Greenpeace sobrevoa a Amazônia e flagra o avanço do fogo sobre a floresta

Dados divulgados pelo INPE e as imagens registradas na última semana de julho, reforçam a ineficiência do governo federal em combater a destruição

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Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021. Coluna de fogo avança sobre floresta degradada em Porto Velho, Rondônia

São Paulo, 02 de agosto de 2021 – De acordo com os dados do Inpe Queimadas, julho registrou 4.977 focos de calor no bioma Amazônia, todos ilegais visto que o Decreto nº 10.735 proibiu o uso do fogo no Brasil desde 28 de junho de 2021, mesma data em que o governo federal autorizou novamente o uso das tropas militares para combater as queimadas. Como principal estratégia do governo federal para conter a destruição, a GLO é comprovadamente ineficiente. A Amazônia segue sob intensa ameaça e a ilegalidade e destruição continuam devastando grandes áreas, conforme mostram as imagens registradas pelo Greenpeace em sobrevoo.

Veja as imagens aqui

“É importante analisar os focos de calor considerando também o desmatamento ocorrido recentemente na Amazônia. Muitas áreas foram derrubadas e degradadas recentemente e devem ser queimadas ilegalmente nos próximos meses, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo. O pior está por vir, além dos próximos meses serem mais secos na Amazônia, os órgãos ambientais seguem enfraquecidos e o Congresso Nacional tem como uma de suas prioridades aprovar alterações na lei que incentivam ainda mais destruição ambiental e invasão de terras públicas”, comenta Cristiane Mazzetti, gestora ambiental do Greenpeace.

Enquanto nossas florestas seguem sendo destruídas, representantes ruralistas continuam tentando convencer a opinião pública e a comunidade internacional de que o Brasil está cuidando do meio ambiente. Como fizeram no mês passado ao reforçar a representantes diplomáticos a intenção de aprovar projetos como o PL da Grilagem (PL 2633/2020) que, ao contrário do que dizem os ruralistas, visa anistiar grileiros, ao legalizar o ilegal, além de aumentar a violência e conflitos no campo estimula novos ciclos de invasões marcados por desmatamento e queimadas.

O número de focos registrados na Amazônia em maio e junho já havia sido o maior para esses meses desde 2007. Em julho, houve uma redução de 27% quando comparados ao mesmo mês em 2020. Estados como Rondônia e Acre registraram aumento no número de focos (95% e 29% respectivamente) e a situação no Amazonas segue preocupante: o estado tem se destacado no aumento da devastação e o registrado no mês é superior à média histórica. Conforme ilustrado na figura abaixo:

A linha laranja traz em cada ponto o valor médio de hotspots nos últimos 10 dias, e isso permite comparação com valores médios de longo prazo, nos permitindo entender como os registros atuais se relacionam com a média histórica. A linha em amarelo é composta de pontos representando a média dos últimos 20 anos para cada dia. Gráfico extraído de: https://maps.greenpeace.org/fire_dashboard/?lang=pt, fonte dos dados: MODIS hotspots, com atributos de LANCE FIRMS operado pela NASA/GSFC/Sistema de Informação e Dados Científicos da Terra (ESDIS) com financiamento fornecido pela NASA/HQ.
“O impacto acumulado na Amazônia a partir do fogo e do desmatamento só aumenta, estamos empurrando a floresta cada vez para mais perto do seu limite e minando seu papel de aliada no enfrentamento às mudanças climáticas. Além disso, com a destruição crescente deste bioma rico em estoque de carbono, estamos contribuindo para que extremos climáticos como esses vivenciados recentemente ao redor do planeta e no Brasil se tornem mais frequentes e intensos no futuro”, completa Cristiane.

Site investigativo francês mergulha “no reino do agronegócio” brasileiro na Amazônia

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Grande parte do deflorestamento amazônico vem do agronegócio. CARL DE SOUZA / AFP

O site investigativo francês Mediapart publicou na quinta-feira (29), a quinta parte de uma grande reportagem especial na Amazônia brasileira. Depois da “imposição da doutrina paranoica do regime militar brasileiro na Amazônia”, ou “como o mito da Natureza infinita permite a economia da destruição”, “Como a estrada e as obras abrem o caminho para o desmatamento” e “Amazônia: terra, fogo e violência”, dessa vez os jornalistas franceses se debruçaram sobre o “reino do agronegócio”  brasileiro.

