Para além das ilusões da COP30, a necessidade de organizar a luta climática em novos marcos

Por Marcos Pedlowski para o “Jornal Nova Democracia” 

Em março deste ano, escrevi uma espécie de artigo premonitório sobre o fracasso que seria realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Naquele texto alinhavei uma série de fatores que me permitiam traçar um cenário pouquíssimo otimista para este que é uma espécie de megaevento climático.

O problema é que passados sete meses, as minhas conjecturas estão sendo ultrapassadas pela realidade objetiva dos fatos. Um exemplo foi a concessão da licença ambiental para exploração de petróleo e gás na Foz do Rio Amazonas.  Vários comentaristas mais informados do que eu sobre as entranhas deste processo, já mostraram que um dos erros capitais ocorridos nas análises feitas pelos técnicos do Ibama foi utilizar dados fornecidos pela própria Petrobras para as estimativas de impactos relacionados às intercorrências que são muito comuns nas atividades petrolíferas.  Usar os dados da Petrobras equivale a dar a chave do galinheiro para a raposa tomar conta das galinhas. Mas a ministra Marina Silva preferiu se manifestar dizendo que a decisão da equipe técnica do Ibama havia sido “técnica”, o que nem uma criança recém-entrada no jardim de infância acredita. 

Mas os problemas da licença concedida não acabaram, apenas começaram. É que a direção da Petrobras agora postula a inclusão de mais três poços exploratórios na licença ambiental para perfuração na bacia da Foz do Amazonas.  A solicitação teria sido feita em 24 de outubro de 2025, e ocorreu após a empresa obter a aprovação para iniciar a perfuração do primeiro poço na região. Aqui já seria o caso do “passa um boi, passa uma boiada”, e se concretizado representará um avanço acelerado para o início das atividades de extração, ignorando todos os riscos que isto representa.

Uma coisa que nunca é mencionada publicamente, seja pela Petrobras ou por qualquer ministro do governo Lula, se refere ao montante de emissões de CO2 possíveis, caso as melhores expectativas das reservas na Foz do Amazonas sejam confirmadas e que todo este montante seja efetivamente explorado.  Se usarmos a estimativa de ~30 bilhões de barris associada à Margem Equatorial e o fator padrão de combustão de ~0,4319 tCO₂ por barril, a queima desse petróleo corresponderia a ≈ 13,0 gigatoneladas de CO₂ (≈12,96 GtCO).  Há que se lembrar que ~13 GtCO₂ é um valor enorme: já que representa aproximadamente um terço das emissões anuais globais atuais (ordem de grandeza ~37–38 GtCO₂/ano em 2024).

O presidente Lula em sua face para exportação, aquela em que ele se mostra um paladino da adaptação para as mudanças climáticas em curso, desconversa e continua tentando vender uma variante diversionista que é a conservação das florestas brasileiras como receita para o combate à aceleração do aquecimento da Terra. Eu digo que mesmo o suposto compromisso com a conservação das florestas é diversionista por um motivo simples. O compromisso objetivo do governo Lula é com um modelo que eu chamo de economia agromineral. Por um lado, se incentiva a exploração de petróleo e gás, enquanto se financia de maneira nada frugal a produção de commodities agrícolas, inclusive às custas do que ainda resta de florestas na Amazônia e no bioma do Cerrado. Basta ver os valores alocados para o Plano Safra de 2025/2026 que entregou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial , enquanto reservou apenas 78,2 bilhões são para a agricultura familiar.  Em outras palavras, enquanto muitos se chocaram com o mote de campanha do presidente Donald Trump, o “Drill, Baby Drill” (Perfura, bebê Perfura!), pouco se fala que para Lula o mote correto “Perfura e desmata, bebê Perfura e desmata! 

Por outro lado, vários estudos científicos já estão mostrando que, por causa do aquecimento acelerado da atmosfera, as florestas tropicais estão passando da condição de sumidouros para emissoras de carbono. Com isso, a soma total das emissões anuais de CO tenderia a aumentar ainda mais rapidamente.  Para piorar, há uma crescente concordância na comunidade científica de que as florestas estão se tornando mais combustíveis e que grandes incêndios florestais vão continuar ocorrendo e em número e intensidade cada vez maiores. 

Diante deste contexto fático, voltemos então às chances da COP30 não ser um fracasso completo. Eu diria que as chances são agora negativas.  Um elemento que garante isso é que cerca de um mês do início do evento,  apenas 87 delegações já confirmaram ter hospedagens garantidas em Belém. Além disso, há que se lembrar que até o momento apenas 162 países confirmaram presença na COP30, um número abaixo do que ocorreu na COP21 realizada em Paris quando 190 países estiveram presentes. Assim, o que temos diante de nós é um abandono tácito desta arena de debates em prol de um compromisso explicito com a aceleração do modelo de economia fóssil que está na raiz dos problemas que as COPs nunca sequer arranharam. 

Recentemente fui perguntado por uma ativista ambiental se valeria a pena ir para Belém para participar dos eventos paralelos que ocorrerão durante a COP30.  Eu respondi que dados os custos elevados de transporte e hospedagem e a futilidade que é dar uma roupagem cívica à COP30, o melhor seria apostar em eventos locais que ocorrerão em diversos estados brasileiros que formam uma espécie de anti-COPs. Um exemplo é o “Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo fim dos Genocídios” que deverá ocorrer na cidade do Rio de Janeiro entre 20 e 23 de novembro sob os auspícios de ativistas ambientais, cientistas e organizações de esquerda.  Considero que este tipo de evento deverá gerar mecanismos de organização muito mais sólidos e efetivos do que qualquer coisa que seja decidido em Belém. É que seguir apostando nas soluções propostas por quem está na raiz do problema já se mostrou um completo e rotundo fracasso.

A saída para o colapso climático que se avizinha terá de ser inevitavelmente pela esquerda. Afinal de contas, como disse e escreveu a física e filósofa alemã e membro do IPCC, Friederike Otto, a crise climática envolve questões de gênero, raça e classe. Assim, quanto antes a luta climática se der nesses termos, maiores serão as nossas chances de enfrentar o futuro que se avizinha.


Fonte: Nova Democracia

Brasil: Fazendas ilegais devastam florestas tropicais e meios de subsistência para garantir suprimento de carne da JBS

Carne bovina e couro contaminados da Amazônia podem ter sido exportados para a Uniao Europeia (UE) 

(São Paulo, 15 de outubro de 2025) – A pecuária ilegal tem devastado os territórios de pequenos agricultores e povos indígenas no Pará, estado que sediará a COP30 deste ano, afirmou a Human Rights Watch em relatório divulgado hoje. A JBS, maior empresa de carnes do mundo, pode ter exportado para a União Europeia carne bovina e couros produzidos com gado proveniente de fazendas ilegais na região.

O relatório de 86 páginas intitulado ” Contaminado: A Exposição da JBS e da UE a Violações de Direitos Humanos e Desmatamento Ilegal no Pará, Brasil  detalha como pecuaristas se apropriaram ilegalmente de terras e devastaram os meios de subsistência de moradores legais no assentamento Terra Nossa e na Terra Indígena Cachoeira Seca, afetando seus direitos à moradia, à terra e à cultura. A análise da Human Rights Watch de fontes oficiais mostra que fazendas ilegais nessas áreas vendiam gado a diversos fornecedores diretos da JBS. 

“A JBS ainda não possui um sistema para rastrear seus fornecedores indiretos de gado, apesar de ter prometido que o implementaria já em 2011”, disse Luciana Téllez Chávez , pesquisadora sênior de meio ambiente da Human Rights Watch. “Sem ele, a empresa não pode cumprir seu compromisso de eliminar o desmatamento de suas terras.cadeia de mantimentosaté o final de 2025.”

Por meio da análise de autorizações de transporte de gado emitidas pelo governo do estado do Pará, a Human Rights Watch identificou cinco casos em que fazendas ilegais em Terra Nossa e Cachoeira Seca forneciam gado para fazendas fora dessas áreas protegidas e, posteriormente, essas fazendas vendiam gado para frigoríficos da JBS. As fazendas de gado investigadas nesses territórios são ilegais segundo a legislação federal brasileira.

