Leonardo DiCaprio usa “10 Years Challenge” do Instagram para denunciar avanço do desmatamento em Rondônia

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Um dos muitos modismos que apareceram nas redes sociais nos últimos tempos é o chamado “10 Years Challenge” onde celebridades e pessoas anônimas mostram fotos pessoais mostram suas mudanças fisionômicas nos últimos dez anos [1].

Pois bem, uma celebridade resolveu usar  hoje (18 de janeiro) sua página oficial na rede Instagram para mostrar duas imagens mostrando mudanças radicais não em sua aparência, mas de um estado da Amazônia brasileira. A celebridade no caso é o ator Leonardo DiCaprio e o estado é Rondônia (ver imagem abaixo).

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Di Caprio duas imagens do satélite Landsat para mostrar o avanço do desmatamento em Rondônia entre 2006 e 2018 no que ele classificou corretamente de sendo uma das regiões que mais perderam cobertura florestal na Amazônia brasileira. E ainda que alguém ache que DiCaprio errou o tamanho do estado de Rondônia, é preciso lembrar que “over” no sentido usado por ele é de “mais de”.  E a área total de Rondônia é de 237,576 km², a maioria coberta por florestas até meados da década de 1970 quando o regime militar começou a expansão da frente pioneira na Amazônia ocidental brasileira.

Esse posicionamento de Leonardo DiCaprio é mais um revés para o governo Bolsonaro e sua política de “libera geral” para o desmatamento e para a degradação dos ecossistemas naturais existentes dentro da porção brasileira da Amazônia. 

É que apenas no Instagram, DiCaprio possui cerca de 25 milhões de seguidores. Deste universo. Em função, em menos de uma hora após a realização da postagem mais de 100 mil de seus seguidores já haviam dado um “like” no momento em que visualizei a imagem que havia recebido 1.425 comentários. Em outras palavras, uma simples postagem de Leonardo DiCaprio já teve uma forte repercussão mundial.

Mas há que se lembrar que o ator estadunidense também criou uma fundação comprometida com a conservação ambiental em escala global, a Leonardo DiCaprio Foundation (LDF).  Criada em 1998, a fundação impulsionada por DiCaprio diz já ter desembolsado US$ 100 milhões para financiar mais de 200 projetos distribuídos em 50 países [2].

Quem examinar a página oficial da LDF poderá verificar que entre as suas linhas mestras de ação estão a proteção das florestas e o esforço para  minimizar os impactos das mudanças climáticas, dois tabus para o governo Bolsonaro.

Assim, ao apontar diretamente para o desmatamento em Rondônia, Leonardo DiCaprio se soma a outras personalidades mundiais (incluindo Gisele Bündchen) que decidiram não deixar barato as anunciadas mudanças para facilitar a expansão da degradação na Amazônia.  No caso de DiCaprio, ele não só é famoso, mas como tem uma ferramenta institucional para influenciar indivíduos e governos. Em suma, o posicionamento público de DiCaprio terá consequências para o Brasil e o governo antifloresta que foi instalado em Brasília no dia 01 de janeiro de 2019.

Depois de juras a Bündchen, Tereza Cristina nomeia deputador pró-caça e pró rinhas de galo para chefiar Serviço Florestal Brasileiro

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Valdir Colatto, deputado federal do MDB/SC, que defende a liberação da caça e as rinhas de galo foi nomeado para chefiar o Serviço Florestal Brasileiro.

Nem bem baixou a poeira da refrega com a top model Gisele Bündchen,  a deputada federal Tereza Cristina (DE/MS) do Ministério da Ministério da Agricultura, Pecuária e Desmatamento (oops! do Abastecimento) nomeou o deputado Valdir Colatto (MDB/SC) para chefiar o Serviço Florestal Brasil segundo informa o jornalista Maurício Tuffani do site “Direto da Ciência” [1].

