Campanha “Boicote Bolsonaro” pressiona grandes redes alemãs a parar de comprar produtos agrícolas brasileiros

bolsonaro

Uma campanha de boicote foi lançada na Alemanha, mas abrangendo todos os países membros da União Européia, para que as grandes redes de supermercados alemãs (que possuem filiais em toda a Europa) parem de comprar produtos brasileiros por causa do aumento do desmatamento na Amazônia.

boicote bolsonaro

A chamada para adesão argumenta que “o lobby agrícola está queimando a floresta amazônica – tão impiedosamente quanto em dez anos”. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, agora quer aumentar ainda mais o desmatamento e, posteriormente, legalizar a apropriação de terras por grandes proprietários“.

Além disso, os idealizadores da campanha acreditam (corretamente, diga-se de passagem) que ” apenas a pressão econômica ajuda: os supermercados precisam proibir em suas as prateleiras os produtos do lobby agrícola brasileiro“.  

A pressão no caso está sendo feita contra as redes Aldi Nord, Edeka e Lidl que certamente passarão a receber muita pressão já que essa campanha deverá ganhar mais tração após o início da temporada  de queimadas na Amazônia que em 2020 deverá ser, digamos, prolífica.

Em tempo: a campanha que busca obter 100 mil assinaturas, em menos de 24 horas já ultrapassou 120 mil, e agora se colocou como novo objetivo alcançar 150 mil aderentes. O blog vai acompanhar o andamento da campanha e oferecer números atualizados de aderentes ao longo da sua duração. Uma coisa é certa: a pressão sobre as cadeias de supermercados alemãs para que boicotem os produtos brasileiros vai aumentar bastante.  

Quem quiser se informar mais sobre a campanha “Boicote Bolsonaro”, basta clicar [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia explodiu porque a pandemia deixou a vigilância manca

Um aumento no desmatamento ilegal aumenta o risco de incêndios na floresta tropical brasileira ainda mais destrutivos do que aqueles que provocaram indignação global em 2019.

desmata 0Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Por  Ernesto LondoñoManuela Andreoni e 

As consequências da pandemia exacerbaram a degradação ecológica desencadeada pelas políticas do governo de Bolsonaro , que favorece a expansão do desenvolvimento comercial na Amazônia e vê as regulamentações ambientais como um obstáculo ao crescimento econômico. Mas alguns funcionários de carreira ainda estão trabalhando para fazer cumprir as proteções ambientais.

Estima-se que 464 milhas quadradas de cobertura  vegetal na Amazônia foram cortadas de janeiro a abril, um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano passado e uma área aproximadamente 20 vezes maior que Manhattan, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe), a agência governamental que rastreia o desmatamento com imagens de satélite.

Já no ano passado, o desmatamento na Amazônia atingiu níveis nunca vistos desde 2008.

Ao mesmo tempo, o coronavírus matou mais de 34.000 pessoas no Brasil, que agora está registrando o maior número diário de mortes no mundo. Também alimentou a polarização política e dominou as manchetes e os debates sobre políticas nos últimos meses, eclipsando o aumento dos danos à floresta tropical.

desmata 4Pessoas que usavam máscaras no mês passado em São Paulo por causa da pandemia de coronavírus.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que apóia a flexibilização da regulamentação ambiental por Bolsonaro, disse no final de abril que viu a pandemia como uma oportunidade de reduzir as restrições enquanto a atenção estava concentrada em outros lugares.

“Precisamos nos esforçar aqui durante esse período de calma em termos de cobertura da imprensa, porque as pessoas estão apenas falando sobre Covid”, disse ele durante uma reunião do gabinete em 22 de abril. Um vídeo da reunião foi tornado público.

As declarações, que Salles disse mais tarde que se referiam a seus esforços para simplificar a burocracia, levaram os promotores federais a pedir uma investigação sobre o que eles disseram que resultou em abandono do dever.

A associação que representa os trabalhadores ambientais do governo emitiu uma declaração chamando Salles de “criminoso” que está “esvaziando” seu próprio ministério.

As ações de execução da principal agência de proteção ambiental do país, o Instituto Brasileiro de Recursos Naturais e Renováveis, ou Ibama, caíram acentuadamente durante 2019, primeiro ano de mandato de Bolsonaro, de acordo com um documento da agência obtido pelo The New York Times.

Em 2019, o Ibama registrou 128 casos de crimes ambientais, uma queda de 55% em relação ao ano anterior. A quantidade de madeira extraída ilegalmente apreendida pela agência caiu quase 64% de 2018 a 2019, de acordo com o documento.

desmata 3Agentes do Ibama durante uma ação de fiscalização perto de Rio Pardo no ano passado. Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Funcionários do governo e ativistas ambientais dizem que o aumento do desmatamento está sendo impulsionado pelo senso predominante entre madeireiros e mineiros ilegais de que derrubar a floresta tropical acarreta um risco mínimo de punição e produz recompensas significativas.

O governo Bolsonaro demitiu três altos funcionários do Ibama em abril, depois que a agência realizou uma grande operação visando mineradores ilegais no estado do Pará, no norte.

Em maio, um oficial da lei de uniforme foi agredido por madeireiros ilegais no Pará depois que um caminhão com madeira foi interceptado. Depois que uma pequena multidão atacou o agente, um dos madeireiros o atingiu no rosto com uma garrafa de vidro, de acordo com um vídeo do incidente.

No final de maio, o governo transferiu a supervisão das reservas naturais federais do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura, abrindo caminho para o desenvolvimento comercial em áreas protegidas.

