a Conexsus , que apoia negócios comunitários e cadeias de suprimentos sustentáveis. Anteriormente, trabalhou no Fundo Vale , organização sem fins lucrativos criada pela gigante mineradora Vale para promover a conservação e restauração florestal, bem como a bioeconomia na Amazônia. Sua trajetória profissional reflete um padrão mais amplo, no qual a experiência adquirida em organizações da sociedade civil e filantrópicas contribui cada vez mais diretamente para as políticas públicas.

Valmir Ortega trilhou um caminho intersetorial semelhante. Trabalhou para o Ministério do Meio Ambiente, fundou a Belterra Agroflorestas e cofundou a Conexsus e a Rio Capim Agropastoril , empresa associada a sistemas regenerativos de produção animal. É também membro do conselho da FUNBIO e do WRI Brasil. A própria Belterra Agroflorestas foi criada em 2020 com o apoio do Fundo Vale . Em vez de se limitar ao governo, ao setor privado ou à sociedade civil, a experiência de Ortega abrange os três.

Roberto Waack dedicou décadas à liderança de organizações como a FUNBIO e o Forest Stewardship Council, além de ter atuado nos conselhos da Marfrig , WWF Brasil , Wise Plásticos, Instituto Ethos, Instituto Ipê e Instituto Arapyaú . Ele também integra os órgãos diretivos da Natura, Tupy e re.green. É ainda membro associado da Chatham House .

Os defensores argumentam que a experiência nesses setores ajuda a reduzir a lacuna entre conservação e agronegócio. Os críticos, no entanto, questionam se as instituições podem permanecer totalmente independentes enquanto trabalham tão de perto com as indústrias que buscam influenciar.  

Os cientistas tornaram-se parte da mesma paisagem. A pesquisa de Carlos Nobre sobre os pontos de inflexão da Amazônia moldou a compreensão internacional do desmatamento tropical, e ele tem argumentado consistentemente que a pecuária é responsável por cerca de 90% do desmatamento da Amazônia. Em uma entrevista ao Democracy Now! em novembro de 2025, ele disse :

90% do desmatamento nas terras baixas da Amazônia brasileira está relacionado à pecuária. E quando fazemos os cálculos, o Brasil é o único país do mundo onde 70% das emissões de gases de efeito estufa provenientes de combustíveis fósseis são resultado da mudança no uso da terra, cerca de 70% das emissões, 40% do desmatamento e cerca de 20 a 25% da agricultura, principalmente da pecuária. O gado, em particular, emite muito metano, assim como todos os ruminantes. Portanto, estima-se que 55% das emissões no Brasil estejam relacionadas à pecuária, ou seja, ao desmatamento para a criação de gado e à emissão de metano pelo gado.

Paralelamente ao seu trabalho acadêmico, Nobre integra o conselho consultivo do JBS Fund for the Amazon, uma organização sem fins lucrativos apoiada pela empresa de carnes JBS que promove o desenvolvimento sustentável e a bioeconomia. Ele também faz parte do conselho consultivo da Conservation International Brasil ( CI-Brasil ), é membro fundador do WRI Brasil e tem sido uma das principais forças motrizes por trás da Amazônia 4.0 , uma iniciativa que promove uma nova sociobioeconomia para a Amazônia.

Consideradas individualmente, nenhuma dessas carreiras é incomum. Juntas, elas revelam como a expertise, a influência e a tomada de decisões circulam por um grupo relativamente interconectado de instituições públicas, organizações de conservação, fundações filantrópicas e agronegócio. O mesmo padrão torna-se ainda mais evidente quando se examina o fluxo de financiamento.

O dinheiro

O dinheiro tornou-se tão importante quanto a legislação na definição da agenda ambiental do Brasil. Na última década, bancos de desenvolvimento, fundações filantrópicas, empresas multinacionais e organizações ambientais canalizaram bilhões de dólares para a restauração florestal, a agricultura regenerativa, o financiamento sustentável e a bioeconomia . Embora essas iniciativas sejam gerenciadas de forma independente, elas frequentemente apoiam modelos semelhantes de desenvolvimento rural.

Restaurar Amazônia é um exemplo . Gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES) , por meio do Fundo Amazônia , o programa planeja restaurar 15.000 hectares em Terras Indígenas (TI), Unidades de Conservação (UC), assentamentos de reforma agrária e pequenas propriedades rurais dentro do chamado Arco de Restauração, uma região que abrange 256 municípios onde ocorre a maior parte do desmatamento na Amazônia.

Em vez de ser implementado diretamente pelo Estado, o programa é coordenado por três organizações: o Instituto Brasileiro de Administração Municipal ( Ibam ), a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável ( FBDS ) e a Conservation International Brasil ( CI-Brasil ), cada uma responsável por uma parte da Amazônia Legal.

O financiamento provém de cerca de 87 milhões de dólares do Fundo Amazônia, juntamente com mais 9,7 milhões de dólares da Petrobras , tornando a petrolífera estatal brasileira uma das principais financiadoras do programa.

Os defensores argumentam que o projeto restaurará florestas degradadas, ao mesmo tempo que criará empregos, fortalecerá as economias locais e ajudará o Brasil a cumprir seus compromissos climáticos. Mas ele também evidencia uma contradição notável.

A Petrobras , cujo negócio se baseia na produção de petróleo e gás, está ajudando a financiar um dos programas de restauração florestal do Brasil. A empresa apresenta o investimento como parte de seu compromisso com soluções climáticas baseadas na natureza. Ao mesmo tempo, seu envolvimento ilustra como as maiores empresas emissoras de gases de efeito estufa e indústrias extrativas do mundo estão se tornando participantes influentes na política ambiental.

Uma investigação recente da jornalista Mirna Wabi-Sabi acrescentou outra dimensão a esse debate. Examinando registros de financiamento, parcerias e declarações públicas, a investigação concluiu que a Petrobras gastou centenas de milhões em patrocínios ambientais que vão além de projetos de conservação, ajudando a fortalecer a reputação pública da empresa. Constatou-se que diversas organizações que recebem financiamento da Petrobras permaneceram praticamente em silêncio sobre os planos da empresa de expandir a exploração de petróleo, inclusive na sensível Margem Equatorial.

Os resultados levantam questões incômodas sobre se o patrocínio ambiental se tornou uma poderosa ferramenta de reputação, obscurecendo a linha divisória entre a conservação genuína e a influência corporativa.

A mesma combinação de políticas públicas e financiamento privado é visível em outros lugares. O Bezos Earth Fund está apoiando o governo do Pará e a The Nature Conservancy (TNC) no desenvolvimento de um sistema digital de rastreabilidade de gado, que deverá abranger mais de 26 milhões de animais. O objetivo é melhorar a transparência em toda a cadeia de suprimentos de carne bovina, reduzir os riscos de desmatamento e fortalecer o acesso aos mercados internacionais.

Organizações de pesquisa têm adotado abordagens semelhantes. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) promove sistemas de pecuária sustentáveis ​​no estado do Pará, lar do segundo maior rebanho bovino do Brasil. O WRI Brasil, o Conexsus e a Coalizão Brasileira de Financiamento da Restauração e Bioeconomia (BRBFC) estão desenvolvendo mecanismos financeiros destinados a atrair investimentos em restauração, agricultura de baixo carbono e empreendimentos comunitários.

Em conjunto, esses atores revelam um sistema cada vez mais interconectado. Muitos dependem da mesma expertise técnica, atraem financiamento semelhante e envolvem muitas das mesmas instituições. A política ambiental está sendo moldada por uma densa rede de organizações públicas e privadas que trabalham em prol de um modelo compartilhado.

As implicações

A estratégia ambiental do Brasil agora se baseia em um amplo consenso. Restauração florestal, pecuária regenerativa , rastreabilidade digital, finanças sustentáveis ​​e bioeconomia não são mais apresentados como alternativas ao crescimento agrícola, mas como formas de esse crescimento continuar, reduzindo seu impacto ambiental.

Esse consenso aproximou governos, empresas, organizações filantrópicas e ambientalistas como nunca antes. Frequentemente, financiam os mesmos projetos, assessoram as mesmas instituições e promovem políticas semelhantes. Ao fazer isso, também influenciam quais ideias atraem apoio político, autoridade científica e investimentos.

Consequentemente, a política ambiental é influenciada por uma rede relativamente pequena de organizações cujas prioridades ajudam a definir os termos do debate.

É improvável que o Brasil seja um caso isolado. Em todo o mundo, as políticas climáticas estão caminhando para o financiamento misto, parcerias público-privadas e iniciativas voluntárias de sustentabilidade. À medida que esses modelos se expandem, compreender as relações que conectam governos, empresas, pesquisadores e organizações filantrópicas pode se tornar tão importante quanto avaliar os próprios projetos.

Muitas dessas parcerias trouxeram importantes conquistas ambientais, mas quando as mesmas organizações financiam projetos, assessoram governos, produzem pesquisas e ajudam a moldar políticas, a fiscalização torna-se tão importante quanto a cooperação.

A questão é se um sistema construído sobre amplos acordos permanece aberto a contestações, responsabilização e ideias concorrentes. À medida que o consenso se consolida, compreender quem o molda pode se tornar tão importante quanto mensurar os resultados que ele proporciona.

Imagem em destaque: negócios e natureza – conceito de construção de consenso. Crédito: Malp/Alamy 


Fonte: YourVoiz

A reinvenção do gado

A maior indústria bovina do mundo pode se tornar sustentável – ou a própria sustentabilidade está sendo redefinida?