 “O onipotente setor do agronegócio está se organizando para se apresentar como imprescindível no Brasil”, afirma a reportagem do site investigativo francês Mediapart. Para a equipe de jornalistas franceses, trata-se “uma batalha de ideias e uma luta política que envolve campanhas publicitárias recorrentes e que tem dramáticas consequências ecológicas e sociais na Amazônia”.

“Ao longo da BR-364 que corta o estado de Rondônia, o agronegócio está espalhando sua força até onde a vista alcança. Milhares de caminhões de transporte de grãos desfilam sem parar diante dos olhos do gado impassível”, relata Mediapart. “A paisagem alterna entre pastagens, campos de cultivo e terras devastadas ou em vias de se tornarem. A entrada de cada pequena cidade é adornada com estátuas de vacas ou seus tratadores, acompanhadas de outdoors em apoio a Jair Bolsonaro, ilustra a reportagem, dando o clima local em Rondônia.

“Desamazonização”

“Com o novo presidente do Congresso [Arthur Lira] eleito no início de 2021, particularmente sensível aos seus temas, os ruralistas consideram o momento ‘extremamente favorável’ para avançar seus muitos projetos”, diz o texto. O pesquisador Ricardo Gilson, da UNIR (Universidade Federal de Rondônia), entrevistado por Mediapart, afirma que “há um processo de ‘desamazonização’, a destruição é considerada um elogio ao progresso”, lamenta.

O site francês contextualiza dizendo que, “além de sua ofensiva política, os ruralistas aumentaram suas campanhas de comunicação. Eles não usam mais o termo ‘negócios’, renomeando-se apenas como ‘agro’, falam em ‘agrocidadãos’ com um discurso nacionalista e recrutando personalidades conhecidas, como o ex-jogador de futebol Pelé. Nessa batalha ideológica, triunfa a cultura do agronegócio, contra a cultura da floresta e de quem vive nela”, afirma Mediapart.

Guerra de dados

Segundo o site francês, para apoiar essa nova doutrina, uma “verdadeira batalha sobre o controle de dados está em andamento”. “Apesar do reconhecimento internacional, os dados dos satélites que monitoram o desmatamento são regularmente questionados pelo atual governo, e os funcionários do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que os administram sofrem pressão do governo Bolsonaro”, publica o site.

Mediapart faz questão de destacar que embora a contribuição do agronegócio para o PIB brasileiro seja inegável, o desenvolvimento prometido na verdade afeta apenas um pequeno número de beneficiários. “Existem mais de 5 milhões de agricultores no Brasil, mas 25 mil são responsáveis ​​por 50% do PIB agrícola”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, ao site investigativo.

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Este texto foi originalmente publicado pela RFI [Aqui!].

Argentina está lutando com a seca

O rio mais importante do país sul-americano tem o menor nível de água em 50 anos

rio paranáBarcos encalhados no rio Paraná perto da cidade de San Lorenzo. Foto: Reuters / agosto Marcarian

Por Jürgen Vogt, Buenos Aires para o Neues Deutschland

Embora as fortes chuvas causem inundações em muitos lugares da Europa, o quadro é diferente na América do Sul: o Rio Paraná atingiu seu nível mais baixo em meio século. A falta de precipitação nas cabeceiras do rio brasileiro é citada como a causa. Em maio, o serviço meteorológico brasileiro relatou a menor precipitação em mais de 90 anos para os estados do sul de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Muitos especialistas se perguntam como o fenômeno está relacionado às mudanças climáticas, que, por outro lado, há muito vêm causando fortes chuvas na América do Sul.

O tempo seco não é o único responsável pela vazante do Paraná, que flui do Brasil via Paraguai e Argentina 4.880 km ao sul até sua confluência com o Río de la Plata. Durante anos, as áreas florestais da Amazônia e do Pantanal no sul do Brasil foram desmatadas e convertidas em áreas aproveitáveis ​​para o cultivo de produtos agrícolas e para a pecuária. No Paraguai e na Argentina, os limites do uso para a agricultura estão sendo empurrados cada vez mais para o norte.

No Paraguai, seis milhões de ha de floresta foram desmatados nos últimos 20 anos. Quase no mesmo período, as escavadeiras na Argentina arrasaram cerca de 14 milhões de ha de floresta. Assim como no Brasil, a área desmatada é destinada principalmente à pecuária e ao cultivo de soja nos dois países. Embora o consumo de água do rio esteja aumentando, a perda de áreas de floresta armazenadora de água, que sempre foi capaz de mitigar os efeitos extremos de chuvas fortes ou leves, é muito mais grave. O desaparecimento das florestas está mudando o microclima. As massas de ar úmido são atraídas cada vez mais fracas.

