Amazônia perdeu 9,7% de sua vegetação natural em 37 anos

Os dados mais recentes do MapBiomas Amazônia reforçam a necessidade de uma ação internacional integrada para reverter a atual tendência de destruição que, se persistir, levará o bioma além de seu ponto sem retorno até o final desta década

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Em 1985, apenas 6% (cerca de 50 milhões de hectares) da Amazônia haviam sido transformados em áreas antrópicas, como pastagens, lavouras, garimpos ou áreas urbanas. Em 2021, essa área quase triplicou, chegando a 15% (quase 125 milhões de hectares) de toda a região. Foi uma perda líquida de quase 10% de sua vegetação natural em apenas 37 anos. A magnitude da destruição varia de um país para outro: no Suriname, na Guiana e na Guiana Francesa é de apenas 1,6%, mas no Brasil chega a 19%. Esse percentual está muito próximo do ponto de inflexão ou ponto sem retorno, calculado pelos cientistas na faixa entre 20% e 25% de perda da cobertura vegetal. Se a tendência atual verificada pelo MapBiomas Amazônia continuar, o bioma, que é um sumidouro de carbono de importância planetária, chegará a um ponto sem volta, afetando irreversivelmente seus serviços ecossistêmicos, e poderá se tornar uma savana.

As geleiras dos Andes amazônicos, que fornecem água para milhões de pessoas e alimentam as nascentes dos grandes rios da região, perderam 46% de seu gelo no período analisado. A atividade minerária expandiu-se 1107% (mais de 1.000 por cento, passando de 47 mil hectares em 1985 para mais de 570 mil hectares em 2021).

Como foi feita a medição em uma região tão heterogênea?

Os dados são resultado da Coleção MapBiomas Amazônia 4.0, iniciativa resultante da colaboração entre a RAISG (Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas) e a Rede MapBiomas. A iniciativa mapeia com resolução de 30 metros a dinâmica, há mais de três décadas, de 18 classes diferentes de cobertura e uso do solo, como florestas, savanas, manguezais, áreas agrícolas, áreas urbanas, mineração e geleiras, dentro dos 8,4 milhões de km2 da região amazônica, que inclui a Cordilheira dos Andes, a planície amazônica e as transições com o Cerrado e o Pantanal.

Os resultados serão apresentados no dia 2 de dezembro no auditório da Embaixada do Brasil em Lima, com transmissão ao vivo pelo canal da RAISG no Youtube, às 9h. Peru, Equador e Colômbia; 10:00 Bolívia e Venezuela; 11:00 Brasil.

Transformação acelerada das florestas amazônicas

Os resultados das análises preliminares revelam uma transformação acelerada das florestas amazônicas. Segundo os autores, as perdas têm sido enormes, praticamente irreversíveis e sem perspectiva de reversão dessa tendência. Os dados acendem a luz amarela e dão um sentido de urgência à necessidade de uma ação internacional integrada, decisiva e contundente.

“A Coleção MapBiomas Amazônia 4.0 é inestimável para o entendimento da dinâmica de uso dos recursos naturais da região, além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo das emissões e remoções de gases de efeito estufa devido às mudanças no uso do solo na região.” , disse Tasso Azevedo, Coordenador Geral do MapBiomas. Beto Ricardo, coordenador geral da RAISG, acrescenta que as informações geradas pelo MapBiomas Amazônia fortalecem a Rede com dados técnico-científicos, mensagens-chave sobre a importância da Amazônia, sua grande contribuição para o mundo na regulação do clima e armazenamento de carbono, ao tempo que alerta sobre as mudanças na cobertura natural causadas por diferentes atividades antrópicas realizadas entre 1985 e 2021. Ricardo destaca que essas atividades colocam em risco o equilíbrio natural dos ecossistemas e, com ele, a estabilidade do clima do planeta. “Publicar a Coleção 4.0 do MapBiomas Amazônia nos permite contribuir com o monitoramento da região com uma visão integral, ajudando-nos a construir e propor estratégias de conservação mais precisas com propostas e informações políticas compartilhadas entre outros países, bem como aspectos socioambientais da grande importância”.

Para María Olga Borja, coordenadora técnica do Equador, esses mapas representam uma grande contribuição para a região e para seu país: “O Equador não tem uma análise temporal tão detalhada. A periodicidade anual destes dados permite-nos medir o pulso das alterações que os ecossistemas estão sofrendo, algumas causadas diretamente pelas atividades humanas, como a conversão das florestas para a agricultura, mas outras que já apresentam sinais evidentes e mensuráveis ​​das alterações climáticas, como a redução de geleiras e a expansão de lagos devido ao degelo, entre outros”.

Os autores destacam o contraste entre a dinâmica acelerada de mudança do uso da terra ocorrida na Amazônia no período estudado, e particularmente nos últimos trinta anos, com a lentidão que caracteriza o ritmo das negociações climáticas, que nas quase três décadas desde a primeira cúpula do clima fizeram progressos modestos.

Para Harlem Mariño, coordenador de um projeto sobre mudanças climáticas liderado pela RAISG, a falta de acordos definitivos na COP27 sobre questões-chave para a mitigação das mudanças climáticas, como o abandono progressivo do uso de todos os combustíveis fósseis, terá repercussões na Amazônia: “Isso significa que as emissões de gases de efeito estufa provenientes do uso de combustíveis fósseis continuam pressionando os sumidouros de carbono, como a floresta amazônica. Além disso, essa falta de acordos pode implicar na continuidade do fomento às atividades de exploração de combustíveis fósseis na Amazônia, com a consequente redução da disponibilidade de sumidouros de carbono e o aumento das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da mudança de uso da terra e a consequente queima desses combustíveis fósseis”, observa Mariño.

Sobre a Plataforma MapBiomas Amazônia 

A plataforma MapBiomas Amazônia é uma ferramenta que permite a qualquer pessoa com acesso à Internet entender as mudanças no uso da terra em toda a Amazônia e as pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais. A informação gerada é compatível para todos os países da região e permite conhecer a situação de 18 categorias de análise, denominadas “classes”, que incluem áreas cobertas por florestas, campos naturais, manguezais, agricultura e rios. As informações são gratuitas e estão disponíveis para download.

Ela permite explorar a mais recente coleção de mapas anuais, abrangendo o período entre 1985 e 2021, e identificar mudanças na cobertura e uso da terra em um local (regional, nacional e local) e um período (ano, quinquênio, décadas, etc.) determinado. A ferramenta também apresenta estatísticas em tabelas e gráficos dinâmicos, com as mudanças de uso no período que o usuário requer e permite entender a dinâmica das mudanças dentro e fora de um Território Indígena ou Área Protegida. A plataforma permite ainda explorar dados relacionados a vetores de pressão em coberturas naturais como concessões de mineração, lotes de petróleo, estradas e usinas hidrelétricas.

Sobre o MapBiomas Amazônia

MapBiomas Amazônia é uma iniciativa liderada pela RAISG com o apoio da Rede MapBiomas. A Primeira Coleção (2000 — 2017) foi publicada em 2019; 2020 trouxe a Segunda Coleção (1985 — 2018); em setembro de 2021 foi o lançamento da Terceira Coleção (1985 — 2020). A Quarta Coleção abrange o período de 1985 a 2021.

Inicialmente, a ferramenta de mapdeseamento de uso da terra foi desenvolvida pelo MapBiomas para ser aplicada no Brasil e foi necessário aprimorá-la com a contribuição de organizações associadas à RAISG para adequar os resultados e análises à geografia de cada país. Desta forma, o conhecimento existente a nível local permite melhorar a ferramenta e refinar a interpretação dos dados. O método utilizado nos permitiu padronizar os biomas incluídos na análise, de modo que os nove países amazônicos compartilham o Bioma Amazônia, enquanto Peru, Equador e Bolívia também compartilham o Bioma Andino.

MapBiomas Amazônia leva em consideração as variações altitudinais típicas da Amazônia andina, que vão desde as geleiras andinas até as formações florestais das planícies amazônicas.

Sobre a Raisg

A RAISG é a Rede de Informação Socioambiental Georreferenciada da Amazônia, um consórcio de organizações da sociedade civil de países amazônicos voltado para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais sobre a Amazônia, elaboradas com protocolos comunitários para todos os países da região; facilita a visualização da Amazônia como um todo, bem como das ameaças e pressões que pesam sobre ela. A RAISG é resultado da cooperação de oito organizações da sociedade civil que atuam em seis países amazônicos: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas surgiu no Brasil como uma iniciativa multiinstitucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se unem para contribuir com o entendimento das transformações do território brasileiro a partir do mapa anual de cobertura e uso da terra no Brasil. Atualmente, esta rede reúne mais de 70 instituições da América Latina e Indonésia em 7 iniciativas e 14 países comprometidos com a geração de dados, métodos, ferramentas e informações que orientem a conservação e a tomada de decisões em torno dos recursos naturais. Em agosto de 2021, o MapBiomas publicou a Coleção 7 de mapas de cobertura e uso da terra de solo do Brasil de 1985 a 2021. As ferramentas desenvolvidas pela rede MapBiomas para todas as suas iniciativas apresentam informações geradas com resolução espacial de no mínimo 30 metros. Os dados são processados ​​usando algoritmos de classificação automática por meio das informações da nuvem do Google Earth Engine. Clique aqui para acessar o site do MapBiomas.

Estudo mostra que JBS, Marfrig e Minerva dificilmente terão como cumprir a futura lei de desmatamento da União Europeia

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Por Chain Reaction Research

O próximo Regulamento de Desmatamento da UE terá um impacto na JBS, Minerva e Marfrig. Uma amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos desses principais frigoríficos mostra o desmatamento recente que pode acabar nos mercados de consumo de carne bovina e couro da União Européia (UE). Qualquer desmatamento após a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020 não estaria em conformidade com a futura lei.

Baixe o PDF aqui: JBS, Marfrig e Minerva Improvavelmente em conformidade com a futura lei de desmatamento da UE

Principais conclusões

  • Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE assim que for aprovado e implementado. Esses frigoríficos dominam a pecuária brasileira e são os principais exportadores de carne bovina congelada e produtos de couro para a UE. Para exportar para a UE, suas cadeias diretas e indiretas de fornecimento de gado não podem ser associadas ao desmatamento legal ou ilegal, após a data-limite de dezembro de 2020.
  • Uma amostra de seus fornecedores fornece informações sobre os hotspots de produção de carne bovina brasileira ligados ao mercado da UE. A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados. Para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no estado do Pará, com alto risco de desmatamento, é quase o dobro em comparação com a base de fornecedores diretos.
  • O CRR encontrou conversão de 72.663 hectares (ha) na amostra desde a data limite. Potencialmente, 65.969 ha da Amazônia e 6.694 ha de alertas de desmatamento do Cerrado vinculados aos fornecedores dos três frigoríficos podem não estar em conformidade com a futura lei da UE.
  • O desmatamento ligado a fornecedores indiretos é altamente prevalente. Os fornecedores indiretos são um risco, pois o monitoramento dos frigoríficos de suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos, e é improvável que estejam prontos para a esperada implementação da lei da UE a partir de 2023.
  • Uma vez que os frigoríficos não monitoram todo o fornecimento indireto, eles não podem garantir o cumprimento da futura lei de desmatamento da UE. Assim, frigoríficos, operadores de couro e FMCGs podem enfrentar riscos legais e reputacionais. Os frigoríficos JBS e Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei também considerará o desmatamento legal brasileiro como não conforme. A Marfrig se comprometeu com o desmatamento zero, inclusive legal.
  • As despesas de devida diligência nas cadeias de carne bovina e couro da UE são relativamente baixas no contexto de riscos financeiros mitigados para os setores relevantes.Em contraste, os financiadores da JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar os maiores riscos de valor (9,5-19%).