O governo também está defendendo iniciativas legislativas que dariam títulos de posse de posse de posse de terras na Amazônia e em outros biomas.

desmata 2A extração de madeira, legal e ilegal, é uma grande indústria no Brasil.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Aproximadamente 50% da cobertura de árvores perdidas durante os primeiros quatro meses deste ano foram em terras públicas, segundo o Ipam Amazônia, uma organização de pesquisa ambiental. Ane Alencar , diretora de ciências do Ipam Amazônia, disse que grande parte da destruição é de pessoas que esperam ser reconhecidas como donas legítimas da terra.

“Vejo o oportunismo alimentando a ilegalidade, pois as pessoas se aproveitam da fragilidade do momento em que vivemos, tanto política quanto economicamente”, disse ela. “Essa crise de coronavírus também está se transformando em uma crise ambiental.”

Eduardo Taveira, o principal funcionário ambiental do estado do Amazonas, disse que os madeireiros ilegais, que geralmente se esforçam para evitar serem multados e ter seus equipamentos destruídos por agentes federais, estão operando mais abertamente do que nos anos anteriores.

“Há uma sensação de que o governo está focado apenas no combate ao coronavírus, então esse tipo de atividade ilegal está acontecendo com mais ousadia do que nos últimos anos”, disse ele.

desmata 1Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Depois que o governo do Brasil foi criticado pelos incêndios no ano passado, Bolsonaro mobilizou as forças armadas para apagá-las e impedir que novas fossem colocadas. Isso deixou grande parte da terra limpa em 2019 pronta para ser queimada este ano.

“Isso significa que as áreas que foram cortadas no ano passado, mas não foram queimadas, podem ser queimadas este ano”, disse Haliuc, o promotor federal. Para piorar a situação, acrescentou, este ano foi mais seco que 2019, aumentando o risco de chamas controladas se transformarem em incêndios.

As organizações criminosas parecem estar fazendo investimentos significativos para expandir as operações, acrescentou Haliuc, com base em dados de vendas para o tipo de escavadeira usada para abrir caminhos na floresta densa.

Temendo uma nova onda de condenação internacional, o governo Bolsonaro enviou em maio alguns milhares de soldados para a Amazônia e encarregou-os de impedir crimes ambientais por 30 dias.

desmatamentoCrédito: Victor Moriyama para o New York Times

“Não queremos que o Brasil seja retratado na frente do resto do mundo como um vilão ambiental”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão quando a iniciativa foi lançada.

Em uma declaração por e-mail, o Ministério da Defesa disse que havia dedicado 3.800 militares, 11 aeronaves, 11 barcos e 180 veículos para apoiar a missão. A operação, segundo ele, “demonstra claramente a firme determinação do Brasil em preservar e defender a Amazônia”.

Ativistas ambientais dizem que são bem-vindos a qualquer aumento na fiscalização, mas a maioria vê a operação militar como uma manobra de relações públicas que não mudará a trajetória do desmatamento ou levará à punição das pessoas-chave que conduzem a destruição.

O histórico do Brasil em questões ambientais durante a era Bolsonaro desencadeou boicotes às exportações brasileiras e ameaça a implementação de um acordo comercial entre a União Européia e quatro países da América do Sul.

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira de Agronegócios, disse que a falta de controle sobre o desmatamento criminoso pode ser trágica para seu setor.

“Embora exista uma barreira clara entre o bom agro e essas pessoas, a imagem sempre se mantém no agronegócio”, disse ele. “Isso trará prejuízos para nós.”

Adriano Karipuna, líder indígena do estado de Rondônia, onde o desmatamento ilegal aumentou, disse que sua comunidade se sente cada vez mais vulnerável.

“Eles lançam uma grande operação, mas é apenas para divulgá-la”, disse ele. “Eles nunca realmente prendem ninguém.”

Karipuna disse que a facilidade com que madeireiros e mineiros ilegais estão destruindo a floresta está colocando comunidades indígenas remotas – incluindo tribos isoladas – em grave perigo.

“Essa dinâmica pode desencadear um genocídio ao espalhar o coronavírus dentro das áreas indígenas”, disse ele. “O governo brasileiro será responsável se isso acontecer.”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “The New York Times” [Aqui!]

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Em editorial, The Guardian afirma que o mundo não pode desviar os olhos do que está acontecendo na Amazônia

A visão do  “The Guardian” sobre o Brasil e a Amazônia: não desvie o olhar

Uma área desmatada de floresta perto de Porto Velho, estado de Rondônia, Brasil. Forest A floresta tropical pode parecer distante. Mas não podemos dar ao luxo de torcer as mãos e desviar o olhar. ‘Fotografia: Reuters

Editorial

Existe um consenso de que a cooperação internacional é necessária para limitar o perigo do aquecimento global há décadas. O sucesso da ação de retaguarda contra esse conhecimento, liderado por interesses em combustíveis fósseis, é uma catástrofe cuja extensão total ainda está por se desdobrar. Os banqueiros centrais agora estão exigindo que umatransição econômica inteira” siga a pandemia se o mundo quiser evitar as perturbações extremas que o aumento da temperatura de 4 ° C traria.

Indiscutivelmente, o caos desencadeado pelo coronavírus fez com que esse futuro parecesse menos remoto, e ações para evitá-lo mais necessário. O risco é que o vírus tenha o efeito oposto: focar as mentes na ameaça agora e não na que pode ser ignorada por mais alguns anos.