Para quem não está ligando o nome à criatura, Valdir Colatto detém entre muitas “honrarias congressuais” a autoria do projeto de lei que libera a caça de animais selvagens no Brasil, inclusive no interior de áreas protegidas [2],

Em sua nota no “Direto da Ciência”, Maurício Tuffani lembra que Valdir Colatto foi ” um dos parlamentares que mais lutaram pelo adiamento dos prazos de fica  de propriedades de agropecuaristas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é administrado justamente por esse órgão (ou seja o SFB)”.

Assim, fica rapidamente demonstrado que as juras de Tereza Cristina para Gisele Bündchen em torno do combate à grilagem de terras e ao desmatamento não aguentaram 24 horas, sobressaindo a dura realidade de quais e com quem são efetivamente os interesses que ela defende e tentará  fazer valer enquanto ministra do Desmatamento”.

E como eu já venho alertando, que ninguém depois venha reclamar se as commodities agrícolas passaram a sofrer boicotes sequenciados por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros. É que diante de tantas bizarrices e afrontas, não sobrará outro caminho para tentar frear o descalabro que está sendo instalado em áreas extremamente sensíveis, a começar pelo controle do desmatamento na Amazônia.

Gisele Bündchen responde em carta ataques da ministra da Agricultura

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Quem fala o que quer, acaba lendo o que menos espera. Essa máxima vale para a ministra da Agricultura, a deputada federal pelo DEM/MS e eterna musa do veneno Tereza Cristina Dias.  É que na última segunda-feira ela  fez dos microfones da JovemPan para rotular a top model brasileira Gisele Bündchen de “má brasileira” pela defesa que ela faz do meio ambiente.

Pois bem, ainda no dia de ontem, a jornalista Giovana Girardi publicou uma matéria circulanda na íntegra uma resposta de Gisele Bündchen onde a top model afirma que maus brasileiros são aqueles que realizem grilagem de terras e o desmatamento ilegal [1].

Além disso, Gisele Bündchen publicou em sua página oficial na rede social Twitter uma outra nota onde se disse surpresa com o ataque gratuito sofrido por parte da ministra da Agricultura. Gisele Bündchen aproveitou ainda para enfatizar suas posições contra o avanço do desmatamento no Brasil  (ver figura abaixo).

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Restou à ministra da Agricultura proferir uma resposta lacônica à carta de Gisele Bündchen afirmando que “vamos construir juntas uma agenda contra o desmatamento ilegal e a grilagem”. O problema para Tereza Cristina é que se ela ao menos tentar construir tal agenda acabará perdendo o emprego no mesmo dia.  Um problema adicional para a ministra da Agricultura é que só no Twitter, Gisele Bündchen possui mais de 4,5 milhões de seguidores e seus posicionamentos invariavelmente tem impacto. Assim, Tereza Cristina só tem a si para culpar por toda a propaganda negativa que o governo Bolsonaro está recebendo por causa de mais este imbróglio. Afinal, quem mandou mexer com que estava quieta?

Abaixo a íntegra da carta enviada por Gisele Bündchen à ministra da Agricultura.

“Excelentíssima Senhora Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina 

Escrevo respeitosamente à senhora para me manifestar em relação a alguns comentários que foram feitos e que dizem respeito à minha pessoa em sua entrevista no dia 14 de janeiro ao veículo Jovem Pan. Causaram-me surpresa as referências negativas ao meu nome, pois tenho orgulho de ser brasileira e sempre representei meu país da melhor forma que pude.

Primeiramente, gostaria de dividir com a senhora um pouquinho da minha trajetória. Sou uma apaixonada pela natureza e tenho uma conexão muito forte com a terra. Nasci no interior do Brasil, onde a agricultura sempre foi fundamental para a economia e desenvolvimento de todos os municípios do entorno. Meus avós também praticavam agricultura familiar.

Valorizo e prezo muito o papel tão importante que a agricultura e os agricultores têm para o nosso país e nosso povo, mas ao mesmo tempo acredito que a produção agropecuária e a conservação ambiental precisam andar juntas, para que nosso desenvolvimento possa ser sustentável e longevo.