A agência de reforma agrária do Brasil criou o assentamento rural Terra Nossa para pequenos agricultores em 2006. As famílias deveriam cultivar a terra, colher frutas e nozes da floresta tropical – que inicialmente constituía 80% do assentamento de 150.000 hectares – e vender seus produtos nos mercados locais.

No entanto, fazendeiros têm invadido ilegalmente a Terra Nossa. Eles têm retaliado violentamente contra aqueles que se opõem a eles. Em 2023, 45,3% do assentamento havia sido convertido em pasto.

A partir de 2016, a agência de reforma agrária realizou um levantamento do assentamento, encontrando 78,5% da área ocupada ilegalmente. No entanto, durante anos, não tomou medidas para remover as fazendas ilegais. A agência está considerando um plano para dividir o assentamento e revisar seu status, o que provavelmente perpetuaria a impunidade para criminosos ambientais.

Em Cachoeira Seca, o povo indígena Arara depende da floresta tropical em seu território de 733.000 hectares. O governo federal é legalmente obrigado a remover ocupantes não indígenas. Em vez disso, fazendeiros estabeleceram mais fazendas de gado ilegais, reduzindo assim a disponibilidade de caça e produtos florestais, restringindo a movimentação dos povos indígenas em seu próprio território e minando seus direitos culturais. Cachoeira Seca registrou a maior área desmatada em uma terra indígena na Amazônia brasileira em 2024.

A JBS não rastreia sistematicamente seus fornecedores indiretos e não pode garantir que gado contaminado não tenha entrado em seucadeia de mantimentos, afirmou a Human Rights Watch. Não há exigência federal para rastrear o gado individualmente enquanto ele se move pelas diversas fazendas no Brasil.

Em correspondência com a Human Rights Watch, a JBS afirmou que monitora as fazendas de seus fornecedores diretos para garantir que cumpram sua política de compras. A empresa também declarou que, a partir de 1º de janeiro de 2026, será obrigatório que os fornecedores diretos forneçam informações sobre seus fornecedores.

O governo do Pará anunciou que estabelecerá um sistema individual de rastreabilidade de gado até 2026, e autoridades informaram à Human Rights Watch que, de forma geral, suspenderão a emissão de autorizações para movimentação de gado em florestas protegidas. O governo federal anunciou um plano para implementar um sistema nacional individual de rastreabilidade de gado até 2032. Dada a dinâmica transfronteiriça do comércio ilegal de gado, uma implementação lenta do sistema federal provavelmente sabotará o progresso, afirmou a Human Rights Watch.

15696189-ac39-4796-bcb8-66eab3fe5941

 
© 2025 Human Rights Watch

Os países da UE devem aplicar o Regulamento de Produtos Livres de Desmatamento a partir de janeiro de 2026. A lei proibiria a comercialização de produtos bovinos no mercado da UE se fossem originários de terras desmatadas após 2020 ou se a produção violasse as leis nacionais do país de origem. Os legisladores da UE estão discutindo o adiamento da aplicação em um ano. Um atraso permitiria que commodities contaminadas continuassem a fluir para o mercado único e colocaria em questão o compromisso da UE em combater sua pegada global de desmatamento, afirmou a Human Rights Watch. 

A Human Rights Watch analisou dados comerciais entre 2020 e 2025, descobrindo que Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda, Holanda, Espanha e Suécia importaram carne bovina dos municípios que abrigam as instalações da JBS identificadas neste relatório, enquanto a Itália foi um importante destino para produtos de couro.

O governo brasileiro deve remover fazendas ilegais e buscar indenização contra os responsáveis ​​pela ocupação e uso ilegal de terras nas comunidades afetadas. O governo federal também deve acelerar a implementação e a aplicação efetiva de um sistema de rastreabilidade do gado.

A JBS deve tomar medidas para remediar qualquer fraude fundiária, desmatamento ilegal ou abusos de direitos humanos aos quais a empresa possa ter contribuído – mesmo que involuntariamente – em Terra Nossa e Cachoeira Seca.

“Combater o desmatamento e as violações dos direitos humanos inerentes às cadeias de fornecimento de gado é uma responsabilidade compartilhada entre vendedores e compradores”, disse Téllez Chávez. “O Brasil e a UE devem trabalhar juntos para proteger a floresta tropical e defender os direitos das comunidades que dela dependem.” 


Fonte: Human Rights Watch 

 

Salto recorde de CO2 atmosférico alimenta temores de aquecimento global acelerado

O CO2 no ar atingiu um novo recorde no ano passado, com cientistas preocupados com o enfraquecimento dos sumidouros naturais de carbono em terras e oceanos 

O aumento das emissões de CO2 impactará o planeta por centenas de anos devido à longa vida útil do gás na atmosfera. Fotografia: Charlie Riedel/AP

Por Damian Carrington para “The Guardian”

Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera atingiram um nível recorde em 2024 e atingiram outro recorde, mostram dados da ONU, aprofundando a crise climática que já está ceifando vidas e meios de subsistência em todo o mundo.

Cientistas estão preocupados que os “sumidouros” naturais de terra e oceano que removem CO 2 do ar estejam enfraquecendo como resultado do aquecimento global, o que pode formar um círculo vicioso e aumentar as temperaturas ainda mais rápido.

A concentração média global do gás aumentou 3,5 partes por milhão para 424 ppm em 2024, o maior aumento desde que as medições modernas começaram em 1957, de acordo com o relatório da Organização Meteorológica Mundial.

Vários fatores contribuíram para o aumento do CO2 , incluindo mais um ano de queima incessante de combustíveis fósseis, apesar do compromisso assumido pelos países do mundo em 2023 de “abandonar” o carvão, o petróleo e o gás. Outro fator foi o aumento de incêndios florestais em condições que se tornaram mais quentes e secas devido ao aquecimento global. As emissões de incêndios florestais nas Américas atingiram níveis históricos em 2024 , o ano mais quente já registrado.

No entanto, os cientistas estão preocupados com um terceiro fator: a possibilidade de os sumidouros de carbono do planeta estarem começando a falhar. Cerca de metade de todas as emissões anuais de CO2 são retiradas da atmosfera por meio da dissolução no oceano ou da absorção por árvores e plantas em crescimento. Mas os oceanos estão ficando mais quentes e, portanto, podem absorver menos CO2, enquanto em terra firme, condições mais quentes e secas e mais incêndios florestais significam menos crescimento vegetal.

Já se sabia que os sumidouros de carbono eram menos eficazes em anos de El Niño, como 2023 e 2024, quando mudanças nos ventos do Pacífico e nas correntes oceânicas levam a temperaturas globais mais altas. Mas o aquecimento global causado pelo homem já elevou as temperaturas médias mundiais em cerca de 1,3°C, e pesquisadores, que registraram uma ” falha sem precedentes no sumidouro terrestre ” em 2023 e 2024 , temem que isso possa estar enfraquecendo os sumidouros.

A Dra. Oksana Tarasova, autoridade científica sênior da OMM, afirmou: “Há preocupações de que os sumidouros de CO2 terrestres e oceânicos estejam se tornando menos eficazes, o que aumentará a quantidade de CO2 que permanece na atmosfera, acelerando assim o aquecimento global. O monitoramento sustentado e reforçado dos gases de efeito estufa é fundamental para a compreensão desses ciclos.”

O aumento das emissões de CO 2 não só impacta o clima global hoje, mas continuará assim por centenas de anos devido à longa vida útil do gás na atmosfera, diz a OMM.

Ko Barrett, secretário-geral adjunto da OMM, afirmou: “O calor retido pelo CO₂ e outros gases de efeito estufa está turbinando nosso clima e levando a eventos climáticos mais extremos. Reduzir as emissões é, portanto, essencial não apenas para o nosso clima, mas também para a nossa segurança econômica e o bem-estar da comunidade.”

