Tragédia anunciada: Amazônia continua ardendo

A Amazônia brasileira continua sofrendo com o descaso das autoridades públicas, enfrentando novos grandes focos de incêndio que consomem a floresta, símbolo da diversidade da natureza do país.

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Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, se observa um grande aumento das queimadas na ampla floresta amazônica, atraindo fortes críticas da comunidade internacional.

O fogo tem afetado também reservas indígenas, como a do Xingu, na bacia do rio Amazonas, preocupando populações indígenas e ribeirinhas enquanto bombeiros tentam conter o fogo.

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General Mourão adota saída “a la Leão da Montanha” para escapar de responsabilidades na devastação da Amazônia

vice_presidente_mourao-19083985Confrontado com a crise política causada pela devastação acelerada da Amazônia, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tenta uma saída “a la Leão da Montanha”

Li em um informe do “ClimaInfo” que o vice-presidente da república, general Hamilton Mourão, teria se manifestado em uma uma videoconferência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, no sentido de  que “crimes ambientais deixam o Brasil “vulnerável a campanhas difamatórias” que permitem a imposição de barreiras comerciais “injustificáveis” contra os produtos brasileiros no exterior, especialmente aqueles do agronegócio; refutou o papel de “vilão” ambiental que, segundo ele, alguns países querem impor ao Brasil, “em um mundo onde grande parte do hemisfério norte queima petróleo e carvão e quer nos culpar pela poluição atmosférica”.

Tirando em miúdos tudo o que general vice-presidente disse, podemos inferir que os dados de desmatamento não são tão ruins que não possamos lembrar que as economias centrais são dependentes do consumo dos combustíveis fósseis.  Essa é uma daquelas saídas “a la Leão da Montanha” (no caso do general Mourão a saída é obviamente pela direita), pois lembrar do erro alheio jamais poderia servir como desculpa para alguém deixe de explicar seus próprios erros.

Outra coisa que o vice-presidente teria dito é que o desmatamento na Amazônia estaria em ascensão desde 2012, o que de fato estava ocorrendo. Entretanto, isto não anula que sob o governo Bolsonaro o que está ocorrendo é um aumento para além da média histórica (ver figura abaixo).  Tal constatação é básica, mas anula facilmente os argumentos leoninos montanheses do vice-presidente.

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Mas superada a análise numérica, é preciso analisar o argumento de que existem em curso campanhas difamatórias contra o Brasil por causa de, nas palavras do vice-presidente, de criminosos ambientais.  Se verificarmos o sentido jurídico da palavra difamação veremos que isto implica em uma “imputação ofensiva de fato(s) que atenta(m) contra a honra e a reputação de alguém, com a intenção de torná-lo passível de descrédito na opinião pública”.

Pois bem, se alguém tem realizado uma campanha difamatória contra o Brasil, esse alguém é o próprio governo Bolsonaro que em pouco mais de 19 meses de duração já comprometeu gravemente a governança ambiental construída a duras penas a partir de 1973, ano de criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), e praticamente desmantelou as estruturas de comando e controle que impediam a ação desenfreada de predadores da Amazônia que em sua maioria agem na completa ilegalidade.

Mas em vez de abandonar o percurso adotado até aqui, o vice-presidente Mourão, enquanto presidente do chamado Conselho da Amazônia optou por  dar assento a 15 coronéis, sendo 12 do Exército e três da Aeronáutica, um general, dois majores-brigadeiros e um brigadeiro. Para completar essa militarização da gestão ambiental da Amazônia, deixou de fora do conselho os representantes de povos indígenas, quilombolas, pescadores ou outras comunidades tradicionais da região, bem como ignorou a necessidade de dar assento para órgãos chaves como o Ibama e a Funai.

O problema é que em breve a comunidade científica adicionará ainda mais más notícias para o governo Bolsonaro, pois certamente neste momento diversas publicações estão no prelo de revistas internacionais de peso, como a Science e a Nature, para mostrar novos ângulos da devastação em curso na Amazônia. E quando isso acontecer, e deve acontecer em breve, a repercussão será muito mais forte do que já está sendo, pois um dos mitos que devem ser incinerados é aquele que apregoa que a Amazônia brasileira ainda possui em torno de 80% de florestas intactas.

Essa falácia que  o rede BBC  rotulou em artigo bastante  denso de “a grande mentira verde” tem sido o último refúgio dos governantes incautos e irresponsáveis, mas não deverá sobreviver por muito mais tempo. E quando isso acontecer, o vice-presidente Mourão vai aprender que discursos “a la leão da Montanha” não irão resolver os problemas que foram ampliados pelo estilo “passa boiada e de baciada” preconizado pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.  

Aliás, como o vice-presidente certamente assistiu aos episódios do Leão da Montanha, ele deve saber que o simpático leão cor de rosa sempre estava metido em alguma confusão, mesmo sempre tentando ficar longe delas com seu estilo altamente refinado (para os saudosos como eu, posto o clip abaixo com o simpático leão dando uma saída pela direita). 