Desde 2006 venho apoiando projetos e me envolvendo com causas socioambientais no Brasil (através da doação de parte da renda da venda de produtos licenciados com meu nome a diversos projetos relacionados à água e florestas até o apoio e realização de projeto de reflorestamento de mata ciliar na minha cidade natal). Já visitei a Amazônia algumas vezes e conheci de perto a realidade da região norte de nosso país. Em decorrência do meu trabalho relacionado ao meio ambiente fui convidada para ser Embaixadora da Boa Vontade da ONU para o Meio Ambiente e também pelo presidente da França para participar do lançamento do Pacto Global para o Meio Ambiente na Assembleia Geral da ONU nos Estados Unidos, além de ter participado de inúmeros encontros com presidentes de empresas, universidades, cientistas, pesquisadores, agricultores e organizações do meio ambiente, onde pude trocar informações e aprender cada vez mais sobre como cuidar do nosso planeta.

Tendo ciência, através de diferentes fontes de informação, do alto grau de comprometimento e irreversibilidade que algumas ações governamentais poderiam trazer ao meio ambiente, como cidadã brasileira preocupada com os rumos da minha nação resolvi, em algumas oportunidades que entendi críticas e merecedoras de atenção, me manifestar.

A Senhora mencionou a grande quantidade de áreas protegidas no Brasil. Lamento, no entanto, ver notícias, como a do final do ano de 2018, com dados do Governo Federal divulgados amplamente na imprensa, que o desmatamento na Amazônia havia crescido mais de 13%, o que representava a pior marca em 10 anos. Um patrimônio inestimável ameaçado pelo desmatamento ilegal e a grilagem de terras públicas. Estes sim são os “maus brasileiros”.

Precisamos usar a tecnologia e todo conhecimento científico a favor da agricultura e da produtividade para que evitemos que novos desmatamentos possam ultrapassar o ponto de não retorno em que a degradação em curso do clima ameno se tornará irreversível.

Vejo a preservação da natureza não somente como um dever ambiental legal, mas também como uma forma de assegurar água, biodiversidade e condições climáticas essenciais para a produção agrícola.

Cara Ministra Teresa Cristina, seu papel como ministra da Agricultura – em um país onde clima, agricultura e floresta têm papel chave para nossa economia – é fundamental. Sei do desafio que tem pela frente e torço para que em seu mandato possam ser celebradas ações concretas que resultem em um Brasil mais sustentável, justo e próspero.

Ficarei muito feliz em poder divulgar ações positivas que forem tomadas neste sentido.

Com respeito,

Gisele Bündchen

Ricardo Salles mira nas ONGs para acertar no meio ambiente

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Na última 2a. feira (14/01) o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, emitiu um documento determinando a suspensão da execução por 90 dias de todos os convênios e parcerias com organizações não-governamentais (ONGs) que desenvolviam projetos finaniados pelo governo federal (ver documento abaixo).

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Esta ação de Ricardo Salles tem como objetivo aparente a saúde financeira de ONGs, vistas pelo presidente Jair Bolsonaro como impecilhos à sua visão de governo. É que muitas dessas organizações sobrevivem da prestação de serviços ao governo federal, e agora ficarão sob forte estresse financeiro para continuar suas atividades.

Mas espremer financeiramente as ONGs não é realmente o alvo desse “tiro” de Ricardo Salles. É que boa parte das atividades de conservação dos ecossistemas brasileiras, especialmente os localizados na região Amazônica, dependem dos serviços prestados pelas ONGs, muitas das quais possuem “expertises” que foram há muito tempo voluntariamente terceirizadas pelo Estado. Segundo informal o jornal “Estado de São Paulo”, apenas com o congelamento dos  recursos oriundos do Fundo Clima e do Fundo Amazônia  um total de 52 projetos serão descontinuados, o que representa um risco muito grande em pelo duas grandes áreas de atuação do MMA [1].