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Florestas não foram perdidas apenas por motosserras e fogo. Por trás de cada hectare desmatado havia um modelo econômico que recompensava a conversão de florestas vivas em riqueza privada. Estradas abriram regiões remotas, a madeira financiou a primeira onda de desmatamento, o fogo consumiu o que restou, e o gado transformou terras desmatadas em um ativo que podia ser comprado, vendido, hipotecado e defendido. Dentro desse sistema, uma floresta em pé tinha pouco valor financeiro.

Hoje, o gado está sendo reestruturado. À medida que governos, investidores e agroempresas buscam formas de reduzir as emissões agrícolas, a pecuária não é mais apresentada apenas como um motor do declínio ambiental. Atualmente, está sendo promovido como parte da solução climática por meio da criação “regenerativa”, carne bovina “de baixo carbono”, rastreabilidade digital e financiamento verde.

Essa mudança vai além das práticas agrícolas. Reflete mudanças na governança ambiental, onde política climática, mercados financeiros e conservação estão se tornando cada vez mais interligados. A questão não é mais apenas como reduzir o custo ambiental da produção bovina, mas se a indústria pode continuar se expandindo enquanto afirma operar dentro dos limites ecológicos.

Como essa mudança está acontecendo, quem a está conduzindo e o que isso significa para o futuro da Amazônia? A reinvenção do gado representa uma verdadeira transição ambiental ou um modelo financeiro que permite que uma das indústrias mais poderosas do Brasil continue crescendo sob a linguagem da sustentabilidade?

Gado, desmatamento e uma narrativa em constante mudança

Cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia foram convertidas em pastagens. No vizinho Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do mundo, a pecuária e a agricultura de mercadorias em grande escala substituíram os ecossistemas nativos em uma área imensa.

Décadas de monitoramento por satélite, pesquisas científicas e investigações governamentais chegam à mesma conclusão: o pasto é o uso dominante da terra estabelecido após o desmatamento amazônico, e a pecuária continua sendo seu principal motor direto. Nem todo hectare foi desmatado exclusivamente para a produção de carne bovina. O gado também serviu para ocupar terras disputadas, consolidar reivindicações especulativas e preparar propriedades para revenda ou conversão para outros usos agrícolas.

As consequências vão muito além da perda de florestas. A limpeza e queima liberam carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos. O gado emite metano por digestão, enquanto o manejo de esterco e pastagem gera gases de efeito estufa adicionais. Substituir florestas e savanas nativas por pastagens também degrada os solos, altera sistemas fluviais, fragmenta habitats e acelera a perda de biodiversidade.

Em partes da Amazônia, a expansão do gado permaneceu intimamente ligada à apropriação de terras, reivindicações fraudulentas de propriedade e à ocupação ilegal de terras públicas, protegidas e indígenas. Promotores, jornalistas e organizações de direitos humanos documentaram repetidamente fazendas associadas ao trabalho forçado, intimidação violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos proprietários. Esses abusos não caracterizam todos os produtores, mas permanecem uma característica persistente e bem documentada da história da indústria.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, compilados pela Repórter Brasil, revelaram que 65.600 trabalhadores foram resgatados de condições semelhantes à escravidão entre 1995 e 2024. Mais de 17.300 trabalhavam na criação de animais, tornando-se o setor com o maior número de casos registrados. Como observou um trabalhador resgatado: “Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores”.

Por anos, o debate internacional enquadrou a expansão do gado e a conservação florestal como forças opostas. O desafio era limitar os danos ambientais causados por uma indústria cujo crescimento havia se tornado inseparável do avanço da fronteira agrícola.

Na última década, esse debate mudou. Governos, pesquisadores, agências de desenvolvimento, organizações ambientais, bancos, instituições filantrópicas e empresas de carne passaram de questionar se a produção bovina deveria mudar para se perguntar como ela pode ser alinhada com a política climática.

A mudança começou com a linguagem. Relatórios antes focados no desmatamento agora promovem a produção “bovina de baixo carbono”, a criação “regenerativa”, a produção “positiva para a natureza” e “sustentável”. Práticas como restauração de pastagens degradadas, melhoria da nutrição animal, redução da idade do abate e aumento da produtividade são apresentadas junto com financiamento climático, monitoramento via satélite, rastreabilidade digital e investimento ambiental.

Muitas dessas propostas oferecem benefícios ambientais reais. Restaurar pastagens degradadas é preferível a desmatar novas florestas. A rastreabilidade eficaz pode expor abusos que há muito tempo permanecem ocultos nas cadeias de suprimentos. Agências ambientais mais fortes, registros de terras confiáveis e melhor suporte técnico poderiam fortalecer produtores responsáveis, excluindo aqueles que lucram com o desmatamento ilegal.

Maior eficiência, no entanto, não necessariamente reduz o impacto ambiental. Produzir carne bovina com menos emissões por quilograma não reduz automaticamente as emissões totais, o uso da terra ou a pressão ecológica. Os animais podem atingir o peso de abate mais cedo, reduzindo a intensidade do metano, enquanto as emissões gerais continuam aumentando se o tamanho dos rebanhos e a produção continuarem crescendo.

Essa distinção é importante em um país com cerca de 238 milhões de gado, mais do que sua população humana, e a maior indústria de exportação de carne bovina do mundo. O Brasil persegue duas ambições ao mesmo tempo: apresentar a pecuária como parte de sua estratégia climática, ao mesmo tempo em que expande a escala e a competitividade de seu setor bovino.

Por trás dos relatórios, fundos de investimento e parcerias institucionais, outra história começa a surgir. A reinvenção do gado não se trata mais apenas de florestas, pastagens ou metano. Também diz respeito a crédito, dados ambientais, produtos financeiros e o mercado em rápida expansão para investimentos descritos como verdes, alinhados ao clima ou positivos para a natureza.

As organizações envolvidas não compartilham todos os mesmos objetivos, nem isso diminui o trabalho de cientistas, funcionários públicos e profissionais que passaram décadas protegendo florestas e melhorando os meios de subsistência rurais. A questão mais importante é se o gado sustentável representa uma verdadeira transformação da produção pecuária ou um modelo financeiro e tecnológico que permita à indústria continuar se expandindo.

Reescrevendo a linguagem da sustentabilidade

A transformação da indústria pecuária brasileira não começou nos ranchos. Começou com uma mudança de idioma.

Por décadas, o debate sobre a pecuária brasileira centrou no desmatamento, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, ocupação ilegal de terras e abusos trabalhistas embutidos nas cadeias de suprimentos de carne bovina. O objetivo, mesmo que politicamente difícil, era claro: reduzir os danos ambientais causados por uma das maiores indústrias pecuárias do mundo. Mas essa não é mais a conversa dominante.

Em vez de questionar se a produção pecuária deve continuar se expandindo, a política agora assume em grande parte que o gado continuará sendo central para a economia brasileira. O desafio passou a ser tornar a indústria mais produtiva, mais transparente, mais tecnologicamente sofisticada e mais atraente para investidores conscientes do clima.

A distinção é sutil, mas significativa. Se o problema for a escala da indústria pecuária, as respostas políticas podem incluir limitar a produção em regiões ecologicamente vulneráveis, desencorajar a expansão das fronteiras e reduzir a pressão para o crescimento contínuo. Se o problema for a ineficiência, as soluções passam a ser melhor genética, pastagem restaurada, monitoramento digital, crescimento animal mais rápido e novas formas de crédito rural.

A linguagem importa porque molda políticas. Ela influencia o que os governos medem, onde as instituições financeiras investem e o que conta como progresso ambiental. Termos como carne bovina “de baixo carbono”, pecuária “regenerativa”, produção “positiva para a natureza” e produção “sustentável” fazem mais do que descrever práticas agrícolas; Eles redefinem o próprio problema.

Essa mudança se reflete em pesquisas produzidas por meio da Amazônia 2030, uma colaboração entre o Instituto Amazônico do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) e a Iniciativa de Política Climática (CPI). Seu trabalho reconhece o papel que a extensa pecuária, o pasto degradado e o desmatamento desempenharam na transformação da Amazônia, ao mesmo tempo em que argumenta que os investimentos futuros devem se concentrar em áreas de produção existentes, e não em novas fronteiras agrícolas.

As recomendações são práticas: redirecionar o crédito rural para ganhos mensuráveis de produtividade, expandir a assistência técnica, restaurar pastagens degradadas, fortalecer o monitoramento georreferenciado e esclarecer o status legal das florestas públicas vulneráveis à ocupação especulativa. O argumento subjacente é que o Brasil pode produzir mais carne bovina em terras já desmatadas, reduzindo o incentivo para destruir mais florestas.

A lógica é convincente. Se o pasto degradado sustenta apenas um pequeno número de gado, restaurá-lo deve aumentar a produção sem exigir novas terras. Em teoria, maior produtividade poderia poupar terras para conservação ou restauração ecológica. Se isso acontecer depende menos da produtividade do que da governança.

Rendimentos mais altos reduzem a pressão sobre as florestas apenas quando as proteções ambientais impedem a expansão e a terra restaurada é realmente conservada. Quando a fiscalização é fraca, maior eficiência pode ter o efeito oposto, tornando a produção de gado mais lucrativa, atraindo novos investimentos e aumentando a pressão para expandir.

A história não oferece uma resposta simples. A intensificação agrícola reduziu a pressão sobre a terra em algumas regiões enquanto acelerou a expansão em outras. Os resultados dependem da demanda, infraestrutura, crédito, aplicação da lei e se lucros maiores são canalizados para restaurar terras existentes ou adquirir novas propriedades.