 

 

Amazônia: alta do desmatamento não é inépcia; é projeto

Alertas de devastação em 2020 têm novo pico, de 9.205 km2, mesmo com Exército na Amazônia; Jair Bolsonaro poderá ser primeiro presidente da história com dois anos seguidos de aumento recorde no corte da floresta

queimadasGrandes queimadas começam a aparecer em Rondônia. Na imagem de satélite da NASA registrada ontem, pode-se ver grandes focos circundando áreas indígenas, como a Karipuna e Uru-Eu-Wau-WAu. São focos de grilagem.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

Somente alguém que tenha chegado ontem de um outro planeta poderia se surpreender com a nova alta nos alertas de desmatamento na Amazônia, que atingiram imorais 9.205 quilômetros quadrados em 2020. A elevação de 34% na velocidade da devastação neste ano, medida pelo sistema Deter, do Inpe, tem dois agravantes: ela vem após um ano que já havia tido o maior desmatamento desde 2008. E ocorreu mesmo após três meses de presença das Forças Armadas na floresta – em tese para combater o desmatamento.

Desde a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, a área de alertas de desmatamento dobrou na Amazônia. Os alertas do Deter são uma subestimativa; a taxa oficial de devastação, dada pelo sistema Prodes, mais preciso, será conhecida apenas no fim do ano. No entanto, se a variação entre os dados do Deter e os do Prodes ficar na média histórica, poderemos ter cerca de 13.000 quilômetros quadrados de desmatamento, a maior taxa desde 2006 e três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. Será também a primeira vez na história que o desmatamento na Amazônia tem duas altas seguidas na casa dos 30%.

dados deter

Acabam de sair dados para o mês de julho do sistema Deter do INPE. Está confirmado: o desmatamento na Amazônia cresce sem controle, mesmo durante a pandemia. Nos últimos 12 meses, o crescimento é de 34% comparado com o mesmo período do ano passado. Foram derrubados 9,2 mil km²

Isso não acontece por incompetência do governo no combate à devastação; acontece porque a agenda do governo Bolsonaro é promover ativamente a devastação. Não é inépcia; é projeto.

Desde o início do governo um amplo grupo de atores – que vai de cientistas a povos indígenas, passando por ex-ministros, organizações ambientalistas, servidores federais e Ministério Público – vem denunciando o desmonte sistemático da governança ambiental brasileira: o fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente, o enterro dos planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a banana dada ao Acordo de Paris, a perseguição a fiscais e a omissão ideológica e ilegal em investir no combate a ilícitos ambientais mesmo tendo quase R$ 2 bilhões em caixa.

Tal conjunto de ações e omissões, que o ministro do Meio Ambiente tão bem sintetizou na infame expressão “passar a boiada”, é o responsável direto pelo descontrole do desmatamento, que transforma o Brasil em pária internacional e ameaça levar embora investimentos no momento em que eles são mais necessários, o de recuperação econômica no pós-pandemia.

Declarações de integrantes do Observatório do Clima

“A explosão do desmatamento na Amazônia tem como causa importante o discurso do Presidente da República, que deslegitima a fiscalização ambiental ao mesmo tempo em que estimula a ocupação da região em modelo predatório. O Ministro do Meio Ambiente segue as ordens de seu patrão. Quem lucra com isso é o desmatador ilegal, o grileiro, o investidor no garimpo sem controle que explora trabalho escravo. Se quisesse controlar o desmatamento, e essa realmente não parece ser a intenção, o governo retomaria o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e reforçaria a atuação do Ibama e outros órgãos ambientais, no lugar de gastar dinheiro com a atuação teatral das Forças Armadas.” – Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do OC

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o governo trabalha para esconder. Combate ao desmatamento se faz com transparência, ciência, áreas protegidas, órgãos especializados eficientes e controle social. Tudo o que Bolsonaro odeia. A política de destruição promovida pelo governo empodera os que lucram com a floresta no chão e ameaça os que lutam para mantê-la em pé, arrastando o Brasil para o atraso. Ao ignorar a importância de conservar nossas riquezas naturais, o governo Bolsonaro impacta de forma negativa os brasileiros, a economia do país e o clima global.” – Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

“Será difícil conter o desmatamento se o governo continuar a intenção de alterar a legislação fundiária para legalizar áreas desmatadas e invadidas ilegalmente. A grilagem de terras públicas é um vetor do desmatamento, que é estimulado com a expectativa de anistia e legalização” – Brenda Brito, pesquisadora-associada do Imazon