O nível médio da água do rio vem caindo desde meados de 2019. Isso já era perceptível no ano passado nas grandes áreas úmidas ao longo dos últimos 300 quilômetros do rio na Argentina. No delta do Paranás, 80 por cento da área está em níveis normais de água. Apenas 20 por cento é terreno sólido. Agora o relacionamento foi revertido. No ano passado, incontáveis ​​incêndios destruíram mais de 500 km2 de pântanos. Um desastre ambiental que ameaça se repetir no máximo até o final de julho, quando os fazendeiros tradicionalmente queimam seus campos, embora isso tenha sido proibido há muito tempo.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

De sumidouro a fonte: por causa de desmatamento, Amazônia emite mais do que absorve CO2

carbono-Amazonas-996x567Um estudo descobriu que as partes sudeste e leste da Amazônia funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Crédito da imagem: Márcio Isensee e Sá / Flickr , sob licença Creative Commons 2.0

Por Washington Castilhos para a SciDev

A Amazônia liberou, em nove anos, mais CO 2 do que absorveu, concluiu estudo que alerta que essa floresta passa a funcionar mais como emissora de dióxido de carbono do que como sumidouro.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”, disse ao SciDev.Net. os autores do artigo.

De acordo com o estudo, foram liberados um bilhão de toneladas de CO 2 anualmente entre 2010 e 2018. “Se não houvesse queimadas e desmatamento, nesse período a Amazônia eliminaria 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera”, acrescentou Aragão.

Além disso, eles descobriram que as partes sudeste e leste da floresta – a região do arco do desmatamento, já bastante alterada – funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Essa região é responsável por 72% das emissões totais da Amazônia, sendo 62% provenientes de incêndios.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”.

Luiz Aragão, Chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

“A própria floresta tem capacidade de absorver carbono, minimizando o potencial de emissão. Mas depende se funciona bem ”, explicou Aragão.

Nas florestas tropicais, o carbono é normalmente absorvido e transformado em biomassa florestal por meio da fotossíntese. No entanto, os cientistas observaram que o equilíbrio entre emissões e absorção foi alterado pela ação humana, tornando a floresta menos capaz de agir como absorvente.

“O desmatamento na Amazônia contribui para menor absorção de CO 2 e maiores emissões pela floresta, favorecendo o aquecimento global”, acrescentou a climatologista Renata Libonati, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que não participou no estudo.

Além disso, o desmatamento está intimamente relacionado aos incêndios , a principal causa das emissões de CO 2 . Apenas 18% das emissões das queimadas são absorvidas pela floresta. “O desmatamento e os incêndios tornam essa vegetação mais vulnerável a secas extremas e causa mais mortalidade de árvores. Sem capacidade de absorção, isso vai gerar mais emissões de carbono ”, enfatizou Aragão.

As medições feitas para a pesquisa incluíram a Amazônia sul-americana como um todo – cerca de 7,25 milhões de km2 – o equivalente à maior área da Europa Ocidental. Mas a reportagem revelou que a parte oriental (o lado brasileiro, com seus dois milhões de km2 e 30% de área desmatada) é a região com maior emissão e menor absorção.

As consequências, porém, afetam o clima global, pois mais emissões aumentam a temperatura do planeta e isso favorece a ocorrência de eventos extremos, expansão de doenças, períodos mais chuvosos e outros de estiagem, que podem afetar a produção agrícola, a matriz energética. e consumo de água.

“Ao mesmo tempo em que absorve carbono, a floresta recicla a água por meio da evapotranspiração das plantas. Portanto, também permite que a umidade alcance outras regiões. Mas com a degradação da floresta, essa função fica comprometida, induzindo uma redução maior das chuvas ”, explicou Aragão.

Libonati acrescentou que, apesar de estudos anteriores já apontarem para a mudança da Amazônia de sumidouro para emissor, há incertezas. “A grande contribuição deste estudo é que os cientistas coletaram informações em campo, cobrindo a região de forma mais completa e fazendo medições mais próximas da realidade. Assim, dão mais força a uma discussão já iniciada ”, analisou.