Uma estatística ilustra esse ponto. Pesquisas citadas pela Amazônia 2030 sugerem que cada hectare de pastagem restaurada entre 2000 e 2023 coincidiu com aproximadamente 2,35 hectares de novo desmatamento. A figura descreve uma associação histórica em vez de provar que a restauração causou perda florestal, mas desafia a suposição de que ganhos de produtividade automaticamente deslocam a expansão da fronteira.

A questão central, então, não é se a pastagem pode ser tornada mais produtiva. Pode. A questão é se esses ganhos vêm acompanhados de salvaguardas que impedem que lucros maiores financiem um desmatamento adicional.

A mesma tensão permeia a linguagem mais ampla do gado “baixo carbono”.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, promove programas que combinam restauração de pastagens, assistência técnica, financiamento e acesso ao mercado para apoiar a produção de gado de menor emissão. Suas parcerias no Brasil reúnem organizações ambientais, agronegócios, instituições financeiras e agências de desenvolvimento em torno de um objetivo comum: transformar a pecuária por meio do investimento, e não da contração.

Parceiros estratégicos da IDH no Brasil. Fonte: https://idh.org/contact/brazil 

Uma abordagem semelhante aparece no livro do Instituto de Recursos Mundiais para a Nova Economia para a Amazônia brasileira, onde a reforma pecuária faz parte de um programa mais amplo que liga universidades, ONGs, empresas e organizações de políticas públicas em torno do desenvolvimento econômico compatível com o clima.

A Nova Economia para a liderança brasileira da Amazonia. Fonte: https://www.wri.org/research/new-economy-brazil-amazon 

Outras iniciativas seguem o mesmo padrão. A Coalizão Financeira de Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFC) reúne bancos comerciais, instituições de desenvolvimento, fundações filantrópicas e organizações ambientais para apoiar investimentos em grande escala em empresas de restauração e baseadas na natureza.

Essas organizações diferem em governança, prioridades e perspectiva política, e não devem ser vistas como um único projeto coordenado. Mas seus programas compartilham um vocabulário surpreendentemente semelhante: produtividade, resiliência, restauração, rastreabilidade, impacto mensurável, serviços ambientais e finanças mistas.

Juntas, essas iniciativas revelam uma mudança mais ampla na governança ambiental. A pecuária não é mais enquadrada apenas como uma responsabilidade ambiental que exige uma regulamentação mais rigorosa. Também é apresentado como uma oportunidade para investimento climático, dados ambientais e participação em mercados emergentes para carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

As implicações vão além da pecuária. Florestas, biodiversidade e paisagens restauradas são tratadas como ativos econômicos mensuráveis. Instituições financeiras estão desenvolvendo produtos que recompensam o desempenho ambiental, enquanto as tecnologias digitais geram os dados necessários para verificar e negociar esses ativos.

O Brasil está no centro dessa mudança. Ele contém a maior floresta tropical do mundo, o vasto Cerrado, e milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser restauradas ou intensificadas. Essa combinação torna o país não apenas uma prioridade ambiental, mas também um dos maiores mercados potenciais do mundo para investimento climático.

Como o gado ocupa grande parte das terras do Brasil, ele está no centro dessa oportunidade. A pastagem pode ser apresentada simultaneamente como um problema climático, uma oportunidade de restauração e um ativo financeiro aguardando uso mais produtivo.

A reinvenção do gado, então, é muito mais do que reduzir as emissões de metano. Trata-se de reposicionar um dos maiores setores econômicos do Brasil dentro de um mercado de financiamento climático em rápida expansão.

Se isso coloca limites ecológicos acima da expansão econômica permanece a questão definidora.

mercado brasileiro de restauração florestal pode oferecer uma oportunidade de US$ 141 bilhões para empresas e investidores, segundo um relatório da Orbitas.

Seguindo o dinheiro

A reinvenção do gado não está sendo impulsionada apenas pela política ambiental. Também é moldada por uma arquitetura financeira crescente que liga metas climáticas, produção agrícola e investimento global.

Programas que promovem pecuária de baixo carbono raramente operam isoladamente. Em vez disso, elas surgem de parcerias entre governos, agências de desenvolvimento, fundações filantrópicas, bancos comerciais, gestores de investimentos, empresas de carne e organizações ambientais.

Juntos, esses atores estão redefinindo não apenas como a sustentabilidade é financiada, mas também como ela é medida.

Tal cooperação não é incomum nem inerentemente problemática. Restaurar pastagens degradadas, melhorar as cadeias de suprimentos e apoiar produtores responsáveis exigem investimentos de longo prazo que apenas o financiamento público provavelmente não proporcionará. A questão mais significativa é como essas parcerias influenciam a própria definição de sustentabilidade.

Quando os programas ambientais são projetados em torno das expectativas dos mercados financeiros, o sucesso tende a ser medido por meio de retornos de investimento, redução de riscos, escalabilidade e resultados quantificáveis. Valores que resistem a uma simples medição, como sobrevivência cultural, direitos territoriais, biodiversidade ou o valor intrínseco das florestas, podem se tornar mais difíceis de acomodar.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, ilustra esse cenário em transformação. Estabelecida em 2008 por meio da colaboração entre o governo holandês, a sociedade civil e o setor privado, a IDH atua em cadeias globais de suprimentos de commodities, incluindo cacau, café, algodão, óleo de palma, soja e carne bovina. No Brasil, apoia a restauração de pastagens, assistência técnica e mecanismos financeiros projetados para acelerar a produção pecuária de menor carbono.

O financiamento do IDH reflete a amplitude da economia sustentável atual. Junto com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Holanda e da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), o financiamento estratégico veio do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca (DANIDA), do Ministério do Meio Ambiente da Noruega (NORAD), da União Europeia, da Fundação Bill & Melinda Gates, da Fundação Laudes, da Fundação Mastercard, da Fundação IKEA e do Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO).

Isso ilustra uma mudança mais ampla na governança ambiental. A política não é mais moldada apenas por governos e reguladores. Ela surge cada vez mais por meio de parcerias nas quais instituições públicas, filantropia, organizações financeiras e interesses comerciais trabalham juntos para influenciar os resultados ambientais.

Um dos exemplos mais claros é o Fundo Cria da IDHDesenvolvido com a gestora de investimentos Violet, parte do Grupo VERT, o fundo tem como objetivo ampliar o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores de gado em toda a Amazônia brasileira. Combina crédito rural com assistência técnica digital e acesso ao mercado, reunindo terra, dados e capital.

Até 2030, o fundo visa mobilizar US$50 milhões, apoiar 1.000 produtores e cobrir 150.000 hectares sob práticas classificadas como sustentáveis. Um investimento inicial de US$ 10 milhões está previsto para alcançar 250 agricultores que administram aproximadamente 12.000 hectares.

Para muitos produtores, o acesso a financiamento acessível continua sendo uma barreira real. Restaurar pastagens, comprar equipamentos e adotar novos sistemas de produção exigem capital que o crédito rural convencional muitas vezes não consegue fornecer.

Fundo Cria também ilustra uma mudança mais ampla. O desempenho ambiental está se tornando inseparável da participação nos sistemas financeiros. As decisões de empréstimo dependem cada vez mais de dados de produção, monitoramento geoespacial e assistência técnica digital. O acesso ao capital está ligado não apenas às práticas agrícolas, mas também à capacidade de gerar e verificar informações ambientais.

Para os produtores, isso poderia melhorar o acesso aos mercados premium, ao mesmo tempo em que recompensa um melhor desempenho ambiental. Também levanta questões importantes. Quem é o dono dos dados gerados por esses programas? Como essas informações podem influenciar futuras decisões de empréstimo? Quem determina quais sistemas de produção se qualificam como regenerativos? E o que acontece com os produtores que não podem arcar com a tecnologia necessária ou cuja documentação de terra permanece sem solução?

Esses não são argumentos contra dados ambientais ou crédito rural. Em vez disso, mostram como a inclusão financeira pode criar novas formas de dependência junto com novas oportunidades.

A escolha de Violet como parceira de investimento do fundo destaca outra tendência significativa. Empresas especializadas em finanças estruturadas e mercados de capitais estão se tornando atores centrais na política ambiental. Questões antes abordadas principalmente por meio de serviços de extensão agrícola e regulação pública são cada vez mais gerenciadas por meio de finanças mistas, investimento privado e produtos financeiros projetados para atrair capital institucional.

Essa evolução ficou evidente durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, quando IDH, CPI, representantes do Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, investidores e instituições financeiras focaram menos nas florestas em si e mais nos mecanismos financeiros necessários para tornar a pecuária regenerativa comercialmente viável.

A mesma lógica vai além do gado. Lançada durante a Cúpula do G20 em 2024, a Coalizão Financeira para a Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFCreúne bancos públicos, instituições financeiras privadas, organizações de conservação e agências internacionais de desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões para projetos de restauração e bioeconomia até 2030.

Seus membros incluem Banco do Brasil, BNDES, BTG Pactual, Conservation International, IDB Invest, Instituto Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade, Mombak, The Nature Conservancy (TNC), re.green, WWF Brasil, o Grupo Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, entre outros.

Lista de membros do BRB. Fonte: https://brbfc.org/about-us/ 

Em julho de 2025, os membros da coalizão relataram compromissos de US$ 2,6 bilhões. Eles também visam restaurar ou proteger cinco milhões de hectares, enquanto direcionam US$ 500 milhões para projetos envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

A ambição é substituir a economia de fronteira por uma que gere valor por meio da restauração, e não do desmatamento. As florestas tornam-se ativos investidos, em vez de obstáculos ao crescimento econômico.

Essa visão tem um potencial genuíno. A restauração de longo prazo exige capital de longo prazo, e organizações indígenas e grupos comunitários frequentemente têm dificuldade em acessar o financiamento convencional.