Regulamento de desmatamento da UE afetará importações de gado do Brasil

UE importa principalmente carne bovina congelada e produtos de couro do Brasil

Entre os países não pertencentes à UE, o Brasil, um país com alto risco de desmatamento, é o principal fornecedor de carne bovina congelada, couros e peles bovinas curtidas ou crostadas e couro bovino preparado para a UE

As importações de carne bovina e produtos relacionados à carne de origem não pertencente à UE representam apenas uma pequena parcela do consumo europeu. Mas entre eles, o Brasil desempenha um papel principal como fornecedor de carne bovina congelada e ainda mais de produtos de couro bovino para a UE (Figura 1). Tanto a produção de carne quanto a de couro são os principais motores do desmatamento no Brasil. A pecuária está causando o maior desmatamento na Amazônia brasileira, uma área que registrou um novo recorde de perda de floresta durante o primeiro semestre de 2022. Em 2021, a UE adquiriu52 por cento (37.147 toneladas métricas, MT) de suas importações totais de carne bovina congelada do Brasil, bem como 28 por cento (87.344 MT) de suas importações totais de couros e peles curtidos (wet blue) ou crust, e 30 por cento (12.029 MT ) das suas importações totais de couro preparado.

Figura 1: Importações totais da UE em 2021 de produtos pecuários de países não pertencentes à UE, por volume e valor, em verde, predominantemente originários do Brasil

Fonte: estatísticas comerciais da UE27 , 2021, avaliadas em outubro de 2022; Projeto de proposta da Comissão Europeia Notas: Esses produtos representam produtos relacionados ao gado sob o escopo do Regulamento de Desmatamento da UE. Os produtos destacados em verde são predominantemente originários do Brasil. Miudezas comestíveis de bovinos incluem os códigos do Sistema Harmonizado (SH) 020610, 020629 e 020622.

JBS, Marfrig e Minerva são as mais impactadas pela Lei de Desmatamento da UE

Três principais frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, são os principais exportadores para a UE e dominam a indústria brasileira de gado e a produção de carne bovina e produtos de couro bovino

A JBS é a maior empresa de proteína animal e a segunda maior empresa de alimentos do mundo. A Marfrig é a segunda maior empresa de carne bovina do mundo em capacidade de produção, enquanto a Minerva é uma empresa de carne bovina voltada para a exportação. JBS, Minerva e Marfrig são os maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (Figura 2) e estão entre os maiores curtumes brasileiros que fornecem couros e peles curtidas (wet blue) ou crust para o mercado da UE (Figura 3). Para couro preparado, apenas a JBS desempenha um papel direto como principal exportador para a UE (Figura 4). Além disso, matadouros de outros frigoríficos fornecem indiretamente couros e peles para produtores de couro que exportam couro preparado para a UE. Por exemplo, os curtumes dos produtores de couro Durlicouros e Viposa provavelmente obtêm matérias-primas dos matadouros próximos da Marfrig.

Com 63,7% de todas as importações de carne bovina congelada da UE em 2020, a Itália representa o maior destinatário da carne bovina congelada brasileira, seguida pela Holanda (22,1%), Espanha (8,6%) e Alemanha (4,6%). O principal destino europeu de couros e peles bovinas curtidas (wet blue) ou crust do Brasil em 2020 é a Itália (97,7%), que possui uma grande indústria de processamento de couro. Os principais países de destino da Europa para couro bovino do Brasil mais preparado em 2020 incluem Itália (45,7%), Alemanha (29,9%), Holanda (9,1%) e Hungria (8,4%).

Figura 2: Os 10 maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 0202. A Prima Foods inclui exportações sob Mataboi.

Figura 3: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couros e peles bovinas curtidas ou crust para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4104.

Figura 4: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couro bovino preparado para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4107.

Os três frigoríficos precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE, que visa conter o desmatamento legal e ilegal e a degradação florestal resultante do consumo e produção da UE

A proposta de regulamento da Comissão Europeia define “sem desmatamento” como commodities e produtos relevantes que foram produzidos em terras que não foram sujeitas a desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 e madeira que foi colhida de florestas sem induzir “degradação florestal” após dezembro 31 de janeiro de 2020. Essa data limite ainda está em discussão . Os produtos de carne bovina e de couro se enquadram no escopo do Regulamento. Um dos pontos centrais do Regulamento é a rastreabilidade total da cadeia de suprimentos das commodities e produtos listados com risco de desmatamento, exigindo que os operadores de carne bovina e couro forneçam informações geográficas ligando commodities e produtos ao local exato de produção. Um relatório recente do CRR concluiu que, embora alguns desafios permaneçam, o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE é viável nas cadeias de abastecimento de gado brasileiras usando sistemas e ferramentas existentes.

Hotspots de produção de carne bovina dos frigoríficos

Novos dados sobre fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos fornecem informações sobre as localizações exatas dos hotspots de produção de carne bovina no Brasil, conforme visualizado na Figura 5

Isso é relevante sob o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE. Para compor a amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos dos três frigoríficos, a CRR utilizou uma metodologia semelhante, com alguns ajustes, conforme utilizamos em nosso paper de 2020 sobre os três frigoríficos . As principais mudanças incluem 1) aumentar significativamente a amostra usando novas técnicas de análise e 2) usar alertas de desmatamento ( DETER ), incluindo desmatamento por incêndio, nesta análise, em oposição aos dados de desmatamento processados ​​anualmente ( Prodes), geralmente resultando em áreas maiores detectadas com desmatamento . Consequentemente, os dados de desmatamento do relatório de dezembro de 2020 e da análise atual não são comparáveis, pois a amostra é diferente e as taxas de desmatamento são calculadas de forma diferente.

Figura 5: Localização dos fornecedores diretos (esquerda) e indiretos (direita) para JBS, Minerva e Marfrig

Fonte: AidEnvironment, mapas de calor são criados com QGIS , e com base em dados do Ministério da Agricultura e licenças de transporte de animais (GTA). Quanto mais vivas as cores, maior a concentração de fornecedores diretos e indiretos na amostra.

Com base no transporte de animais e dados cadastrais rurais, o CRR localizou e monitorou 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos conectados aos três principais frigoríficos em sete estados dos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil

Esses números representam uma amostra parcial do total de fornecedores para JBS, Minerva e Marfrig. Por exemplo, a amostra com 6.556 fornecedores diretos para os frigoríficos da JBS (Figura 6) cobre apenas 13% da base de fornecimento total estimada da empresa de 50.000 fornecedores diretos. Minerva diz ter mais de 6.000 fornecedores no Brasil; a amostra de 2.820 cobriria 47% de seus fornecedores diretos. Em 2020, a Marfrig diz ter 15.000 fornecedores diretos cadastrados no Bioma Amazônia e estima ter potencialmente 25.000 fornecedores indiretos no total somente no bioma amazônico. A amostra de 3.085 fornecedores diretos e 7.132 fornecedores indiretos cobriria, respectivamente, 21 e 29 por cento. Nenhum dos três frigoríficos divulga informações claras sobre os valores totais de seus fornecedores diretos e indiretos. Uma razão para não publicar as informações pode ser que esses números não sejam conhecidos por eles.

Figura 6: Características da amostra: zonas de compra da JBS, Marfrig e Minerva por estado brasileiro

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA). MT = Mato Grosso; MG = Minas Gerais; RO = Rondônia; MS = Mato Grosso do Sul; GO = Goiás; PA = Pará; TO = Tocantins. *Para Rondônia, os números podem representar uma pequena superestimação devido a algumas limitações de dados. Para mais explicações, os autores do CRR podem ser contatados.

A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados

A maioria dos fornecedores diretos da JBS está no Mato Grosso (46% do total da amostra), mas, no geral, a empresa possui fornecedores diretos espalhados pelos sete estados brasileiros (Figuras 5 e 6). Em contraste, Minerva e Marfrig parecem ter suas zonas de compra mais concentradas em alguns estados. A Marfrig tem relativamente poucos (ou nenhum) fornecedores diretos no Pará, Minas Gerais e Tocantins na amostra, enquanto o Minerva tem uma base de fornecedores diretos nesses estados. Em comparação com Minerva e JBS, o frigorífico Marfrig tem uma base maior de fornecedores diretos no Mato Grosso do Sul (figuras 5 e 6).

Os riscos de desmatamento ligados à base de abastecimento indireto dos frigoríficos são mais relevantes no Pará, um estado da Amazônia brasileira

A amostra revela que, para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no Pará é, na maioria dos casos, mais que o dobro de sua base de fornecedores diretos (Figura 6). A maior base de fornecedores indiretos é um risco, uma vez que o monitoramento dos frigoríficos em suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos significativos. Da mesma forma, em Rondônia, as bases de fornecedores indiretos da Marfrig e da Minerva são pelo menos o dobro de seus fornecedores diretos. Por outro lado, todos os três frigoríficos têm relativamente poucos fornecedores indiretos localizados em Minas Gerais (Figuras 5 e 6). Uma possível explicação é que Minas Gerais opera principalmente na etapa final da cadeia (abate) e não na fase de engorda, caracterizada pelo envolvimento de muitas propriedades fornecedoras indiretas. Essa explicação é corroborada pela concentração dos frigoríficos dos três frigoríficos no triângulo Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul (Figura 5).

A amostra também revela focos de produção e domínio dos frigoríficos nos municípios brasileiros

Esses municípios podem se tornar uma prioridade para demonstrar conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE. A amostra mostra, por exemplo, que todos os três frigoríficos adquirem carne bovina de um número significativo de fazendas em Cáceres, no Mato Grosso (Figura 7). Enquanto parte desse município já está desenvolvido, a parte sudeste ainda é coberta por vegetação nativa e, portanto, sob risco de desmatamento. Além disso, Parnaíba no Mato Grosso do Sul abriga a maioria das fazendas fornecedoras da Marfrig na amostra, enquanto Minerva, além de Cáceres, concentra principalmente as fontes de Rio Branco no Mato Grosso e Araguaína no Tocantins. Por fim, a Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, acomoda um grande número de fornecedores diretos para os três frigoríficos.

Figura 7 : Top 10 municípios da amostra com mais fornecedores diretos para JBS, Marfrig e Minerva

Fonte: AidEnvironment, com base em dados cadastrais rurais (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA), e com base na amostra. Observação: a tabela “Municípios com fazendas fornecedoras para vários frigoríficos” é baseada nos 20 principais municípios fornecedores de cada frigorífico.