Em nenhum lugar esse perigo é maior do que no Brasil. O país mais populoso da América do Sul é responsável por 2,25% das emissões globais (em comparação, os EUA, com uma população 50% maior, emitem sete vezes mais). Mas a aceleração do desmatamento coloca o Brasil, que tem 60% da floresta amazônica dentro de suas fronteiras, no centro da luta para evitar o aquecimento global descontrolado. Isso ocorre porque a Amazônia é o maior sumidouro de carbono terrestre do planeta e desempenha um papel crucial no ciclo da água, além de fornecer um lar para mais espécies do que qualquer outro lugar em terra.

Vinte e oito anos atrás, em junho de 1992, a convenção-quadro da ONU sobre mudança climática foi aberta para assinatura no Rio de Janeiro. Mas desde que o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, assumiu o cargo há 18 meses, seu governo sabotou anos de trabalho de ambientalistas e ativistas indígenas que visavam proteger a floresta tropical e, em vez disso, atiçou as chamas de sua destruição por madeireiros ilegais, mineiros e pecuaristas. . No ano até julho de 2019, as perdas dispararam para 9.800 km2 e pesquisas prevêem que a floresta tropical está a caminho de um ponto de inflexão que a tornaria um emissor de carbono em meados da década de 2030. Agora, teme-se que a pandemia de coronavírus acelere isso.

Na quinta-feira, o Brasil ultrapassou a Itália e se tornou o país com o terceiro maior número de mortos em Covid-19 (atrás dos EUA e do Reino Unido), depois que um registro diário de 1.743 mortes elevou o total para mais de 34.000. Enquanto Bolsonaro continua atacando medidas de saúde pública, a população indígena da região amazônica parece cada vez mais ameaçada por violência e doenças, com cinco assassinatos no estado do Maranhão em seis meses.

A floresta tropical pode parecer distante. Mas não podemos dar ao luxo de torcer as mãos e desviar o olhar. É preciso puxar todas as alavancas possíveis que possam influenciar o governo e a indústria de carne do Brasil. Nesta semana, o Guardian informou que os bancos do Reino Unido forneceram mais de US$ 2 bilhões em apoio a empresas ligadas ao desmatamento. Essas instituições agora devem estar sob pressão, juntamente com investidores americanos como a BlackRock. Assim como políticos e reguladores.

Será necessário um grande esforço internacional para preservar a floresta amazônica. O agronegócio é responsável por mais de um quinto do PIB do Brasil. Se a indústria de gado deve enfrentar restrições, também deve haver incentivos. Os negociadores internacionais de comércio e clima têm um trabalho duro pela frente. Também há um trabalho a ser feito pela opinião pública.

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Este editorial foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Revelado: Bancos e investidores britânicos investiram R$ 10 bilhões em frigoríficos brasileiros ligados ao desmatamento na Amazônia

Investigação revela laços entre instituições financeiras e três empresas brasileiras ligadas à destruição ambiental

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Os incêndios florestais na Amazônia atingiram um recorde em 2019. Fotografia: Carl de Souza / AFP

Bancos e instituições financeiras britânicos forneceram mais de US$ 2 bilhões (em torno de R$ 10 bilhões) em apoio financeiro nos últimos anos a empresas brasileiras que atuam na produção de carne bovina que foram ligadas ao desmatamento na Amazônia,  uma nova pesquisa de pesquisa acaba de revelar

 Milhares de hectares da Amazônia estão sendo derrubados todos os anos para o plantio de pastagens e para garantir o fornecimento de carne bovina para os mercados mundiais.

Além de fornecer apoio financeiro ao Frigorífico Minerva, a segunda maior exportadora de carne bovina do Brasil, e à Marfrig, a segunda maior empresa  brasileira de processamento de carne, as instituições financeiras com sede no Reino Unido detém dezenas de milhões de dólares em ações da JBS, a maior empresa de carne do mundo.

Todas as três empresas envolvidas na produção de carne bovina foram ligadas ao desmatamento em suas cadeias de suprimentos, embora digam que estão trabalhando para monitorar seus fornecedores e mitigar riscos.

A Marfrig, uma empresa brasileira de carnes que fornece cadeias de fast-food em todo o mundo, foi flagrada comprando gado de uma fazenda que usava terra desmatada no ano passado.

A JBS continua incapaz de monitorar uma proporção significativa de seus fornecedores, apesar de operar pesadamente na Amazônia, enquanto no ano passado a Marfrig admitiu que mais da metade dos bovinos que abatia eram originários de fornecedores indiretos, os quais não  a empresa não tinha como monitorar.

De acordo com uma investigação conjunta do  “The Guardian”, pela Unearthed e  pelo Bureau of Investigative Journalism, dados financeiros entre janeiro de 2013 e maio de 2019 mostram que o HSBC subscreveu US $ 1,1 bilhão em títulos da Marfrig e US $ 917 milhões do Minerva, e também possuíam quase US $ 3 milhões em ações da JBS.

A Schroders possuía US $ 14 milhões em títulos da Marfrig e US $ 12 milhões em títulos da Minerva, enquanto a Standard Life Aberdeen possuía US $ 10 milhões em títulos da Marfrig e US $ 3 milhões em ações da JBS. A Prudential UK possuía US $ 23 milhões em ações da JBS e US $ 5 milhões em títulos da Minerva.

Os bancos freqüentemente detêm títulos e ações em nome de clientes que investem através de seus fundos de gerenciamento de ativos.