Mas restauração e bioeconomia continuam sendo conceitos amplos. Elas podem apoiar a recuperação de ecossistemas nativos, mas também podem incluir silvicultura comercial, mercados de carbono e sistemas agrícolas com resultados ecológicos e sociais muito diferentes.

Embora o BRBFC não seja um programa pecuário, ele opera em uma paisagem dominada por gado. Decisões sobre restaurar, intensificar ou reaproveitar pastagens inevitavelmente moldam o futuro do maior setor agrícola do Brasil.

Juntas, essas iniciativas apontam para algo maior do que projetos individuais. A governança ambiental está se tornando mais integrada às finanças globais. Florestas, biodiversidade, pastagens e serviços ecossistêmicos estão sendo convertidos em ativos que podem ser medidos, valorizados e incorporados em estratégias de investimento.

Na maioria dos programas analisados, o futuro proposto não envolve produzir menos carne bovina. Em vez disso, trata-se de produzir carne bovina de forma mais eficiente, monitorá-la mais de perto e conectá-la a novos fluxos de capital.

Nessa visão, a sustentabilidade não substitui o crescimento. Torna-se o mecanismo pelo qual se espera que o crescimento continue.

A rastreabilidade pode entregar resultados?

Se uma ideia se tornou central para a promessa de produção sustentável de gado, é a rastreabilidade. Documentos de política, relatórios de sustentabilidade corporativa e estratégias de investimento apresentam isso como a solução para um dos problemas mais antigos da indústria pecuária: saber onde um animal passou sua vida.

Em teoria, cada animal seria identificado desde o nascimento, cada movimento entre fazendas registrado e cada propriedade verificada contra imagens de satélite, embargos ambientais, territórios indígenas e violações trabalhistas. Reguladores, investidores e consumidores poderiam então verificar se a carne vendida em São Paulo, Bruxelas ou Xangai veio de uma cadeia de suprimentos legal e livre de desmatamento.

Sem rastreabilidade confiável, no entanto, as alegações de carne bovina de baixo carbono ou livre de desmatamento continuam difíceis de verificar. O Brasil fez avanços significativos no monitoramento da produção pecuária, mas os sistemas dos quais depende a rastreabilidade permanecem fragmentados, implementados de forma desigual e, em alguns casos, vulneráveis à manipulação.

Três mecanismos formam o quadro atual: o Registro Ambiental Rural (CAR), o Guia de Trânsito Animal (GTA) e acordos entre promotores federais e abatedouros conhecidos como Acordo de Ajuste de Conduta da Indústria Carnívora (TAC da Carne). Juntos, eles representam um avanço importante na transparência, mas também expõem as fraquezas que continuam a limitar a supervisão eficaz.

Criado sob o Código Florestal do Brasil, o CAR é um registro digital no qual os proprietários declaram limites de propriedades, áreas de vegetação nativa, reservas legais e terras agrícolas. Essas declarações podem ser comparadas com imagens de satélite, áreas protegidas e embargos ambientais, tornando a RCA uma ferramenta essencial para a governança ambiental. Sua principal fraqueza é que a informação é inicialmente autodeclarada e só se torna confiável após verificação pelas autoridades ambientais estaduais. Esse processo avançou lentamente, deixando um acúmulo de milhões de registros aguardando validação.

As consequências vão muito além da regulamentação ambiental. Bancos consultam a CAR antes de aprovar crédito rural, empresas de carne a usam para triar fornecedores e investidores dependem dela para avaliar riscos ambientais. Se a informação subjacente for incompleta ou imprecisa, toda decisão baseada nela se torna menos confiável.

Pesquisas do Centro de Análise de Crimes Climáticos, reportadas pelo Repórter Brasil, destacam o problema. Entre 2019 e 2024, 14.223 propriedades na Amazônia Legal alteraram seus registros CAR de formas que removeram áreas ambientalmente restritas. Em meio a essas mudanças, cerca de 4,9 milhões de hectares desapareceram dos limites declarados da propriedade. Tais alterações não provam por si só irregularidades, mas a escala das mudanças, e a remoção, em alguns casos, de embargos ambientais e sobreposições com territórios indígenas, levanta sérias preocupações sobre a integridade do sistema.

Rastrear o território é apenas parte do desafio. Reconstruir a vida de um animal individual é mais complexo porque a indústria bovina do Brasil atua em várias fazendas. Uma propriedade pode criar bezerros; outro os cria e um terceiro os prepara para o massacre. O Animal Transit Guide registra esses movimentos, mas foi criado principalmente para controlar doenças do rebanho, e não para reconstruir a história ambiental de um animal.

Essa distinção tem consequências importantes. Os matadouros tradicionalmente monitoram apenas seus fornecedores diretos, sendo as fazendas que vendem animais imediatamente antes do abate, enquanto as fases iniciais da cadeia de produção frequentemente permanecem fora do sistema. Portanto, um animal pode passar grande parte de sua vida em terras desmatadas ilegalmente antes de ser transferido para uma propriedade conforme pouco antes do abate. A transação final parece legal, mesmo que grande parte da história ambiental do animal permaneça oculta.

A prática, comumente descrita como lavagem de gado, não se baseia necessariamente em documentos falsificados. Em vez disso, explora as lacunas entre sistemas que registram diferentes estágios da cadeia de suprimentos sem se comunicar efetivamente entre si. A fazenda que abastece o matadouro pode cumprir verificações ambientais, enquanto as propriedades onde o animal já viveu permanecem praticamente invisíveis.

Identificação eletrônica, bancos de dados integrados, monitoramento por satélite e análise automatizada de riscos podem ajudar a fechar parte dessa lacuna, tornando muito mais difícil apagar o histórico de um animal. Essas tecnologias representam avanços genuínos em relação aos sistemas fragmentados atualmente em vigor, mas não podem substituir uma governança eficaz. Etiquetas eletrônicas não podem resolver reivindicações fraudulentas de terras, imagens de satélite não podem aplicar a lei ambiental, e plataformas digitais não podem verificar declarações de propriedade imprecisas ou compensar instituições fracas e fiscalização inadequada.

Em última análise, a rastreabilidade é menos um desafio tecnológico do que uma questão de governança. Sua credibilidade depende de registros públicos confiáveis, verificação independente, informações transparentes, reguladores eficazes e consequências significativas para aqueles que violam a lei ambiental.

Os sistemas de monitoramento do Brasil estão se tornando cada vez mais sofisticados, mas sofisticação não deve ser confundida com certeza. Até que o gado possa ser rastreado de forma confiável desde o nascimento até o abate, e cada etapa da cadeia de suprimentos esteja sujeita a uma supervisão eficaz, as alegações de que a carne bovina está livre de desmatamento permanecerão tão fortes quanto o elo mais fraco da cadeia.

Quem define bovino sustentável?

Essa pergunta atravessa todas as etapas do debate.

O termo gado “sustentável” aparece em estratégias governamentais, prospectos de investimento e relatórios corporativos. A carne bovina é descrita como “de baixo carbono”, a pecuária torna-se “regenerativa” e as cadeias de suprimentos são rotuladas como “positivas para a natureza”. A linguagem sugere uma conclusão definitiva, mas o significado de sustentabilidade permanece contestado.

Não existe uma definição científica única que determine se a produção industrial de gado na Amazônia e no Cerrado pode ser considerada sustentável. Uma fazenda pode atender a um padrão porque não desmatou florestas recentemente e falha em outro porque seus animais vieram de fornecedores não monitorados. Pode reduzir as emissões por quilograma de carne bovina enquanto aumenta a produção geral e pode restaurar uma área enquanto sua cadeia de suprimentos se expande para outra.

Grande parte do argumento para o gado “baixo carbono” baseia-se na distinção entre intensidade de emissões e emissões absolutas. Melhor manejo do pasto, nutrição aprimorada, seleção e abate mais precoce podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne bovina ao reduzir o tempo que o gado gasta emitindo metano. Esses ganhos são significativos, mas a atmosfera responde às emissões totais, e não à eficiência produtiva.

Se as emissões por quilograma caírem enquanto o tamanho dos rebanhos permanece estável ou diminui, as emissões gerais podem diminuir. Se a produtividade melhorar enquanto o número de gado e a produção de gado continuarem crescendo, as emissões totais podem permanecer inalteradas ou até mesmo aumentar. Para um país com o maior rebanho comercial de gado do mundo, essa distinção é fundamental.

O metano torna a questão particularmente significativa. A fermentação entérica continua sendo a maior fonte de metano agrícola no mundo. Embora o metano persista na atmosfera por um período menor do que o dióxido de carbono, seu efeito de aquecimento é especialmente forte nas décadas imediatamente após sua liberação. Reduzir as emissões de metano pode, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, mas isso continua sendo politicamente desafiador, pois o gado é central para uma das indústrias exportadoras mais importantes do Brasil.

O debate sobre a contabilidade do metano ilustra o quão controversas essas questões se tornaram. Alguns pesquisadores e grupos industriais apoiam métricas alternativas, incluindo a Global Warming Potential Star (GWP*), argumentando que a contabilidade convencional superestima o efeito de aquecimento a longo prazo de rebanhos estáveis ao tratar o metano como gases de efeito estufa de longa duração. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no entanto, continua a aconselhar contra o uso do GWP* para a contabilidade nacional de emissões, pois ele não captura totalmente a contribuição para o aquecimento de cada emissão de metano. O debate é técnico, mas suas implicações são políticas porque influenciam como as emissões do gado são interpretadas e, em última análise, como a própria sustentabilidade é medida.

