Greenpeace se posiciona contra a aprovação da MP da Grilagem

Posicionamento – Aumento de alertas de desmatamento em abril

Além da calamidade sanitária que vivemos, por conta da COVID-19, os alertas de desmatamento – DETER/INPE apontam para a tendência de um aumento do desmatamento explosivo nos últimos meses na Amazônia. Abril registrou 24,2% mais alertas do que o mês anterior. Somente entre janeiro e abril, deste ano, o aumento dos alertas de desmatamento é de quase 55,5%, em relação ao mesmo período do último ano. Vale destacar que esse período é chuvoso, o que costuma diminuir o ímpeto dos destruidores de floresta e já sob influência da pandemia de Covid-19, porém, ainda assim, os crime continuam acontecendo.

Este cenário, que já é grave, pode piorar muito caso o Congresso vote a MP 910/2019, que premia a grilagem e roubo de terra pública. “Os alertas apontam para  um aumento expressivo do desmatamento na Amazônia e provam que a mensagem do governo ao promover medidas que legalizam o roubo de terras públicas, como a MP 910, alimenta os ânimos dos criminosos que avançam sobre a floresta na esperança de terem suas invasões legalizadas em algum momento. A MP foi editada em dezembro e basta olhar para os dados de janeiro até agora para ver o resultado disso. Se aprovada, permitirá que um pedaço gigantesco de terras públicas invadidas e desmatadas na Amazônia seja legalizado, tornando-se a maior anistia para roubo de terra pública desde o fim da ditadura militar no país”, afirma Rômulo Batista da campanha da Amazônia Greenpeace Brasil.

Enquanto o Poder Executivo, alguns governadores e  bancada ruralista pressionam o Congresso para pôr em votação a MP 910, que nada tem a ver com o que deveria ser a única prioridade de todos os dignitários deste país – o combate à pandemia -, os satélites só mostram o que os povos indígenas já sentem no chão da floresta. Os alertas de desmatamento dentro de Terras Indígenas aumentou 59,4% até o dia 23 de abril, o maior índice dos últimos quatro anos, e 172% nas Unidades de Conservação nos primeiros meses deste ano.

Não bastasse a ameaça de levar o vírus aos povos indígenas, desmatadores e grileiros estão se sentindo ainda mais impulsionados para cometer seus crimes. Já estamos observamos a volta de grandes desmatamentos, com mais de 1000 hectares, ocorridos entre janeiro e abril deste ano. Além da MP 910, o governo ainda tira proteção de terras indígenas, como feito pela FUNAI por meio da IN 09/2020 e promove o sucateamento dos órgãos de fiscalização. Infelizmente, o que podemos esperar para este ano são mais recordes de queimadas e desmatamento”, completa Rômulo.

Se analisarmos os dados do DETER do período de agosto de 2019 a abril de  2020, os alertas apontam para uma área desmatada de 5.483 Km². Este é o maior índice dos últimos cinco anos e 88% maior do que o registrado no ano passado no mesmo período. Se os alertas forem confirmados pelo PRODES, que é a taxa oficial do desmatamento na amazônia, que usa como base o desmatamento ocorrido entre agosto de um ano e julho do próximo, teremos, infelizmente, mais um ano de um triste recorde.

desmatamentoFigura 1: Alertas de desmatamento acumulado de agosto a 23 de abril do ano seguinte.

Desmatamento em terras indígenas aumenta 59% durante a pandemia da Covid-19

Governo ignora dados do Deter, elabora pacote de ações para regularizar invasões de terras públicas e pode colocar MP da Grilagem em votação no Congresso

São Paulo, 6 de maio de 2020 – O desmatamento e a Covid-19 avançam sobre a floresta e os povos que vivem nela e dela com velocidade avassaladora e previsões catastróficas. Uma análise dos dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostra que nos quatro primeiros meses de 2020, os alertas de desmatamento em terras indígenas da Amazônia brasileira aumentaram 59%, em comparação ao mesmo período do ano passado. De acordo com os dados do Deter, os alertas de desmatamento em Terras Indígenas (TIs) chegou a 1.319 hectares nos quatro primeiros meses deste ano – o equivalente a 1.800 campos de futebol -, enquanto no mesmo período do ano passado esse número era de 827 hectares.

O mapa abaixo mostra como o desmatamento está atingindo as Terras Indígenas:

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Esses dados reforçam o alerta que madeireiros, grileiros e garimpeiros avançam de forma descontrolada na floresta, além de poderem ser a porta de entrada para que o vírus chegue nas comunidades. Na contramão da busca por soluções, temos presenciado o total descaso do governo que, até o momento, não tomou ações para proteger os povos indígenas e as florestas brasileiras e ainda aproveita o momento para promover a diminuição da fiscalização, com a exoneração de profissionais do Ibama , enfraquecendo, ainda mais, a fiscalização.

Além disto, promove, estímulos à invasão de terras indígenas ainda em processo de demarcação com a Instrução Normativa 09 da Funai e a Medida Provisória (MP) 910/2019 – que promete a regularização de terras públicas que tenham sido invadidas até 2018. A MP tem até o dia 19 de maio para ser votada para não caducar.

“Estamos testemunhando a pandemia se espalhar pela Amazônia de maneira bastante rápida, o que pode causar um outro genocídio indígena, enquanto o governo fecha os olhos para os que cometem crimes na floresta. Isso é inaceitável. Precisamos agir – com a urgência que se faz necessária – para cuidar de quem cuida da floresta. Diante da ausência do Estado vamos continuar exercendo um importante papel para manutenção do espaço democrático, prosseguiremos monitorando e denunciando, juntamente com parceiros, atividades que colocam em risco a saúde e o territórios dos povos indígenas”, informa Carolina Marçal, porta-voz da campanha de Florestas do Greenpeace Brasil.