As concentrações atmosféricas de metano e óxido nitroso – o segundo e o terceiro gases de efeito estufa mais importantes relacionados às atividades humanas – também atingiram níveis recordes em 2024.

Cerca de 40% das emissões de metano provêm de fontes naturais. Mas os cientistas estão preocupados com o fato de o aquecimento global estar levando a uma maior produção de metano em áreas úmidas , outro potencial ciclo de retroalimentação. O restante provém da exploração de combustíveis fósseis ; da pecuária, como o gado; de resíduos em decomposição em aterros sanitários ; e de arrozais. As emissões de óxido nitroso causadas pelo homem incluem aquelas provenientes do uso excessivo de fertilizantes por agricultores e de alguns processos industriais.

A OMM divulgou seu boletim anual de gases de efeito estufa um mês antes da COP30 , a cúpula climática da ONU em Belém, Brasil, onde representantes de vários países do mundo tentarão intensificar a ação climática. Os dados vêm de uma rede de 500 estações de monitoramento ao redor do mundo.


Fonte: The Guardian

Estudo mostra relação entre exportações de carne bovina brasileira e desmatamento

O Trase mapeia as cadeias globais de suprimentos de commodities agrícolas, fornecendo insights sobre como os mercados consumidores estão vinculados ao desmatamento e outros impactos ambientais por meio de suas importações. Este guia explicativo sobre a carne bovina brasileira apresenta os resultados da nossa análise dos dados mais recentes de 2021, 2022 e 2023  

Desmatamento da carne bovina brasileira

Área desmatada dentro da Floresta Nacional do Jamaxin em Novo Progresso, Pará (Foto: Bernardo Camara/((o))eco)

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para “Trase”

O Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial de carne bovina. Em 2023, produziu 12,9 milhões de toneladas (Mt) de carne bovina, representando cerca de 20% das exportações globais . O setor de carne bovina do Brasil é um dos principais contribuintes para a economia do país, sendo responsável por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e cerca de 8,9 milhões de empregos em 2024. A criação de gado ocorre em todas as regiões do Brasil, mas a capacidade e a produção dos frigoríficos estão concentradas nas regiões Centro-Oeste e Norte do país.

A produção de gado bovino concentra-se nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.
Mapa da produção de gado bovino (toneladas de peso de carcaça) no Brasil por município em 2023.

Desmatamento e produção de carne bovina

A análise da Trase mostra que o desmatamento e a conversão anual de vegetação nativa associados à expansão de pastagens aumentaram de 5,5 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 7,5 Mha em 2023, um aumento de mais de 36% em quatro anos. A produção de carne bovina aumentou 15% no mesmo período, aproximadamente metade da taxa de aumento do desmatamento e da conversão. Juntos, esses números implicam uma maior intensidade de desmatamento (hectares de desmatamento por 1.000 toneladas de produção) em 2023 do que em 2020, especialmente na Amazônia. Por exemplo, em 2020, 893 ha de vegetação nativa foram convertidos para cada 1.000 toneladas de gado produzido. Esse número aumentou para 1.300 ha em 2023, um aumento de 50% na intensidade de desmatamento em menos de 10 anos.

O desmatamento por tonelada de produção de gado aumentou, especialmente na região amazônica brasileira.
Intensidade anual de desmatamento (hectares de desmatamento por mil toneladas de produção) no Brasil e seus principais biomas produtores de gado.

Uma grande proporção do desmatamento e da conversão de pastagens ocorreu na Amazônia. Entre 2018-20 e 2021-23, o desmatamento médio anual no bioma aumentou 54% (300.000 ha). O desmatamento no Pantanal também aumentou, embora partindo de uma base mais baixa, enquanto o Cerrado diminuiu ligeiramente. Desde 2017, o desmatamento brasileiro para a pecuária tem se deslocado acentuadamente para a Amazônia (62% da participação nacional em 2023 contra 40% em 2017). Pontos críticos recentes de desmatamento concentram-se ao longo das rodovias BR-163 e Transamazônica (sudoeste do Pará, norte do Mato Grosso, Rondônia).

A maior parte do desmatamento tende a se concentrar em um número relativamente pequeno de municípios. Apenas 61 municípios no Brasil foram responsáveis ​​por 50% do desmatamento para pastagem de gado em 2023. Juntos, esses municípios são responsáveis ​​por apenas 11% da produção de gado naquele ano. Apenas quatro municípios, Altamira (Pará), Porto Velho (Rondônia), São Félix do Xingu (Pará) e Lábrea (Amazonas), foram responsáveis ​​por 12% do desmatamento e conversão de pastagens no Brasil em 2023. Isso sugere que concentrar ações em pontos críticos poderia reduzir significativamente o desmatamento e a conversão, com impacto relativamente baixo na produção de gado.

Os dados da Trase utilizados nesta análise abrangem o período de 2020 a 2023. Dados de monitoramento por satélite de 2024 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (PRODES) mostram que o desmatamento caiu 31% na Amazônia e 26% no Cerrado. A redução é atribuída às medidas de controle da perda florestal adotadas pelo governo federal desde 2023, em contraste com a política de enfraquecimento da proteção florestal do governo anterior. Esses resultados serão registrados em futuras atualizações dos dados da Trase.

Principais focos de aumento do desmatamento vinculados à produção de carne bovina no Brasil
Taxa de variação anual (%) do desmatamento e conversão para pastagem (2015–2023) nos municípios que responderam por 95% da produção de carne bovina em 2023. Quanto maior o valor, maior o aumento do desmatamento recente.

Mercados e comerciantes

Embora cerca de 70% da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a participação das exportações cresceu na última década. A China é o principal mercado exportador da carne bovina brasileira, respondendo por 59% em 2023, seguida pelos Estados Unidos (8%) e pela União Europeia (5%). A China também é o mercado exportador com maior exposição ao desmatamento, aumentando de 124.000 ha em 2015 para 564.000 ha em 2023.

As importações de carne bovina brasileira pelos EUA têm aumentado de forma constante desde 2019 devido ao aumento da demanda. Os volumes aumentaram de 74.500 (2015) para 264.000 toneladas (2023), e a exposição associada ao desmatamento aumentou de 1.700 ha para 52.900 ha.

A participação da UE nas exportações de carne bovina do Brasil caiu nos últimos anos para 3% em 2023. Sua exposição média ao desmatamento entre 2015 e 2023 foi de cerca de 28.000 ha por ano, com uma participação média global de 5%. Em termos absolutos, a exposição da UE ao desmatamento foi de 25.000 ha em 2015 e 27.000 ha em 2023.

As importações chinesas de carne bovina brasileira apresentam a maior exposição ao desmatamento
Participação global anual (%) da exposição ao desmatamento (2015-2023) dos cinco maiores importadores de carne bovina brasileira em 2023.

As três maiores tradings, JBS, Marfrig e Minerva, aumentaram suas exportações em cerca de 43% entre 2015 e 2023, enquanto sua exposição combinada ao desmatamento aumentou 44%. Juntas, elas representam 67% das exportações em 2023 e 54% da exposição ao desmatamento e conversão. De acordo com seus próprios relatórios, as exportações representam 24%, 39% e 57% da carne bovina fornecida pela JBS , Marfrig e Minerva , respectivamente. O volume restante foi consumido internamente. Os resultados mostram que essas três tradings de carne bovina têm considerável influência na redução do desmatamento associado às exportações de carne bovina.

A participação da JBS na exposição total ao desmatamento caiu de mais de 37% em 2015 para 29% em 2023. A participação da Minerva permaneceu praticamente estável no período, enquanto a da Marfrig aumentou de 10% para 12%. Embora sua participação coletiva na exposição tenha diminuído, a exposição absoluta atribuída a esses traders ainda aumentou, refletindo a expansão geral das exportações, especialmente para a China.

JBS é a empresa mais exposta ao desmatamento devido às suas exportações de carne bovina brasileira
Participação global anual (%) de exposição ao desmatamento (2015-2023) das três maiores empresas exportadoras de carne bovina brasileira em 2023.