Assim, ao suspender a execução de todos os projetos e parcerias mantidos pelo MMA, Ricardo Salles deve saber que estará descontinuando importantes ações que têm contribuído para estabelecer formas mais sustentáveis de uso dos recursos naturais brasileiros. E, pior, ao descontinuar projetos de conservação e proteção dos ecossistemas naturais, Salles está possibilitando que os setores que se opõe a um uso mais racional dos biomas brasileiros possam agir com ainda mais liberdade, o que torna o futuro imediato de várias áreas ecologicamente sensíveis bastante nebuloso.

Um aspecto que merece ser ressaltado é que este ataque às ONGs deverá causar grandes dificuldades na relação do Brasil com países como Alemanha e Noruega que são responsáveis por 98% do aporte de recursos do chamado “Fundo Amazônia” que chega a um total de US$ 1,2 bilhão [2]. É que umas condicionantes para que haja esse aporte vem a ser exatamente a diminuição do desmatamento na Amazônia. Como a suspensão dos projetos que estavam sendo executados por ONG deve ter o aumento do desmatamento como uma das repercussões mais óbvias, é muito provável que brevemente o Brasil perca boa parte dos recursos alemães e noruegueses.

Mas que ninguém se engane,  Este “tiro” de Ricardo Salles não será nem o primeiro nem  o último que virá por parte de um governo claramente antifloresta e anticonservação ambiental. E essa aparente marcha da insensatez só cessará quando começar o boicote às commodities produzidas em áreas recentemente desmatadas. Quando isso acontecer não vai adiantar a ministra Tereza Cristina convocar Gisele Bündchen para ser uma “embaixadora do agronegócio”. É que nem Gisele vai poder nos salvar. Simples assim!

Ricardo Salles viverá muitas agruras se insistir em negar o óbvio

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que foi condenado por fraudar o processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, quando foi secretário estadual de SP.  Foto: Giovana Girardi/Estadão

O dublê de advogado e “agroboy” Ricardo Salles que agora virou ministro do Meio Ambiente vai aprender rapidamente que suas declarações serão constantemente checadas seja no Brasil ou no exterior. É que ser ministro do Meio Ambiente do país que contém a maior área contínua de florestas tropicais do planeta coloca o que ele disser sob uma lupa muito maior do que quando era secretário estadual de Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

Salles usou seus primeiros dias no cargo para desqualificar a qualidade dos dados do desmatamento e secundarizar a questão das mudanças climáticas. Um exemplo disso foi uma entrevista que ele concedeu à Rádio Eldorado de São Paulo no dia de ontem (11/01) onde reafirmou em linhas gerais as mesmas declarações estapafúrdias em torno dessas duas questões centrais.

Cerca de 24 horas após essa entrevista ser veiculada, a competente jornalista, especializada em questões ambientais, Giovana Girardi produziu uma espécie de checagem acerca das declarações de Ricardo Salles acerca dos percentuais de desmatamento na Amazônia e o papel que o Brasil deverá cumprir no combate às questões resultantes das mudanças climáticas.

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O resultado dessa checagem deixa Ricardo Salles na condição de mais um ministro despido em via pública, como já está ocorrendo com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Henrique Fraga.  Um dos desmontes mais vexaminosos das declarações de Salles se refere ao montante de desmatamento “ilegal em unidades de conservação que são desmentidas por dados oficiais.

Em outras palavras, Ricardo Salles ou não se preocupou em fazer a tal lição de casa que ele apregoa ser necessário e não leu os dados oficiais ou simplesmente decidiu brincar com a verdade e foi pego no contrapé na checagem feita por Giovana Girardi.