“Os dados do Inpe indicam que o Brasil fracassou no cumprimento de sua lei de clima, cuja meta para 2020 era limitar o desmatamento na Amazônia a no máximo 3.925 km2. Isso também nos desvia da rota do Acordo de Paris, o que criará uma série de dificuldades comerciais para o Brasil no período crítico de recuperação econômica no pós-pandemia. O crime tomou conta da Amazônia, incentivado pelo próprio governo Bolsonaro.” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

“A alta nos alertas de desmatamento entre o ano da eleição e este ano é de 101%. Como lembrou um amigo meu, a ex-presidente Dilma Rousseff dizia que quanto atingisse a meta dobraria a meta. Jair Bolsonaro acabou com a meta e dobrou o desmatamento.” – Caetano Scannavino Filho, coordenador do Projeto Saúde e Alegria

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

‘As maçãs podres do agronegócio’: pesquisadores defendem estudo da Science com críticas à produção brasileira

Para grupo, não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal e das invasões de terras públicas no Brasil

desmatamentoEstudo avalia que em Mato Grosso, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar (Marcelo Camargo/ABr)

Um grupo de cientistas do Brasil se uniu para escrever uma carta em defesa do estudo liderado pelo pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado em julho na revista Science. O estudo, intitulado As maçãs podres do agronegócio, na tradução em português, levantou que pelo menos 17% da carne e 20% da soja produzidas nos biomas Amazônia e Cerrado e exportadas para a União Europeia estariam “potencialmente contaminadas” com o desmatamento ilegal.

A pesquisa despertou forte polêmica, sendo questionada por vários segmentos do agronegócio, entre entidades de produtores, representantes do governo e consultores. Essa reação, entretanto é “contraproducente”, de acordo com a carta assinada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, além da Fundação Florestal do Estado de São Paulo (SMA-FF) e também pelo climatologista Carlos Afonso Nobre, que já atuou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaborou com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Para eles, “não há como ocultar a gravidade do desmatamento ilegal, do descumprimento explícito do Código Florestal, das invasões de terras públicas e protegidas, da apropriação de recursos naturais, dos incêndios criminosos, entre outros problemas associados ao mau uso da terra sob a ótica equivocada de expansão crescente e contínua das fronteiras de produção agropecuária. Tais problemas demandam soluções para as quais a Ciência pode, mais uma vez, ser uma importante aliada dos produtores rurais”.

De acordo com os cientistas signatários do documento, a reação do agronegócio ao estudo “despreza as contribuições científicas passadas e atuais para a eficiência e a sustentabilidade da agropecuária”. Além disso, assinalam que “vale lembrar que o Brasil só é uma potência agropecuária hoje, em grande parte, devido aos avanços científicos e tecnológicos”. Ainda segundo o documento, todos os avanços no setor agropecuário – inclusive os ligados à sustentabilidade – foram conquistados com “ciência robusta e ancorada em pesquisas sérias e auditadas”.

Desta forma, reafirmem, a pesquisa liderada pelo professor Rajão e publicada na Science seguiu os mesmos e sérios preceitos. “Como é a prática nessa revista, o estudo passou por um rigoroso escrutínio de vários editores e revisores”, lembram os cientistas, que continuam: “Eles auditaram a metodologia usada, os resultados obtidos e avaliaram se as afirmações contidas no artigo estavam sustentadas na ciência, na realidade de campo e nas análises feitas pelos pesquisadores”.

Ainda de acordo com a carta, as conclusões do estudo publicado na Science “convergem com as de muitos artigos científicos e de levantamentos regulares de dados oficiais feitos no Brasil”. E ainda “são conservadores” em relação à área de fato ilegalmente desmatada no País para a expansão do agronegócio. Segundo os cientistas, o estudo do professor Rajão olha para desmatamentos “comprovadamente ilegais”, e “qualifica provavelmente menos propriedades ilegais do que uma análise mais direcionada apontaria”.

Neste ponto, os pesquisadores discordam de críticas de consultorias do agronegócio, que argumentaram, ao rebater o estudo, que a ilegalidade de áreas desmatadas está “superestimada”, ao deixar de incluir nas análises algumas premissas, “como as autorizações de supressão (florestal) concedidas pelos Estados”. “É importante esclarecer que os números mostrados por este estudo na Science são conservadores”, reafirma a carta. “Por exemplo, visto a ausência de dados de autorizações de supressão de vegetação para todos os Estados, o estudo considerou todos os desmatamentos que respeitam as regras da reserva legal como ‘potencialmente legais’.”

Sob este aspecto, a carta menciona que o estudo avalia que em Mato Grosso – um dos poucos Estados que dispõem de dados -, por exemplo, somente 3% dos imóveis possuíam de fato uma autorização para desmatar, o que tornaria legal a retirada da floresta. “Ou seja, muito do desmatamento que o estudo considerou como ‘potencialmente legal’ na verdade tende a ser ilegal por não ter autorização, como mostra este exemplo do Mato Grosso”, dizem os pesquisadores.