Outras instituições europeias forneceram US $ 2,1 bilhões adicionais em apoio. O Santander subscreveu US $ 1,4 bilhão em títulos nas três empresas. O Deutsche Bank subscreveu US $ 69 milhões em títulos da Marfrig e emprestou à JBS US $ 57 milhões.

As instituições européias também detinham participações significativas na JBS: Crédit Agricole, Deutsche Bank e Santander investiram US $ 37 milhões, US $ 12 milhões e US $ 7 milhões, respectivamente. Todos os dados estavam corretos em maio de 2019.

A Comissão Europeia está considerando novas regras de relatórios financeiros à luz da crise do coronavírus que exigiria que bancos, seguradoras e empresas listadas divulgassem sua exposição à perda de biodiversidade e ao risco de pandemia. Os cientistas já alertaram que o desmatamento está aumentando o risco de novas doenças emergirem.

Algumas das instituições financeiras disseram ao “The Guardian” que estavam se engajando com as três empresas por causa do desmatamento e poderiam reconsiderar seu apoio se vissem progresso insuficiente.

As três empresas envolvidas na produção de carne afirmam estar confiantes de que as fazendas onde as compras de gado abatido em suas plantas não estão envolvidas no desmatamento, mas também aceitam que não podem saber a origem de alguns animais que passaram por outras fazendas anteriormente.

Em um comunicado, a JBS afirmou ter bloqueado milhares de fornecedores diretos por violar regras relativas ao desmatamento, e que estava trabalhando com o governo federal e com a indústria brasileira para desenvolver soluções para monitorar fornecedores indiretos.

O Frigorífico Minerva afirmou que “não existem dados e estatísticas acessíveis e confiáveis ​​sobre toda a cadeia de rastreabilidade de gado” no Brasil e que está avaliando uma nova ferramenta desenvolvida pela Federação Nacional da Vida Selvagem e pela Universidade de Wisconsin para monitorar fornecedores indiretos. A Marfrig disse que estava desenvolvendo uma ferramenta para combater o risco de comprar de fornecedores indiretos que não pode monitorar.

“Nenhuma instituição financeira do Reino Unido deve lucrar com a destruição de florestas tropicais ou outros habitats preciosos no Brasil ou em qualquer outro lugar. Se o governo alega que a liderança global no clima tem algum significado, deve parar de fechar os olhos para os vínculos entre os bancos britânicos e o desmatamento na Amazônia, introduzindo uma regulamentação forte, penalidades severas e disposições rigorosas sobre a transparência pública total de questões ambientais e sociais. impactos de todas as carteiras de investimentos ”, disse Caroline Lucas,  parlamentar verde do Brighton Pavilion.

stopA Extinction Rebellion UK se reúne em frente à empresa de investimentos BlackRock para desafiá-la por suas responsabilidades com a crise climática. Foto: Guy Bell / Alamy

Em resposta às descobertas, um porta-voz da Aberdeen Standard Investments disse que: “definitivamente, existem deficiências no monitoramento da cadeia de suprimentos para toda a indústria de carne bovina no Brasil, mas essas práticas estão melhorando em toda a indústria e o ativismo dos investidores desempenha um papel importante nesse desenvolvimento. No momento, continuamos investindo, mas isso pode mudar dependendo de vários fatores. ”

Schroders disse que estava em diálogo com a Minerva e a Marfrig e que “se não víssemos esses sinais de progresso, certamente consideraríamos mudar nossas recomendações para essas empresas”.

O Deutsche Bank disse que não financia atividades onde há evidências claras e conhecidas sobre o desmatamento de florestas primárias, áreas de alto valor de conservação ou turfeiras, extração ilegal de madeira ou uso não controlado e / ou ilegal de fogo. O Crédit Agricole disse que não financia projetos em terras desmatadas com alto valor de biodiversidade.

A Prudential UK afirmou estar se envolvendo ativamente com empresas que operam na região amazônica para encontrar soluções. O HSBC disse que conduzia análises de clientes por seu compromisso com práticas de negócios sustentáveis. O Santander disse que conduz revisões anuais de mais de 2.000 clientes no Brasil, incluindo aqueles que são grandes produtores de soja, comerciantes de soja e frigoríficos, especialmente sobre sua cadeia de suprimentos.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Nota técnica do INPE alerta sobre efeitos devastadores da explosão do desmatamento na Amazônia em 2020

Desmamento acumulado entre 1 de agosto de 2019 e 14 de maio de 2020, já representa 89% da área detectada para o periodo equivalente em 2018/2019.

Smoke billows during a fire in an area of the Amazon rainforest near Porto VelhoOndas de fumaça emergem de um incêndio florestal em Rondônia em 2019.  Reuters

Uma nota técnica preparada pelo Laboratório de Ecossistemas e Ciências Ambientais nos Trópicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresenta dados  que deverão gerar repercussão internacional, na medida em que mostram um avanço consistente do desmatamento na Amazônia brasileira, e um recuo nos dispêndios financeiros por parte do governo Bolsonaro em medidas que pudessem frear este processo. 

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A referida nota técnica afirma, entre outras coisas, que “no ano de referência (2019/2020), a área de alertas de desmatamento acumulada entre , com uma projeção de desmatamento de 9.319±480 km2″ .  A nota acrescenta ainda que tal “estimativa de desmatamento corresponde a aproximadamente de 95% da taxa oficial de desmatamento em 2019 (9.762 km2)“. E que “sem uma intervenção imediata, espera-se que as atividades de desmatamento continuem crescentes nos próximos meses, como observado no mesmo período em 2019, e que mais um recorde de desmatamento na história recente da Amazônia brasileira” .