Compromissos da empresa com desmatamento e conversão zero (ZDCs)

As ZDCs no setor bovino compreendem o Compromisso Público da Pecuária firmado pelos maiores frigoríficos que operam na Amazônia, também conhecido como acordo G4, e o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para carne bovina, que abrange outros frigoríficos na Amazônia. Segundo ambos os acordos, os frigoríficos não podem comprar gado de fazendas com desmatamento na Amazônia após 2009. No entanto, enquanto o acordo G4 compromete as empresas a prevenir qualquer desmatamento, o TAC exige apenas a prevenção do desmatamento ilegal. Há também um número crescente de compromissos corporativos individuais abrangendo o Cerrado e outros estados da Amazônia onde os TACs não estão disponíveis, como Maranhão e Tocantins.

A partir de 2015, a cobertura das ZDCs expandiu-se substancialmente. Em 2015, a maior parte da carne bovina (70%; 1,42 Mt) não foi produzida e exportada sob qualquer compromisso, enquanto o TAC cobriu 25% (0,51 Mt) e o G4, 4% (0,09 Mt) dos volumes de carne bovina. Em 2023, ocorreu o oposto: cerca de 70% da carne bovina foi coberta pelas ZDCs, com os compromissos das empresas aumentando para 40% (1,26 Mt) e o TAC para 29% (0,91 Mt).

Os compromissos de desmatamento zero aumentaram para cobrir a maior parte das exportações de carne bovina brasileira.
Volume de carne bovina exportada por empresas com ou sem compromissos de desmatamento zero e conversão, 2015–2022.

Emissões de gases de efeito estufa

As emissões brutas de gases de efeito estufa associadas às exportações de carne bovina brasileira aumentaram na última década de 168 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015 para 380 Mt CO₂-eq em 2023 – um aumento de cerca de 46%.

A maior parte das emissões provém do desmatamento e da conversão na Amazônia. Em 2023, a Amazônia foi responsável por 73% do desmatamento relacionado a pastagens no Brasil (138 Mt CO₂-eq), enquanto o Cerrado contribuiu com 22% (41 Mt CO₂-eq) e o Pantanal com 3,6% (6,7 Mt CO₂e). As emissões do Cerrado permaneceram praticamente estáveis ​​entre 2015 e 2023, enquanto as emissões do Pantanal praticamente dobraram a partir de uma pequena base em 2015 (2,8 Mt CO₂-eq).

As três maiores comerciantes de carne bovina, JBS, Marfrig e Minerva, têm a maior exposição a emissões. Juntas, elas respondem por 52% das emissões em 2023 (JBS 28%, Minerva 13%, Marfrig 11%). As tendências variam ao longo do tempo: as emissões da JBS são cerca de 10% menores entre 2015 e 2023, a Minerva caiu 13%, enquanto a Marfrig se mantém estável em 10% ao longo dos anos. Embora a participação combinada das três grandes permaneça substancial, essas mudanças sugerem que parte do crescimento das emissões desde 2015 foi contabilizado por outros exportadores. A maioria dos novos contribuintes está no estado do Pará, onde comerciantes como Mercurio Alimentos e Frigol, juntas, responderam por 12% das emissões atribuídas exportadas em 2023, em comparação com apenas 6% em 2015.

JBS, Minerva e Marfrig respondem pela maior parcela das emissões de gases de efeito estufa provenientes da comercialização de carne bovina brasileira.
Participação da empresa nas emissões brutas de gases de efeito estufa (2015-2023) das cinco maiores comercializadoras de carne bovina brasileira em 2023 (inclui apenas a comercializadora conhecida).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Nicolás Martín, Carina Mueller e Jailson Soares.

Explore e baixe os dados da carne bovina brasileira em trase.earth

Para referenciar o conjunto de dados, utilize a citação: zu Ermgassen, EKHJ, Suavet, C., Biddle, H., Su, N., Prada Moro, Y., Ribeiro, V., Carvalho, T., & Lathuilliere, M. (2025). Cadeia de suprimentos de carne bovina do Brasil 2010–2017 e 2019–2023 (Versão 2.2) [Conjunto de dados]. Trase. https://doi.org/10.48650/AYAA-HH56

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). Mapa da cadeia de suprimentos da carne bovina brasileira SEI-PCS v2.2: Fontes de dados e métodos. Trase. https://doi.org/10.48650/CP2S-SP59

Para consultar este artigo, utilize a citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de carne bovina e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/6VK3-2S18


Fonte: Trase

O custo oculto dos alimentos ultraprocessados ​​no meio ambiente

Os alimentos industrializados envolvem vários ingredientes e processos para serem preparados, o que torna difícil analisar seu verdadeiro custo

bombons de chocolate multicoloridos

Embora os cientistas estejam apenas começando a examinar o impacto ambiental dos AUPs, o que já se sabe sobre eles é preocupante. Fotografia: ULRO/Getty Images

Por Véronique Carignan para “The Guardian” 

Se você olhar para um pacote de M&Ms, um dos doces mais populares nos EUA, verá alguns ingredientes familiares: açúcar, leite em pó desnatado, manteiga de cacau. Mas verá muitos outros que não são tão reconhecíveis: goma arábica, dextrina, cera de carnaúba, lecitina de soja e E100.

Os M&Ms têm 34 ingredientes e, de acordo com a Mars, empresa que produz os doces, pelo menos 30 países – da Costa do Marfim à Nova Zelândia – estão envolvidos no fornecimento. Cada um tem sua própria cadeia de suprimentos que transforma as matérias-primas em ingredientes – cacau em licor de cacau, cana em açúcar, petróleo em corante azul alimentício.

Esses ingredientes então viajam pelo mundo até uma unidade central de processamento, onde são combinados e transformados em pequenas gemas de chocolate azuis, vermelhas, amarelas e verdes.

Está se tornando mais claro que os sistemas alimentares são um dos principais impulsionadores da crise climática . Cientistas podem analisar o desmatamento para a agricultura ou as emissões de metano da pecuária. Mas o impacto ambiental de alimentos ultraprocessados ​​– como M&Ms – é menos claro e só agora começa a ganhar destaque. Um dos motivos pelos quais eles têm sido tão difíceis de avaliar é a própria natureza dos AUPs: esses alimentos industrializados incluem um enorme número de ingredientes e processos para sua composição, tornando-os quase impossíveis de rastrear.

Mas isso não significa que não seja importante. À medida que os AUPs tomam conta das prateleiras dos supermercados e das dietas dos EUA – eles agora representam 70% dos alimentos vendidos em supermercados e mais da metade das calorias consumidas –, especialistas afirmam que compreender seu impacto ambiental é fundamental para construir um sistema alimentar mais favorável ao clima.

O que sabemos

Embora os cientistas estejam apenas começando a examinar o impacto ambiental dos AUPs, o que já se sabe sobre eles é preocupante.

“Quanto mais processados ​​os alimentos, mais prejudiciais eles são à saúde humana e ao meio ambiente”, disse Anthony Fardet, pesquisador sênior do Instituto Nacional Francês de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente. O principal motivo, explica ele, é que os ingredientes consomem muita energia. Quando combinados, o custo é exorbitante.

Está bem documentado que a agricultura para ingredientes como o cacau impulsiona taxas cada vez maiores de desmatamento em todo o mundo. Desde 1850, a expansão agrícola impulsionou quase 90% do desmatamento global, responsável por 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. A Mars Corporation já foi criticada no passado pelas práticas de cultivo de cacau em sua cadeia de suprimentos e, desde então, criou planos de sustentabilidade , mas estes não abordam o fato de que práticas agrícolas em larga escala, como o cultivo de cacau, são, em sua essência, insustentáveis .

Depois, há o açúcar, os sólidos do leite e a gordura da palma, também grandes emissores de gases de efeito estufa.

Além disso, existem ingredientes industrializados, como corantes alimentícios – talvez a marca registrada do ultraprocessamento – dos quais os M&Ms contêm 13 tipos diferentes. Os M&Ms azuis são coloridos com os corantes E132 e E133; esses corantes são produzidos principalmente em polos de produção de corantes alimentícios como Índia e China, por meio de uma reação química de hidrocarbonetos aromáticos (que são derivados de petróleo) com sal de diazônio, catalisada pelos metais cobre e cromo.