Outro argumento utilizado pelos consultores do agronegócio e que não é factível, conforme a carta agora publicada pelos cientistas, é o de que as propriedades qualificadas no estudo do professor Rajão como “ilegais” poderiam estar compensando passivos florestais em suas propriedades em outras áreas, dentro do mesmo bioma. “Não poderiam, pois, de acordo com o Código Florestal a compensação não pode ser usada para viabilizar novos desmatamentos em propriedades que já tenham passivos”, dizem os pesquisadores.

Um dos signatários da carta, o pesquisador em Sustentabilidade de Cadeias Produtivas na Universidade Católica de Louvain, Tiago N. P. Dos Reis, lembra ainda que o mecanismo de compensação ambiental só pode ser feito em propriedades que desmataram antes do marco temporal definido pelo Código Florestal, de julho de 2008.

“Depois desta data o Código não permite o uso do mecanismo de compensação”, diz. Daí o argumento dos consultores não ser fundamentado, opina ele, reforçando o “conservadorismo” do estudo do professor Rajão. “O estudo publicado na Science foi conservador porque considerou de fato ilegais apenas aqueles produtores que já tinham passivo ambiental (antes de julho de 2008) e mesmo assim continuaram desmatando, ou seja, continuaram atuando na ilegalidade”, explica Reis. “Já para aqueles que tinham ativo florestal e excedente de reserva legal e desmataram depois de julho de 2008, o estudo não considerou como ‘ilegais’, embora eles possam ter desmatado ilegalmente caso o tenham feito sem autorização, o que é muito provável, mas que o estudo desconsiderou.”

Assim, na carta, os pesquisadores são enfáticos (apesar de repetirem que os números de propriedades ilegais do estudo de Rajão serem subestimados): “Logo, as propriedades que o estudo classifica como ‘ilegais’ são indiscutivelmente ilegais, e muitos desmatamentos que o estudo considera como ‘legais’ são potencialmente ilegais. O argumento da superestimativa, portanto está equivocado”.

A carta defende, ainda, que a crítica honesta ao estudo “é essencial para o progresso do conhecimento científico” e que Raoni Rajão e equipe usaram “dados públicos, metodologia aberta, transparente e replicável”. “Todos os resultados do artigo estão disponíveis e acessíveis para avaliação na própria revista Science e no site do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG”, dizem. “Dessa forma, é possível checar as premissas e auditar os dados e cálculos realizados.”

Adicionalmente, os cientistas lembram que “as críticas feitas à boa ciência por parte minoritária do agronegócio, sem argumentos robustos e embasamento, representam uma tentativa de usar o conhecimento científico somente quando for conveniente ou quando esses conhecimentos confirmam suas percepções e visões de mundo” dizem. “No entanto, cabe esclarecer que a Ciência não funciona assim.” E acrescentam: “Confrontar achados científicos com especulações e inverdades pode parecer uma resposta fácil, mas só nos mantém mais afastados das soluções reais e necessárias”.

Por fim, sentenciam que “não há trilha viável” para o agronegócio brasileiro se não forem equacionados seus equívocos e inconsistências legais, ambientais e sociais”. E dizem ainda que “uma grande parte do agronegócio está buscando se adequar de forma responsável às demandas da sociedade por sustentabilidade. Esta parte encontrará apoio no bom conhecimento científico”.

Os pesquisadores que assinam o documento são a professora titular da UnB em Ecologia de Ecossistemas, Mercedes Bustamante; o pesquisador em sustentabilidade de cadeias produtivas na Universidade Católica de Louvain, Bélgica, Tiago N. P. Dos Reis; o pesquisador Gerd Sparovek, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Inteligência Estratégica e Espacial da USP e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo; o professor de Sistemática e Ecologia da Esalq/USP, Ricardo Ribeiro Rodrigues; o pesquisador e climatologista Carlos Afonso Nobre, que teve atuação no Inpe e no IPCC;.

A íntegra da carta pode ser lida [Aqui!

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Este texto foi inicialmente publicado no “Portal Dom Total” [Aqui!]

Greenpeace acusa: JBS não cumpre compromisso de exclusão de desmatadores de sua cadeia de produção

JBS

Um novo relatório do Greenpeace Internacional descreve o impacto do modelo de produção de proteína animal sobre o clima global, apontando para o papel do governo brasileiro e da JBS no agravamento de conflitos sociais e na intensificação do desmatamento na Amazônia.

documento diz que a empresa apresenta um “atraso inaceitável” no cumprimento dos compromissos de combate ao desmatamento assumidos ao longo da última década. Basicamente, a organização denuncia a quebra de compromissos da JBS com a exclusão de desmatadores em sua cadeia de produção.

O relatório também descreve a diminuição da transparência da JBS em relação aos seus fornecedores diretos nos canais próprios de comunicação institucional.