Iniciativa busca rastrear desmatamento da Amazônia com uso de inteligência artificial

Objetivo é fornecer informações mais precisas por meio de uma plataforma de construção coletiva sobre o desmatamento floresta

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São Paulo, abril de 2020 – Construir uma comunidade global de inovadores que usam a tecnologia para provocar mudanças positivas para as pessoas e para o planeta. É com essa visão que o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) e o SAS, líder global em analytics, estão promovendo uma ação com a finalidade de coletar informações e imagens que possam ser utilizadas como fonte de dados para construção de modelos de inteligência artificial (AI). O objetivo é fornecer informações mais precisas, por meio de uma plataforma de construção coletiva, sobre o desmatamento florestal, especialmente da região amazônica.

O IIASA, que é uma das mais importantes e respeitadas organizações mundiais de investigação científica multidisciplinar, localizada em Laxeburg, na Áustria, busca mobilizar a comunidade científica e a sociedade civil em todo o mundo para imputar e revisar imagens da floresta amazônica com o intuito de apontar áreas que foram devastadas a partir da influência humana.

Segundo o SAD, Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon, ferramenta de monitoramento baseada em imagens de satélites, o desmatamento na Amazônia cresceu 279% em março deste ano, em comparação com o mesmo mês de 2019. Segundo o relatório, 254 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos no período, sendo o número mais alto nos últimos dois anos. Para os autores da pesquisa, esse aumento pode estar ligado ao avanço de áreas ilegais de garimpo e da intensa atuação de grileiros, pessoas que se apossam de terras alheias.

“A urgência necessária para abordar essas transformações requer as melhores soluções de tecnologia. É por isso que escolhemos o SAS”, diz Albert van Jaarsveld, CEO do IIASA. “Ao combinar o poder de nossas plataformas de pesquisa de ciência ambiental, o uso de inteligência artificial e as tecnologias de computer vision do SAS, somado ao poder intelectual dos cidadãos preocupados, nós vamos desenvolver modelos de IA que vão aumentar exponencialmente o valor de insights humanos e nos esforçar para entregar uma avaliação quase em tempo real da mudança ambiental global.”

Modelos poderosos e precisos de IA não surgem por mágica. O desenvolvimento dessa tecnologia começa com inteligência humana. Para este projeto, o SAS e o IIASA estão lançando em conjunto um aplicativo online orientado pelo modelo de crowdsourcing para reunir a inteligência coletiva do público. Eles estão chamando voluntários dos mais diversos perfis – pesquisadores, estudantes do ensino médio, artistas, engenheiros e cientistas de dados profissionais – para iniciar este projeto, avaliando e julgando imagens da floresta Amazônica.

“Já que a análise de imagem é um primeiro passo importante para a avaliação e projeção precisa do desmatamento, estamos pedindo para as pessoas apontarem o que a tecnologia não consegue, examinando e reportando imagens de pequenas áreas que tiveram dano florestal”, afirma van Jaarsveld. “O trabalho colaborativo ajuda a melhorar algoritmos de IA, acelerando o que antes levaria anos para analisar, ajudando assim a conduzir respostas vitais para proteger mais rapidamente as nossas florestas.”

Quando as pessoas marcam regiões que tiveram sinais de impacto humano, elas ajudam a tornar os modelos de IA mais inteligentes. Por exemplo, é fácil para um humano distinguir entre uma estrada (que sinaliza impacto humano) e um rio (que não sinaliza), mas um modelo de IA não saberá a diferença até obter treinamento suficiente – e esse aprendizado se dá a partir de observações humanas. Além disso, os resultados do modelo garantem que o app baseado no modelo de crowdsourcing foca a atenção do julgamento humano onde sua experiência é mais necessária. O modelo permitirá maior eficiência da força humana voluntária que faz melhor uso de sua atenção e insights para uma ampla gama de projetos voltados ao monitoramento e à medição de questões importantes de mudança global.

Combinando o poder das pessoas e dos computadores, o SAS e o IIASA terão uma plataforma robusta e extensiva para fortalecer os cidadãos e nos ajudar a entender melhor e prever as ameaças ao meio ambiente. Embora a primeira fase dessa parceria se concentre no desmatamento, há planos para estender a plataforma a outras preocupações ambientais nas quais o conhecimento colaborativo pode ajudar a servir o bem maior.

Sobre o IIASA

O International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) é um instituto científico internacional que realiza pesquisas sobre as questões críticas das mudanças globais ambientais, econômicas, tecnológicas e sociais que enfrentamos no século XXI. As nossas descobertas fornecem opções valiosas aos decisores políticos para moldar o futuro do nosso mundo em constante mudança. O IIASA é independente e financiado por agências de financiamento de pesquisa de prestígio na África, Américas, Ásia e Europa. http://www.iiasa.ac.at

Sobre o SAS

O SAS é líder global em Analytics e a maior empresa de software de capital fechado do mundo. Fundada em 1976, suas soluções são usadas em mais de 80 mil empresas em todo o planeta, incluindo 93 das top 100 companhias listadas na Fortune Global 500. No Brasil, o SAS está presente desde 1996 com escritórios em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF), atuando em setores como finanças, telecomunicações, varejo, energia, governo, educação, entre outros. A empresa também é mundialmente reconhecida por suas boas práticas de Recursos Humanos, inclusive no Brasil, onde foi incluída seis vezes consecutivas entre os três melhores empregadores do país pelo ranking Top Employers Institute. Confira o site: www.sas.com/br

Ricardo Salles aproveita caos da pandemia e age para ampliar devastação na Mata Atlântica

sallesRicardo Salles aproveita o caos causado pela pandemia para descaracterizar a Lei da Mata Atlântica para permitir a ampliação da devastação

Graças a uma reportagem escrita pelo jornalista Maurício Tuffani e publicado pelo “Direto da Ciência”, o Brasil amanhece ciente de que o ministro (ou seria anti-ministro?) do meio ambiente, o improbo Ricardo Salles, depois de afrouxar as amarras na Amazônia, voltou sua mira para ampliar a devastação no que ainda resta da Mata Atlântica.