Os dados apresentados na nota técnica do INPE também  mostram que o estados do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram o grosso do desmatamento, que agora avança de forma consistente dentro de unidades de conservação.(ver figura abaixo).

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E como onde há desmatamento, há fogo, a nota técnica aponta que a intensificação do
processo de desmatamento “resultará diretamente em mais eventos de queimadas na Amazônia em 2020”.  Além disso, a nota prevê que “o fogo do desmatamento, quando combinado com mais fontes de ignição, mais bordas florestais e a possibilidade de um clima mais seco, deverá intensificar a disseminação de focos de incêndio de forma descontrolada na paisagem, gerando incêndios como os observados em 1998, 2005, 2010, 2015/2016”, o que já está ocorrendo mesmo que a alta estação das queimadas não tenha sido iniciada (ver figura abaixo).

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Por outro lado, a nota técnica também indica clara preocupação com a redução orçamentária ocorrida no IBAMA para possibilitar as ações de Normatização e Fiscalização em 2020, pois houve na Lei Orçamentária Anual (LOA), traduz-se pela redução de R$ 97,6 milhões em 2019 para R$ 76,8 milhões em 2020,  o representa 21%  a menos para o financiamento das ações que poderiam impedir o avanço das atividades ilegais que hoje aceleram os processos de desmatamento e degradação dos biomas amazônicos. Mais grave ainda é que chegando ao sexto mês do ano,  o valor empenhado para a realização das ações de controle ambiental não está próximo sequer da metade do mínimo necessário para atingir a redução de desmatamento planejada para 2020 (ver figura abaixo).

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A nota conclui que é imperativo os cenários já ocorrendo no chão da Amazônia para que se evite a degradação ambiental, a propagação de queimadas, e o aprofundamento do colapso do sistema de saúde nos estados amazônicos que já se encontram sob forte pressão por causa do avanço desenfreado da pandemia da COVID-19.

Quem desejar ler a íntegra da nota técnica do INPE, produzida em conjunto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), basta clicar [Aqui!].

Com o “passa boiada” de Salles e Bolsonaro, Brasil é líder mundial de desmatamento

Em 2019, o mundo perdeu um campo de futebol da floresta tropical a cada 6 segundos.

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As recentes repercussões negativas das declarações do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, no sentido de que se aproveitasse a pandemia da COVID-19 para que “se passasse a boiada” na legislação ambiental brasileira certamente vão ganhar impulso com a divulgação dos dados anuais de desmatamento no mundo pelo “Global Forest Watch”.

Ricardo Salles aproveita pandemia e “passa boiada” no Projeto ...A política “passa a boiada” de Ricardo Salles colocou o Brasil no topo do desmatamento mundial em 2019. Em 2020 poderá ser ainda pior.

É que, dentre tantas comprovações científicas, há o fato de que o Brasil se tornou o líder mundial na perda de florestas tropicais, representando sozinho um terço de todo o desmatamento ocorrido no mundo em 2019, com o incrível total de 1 milhão e 361 mil hectares de remoção de vegetação nativa (ver gráfico abaixo).

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Os dados sobre desmatamento em reservas indígenas também deverão causar grande alarme mundial, na medida em que apenas no estado do Pará, as análises espaciais feitas pelo Global Forest Watch mostram que  novos pontos de perda preocupantes em terras indígenas (TIs), sendo que apenas na TI Trincheira / Bacajá,  houve um forte crescimento do desmatamento como resultado da apropriação ilegal de terras , enquanto que  a mineração ilegal ameaça florestas em  outras TIs como as de Munduruku e Kayapó (ver figura abaixo).GFW 2

Outro aspecto é que a evolução temporal do desmatamento em áreas consideradas como “estabilizadas” em termos de titulação da propriedade da terra aponta para a remoção total da vegetação primária, o que acabará forçando o avanço para áreas ainda intocadas de floresta, na medida em que os solos amazônicos são majoritariamente de baixa fertilidade e se tornam impróprias mesmo para o plantio de plantagens após algumas décadas (ver exemplo abaixo da evolução do desmatamento em Alto Paraíso, Rondônia).

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Este vídeo não existe

O relatório do Global Forest Watch também aponta para algo que se tornará, inevitavelmente, um calcanhar de Aquiles para o agronegócio brasileiro que é justamente a postura “passa boiada” do governo Bolsonaro que foi tão enfaticamente defendida por Ricardo Salles na reunião ministerial de 22 de abril. É que está obviamente claro que o governo Bolsonaro não possui outra intenção que não seja avançar a franja de desmatamento para regiões ainda intocadas da Amazônia brasileira.

E certamente a pressão para boicotes contra as commodities brasileiras irá aumentar sensivelmente quando as primeiras grandes queimadas de 2020 começarem a levantar montanhas de fumaça. A essas alturas do campeonato, uma nova estação de queimadas intensas é mais do que uma certeza, e Ricardo Salles não terá como esconder tanto fogo e fumaça.

Empresas renegam apoio à “boiada” de Ricardo Salles

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O anúncio publicado na semana passada por associações empresariais em favor da política ambiental de Ricardo Salles acabou saindo pela culatra. Diversas empresas que fazem parte de associações signatárias reagiram duramente e desautorizaram seu endosso. Algumas chegaram a pedir desfiliação das associações.