O relatório faz parte de uma campanha promovida pelo Greenpeace do Reino Unido contra a Tesco, a maior rede de supermercados do país, que está sendo pressionada para interromper a venda de carne e laticínios de empresas envolvidas na destruição da Amazônia e do Cerrado em suas lojas.

“Apesar dos múltiplos danos pelos quais é responsável em todo o mundo, o setor industrial de carnes é sustentado por supermercados e empresas de fast food. O Greenpeace pede aos supermercados e cadeias de fast food que se unam ao governo e à sociedade civil em um esforço conjunto para a superação da nossa dependência da carne industrializada e rumo a uma revolução na produção de alimentos e nas dietas que melhorará os resultados individuais da saúde, assegurando o futuro do planeta – seu clima, sua vida selvagem e seu povo”, defende a organização.

No Brasil, o Estadão repercutiu o relatório. No exterior, ele foi tema de veículos como BloombergI-News e The Guardian.

ClimaInfo, 6 de agosto de 2020.

 

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Science: desmatamento ilegal no Brasil sobe em clima de impunidade

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As ruínas de um local ilegal de mineração de ouro em uma reserva Yanomami no norte da Amazônia. O desmatamento no Brasil está aumentando mesmo em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. GUARDIÃO / EYEVINE / REDUX

Por Herton Escobar para a Science

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou bastante no ano passado – novamente. Estimativas previsto para ser lançado esta semana pelo Instituto Nacional  de Pesquisas Espaciais (INPE) irá mostrar clareiras têm aumentado em pelo menos 28% durante o monitoramento atual ano, que vai de agosto a julho, em comparação com o ano anterior.

É a segunda subida íngreme durante o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que cumpriu sua promessa de campanha de afrouxar a aplicação da lei ambiental e acelerar o desenvolvimento na Amazônia.

Os números vêm do Brasil Sistema de Detecção de Desmatamento em tempo real (DETER), que utiliza imagens de satélite de baixa resolução para identificar rapidamente novas clareiras florestais e autoridades de alerta para possível desmatamento ilegal. Mais de 8700 Km2  de cobertura florestal primária já desapareceram das imagens desde agosto de 2019, de acordo com dados atualizados até 23 de julho , em comparação com 6800 km 2 nos 12 meses anteriores. (Os dados da semana final serão divulgados em 7 de agosto; como julho é o período nobre para o desmatamento na maior parte da Amazônia, é provável que o número suba um pouco mais.)

Embora o sistema não identifique as causas do desmatamento, outros estudos mostram que a grande maioria é ilegal, levada a cabo por fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e grileiros que procuram lucrar com a ocupação e exploração das terras florestais públicas.

O desmatamento vem aumentando lentamente no Brasil desde 2013, mas as ações e palavras de Bolsonaro deram um grande impulso. “O desmatamento é uma empresa de alto risco, profundamente conectada às decisões políticas e à retórica que influenciam a percepção desse risco”, diz Raoni Rajão , pesquisador de políticas ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Os desmatadores agora sentem uma sensação de impunidade, diz Rajão. As clareiras estão aumentando em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. Enquanto isso, as operações policiais estão fora do ar e os agentes de campo que combatem os mineradores ilegais foram repreendidos publicamente e submetidos a investigações internas por suas próprias agências.

O DETER é um sistema de alerta e não é otimizado para medições precisas de área, mas os cientistas dizem que ainda é um bom termômetro de desmatamento. No ano passado, no entanto, Bolsonaro chamou as estimativas igualmente preocupantes do DETER de “mentira e demitiu o diretor do INPE , Ricardo Galvão. Números divulgados mais tarde pelo Projeto de Monitoramento por Satélite do Desmatamento na Amazônia, um sistema de resolução mais elevada também operado pelo INPE que produz Brasil dados oficiais de desmatamento, mostrou resultado ainda piores. Eles mostraram que 10.100 Km2 de floresta foram derrubados entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 34% em relação ao ano anterior .

O ressurgimento do desmatamento-de longe a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil- é um desastre para a reputação internacional do Brasil ”, diz Luiz Aragão, chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto do INPE. O país está sob crescente pressão de governos e investidores estrangeiros para proteger a floresta, juntamente com seu carbono e biodiversidade, ou enfrentar consequências diplomáticas e econômicas. Precisamos de mensagens claras e ações decisivas contra essas atividades ilegais”, diz Aragão.” O  Brasil precisa restabelecer sua ordem ambiental se tivermos ambições de crescer economicamente e participar como líder na discussão de questões globais”.

Jair Bolsonaro tomou algumas medidas para proteger a floresta. No início deste ano, ele recriou o Conselho da Amazônia – composto em grande parte por oficiais militares – para supervisionar o desenvolvimento sustentável da região e, em maio, ele autorizou o envio de forças armadas para combater crimes ambientais na região. Outro decreto de 15 de julho tornou ilegal o uso de fogo na Amazônia pelos próximos 4 meses.