É que, segundo o que mostra Maurício Tuffani, entre uma demissão de servidor e outra, enviou uma minuta de decreto para ser avaliada pelo presidente Jair Bolsonaro que, se sancionada, permitirá a devastação legalizada de pelo menos 10% da área de remanescentes do bioma da Mata Atlântica.

Segundo o que  disse um técnico da área de análise  de impacto ambiental da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, que  pediu anonimato , as modificações propostas por Ricardo Salles na chamada “Lei da Mata Atlântica”, servirão para  “facilitar o licenciamento ambiental de empreendimentos imobiliários em áreas  de transição entre ecossistemas de Mata Atlântica, principalmente em regiões urbanas”.

Dado que atualmente sobram apenas cerca de 8,0% de um bioma tão ou mais diverso do que a Amazônia, essa tentativa de Ricardo Salles de descaracterizar a Lei daMata Atlântica devem ser objeto de profundo repúdio e pronta ação de organizações da sociedade civil e da própria população.

Por outro lado, essa ação de Ricardo Salles confirma o que já observei em outros momentos acerca do comportamento do governo Bolsonaro em meio a uma pandemia mortal, qual seja, que a eficiência para desmontar (ou pelo menos tentar) as proteções ambientais existentes continua inabalada.

Desmatamento em terras públicas da Amazônia explode e pode alimentar estação de fogo

Amazon BurntAumento de desmatamento em terras públicas deverá gerar uma estação de incêndios recorde.

Brasília, 22 de abril de 2020 – O desmatamento de 2020, somado ao que foi derrubado em 2019 e não queimou, pode alimentar uma nova estação intensa de fogo na Amazônia, especialmente em terras públicas que estão sob a guarda da União e dos Estados. Só no primeiro trimestre deste ano, 50% do desmatamento registrado pelo sistema Deter, do INPE, aconteceu nessas áreas.

O destaque fica por conta das florestas públicas ainda não destinadas, terras devolutas que são alvo de grilagem e que respondem por 15% da Amazônia. Entre janeiro e março, 33% da derrubada aconteceu nessa categoria fundiária nos três primeiros meses de 2020, mais do que em qualquer outra. No mesmo período de 2019, o índice era de 22%.

No geral, o desmatamento no primeiro trimestre deste ano foi 51% que o mesmo período do ano passado. “Quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão virar combustível para queimadas. Esse foi o ingrediente principal da temporada de fogo de 2019, uma história que pode se repetir em 2020 se nada for feito para impedir”, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Alencar é a principal autora de uma nota técnica que o instituto lança hoje, a terceira sobre queimadas na Amazônia. Neste documento, os autores reúnem as principais informações sobre a estação de fogo de 2019, que causou espanto em todo o planeta, e sinalizam os perigos à espreita.

O número de focos de calor registrados na região em 2019 foi 81% mais alto do que a média entre 2011 e 2018. A maior variação aconteceu nas florestas públicas não-destinadas: 37% a mais, outro importante indício de grilagem.

“Isso é roubo de patrimônio dos brasileiros, e deve ser resolvido com polícia”, diz o pesquisador Paulo Moutinho, do IPAM, um dos autores do estudo. “Essas áreas devem ser destinadas à conservação. São um importante ativo para a biodiversidade e para populações tradicionais sim, mas também para a economia brasileira, pois geram a chuva que alimenta plantações e hidrelétricas.”

Alimento para o fogo

A nota técnica ainda destaca que, no ano passado, a seca sozinha não explicou a alta das queimadas, a despeito do que sugeriu o governo federal na época, pois o volume médio de chuvas foi normal para o período. O elemento agudo foi o desmatamento crescente: os primeiros oito meses de 2019 apresentaram uma elevação de 92% da taxa em relação ao mesmo período de 2018, segundo dados do Deter. “A Amazônia é uma floresta úmida e não pega fogo naturalmente. O fogo ali tem dono, e ele se chama homem”, diz Alencar.

Já as ações de comando e controle contra as queimadas adotadas em agosto, especialmente dois decretos federais que proibiram o uso do fogo por dois meses e enviaram as Forças Armadas para a Amazônia, inibiram as queimadas. Tais ações controlaram o fósforo, mas não desligaram as motosserras. O desmatamento continuou crescendo nos quatro meses seguintes (2.758 Km2, segundo dados do Deter).

“A fiscalização do desmatamento na Amazônia é tão importante hoje quanto foi 20 anos atrás, quando o Brasil derrubava mais de 20.000 Km2 por ano de floresta. Não podemos chegar neste nível novamente”, afirma Moutinho. Os autores temem que, sem controle, a somatória das árvores no chão, se queimadas, encha novamente o ar de fumaça em 2020 – que, por sua vez, aumenta os casos de problemas respiratórios na população da Amazônia. Em tempos de COVID-19, são contornos de um cenário que ninguém deseja.