M&Ms à venda
M&Ms à venda em Orlando, Flórida, em 2019. Fotografia: Jeff Greenberg/Universal Images Group via Getty Images

A criação da lecitina de soja, um aditivo feito a partir do óleo de soja usado para alterar a consistência do chocolate, requer etapas como a degomagem em um reator quente, o isolamento químico dos fosfolipídios, a descoloração com peróxido de hidrogênio e a secagem sob pressão a vácuo. E a dextrose , um adoçante, começa como milho, que é embebido em ácido antes de ser moído, separado e seco. A partir daí, é decomposto em moléculas menores usando enzimas e ácidos e, em seguida, recristalizado.

Mars se recusou a comentar esta história.

Embora os produtos de chocolate ultraprocessados ​​sejam alguns dos piores infratores, outros tipos de UPFs também são prejudiciais ao meio ambiente. Tomemos como exemplo o Doritos, que tem 39 ingredientes . O milho é o ingrediente principal e, para cada acre cultivado, 1.000 kg de dióxido de carbono são emitidos para a atmosfera. Assim como a Mars, a Pepsico, que fabrica o Doritos, desenvolveu suas próprias promessas de sustentabilidade , mas muitas dessas promessas são sustentadas por práticas consideradas greenwashing, como a “ agricultura regenerativa “. Na realidade, essas promessas de sustentabilidade minam a extrema necessidade de entender melhor como os UPFs afetam o clima global.

Como resultado, alguns especialistas começaram a calcular o impacto ambiental dos UPFs.

A CarbonCloud, uma empresa de software com sede na Suécia que calcula as emissões de produtos alimentícios, analisou as divulgações de carbono da Mars e estimou que os M&Ms geram pelo menos 13,2 kg de equivalentes de carbono por quilo de M&Ms produzidos. A Mars produz mais de 664 milhões de kg de M&Ms nos EUA a cada ano, o que significa que, se os cálculos da CarbonCloud estiverem corretos, os doces emitem pelo menos 3,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono – representando 0,1% das emissões anuais nos EUA. (A Mars não divulga as emissões por produto, mas, de acordo com seu relatório de emissões de 2024, emitiu 29 milhões de toneladas de dióxido de carbono em toda a empresa.)

Mas esta é apenas uma estimativa baseada em dados disponíveis publicamente; o custo real é provavelmente muito maior, dizem os especialistas. Existe uma “caixa preta” quando se trata de contabilização de carbono na indústria de alimentos processados, afirma Patrick Callery, professor da Universidade de Vermont que pesquisa como as empresas lidam com a crise climática. “Há muita incerteza à medida que as cadeias de suprimentos se tornam mais complexas.”

O que não sabemos

Obter uma medida exata do impacto ambiental dos AUPs é quase impossível, visto que, por definição, eles consistem em muitos ingredientes e um alto volume de processos opacos. Os ingredientes não são simplesmente misturados como se faria para preparar um ensopado em casa. Em vez disso, esses ingredientes são quimicamente modificados, algumas partes são removidas e aromatizantes, corantes ou texturas são adicionados – e não está claro qual é o custo desses processos, pois há muitos fornecedores e componentes envolvidos.

Outro motivo é que todos os UPFs (novamente, por definição) são criações de empresas alimentícias que têm pouco incentivo para divulgar sua pegada ambiental e podem não entendê-la completamente para começar.

Por exemplo, a própria Mars não cultiva cacau, mas sim centenas de fazendas que nem sempre contam com medidas precisas de contabilização de carbono. Isso significa que as emissões de grandes empresas alimentícias podem ser subnotificadas. David Bryngelsson, cofundador da CarbonCloud, afirmou que as empresas “não têm dados reais, então usam fatores de emissão, que são palpites”.

Callery afirma que as empresas fornecem relatórios sobre questões simples como transporte, que são mais fáceis de calcular, e frequentemente omitem ou distorcem as emissões agrícolas de seus produtos. Afinal, relatar altas emissões vai contra os interesses das grandes corporações alimentícias, de modo que os cálculos complexos necessários para determinar a pegada de carbono da agricultura em larga escala e dos processos químicos industriais de múltiplas etapas usados ​​para produzir ingredientes UPF permanecem sem pesquisa.

“O principal objetivo dos alimentos ultraprocessados ​​é o dinheiro”, disse Fardet, ressaltando que eles são projetados para serem atraentes, fáceis e prazerosos de comer.

“A maioria das pessoas na cadeia de valor [da indústria alimentícia] não se importa com as mudanças climáticas do ponto de vista ideológico, mas sim com o dinheiro”, disse Bryngelsson. Ele explica que, para mudar esses incentivos, o valor dos alimentos e ingredientes precisaria incorporar seu impacto no clima compartilhado. Mas isso exigiria regulamentações governamentais e penalidades financeiras com base no verdadeiro custo ambiental dos AUPs, diz Bryngelsson.

Por que isso importa

Por pouco menos de US$ 2, o preço dos M&Ms no supermercado dificilmente reflete seu verdadeiro custo para o meio ambiente. Mas para resolver esses problemas com alimentos ultraprocessados, são necessários mais do que apenas alguns ajustes na lista de ingredientes.

“Reduzir o sal ou o açúcar de apenas um produto é apenas greenwashing”, disse Fardet. “Precisamos mudar todo o cenário.” Para isso, ele sugeriu consumir mais alimentos integrais de origem local, que muitas vezes exigem muito menos energia e transporte para serem produzidos e, portanto, têm uma pegada de carbono muito menor.

Produtos especiais que não podem ser adquiridos localmente, como chocolate, devem representar uma pequena fração da nossa dieta e vir de cadeias de suprimentos rastreáveis ​​e éticas.

Isso não é fácil para todos os americanos, dado o aumento do custo dos alimentos e a prevalência de desertos alimentares e varejistas de alimentos medíocres nos EUA.

É por isso que não cabe apenas aos indivíduos fazer escolhas conscientes em termos ambientais (e de saúde), afirmam especialistas. Em vez disso, as grandes corporações alimentícias precisam ser responsabilizadas pelo fardo que representam para a sociedade – especialmente no que se refere às mudanças climáticas. Práticas de sustentabilidade, como o plano ” Cacau para Gerações ” delineado pela Mars, ou as iniciativas ” Pep+ ” da Pepsico, são curativos em ossos quebrados. As grandes corporações alimentícias precisam ser gradualmente eliminadas para tornar os sistemas alimentares globais sustentáveis .

Mas talvez o mais importante seja mudar nossa compreensão dos custos ocultos dos alimentos ultraprocessados, diz Fardet, seja em casa, nas escolas ou por meio da proibição da comercialização de AUPs para crianças. Nossos sistemas alimentares, disse Fardet, “não são absolutamente normais. Toda a indústria deve arcar com os custos ocultos”.


Fonte: The Guardian

Mineração ilegal de ouro desmata 140.000 hectares da Amazônia peruana

Grupos criminosos armados destroem florestas tropicais preciosas para lucrar com preços recordes do ouro, segundo relatório

Paisagem de terra árida e grandes lagoas de água verde brilhante.

A mineração ilegal deixa faixas de poças de água verde estagnada onde antes havia uma densa e ecologicamente rica floresta tropical na região de Madre de Dios, no Peru. Fotografia: Cris Bouroncle/AFP/Getty Images 

Por Lucas Taylor para “The Guardian”

Uma corrida ilegal ao ouro derrubou 140.000 hectares de floresta tropical na Amazônia peruana e está se acelerando à medida que grupos armados estrangeiros se mudam para a região para lucrar com os preços recordes do ouro, de acordo com um relatório.

Cerca de 540 milhas quadradas de terra foram desmatadas para mineração no país sul-americano desde 1984, e a destruição ambiental está se espalhando rapidamente pelo país, descobriram o Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) e sua organização parceira peruana, Conservación Amazónica.