A tecnologia ocupa um lugar igualmente proeminente na reinvenção do gado. Sistemas de satélite detectam desmatamento, etiquetas eletrônicas acompanham os movimentos dos animais, inteligência artificial analisa riscos da cadeia de suprimentos e plataformas digitais integram dados ambientais, financeiros e de produção. Juntas, essas ferramentas transformaram a capacidade de monitorar a produção pecuária em um país do tamanho do Brasil, fornecendo informações que seriam inimagináveis há apenas uma geração.

A tecnologia, no entanto, não pode resolver as questões políticas no cerne do debate. Imagens de satélite podem revelar onde as florestas foram desmatadas, mas não podem processar os responsáveis. Registros digitais podem identificar sobreposições com territórios indígenas, mas não podem garantir que as autoridades irão intervir. As plataformas financeiras podem medir a conformidade com indicadores selecionados, mas não podem determinar se a expansão contínua da produção bovina é compatível com os limites ecológicos.

Um padrão mais amplo emerge. Desafios políticos e sociais são repetidamente reformulados como técnicos, a ocupação ilegal se torna um problema de qualidade dos dados, a fraca aplicação da lei passa a ser uma questão de monitoramento, e os limites ecológicos se tornam questões de eficiência e otimização. Uma tecnologia melhor, sem dúvida, melhora a supervisão, mas não pode substituir uma governança eficaz.

O mesmo padrão ajuda a explicar por que as finanças se tornaram tão entrelaçadas com a política ambiental. Antes que a sustentabilidade possa ser recompensada pelos investidores, ela deve primeiro ser traduzida em dados mensuráveis. Uma vez quantificado, o desempenho ambiental pode ser verificado, precificado e incorporado às decisões financeiras. Nesse processo, a sustentabilidade torna-se não apenas um objetivo ecológico, mas também uma categoria financeira.

Nada disso diminui o valor de restaurar pastagens degradadas, melhorar a rastreabilidade ou apoiar produtores que desejam adotar melhores práticas. Também não sugere que as organizações aqui discutidas compartilhem motivações idênticas. Bancos públicos de desenvolvimento, organizações ambientais, produtores e fundos de investimento frequentemente participam das mesmas iniciativas por razões muito diferentes.

As evidências sugerem, no entanto, que a autoridade para definir sustentabilidade está mudando gradualmente. Ecologistas podem julgar a produção bovina pelo impacto que tem nas florestas, biodiversidade e clima. Os povos indígenas podem julgá-la pela permanência de seus territórios, culturas e direitos intactos. Os agricultores podem julgá-la pela capacidade de manter meios de subsistência viáveis sem perder o controle de suas terras ou se tornar dependentes de novos sistemas financeiros e tecnológicos. Os investidores, por outro lado, tendem a priorizar indicadores mensuráveis, relatórios padronizados e riscos quantificáveis.

A questão não é se uma perspectiva é inerentemente mais legítima que outra. É quem, em última instância, tem autoridade para decidir qual definição molda a política.

Isso importa porque a linguagem orienta a regulação, a regulação direciona investimentos e o investimento remodela o cenário. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de gado equipado com etiquetas eletrônicas, hectares restaurados ou bilhões de dólares comprometidos com financiamento verde.

O teste mais significativo é se as florestas permanecem de pé, as emissões de metano caem em termos absolutos, os povos indígenas mantêm o controle de seus territórios e a prosperidade rural não depende mais de empurrar a fronteira agrícola para ecossistemas naturais.

Se a reinvenção do gado se mostrará uma transição ambiental genuína ou uma justificativa mais sofisticada para o funcionamento do negócio como de costume, não será julgado pela linguagem da sustentabilidade, mas por esses resultados.


Fonte: YourVoiz

O fim da Moratória da Soja abrirá as portas para um novo ciclo de devastação na Amazônia

A reportagem da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no Valor Econômico, traz um dado que deveria soar como um alerta para toda a sociedade brasileira: o eventual fim da Moratória da Soja poderá provocar perdas estimadas em US$ 8,2 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo da próxima década.  Um artigo publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, demonstra que o desmatamento adicional poderá comprometer funções essenciais da floresta amazônica, como a formação de chuvas, a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a geração de energia hidrelétrica.

Embora os números econômicos impressionem, o aspecto mais preocupante talvez seja outro. A Moratória da Soja nunca foi um instrumento perfeito. Desde sua criação, em 2006, ela contribuiu para reduzir a expansão direta da soja sobre áreas recentemente desmatadas na Amazônia, mas não impediu outros vetores de destruição florestal. A pecuária continuou avançando sobre vastas áreas, a grilagem de terras públicas permaneceu ativa e a degradação causada pela exploração madeireira, pelos incêndios e pela abertura de estradas seguiu corroendo a integridade da floresta. Em outras palavras, mesmo com a moratória em vigor, o quadro sempre esteve longe de ser satisfatório.

É justamente por isso que sua eventual extinção representa um risco muito maior do que o simples desaparecimento de um acordo setorial. A retirada desse importante mecanismo de controle poderá transmitir ao mercado um sinal de flexibilização das regras ambientais, estimulando uma nova corrida pela conversão da floresta em áreas agrícolas. Num contexto em que a fiscalização ambiental continua sofrendo com restrições orçamentárias e operacionais, essa mudança tende a acelerar tanto o desmatamento quanto a degradação florestal, tornando muito mais difícil conter o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia.

Os efeitos dessa dinâmica não se restringem à Amazônia. A perda da cobertura florestal reduz a reciclagem de umidade responsável pela formação dos chamados “rios voadores”, afetando a disponibilidade de água e a regularidade das chuvas em boa parte da América do Sul. O prejuízo alcança diretamente a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano, comprometendo atividades econômicas muito além da região amazônica. Diversos estudos científicos já demonstraram que a continuidade do desmatamento e da degradação florestal aproxima a Amazônia de um ponto de inflexão ecológica, cujas consequências atingirão de forma particularmente severa a própria produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado.

Outro mérito da reportagem é mostrar que os custos da destruição da floresta não podem ser medidos apenas pelo valor da madeira ou da terra convertida em lavoura. Os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam processos ecológicos que permitem o funcionamento da própria economia brasileira. Quando esses serviços desaparecem, toda a sociedade paga a conta, ainda que ela não apareça imediatamente nos indicadores econômicos tradicionais.

O debate sobre o futuro da Moratória da Soja, portanto, vai muito além dos interesses imediatos do setor exportador.  O que está em jogo é se o Brasil continuará preservando um dos poucos mecanismos que, mesmo com limitações, ajudou a conter parte da expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ou se aceitará o risco de entrar em um novo ciclo de devastação. Se com a moratória a situação já era precária, sua eliminação poderá tornar o desmatamento e a degradação florestal praticamente incontroláveis, aprofundando uma crise ambiental que ameaça o equilíbrio climático, a segurança hídrica e o próprio futuro da produção agrícola brasileira.

Há, porém, um aspecto que torna esse debate ainda mais inquietante. Não é mais possível esperar racionalidade de um segmento do agronegócio que insiste em agir de forma profundamente irracional, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas sobre os impactos econômicos do desmatamento e da degradação florestal. Pesquisas científicas  realizadas por instituições brasileiras e internacionais demonstram de maneira consistente que a destruição da Amazônia compromete o regime de chuvas, intensifica secas e ondas de calor, reduz a disponibilidade hídrica e ameaça a produtividade agropecuária tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Ainda assim, parcelas influentes desse setor continuam pressionando pelo enfraquecimento dos instrumentos de proteção ambiental em nome de ganhos imediatos, ignorando que essa estratégia destrói justamente as bases ecológicas que sustentam sua própria atividade econômica.

Defender o fim da Moratória da Soja, portanto, não representa apenas um retrocesso ambiental. Representa também uma aposta temerária contra a ciência e contra o futuro da agricultura brasileira. A ironia é evidente: em nome de ampliar a produção no presente, esses setores trabalham para inviabilizar as condições climáticas que permitirão produzir no futuro. É difícil imaginar uma demonstração mais clara de irracionalidade econômica e ambiental.

Estudo defende proteção legal para áreas ao redor de terras indígenas na Amazônia

Desmatamento no entorno do Vale do Javari, que abriga a maior concentração mundial de povos indígenas isolados, foi 187,5 vezes maior que dentro da TI em 2022

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização. Foto: Gabriel de Oliveira & Erin Koster / Acervo Pesquisadores 

A Terra Indígena (TI) Vale do Javari evidencia uma dinâmica preocupante na Amazônia: enquanto a floresta permanece preservada dentro do território demarcado, o desmatamento avança rapidamente em seu entorno. Em 2022, a perda florestal na zona de amortecimento (uma faixa de 200 km ao redor da TI) foi 187,5 vezes maior do que o observado dentro da TI.

Ainda que o desmatamento anual tenha diminuído no entorno do Vale do Javari em 2023 e 2024, os níveis ainda são superiores aos das décadas anteriores. Por isso, a proteção legal para zonas de amortecimento, aplicada para limitar as atividades humanas nas proximidades das unidades de conservação em geral — como os parques nacionais e reservas extrativistas — deve ser estendida também às terras indígenas.

A análise está em publicação na revista Nature Sustainability, assinada por pesquisadores de instituições nacionais, como INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e internacionais, além do líder indígena Beto Marubo. Os autores reúnem dados de desmatamento do PRODES/INPE (Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia Legal) e de cobertura florestal e mudanças de uso da terra a partir da plataforma MapBiomas.