Enquanto quase 80 por cento dos fornecedores diretos na amostra fornecem apenas um dos três frigoríficos, os fornecedores indiretos tendem a fornecer mais regularmente todos os três frigoríficos de uma vez (Figura 8 abaixo)

Dos 12.461 fornecedores diretos da amostra, 79% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 19% forneciam para dois frigoríficos e apenas 2% para os três frigoríficos. Dos fornecedores indiretos da amostra, 37% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 53% forneciam para dois frigoríficos e 10% para os três frigoríficos.

Figura 8 : Localização dos fornecedores diretos e indiretos que atendem aos três frigoríficos

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA).

Conversão significativa desde 2020, data-limite do Regulamento de Desmatamento da UE

Potencialmente 65.969 ha de Amazônia e 6.694 ha de Cerrado são de desmatamento não conforme

Considerando a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020, a análise do CRR revela que potencialmente 65.969 ha de desmatamento da Amazônia e alertas de incêndio vinculados a fornecedores dos três frigoríficos da amostra podem não estar em conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE

A perda de vegetação amazônica está conectada a fornecedores diretos e indiretos de todos os três frigoríficos desde a data proposta de corte do Regulamento de Desmatamento da UE (31 de dezembro de 2020) (Figura 9). O desmatamento detectado corrobora outros estudos que mostram que o desmatamento na Amazônia está aumentando e que o desmatamento relacionado à carne bovina continua vindo de áreas protegidas na Amazônia.

A área de desmatamento identificada abrange o desmatamento legal e ilegal de acordo com a legislação brasileira, ambos os quais não estarão em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE

O desmatamento que é legal sob a lei brasileira se tornará incompatível com o Regulamento de Desmatamento da UE. A área desmatada de 65.969 ha pode ser uma superestimativa, pois se baseia em dados ainda não confirmados ( DETER) alertas de desmatamento. Por outro lado, a área de desmatamento estimada é conservadora, pois a amostra da CRR cobre apenas uma pequena proporção de todos os fornecedores diretos e indiretos ligados aos três frigoríficos. Ao considerar toda a base de abastecimento dos três principais frigoríficos, a CRR estima que as taxas de desmatamento ligadas aos fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva aumentarão. Essa estimativa não denuncia práticas ilegais dos três frigoríficos, uma vez que parte do desmatamento, principalmente no bioma Cerrado, seria legal no âmbito do Código Florestal Brasileiro.

Figura 9: Alertas de desmatamento (ha) em amostra vinculada a fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva de 31 de dezembro de 2020 a julho de 2022

Fonte: AidEnvironment, com base nos alertas de desmatamento do DETER 2022; SIGEF, SNCI, registros 2022 GTA. Nota: Os alertas de desmatamento do DETER 2022 ainda não estão confirmados, portanto, as taxas de desmatamento atreladas a esta amostra podem estar superestimadas. *Nem toda a vegetação nativa do Cerrado (por exemplo, pastagens) está sob o escopo da proposta de Regulamento de Desmatamento da UE.

A amostra demonstra que os fornecedores da Amazônia para os três frigoríficos são responsáveis ​​por mais desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 do que os fornecedores do Cerrado

Existem múltiplas explicações para o aumento do desmatamento na Amazônia. Primeiro, observado as taxas de desmatamento no bioma Amazônia aumentaram desde 2019, como resultado de um novo mandato de governança brasileira e ações não favoráveis ​​para combater o desmatamento ou melhorar a conservação da floresta. Em segundo lugar, a nova análise neste relatório inclui o desmatamento por incêndios, com picos de incêndios aumentando consideravelmente na Amazônia nos últimos três anos. As áreas desmatadas por queimadas no pico da temporada de queimadas (aproximadamente do início de agosto ao final de outubro) nem sempre são captadas por análises de satélite no ano seguinte, pois a vegetação já havia voltado a crescer no momento da confirmação dos alertas de desmatamento do Prodes.

No Cerrado, a remoção de 6.694 ha de floresta e savana arborizada pode não estar em conformidade com a futura legislação da UE 

Do total de 15.213 ha de vegetação de Cerrado derrubada em propriedades de fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos (Figura 9), cerca de 44 %  (6.694 ha) podem não estar em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE. O âmbito de aplicação do Regulamento inclui os ecossistemas florestais e florestais. Em 2021, o uso da terra no bioma Cerrado mostrou que 14% da vegetação nativa era floresta, 30% savana arborizada e 9% outra vegetação não florestal (ou seja, pastagem).

Desmatamento ligado a fornecedores indiretos de JBS, Minerva e Marfrig mais prevalente

A maior parte do desmatamento calculado pode ser atribuída à base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos

Na amostra, os alertas de desmatamento são pelo menos quatro vezes maiores na base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos combinados (65.712 ha) em comparação com os fornecedores diretos (15.470 ha) (Figura 9). Além disso, 19 por cento (15.255 ha) dos alertas de desmatamento podem ser atribuídos a fornecedores indiretos que abastecem todos os três frigoríficos, em comparação com apenas 1,5 por cento (1.000 ha) dos alertas de desmatamento na amostra de fornecedores que podem estar vinculados a fornecedores diretos que atendem os três frigoríficos simultaneamente. Esta discrepância confirma que os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos indiretos são maiores e acrescenta que os fornecedores indiretos vinculados ao desmatamento com mais regularidade tendem a abastecer os três frigoríficos de uma só vez.

Dentro da amostra, a JBS está mais exposta ao desmatamento, tanto em números absolutos quanto relativos, em comparação com as taxas vinculadas à Marfrig e à Minerva

Mas o menor número de fornecedores de Minerva e Marfrig incluídos na amostra pode explicar parte dessa diferença. Os alertas de desmatamento na base de fornecedores indiretos da JBS são mais de três vezes o tamanho de sua base de fornecedores diretos, mas para a Marfrig esse número é mais de sete vezes maior e para a Minerva mais de oito vezes (Figura 9).

Riscos legais e de reputação por violação do Regulamento de Desmatamento da UE

Como os frigoríficos não monitoram todos os seus fornecedores indiretos, eles não podem garantir a conformidade com o próximo Regulamento de Desmatamento da UE

Em particular, os alertas de alto desmatamento desde a data limite de dezembro de 2020 nas cadeias de abastecimento indiretas da JBS, Marfrig e Minerva levantam preocupações sobre o cumprimento da Lei da UE e a conservação das florestas em geral. Embora os frigoríficos tenham feito progressos na conformidade nas cadeias de abastecimento diretas, eles mostraram pouco progresso no monitoramento da cadeia de abastecimento indireta. Os prazos para alcançar a transparência total da cadeia de suprimentos, incluindo as cadeias de suprimentos indiretas – o mais cedo em 2025 ou o mais tardar em 2035— estão fora do ritmo da implementação da Lei de Desmatamento da UE. A Lei provavelmente entrará em vigor em 2023, com a maioria dos requisitos aplicáveis ​​um ou dois anos depois.

Os frigoríficos JBS Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei da UE também considerará o desmatamento legal como não conforme

 Esta parte da Lei é particularmente relevante no Cerrado brasileiro, onde, dependendo da localização, 65 a 80 por cento das propriedades podem ser desenvolvidas e desmatadas da vegetação nativa. Com licença ambiental aprovada, o desmatamento dessas propriedades é considerado legal de acordo com o Código Florestal Brasileiro. Em resposta a uma versão preliminar deste relatório, a Minerva afirma que monitora o desmatamento ilegal de 100% de seus fornecedores diretos e confirma sua conformidade com as regulamentações ambientais brasileiras. No entanto, isso não atenderia às próximas restrições de importação da UE que proíbem as importações legais e ilegais de carne bovina e couro relacionadas ao desmatamento, para cadeias de fornecimento diretas e indiretas de gado.

A Marfrig é a única empresa frigorífica comprometida com o desmatamento zero até 2025 (para a Amazônia, 2030 para o Cerrado), tanto para o desmatamento legal quanto para o ilegal. Este compromisso aumenta a probabilidade da empresa eventualmente cumprir o próximo Regulamento. No entanto, a incapacidade da Marfrig de monitorar atualmente todos os seus fornecedores indiretos mostra uma lacuna no cumprimento dos requisitos previstos no Regulamento.

A JBS se comprometeu a atingir o desmatamento zero em toda a sua cadeia de suprimentos global apenas até 2035.

Violar a próxima lei da UE pode implicar riscos legais para os três frigoríficos

O Regulamento prevê a persecução judicial dos infractores através da aplicação de coimas, nomeadamente coimas proporcionais aos danos ambientais causados ​​e exclusão temporária de processos de aprovisionamento. Embora JBS, Marfrig e Minerva sejam grandes fornecedores para o mercado europeu, ainda não está claro qual proporção da carne bovina e do couro produzidos fora de conformidade acaba nas cadeias de suprimentos europeias.

Violar o Regulamento também pode envolver riscos de reputação para frigoríficos, operadores de couro e empresas de bens de consumo de alta rotatividade (FMCGs)

O Parlamento Europeu propôs a publicação de uma lista de operadores e comerciantes que não cumprem o Regulamento de Desmatamento da UE. Se aprovada nas rodadas finais de votação, a lista será disponibilizada pela Comissão Europeia e, sem dúvida, será usada na defesa e potencialmente em litígio por organizações da sociedade civil (OSCs) e instituições de caridade jurídicas, que têm sido fortemente a favor da inclusão de esta lista de empresas não conformes.

Os riscos de reputação para players downstream aumentarão de OSCs que visam principalmente empresas e varejistas downstream conhecidos que usam carne bovina e couro

Em dezembro de 2021, as cadeias de supermercados europeias J Sainsbury, Lidl, Auchan, Ahold Delhaize e Carrefour descartaram produtos de carne bovina originários da JBS no Brasil após alegações de OSCs de ligações com o desmatamento. Outros têm como alvo os fabricantes de automóveis europeus Volkswagen, BMW, Daimler e Renault por usar couro ligado ao desmatamento e originário da JBS, Marfrig e Minerva. O aumento do escrutínio da conformidade dos fornecedores a jusante com o Regulamento de Desmatamento da UE refletiu-se nos  muitos apelos  por uma ambiciosa lei da UE sobre o desmatamento.

Riscos financeiros mitigados para frigoríficos, FMCGs e instituições financeiras

JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar risco de acesso ao mercado, multas e risco de financiamento. As empresas voltadas para o consumidor sediadas na UE e as instituições financeiras sediadas na UE podem ver risco de valor e risco de reputação

Devido ao próximo Regulamento de Desmatamento da UE, os frigoríficos podem enfrentar dificuldades em exportar carne bovina e couro para o mercado da UE. Ser cortado do mercado da UE afetaria as receitas líquidas, o lucro bruto, o EBITDA e o lucro líquido. Se as empresas continuarem exportando, poderão enfrentar multas. O valor da reputação é a categoria de risco que domina a indústria downstream voltada para o consumidor da UE que obtém carne bovina e/ou couro de frigoríficos da América Latina (LatAm) e indiretamente para seus financiadores.