Para Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Rio de Janeiro), que também não participou do artigo, “o estudo traz evidências científicas relevantes sobre as emissões, mas o carbono também vem da degradação . Quando somarmos os dois, veremos que a situação é muito pior ”, completou Pedlowski.

De acordo com a reportagem, dos países amazônicos, o Brasil é o que menos se preocupa com a floresta, já que a parte com as maiores emissões de CO 2 fica do lado brasileiro. “O Brasil está tecnicamente preparado e sempre foi reconhecido na gestão ambiental. Precisamos resgatar essa posição para que o país tenha voz ativa no caminho do desenvolvimento sustentável ”, finalizou.

Link para o estudo na Nature

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Este texto foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Governador de Rondônia recebe carta questionando redução de unidades de conservação

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Queimada próxima ao rio Rio Branco na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho, Rondônia Foto: Christian Braga/Greenpeace

Organizações enviaram hoje, carta ao Governador Marcos Rocha, sobre a redução da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim. A carta afirma que os cortes foram além do previsto, contrariando parecer técnico do próprio governo. Confira abaixo a carta, na íntegra. Organizações estão disponíveis para entrevista.

Porto Velho, 28 de julho de 2021

Senhor Marcos Rocha
Governador do Estado de Rondônia
Palácio Rio Madeira – Av. Farquar, 2986 -Bairro Pedrinhas
CEP 76.801-470 – Porto Velho, RO

O projeto de lei complementar do Executivo número 080/2020 propunha a redução da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim. Como compensação, oferecia a criação de outras seis unidades de conservação: Os Parques Estaduais Ilha das Flores e Abaitará; as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Bom Jardim, Limoeiro e Machado; e a Reserva da Fauna Pau D’Óleo. O projeto cortava cerca de 150 mil hectares e protegia outros cerca de 120 mil hectares.

Na tramitação na Assembleia Legislativa, os cortes subiram para cerca de 220 mil hectares e foram estabelecidos na lei 1089/2021, que o senhor sancionou contrariando os pareceres técnicos do seu próprio governo.

A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) informou o senhor em 18 de maio de 2021, por meio do Parecer nº 45/2021/SEDAM-CUC, que não havia estudos técnicos para diminuir as unidades de conservação; alertava para o comprometimento substancial dos atributos naturais que justificaram a criação das unidades de conservação; Frisava que as novas áreas propostas não apresentavam os mesmos atributos das unidades reduzidas; e salientava que não houve consulta pública para fazer as alterações. Na conclusão, opinava pelo veto ao projeto.

Da mesma maneira, a Procuradoria Geral do Estado, em 19 de maio de 2021, por meio do Parecer nº 35/2021/PGE-PAMB, registrava a violação de uma série de princípios, leis e acordos internacionais. E opinava igualmente pelo veto. Ainda assim, o senhor sancionou o projeto, o que motivou a abertura de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), por iniciativa do Ministério Público do Estado.

Agora, a Assembleia Legislativa novamente se insurge contra as unidades de conservação da natureza, por meio do PLC 104/2021, extinguindo o parque estadual Ilha das Flores e reduzindo em 6,5 mil hectares a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Limoeiro – duas das áreas criadas justamente para compensar as reduções em Jaci-Paraná e Guajará-Mirim. Ressalte-se que os mesmos argumentos usados pela Sedam e pela PGE para indicar o veto anteriormente valem para este caso. Novamente, não há consulta, não há estudos e há uma série de violações legais.

Mais uma vez, a Assembleia Legislativa coloca o estado de Rondônia na condição de pária perante um mundo que busca por mais florestas, que precisa de mais natureza, para garantir o próprio futuro da humanidade, como mostram as secas no sul do país e a diminuição de oferta de água na Amazônia. A decisão dá, ainda, mais argumentos para o levantamento de barreiras econômicas para o estado e para o país.

A decisão agora está em suas mãos. O futuro nos observa e cobrará seu preço. Tenha em conta que sua assinatura terá impacto não apenas entre nós, mas também para as futuras gerações. Por isso, reiteramos o entendimento de que o projeto deve ser vetado integralmente, para manter sem reduções a criação das duas unidades de conservação.