Leia a nota técnica: http://ipam.org.br/bibliotecas/amazonia-em-chamas-3-o-fogo-e-o-desmatamento-em-2019-e-o-que-vem-em-2020/

O rápido desmatamento da Amazônia brasileira poderá trazer a próxima pandemia

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Por  Thais Borges e  Sue Branford 

  • Quase 25.000 casos de COVID-19 foram confirmados no Brasil, com 1.378 mortes em 15 de abril, embora alguns especialistas digam que isso é uma subestimativa. Esses números continuam crescendo, mesmo quando o presidente Jair Bolsonaro minimiza a crise, chamando-a de “nada pior que uma gripe leve” e coloca a economia acima da saúde pública. 
  • Os cientistas alertam que a próxima pandemia emergente pode se originar na Amazônia brasileira se as políticas de Bolsonaro continuarem a aumentar as taxas de desmatamento da Amazônia cada vez mais. Os pesquisadores sabem há muito tempo que novas doenças geralmente surgem no nexo entre floresta e agronegócio, mineração e outro desenvolvimento humano.
  •  Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo, como os incêndios na Amazônia vistos em 2019. Após os incêndios, o habitat alterado geralmente oferece menos comida, alterando o comportamento dos animais, colocando a fauna em contato com comunidades humanas vizinhas, criando vetores para bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.][
  • Agora, Bolsonaro está pressionando para abrir terras indígenas e unidades de conservação para mineração e agronegócio – políticas que beneficiam muito os grileiros. A escalada do desmatamento, agravada pelas mudanças climáticas, o aumento da seca e do fogo, aumentam o risco de surgimento de novas doenças, além de epidemias de doenças existentes, como a malária.

mong 1O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta os apoiadores durante uma visita a 10 de abril em um bairro de Brasília, a TV Globo capturou imagens enquanto o presidente limpava o nariz com a mão e depois apertava as mãos de admiradores, incluindo uma idosa usando uma máscara para se proteger contra o coronavírus. Imagem cortesia da TV Globo.

Desde que chegou ao Brasil, o COVID-19 dividiu o país. Um lado pede medidas estritas de isolamento social para conter o vírus, enquanto o outro diz que todos devem voltar ao trabalho agora, exceto os idosos e os mais vulneráveis.

Essas visões conflitantes são evidentes mesmo no coração do governo. O presidente Jair Bolsonaro, em uma recente transmissão na televisão, declarou que a histeria tomou conta do país por causa de uma doença que ele chama de “nada pior do que uma gripe leve”.  O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, contesta isso, dizendo aos brasileiros para ficar em casa.

A desinformação é abundante. Os rumores proliferam nas mídias sociais, particularmente no que diz respeito ao número de mortes, enquanto o governo desacredita a grande imprensa, enquanto tenta relatar a pandemia em rápido desenvolvimento e informar o público.

mong 2Ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta. Sua oposição às opiniões negligentes do presidente Bolsonaro sobre a seriedade da pandemia do COVID-19 pode colocar em risco o trabalho do ministro. Imagem cortesia da Agência Brasil.

Este cenário não é novo. Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019, Bolsonaro e seu governo difamaram cientistas que tentavam alertar a população sobre os riscos do aquecimento global, ou críticos sobre o enfraquecimento das regulamentações e agências ambientais federais. No primeiro semestre de 2019, houve relatórios conflitantes dentro do próprio governo e entre cientistas e ONGs sobre a escala e a gravidade do desmatamento e, mais tarde no ano, sobre a extensão dos incêndios na Amazônia e sua estreita ligação com grandes desmatamentos.

No entanto, por trás de todo esse debate estridente, está ficando claro para os especialistas que o COVID-19 e o desmatamento na Amazônia poderiam estar ligados – ambos os produtos da devastação natural e humana provocada por uma invasão das florestas remanescentes do mundo através da rápida expansão de extração de madeira, extração mineral, agronegócio industrial e infraestrutura de transporte.

Mesmo que o surto de COVID-19 esteja possivelmente relacionado ao comércio de vida selvagem e à destruição da biodiversidade pela humanidade, os pesquisadores dizem que o momento crescente do desmatamento na Amazônia está criando condições para a erupção de futuras pandemias. De fato, há sinais de que isso já pode estar acontecendo. 

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Desmatamento ruge, arriscando o surgimento de novas doenças

Em 2019, o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu seu nível mais alto em dez anos (9.762 quilômetros quadrados, ou 3.769 milhas quadradas). É importante ressaltar que, nas reservas indígenas protegidas, aumentou ainda mais rapidamente, expandindo-se 74% em 2019 sob Bolsonaro em comparação a 2018.  As taxas de desmatamento na Amazônia continuam aumentando em 2020, dobrando de agosto de 2019 a março de 2020, em comparação com o mesmo período de 2018-19.

Essas não são apenas más notícias para a vida selvagem e os povos indígenas. É sabido entre os cientistas que o grande desmatamento pode levar ao surgimento de novos vírus e bactérias perigosas contra os quais a humanidade tem pouca defesa, levando a epidemias e pandemias.

“Vertebrados selvagens, principalmente roedores, morcegos e primatas, abrigam patógenos que são novos no sistema imunológico humano e, se limparmos seu habitat e nos colocarmos em contato mais próximo com eles, podemos aumentar o risco de ocorrer um evento de transbordamento, introduzindo um novo patógeno”, disse Andy McDonald, ecologista especializada em doenças do Instituto de Geociências da Universidade da Califórnia.

mong 4As doenças infecciosas transmitidas por animais são uma “ameaça crescente e muito significativa para a saúde, segurança e economias globais”. Kate Jones. Imagem cortesia de UCL.