A corrida do ouro também está contaminando seus cursos d’água. Garimpeiros ilegais usam dragas – máquinas flutuantes que trituram e expelem o leito dos rios – deixando para trás o mercúrio tóxico usado para extrair ouro dos sedimentos.

Imagens aéreas de ultra-alta resolução permitiram que o MAAP, parte da Amazon Conservation , identificasse dragas ao lado do desmatamento pela primeira vez, permitindo identificar garimpeiros e revelando que a crise ambiental, antes confinada ao sul do país, estava se espalhando para o norte.

Um rio corre entre uma floresta densa e verde.
A Floresta Amazônica no Peru. Fotografia: mariusz_prusaczyk/Getty Images/iStockphoto

“Costumávamos ver isso apenas na região de Madre de Dios, mas agora estamos vendo isso em todos os lugares”, disse o diretor do MAAP, Matt Finer.

preço do ouro ultrapassou US$ 4.000 pela primeira vez esta semana nos mercados internacionais, com o aumento da ansiedade global em relação à fragilidade financeira. Grupos indígenas alertaram que, com a alta do preço do ouro, grupos armados estão cada vez mais destruindo suas florestas e contaminando seus rios em busca do metal precioso.

As imagens aéreas do MAAP mostram que áreas outrora densas de selva verde estão sendo transformadas em paisagens lunares sem vida de terra cinzenta salpicadas de poças estagnadas de água verde.

“Este pequeno quadrado é apenas uma pequena amostra”, diz Finer, apontando para uma pequena parte da vasta mancha vermelha de desmatamento mapeada no relatório. “Imagine isso multiplicado por 140.000 hectares.”

Os resíduos de mercúrio se acumulam nos peixes e são transmitidos às pessoas que os comem, causando problemas neurológicos e de desenvolvimento, como defeitos congênitos e dificuldades de aprendizagem.

Um estudo recente de comunidades ribeirinhas na região de Loreto, no extremo norte do Peru, descobriu que o nível médio de mercúrio era quase quatro vezes maior que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

A análise do MAAP descobriu que 225 rios e córregos foram afetados, com 989 dragas detectadas em Loreto desde 2017 — incluindo 275 somente neste ano no Rio Nanay, um afluente do Amazonas que é a força vital dos ecossistemas e de dezenas de comunidades indígenas.

“Eles estão envenenando nossos rios – é a água que bebemos”, disse Roberto Tafur Shupingahua, representante de várias comunidades ribeirinhas em Loreto.

Homem despeja líquido na tigela.
Um mineiro no Peru extrai ouro usando mercúrio. Fotografia: Nacho Doce/Reuters

Shupingahua disse que comunidades locais começaram a bloquear o avanço dos mineiros pelo Rio Tigre, em Loreto, há 40 dias, o que levou a tiroteios com invasores armados. “Não temos escolha a não ser revidar, mas estamos sozinhos. O Estado não está à vista”, disse ele, elevando a voz em sinal de raiva.

A mineração continua concentrada na região de Madre de Dios, no sul do Peru, mas novos pontos críticos estão surgindo mais ao norte, em Loreto, Amazonas, Huánuco, Pasco e Ucayali.

Elas são pequenas, mas uma vez que a mineração esteja estabelecida, ela poderá se expandir rapidamente, disse Finer, acrescentando que o relatório foi um vislumbre do que estava acontecendo no resto da Amazônia.

“Esta é a primeira vez que conseguimos analisar um país com tantos detalhes, mas acho que no Brasil, na Bolívia e na Colômbia veremos exatamente a mesma coisa”, disse ele.

Com os preços do ouro ultrapassando US$ 4.000 a onça, grupos armados estrangeiros estão cada vez mais se aventurando através da fronteira para as selvas sem lei do Peru, onde as autoridades locais estão fazendo pouco para detê-los, diz Bram Ebus, criminologista e consultor do International Crisis Group.

Redes criminosas, incluindo os Comandos de la Frontera da Colômbia e o Comando Vermelho do Brasil, estão cada vez mais ativas do outro lado da fronteira.

“Redes criminosas internacionais que traficam cocaína e lavam lucros por meio da mineração ilegal de ouro — agora com preços altos proporcionando retornos substanciais — se combinam com um governo em Lima que não tem sido um obstáculo sério contra o crime organizado”, disse Ebus.

O Grupo Andino – uma coalizão política de países sul-americanos – disse ao Peru na terça-feira para levar a sério a mineração ilegal ou poderá enfrentar sanções econômicas.

Mas Finer disse: “O ouro está muito lucrativo agora. Não vejo sinais de queda nos preços, então provavelmente vai piorar antes de melhorar.”


Fonte: The Guardian

A floresta amazônica: desmatamento e degradação florestal criam o ambiente propício para a próxima pandemia

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Em todo o mundo, as doenças zoonóticas e transmitidas por vetores (ZVBDs) , doenças que passam de animais para humanos, seja por contato direto ou por meio de vetores como mosquitos, aumentaram significativamente nas últimas décadas, ceifando milhões de vidas a cada ano. Agora, o foco está na floresta amazônica.

Floresta Amazônica: doenças infecciosas aumentam

Estima-se que 75% de todas as novas doenças infecciosas emergentes, juntamente com mais de 60% de todos os patógenos humanos, são transmitidos por animais.

As doenças transmitidas por mosquitos, por si só, colocam mais de 80% da população mundial em risco . Sua disseminação ameaça não apenas a saúde pública, mas também a economia mundial.

Mesmo antes do coronavírus paralisar as economias e lotar os hospitais, doenças infecciosas emergentes custavam ao mundo mais de US$ 1 trilhão por ano. A pandemia tornou esses custos dolorosamente visíveis, mas não criou o problema, apenas o expôs.

Desde 2003, surtos e pandemias tiraram mais de 15 milhões de vidas e drenaram aproximadamente US$ 4 trilhões da economia global.

Um estudo publicado na One Earth , revista de sustentabilidade da Cell Press , alerta que esta crise não é acidental. O desmatamento, a crise climática e a degradação ambiental estão criando a tempestade perfeita para que patógenos prosperem e se espalhem.

A autora principal do estudo, Raquel L. Carvalho, alerta para os riscos na Europa associados às doenças transmitidas por vetores:

A Europa está se tornando cada vez mais um ambiente favorável para doenças transmitidas por mosquitos, já que verões prolongados, temperaturas elevadas e chuvas mais intensas criam condições nas quais as populações de mosquitos podem se estabelecer e se espalhar em regiões onde antes não conseguiam sobreviver.

Desmatamento impulsiona o surgimento da próxima pandemia

Desde a década de 1940, mudanças na forma como os humanos usam a terra, derrubando florestas, expandindo o agronegócio e avançando para áreas selvagens, foram associadas a mais de um terço de todas as novas doenças infecciosas.

A crise climática está criando condições propícias à proliferação de mosquitos, carrapatos e patógenos. O aumento das temperaturas prolonga a temporada de reprodução dos mosquitos e permite que insetos transmissores de doenças se espalhem para locais onde antes os invernos os mantinham afastados.

Enquanto isso, o desmatamento e as mudanças no uso da terra aproximam os humanos dos animais selvagens, aumentando as chances de um evento de contágio. A pobreza e os sistemas de saúde precários aumentam o perigo, transformando a exposição em tragédia.

De acordo com um estudo publicado no International Journal of Emergency Medicine, as mudanças climáticas também estão interrompendo a produção e o fornecimento de alimentos, criando condições que permitem que micróbios e toxinas nocivos prosperem, enquanto condições climáticas extremas e temperaturas em elevação aumentam o risco de doenças transmitidas por alimentos, como Salmonella e E. coli.

Doenças, vírus, bactérias: fora de controle

Recentemente, temos visto um aumento acentuado na disseminação de doenças causadas por parasitas, vírus e bactérias, incluindo dengue , zika , chikungunya , oropouche , malária , febre maculosa , entre outras.