De acordo com Joana Cunha, na Folha, o resort Beach Park e a rede de hotéis Bourbon comunicaram sua saída da Associação para Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (ADIT), uma das signatárias do anúncio pró-Salles. A ABIHPEC, entidade representativa da indústria de cosméticos, retirou seu endosso após ser pressionada por gigantes do setor como o Grupo Boticário, a Natura e L’Occitane.

No agronegócio, a reação à campanha pró-Salles também não foi boa. Ouvido por Giovana Girardi no Estadão, o presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), Marcello Brito, avaliou que tanto a peça publicitária quanto o discurso do ministro Salles sobre “passar a boiada” por cima das regulamentações ambientais são contraproducentes e comprometem o esforço do setor para desburocratizar processos na agricultura: “Não precisa passar coisas de baciada. Pegou mal. Pega mal pro agro. E veja bem.: não era a ministra da agricultura que estava falando, era o ministro do meio ambiente. Tem um processo meio maluco nisso aí”.

Outro porta-voz importante do setor, Pedro de Camargo Neto, que trabalhou no Ministério da Agricultura sob o governo FHC e servia como vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), renunciou ao posto por conta do apoio da entidade ao ministro Salles. “Fui contra assinar o anúncio de apoio ao Ministério do Meio Ambiente que entendo ser equivocado e que fere meus princípios. Pretender usar o momento de dor e mesmo pânico na Saúde Pública para aprovar medidas contra a burocracia fere meus princípios”, disse Camargo Neto à Mônica Scaramuzzo no Estadão.

Enquanto empresas e sociedade civil discutem a “boiada” de Salles, a verdade cruel é que o ministro está avançado em seu esforço de enfraquecimento do regramento ambiental, algo evidente pela explosão no desmatamento nos principais biomas brasileiros. Como bem coloca Eudes Lima na IstoÉ, “a boiada já está no pasto”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Le Monde faz matéria sobre Tereza Cristina, a “Madame Desmatamento”

Tereza Cristina madame desmatamentoTereza Cristina, a “Madame Desmatamento, no seu escritório no Ministério da Agricultura em Brasília. 

Os leitores do jornal francês “Le Monde” foram premiados hoje com uma ampla matéria sobre os feitos da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a quem o jornalista Bruno Meyerfeld conferiu, com rara felicidade, o título de “Mme Déforestation”, ou “Madame Desmatamento”.  Essa matéria apresenta Tereza Cristina como o “rosto respeitável de um governo de loucos”, mas nem por isso menos responsável pelos números estratosféricos de desmatamento que vão marcar o ano de 2020 como um dos piores desde que o acompanhamento foi iniciado para medir a perda anual de florestas na Amazônia brasileira.

tereza cristina le monde

Um número que deverá causar espanto aos leitores franceses é o dos 1.202 km2   de floresta tropical que desapareceram nos primeiros quatro meses de 2020,  o equivalente a mais de 1.400 campos de futebol por dia.  Este valor recorde de desmatamento, ressalta a matéria, ocorreu no meio da estação das chuvas, e se soma aos 10.000 km2 destruídos no ano passado.

Bruno Meyerfield também informa na matéria o apelido de “Musa do Veneno” que Tereza Cristina ganhou enquanto ocupava o posto de líder da famigerada “Frente Parlamentar da Agricultura (FPA), mais conhecida como “bancada ruralista”, onde defendeu com unhas e dentes a aprovação desenfreada de agrotóxicos altamente venenosos, coisa que agora ela faz com incrível celeridade enquanto segura a caneta de ministra da Agricultura.

Um ponto que é marcado na reportagem é a fala de Tereza Cristina no sentido de que ela é ouvida por Jair Bolsonaro, que lhe dá “total liberdade para expressar sua opinião”.  Até onde essa liberdade total vai é sempre uma questão a se medir, mas não há dúvida que Tereza Cristina vem realizando com maestria o papel duplo de fazer avançar os interesses daqueles que se beneficiam com o avanço o processo de desmatamento que, muitas vezes, agem juntos com os produtores de agrotóxicos que são despejados nas áreas que estão perdendo florestas.  Não é por outra razão que Tereza Cristina favorece por um lado a liberação de um número recorde de agrotóxicos banidos na União Europeia e, por outro, se posiciona de forma inequívoca na defesa da “MP da Grilagem de Terras”. 

Por tudo que aparece na matéria do “Le Monde” é que considero um equívoco deixar Tereza Cristina operando tranquilamente no segundo plano que ela escolheu, enquanto toda a atenção é jogada sobre o improbo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles.  É que objetivamente, Ricardo Salles vem jogando o papel de “boi de piranha” e não de “passador de boiada”, já que é Tereza Cristina quem operacionaliza a ação devastadora do latifúndio agro-exportador sobre nossos ecossistemas naturais.  Mas, felizmente, sempre há um “Le Monde” da vida para nos mostrar isso, já que a mídia corporativa brasileira prefere se omitir em nome de seus próprios interesses.

 

Propaganda pró-Salles não teve o aval de empresas

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Na 3ª feira (26/5), os principais jornais do Brasil estamparam um anúncio em defesa da gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente assinado por diversas associações setoriais. Eram tantos nomes que não dava para ler direito e identificar quem eram os signatários da peça. Quem olhasse apenas a sopa de letras poderia imaginar que o apoio das organizações empresariais à política ambiental brasileira atual era generalizado e amplo. No entanto, como muita coisa vinda desta gestão, boa parte daquilo era fake news.