O artigo observa que mudanças na legislação e a invasão de territórios para atividades como mineração, tráfico de animais silvestres e exploração ilegal de madeira e pesca ameaçam a integridade dos povos indígenas e seus modos de vida. Porém, mesmo com essas ameaças, as TIs da Amazônia prestam serviços ecossistêmicos e garantem a subsistência tanto de povos que interagem com grupos externos como daqueles que decidiram viver isolados em suas comunidades.

Localizada em 8.544.482 hectares no oeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a TI Vale do Javari é a segunda maior do Brasil. É lar de cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor — Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina –, dois de contato recente — Korubo e Tsohóm-Djapá –, além de pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário, a maior concentração mundial de povos isolados. Demarcada em 2001, ganhou atenção internacional em 2022 por conta do assassinato do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização e do combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas vizinhas às terras indígenas. No Vale do Javari, a prioridade, afirmam, é conter novas ocupações e atividades ilegais, como caça comercial e pesca predatória.

“Coibir a ocupação irregular, inclusive removendo os ocupantes ilegais, é importante em toda a Amazônia brasileira. Como há limitações de orçamento, pessoal e capacidade de fiscalização, essa atuação deve ter prioridade nas áreas próximas às terras indígenas”, afirma Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do estudo, liderado por Gabriel de Oliveira, da Universidade do Sul do Alabama (EUA). Essa proteção, observam, é ainda mais importante para os povos isolados, que não conseguem acionar autoridades, organizações da sociedade civil ou a imprensa quando seus territórios são invadidos.


Fonte: Agência Bori

Ecocídio no Pantanal

Por Luiz Marques*

O Pantanal, “o reino das águas”, Patrimônio Nacional (Constituição de 1988) e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera (ONU, 2000), é tradicionalmente considerado a maior planície alagada do mundo. Esse bioma transfronteiriço se estende por três países: Bolívia (53.320 km2), Paraguai (8.520 km2) e Brasil (151.134 km², segundo o IBGE 2017).[1] Com cerca de 65% desse bioma em território brasileiro no Mato Grosso do Sul e o restante no estado do Mato Grosso, apenas 5,2% do Pantanal brasileiro está protegido em Unidades de Conservação,[2] embora possua uma densidade sem par de biodiversidade descrita: 124 espécies de mamíferos, sendo duas endêmicas, 325 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e cerca de 3.500 espécies de plantas, muitas com enorme potencial medicinal.[3] Essa riqueza singular de vida está ameaçada, pois o Pantanal é um dos principais teatros do ecocídio perpetrado pelo agronegócio em nosso país desde a ditadura militar. Entre agosto de 2000 e julho de 2025, o agronegócio foi o principal vetor da supressão de 16.470 km2 da vegetação nativa pantaneira, como mostra a Tabela 1.

Perda de vegetação nativa no Pantanal (2001-2025) em km2

Fonte: Inpe, TerraBrasilis, Prodes, Desmatamento.  <https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/pantanal/increments>.  

Como se vê, mais de 10% da cobertura vegetal nativa do Pantanal brasileiro foi completamente suprimida apenas no primeiro quarto do século XXI.

  Extensão do território devastado por incêndios criminosos no Pantanal

Isso posto, muito maior ainda que a área da supressão dessa cobertura foi a da destruição do Pantanal pelo fogo, sobretudo para a expansão da pecuária. Apenas entre janeiro e agosto de 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou um total de 10.153 focos de incêndio no Pantanal, um número superior à soma dos focos de incêndios dos seis anos anteriores, de 2014 a 2019 (10.048).[4] A perícia apurou que o objetivo dos incêndios em ao menos duas áreas pantaneiras foi “a criação de área de pasto para gado”.[5] Além disso, a Polícia Federal reuniu provas suficientes para indiciar quatro fazendeiros em cujas propriedades o fogo iniciara simultaneamente no dia 20 de junho de 2020. De resto, “segundo testemunhas, dias antes de mandar seus funcionários colocar fogo nas propriedades, os fazendeiros providenciaram a retirada de todo o gado”.[6] Os incêndios de 2020 atingiram cerca de um terço de toda a extensão do Pantanal. Eis a estimativa da área queimada no Pantanal apenas nesse ano:[7]

“Os resultados mostraram uma precisão geral de 95,9% e uma estimativa de 44.998 km2 queimados na porção brasileira do Pantanal, resultando em grave destruição do ecossistema e perda de biodiversidade nesse bioma. A área queimada estimada neste trabalho foi superior aos resultados estimados pelos MCD64A1 (35.837 km2), Fire_cci (36.017 km2), GABAM (14.307 km2) e MapBiomas Fogo (23.372 km2), que apresentaram precisões inferiores”.

Quanto aos ecossistemas atingidos nesse ano, “cerca de 31% dos incêndios ocorreram em áreas cobertas por florestas, 32% em pastagens e 28% em áreas úmidas, totalizando 91% de todas as deteções de incêndios”.[8] A mortandade animal causada por esse crime hediondo foi imensa, pois os incêndios de 2020 mataram ao menos 17 milhões de animais. A cada km2, foram calcinados em média mais de 217 vertebrados, em um dos maiores crimes de ecocídio em toda a história do Brasil.[9] Em setembro de 2020, durante uma reunião de Bolsonaro com seus ministros, a pergunta de uma menina sobre os incêndios no Pantanal provocou uma gargalhada geral, tal como dá testemunho um vídeo vazado.[10] Esses incêndios 2020 foram, em grande parte, o resultado do desmonte das políticas ambientais por Bolsonaro, conforme denúncia da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional), através do relatório “Cronologia de um Desastre Anunciado”, que reúne evidências a respeito.[11]

Os incêndios pantaneiros continuaram nos anos sucessivos. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), em 2021 o Pantanal teve 1.945.150 hectares, pouco mais de 19 mil km2, consumidos pelas chamas.[12] Em 2022, sempre segundo o LASA, a área queimada foi de quase 3,2 mil km2, mas em 2023, ela saltou para quase 9,5 mil km2, levando o governo do Mato Grosso a decretar emergência ambiental.[13] Entre 1985 e 2023, os incêndios queimaram 89 mil km2 do Pantanal. Desse total, 72 mil km2 sofreram pelo menos dois incêndios nesse período. E no primeiro semestre de 2024, a área queimada nesse bioma atingiu mais 468.547 hectares, ou quase 4,7 mil km2, em um total de 93 mil km2 ou 62% da área do Pantanal no Brasil.[14] Após uma queda espetacular da área queimada em 2025, o Pantanal deve sofrer outro surto de incêndios em 2026 com o advento do El Niño.

O Pantanal está secando

Eis o diagnóstico de Eduardo Rosa, do MapBiomas (coleção 9, 2024):[15]

“O Pantanal já experimentou períodos secos prolongados, como nas décadas de 1960 a 1970, mas atualmente outra realidade, de uso agropecuário intensivo e de substituição de vegetação natural por áreas de pastagem e agricultura, principalmente no planalto da Bacia do Alto Paraguai, altera a dinâmica da água na bacia hidrográfica.”

Essa advertência foi referendada por um estudo recente,[16] repercutido no Jornal da Unesp, com o título: “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos”.[17] Os dois mapas da Figura 1 mostram a redução da superfície de água do outrora “reino das águas”.

Figura 1 – Mapas mostrando a superfície das águas superficiais no Pantanal em 1985 e em 2023.

Fonte: Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

Em setembro de 2024, Marina Silva alertou: “O diagnóstico é de que poderemos perder o Pantanal até o final do século”.[18] A avaliação de Carlos Nobre é ainda pior: mantido o ritmo atual de sua destruição e de sua desidratação, o Pantanal pode desaparecer até 2070, posto que já perdeu 30% de sua área.[19] O diagnóstico de Sérvio Justino, primeiro autor do trabalho acima citado, reitera o de Carlos Nobre: “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem. (…) Se continuarmos nesse ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”.[20]

Substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio

A destruição dos nossos biomas é o projeto do agronegócio para o Brasil. Em 17 de junho de 2026, fazendeiros obstruíram a consulta pública para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, em Mato Grosso do Sul. Ocuparam o Auditório da Prefeitura de Bodoquena, gritando “Fora!” aos funcionários do ICMBio, de modo a travar qualquer possibilidade de avanço na proteção do que resta do Pantanal.[21] Se a sociedade brasileira não reagir em outubro, de modo a substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio, será muito em breve tarde demais. Não haverá quase nada a conservar de um das mais preciosos e insubstituíveis tesouros do patrimônio natural do Brasil.

Notas de referência

[1] Cf. Edvaldo Cesar Moretti & Karoline Batista Gonçalves, “Pantanal Transfronteiriço (Bolívia-Brasil- Paraguai) e as áreas protegidas: desafios da gestão diferenciada na zona de fronteira”. Confins, 47, 2020.

[2] Cf. Cristiane Prizibisczki, “Governo amplia áreas protegidas no Pantanal e fortalece proteção do bioma”, ((o)) eco, 22 março 2026.

[3] Cf. ICMBio, Pantanal, baseado em Cadastro Nacional de UCs, Geoprocessamento ICMBio.  <https://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/pantanal>.

[4] Cf. André Borges, “Volume de queimadas no Pantanal em 2020 equivale a à destruição dos últimos 6 anos”. UOL, 8 set. 2020.

[5] Cf. “Perícia afirma que incêndio no Pantanal mato-grossense foi intencional”. Agência Brasil,5 set. 2020.

[6] Cf. “PF já tem provas para indiciar fazendeiro de MS por queimadas no Pantanal”. UOL, 25 set. 2020.

[7] Cf. Yosio Edemir Shimabukuro et al., “Assessment of Burned Areas during the Pantanal Fire Crisis in 2020 Using Sentinel-2 Images”. Fire, 6(7), 277, 2023.