Kate Jones, diretora de Ecologia e Biodiversidade da University College London (UCL), que faz parte da London University, diz que os pesquisadores sabem há muito tempo que as doenças infecciosas transmitidas por animais são “uma ameaça crescente e muito significativa à saúde, segurança e economia globais”.  Em 2008, ela fazia parte de uma equipe de pesquisa que determinou que pelo menos 60% das 335 novas doenças que surgiram entre 1960 e 2004 tiveram origem em animais não humanos.

Um dos principais fatores dessa transferência de doenças de animais silvestres para humanos ocorre como resultado da perturbação do habitat – especialmente a perturbação das florestas tropicais.

“Aproximadamente um em cada três surtos de doenças novas e emergentes está relacionado a mudanças no uso da terra, como o desmatamento”, explicou Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York. Daszak foi o principal autor de um estudo intitulado “Emergência de doenças infecciosas e economia de paisagens alteradas“, publicado no ano passado. Esse documento observa que “as doenças causalmente ligadas ao uso da mudança de terra incluem doenças mortais como HIV / AIDS, Ebola e Zika”.   Pesquisas preliminares indicam que agora podemos adicionar a COVID-19 a essa lista – a pandemia mais devastadora que atingiu a humanidade desde a gripe de 1918-19  que matou mais de 50 milhões de pessoas.

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Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo. Em meados de agosto de 2019, um grupo de especialistas internacionais em doenças zoonóticas (doenças transmitidas de animais para seres humanos) se reuniu na Colômbia para analisar o impacto dos incêndios florestais em andamento na Amazônia. Em seu comunicado, eles alertaram: “A região amazônica do Brasil, endêmica de muitas doenças transmissíveis ou zoonóticas, após um incêndio florestal, pode desencadear uma seleção de sobrevivência e, com isso, alterar o habitat e os comportamentos de algumas espécies animais. Estes podem ser reservatórios de bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.”.

Esse cenário de incêndio já ocorreu em outro lugar. Em 1988, grandes incêndios na Indonésia criaram condições que permitiram o surgimento do vírus Nipah, que tem uma taxa de morbidade entre 40% e 70%. Os pesquisadores acreditam que o início dos incêndios fez com que os morcegos fugissem de suas casas na floresta, buscando comida nos pomares. Em seguida, os porcos comiam a fruta que os morcegos mordiscavam, infectando-se com o vírus, infectando a população local, que começou a morrer de hemorragia cerebral. Espera-se que os incêndios na Amazônia piorem muito, pois o agronegócio a utiliza como uma ferramenta para limpar a floresta tropical e as mudanças climáticas intensificam a seca por lá.  

Febre segue-se a ruína ambiental 

De fato, já existem exemplos brasileiros de uma grande perturbação ambiental que provoca doenças. Um desses incidentes diz respeito ao rompimento da barragem de rejeitos de mineração de ferro de Mariana no rio Doce, no estado de Minas Gerais em 2015, que matou 19 pessoas e era considerado na época o desastre ambiental mais grave da história do Brasil.

A bióloga Márcia Chame, da Fiocruz, fundação especializada em ciência e tecnologia da saúde, acredita que um grande aumento nos casos de febre amarela em Minas Gerais em 2016-17, levando o governo estadual a decretar um estado de emergência, foi parcialmente o resultado do desastre que poluiu 500 milhas de rio até o Oceano Atlântico.

Chame argumenta que o rompimento da barragem, que levou a “uma avalanche de 2,2 bilhões de pés cúbicos de lama e resíduos de minas“, despejando o rio Doce, afetou gravemente os animais na bacia hidrográfica circundante, tornando-os menos resistentes a doenças.

“Uma mudança abrupta no meio ambiente terá impacto sobre os animais, incluindo macacos. Com o estresse do desastre e a falta de comida, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo febre amarela.” Chame diz que muitos macacos na bacia do Doce adoeceram com febre amarela. Esses macacos foram então picados por mosquitos, que por sua vez morderam humanos, levando a doença às cidades da região. Segundo ela, os mosquitos – particularmente Haemagogus leucocelaenus e H. janthinomys – foram “conduzidos por modificações da paisagem, com fragmentos de florestas em áreas peri-urbanas, permitindo interação suficiente [entre macacos, mosquitos e pessoas] para produzir essa epidemia”.

mong 6A pesquisadora Márcia Chame traçou uma relação causal entre um desastre ambiental catastrófico de uma barragem de rejeitos de minas de ferro no rio Doce no Brasil e um grande surto de febre amarela no local. Imagem cortesia de Fiocruz.

Processos semelhantes podem muito bem estar em andamento na Amazônia, embora em sua maioria não sejam examinados e não sejam detectados. Um estudo publicado no ano passado, intitulado “Desenvolvimento, degradação ambiental e disseminação de doenças na Amazônia brasileira” concluiu que “pouca atenção está focada no surgimento e reemergência de doenças transmitidas por vetores que afetam diretamente a população local, com efeitos colaterais em outras áreas vizinhas”.  

“Sabe-se que distúrbios graves na floresta contribuem para a expansão de doenças conhecidas como a malária, diz Mcdonald”. “O principal vetor de mosquitos” na América Latina se sai muito bem em fragmentos de floresta recentemente limpos, nas margens da floresta remanescente (onde há mais água parada para reprodução, temperaturas mais altas que podem facilitar o desenvolvimento mais rápido do parasita do mosquito e da malária, como bem como aumentar as taxas de picadas em humanos).  