A disseminação da febre do oropouche, transmitida pelo pequeno mosquito culicoides paraensis , popularmente chamado de maruim, é outro sinal alarmante.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2025, 12.786 casos confirmados de oropouche foram notificados na região das Américas, incluindo mais de 11.888 casos no Brasil.

No Brasil, os surtos de oropouche se originaram na região da AMACRO (um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia) e já se espalharam pelo país até o estado do Espírito Santo, com 6.322 casos registrados em 2025, e pelo mundo.

A floresta amazônica é considerada um dos maiores reservatórios de doenças zoonóticas do mundo. Muitos cientistas têm alertado repetidamente que as perturbações ambientais estão impulsionando o aumento de doenças infecciosas e destacado o risco iminente de um patógeno letal originário da região.

Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse:

As mudanças climáticas desencadearão importantes mudanças ecológicas na Amazônia, muitas delas com potencial para reduzir sua biodiversidade, facilitando a disseminação de vetores de doenças conhecidos e aumentando as chances de surgimento de novas doenças.

Colocando comunidades em risco

Um estudo conduzido por Raquel L. Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP), e sua equipe, analisou 312 artigos que abordaram 39 doenças diferentes em 79 países. Grande parte desse trabalho se concentra nos patógenos em si ou nos insetos e animais que os transmitem. Em contraste, muito menos estudos consideram quem está exposto ou por que alguns grupos são mais vulneráveis ​​após a exposição.

Carvalho destacou lacunas na pesquisa existente:

Apenas 7,4% dos estudos analisaram o panorama completo: risco, exposição e vulnerabilidade. Estudar onde os mosquitos vivem pode indicar o perigo potencial, mas não revela quem corre maior risco ou por que certas comunidades têm maior probabilidade de adoecer.

Doenças como dengue, vírus do Nilo Ocidental e leptospirose prosperam não apenas porque mosquitos e roedores são abundantes, mas também porque as pessoas vivem em moradias precárias, sem saneamento adequado, ou porque as mudanças climáticas levam os mosquitos para novas regiões.

Se esses fatores humanos e ambientais forem ignorados, as previsões de onde e quando os surtos ocorrerão provavelmente sempre falharão.

A maioria dos estudos realizados vem dos Estados Unidos, China e Europa, enquanto as regiões tropicais, onde os riscos de doenças são maiores, permanecem pouco estudadas. Brasil e Quênia se destacam como exceções, mas vastas regiões da África, América do Sul e Ásia recebem pouca atenção.

Os lugares com maior probabilidade de produzir a próxima pandemia também são os menos preparados para preveni-la.

Construindo uma resposta melhor

Os pesquisadores do estudo explicaram que a prevenção requer um quadro mais completo dos riscos, ou seja, a combinação de dados ecológicos com realidades humanas e sociais.

Pobreza , educação, moradia e acesso à saúde são tão importantes quanto as mudanças climáticas e o uso da terra.

Por exemplo, na África Oriental, a malária foi mapeada de forma mais eficaz quando pesquisadores combinaram dados sobre mosquitos com medidas de pobreza e assistência médica. Em Nova York, as previsões da doença de Lyme melhoraram quando os cientistas consideraram tanto a abundância de carrapatos quanto o comportamento humano. Compreender juntos o perigo, a exposição e a vulnerabilidade nos fornece ferramentas para a prevenção.

Carvalho destacou que enfrentar a ameaça não será fácil, mas insiste que um monitoramento mais forte e a cooperação internacional são essenciais:

É claro que não há uma solução óbvia, mas sistemas de vigilância mais fortes, especialmente em focos de doenças, podem atuar como um radar de alerta precoce.

A cooperação científica transfronteiriça pode garantir que nenhuma região fique para trás. Além disso, uma abordagem de Saúde Única, reconhecendo que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas, deve orientar todas as decisões.

As comunidades que vivem na pobreza, as mais próximas da linha de frente das mudanças ambientais, são as primeiras a sofrer. Se continuarmos a ignorar a complexidade do risco de doenças, condenaremos essas populações vulneráveis ​​a pagar um alto preço, deixando o resto do mundo exposto.

A pandemia do coronavírus nos ensinou uma lição, nos mostrou o custo de estarmos despreparados. A próxima pandemia pode ser muito pior, impulsionada por extremos climáticos e perturbações ecológicas.

A linha entre negligência ambiental e sofrimento humano é muito tênue. Não deveria ser difícil entender que nossa saúde depende da saúde do nosso planeta, um protege o outro.


Fonte: The Canary

“Na Amazônia tem uma área de floresta do tamanho da Bahia que pode desaparecer”, alerta IPAM no Congresso

Câmara dos Deputados realizou audiência pública nesta quinta (4) sobre florestas públicas não destinadas; IPAM apresentou dados sobre desmatamento nessas áreas

A Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados realizou, nesta quinta-feira (4), audiência pública para debater as florestas públicas não destinadas. Essas florestas ocupam 50,2 milhões de hectares da Amazônia brasileira – uma área do tamanho da Bahia – e ainda devem receber uma destinação do poder público, seja para unidade de conservação ou terra indígena, por exemplo.

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o movimento Amazônia de Pé, responsáveis pelo Observatório das Florestas Públicas, apresentaram dados e informações sobre essas florestas e seus povos.

Segundo dados do Observatório, 62,3% das florestas públicas não destinadas na Amazônia brasileira são glebas estaduais, enquanto 37,6% são federais. Ainda de acordo com os dados da plataforma, cerca de 13 milhões de hectares dessas florestas estão atualmente em processo de destinação pelo governo federal.

“O IPAM já tem trabalhado há muitos anos com a análise das florestas públicas não destinadas junto aos seus povos, trazendo subsídios para as políticas públicas em uma construção coletiva. Isso porque na Amazônia tem uma área de floresta do tamanho da Bahia que corre o risco de desaparecer. O que vemos a partir desses estudos é o aumento de atividades ilegais principalmente com indício de grilagem a partir do uso fraudulento de CAR [Cadastro Ambiental Rural]. Sem proteção, corremos o risco de perdê-las de vez”, ressaltou Rebecca Lima, pesquisadora do IPAM e coordenadora do Observatório de Florestas Públicas, em apresentação durante a reunião.

“A morosidade do processo da destinação aumenta a concentração fundiária, intensifica conflitos sociais, compromete a segurança de povos e comunidades tradicionais e afeta a todos, já que os rios voadores da Amazônia transportam água para o país”, acrescentou a pesquisadora. A audiência pública foi presidida pelo deputado Reginaldo Veras (PV-DF) e atendeu a requerimento de autoria da deputada Célia Xakriabá (Psol-MG).

Grilagem de florestas públicas

De acordo com o Observatório das Florestas Públicas, há atualmente 32,7 milhões de hectares dessas florestas sob registros ilegais no CAR (Cadastro Ambiental Rural). A área com sobreposição de CAR tem aumentado desde 2019, especialmente com registros maiores do que 15 módulos fiscais.

Se as florestas públicas não destinadas seguirem desprotegidas, o desmatamento dessas áreas pode liberar até 19,1 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. O montante é equivalente a 51% da emissão global estimada para 2024.

“A destinação de florestas públicas é uma das estratégias de ação climática mais importantes para cumprir com as metas climáticas nacionais e internacionais e para que as florestas e suas populações sejam protegidas. E essa destinação tem que ser acompanhada de políticas públicas, fortalecendo o desenvolvimento de uma economia sustentável na Amazônia. A destinação é urgente, compromisso assumido por lei, em defesa do Brasil, dos povos amazônidas e das futuras gerações”, concluiu Lima.

Em 2025, mais de 62 mil hectares de florestas públicas não destinadas já foram desmatados em 2025, mostram os dados do Observatório. O Estado do Amazonas concentrou a maior parte (62%) dessa área derrubada.

De janeiro a julho de 2025, mais de 59,7 mil hectares foram queimados em florestas públicas não destinadas. A maior parte do fogo (75%) ocorreu em glebas federais e no Estado do Pará.