Quem desejar acesso a íntegra da reportagem de Giovana Girardi, basta clicar [Aqui]

“The Washington Post” convoca boicote a produtos originados de desmatamento na Amazônia

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Desde meados do ano passado venho apontando neste blog para a possibilidade concreta de que o Brasil seria transformado num pária ambiental planetário, caso se confirmasse o retrocesso na legislação ambiental criada para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

Confirmada a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais e iniciado o seu governo foram confirmados os piores temores, já que os primeiros dias de janeiro foram marcados por um profundo ataque ao sistema ambiental brasileiro e aos direitos dos povos indígenas.

Enquanto no Brasil se perde tempo para discutir as afirmações estapafúrdias da ministra Damares sobre quais cores deveriam ser usadas por meninas e meninos, o influente jornal estadunidense “The Washington Post” não perdeu tempo e já sinalizou em um editorial publicado no dia de ontem (04/01) a necessidade de que produtos oriundos do desmatamento da Amazônia sejam o alvo de um boicote internacional (ver tradução do texto completo abaixo).

Em minha modesta opinião, a convocação que foi feita pelo Comitê Editorial do “The Washington Post” é uma sinalização clara de que já está em curso um processo para organizar esse boicote, não apenas nos EUA, mas em outros importantes mercados para as commodities agrícolas e minerais produzidas pelo Brasil.

E de nada adiantará o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, realizar um dos seus discursos anti-globalistas para resolver o problema. Aliás, se ele insistir em manter a postura que vem mantendo desde que foi anunciado que ele ocuparia o cargo mais alto da estrutura diplomática brasileira, o mais provável é que o boicote proposto pelo “The Washington Post” aconteça mais cedo do que tarde.

 

Será que Jair Bolsonaro rasgará as proteções ambientais e colocará em risco a Amazônia?

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A floresta amazônica virgem envolvendo trechos de áreas desmatadas preparadas para o plantio de soja no estado de Mato Grosso, no Brasil, em 2008. (Paulo Whitaker / Reuters)

Pelo Comitê Editorial do “The Washington Post”

O PRESIDENTE TRUMP foi, sem dúvida, o mais eficaz em destruir importantes proteções ambientais. Será que acontecerá o mesmo com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? O mundo deveria esperar que não.

O Brasil é a maior floresta ininterrupta do mundo. Funcionando como os pulmões da Terra, a Amazônia absorve dióxido de carbono – e mais de 2 bilhões de toneladas deste gás promotor do efeito estufa por ano – e expele oxigênio. Grandes quantidades de dióxido de carbono que se aquecem no planeta são armazenadas nas árvores e outras espécies da região. O desflorestamento, entretanto, libera cada vez mais desse dióxido de carbono preso no ar, mesmo como é. Em todo o mundo, o desmatamento é responsável por 15% das emissões anuais de aquecimento do planeta. Se a floresta amazônica encolher, a luta contra as mudanças climática ficará muito mais difícil. Com  desmatamento no atacado, o trabalho ficaria quase impossível.

Nos últimos anos o Brasil pareceu reconhecer sua responsabilidade especial em cuidar deste recurso planetário insubstituível. Apesar de cerca 4.800 km2 de florestas tropicais perdidas no passado, a taxa de desmatamento do país caiu drasticamente na última década.  O Brasil adotou um código florestal proibindo que proprietários de terras da Amazônia de desmatar mais de 20 por cento de suas terras. As áreas reservadas para os povos indígenas serviram como refúgios cruciais do processo de desenvolvimento.  Reconhecendo a crise climática, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 43% até 2030, em sua adesão ao Acordo climático de Paris.

Entra Bolsonaro, às vezes chamado de Donald Trump do Brasil. O novo presidente propôs a construção de uma estrada através da floresta amazônica, expressou hostilidade para organizações ambientais internacionais, disse que as comunidades indígenas devem “adaptar ou simplesmente desaparecer”, chamou suas reservas catapora na paisagem e prometeu fundir o Ministério do Meio Ambiente, que abriga as autoridades que supervisionam as proteções da Amazônia, com o Ministério da Agricultura pró-agricultura. Imediatamente após assumir a presidência, ele transferiu a autoridade sobre as reservas indígenas para o Ministério da Agricultura e ordenou novo monitoramento das organizações não-governamentais internacionais. A partir daqui, os agentes ambientais já sobrecarregados poderão ver seus recursos e o apoio diminuir ainda mais.