Com as pessoas instaladas nessas áreas limpas… isso pode aumentar a transmissão da malária. ” Comparando imagens de satélite e dados de saúde, MacDonald, juntamente com Erin Mordecai, da Universidade de Stanford, determinou que o desmatamento em toda a Bacia Amazônica ajudou a levar a um aumento significativo da malária. MacDonald disse ao Mongabay que a equipe de pesquisa calculou que em 2008 um aumento de 10% no desmatamento, ou seja, cerca de 1.600 quilômetros quadrados (618 milhas quadradas) de corte adicional de florestas, levou a um aumento de 3,3% na transmissão da malária. Isso representou 9.980 casos adicionais em toda a região. 

mong 7A floresta amazônica intacta tem muito menos probabilidade de lançar suas surpresas zoonóticas ao mundo. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Bolsonaro abre caminho para mais desmatamento 

Em meio à crise do COVID-19, o Congresso brasileiro está pronto para votar, transformando uma Medida Provisória temporária de 120 dias decretada por Bolsonaro em dezembro de 2019 em lei permanente. A Medida Provisória (MP) 910, em vez de conter invasões ilegais de terra, recompensa os grileiros que derrubaram ilegalmente florestas em terras públicas na Amazônia antes de dezembro de 2018 – regularizando sua ocupação ilegal, permitindo a compra da propriedade a preços bastante reduzidos, afastando-a do público para privado. Essencialmente, a medida permite que os grileiros violem a lei e se safem dela. 

De acordo com uma nota técnica emitida pela organização sem fins lucrativos IMAZON, a MP poderia levar ao desmatamento de até 16.00 Km2 até 2027, uma área dez vezes maior que a área que levou a um desmatamento. aumento de quase dez mil novos casos de malária no estudo MacDonald. 

Sob os termos atuais do MP 910, as autoridades não são obrigadas a verificar a validade de qualquer reivindicação feita por um potencial proprietário de terras para propriedades com tamanho inferior a 2.500 ha- uma estipulação que supostamente beneficia pequenos agricultores. 

Mas os grileiros da Amazônia são extremamente hábeis em contornar esses limites regulatórios. Uma prática muito comum é utilizar laranjas (literalmente laranjas, mas com mais precisão, patetas). Os grandes proprietários de terras fazem com que parentes amigos ou funcionários registrem uma pequena parcela em seus nomes, evitando a supervisão federal. Mais tarde, os laranjas entregam a propriedade ao grileiro, às vezes em troca de um pequeno pagamento. 

Se um proprietário de terras emprega 20 laranjas, cada uma registrando um terreno de 2.500 hectares (6.166 acres), ele acaba com uma propriedade de 50.000 ha. Outra conseqüência preocupante é que os grileiros podem apreender terras ocupadas por comunidades indígenas que não possuem ações, como está acontecendo com o grupo indígena Sateré-Mawe no estado do Amazonas.  

mong 8Desmatamento mensal na Amazônia brasileira desde 2007. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay, dados fornecidos pelo INPE.

A MP 910 também permite que aqueles que já se beneficiaram com a regularização de terras públicas invadidas, mas que venderam essa propriedade, entrem na fila novamente solicitando um novo lote. Embora reconheça a necessidade de resolver a atual anarquia sobre a posse de terras na Amazônia, Suely Araujo, ex-presidente do IBAMA, a agência ambiental do governo, é crítica ao MP. “Com essa flexibilidade, e sem separar grandes proprietários de terras de pequenos, esta lei legaliza aqueles que vivem da invasão de terras, do desmatamento e da venda de terras públicas”, disse ela a Mongabay. 

Em 27 de março, o ministro Alexandre Moraes, membro do Supremo Tribunal Federal, o tribunal de última instância do Brasil, proferiu uma decisão preliminar por facilitar a aprovação das Medidas Provisórias. Embora a intenção seja acelerar medidas urgentes durante a crise do COVID-19, os ambientalistas temem que o lobby ruralista aproveite esse novo procedimento para avançar mais energicamente com sua agenda. “Se não houver uma decisão política de retirar a MP 910 das medidas a serem votadas, corremos o risco de um sério revés ambiental durante esta crise [da saúde]”, alertou Araújo. 

Mais riscos à frente

Enquanto as taxas brasileiras de desmatamento disparam e as leis de uso da terra na bacia amazônica são prejudicadas, os povos indígenas da América Latina estão tentando chamar a atenção para a gravidade da crise ambiental global, que eles acreditam ter causado o surto de COVID-19. “O coronavírus está dizendo ao mundo o que os povos indígenas vêm dizendo há milhares de anos – se não ajudarmos a proteger a biodiversidade e a natureza, enfrentaremos isso e ameaças ainda piores”, disse Levi Sucre Romero, indígena da Costa Rica em uma conferência de imprensa organizada pela Covering Climate Now na cidade de Nova York em meados de março.

 

mong 9“A cura para a próxima pandemia, e mesmo para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas.” – Dinamam Tuxá. Imagem cortesia de Dinamam Tuxá.

Outro líder indígena da reunião, Dinamam Tuxá, coordenador da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), foi igualmente veemente: “A cura para a próxima pandemia, e até para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas ”, argumentou. “É por isso que precisamos proteger nossas terras e direitos, porque o futuro da vida depende disso.” Em contrapartida, Bolsonaro está promovendo uma legislação no Congresso que permitirá mineração em larga escala, perfuração de petróleo e gás e agronegócio industrial nas reservas indígenas do Brasil, em grande parte sem a contribuição das pessoas que vivem lá. 