As exportações dos frigoríficos para a UE representam uma pequena parte de suas receitas totais (Figura 10), resultando em um risco de valor para suas ações. As penalidades máximas são uma baixa porcentagem dos lucros globais

Os frigoríficos não fornecem números detalhados para as exportações de carne bovina e produtos de couro, e os números de exportação ocasionalmente se referem a outras áreas além da América Latina. Como resultado, as exportações de produtos de carne bovina e couro da América Latina podem ter um valor menor do que o calculado na linha 3 da Figura 10. A Marfrig é uma grande exportadora para a UE. De sua receita sul-americana, 58% é exportada. Dessas exportações, 18 por cento são enviados para a UE. Exposição de exportação da JBS para a UE é muito menor, sete por cento. No entanto, esse número inclui exportações para a UE de outras unidades da JBS, como o negócio nos Estados Unidos, que não tem problemas de desmatamento. Devido à grande atividade dessas duas empresas no mercado americano, o percentual de receita das exportações latino-americanas para a UE é relativamente baixo. Os negócios globais da Minerva se originam principalmente na América Latina, e sua exposição total às exportações da UE em relação às receitas globais é a mais alta dos três frigoríficos.

Se as empresas enfrentarem restrições para exportar carne bovina e produtos de couro para a UE, elas podem perder lucros. Com base nas margens EBITDA (Earnings Before Interest, Tax, Depreciation and Amortization), a perda de EBITDA anual (1,8 a 5,3 por cento) é a base de cálculo de um número de valor por um período infinito, com base na metodologia de fluxo de caixa descontado. Esse valor seria relativamente alto para a Marfrig quando comparado à sua atual capitalização de mercado (19,0 por cento), mas muito menor para a JBS (9,5 por cento). Além disso, para a JBS, esse número também inclui exportações para a UE de outras regiões e outros produtos além da carne e couro da América Latina. Assim, o número comparável de JBS versus Marfrig e Minerva pode ser ainda menor.

As penalidades para operadores e comerciantes em caso de descumprimento podem ser no máximo de pelo menos 4% do faturamento nos estados membros da UE. Para os frigoríficos, esse valor seria relativamente baixo, de 0,6 a 2,4% do EBITDA global (Figura 10).

Os investidores parecem céticos sobre o fluxo de caixa futuro dos atuais lucros de carne da JBS, Marfrig e Minerva e já podem descontar os ventos contrários à “sustentabilidade”

Esse ceticismo pode ser concluído a partir da baixa avaliação dos frigoríficos: o múltiplo EV/EBITDA está na faixa de 3,4-5X (Figura 10) versus >10 para a maioria das empresas de bens de consumo em rápida evolução. Não há pesquisas com investidores disponíveis para explicar o motivo da falta de confiança nos fluxos de caixa futuros. Os motivos podem incluir exposição a mercados emergentes, vínculos com desmatamento e falta de bem-estar animal, ambiente de lucro volátil, violações de direitos humanos (direitos dos povos indígenas, direitos dos trabalhadores) e falta de boa governança nas empresas.

Figura 10: Exposição dos frigoríficos ao mercado da UE e risco financeiro

Fonte: Profundo, apresentações de resultados das empresas 2021, Bloomberg ; *DCF = Fluxo de Caixa Descontado, assumindo taxa de desconto de 10% e taxa de crescimento de 0%.

Os frigoríficos enfrentam riscos de financiamento, enquanto as instituições financeiras da UE podem enfrentar riscos de reputação

As instituições financeiras da UE ainda não são diretamente afetadas pelo Regulamento de Desmatamento da UE, e eles podem continuar a financiar as operações de carne e couro dos frigoríficos. No entanto, eles podem enfrentar conflitos com suas próprias políticas e compromissos ESG. Além disso, as campanhas da sociedade civil podem levar ao risco de reputação. Consequentemente, as instituições financeiras da UE ficariam cada vez mais hesitantes em continuar financiando frigoríficos, e os custos de capital podem aumentar para JBS, Marfrig e Minerva, impactando seu valor. Os financiadores da UE contribuíram com aproximadamente 15% para financiar os três frigoríficos em 2013-2022. Em títulos e empréstimos corporativos, os financiadores da UE fornecem 31-46 por cento do total. Como porcentagem de seus ativos totais, o total identificado na Figura 11 (USD 2,4 bilhões) é uma parte muito pequena de todos os ativos dos financiadores da UE (somente os ativos bancários já somam US$ 27 trilhões e excluem ações e obrigações).

Figura 11: Financiamento de JBS, Marfrig e Minerva (baseado na região)

Fonte: Profundo, baseado em Forests & Finance ; todos os dados baseados em relações financeiras identificadas em 2013-2022. Muitas vezes, as relações financeiras bilaterais não podem ser identificadas.

FMCGs, varejistas e empresas de fast-food podem enfrentar risco de valor de reputação mitigado

O valor da reputação de uma empresa é baseado nas interações com todas as partes interessadas, incluindo fornecedores, clientes, funcionários, financiadores e investidores. Eles podem se desvincular de empresas voltadas para o consumidor que não são proativas na eliminação de produtos de origem ligados ao desmatamento. Um estudo recente sobre a materialidade dos lucros vinculados à carne bovina e soja (incorporada) da América Latina concluiu que a exposição à carne bovina da América Latina, que é fornecida por FMCGs em parte para suas atividades na UE, é alta para o McDonald’s (6,4 por cento), mas relativamente baixa para a Nestlé (0,001 por cento) e Carrefour (1,1 por cento). Para o Carrefour, a maior parte de seus produtos de carne bovina de origem brasileira é vendida na América Latina. Traduzindo esses números embutidos de exposição à carne bovina da América Latina em um valor de risco de reputação pode significar que até um terço da exposição (para o McDonald’s um terço de 6,4 por cento = 2,1 por cento) pode ser perdido no preço da ação devido ao risco de reputação. Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja embutido da América Latina, os números serão maiores). Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja da América Latina (incorporado), os números serão maiores).

Figura 12: Seleção de empresas com fornecimento de carne bovina da América Latina (2021)   

Fonte: Profundo, com base no relatório “Materialidade Financeira no Fornecimento de Soja e Carne na América Latina”, julho de 2022.

Os setores a jusante na cadeia de couro da UE enfrentam risco de valor de reputação, mas pode ser relativamente pequeno em comparação com o valor total na cadeia de abastecimento

Para o couro, não existe nenhum estudo comparável (como o da carne bovina mencionado no parágrafo anterior). O valor das importações da UE é de EUR 1.422 milhões, principalmente de couro da América Latina (Figura 1). Globalmente, cerca de metade do couro exportado pelo Brasil é utilizado no setor automotivo, enquanto a outra metade é distribuída, em grande parte, nos setores de calçados e estofados.

Setores baseados na UE ativos na cadeia de suprimentos de couro estão financeiramente expostos ao couro brasileiro e podem estar sujeitos a risco de reputação

A exposição financeira pode ser significativa, e o valor pode ser estimado calculando-se a elevação do preço em cada etapa da cadeia de abastecimento do couro importado. Por exemplo, o couro usado em carros primeiro vai de uma empresa de couro italiana para uma empresa de assentos tcheca, e esses assentos são vendidos a um fabricante de automóveis e, em seguida, os revendedores de automóveis vendem os carros aos consumidores/clientes. Todas essas etapas levam a um acúmulo de lucros brutos e lucros operacionais sobre o couro brasileiro embutido. Os financiadores (investidores e bancos) podem se desligar, os funcionários podem ficar mais relutantes em trabalhar para as empresas e os consumidores menos ansiosos para comprar os produtos. O setor automotivo da UE, incluindo fornecedores, representa atualmente 7% do PIB da UE (2021, 14,5 trilhões de euros), ou 1,02 biliões de euros. Supondo que metade do couro brasileiro importado (711 milhões de euros) seja usado na cadeia automotiva da UE, isso totaliza apenas 0,07% da contribuição do setor automotivo ao PIB. Semelhante à carne bovina, o valor das importações brasileiras de couro para o setor automotivo da UE é uma quantidade relativamente pequena do produto final comprado pelos consumidores.

O couro é provavelmente um insumo relativamente maior para outras indústrias (calçados, estofamento) do que para o setor automotivo de 1,02 trilhão de euros. Por exemplo, a indústria de calçado da UE gerou um volume de negócios de 28 mil milhões de euros . Assumindo que 25 por cento da importação de couro brasileiro da UE é usado para calçados (356 milhões de euros), a materialidade financeira desse couro (1,3 por cento das receitas de US$ 28 bilhões) na indústria de calçados é maior do que na automotiva (0,07 por cento; veja acima). Mais de 100 marcas de moda poderiam estar ligadas ao couro brasileiro. Para empresas individuais na cadeia de suprimentos de couro, a exposição financeira ao couro brasileiro embutido pode ser significativa, mas requer pesquisa adicional.

Os riscos financeiros podem ser evitados por meio de despesas de due diligence “factíveis”

Em vários relatórios , o CRR calculou os custos de um investimento na melhor execução da política de desmatamento zero para óleo de palma, carne bovina e soja, incluindo auditoria, monitoramento e verificação. Os benefícios potenciais (por exemplo, proteção do valor da reputação) excedem significativamente esses custos. A análise do CRR mostrou que seria necessário um aumento de preço baixo, de um dígito, para repassar esses custos aos clientes e manter intactos os lucros para os acionistas. Também no couro, o grande porte da indústria automobilística e calçadista versus o valor importado do couro brasileiro corrobora tal análise.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

EUA pretendem sancionar desmatadores da Amazônia brasileira para fortalecer a luta contra as mudanças climáticas

DEFORESTATION

Por Gabriel Stargardter e Brad Haynes para a Reuters

RIO DE JANEIRO (Reuters) – Os Estados Unidos estão tentando reprimir os criminosos ambientais por trás do aumento do desmatamento na Amazônia brasileira, usando penalidades como as sanções de Magnitsky para enfrentar a mudança climática de forma mais agressiva, disseram fontes e autoridades norte-americanas à Reuters.

O plano representa uma grande mudança na estratégia de Washington para combater o aquecimento global, acrescentando sanções diretas ao seu kit de ferramentas de incentivos fiscais, cutucadas diplomáticas e acordos multilaterais complexos e lentos.

O desmatamento no Brasil atingiu uma alta de 15 anos sob o presidente Jair Bolsonaro, que reverteu as proteções ambientais e pressionou por mais mineração e agricultura comercial na Amazônia, um amortecedor crucial contra as mudanças climáticas.

O presidente eleito de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, assumirá o cargo em 1º de janeiro e já prometeu acabar com o desmatamento na cúpula do clima COP27 no Egito na semana passada. Em conversas com autoridades americanas, Lula e seus aliados enfatizaram seu foco no combate às mudanças climáticas.

No entanto, ainda há dúvidas sobre como ele vê o plano, que está em seus estágios iniciais. Lula acredita que Washington ajudou os promotores brasileiros a prendê-lo por acusações de corrupção e muitas vezes se irritou com o longo braço das autoridades americanas.

As sanções de Magnitsky visam punir os acusados ​​de corrupção ou permitir abusos dos direitos humanos. Eles congelariam quaisquer ativos dos EUA e impediriam todos os americanos e empresas dos EUA de lidar com indivíduos ou entidades sancionadas.