A última medida pode de fato ajudar a reduzir o desmatamento, se for aplicada adequadamente. Depois que as árvores são derrubadas, os desenvolvedores precisam queimar a vegetação derrubada para limpar a terra para pastos ou terras agrícolas, diz Rajão. Ele também vê esperança no fato de que a quantidade de floresta derrubada nas primeiras 3 semanas de julho foi menor do que em julho de 2019, embora ainda seja muito maior do que no mesmo mês dos anos anteriores.  Isso pode ser um sinal positivo de que a taxa de desmatamento está diminuindo um pouco”, diz ele.  Mas temos que esperar e ver.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

Sob pressão do Greenpeace, rede inglesa de supermercados demanda ação do governo de Boris Johnson contra desmatamento na Amazônia

A Cadeia de supermercados Tesco está sendo pressionada a abandonar empresa brasileira de carne por supostas ligações ao desmatamento da Amazônia

Em resposta à campanha do Greenpeace para cortar as ligações com a gigante brasileira de carne JBS, a Tesco pediu ao governo de Boris Johnson que garanta que todos os alimentos do Reino Unido sejam livres de desmatamento

 

fogoA JBS afirmou estar comprometida com o fim do desmatamento em toda a sua cadeia de suprimentos. Foto: Christian Braga / Greenpeace

Por Dom Philips para o The Guardian

A Tesco pediu ao governo do Reino Unido que ordene às empresas de alimentos que garantam que todos os alimentos vendidos no Reino Unido sejam livres de desmatamento. A medida vem em resposta a uma nova campanha do Greenpeace pedindo ao supermercado que elimine os vínculos com a JBS, a maior empresa de carnes do mundo, por causa de supostos vínculos com fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia .

O supermercado diz que o Reino Unido deveria introduzir mecanismos diligência nas cadeias de suprimentos para monitorar o desmatamento. A Alemanha também está avaliando uma lei de “diligência devida” sobre cadeias de suprimentos, supostamente apoiada por Angela Merkel . E mais da metade dos britânicos consideraria rejeitar produtos de carne ligados ao desmatamento, segundo uma pesquisa da YouGov para o Greenpeace.

“Hoje pedimos ao nosso governo que ordene às empresas de alimentos, como parte de sua Estratégia Nacional de Alimentos, que introduzam uma estrutura de diligência devida eficaz em todas as cadeias de suprimentos para garantir que todos os alimentos vendidos no Reino Unido sejam livres de desmatamento”, disse o executivo-chefe do grupo Tesco , Dave Lewis, em um comunicado. “Estamos fazendo progressos tangíveis, mas não podemos resolver isso sozinhos”.

Mas a Tesco disse que, embora tenha bloqueado as vendas brasileiras de carne desde 2018, não retirará dois fornecedores de carne pertencentes à JBS. A JBS afirmou estar comprometida com o fim do desmatamento em toda a sua cadeia de suprimentos.

Desmatamento na Amazônia

“A criação de gado é o maior impulsionador do desmatamento na Amazônia”, disse Anna Jones, chefe de florestas do Greenpeace do Reino Unido, descrevendo a maior floresta tropical do mundo como “um grande ecossistema instável que ajuda a regular o clima e desempenha um papel na estabilidade climática”.

A JBS foi vinculada a fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia por cinco vezes em pouco mais de um ano. O investidor Nordea Asset Management retirou a empresa do seu portfólio.

Em 2009, após um relatório do Greenpeace expondo o papel das empresas brasileiras de carne no desmatamento da Amazônia, a JBS e outras empresas brasileiras comprometidas em controlar seus “fornecedores indiretos até 2011. O

Greenpeace disse que a JBS “ainda está abatendo a Amazônia” em um novo relatório lançado na quarta-feira. “A JBS continua com um problema”, disse Jones. “A empresa não tem total transparência.”

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 O gado pasta após um incêndio na floresta amazônica perto de Novo Progresso, Brasil, agosto de 2019. Foto: João Laet / AFP / Getty Images

O Greenpeace também está pedindo à Tesco que reduza pela metade a quantidade de carne que vende até 2025. Uma pesquisa da YouGov constatou que 26% dos entrevistados pensam que os supermercados deveriam vender menos carne e 55% “não considerariam comprar carne de empresas que também compram carne de fazendas no país. áreas que foram recentemente floresta tropical amazônica. ”

A Tesco compra carne de duas empresas controladas pela JBS, Moy Park e Tulip, disse o Greenpeace, que produz carne de porco e frango criados em soja. Ele não disse que essas empresas tinham ligações da cadeia de suprimentos à carne bovina ou soja da Amazônia, mas disse que 68% das 3,2 milhões de toneladas de importações anuais de soja do Reino Unido vêm da América do Sul – um sexto dos quais é usado pela Tesco. A Tesco disse que garantirá que a soja venha de áreas verificadas desmatamento zero até 2025.