Os especialistas continuam avisando com urgência que mais pandemias estão por vir. “Não estou surpreso com o surto de coronavírus”, disse à Scientific American o ecologista Thomas Gillespie, professor associado do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Emory. “A maioria dos patógenos ainda não foi descoberta”. Estamos na ponta do iceberg. 

John Scott, chefe de risco de sustentabilidade do Zurich Insurance Group, referindo-se ao Ebola, SARS, MERS e outras epidemias recentes, oferece uma mensagem semelhante: “Os últimos 20 anos de surtos de doenças podem ser vistos como uma série de quase acidentes catástrofes, que levaram à complacência e não à crescente vigilância necessária para controlar os surtos. ” 

mong 10Jovens dançarinos mundurucus comemoram seu parentesco com a natureza na Amazônia brasileira. Os povos indígenas em todo o mundo alertam há muito tempo que a falta de respeito da natureza pela humanidade moderna levaria a uma tragédia horrível. A pandemia do COVID-19, dizem eles, prova sua opinião. Imagem de Mauricio Torres.

Mudança climática, desmatamento, pandemias sucessivas

 Os cientistas não se assustaram com a pandemia do COVID-19; eles estavam alertando o mundo sobre esse evento há décadas. Da mesma forma, muitos não se surpreenderão se a crise climática muito negligenciada atingir um ponto sem retorno, com impactos muito mais sérios para o mundo – incluindo a extinção maciça de árvores da Amazônia e grandes liberações de carbono desestabilizadoras da atmosfera, impulsionadas não apenas por políticas favoráveis para capturadores de terras, mas devido a um declínio drástico nas chuvas da Amazônia e a um aumento de incêndios. De fato, muitos dizem que essas múltiplas crises estão entrelaçadas.

Um grande desafio do mundo pós-COVID-19 exigirá que a civilização se recupere da recessão econômica (ou depressão) global que causa sem agravar ainda mais a crise climática por meio da conversão em massa de florestas em minas de ouro, zinco e bauxita ou fazendas de gado e plantações de soja. O perigo: se o desmatamento tropical continuar fora de controle, mal podemos nos recuperar de uma pandemia antes de sermos confrontados por outra.

A próxima praga pode surgir em quase qualquer lugar: na Amazônia cada vez mais perturbada, no Congo, na Indonésia ou mesmo muito além da zona tropical, no Ártico, onde o permafrost está derretendo rapidamente, possivelmente descongelando vírus desconhecidos e inativos que podem desencadear o próximo planeta. crise de saúde. Nesse sentido, o COVID-19 – por mais horríveis que sejam seus resultados – pode ser apenas um prenúncio de pandemias muito piores por vir.

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Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês pelo site de notícias Mongabay [Aqui!].

 

No Brasil, a próxima pandemia virá na forma de fumaça

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O Brasil sofre neste momento com o crescimento da pandemia causada pelo coronavírus e as próximas semanas deverão ser marcadas por uma quantidade imensa de enterros e cremações, muito em parte pela omissão das forças políticas e instituições em face da postura negacionista que emana do presidente Jair Bolsonaro.

Mas que ninguém pense que o fim da atual pandemia nos permitirá respirar aliviados, pois as informações que nos chegam da Amazônia é que em 2020 será quebrado um recorde no número de áreas novas que passarão por um processo de corte raso das florestas nativas.

Se alguém tiver dúvida disso é só olhar com cuidado a animação abaixo que mostra valores bastante altos para desmatamento para os primeiros meses de 2020 em que ocorrem chuvas contínuas na maior parte da bacia Amazônica.

Antes que alguém pense que isto ocorre por meio de indivíduos que operam à margem da lei, eu diria que os grandes desmatadores amazônicos são normalmente dotados de grandes quantidades de capital que lhes permite comprar máquinas e ferramentas com as quais podem desmatar rapidamente grandes extensões de floresta.

Como o ciclo do desmatamento é seguido pelo das queimadas, a minha previsão é que passado o período chuvoso, o Brasil voltará às manchetes mundiais por causa das grandes extensões de terra que emitirão grossas camadas de fumaça, que anularão todos os ganhos eventuais que estão feitos com a redução das emissões urbano-industriais que vem acompanhando a evolução da COVID-19.

A minha suspeita é que um ambiente  de alta intolerância está sendo criado em muitos países contra o Brasil por causa da forma irresponsável que o presidente Jair Bolsonaro vem tratando da pandemia da COVID-19. Assim, quando as grandes queimadas começarem a revelar o avanço massivo da franja de desmatamento em áreas anteriormente praticamente livres da ação de madeireiros e garimpeiros, é bem provável que o nosso país sofra um isolamento ainda maior do que já está sofrendo. O resultado disso será o aumento da crise econômica e do desemprego.

 

Desmatamento explode na Amazônia e já é quase o dobro do anterior

Dados são do sistema de monitoramento do Inpe, órgão ligado ao governo federal; Pará tem uma das situações mais críticas

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A extração ilegal de madeira corre em ritmo acelerado na Amazônia, fazendo com que o volume do desmatamento acumulado de agosto de 2019 a março deste ano já chegue ao dobro do verificado no mesmo intervalo anterior, quando a derrubada recorde da floresta virou alerta global. Uma área superior a três vezes a cidade de São Paulo já foi abaixo neste período.