Algumas das principais empresas filiadas às associações signatárias do anúncio rejeitaram seu envolvimento e contestaram a participação das associações setoriais. Entre elas a Natura e a Avon, filiadas à Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), uma das signatárias do anúncio. As duas empresas disseram não aprovar a peça e não terem sido consultadas sobre ela. “Os índices de desmatamento no Brasil são alarmantes e existe uma urgência real por mais fiscalização e cumprimento da legislação. A gente discorda dessa manifestação de apoio”, respondeu a Natura. O Boticário foi na mesma direção e adicionou pedido à ABIHPEC para que esta retire sua assinatura do anúncio.

Beach Park também contestou seu envolvimento no anúncio e acusou a Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil (ADIT), outra signatária da peça, de não ter feito nenhuma consulta aos seus associados: “O Beach Park não foi consultado sobre esse material e não tinha conhecimento da publicação”, informou a empresa no Twitter. “Já formalizamos nossa reclamação à ADIT e pedimos a desfiliação da associação. Estamos juntos com todos os que defendem o meio ambiente”.

Da mesma forma, o gigante da hotelaria francesa, Accor Group, acusou a ADIT de não ter consultado seus associados sobre o anúncio. “[A] Accor é fortemente comprometida em reduzir sua pegada de carbono. Esse anúncio não representa nem os valores do Grupo nem seu engajamento diário. Estamos em contato com a associação e pedimos por um esclarecimento oficial”.

Também responderam na mesma linha o grupo Bourbon de hotéis, os resorts Txai, a L’Occitane, a Mars (Whiskas, Pedigree e Royal Canin), a licenciadora da marca Turma da Mônica, a Batavo e a gigante do agro Marfrig.

O anúncio em favor de Salles pode ter aprofundado ainda mais o racha dentro do agronegócio brasileiro. No Valor, Daniela Chiaretti e Fernando Lopes falam de uma divisão entre empresas exportadoras, mais modernas e sensíveis aos humores do mercado externo, e entidades mais conservadoras, fortemente alinhadas com o governo Bolsonaro.

Já o De Olho nos Ruralistas fez uma análise detalhada sobre os signatários do anúncio e identificou que alguns deles também são os principais financiadores da bancada ruralista no Congresso Nacional.

Ainda que o agronegócio tenha sido o carro-chefe do anúncio pró-Salles, a articulação em torno dele saiu do setor de construção civil, informa Mauro Zalafon na Folha. Isso é nítido na lista de signatários: das 87 entidades que assinaram o anúncio, apenas 30 são relacionadas ao agronegócio; todas as demais estão ligadas às áreas de comércio, indústria, construção e administração de imóveis urbanos.

Em tempo 1: Atingido em cheio pelo “boiada-gate” de Ricardo Salles, o PL 2.633 tenta avançar na Câmara dos Deputados depois de ter sido retirado da pauta da Casa na semana passada em virtude de desavenças entre o texto do relator Marcelo Ramos (PL-AM) e o governo federal e a oposição da sociedade civil. Ramos informou ontem que insistirá na votação do PL, eventualmente ainda na semana que vem. O governo segue pressionando para que o PL incorpore os pontos mais problemáticos da falecida MP 910, como a ampliação da isenção de vistoria para imóveis de até 15 módulos fiscais e a mudança da linha de corte temporal para titulação das terras de 2008 para 2012.

Em tempo 2: O ministro Salles parece estar fazendo escola. A ministra de energia da província canadense de Alberta disse, em uma entrevista, que “agora é um ótimo momento para construir um oleoduto porque não pode haver protestos com mais de 15 pessoas. Vamos construí-lo.” Segundo a matéria do The Globe and Mail, o entrevistador achou graça e riu. A ministra, não.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária

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Empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill compõem as associações do agronegócio cujos recursos custeiam o Instituto Pensar Agro (IPA), por sua vez o motor logístico da FPA, o principal braço da bancada ruralista

Por Priscilla Arroyo para o “De olho nos ruralistas”

O Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é praticamente invisível. Não tem site oficial e há poucas informações públicas sobre as atividades que mantém. O IPA se apresenta como uma instituição que presta suporte técnico à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), grupo de associações e empresas do setor que reúne 257 deputados e senadores. É o braço institucional mais conhecido da bancada ruralista, a maior do Congresso.

Na presidência da FPA está o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Ele assumiu o cargo em fevereiro, sucedendo Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura. Na prática, o IPA e a FPA se confundem: as instituições têm o mesmo e-mail para contato e o mesmo endereço – uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde os parlamentares se reúnem todas as terças-feiras.
As verbas do IPA são direcionadas para a FPA. Até aí, fato conhecido – e relatado pelos próprios congressistas. Fato menos conhecido: esses recursos são oriundos da contribuição de 38 associações mantenedoras do IPA, que pagam uma mensalidade de pelo menos R$ 20 mil cada uma. Isso significa R$ 760 mil no caixa por mês. E quem mantém as associações? Multinacionais. Grandes empresas brasileiras do setor. Bancos.

De Olho nos Ruralistas identificou as empresas ligadas a doze dessas associações e listou as que têm mais relevância na economia. Dessa lista, fazem parte 22 das 50 maiores companhias do agronegócio no Brasil, de acordo com a revista Forbes. Bayer, Basf, BRF, JBS, Syngenta, Bunge e Cargill são algumas delas.

Confira a lista:

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Líder mundial em sementes e pesticidas, a alemã Bayer lidera também o levantamento ao apoiar cinco entidades que financiam o Instituto Pensar Agropecuária. Entre elas estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). A Monsanto, que pertence à Bayer desde o ano passado, contribui com três mantenedoras do IPA. A empresa produz o Roundup, um dos pesticidas mais usados no mundo e alvo de milhares de processos judiciais nos Estados Unidos por conta das suspeitas de causar câncer.