Cerca de um quinto da soja exportada para a UE das regiões brasileira da Amazônia e do Cerrado – principalmente para alimentação animal – e pelo menos 17% da carne bovina pode ser proveniente de terras desmatadas, disse um novo estudo publicado na Science.

“Fazer incêndios para limpar a terra para plantio ou pastagem está destruindo habitats preciosos como a floresta tropical brasileira. Isto deve parar. É por isso que apoiamos o objetivo do Greenpeace de impedir o desmatamento na Amazônia ”, disse um porta-voz da Tesco.

Mas o fechamento do Moy Park e Tulip – que também fornece Aldi, Cooperativa, Lidl, Sainsbury e Waitrose – “pode levar a milhares de empregos perdidos, impactar os agricultores britânicos e, finalmente, comprometer nossa capacidade de oferecer carne e frango britânicos frescos aos nossos clientes, Disse Tesco. “Reconhecemos que o Reino Unido como um todo precisa reduzir o consumo de carne e laticínios”.

No Brasil, uma operação militar cara para combater incêndios e desmatamento tem sido amplamente criticada como ineficaz pela mídia brasileira, e o governo Bolsonaro reluta em admitir que tem um problema de desmatamento.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que é capaz de produzir e preservar”, disse a ministra da Agricultura Tereza Cristina Dias em vídeo-discurso à Associação Brasileira do Agronegócio na segunda-feira. “Melhoramos nossa pecuária, reduzindo o uso da terra e aumentando a produtividade”.

Em resposta às alegações do Greenpeace de que a empresa está fornecendo indiretamente gado de fazendas na Amazônia envolvidas no desmatamento, um porta-voz disse: “Todas as empresas subsidiárias da JBS aderem a políticas rigorosas de compras responsáveis ​​em todas as suas cadeias de suprimentos e compartilham nossa dedicação em eliminar o desmatamento para sempre. “

“Temos estado na vanguarda da indústria em medidas para melhorar a rastreabilidade da cadeia de suprimentos no Brasil . Estamos trabalhando em estreita colaboração com os departamentos governamentais nacionais e locais para desenvolver soluções e melhorias de sistema em torno da rastreabilidade da cadeia de suprimentos e das melhores práticas agrícolas para erradicar o desmatamento.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal The Guardian [Aqui!].

IPAM: incêndios na Amazônia não se concentram em áreas já exploradas

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O governo tem tentado minimizar a dimensão das queimadas usando alguns agentes da Embrapa que afirmam que 90% dos focos de calor registrados na Floresta Amazônica em 2019 ocorreram em áreas já desmatadas, o que dissociaria essas ocorrências da derrubada de novas áreas no mesmo período. O IPAM mostrou que esse número não se sustenta.

Segundo relata André Borges no Estadão, uma nota técnica do IPAM mostra que, em 2019, 30% dos focos registrados na Amazônia foram incêndios em áreas protegidas, e 34% estiveram associados a desmatamentos recentes. A maior parte (36%) esteve de fato relacionada com manejo agropecuário, mas em uma proporção muito abaixo da apontada pela Embrapa. “Pode-se observar pouca variação proporcional entre 2016 e 2018 (média de 42%), mas a taxa cai em 2019, para 36%, devido ao aumento do fogo em área de desmatamento recente”, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela nota à reportagem.

O argumento levantado pelo governo ressalta o principal problema enfrentado por Mourão e equipe na atual crise Amazônica: enquanto o desafio das queimadas e do desmatamento exige ação concertada, planejada e efetiva, Brasília oferece respostas improvisadas e dissociadas de experiências passadas bem-sucedidas.

No Valor, Daniela Chiaretti destacou as impressões de Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atualmente no Observatório do Clima (OC), que defende que o governo retome o Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), a “principal ferramenta” que permitiu ao Brasil controlar as taxas de desmatamento em gestões passadas. Ela apontou também que a solução dessa questão passa pela “reversão do discurso governamental do presidente Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles e de outras autoridades, de falar contra a fiscalização ambiental, deslegitimar os fiscais e as sanções ambientais”.

Em tempo: A alta das queimadas na Amazônia registrada em julho foi destaque na imprensa internacional nos últimos dias. Veículos como BBC News, The TimesReutersDeutsche WelleAssociated PressPhysAFP e Al-Jazeera, entre outros, repercutiram essa informação no exterior.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

BBC faz sobrevoo e mostra escala das destruição da Amazônia brasileira por queimadas

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A rede BBC publicou ontem uma matéria sobre o aumento explosivo das queimadas na Amazônia brasileira que deverão ocorrer em número recorde em 2020.  A rede inglesa mostrou, usando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que ao longo do mês de julho, o número de queimadas na Amazônia atingiu o estratosférico número de 6.803 focos de incêndio, o que representou um aumento de 28% em relação ao ocorrido em 2019.

bbc amazonia

Como os principais meses para a realização de queimadas ainda estão por vir, o mais provável é que outros recordes irão ser batidos em termos de queimadas e de desmatamento, em uma clara demonstração de que a política do “passa boiada” do governo federal, encabeçada pelo improbo Ricardo Salles, está funcionando muito bem para a alegria de aliados paroquiais do presidente Jair Bolsonaro.