O senhor Bolsonaro não tem liberdade plena. Ele não pode alterar o código florestal, eliminar as proteções aos povos indígenas ou retirar-se do Acordo de Paris sem a cooperação do congresso brasileiro, no qual seu partido não tem maioria. Enquanto isso, o resto do mundo pode ter algum impacto também. Consumidores, empresas e governos ocidentais devem evitar comprar produtos provenientes de áreas desmatadas e pressionar os parceiros comerciais brasileiros a fazerem mesmo.


O editorial acima foi publicado originalmente em inglês [Aqui!]

Florestas, quilombolas e índios, os primeiros alvos dos retrocessos de Jair Bolsonaro

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Apesar da cortina de fumaça que foi levantada com o tratamento indigno dado a apoiadores e jornalistas que estiveram na posse do presidente Jair Bolsonaro, já sabemos que os ecossistemas florestais, quilombolas e índios são as primeiras vítimas dos retrocessos planejados nos bastidores dos novos dirigentes que assumiram o poder no dia de ontem.

Isto fica evidente nas notícias de que o Ministério da Agricultura, comandado pela rainha dos venenos, Tereza Cristina (DEM/MS) ficará à cargo  das demarcações de terras de quilombolas e comunidades indígenas e, de quebra, com o Serviço Florestal Brasileiro [1 2]. Esses encargos se encontravam antes quase que totalmente sob o guarda-chuva dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente.

As consequências mais prováveis dessa concentração de “galinhas dentro de um ninho de raposas” será o aumento dos ataques à quilombolas e povos originários (alvos claros do desgosto pessoal de Jair Bolsonaro) e a liberalização ainda maior do processo de degradação dos biomas do Cerrado e da Amazônia para onde se movem com avidez os interesses do latifúndio agro-exportador e das grandes mineradoras.

Mas, convenhamos, nada disso é inesperado. A questão é que graças à sua forma de ganhar a eleição presidencial, Jair Bolsonaro não precisou nem explicar como faria o que fará.  De fato, Bolsonaro recebeu um cheque em branco de seus eleitores (muitos deles fazendo isso de forma consentida e alegre), o qual ele passa agora a sacar de forma frugal (tal qual o seu ex assessor Fabrício Queiróz costumava fazer nos dias que se sucediam ao depósito dos salários dos assessores do ex deputado estadual e agora senador Flávio Bolsonaro).

Como da oposição institucional pouco se pode esperar em termos de reação concreta ao início dos retrocessos idealizados pelo governo Bolsonaro, cumprirá aos atingidos organizarem o processo de reação.  O Brasil, com isso, deverá entrar em uma nova e forte espiral de violência, mas também de reorganização dos movimentos sociais.  É que diante do tamanho dos ataques que estão se iniciando, os principais interessados em conter o retrocesso não terão outro caminho a não ser o da reação.

E não esqueçamos de que fora do Brasil, o crédito do governo Bolsonaro já é quase nenhum, vide o baixíssimo comparecimento de dirigentes estrangeiros à sua posse.  Com o início dos retrocessos começando por quilombolas, indígenas e ecossistemas florestais, imaginem o que deverá se seguir. Eu me arrisco a dizer que o Brasil passará em breve à condição de pária ambiental sobre o qual barreiras sanitárias e políticas deverão ser impostas como forma de punição por esses retrocessos. Assim, o agro-negócio que ri agora, deverá chorar. A ver!


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/bolsonaro-retira-da-funai-a-demarcacao-de-terras-indigenas.shtml

[2] http://www.diretodaciencia.com/2019/01/02/bolsonaro-transfere-servico-florestal-do-meio-ambiente-para-agricultura/