A produtora de químicos Basf dá suporte a quatro entidades, entre as quais o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A Cargill, que processa e exporta grãos e está presente em 17 estados e em 191 municípios do Brasil, está entre as empresas que compõem a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) – ambos apoiadores do IPA.

A lista de mantenedores indiretos da bancada ruralista inclui duas grandes multinacionais do tabaco, a Souza Cruz e a Philip Morris, ambas fiadoras da Associação Brasileira da Indústria do Fumo. Corporações como Nestlé, Aurora e Danone, da Viva Lácteos. Ou o grupo André Maggi, capitaneado pelo ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi. A empresa ajuda a bancar a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Aprass) – uma das associações que têm mais influência na FPA, ao lado da Aprosoja.

“Tem dinheiro da Cargill? Tem”, diz o principal executivo 

O IPA, ou Instituto Pensar Agro, como também é conhecido, foi criado em 2011 e se apresenta como uma entidade representativa do setor que “debate estratégias para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro”. Possui cerca de dez funcionários, a maioria técnicos, que produzem material de apoio para a formulação de projetos de lei e discussões protagonizadas pelos 225 deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária, ou 44% do total de votos da Casa. No Senado, o grupo ocupa 32 das 81 cadeiras.

 

mourão terezaTereza Cristina, Hamilton Mourão, Bolsonaro e Alceu Moreira: aliança. (Foto: Reprodução)

Os votos da FPA mostraram-se decisivos para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, com 50% dos votos, e manutenção do presidente Temer no poder, em 2017, com 55% dos votos. Esse braço da bancada ruralista – que se reúne também em organizações temáticas mais específicas, como o setor sucroalcooleiro e a silvicultura – foi também um dos fiadores da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A relação entre os técnicos do IPA e os parlamentares da FPA é cultivada por meio de almoços semanais, nos quais são definidas as pautas a serem discutidas no Congresso. A imprensa é convidada a participar desses almoços, no saguão, à espera dos deputados e senadores que se reúnem em local fechado.

Na reunião desta terça-feira (21/05), por exemplo, foi convidado o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, a face remanescente da União Democrática Ruralista (UDR). Entre as pautas estão o Código Florestal e o licenciamento ambiental – a bancada ruralista defende um licenciamento mais “flexível”.

Foi em um desses encontros semanais no Lago Sul, em 2016, que a equipe do De Olho nos Ruralistas foi expulsa pelo principal executivo do IPA, João Henrique Hummel. Intitulando-se “dono da casa“, ele disse que os repórteres – que haviam acabado de entrevistar Alceu Moreira e o gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) – não podiam estar ali, por se tratar de lugar privado. Após o episódio, a assessoria de imprensa da FPA confirmou que o acesso era público, sem restrições a este ou aquele veículo.

Notem no vídeo que Hummel carregava uma pasta da Aprosoja, uma das associações que mantêm o IPA:

Em “Uma análise sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária”, trabalho de graduação de Andressa Gonçalves Ferreira na Universidade de Brasília, a pesquisadora diz que “cabe também ao IPA, em conjunto com as entidades mantenedoras, custear as ações e estudos fornecidos à FPA”. Ela dedicou a monografia a colegas de trabalho nas duas instituições.

O próprio João Henrique Hummel explicou em junho, em entrevista que a Agência Pública definiu como “conversa com um lobista”, a origem dos recursos do Instituto Pensar Agro. “Tem dinheiro da Cargill? Tem”, disse ele ao repórter Vasconcelo Quadros. “Ela contribui com as associações, e as associações pagam aqui”.

Múltis e bancos se apresentam como sustentáveis

Além das gigantes do agronegócio, há importantes representantes do setor financeiro entre os integrantes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), como Banco do Brasil, Santander e Itaú BBA –  divisão de atacado da maior instituição financeira do país. Fazem parte ainda dessa lista o Sicredi, a B3 (antiga Bovespa, bolsa de valores do Brasil) e o banco holandês Rabobank.

Entre as companhias que têm capital aberto e figuram na lista de apoiadoras das associações mantenedoras do IPA, algumas  fazem parte também do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, uma relação das empresas que têm alto nível de eficiência econômica, equilíbrio ambiental e justiça social de acordo com métricas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nessa lista, além de Banco do Brasil e Santander, estão a Duratex, uma das maiores produtoras de painéis de madeira do Brasil, e a Klabin, uma das mais relevantes produtoras e exportadoras de papéis. Ambas estão associadas à Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), uma das mantenedoras do Instituto Pensar Agro.

A lista de empresas que financiam indiretamente a Frente Parlamentar da Agropecuária é maior do que a reunida pelo De Olho nos Ruralistas – que não conseguiu identificar os financiadores de 26 das 38 associações que compõem o IPA. Entre elas está uma das principais, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Mas há pistas. Em setembro, a Aprosoja-MT  aprovou em assembleia a criação de um fundo para construir a Ferrogrão, ferrovia entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). A obra orçada em R$ 12,7 bilhões foi uma ideia de cinco grandes multinacionais: Amaggi, ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) – uma associação sem fins lucrativos – apoia 74 entidades filantrópicas no estado, entre elas a Santa Casa de Cuiabá e o Hospital do Câncer.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site do Observatório do Agronegócio no Brasil, o “De olho nos ruralistas” [Aqui!].