O Departamento do Tesouro dos EUA, responsável pelas sanções de Magnitsky, se recusou a comentar. Nem o gabinete de Bolsonaro nem o Ministério da Justiça do Brasil responderam aos pedidos de comentários. A equipe de transição de Lula não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

O plano dos EUA começou a tomar forma em junho, na Cúpula das Américas em Los Angeles, quando os Estados Unidos e o Brasil anunciaram uma força-tarefa conjunta para combater o desmatamento ilegal na floresta amazônica, disse uma fonte norte-americana que trabalha no plano.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi produzido pela agência Reuters e publicado pela Yahoo News! [Aqui! ].

Embargos remotos de áreas desmatadaspodem acelerar fiscalização ambiental no Brasil

Guia de Boas Práticas, lançado esta semana, visa dar escala à prática que faz uso de recursos tecnológicos disponíveis e acessíveis a todos

fiscalização
A quase totalidade (98%) dos mais de 200 mil alertas de desmatamento, somando 4,3 milhões de hectares, validados pelo MapBiomas Alerta entre 2019 e 2021, tinham indícios de ilegalidade. Porém apenas 7% deles, correspondendo a 27% da área desmatada, foram objeto de alguma ação — fosse ela uma autorização, embargo ou ação civil pública, por exemplo. Um dos fatores para isso é a falta de estrutura dos órgãos fiscalizadores, que ainda privilegiam as ações presenciais. Mas o cenário poderia ser totalmente diferente com o uso da tecnologia: recursos disponíveis de forma rápida e gratuita já permitem a identificação da supressão da vegetação nativa com imagens de alta resolução, permitindo o embargo remoto.

“Embargos remotos são estratégicos no nosso atual contexto em que os órgãos ambientais ainda não possuem recursos humanos e financeiros suficientes para atender com eficiência o elevado número de desmatamentos confirmados”, explica André Lima, coordenador do projeto Radar Clima e Sustentabilidade, do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). “Hoje as tecnologias disponíveis e amplamente acessíveis oferecem duas condições fundamentais para a fiscalização remota: a confiabilidade e a atualidade das informações. Seu uso, portanto, é fundamental para que a fiscalização ambiental no Brasil alcance a celeridade necessária para combatermos a destruição de nossos biomas”, completa Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas.

Para que a prática do embargo remoto se dissemine, representantes de órgãos ambientais estaduais, federais e organizações da sociedade civil se reuniram ao longo do ano de 2022 em um grupo de trabalho que discutiu os principais pontos que alimentaram a elaboração do Guia de Boas Práticas para Implementação do Embargo Remoto de Áreas Desmatadas no Brasil. O documento foi lançado nesta terça-feira, 22 de novembro, em evento promovido pelo MapBiomas, junto com o Instituto Democracia & Sustentabilidade (IDS), o Instituto Centro de Vida (ICV) e o Brasil io. O lançamento aconteceu às 10h30 e pode ser conferido aqui.

O objetivo do guia é facilitar a aplicação do embargo remoto da forma mais automática possível, permitindo ações em grande escala, com impacto imediato sobre as áreas desmatadas ilegalmente. Ele é direcionado aos profissionais de órgãos ambientais e sociedade civil em geral. Sua elaboração levou em conta as normas vigentes, as tecnologias disponíveis e previstas no arcabouço legal e a experiência prática dos governos estaduais e federal na utilização do embargo remoto para fiscalização de áreas desmatadas.

O guia inclui um passo a passo para aplicação do embargo remoto em larga escala, contemplando procedimentos distintos para desmatamentos identificados em áreas inscritas e áreas não inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O fluxo de trabalho sugerido contempla o processo de identificação, confirmação e qualificação da supressão da vegetação nativa, a notificação de proprietários, a aplicação e publicação dos embargos em bases públicas, e suas devidas consequências no CAR. O guia também orienta quanto ao monitoramento permanente de áreas embargadas e procedimentos específicos para áreas e territórios de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs).

O embargo é uma “medida administrativa cautelar adotada pelos órgãos ambientais e aplicada sobre uma área para suspender atividade ilegal, paralisar a degradação ambiental e garantir a recuperação da área ou sua regeneração.” Ou seja, ele tem caráter preventivo e cautelar e impede que uma atividade degradadora continue a se perpetuar no tempo e permite que a área danificada se recupere.

Hoje, a maioria dos embargos são feitos mediante fiscalização presencial, mas a comprovação do dano ambiental que justifica o embargo pode ser feita de forma remota, por meio da análise de imagens de satélite. Com isso, a ação presencial poderá ser priorizada para os casos em que é realmente necessária, como em casos de apreensão de equipamentos, investigações e situações de conflitos de posse de terras. “Fiscalização presencial e remota podem e devem caminhar juntas. Uma fortalece e confere maior eficiência à outra”, ressalta Tasso Azevedo.

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O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Planos de empresas de alimentos para meta climática de 1,5°C ficam aquém do necessário, dizem ativistas

Grandes produtores de soja e carne bovina acusados ​​de não cumprir promessas de parar o desmatamento

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O gado pasta perto de uma área queimada da floresta amazônica perto de Novo Progresso, estado do Pará, Brasil. Fotografia: João Laet/AFP/Getty

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

As maiores empresas de alimentos do mundo, cujos produtos estão ligados à destruição generalizada de florestas tropicais, não conseguiram criar uma estratégia adequada para alinhar suas práticas de negócios com a meta climática de 1,5°C, de acordo com ativistas.

Os principais produtores de soja, óleo de palma, cacau e gado publicaram seu roteiro para se alinhar com 1,5°C no início desta semana, prometendo desenvolver e publicar metas específicas de commodities e com prazo determinado para interromper o desmatamento, que serão apoiadas pela ciência e verificadas a cada ano. As empresas incluem a empresa brasileira de carne bovina JBS, a empresa agrícola americana Cargill e a empresa de processamento de alimentos de Cingapura Wilmar International.

A mudança no uso da terra é o segundo maior fator de aquecimento global atrás da queima de combustíveis fósseis e a maior causa de perda de biodiversidade, enquanto deter a destruição de florestas tropicais é uma parte fundamental do combate às crises climáticas e de biodiversidade. Para cumprir o 1.5C, toda a conversão do uso da terra deve parar até 2030, com progressos significativos feitos até meados da década, segundo os cientistas .

Embora os ativistas reconheçam que algum progresso foi feito, especialmente com o óleo de palma, eles argumentam que as empresas falharam em grande parte em cumprir a ambição que prometeram em soja e carne bovina.

O desacordo entre ativistas e empresas é sobre a data em que as empresas devem parar o desmatamento. Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal sênior do Greenpeace Brasil, disse que algumas das empresas haviam prometido eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos até 2020 e falharam.

“Não podemos permitir mais lavagem verde ou comportamento imprudente dessas empresas que lucram com a destruição de ecossistemas e apresentam mais atrasos e planos inadequados para deter e reverter a destruição que causam e que continuará a fritar o planeta”, disse ela.

A Malásia e a Indonésia, que abrigam a maior parte do setor mundial de óleo de palma, tiveram sucesso na redução do desmatamento nos últimos anos, em parte por causa de uma melhor regulamentação.

Nico Muzi, diretor-gerente do grupo ambientalista Madre Brava, disse que o plano anunciado na Cop27 representa algum progresso, mas disse que o compromisso ficou aquém do que era necessário, especialmente no setor de carnes. “Há duas omissões flagrantes: uma data limite para parar o desmatamento causado pela soja agora e a exclusão da conversão pela pecuária e expansão da soja da maior região de savana da América do Sul, o Cerrado brasileiro”, disse ela.

André Vasconcelos, da Global Canopy, disse que o plano é encorajador, pois as empresas envolvidas representaram mais de 60% das exportações de soja brasileira, 50% da carne bovina brasileira e 45% das exportações de óleo de palma da Indonésia em 2020, embora alguns dos principais produtores estejam faltando . Mas ele acrescentou que as empresas precisam ir mais longe para que o plano tenha credibilidade.

“Combater o desmatamento é essencial para ficar abaixo de 1,5°C”, disse ele. “Os comerciantes precisam ir mais longe, mais rápido. O roteiro precisa de uma postura proativa para evitar desmatamento e conversão futuros, incluindo um compromisso concreto de não investir em mais desenvolvimento de infraestrutura nas principais fronteiras de desmatamento. É preciso haver um compromisso com uma data de corte comum entre commodities que inclua todos os tipos de ecossistemas”.

Jack Hurd, diretor executivo da Tropical Forest Alliance que ajuda a supervisionar o roteiro através do Fórum Econômico Mundial, disse discordar de que não houve progresso suficiente e disse estar particularmente satisfeito com o movimento na indústria pecuária.

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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Brasil teve 80% mais incêndios florestais em 2022, mostra Monitor do Fogo

Cerca de 2,4 milhões de hectares de florestas foram queimados entre janeiro e outubro de 2022, área 80% maior que a queimada em 2021; maioria do fogo foi na Amazônia

unnamed (7)Fogo associado a desmatamento na Amazônia, norte de Mato Grosso (Foto: Illuminati Filmes/IPAM)

O Brasil teve 80% mais incêndios florestais entre janeiro e outubro de 2022 em relação ao mesmo período de 2021. Foram 2.426.597 milhões de hectares de floresta queimados neste ano, sendo 85% na Amazônia. Os dados são do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas Fogo com parceria e coordenação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), divulgados nesta sexta-feira (11) na COP27, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas que ocorre este ano em Sharm El-Sheikh, no Egito.

Acesse o boletim mensal do Monitor do Fogo com os destaques de outubro.

Nas florestas da Amazônia o aumento nos incêndios foi de 111%, com 2 milhões de hectares queimados – mais do que o dobro de 2021 (976 mil hectares).

“Durante o período das eleições, testemunhamos recordes de derrubadas na região, o que tem impacto direto nas florestas ao redor, que acabam ficando mais expostas, degradadas e suscetíveis ao escape do fogo. Mesmo um único evento de fogo tem impactos gigantescos na estrutura da vegetação, pois florestas degradadas armazenam 25% menos carbono por pelo menos 30 anos”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

A área total queimada no país, de janeiro a outubro de 2022, é de 15,2 milhões de hectares, maior que o estado do Ceará, considerando todas as vegetações dos biomas brasileiros e todos os tipos de uso do solo, como pastagem, por exemplo. É um aumento de 11%, ou de 1,5 milhões de hectares queimados, comparado ao mesmo período em 2021.

Para Alencar, os dados são alarmantes e distanciam o Brasil de cumprir as metas para a redução das emissões de gases do efeito estufa, firmadas em 2015 no Acordo de Paris. Assinado por 196 países, o Acordo de Paris tem o objetivo em comum de limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Quase metade das emissões brasileiras (49%) estão ligadas a desmatamento e fogo associado.