Mobilização pela Amazônia

“Cada vez mais pessoas entendem que o que acontece na Amazônia não fica só na Amazônia. A gente apresenta dados, mas também envolve pessoas. Sempre falamos que preservando a cultura, a gente preserva os territórios. Não basta anunciar metas que não escutem as pessoas e que não venham através dos territórios. Enquanto o Brasil se distanciar da proteção dos seus territórios, o mundo inteiro também fica longe de cumprir o compromisso de limitar o aumento da temperatura média global em 1,5°C”, afirmou Karina Penha, porta-voz do movimento Amazônia de Pé na audiência.

O movimento Amazônia de Pé nasceu do compromisso de coletar 1,5 milhão de assinaturas físicas para apresentar ao Congresso Nacional o projeto de lei Amazônia de Pé, que visa destinar as florestas públicas não destinadas. Atualmente, o movimento organiza campanhas, treinamentos, ações culturais e educativas com a Amazônia no centro.

Também presente na reunião, Marcos Woortmann, diretor do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade), lembrou o contexto das políticas ambientais no Congresso Nacional.

“Quando a gente fala dos interesses do Congresso Nacional, dados levantados pelo Farol Verde mostram que mais de ⅔ dos atos legislativos são contrários ao meio ambiente. Hoje, estamos falando de uma série de problemas que estão se avolumando, mas também precisamos falar das soluções, e muitas delas passam por esta Casa. Precisamos impedir os retrocessos e fazer avançar as pautas ambientais”, disse.

Governos estaduais e federais

Para Marcelo Trevisam, representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima na audiência, “é fundamental entender a separação entre a terra pública federal e a terra pública estadual”.

“O cadastro de floresta não é estático, é dinâmico, e é somente uma plataforma de visualização das informações alimentadas pelos outros órgãos. Por isso, quero deixar uma sugestão importante para esta comissão: para a gente discutir cadastro nacional de florestas públicas, sejam elas federais ou estaduais, esta mesa tem que ser composta pelo Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], que é o gestor das glebas públicas federais; tem que ser composta pela Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas], que é responsável pelas informações que cabem das destinações e afetações realizadas; pelo ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], porque é o gestor das unidades de conservação; e também os Estados. Tudo isso para entender como se forma um mapa das florestas públicas debatendo junto à sociedade”, concluiu.

A reunião contou ainda com a presença e falas de Denildo Rodrigues de Moraes, representante da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Paulino Montejo, porta-voz da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e Letícia Moraes, representante do CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas).

Desmatamento reduz 74% das chuvas e aumenta em 16% a temperatura na Amazônia em época de seca

Pesquisa liderada por cientistas da USP quantifica, pela primeira vez, impactos da perda da floresta e das mudanças climáticas globais no bioma 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO) e de metano (CH) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH.


Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.


Fonte: Agência Fapesp

Amazônia colombiana perde US$ 400 milhões devido ao desmatamento todos os anos

desmatamento da Amazônia colombiana

Esta é a conclusão do estudo “O valor econômico da perda anual de florestas na Amazônia colombiana”, que será publicado na edição de outubro da revista Ecosystem Services e desenvolvido por pesquisadores do Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (SINCHI).

O objetivo da pesquisa era estabelecer o custo social da perda florestal quantificando os fatores associados à degradação de seis serviços ecossistêmicos principais: armazenamento de carbono, vida selvagem para consumo, lenha, produtos florestais não madeireiros (PFNMs), recursos pesqueiros e conhecimento indígena tradicional de plantas para uso medicinal.

“O estudo buscou fornecer uma base sólida e espacialmente explícita para a tomada de decisões visando deter o desmatamento e salvaguardar os benefícios multifuncionais da Amazônia”, disse Mauro Reyes, coautor do estudo, ao SciDev.Net .

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Andrés Vargas, Diretor do Departamento de Economia da Universidad del Norte, Barranquilla, Colômbia

De acordo com a pesquisa, o serviço mais valioso em termos monetários é o armazenamento de carbono (81% do valor total perdido), com uma variação de aproximadamente US$ 1.220 a 2.650 por hectare (ha).

Outros serviços apresentaram valores menores, mas cruciais, por hectare para as comunidades: lenha (US$ 179–269/ha); PFNMs (US$ 19,5–89,2/ha); conhecimento medicinal (US$ 14,76–77,47/ha); pesca (US$ 10,60–23,40/ha); e caça (US$ 4,3–7,9/ha).

Para chegar a esses dados, os autores empregaram uma metodologia em fases sob a estrutura do Valor Econômico Total (VET), que incluiu a definição dos serviços ecossistêmicos a serem estudados e a coleta de dados , como redes de parcelas para carbono, lenha e PFNMs, etc., bem como o monitoramento da comunidade na bacia do rio Vaupés, desembarques pesqueiros e consumo de peixes para a pesca, além da consulta a bancos de dados etnobotânicos e censos nacionais para conhecimento medicinal.

Os cientistas integraram dados espaciais e ecológicos e os avaliaram economicamente, aplicando métodos de avaliação direta, como precificação de mercado e custos evitados. No caso do conhecimento medicinal, por exemplo, calcularam os custos de saúde evitados pelo uso da medicina tradicional em vez da medicina institucional.

Eles também realizaram análises probabilísticas, com 10.000 simulações, para quantificar a incerteza e obter uma faixa provável de perdas econômicas.

“Uma das descobertas mais impressionantes é a enorme disparidade entre o valor do carbono e o dos serviços locais de subsistência (caça, pesca, lenha, etc.). Enquanto o carbono vale mais de US$ 1.200/ha, a caça, essencial para a segurança alimentar e cultural das comunidades indígenas, é avaliada em menos de US$ 8/ha”, afirma Reyes.

“Isso é impressionante porque ilustra perfeitamente uma limitação fundamental da valoração econômica: os preços do mercado global (carbono) capturam valores que são altos no mercado internacional, mas podem subestimar enormemente a importância crítica dos serviços que sustentam a vida e a cultura em nível local”, reconhece o cientista.

“Outra descoberta que me chamou a atenção foi a possibilidade de monetizar o serviço sociocultural do conhecimento tradicional indígena sobre plantas medicinais, que dá valor tangível ao intangível e consegue quantificar economicamente um serviço aparentemente abstrato, como a sabedoria ancestral, transformando-o em uma métrica concreta que pode ser entendida na linguagem das políticas públicas e da economia”, acrescenta.

Contatado pelo SciDev.Net , Andrés Vargas, diretor do Departamento de Economia da Universidade do Norte em Barranquilla, Colômbia, disse que o estudo é relevante, “porque contribui para o conhecimento sobre a importância da Amazônia colombiana”.

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Na mesma linha, Reyes afirma que os resultados são relevantes porque transcendem a esfera acadêmica e se tornam uma ferramenta prática e poderosa para a gestão ambiental e a tomada de decisões . “Sua relevância”, afirma, “é demonstrada pela geração de uma base quantitativa para políticas públicas e pela evidenciação do alto custo do desmatamento”.

Em sua opinião, a pesquisa também ajuda a tornar visíveis valores ocultos ao trazer para o radar econômico serviços que muitas vezes são ignorados por não terem um mercado formal, como o conhecimento medicinal indígena ou o fornecimento de lenha, “revelando sua contribuição crucial para o bem-estar social e as finanças públicas por meio de custos evitados”.

Sobre se essa metodologia pode ser aplicada a outras florestas e ecossistemas, Reyes responde afirmativamente, mas com nuances:

Para outras florestas, por exemplo, as andinas, boreais e tropicais secas, o princípio é o mesmo: identificar os principais serviços ecossistêmicos, medir seu fluxo por unidade de área (ha) e atribuir um valor usando preços de mercado ou custos evitados. O que mudaria seriam as espécies avaliadas, os dados de biomassa, os produtos não madeireiros relevantes e o contexto cultural local.

“Para outros ecossistemas, a lógica permanece a mesma, mas os serviços e métodos de medição biofísica seriam completamente diferentes. Em um recife de coral, por exemplo, turismo, pesca e proteção contra tempestades, entre outros, seriam valorizados”, ressalta Reyes.


Fonte: SciDev