Assinam:

Ação Ecológica Guaporé – Ecoporé

Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé

CIMI – Conselho Indigenista Missionário

Greenpeace

WWF-Brasil

Procurador Daniel Dalberto

Íris Morais Araújo (Professora UFT)

Gicele Sucupira (Professora UNIR)

Júlia Otero dos Santos (Professora UFPA)

Rosa Maria Guarasugwe (Liderança indígena Povo Guarasugwe)

Carma Maria Martini (Professora UNIR)

Neiva Araujo (Professora UNIR)

Renata Nóbrega (Professora UNIR)

Luis Fernando Novoa (Professor UNIR)

Felipe Vander Velden (Professor UFSCar)

Jandira Keppi (COMIN)

Lediane Felzke (Professora IFRO)

Nicole Soares-Pinto (Professora UFES)

Márcia Mura (Liderança indígena povo Mura)

Mária Lúcia Gomide (Professora UNIR)

Para proteger florestas na Amazônia é preciso foco em áreas prioritárias e incentivo à regeneração florestal, mostra estudo

Trabalho traz recomendações concretas para o Brasil conter a perda de floresta nativa. Pesquisa é parte do projeto Amazônia 2030

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Nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu – em especial a partir de 2019, quando a perda de floresta acelerou. Reverter esse quadro vai exigir que o Brasil fortaleça políticas públicas já existentes, como a expansão de áreas protegidas e a punição ao desmatamento ilegal. Mas é preciso ir além, de modo a incorporar à agenda pública incentivos à regeneração de florestas e o combate à degradação florestal.

As recomendações constam no estudo Políticas Públicas para Proteção Florestal – o que funciona e como melhorar, da economista Clarissa Gandour. No trabalho, parte do projeto Amazônia 2030, a pesquisadora passa em revista as políticas públicas de combate ao desmatamento adotadas pelo Brasil a partir de 2004. A partir daquele ano, e até 2014, mudanças tecnológicas, ações de fiscalização e a atuação integrada de diversos ministérios contribuíram para que a taxa de desmatamento na Amazônia regredisse. Depois disso, a situação se deteriorou.

A análise demonstra que o Brasil conseguiu, ao longo daqueles anos, implementar instrumentos eficientes para conter a perda de floresta nativa. Eles foram enfraquecidos e, hoje, não bastam mais. “Para além de aprimorar seus esforços de combate ao desmatamento, o Brasil deve incorporar novas dimensões de proteção da vegetação nativa à sua agenda de políticas públicas para a conservação tropical”, diz o estudo.

O trabalho mostra que é preciso atuar em três frentes:

Combate à degradação florestal

Hoje, o desmatamento não é o único dano ambiental que assola a Amazônia brasileira. A perda gradativa de floresta – conhecida como degradação florestal – desponta como um problema cada vez mais grave, mas ainda negligenciado no âmbito das políticas públicas. Há indícios de que a degradação florestal representa um estágio inicial do processo de desmatamento. Geralmente, ela está associada à extração madeireira e a queimadas.

Segundo o estudo, é preciso atuar para deter a perda de florestas em estágio inicial, de modo a otimizar os esforços de políticas públicas de conservação.

Hoje, a degradação florestal afeta uma área da Amazônia maior que o desmatamento. Em média, são 11 mil km2 de floresta degradada por ano, o dobro da área desmatada anualmente. A maior parte dela – 75% – se concentra nos estados do Mato Grosso e do Pará.

Regeneração florestal

O restauro e a proteção de florestas tropicais captura carbono da atmosfera e são ações importantes para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Com vasta quantidade de áreas degradadas e desmatadas em regiões tropicais, o Brasil está em posição única para contribuir para esse esforço. Contudo, suas políticas de conservação florestal tendem a focar no combate ao desmatamento primário e não enfatizam a promoção e a proteção de áreas regeneradas – aquelas que já foram desmatadas mas que, aos poucos, voltam a crescer. Atualmente, o país nem sequer monitora essas áreas de forma sistemática.

Segundo estudo, é imprescindível que o Brasil aja agora para incorporar o restauro de ecossistemas em sua agenda de políticas públicas de conservação. Ao assumir um firme compromisso com a promoção da regeneração tropical e sua conservação, o país simultaneamente avançaria no cumprimento de suas metas ambientais, promoveria melhorias no bem-estar humano em escalas local e global e ainda caminharia em direção à retomada da sua posição como pioneiro de ação climática global.

Há, na Amazônia brasileira, vastas áreas de vegetação secundária – aquela que cresce em regiões já desmatadas. Os formuladores de políticas públicas precisam compreender que essa vegetação deve ser protegida.