[8] Cf. Mikhaela A.J.S. Pletsch et al., “The 2020 Brazilian Pantanal fires”. Letter to the editor. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 93(3), 2021.

[9] Cf. Walfrido Moraes Tomas & Christian Niel Berlinck et al., “Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020’s wildfires in the Pantanal, Brazil”. Nature. Scientific Reports, 16 dez. 2021.

[10] Cf. “Ao ser perguntado se Pantanal pega fogo, Bolsonaro ri (vídeo)”. Brasil 247, 8 set. 2020.

[11] Cf. “Servidores divulgam relatório de ações do governo Bolsonaro contra o meio ambiente”. Brasil de Fato”, 5 set. 2020.

[12] Cf. “Comparando os incêndios de 2020 com 2021 no Pantanal: O que mudou?”. SOS Pantanal, 27 dez. 2021.

[13] Cf. “Pantanal em chamas: bioma registra um milhão de hectares queimados em 2023”. G1, 15 nov. 2023.

[14] Cf. Eduardo Rosa et al., Seca extrema e Incêndios no Pantanal em 2024. MapBiomas, 2024.

[15] Cf. “Redução de superfície de água no Pantanal favorece incêndios”. MapBiomas Pantanal Coleção 9, 12 nov. 2024.

[16] Cf. Sérvio Tulio Pereira Justino et al., “Assessment of spatiotemporal variability in surface water and drought variability across the Brazilian Pantanal”. Advances in Space Research, 78, 3, 1 agosto 2026, pp. 2374-2399.

[17] Cf. Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[18] Cf. “Queimadas e seca histórica: Pantanal pode desaparecer até o fim do século, alerta Marina Silva”. Jornal Nacional, 4 set. 2024.

[19] Cf. “Crise climática está mais rápida. Até 2070, o Pantanal acaba”. O Estado de São Paulo, 11 set. 2024.

[20] Citado por Carolina Fioratti, cit. Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[21] Cf. Duda Menegassi, “Produtores rurais impedem audiência pública sobre criação de UC no Pantanal”. ((o)) eco,  19 junho 2026.


*Luiz Marques (Luiz Cesar Marques Filho) é historiador e professor livre-docente aposentado do Departamento de História da Unicamp. Ele é um dos maiores especialistas brasileiros em história da arte italiana e autor de livros premiados sobre crises socioambientais, como “Capitalismo e Colapso Ambiental

Plano Safra 2026/2027: governo Lula mantém prioridade para o latifúndio agroexportador e deixa a agricultura familiar em segundo plano

O anúncio do Plano Safra 2026/2027 confirma a permanência de uma das maiores contradições da política agrícola brasileira. Embora o governo Lula reafirme, em seus discursos, a importância estratégica da agricultura familiar para garantir a segurança alimentar da população, sua política de crédito rural continua concentrando a maior parte dos recursos públicos na agricultura empresarial voltada para a exportação de commodities. Os números do novo Plano Safra deixam pouca margem para dúvidas: o governo destina um volume de recursos muito superior ao agronegócio empresarial do que ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), preservando uma desigualdade histórica que sucessivos governos prometeram reduzir, mas nunca enfrentaram de forma consistente.

Enquanto isso, a agricultura familiar continua enfrentando dificuldades para acessar financiamento, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento e canais de comercialização. Ainda assim, são justamente os agricultores familiares que produzem grande parte dos alimentos que abastecem diariamente a mesa dos brasileiros. Feijão, mandioca, frutas, hortaliças, leite e inúmeros outros produtos essenciais dependem muito mais do trabalho das pequenas propriedades do que das grandes monoculturas destinadas ao mercado internacional. Ao concentrar a maior parte do crédito no agronegócio exportador, o governo envia um sinal inequívoco sobre quais interesses considera prioritários.  Essa é uma escolha que enfraquece justamente o segmento mais importante para a segurança alimentar do país e reforça um modelo voltado prioritariamente para a geração de divisas por meio da exportação de commodities agrícolas.

Essa opção política se torna ainda mais difícil de justificar quando se analisa a situação financeira do próprio agronegócio. Nos últimos anos, grandes produtores rurais e empresas agrícolas acumularam pedidos de recuperação judicial, revelando um setor muito mais dependente do apoio estatal do que seus representantes costumam admitir. Apesar do discurso permanente sobre eficiência, competitividade e capacidade de gerar riqueza, boa parte do grande agronegócio enfrenta elevados níveis de endividamento e encontra cada vez mais dificuldades para sustentar seu próprio modelo de expansão sem o apoio do crédito subsidiado oferecido pelo Estado. Em outras palavras, o governo direciona a maior parcela dos recursos públicos justamente para um segmento que demonstra crescente dependência financeira, enquanto limita o apoio ao setor que efetivamente garante o abastecimento alimentar da população brasileira.

Essa política também produz profundas consequências ambientais. O crédito rural não apenas financia a produção agrícola; ele define a forma como o território brasileiro se organiza e se transforma. Quando o governo concentra recursos nas grandes monoculturas de soja, milho, algodão e outras commodities, ele estimula a expansão contínua da fronteira agrícola. Esse processo mantém forte pressão sobre a Amazônia e, principalmente, sobre o Cerrado, onde grandes proprietários continuam convertendo áreas de vegetação nativa em extensas plantações mecanizadas. Não existe neutralidade nessa escolha orçamentária. Quem financia determinado modelo agrícola também financia os impactos ambientais que esse modelo produz.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o desmatamento continua representando uma das principais fontes das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Embora o governo tenha obtido resultados importantes na redução do desmatamento ilegal em algumas áreas da Amazônia, a expansão da agricultura empresarial continua deslocando a fronteira agropecuária sobre regiões ambientalmente sensíveis, especialmente no Cerrado, bioma que abriga parte significativa das nascentes que alimentam as principais bacias hidrográficas do país. Ao ampliar o financiamento desse modelo produtivo, o Plano Safra reforça uma lógica territorial que caminha na direção oposta aos compromissos climáticos assumidos pelo próprio governo brasileiro.

O Plano Safra também fortalece um modelo agrícola profundamente dependente do uso intensivo de agrotóxicos. As grandes monoculturas de exportação alcançam seus atuais níveis de produtividade porque utilizam enormes quantidades de herbicidas, inseticidas e fungicidas ao longo de seus ciclos produtivos. Ao privilegiar financeiramente esse segmento, o governo também reforça a continuidade de um padrão tecnológico cuja sustentabilidade ambiental e sanitária enfrenta questionamentos cada vez mais sólidos por parte da comunidade científica.

Nos últimos anos, pesquisadores brasileiros e estrangeiros produziram um conjunto robusto de evidências que associam a exposição aos agrotóxicos ao aumento da incidência de doenças neurológicas, alterações hormonais, diferentes tipos de câncer, problemas reprodutivos e contaminação de solos, rios e aquíferos. Estudos recentes também demonstram impactos relevantes sobre polinizadores, organismos aquáticos e diversas espécies fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar uma transição em direção a sistemas produtivos menos dependentes desses produtos, o governo continua destinando a maior parte dos recursos públicos justamente ao segmento que mais consome agrotóxicos no país.

O mesmo raciocínio vale para o consumo de água. Grandes monoculturas exigem volumes crescentes de recursos hídricos, sobretudo nas áreas irrigadas, justamente em um momento em que diversos aquíferos brasileiros apresentam sinais preocupantes de sobreexploração e em que os efeitos das mudanças climáticas tornam cada vez mais frequentes os períodos de estiagem prolongada. Ao estimular continuamente esse padrão produtivo, o governo amplia a pressão sobre recursos naturais que já demonstram claros sinais de esgotamento.

Essa orientação política revela uma contradição difícil de ignorar. O presidente Lula busca projetar o Brasil como liderança internacional no enfrentamento da crise climática e pretende transformar a realização da COP30 em uma vitrine da política ambiental brasileira. Entretanto, a principal política de financiamento da agricultura continua privilegiando um modelo baseado na concentração fundiária, na expansão das monoculturas, no consumo intensivo de água e no uso maciço de agrotóxicos. A distância entre o discurso ambiental e a política agrícola permanece significativa.

Não se trata de negar a importância econômica das exportações agrícolas nem de ignorar o papel que o agronegócio desempenha na balança comercial brasileira. O problema reside na enorme desproporção da distribuição dos recursos públicos e na ausência de critérios que condicionem o acesso ao crédito subsidiado à redução efetiva do desmatamento, do consumo de agrotóxicos, do desperdício de água e da concentração fundiária. O Estado dispõe de instrumentos suficientes para induzir uma agricultura mais diversificada, mais sustentável e mais comprometida com a produção de alimentos para a população brasileira. No entanto, continua utilizando o Plano Safra para fortalecer exatamente o modelo que concentra terras, amplia os conflitos socioambientais e aprofunda a dependência da economia nacional da exportação de commodities primárias.

Talvez a maior contradição do novo Plano Safra resida justamente em sua dimensão política. Ao concentrar a maior parte do crédito subsidiado no latifúndio agroexportador, o governo Lula fortalece um segmento que permanece amplamente identificado com o bolsonarismo e que, desde o início do atual mandato, atua sistematicamente contra as principais iniciativas do governo no Congresso Nacional e na disputa política mais ampla. Essa escolha expressa a lógica de concertação que tem orientado o governo desde 2023: na tentativa de reduzir conflitos com setores historicamente conservadores, o Palácio do Planalto amplia concessões sem conseguir alterar o alinhamento político desse segmento. Ao mesmo tempo, essa política contradiz os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, quando Lula prometeu fortalecer a agricultura familiar, ampliar a produção agroecológica e conduzir a agricultura brasileira por uma trajetória social e ambientalmente mais sustentável. Na prática, o governo percorreu o caminho inverso. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar a transição para um modelo menos dependente do desmatamento, dos agrotóxicos e das grandes monoculturas de exportação, preferiu reforçar econômica e politicamente um setor que continua resistindo às mudanças necessárias e que permanece entre os principais adversários do próprio projeto político que levou Lula de volta à Presidência da República.