O problema é que o sucesso interno já suscitou uma série de reações negativas no plano externo, incluindo os anúncios do megafundo de investimentos Nordea e a da gigante chinesa  Cofco International Ltd que estão cobrando uma mudança de rumo no controle do desmatamento e já anunciaram uma série de medidas que deverão atingir em cheio a combalida economia brasileira.

Essas reações deverão ser aumentadas quando imagens como as mostradas no vídeo abaixo, incluída na matéria da BBC, atingir não apenas os segmentos compostos por ecologistas e ambientalistas, mas também os acionistas de grandes fundos de investimento que estão, como o Nordea, cobrando uma ação mais diligente do governo Bolsonaro para conter a destruição em curso na Amazônia.

Eu fico me perguntando porque foi preciso que o correspondente de uma rede estrangeira fazer um sobrevoo no norte de Rondônia para mostrar o que está em curso na Amazônia neste momento. A única razão para essa omissão de informar a população brasileira se deve ao fato de que os donos da mídia brasileira são fiadores da política de destruição ambiental comandada por Ricardo Salles e Jair Bolsonaro.

Nunca é demais avisar que a consolidação da imagem de pária ambiental do Brasil será desastrosa. Mas parece que isso não sensibiliza o presidente Jair Bolsonaro ou quem quer que seja dentro do seu governo. O que parece existir é uma aposta arriscada de que a dependência global das commodities brasileiras irá fazer com que os discursos de preocupação na passe de discurso de fachada.  Os dados dessa aposta estão rodando na mesa. Resta-nos esperar para ver se quem pressiona o Brasil para mudar o seu rumo está apenas blefando.

Amazônia registra recordes de focos de calor em julho

Com falta de fiscalização e inteligência no combate aos danos ambientais, queimadas em Terras Indígenas registraram aumento de 76%

unnamed (6)Imagem de satélite do estado do MT mostrando queimada ocorrendo no dia 30 de julho

Manaus, 01 de agosto de 2020 – No dia 30 de julho, a Amazônia registrou mais um triste recorde: 1.007 focos de calor em um único dia. Esse é o número mais alto registrado no mês de julho desde 2005. Neste mesmo dia, no ano passado, foram 406 focos. Agora, dados consolidados de julho mostram um aumento expressivo nos focos de calor.

“O fato de ter mais de mil focos de calor em um único dia, recorde dos últimos 15 anos para o mês de julho, mostra que a estratégia do governo de fazer operações midiáticas não é eficaz no chão da floresta. Somente em julho, foram registrados 6.804 focos de calor na Amazônia, um aumento de 21,8% quando comparado ao mesmo mês do ano passado. A moratória, que proíbe no papel as queimadas, não funciona se não houver também uma resposta no campo, com mais fiscalizações. Afinal, criminoso não é conhecido por seguir leis. Assim como a GLO aplicada sem estratégia e sem conhecimento de como se combate as queimadas, também não traz os resultados que a Amazônia precisa”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil aponta que dos focos de calor registrados em julho, 539 foram dentro de Terras Indígenas, um aumento de 76,72% em relação ao ano passado, quando foram mapeados 305 focos. Além disso, 1.018 atingiram Unidades de Conservação, um aumento de 49,92% em relação ao mesmo período do ano passado.

Deforestation and Fire Monitoring in the Amazon in July, 2020
Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em Julho de 2020

Hotspot próximo a uma área desmatada registrada pelo Prodes (Projeto Brasileiro de Monitoramento de Satélites na Amazônia), em Nova Maringá, Mato Grosso.

“O desmatamento precisa ser combatido durante todo o ano, principalmente considerando que as queimadas na Amazônia não são resultado de um fenômeno natural, mas da ação humana. O fogo é uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e agricultores, que o usam para limpar áreas para uso agropecuária ou especulação. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e o desmantelamento dos órgãos ambientais. Estamos observando uma tendência de alta nas queimadas neste ano. Além da ameaça do coronavírus, com a temporada de fogo, os povos indígenas estarão ainda mais vulneráveis, pois a fumaça e a fuligem das queimadas prejudicam ainda mais sua saúde”, completa Rômulo.

Acesse imagens de queimadas da Amazônia em 2020 aqui

Assessoria de imprensa do Greenpeace Brasil:

Rebecca Cesar, (11) 95640-0443, rebecca.cesar@greenpeace.org