Foco em áreas prioritárias

O desmatamento na Amazônia não é homogêneo. Entre 2016 e 2019, ele esteve concentrado em 24 municípios. Parte significativa – um terço do total – ocorreu em terras públicas não designadas. Num cenário de recursos limitados, o Brasil deve focar seus esforços de combate ao desmatamento nessas áreas prioritárias, onde o problema é mais grave.

Além disso, afirma o estudo, é preciso fortalecer o ambiente institucional de modo a punir quem desmata. O Brasil dispõe de tecnologia capaz de monitorar a perda de floresta. Sem respaldo institucional, ela é insuficiente.

Sobre o Amazônia 2030

O projeto Amazônia 2030 é uma iniciativa conduzida por pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia. Seu objetivo é apontar caminhos para que a região dê um salto de desenvolvimento econômico e humano, mantendo a floresta em pé, nos próximos dez anos.

O projeto é uma iniciativa do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro.

Começando em 2020, e seguindo até meados de 2022, os cientistas do projeto vão publicar relatórios e estudos baseados na melhor evidência sobre a Amazônia brasileira.

Conhecimento produzido na academia e aliado às experiências dos povos da floresta, empresários, empreendedores e agentes públicos. Esses documentos reunirão recomendações práticas, que poderão ser aplicadas por agentes privados e públicos.

Mato Grosso é campeão de desmatamento no Centro-Oeste; derrubada pelo fogo cresceu na Amazônia e no Pantanal

desmatamento-amazonia-1583883706-1000x666Área desmatada ilegalmente na Floresta Amazônica. Foto: marcio isensee / Shutterstock.com

Quando: sexta-feira, 23 de julho, às 10h (horário de Brasília)

O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2020 para a região Centro-Oeste será apresentado nesta sexta-feira, 23, às 10h (horário de Brasília). O evento on-line será ao vivo terá participação de órgãos de monitoramento e fiscalização.

Produzido a partir dos dados do MapBiomas Alerta, o estudo expõe algumas contradições: uma redução no desmatamento no Cerrado fez com que o Centro-Oeste registrasse queda de 10% no número de alertas entre 2019 e 2020. Mas o fogo no Pantanal e na Amazônia cresceu.

Foram registrados 5.617 alertas na região e 239.255 hectares de vegetação nativa suprimida no período. Dos 467 municípios da região, 308 tiveram desmatamento, segundo o relatório. Entre os dez municípios do Centro-Oeste que registraram maior subtração de vegetação nativa, nove estão no Mato Grosso e um em Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso do Sul foi o segundo Estado do Centro-Oeste que mais desmatou e o único que registrou aumento na área desmatada, com 34% a mais no comparativo – o que representou 178.183 hectares em 2020.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) atua na coordenação científica do projeto e na coordenação do bioma Cerrado.

Sobre o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) é uma organização científica, não governamental, apartidária e sem fins lucrativos que desde 1995 trabalha pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Nosso propósito é consolidar, até 2035, o modelo de desenvolvimento tropical da Amazônia, por meio da produção de conhecimento, implementação de iniciativas locais e influência em políticas públicas, de forma a impactar o desenvolvimento econômico, a igualdade social e a preservação do meio ambiente.

Sobre o MapBiomas Alerta

O MapBiomas Alerta é um sistema de validação e refinamento de alertas de desmatamento, degradação e regeneração de vegetação nativa com imagens de alta resolução. Sua construção tem como base a experiência exitosa do MapBiomas de trabalho multi institucional, em rede, com processamento distribuído de imagens e dados em larga escala, disponibilizados de forma gratuita, transparente e acessível para a sociedade em geral. O MapBiomas Alerta não é mais um sistema de alertas de desmatamento, mas um esforço para potencializar a usabilidade e eficácia dos alertas já gerados.

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas é uma iniciativa Observatório do Clima e é produzido por uma rede colaborativa de co-criadores formada por ONGs, universidades e empresas de tecnologia organizados por biomas e temas transversais.

É Fogo – Dados e perspectivas para a cobertura das queimadas no Brasil

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Greenpeace e LASA (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ) abrem inscrições para o webinar de preparação para cobertura da temporada de fogo na Amazônia

A temporada de seca no Brasil traz com ela o aumento das queimadas, a maioria delas criminosas, e uma série de impactos ambientais, sociais e econômicos que afetam não só as pessoas e o país, mas o mundo.