Cerrado é o bioma que mais queimou

O Cerrado concentra 48% de toda a área queimada no Brasil até outubro e é o bioma que mais queimou no período. A alta do fogo no Cerrado é de 17% em comparação com o ano anterior, totalizando 7,4 milhões de hectares queimados em 2022. O maior impacto está em vegetações do tipo savânica (representam 49% da área queimada, ou 3,5 milhões de hectares). Em outubro, o Cerrado também foi o bioma que mais pegou fogo, com 1,8 milhões de hectares, um aumento de 196% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Depois do Cerrado, o segundo bioma mais queimado é a Amazônia, com 7,1 milhões de hectares ou 47% da área total queimada no país. Em outubro, 1,3 milhões de hectares pegaram fogo na Amazônia, uma alta de 74% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

“Vale a pena destacar que o Cerrado é um bioma que tem metade do tamanho da Amazônia, ou seja, quando falamos que o Cerrado foi o que mais queimou no ano até agora, estamos falando de um impacto que tem dimensões para a sobrevivência desse ecossistema. Outro motivo de alerta é que parte desse fogo está acontecendo com frequência e intensidade diferente do regime natural esperado para o Cerrado”, explica Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM e responsável pelo Monitor do Fogo.

Fogo nos estados e municípios

Mato Grosso foi o estado que mais registrou ocorrências de incêndios até outubro, com 3,4 milhões de hectares queimados, quase ¼ da área total queimada no Brasil no período. Pará e Tocantins estão na sequência, com 2,5 e 2,2 milhões de hectares, respectivamente. Juntos, os estados concentram 54% da área queimada no Brasil no período.

São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA) e Porto Velho (RO) são os três municípios que mais queimaram, somando 1,1 milhões de hectares que pegaram fogo, ou 8% do total queimado no país. No mesmo período de 2021, esses municípios queimaram juntos 495 mil hectares, o que significa um aumento de 131% para o ocorrido em 2021 – reflexo do avanço do desmatamento que tem no oeste do Pará uma das suas fronteiras mais ativas.

Sobre o Monitor do Fogo

 Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo. Acesse o Monitor do Fogo.

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site.

Sobre o IPAM

Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) é uma organização científica, não governamental, apartidária e sem fins lucrativos que desde 1995 trabalha pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia e do Cerrado.

JBS admite ter comprado 9 mil bois ilegais do ‘maior desmatador do país

illegal cattle

  • Investigação exclusiva revela que frigorífico comprou, entre 2018 e 2022, milhares de cabeças de gado
  • Animais foram criados em fazendas de uma quadrilha de desmatadores de Rondônia
  • Empresa reconheceu que houve conivência de seus próprios funcionários no esquema
Por Naira Hofmeister, André Campos, Isabel Harari e Lucy Jordan, da Repórter Brasil e da Unearthed

Um dos maiores frigoríficos do planeta, a brasileira JBS comprou 8.785 cabeças de gado de três fazendas que desmataram a Amazônia em Rondônia e que pertencem ao mais famoso grupo de infratores ambientais do estado, cujo líder, Chaules Volban Pozzebon, está preso por extração ilegal de madeira e é considerado o maior desmatador do país, além de ter sido condenado por trabalho escravo.

É o que revela uma investigação inédita feita pela Repórter Brasil, em parceria com o Greenpeace Brasil e o Unearthed, braço jornalístico do Greenpeace.

A JBS confirmou os dados obtidos pela reportagem e admitiu não apenas as compras irregulares como a participação de seus funcionários no esquema.

As transações ocorreram durante pelo menos quatro anos, entre 2018 e 2022, sem que os sistemas de monitoramento da empresa barrassem os negócios. Segundo a JBS, essas compras foram registradas em seu sistema como tendo origem uma outra fazenda, do mesmo grupo, que estava “limpa” pelos critérios socioambientais.

Em nota, a JBS disse que, “a partir das informações apresentadas pela Repórter Brasil, ficou claro que o grupo mencionado vinha, de má-fé, se valendo da conivência de funcionários da Friboi [que pertence à JBS] para burlar o sistema e enviar gado produzido em fazendas com irregularidades socioambientais”.

A empresa também diz ter demitido funcionários envolvidos e que pretende “buscar reparação na Justiça pelos danos sofridos”.

No entanto, a JBS tinha meios para checar essa informação, visto que os nomes das fazendas de origem estão registrados nas GTAs (Guias de Trânsito Animal) das transações. As GTAs são um documento obrigatório na compra e venda de gado e formam a base dos sistemas de monitoramento dos frigoríficos brasileiros.

A JBS ainda informou que decidiu excluir de seu cadastro de fornecedores a empresa que intermediava os negócios, a Agropecuária Rio Preto Eirelli, pertencente à família Pozzebon, bem como seus sócios e todas as pessoas a eles associadas.

 

Bois ilegais -  -
 

 

A defesa de Pozzebon nega “fraude ou crime nas vendas realizadas” para os frigoríficos. “Não existe organização criminosa, mas sim um grupo empresarial regularmente constituído e com atividades lícitas e autorizadas pelos órgãos competentes”, explica o advogado Aury Lopes Jr.

O representante legal da família Pozzebon e da empresa Agropecuária Rio Preto acrescenta que não houve desmatamento criminoso, “mas manejo autorizado de madeira” e que todas as atividades são lícitas e regulares, sem qualquer fraude ou desacordo de pactos setoriais da carne.

As compras irregulares da JBS viraram peças de carne das marcas do frigorífico vendidas no Brasil e podem ter sido exportadas para quatro dos cinco continentes do planeta. Mas os consumidores brasileiros não tiveram nenhuma chance de saber, já que no sistema de transparência da empresa, onde é possível consultar a origem da carne comprada no supermercado, as remessas das fazendas irregulares aparecem apenas sob o nome genérico “Fazenda”.

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JBS publica informações sobre as fazendas que originam os produtos que vende nos supermercados brasileiros, mas irregularidade em Rondônia não aparece no sistema de transparência. Imagem: Reprodução

A Minerva, outra gigante do setor de carnes no Brasil, também adquiriu 672 animais de uma das fazendas com desmatamento ilegal dos criminosos.

Os repasses ocorreram em 2021, embora o frigorífico tenha confirmado que a fazenda estava bloqueada em seu sistema desde 2018, “por apresentar irregularidades em 2014, 2016, 2018, 2019 e 2020 e por apresentar sobreposição de polígono de embargo do Ibama”.

Apesar disso, a Minerva preferiu não comentar o caso e disse apenas que está “apurando o ocorrido com base nos dados que estão públicos”. Leia a íntegra das respostas.

Comandos de dentro da prisão

Pozzebon se tornou uma figura conhecida por ser o chefe de uma milícia armada que roubava terras, extorquia e cobrava pedágio de assentados em Rondônia, segundo autoridades policiais e judiciárias. Condenado a 99 anos de cadeia por extração de madeira retirada ilegalmente de terras protegidas, comandou suas atividades ilegais de dentro da prisão, segundo as investigações. A defesa recorreu.

Apesar de todas as transações ilegais de madeira na Amazônia, eram as vendas de gado para a JBS, Minerva e outros frigoríficos que formavam uma das principais fontes de receita da grupo de Pozzebon. Segundo documentos da Polícia Federal aos quais a reportagem teve acesso, o grupo recebeu da JBS R$ 47 milhões, apenas entre 2015 e 2019 —em três anos neste período, o frigorífico foi sua principal fonte de receitas.

A companhia confirma os pagamentos feitos desde 2015, que “se referem à compra de gado” —admitindo que os negócios com os infratores ambientais são anteriores aos dados de compra rastreados pela Repórter Brasil.

A Minerva também aparece como financiadora do grupo em 2018, quando foi sua 11ª maior fonte de receitas, com R$ 1,3 milhão repassados —igualmente revelando a existência de relações anteriores às compras feitas em 2021.

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Ásia foi o maior comprador dos frigoríficos que compraram animais ilegais do grupo de Pozzebon entre 2018 e 2022
Imagem: Rodolfo Almeida/Greenpeace/Repórter Brasil

Quinze anos sem floresta

As vendas de gado para os frigoríficos eram intermediadas pela Agropecuária Rio Preto, empresa registrada em nome da mãe do chefe da organização criminosa, Maria Salete Pozzebon, a principal laranja do filho, segundo o Ministério Público Federal.

Também se chama Rio Preto a fazenda, localizada em Cujubim (RO), na qual a maioria dos animais ilegais repassados para a JBS pastou nos meses antes do abate. A Repórter Brasil rastreou 3.880 cabeças de gado vendidos pela Agropecuária Rio Preto, com origem nesta propriedade, diretamente para o abate nas unidades da JBS de Porto Velho, São Miguel do Guaporé e Vilhena —todas no estado de Rondônia.

Há 15 anos, o Ibama luta para que Pozzebon faça o reflorestamento dos 2,6 mil hectares de Amazônia que destruiu na Rio Preto, mas o criminoso nunca cumpriu a determinação.

Em vez de reflorestar a área, ele segue criando gado na fazenda, conforme revelaram imagens de satélite de outubro de 2021 inseridas na ação judicial. Por isso, agora o Ibama cobra do desmatador, que está preso, R$ 24,6 milhões.

Pozzebon também é alvo de uma Ação Civil Pública, movida pelo Ministério Público de Rondônia, que afirma que ele grilou terras de uma área – na região da fazenda Rio Preto —que deveria ter sido destinada a um assentamento do Incra.

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Sobrevoo do Greenpeace em 2022 flagrou rebanho numeroso pastando na Fazenda Rio Preto, ou LH B-90, em Cujubim, Rondônia
Imagem: Nilo D’Avila/Greenpeace/Repórter Brasil

Condenação por trabalho escravo

A ficha corrida de Pozzebon foi novamente atualizada em 2018, quando ele foi condenado a 6 anos e 9 meses de prisão, em regime semiaberto, por submeter 22 trabalhadores à condição análoga à de escravo em outra de suas fazendas, a Pedra Preta. A defesa de Chaules recorreu e diz que não houve “participação de Chaules, pois era um trabalho terceirizado”.

Um mês antes da condenação, a propriedade começou a enviar gado para as unidades da JBS de São Miguel do Guaporé e Porto Velho.

O caso descumpre o TAC (Termo de Ajuste de Conduta) assinado pela JBS em 2013 com o MPF, no qual a empresa se comprometeu a não adquirir gado de fazendas na Amazônia Legal que tenham “condenação judicial contra seus respectivos proprietários, posseiros, gestores e empregados pela prática de trabalho escravo”.

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Desmatamento não foi alvo de fiscalização, mas Chaules acabou condenado por trabalho escravo na Pedra Preta
Imagem: Bianca Cavalcante/Greenpeace/Repórter Brasil


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Este texto foi originalmente publicado pelo portal de notícias UOL [Aqui!].


 

‘Acabou, porra!’ A vitória de Lula da Silva no Brasil injeta esperança na luta climática global

À medida que a cúpula climática da ONU deste ano se reúne, a maior economia da América do Sul está se preparando para deixar seu presidente negador do clima

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O presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, agita uma bandeira brasileira durante um comício em 20 de outubro de 2022, em São Gonçalo, Brasil. BUDA MENDES VIA GETTY IMAGES

Por Travis Waldron, Alexander C. Kaufman e Chris D’Angelo para o Huffington Post

SÃO PAULO ― A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais do Brasil no último domingo energizou líderes mundiais, ativistas climáticos e ambientalistas antes da cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas deste ano, que começa domingo no Egito.