Os números são do próprio governo federal. O Estado fez um levantamento dos dados captados na região amazônica pelo Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), ferramenta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que serve para orientar ações de fiscalização contra o desmate. Foram checados os cortes feitos de agosto (mês que começa a medição oficial) até o 26 de março deste ano, data mais atual disponível pelo sistema.

Veja o texto na íntegra: O Estado de S. Paulo

Pesquisadores alertam para o colapso de grandes ecossistemas

Grandes ecossistemas como a Amazônia são particularmente vulneráveis, alertam pesquisadores britânicos. Você pode entrar em colapso em pouco tempo. No entanto, os colegas têm dúvidas sobre os detalhes do estudo.

The Wider Image: Brazil's Amazon guardiansTerras agrícolas brasileiras na região amazônica: possíveis mudanças rápidas nos ecossistemas.  UESLEI MARCELINO / REUTERS

A dimensão da região amazônica é difícil de entender. Sua área é significativamente maior que a da União Européia – e, no entanto, os pesquisadores agora alertam que até ecossistemas desse tamanho podem entrar em colapso dentro de algumas décadas. Na revista Nature Communications , um grupo de especialistas liderado por John Dearing, da Universidade de Southampton, na Grã-Bretanha, até argumenta que grandes ecossistemas em particular são particularmente vulneráveis.

Sabe-se que áreas sob estresse devido a fatores externos podem mudar rapidamente, escrevem os pesquisadores. A composição das espécies nos lagos pode tombar, os recifes de coral podem desaparecer e se tornar desertos, as florestas tropicais ricas em espécies podem se tornar paisagens de savanas. Neste último caso, o desmatamento em excesso seria responsável por uma mudança no padrão das chuvas e, portanto, pelo ressecamento subsequente. Uma floresta tropical sem chuva não vai bem por muito tempo.

É surpreendente como os períodos de tempo que os pesquisadores desejam calcular para a transformação de áreas tão grandes. Segundo suas análises estatísticas, os 5,5 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia podem entrar em colapso em cerca de 50 anos e os aproximadamente 20.000 quilômetros quadrados de recifes de coral no Caribe em apenas 15 anos.

Por seu trabalho, os pesquisadores analisaram estudos de um total de 42 ecossistemas e suas mudanças – o colapso dos estoques de peixes da Terra Nova, o desbotamento dos recifes de coral da Jamaica e a desertificação em antigas áreas agrícolas do Níger.

O aspecto especial do maior dos ecossistemas considerados é que eles consistem em diferentes subsistemas, de acordo com a equipe. Antes de tudo, isso aumentou a resiliência do sistema geral quando estressado. Porém, se um certo limite da carga era excedido, a modularidade trazia problemas adicionais e garantia de um colapso mais rápido.

“Temos que agir rapidamente”

“As mensagens aqui são claras. Precisamos nos preparar para as mudanças nos ecossistemas do nosso planeta que estão acontecendo mais rapidamente do que pensávamos”, diz o pesquisador Dearing. Os políticos teriam menos tempo para tomar as decisões corretas. Só porque os ecossistemas existem há milhares de anos não significa que eles não possam desaparecer dentro de décadas.

Alguns pesquisadores que não participaram do estudo apoiam os resultados. “Acho que a combinação de teoria, modelagem e observação é particularmente convincente neste artigo”, disse Georgina Mace, da University College London, no jornal Guardian.  A sua colega brasileira Ima Vieira, do Museu Emílio Goeldi, em Belém, fez comentários semelhantes. O trabalho é “muito importante”. No caso do Brasil, isso significa, entre outras coisas, que grandes multas teriam que ser impostas às empresas com “cadeias sujas de suprimentos” para proteger a Amazônia e que o cumprimento das leis de crimes ambientais existentes deve ser fortalecido. “E nós temos que agir rapidamente”.

No entanto, outros criticaram os detalhes metodológicos do estudo. Erika Berenguer, do “Guardian”, que trabalha nas universidades britânicas de Oxford e Lancaster, reclamou que a equipe baseava sua análise demais em avaliações de lagos e oceanos. Isso limita o significado de áreas de floresta tropical como a Amazônia. “Embora não haja dúvida de que a Amazônia está em grande perigo e de que provavelmente exista um ponto de inflexão, essas afirmações exageradas não ajudam a ciência ou a política”, disse Berenguer.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão no Caderno de Ciência da revista Spiegel [Aqui!].

Em Nova York para vender seu projeto de destruição, Ricardo Salles é surpreendido por manifestação em frente ao JP Morgan Chase

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O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, esteve na última segunda-feira (09/03) na sede do banco JP Morgan Chase, em Nova York para se reunir com dirigentes da instituição financeira.

O que Salles não esperava é que ativistas sociais o esperavam na frente do prédio para denunciar as políticas anti-ambientais que o governo Bolsonaro está implantando sob pretexto do “desenvolvimento”, mas que estão levando à destruição do meio ambiente e das comunidades que subsistem e protegem as florestas,  tais como os indígenas e quilombolas (ver imagens abaixo).

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É sempre bom lembrar que o JP Morgan Chase é considerado uma das ‘Dirty Dozen‘, que é um grupo de empresas que mais impulsionam o desmatamento na floresta amazônica, de acordo com um relatório da Amazon Watch.

Participaram da manifestação, entre outras organizações:

APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Coalizão pelo Clima
Comitê de Defesa da Democracia no Brasil, NY,
Reverendo Billy & The Stop Shopping Choir,
Extinction Rebellion NYC
Rise and Resist
Party for Socialism and Liberation – NY,
Seeding Sovereignty
Greenpeace Brasil
Amazon Watch
Rainforest Foundation