Mas qual a diferença entre os incêndios na Califórnia, no Cerrado ou na Amazônia? Tudo é culpa das mudanças climáticas? Como é feito o monitoramento do fogo e como interpretar os dados das imagens de satélite? Para os jornalistas, como lidar com a guerra de narrativas e a desinformação promovida até mesmo pelo poder público?

Estas são algumas perguntas que iremos responder no webinar “É Fogo – Dados e perspectivas para a cobertura das queimadas no Brasil”, realizado pelo Greenpeace em parceria com o LASA – Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, nos dias 28 e 29 de julho, das 9h às 12h30.

As inscrições são gratuitas, inscreva-se AQUI e participe!

‘Desmatamento não é vantajoso para o Brasil’, afirma ex-ministro Alysson Paolinelli na conferência Entendendo a Amazônia

Indicado ao Prêmio Nobel da Paz, Paolinelli diz ter ‘esperança de que a ciência mostre e demonstre que a árvore vale mais em pé do que caída’

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Brasília – O ex-ministro da Agricultura Alysson Paulinelli discursa durante entrega da Medalha Mérito Apolônio Sales a ex-ministros da pasta por serviços prestados à agropecuária brasileira (José Cruz/Agência Brasil)

Crédito: Agência Brasil

“O desmatamento é um fator que nós temos de coibir. O desmatamento não é vantajoso para o Brasil; a agricultura não depende dele. Ao contrário”, afirmou Alysson Paolinelli durante palestra na conferência virtual “Entendendo a Amazônia”, que acontece até o dia 22 de julho. De acordo com o ex-ministro da Agricultura – indicado ao Prêmio Nobel da Paz –, “a continuar o desmatamento nas proporções atuais, poderá acontecer dificuldades nos chamados grandes rios aéreos”, que “abastecem” regiões produtoras com umidade quente. Essa umidade, que se encontra com as ondas frias que surgem do Sul, provocam chuvas que beneficiam as plantações do país, informa.

“Felizmente, o desmatamento não vem da agricultura: é um fenômeno de especulação de madeireiros que utilizam a madeira da Amazônia para exportar, o que não deve continuar acontecendo. Eles estão contra a lei. A lei ali tem de ser respeitada, porque não há nenhuma vantagem no Brasil com esse desmatamento. Estamos interessados muito mais na abundância biológica na Amazônia. É realmente o maior volume de biologia no mundo e poderá ajudar o Brasil no desenvolvimento pela ciência da bioeconomia, nova fase em que nós vamos entrar”, complementou o ex-ministro da Agricultura.

Mineiro, Paolinelli tem 84 anos e começou a atuar com a agricultura há seis décadas. Nesse período, além de ter assumido a pasta federal da agricultura em 1974, foi secretário estadual da mesma área de Minas Gerais (durante três períodos entre 1971 e 1998) e dirigiu a então Escola Superior de Agricultura de Lavras – que se transformou na atual Universidade Federal de Lavras. No Ministério da Agricultura, sua gestão foi responsável pela criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Esse trabalho contribuiu para que esse personagem histórico fosse indicado à edição de 2021 do Prêmio Nobel da Paz.

“O Brasil criou, nesses últimos 40 anos, uma agricultura tropical altamente sustentável, com a vantagem de que, só com as tecnologias existentes hoje, poderemos, na área antropizada, ter condições de suportar toda a demanda mundial de alimentos em 2050”, analisou Paolinelli. “No Brasil, a árvore está valendo mais caída do que em pé. Nós temos esperança de que a ciência mostre e demonstre o contrário. Essa é uma tarefa que teremos daqui em diante”, finalizou o ex-ministro.

Entendendo a Amazônia

A conferência, que tem duração de 19 a 22 de julho, tem o objetivo de informar corretamente a sociedade em geral e buscar melhores caminhos para essa riqueza, integrando a preservação com a produção sustentável. Tudo isso sem conotação política. São 28 palestras destinadas a todos os públicos no Brasil e no exterior. O conteúdo ficará gravado e disponível até 31 de julho no site www.entendendoaamazonia.com.br.

“Nesse evento, reunimos pessoas que têm grande conhecimento da região e vão contar objetivamente seus pontos de vista a partir de uma vivência real da Amazônia”, diz Xavier Boutaud, cofundador da Agri-Rex, organizadora da conferência. É uma grande honra e uma satisfação trazer um programa em que lideranças do maior destaque vêm compartilhar generosamente seu conhecimento.”