Em uma eleição que muitos viram como crucial para o futuro da floresta amazônica e evitar o aquecimento planetário catastrófico, o esquerdista Lula, conhecido carinhosamente como “Lula”, derrubou por pouco o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, um ferrenho negador das mudanças climáticas que presidiu sobre o desmatamento vertiginoso na floresta amazônica que o transformou em um pária global .

Da Silva, que supervisionou reduções drásticas nas taxas de desmatamento e emissões de carbono durante sua presidência de 2003 a 2010, aproveitou as questões climáticas durante a corrida para pintar Bolsonaro como um outlier global que isolou o Brasil no cenário mundial. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, ele prometeu “lutar pelo desmatamento zero” e combater a extração ilegal de madeira, mineração e pecuária que cresceu sob a vigilância de Bolsonaro.

“O Brasil e o planeta precisam da Amazônia viva”, disse Silva, que viajará ao Egito na próxima semana como um sinal antecipado de sua intenção de reassumir um papel de liderança na luta climática, disse na noite de domingo. “Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente.”

O Brasil controla a grande maioria da floresta amazônica e também abriga outras regiões ambientais sensíveis que os cientistas consideram cruciais para a batalha global contra as mudanças climáticas. Lá e no exterior, os defensores do clima não mediram palavras quando os resultados das eleições foram claros.

“Acabou porra!” o Observatório Brasileiro do Clima, um think tank com sede em São Paulo, em um comunicado na noite de domingo. “O pesadelo deve finalmente terminar.”

Christian Poirier, diretor de programas da organização sem fins lucrativos Amazon Watch , disse ao HuffPost que uma vitória de Bolsonaro “significaria o fim da Amazônia”. De fato, os cientistas soaram o alarme de que a floresta tropical está se aproximando de um ponto de inflexão além do qual será incapaz de se recuperar.

“A conquista de Lula, particularmente em uma plataforma de preservação ambiental e respeito aos direitos humanos, principalmente os direitos dos povos da floresta e dos povos indígenas, foi uma grande vitória diante da extrema ameaça representada por mais quatro anos de Bolsonaro – a ameaça existencial ”, disse Poirier. “Dada a importância da Amazônia, a importância deste bioma para a estabilidade climática mundial, esta foi a eleição mais conseqüente do planeta.”

Uma vista aérea de uma área queimada na floresta amazônica perto de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 31 de agosto de 2022. Especialistas dizem que os incêndios na Amazônia são causados ​​principalmente por agricultores ilegais, pecuaristas e especuladores que limpam terras e queimam árvores.

Uma vista aérea de uma área queimada na floresta amazônica perto de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 31 de agosto de 2022. Especialistas dizem que os incêndios na Amazônia são causados ​​principalmente por agricultores ilegais, pecuaristas e especuladores que limpam terras e queimam árvores. DOUGLAS MAGNO VIA GETTY IMAGES

O ambiente normalmente não desempenha um papel de liderança – ou qualquer papel – nas eleições brasileiras. Mas durante esta campanha, Lula delineou um conjunto ambicioso de propostas que os aliados compararam a uma versão brasileira do Green New Deal que os progressistas nos Estados Unidos promoveram. Ele também prometeu restaurar as proteções para tribos indígenas que acusaram Bolsonaro de “genocídio” e crimes contra a humanidade , prometendo criar um novo Ministério de Assuntos Indígenas e nomear um líder tribal para dirigi-lo.

O caminho a seguir, no entanto, não será fácil. As taxas de desmatamento continuaram a subir nos meses anteriores às eleições, subindo 81% em relação ao total do ano passado em agosto e outros 48% em setembro. Eles devem continuar crescendo pelo menos até o primeiro ano da presidência de Lula, e a recuperação da floresta nos próximos quatro anos está longe de ser garantida.

“Na verdade, o que estamos vendo na Amazônia é um cenário do Velho Oeste”, disse Poirier. “Esse cenário não vai mudar da noite para o dia.”

Uma agenda ambiciosa enfrenta enormes desafios

A Amazônia é apenas uma das principais regiões ambientais que enfrentaram uma destruição desenfreada sob Bolsonaro, mas é um indicativo dos desafios mais amplos que Lula enfrentará ao tentar reconstruir a imagem global do Brasil e remontar um governo capaz de tornar o Brasil um líder do mundo. luta climática internacional novamente.

Bolsonaro passou quatro anos destruindo o outrora robusto regime regulatório ambiental do Brasil e as agências governamentais que o implementaram. Restrições nos gastos federais dificultarão a reconstrução completa dos ministérios ambientais, enquanto um Congresso conservador e uma lista lotada de prioridades podem facilmente impedir o avanço de quaisquer propostas climáticas importantes.

Nas cidades prósperas da Amazônia, onde garimpeiros e madeireiros ilegais buscavam suas fortunas com as bênçãos de Bolsonaro, oficiais federais encarregados de supervisionar a conservação e os direitos indígenas lutavam até para manter os veículos em condições de funcionamento. A falta de fiscalização de Bolsonaro criou um acúmulo de multas não pagas e promoveu uma cultura de impunidade em relação à destruição ambiental.

As redes de crime organizado que prosperaram sob o governo de Bolsonaro e conduziram grande parte da devastação ambiental que ocorreu sob seu comando agora são muito maiores e mais sofisticadas, tecnologicamente experientes e financeiramente robustas do que eram durante os dois mandatos anteriores de Lula.

“O mais difícil vai ser o crime na Amazônia”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. “O crime na Amazônia é hoje mais poderoso e tem mais influência política e dinheiro do que nunca.”

Em partes da Amazônia, a reconstrução de um governo capaz de fazer cumprir as proteções ambientais e combater a atividade criminosa será suficiente, disse Astrini. Mas em grandes áreas da região, a falta de oportunidades econômicas formais tornou comunidades inteiras dependentes de redes criminosas, o que significa que Silva e seu governo terão que ajudar a criar empregos, investir em negócios e construir economias locais capazes de quebrar essa dependência.

Crianças se reúnem ao ar livre em Manicore, uma cidade localizada às margens dos rios Madeira e Manicore, na floresta amazônica, no estado do Amazonas, no Brasil, em 6 de junho de 2022.

Crianças se reúnem ao ar livre em Manicore, uma cidade localizada às margens dos rios Madeira e Manicore, na floresta amazônica, no estado do Amazonas, no Brasil, em 6 de junho de 2022. MAURO PIMENTEL VIA GETTY IMAGES

Apesar dos desafios, da Silva e sua equipe estão confiantes de que podem repetir o sucesso de sua primeira presidência, quando as taxas de desmatamento caíram 70%. Isso, por sua vez, ajudará a reverter um preocupante aumento nas emissões gerais, que aumentaram 9,5% em 2020, ano em que a pandemia fez com que as emissões caíssem globalmente. Isso levou o Brasil muito longe para cumprir as metas estabelecidas no Acordo Climático de Paris.

“O desmatamento é responsável por 70% das nossas emissões. Se reduzirmos o desmatamento, reduziremos as emissões”, disse Marina Silva, que foi ministra do Meio Ambiente durante a presidência de Lula e está entre as candidatas a assumir o cargo no ano que vem, a repórteres em São Paulo dias antes da eleição.

Mas as “ambições” de Lula são maiores do que apenas cumprir as metas de Paris, disse ela.

Durante a presidência de Bolsonaro, grupos ambientais brasileiros estabeleceram parcerias internacionais em um esforço para promover políticas verdes e proteger a floresta nos níveis estadual e local, com algum sucesso. Membros proeminentes da esquerda brasileira, enquanto isso, fizeram conexões com progressistas nos Estados Unidos e na Europa em um esforço para elaborar uma resposta ambiental pronta para que Lula adote e implemente.

Três meses após a posse de Bolsonaro em 2019, Alessandro Molon, líder da oposição do Partido Socialista na Câmara dos Deputados do Brasil, disse ao HuffPost em uma entrevista em seu escritório em Brasília que se inspirou na estrutura do Green New Deal. Bernie Sanders (I-Vt.) e a Deputada Alexandria Ocasio-Cortez (DN.Y.) defendiam na época. O apelido de três palavras foi usado para descrever uma série de ideias progressistas para lidar com as mudanças climáticas e sinalizou uma mudança no pensamento político dominante sobre como reduzir as emissões do aquecimento do planeta longe da precificação do carbono e em direção à política industrial, onde o governo define prioridades econômicas injetando subsídios em setores como energia limpa.

No ano seguinte, Jaques Wagner, senador brasileiro do partido de Lula e ex-ministro da Defesa, apareceu em um painel em Nova York ao lado do acadêmico Daniel Aldana Cohen e da escritora Naomi Klein, dois dos autores ecossocialistas mais influentes da América do Norte.

Wagner elogiou o “grande potencial do Brasil no que chamaríamos de bioeconomia”, ou seja, óleo diesel refinado de plantas e culturas ecologicamente mais eficientes. De acordo com o espírito economicamente populista que animava os primeiros apelos por um Green New Deal, ele disse que a única maneira de obter apoio para reduzir as emissões seria “soluções estruturais” que “construam uma economia que funcione para todos”.

“É absolutamente crucial que vejamos as mudanças climáticas não apenas como o maior desafio, mas também como uma oportunidade de [gerar] soluções para o nosso desenvolvimento.”

– Izabella Teixeira, ex-ministra brasileira do meio ambiente

Molon apresentou a versão brasileira do Green New Deal na COP26 em Glasgow, Escócia, no ano passado. Em junho, ele apresentou o plano diretamente a Silva e sua equipe ambiental, que supostamente concordaram com o conceito básico.

Da Silva mais tarde divulgou uma série de propostas que se baseavam em ideias semelhantes: como a Reuters informou , seus planos exigiam proteções federais mais fortes de grandes áreas da Amazônia e novos investimentos destinados a promover uma economia brasileira mais verde.

Na última vez que Lula foi presidente, ambientalistas o criticaram por priorizar a economia sobre a Amazônia e os direitos indígenas. Foi seu governo que autorizou a construção da represa de Belo Monte, um controverso projeto hidrelétrico na região amazônica, apesar da forte reação dos defensores dos direitos humanos e das tribos.

No entanto, durante o último governo de Lula, o Brasil se destacou de outras economias emergentes como a única grande nação a reduzir o desmatamento, mantendo um crescimento econômico recorde. Nos anos seguintes, o influxo de áreas queimadas e o aumento das temperaturas globais tornaram esse equilíbrio novamente mais difícil, mas os aliados de Lula enfatizaram que seus objetivos climáticos fazem parte de uma agenda econômica mais ampla – um argumento que eles provavelmente usarão em um esforço para conquistar o Congresso brasileiro e o público.

“Esta é uma agenda de desenvolvimento: o clima faz parte da equação de soluções de desenvolvimento no Brasil”, disse Izabella Teixeira, que atuou como ministra do Meio Ambiente de Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff. “É absolutamente crucial que vejamos as mudanças climáticas não apenas como o maior desafio, mas também como uma oportunidade de [gerar] soluções para o nosso desenvolvimento.”