Nova exigência da Europa isola agricultura familiar e acende alerta para as exportações do Mercosul

Com 50% do café exportado pra Europa, Brasil encara barreiras verdes e risco de isolamento logístico no campo.

O risco de isolamento logístico de pequenos agricultores e a imposição de novos custos de rastreabilidade ameaçam as exportações brasileiras para a União Europeia, que hoje absorve mais da metade de todo o café nacional. O alerta pauta um novo levantamento de pesquisadoras do projeto DIP-BR (Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil) do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ). Ao analisar o impacto do Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), as pesquisadoras Kethelyn Ferreira e Marta Castilho mostram que a medida ambiental pressiona cadeias agrícolas vulneráveis e têm o potencial de gerar um desvio severo na geografia do comércio internacional.

Embora a exposição geral da economia brasileira à nova regra seja de apenas 5,3% do total de exportações, o impacto atinge o agronegócio de forma concentrada. O regulamento condiciona o acesso ao mercado europeu à comprovação de que os produtos não foram cultivados em áreas que sofreram desmatamento após dezembro de 2020. Sem essa prova, a entrada é vetada. O mercado europeu classificou o Brasil como um país de “risco padrão”, o que obriga os produtores a executarem um processo rigoroso e caro de verificação e rastreabilidade para comprovar a origem sustentável de suas safras. O café é uma das commodities mais vulneráveis ao novo marco regulatório, não pelo peso que tem na exportação, mas pela dependência quase exclusiva do mercado europeu como comprador. Mais de 50% do volume exportado tem a Europa como destino final, ante menos de 15% no caso da soja, que também será afetada pelo EUDR, mas em menor escala. Os dois setores concentram os maiores indicadores de exposição ao regulamento no caso brasileiro: a soja pelo volume que representa na pauta exportadora, e o café pela dependência quase exclusiva do mercado europeu como destino.

“O EUDR impõe devida diligência proporcional ao risco do país; como o Brasil está classificado como ‘risco padrão’, os procedimentos e custos de conformidade tendem a ser mais exigentes do que para países de ‘baixo risco’, pressionando preço, tempo e burocracia na venda ao mercado europeu. A própria lógica do EUDR abre espaço para que operadores europeus privilegiem produtos de países de ‘baixo risco’”, afirmam as pesquisadoras no levantamento.

O peso da nova legislação recai de forma agressiva sobre a base da pirâmide produtiva. Famílias e cooperativas rurais esbarram em limitações técnicas e na ausência crônica de regularização fundiária no país. Sem acesso a tecnologias sofisticadas para gerar os dados rastreáveis exigidos pelo operador europeu, o custo fixo por unidade produzida dispara. A exigência inviabiliza a comercialização direta por esses grupos, atuando como um “protecionismo verde” que aprofunda as desigualdades produtivas da agricultura brasileira.

O cenário da soja expõe uma dinâmica de poder distinta e aponta para o risco de ineficácia climática da lei. Hoje, menos de 15% da soja brasileira vai para a União Europeia, enquanto a China absorve cerca de 60% das exportações dessa commodity, segundo dados do ComexStat/MDIC para 2024. Como o Brasil fornece quase 35% de toda a soja que o bloco europeu importa, o país retém maior margem de barganha. Diante das fricções regulatórias, o agronegócio pode direcionar suas cargas para mercados com regras ambientais mais flexíveis, como o chinês, esvaziando o efeito de conservação florestal inicialmente pretendido pelos europeus. O resultado seria um desvio de comércio sem redução real do desmatamento. Do lado oposto, os EUA se beneficiariam como fornecedor alternativo para o próprio mercado europeu, ampliando sua fatia às custas do Brasil.

O adiamento da vigência da lei para os próximos anos abriu uma janela estratégica de negociação diplomática para o agronegócio sul-americano. A prioridade do Mercosul passa por reivindicar o reconhecimento de sistemas de monitoramento locais já operantes, como a Moratória da Soja e o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Além disso, a revisão do caráter retroativo da data de corte de 2020 e a equiparação entre desmatamento legal e ilegal, que ignora as legislações ambientais vigentes em cada país produtor são temas fundamentais. A criação de fundos europeus de apoio técnico e financeiro para pequenos produtores também se desenha como uma etapa indispensável para modernizar o rastreio sem asfixiar financeiramente os elos mais frágeis do campo.


Fonte: Agência Bori

Reino Unido endurece regras contra o desmatamento ilegal: um sinal de alerta para o modelo agroexportador brasileiro

O anúncio do governo  do Reino Unido de que irá fortalecer a legislação para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento ilegal representa mais um passo na consolidação de um novo padrão de governança ambiental no comércio internacional. A proposta prevê que empresas que comercializam commodities como soja, óleo de palma, cacau, borracha e, potencialmente, café comprovem que suas cadeias de suprimento não estão vinculadas à supressão ilegal de florestas. O governo britânico também pretende reforçar os mecanismos de diligência das empresas e ampliar a rastreabilidade dos produtos importados.

Embora a medida tenha como foco imediato o combate ao desmatamento ilegal, suas implicações vão muito além do mercado britânico. Ela reforça uma tendência já iniciada pela União Europeia de exigir cadeias produtivas livres de desmatamento, deslocando o debate ambiental para o centro das relações comerciais internacionais. Em outras palavras, preservar florestas deixa de ser apenas uma questão ambiental para se tornar uma exigência crescente de acesso aos principais mercados consumidores.

Para o Brasil, esse movimento do Reino Unido deveria soar como um alerta estratégico. Afinal, a expansão recente da produção de commodities agrícolas continua exercendo enorme pressão sobre dois dos principais biomas do país: a Amazônia e o Cerrado. A abertura de novas áreas para o cultivo de soja, milho, algodão e, em determinadas regiões, também de cana-de-açúcar, permanece como um dos principais vetores da conversão de vegetação nativa em áreas cultivadas com commodities agrícolas de xportação. Ainda que parte dessa expansão ocorra em áreas anteriormente ocupadas por pastagens, numerosos estudos demonstram que esse processo frequentemente desencadeia um efeito indireto de deslocamento da pecuária para novas fronteiras agrícolas, alimentando novos ciclos de desmatamento, como foi o caso da soja em Rondônia.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito ao café. Embora tradicionalmente associado a regiões consolidadas do Sudeste, a cafeicultura poderá enfrentar exigências muito mais rigorosas de rastreabilidade, sobretudo porque o próprio governo britânico já cita o café entre os produtos sujeitos às novas regras. Isso significa que produtores e exportadores brasileiros poderão ter de demonstrar, com documentação robusta e sistemas georreferenciados, que suas lavouras não resultaram da conversão recente de áreas florestais.

Entretanto, talvez o efeito menos discutido dessas novas exigências recaia justamente sobre a agricultura familiar. A implantação de sistemas de rastreabilidade, certificação e comprovação documental envolve custos financeiros, assistência técnica e acesso a tecnologias que grandes grupos do agronegócio tendem a absorver com relativa facilidade. Pequenos produtores, por outro lado, podem encontrar dificuldades muito maiores para atender a esses requisitos.

Um paradoxo me parece evidente evidente. Uma política concebida para proteger as florestas poderá, caso não seja acompanhada de políticas públicas específicas por parte do Brasil, aumentar a concentração econômica das cadeias produtivas, favorecendo empresas altamente capitalizadas e dificultando o acesso de agricultores familiares aos mercados internacionais.

Essa possibilidade exige uma resposta que vá além do discurso oficial de defesa do agronegócio.  Parece mais do que evidente que será necessário ampliar significativamente a assistência técnica pública, fortalecer sistemas nacionais de rastreabilidade, investir em regularização fundiária e ambiental e criar mecanismos que permitam aos pequenos produtores cumprir as novas exigências sem serem excluídos do mercado.

Mais importante ainda, o Brasil precisa compreender que a crescente preocupação internacional com o desmatamento não constitui uma tendência passageira nem uma simples barreira comercial disfarçada.  Esta é uma transformação estrutural na forma como os mercados globais avaliam risco ambiental, climático e reputacional.

Persistir na expansão desordenada da fronteira agrícola sobre a Amazônia e o Cerrado pode gerar ganhos de curto prazo para os latifundiários, mas tende a ampliar custos econômicos, comerciais e diplomáticos no médio e longo prazo.  Desta forma, o verdadeiro desafio consiste em aumentar a produtividade agrícola sem converter novos ecossistemas naturais — um objetivo que depende muito mais de inovação tecnológica, recuperação de áreas degradadas e planejamento territorial do que da contínua incorporação de novas terras. E de mecanismos de distribuição de crédito que não sejam formas veladas de impulsionamento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

É importante frisar que este movimento do Reino Unido apenas reforça uma tendência que já se consolidava na União Europeia: daqui em diante, preservar florestas não será apenas uma responsabilidade ambiental, mas uma condição cada vez mais indispensável para permanecer competitivo nos mercados internacionais. O problema é que, se o Brasil insistir em apostar na expansão horizontal da produção agrícola, os custos dessa escolha poderão recair não apenas sobre as florestas brasileiras, mas também sobre milhares de pequenos produtores que dificilmente conseguirão atender, sem apoio estatal, às novas exigências impostas pelo comércio global.