A programação aborda desenvolvimento sustentável, impacto do desmatamento nas mudanças climáticas e na produção de alimentos, importância da atuação dos fundos internacionais na preservação do bioma e o papel do agronegócio nesse contexto. Sempre com renomados especialistas. “Juntos, nossos palestrantes e entrevistados somam mais de 900 anos de experiência, todos unidos num profundo respeito à Amazônia”, complementou Boutaud.

Primeiro dia de conferência

Além de Xavier Boutaud e Alysson Paolinelli, o primeiro dia da conferência contou com Denis Minev, diretor-presidente da Bemol e cofundador e conselheiro da Fundação Amazonas Sustentável, que abordou o potencial econômico do bioma. Em seguida, a diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, traçou o histórico dos incêndios florestais na Amazônia e abordou estratégias preventivas para evitar o problema.

Sergio Vergueiro – membro do Conselho do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – e Roberval Lima – doutor em engenharia florestal e pesquisador da Embrapa – debateram como áreas desflorestadas e degradadas na Amazônia são recuperadas pela plantação de castanheiras. À tarde, o jornalista e sócio-diretor da Biomarketing, José Luiz Tejon, salientou que “para entender a Amazônia precisamos enxergar o que está dando errado”.

Já no fim do primeiro dia de palestras, a jornalista Jacqui Fatka – editora de política da norte-americana Farm Progress Companies – apresentou perspectiva dos Estados Unidos a respeito da prevenção de incêndios florestais e de como enfrentar os desafios climáticos mundiais, enquanto Teresa Cristina Vendramini – presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) – falou sobre os desafios do produtor rural na região Norte.

Por fim, a ex-secretária de Coordenação de Políticas para a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, Muriel Saragoussi, palestrou sobre como compreender a Amazônia sob a ótica da sustentabilidade e da sociobiodiversidade, encerrando o primeiro ciclo da conferência.

Dia 20 de julho: entre os principais temas abordados estão questões climáticas, bioeconomia, piscicultura, manejo florestal e a importância dos rios para a produção agropecuária.

Para conferir as palestras, acesse www.entendendoaamazonia.com.br.

Fila do osso em açougue de Cuiabá mostra que de pop, o agro só tem a propaganda

fila do ossoAçougue tem fila para doação de ossos em Cuiabá para famílias carentes

O estado do Mato Grosso é um dos líderes nacionais do latifúndio agro-exportador (i.e., também conhecido como agribusiness ou agronegócio) e os feitos dos seus grandes latifundiários capitaneados por Blairo Maggi são cantados em loas pela mídia corporativa nacional.

Mas é desse mesmo Mato Grosso que surgiu uma das cenas mais acachapantes do cenário político nacional nas últimas décadas: a fila do osso. Essa “fila do osso” nada mais é do que a distribuição de restos de carcaças de animais que não puderem ser aproveitadas (ainda) em algum tipo de canal de comercialização pelos pecuaristas mato-grossenses e torna explícita a grande dicotomia econômica e social que jaz solene sob os escombros que o agronegócio deixa para trás ao estabelecer sua hegemonia territorial (ver vídeo abaixo).

A contradição contida neste cenário socialmente devastador é flagrante. Enquanto o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, uma quantidade crescente dos brasileiros está sendo impedida de consumir essa fonte de proteina em função das políticas ultraneoliberais adotadas desde o golpe parlamentar que apeou a presidente Dilma Rousseff do poder em 2016.

Essa é uma prova eloquente que a devastação causada nos biomas florestais brasileiros, principalmente na Amazônia, para viabilizar o avanço da pecuária não possui qualquer conexão com a melhoria de vida da maioria dos brasileiros.  Assim, não bastasse a destruição ambiental, o latifúndio agro-exportador escancara as profundas diferenças de oportunidades que surgem no rastro de sua atuação.

E antes que eu me esqueça: o neoliberal bolsonarista adora mencionar as dificuldades vividas em países sob bloqueio dos EUA, Venezuela e Cuba, para indicar aos descontentes com o governo Bolsonaro que existem possibilidades piores do que a que estamos vivendo.  Depois da publicização da fila do osso em Cuiabá, é bem provável que a capital do latifúndio agro-exportador se torne o destino por eles a quem ousar criticar o “mito”.

Finalmente, a situação aqui abordada mostra que de pop o agro não tem nada. Tem sim muito agrotóxico, trabalho escravo e miséria.