A ambientalista brasileira Marina Silva, à esquerda, fala ao lado do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva durante uma entrevista coletiva em São Paulo em 12 de setembro de 2022.

A ambientalista brasileira Marina Silva, à esquerda, fala ao lado do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva durante uma entrevista coletiva em São Paulo em 12 de setembro de 2022. MIGUEL SCHINCARIOL VIA GETTY IMAGES

Essa visão, disse ela, pode ajudar o Brasil a “ligar os pontos” entre o clima e outras grandes prioridades de Lula, incluindo seus planos para fortalecer a economia brasileira, combater a pobreza e reduzir as taxas de fome extrema, um problema que ressurgiu durante a pandemia e agora encabeça a lista de preocupações de da Silva.

“[A fome] é um bom exemplo de como podemos melhorar o desempenho climático”, disse ela. “Somos um dos mais importantes produtores de alimentos do mundo e devemos apresentar soluções para a sociedade internacional. Não é apenas uma grande oportunidade para o Brasil desenvolver equações inovadoras para resolver problemas de desenvolvimento e desigualdades sociais, mas também compartilhar nossa tecnologia e soluções com outros países, principalmente no Sul Global.”

Com os olhos do mundo no Brasil, um novo Brasil olha para trás

Dadas as restrições que Lula enfrentará em casa, o tipo de ajuda internacional que secou sob Bolsonaro provavelmente desempenhará um papel crucial para ajudá-lo a cumprir suas promessas. E depois de quatro anos de Bolsonaro, as principais potências do mundo parecem mais do que felizes em receber o Brasil de volta à luta climática.

Na quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil ordenou a retomada do Fundo Amazônia , um mecanismo internacional de financiamento para projetos de proteção florestal, em janeiro, quatro anos depois de Bolsonaro encerrar seus programas mais poderosos. A Noruega e a Alemanha, que congelaram os pagamentos ao fundo em resposta às políticas de Bolsonaro e a um surto recorde de incêndios em 2019, disseram que estão abertos a retomar os pagamentos sob Lula.

“Na verdade, o que estamos vendo na Amazônia é um cenário de faroeste. Esse cenário não vai mudar da noite para o dia.”

– Christian Poirier, diretor de programa da organização sem fins lucrativos Amazon Watch

A União Europeia sinalizou seu otimismo sobre a conclusão de um acordo comercial com o Mercosul – um bloco de nações sul-americanas que inclui o Brasil – que estava suspenso em grande parte devido à oposição do presidente francês Emmanuel Macron às políticas ambientais de BolsonaroE o presidente dos EUA, Joe Biden, que discutiu o clima com Lula durante um telefonema de congratulações esta semana, ainda pode estar aberto a elaborar um pacote de ajuda financeira internacional para ajudar a proteger a floresta.

Mas a viagem de Lula ao Egito esta semana não pretende apenas reforçar o apoio internacional à sua agenda. O Brasil já teve um papel único na luta climática global: foi talvez a única nação do Sul Global que tinha poder, influência e uma parcela grande o suficiente de recursos vitais para abrir caminho para uma posição de liderança entre os maiores países do mundo.

Sob Lula e sua sucessora de esquerda, Dilma, o Brasil normalmente usava essa posição para pressionar as nações ricas a fornecer assistência mais ampla aos países de baixa e média renda na linha de frente da crise climática.

Agora, Lula quer recuperar essa posição quatro anos depois de Bolsonaro abandoná-la. Silva, o ex-ministro do Meio Ambiente, disse a repórteres na semana passada que o Brasil pressionará para fornecer mais ajuda financeira não apenas às nações em desenvolvimento, mas também a grupos da sociedade civil e populações indígenas que estão enfrentando as mudanças climáticas de frente. A cúpula do ano passado prometeu mais dinheiro às tribos indígenas, cujo conhecimento e esforços de adaptação assumiram um papel cada vez maior na luta pelo clima. Mas Silva quer pressionar ainda mais.

O Brasil também renovará seus esforços para fazer parcerias com outras nações tropicais – particularmente a Indonésia e as da Bacia do Congo, na África – que abrigam a maior parte das florestas tropicais do planeta, disse Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores de Lula, a repórteres. O Brasil também trabalhará em estreita colaboração com outras nações da bacia amazônica para reduzir o desmatamento nas regiões da floresta venezuelana, peruana e boliviana, disse Amorim.

Amorim, que também pode ganhar um cargo ministerial no governo de Lula, disse à Reuters em outubro que o Brasil buscaria sediar uma cúpula internacional sobre a Amazônia e disse antes da eleição que o Brasil “lutará” para fortalecer os tratados existentes destinados a proteger a floresta.

A vitória de Lula encerra uma espécie de “maré verde” na América Latina, já que líderes de esquerda que se comprometeram a restabelecer as relações de seus países com a natureza venceram eleições em países que vão do Chile à Colômbia e Honduras. Novos presidentes ambiciosos já encontraram dificuldades para implementar seus planos nessas nações. Mas com a maior e mais importante economia da região a bordo, há pelo menos esperança de que o Brasil possa ajudar a tornar a América do Sul um novo centro de poder nas negociações globais sobre emissões.

“Estou otimista”, disse Astrini, do Observatório do Clima. “Não é apenas melhor que Bolsonaro. É uma situação totalmente nova. Nunca tivemos neste país um presidente falando sobre desmatamento zero, clima e proteção ambiental como estamos vendo agora.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Huffington Post” [Aqui!].

Após estímulo do atual governo e das Forças Armadas à destruição da Amazônia, Brasil deve investir na sociobiodiversidade da floresta

rio amazonicoAgência de Notícias do Acre / Flickr

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Há uma visão dominante entre membros do atual governo de que a Amazônia precisa ser ocupada, de forma rápida e através de atividades agropecuárias e extrativistas, para garantir a soberania do território brasileiro. Tais atividades são defendidas pelas Forças Armadas, influenciada por discursos consolidados no período da ditadura militar, de que a proteção viria da exploração. Esta concepção vai na contramão de uma economia de conhecimento da natureza, que poderia trazer diversos benefícios econômicos, sociais e ambientais ao país, incluindo o combate à criminalidade, a valorização da cultura, o aumento de investimentos estrangeiros para preservação e oportunidades de uso sustentável da floresta. Este panorama é descrito por Ricardo Abramovay, professor sênior na Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado na segunda (31) na revista “Estudos Avançados”.

O artigo traz uma narrativa que, nas palavras de Abramovay, funciona quase como uma denúncia. Trechos de discursos evidenciam a visão do governo brasileiro, resumida na fala do vice-presidente Hamilton Mourão no Webinar Brasil 2020 – 200 anos de Independência: “Uma das maiores questões que ameaça a soberania é a sustentabilidade.” O autor descreve o panorama da precariedade da governança florestal no Brasil, ilustrando a visão governamental e as reações da sociedade civil, ativistas, cientistas, empresas e governos estaduais ao aumento da destruição visto nos últimos anos.

Para Abramovay, tal visão vem do desconhecimento aliado a compromissos políticos e resulta na intensa destruição da Amazônia, acompanhada pelo fortalecimento de atividades ilegais e criminosas. Este processo envolve o desvirtuamento da função das Forças Armadas: “Em vez de protegerem a floresta e as populações da Amazônia, estão, sob o pretexto da soberania nacional, protegendo e estimulando a criminalidade, a destruição da floresta, o tráfico de madeira, o garimpo de ouro e a grilagem de terras.”

O pesquisador cita o combate à criminalidade como um dos possíveis benefícios de olhar a floresta amazônica de forma mais sustentável. O combate à emissão de gases emissores de efeito estufa também seria beneficiado pela redução do desmatamento, uma de suas principais causas. Além disso, a grande sociobiodiversidade das florestas tropicais detém alto potencial de geração de renda, luta contra a pobreza e inovação científica e tecnológica: “Estes militares preconizam formas de uso do território que não são capazes de aproveitar conhecimentos de povos da floresta e aquilo que a ciência hoje tem de mais avançado para dizer a respeito do uso sustentável da biodiversidade”, diz Abramovay.

Diante da destruição acentuada nos últimos anos, ativistas, empresários e outros atores relevantes têm se posicionado a favor de um novo olhar para a Amazônia. Para Abramovay, a unidade crescente entre os diversos setores da sociedade é fundamental neste cenário: “As práticas econômicas destrutivas são norteadas por uma cultura, por um jeito de olhar para o território, que tem de mudar e vai mudar, as vantagens de uma nova visão tem de aparecer e isso é fundamental”.


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Este texto foi originalmente publicado pela agência Bori [Aqui! ].

Outubro registra 13.911 focos de queimadas na Amazônia

O mês também encerra com a marca de 101.215 focos de queimadas no acumulado do ano, número 33% maior do que foi registrado em todo 2021

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O Greenpeace realizou sobrevoos no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas na Amazônia em julho de 2022. © Christian Braga / Greenpeace

Manaus, 1º de novembro de 2022 Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta terça-feira (1º) revelam que o mês de outubro, de 1º a 31 de outubro, registrou 13.911 focos de queimadas no bioma Amazônia, um aumento de 20,4% em relação ao mesmo mês de 2021. Os maiores números de focos foram registrados no estado do Pará com 7.469 (54% do total), seguido pelo Amazonas com 1.503 (11% do total), Maranhão que registrou 1.269 (9% do total), Acre com 1.127 (8% do total) e Mato Grosso com 903 (6%). Já no acumulado do ano, até o dia 31 de outubro, foram 101.215 focos de queimadas registrados.

Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, os números são mais um reflexo do “padrão Bolsonaro”, de destruição, resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que acredita no usufruto dos recursos naturais de forma predatória e que não conversa com a necessidade de frear o desmatamento na Amazônia para conter a crise climática “É icônico que um dia antes do 2° turno das eleições foram atingidos 100.000 focos de queimadas na Amazônia. Isso é o reflexo de todo o descaso do atual governo com a floresta e seus povos. Agora com um novo governo eleito continuaremos trabalhando e cobrando, como fizemos durante todos os governos anteriores, para que a Amazônia, nossa maior riqueza seja protegida, seus povos respeitados e que a paz seja soberana na floresta.”

Os desafios que o governo eleito tem pela frente não são triviais e exigirão a absoluta reconstrução de tudo aquilo que foi enfraquecido pelo atual governo. Também sabemos que boa parte dos parlamentares eleitos para o Congresso Nacional continua representando ameaças à pauta social e ambiental. Será preciso que os compromissos assumidos pelo governo Lula saiam do campo das promessas e sejam concretizados.

Dentre esses desafios, está a reconstrução dos órgãos e as políticas ambientais de fiscalização, preservação e regeneração das nossas florestas e demais ambientes naturais; a garantia dos direitos, territórios e proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais; a produção, distribuição e acesso dos brasileiros à comida de verdade, a um preço justo e sem veneno e recriação de espaços de participação da sociedade civil e a retomada do diálogo com os movimentos sociais.