Uma pergunta aos donos da Folha de São Paulo: por que, na Venezuela, a dita é dura e não branda?

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Se me perguntarem se apoio o governo Maduro, a minha resposta é um simples não. Outra coisa diferente seria desconhecer a intrincada conjuntura que o governo bolivariano está posto por causa da intolerância de governos de direita da América ue decidiram apoiar os EUA em uma mudança de regime para a qual faltou consultar o maior interessado que é a maioria pobre da população da Venezuela. Aliás, olhando para a situação de países como Brasil, Argentina, Colômbia, Peru e Equador, fica difícil saber em qual deles a situação objetiva dos pobres é melhor do que aquela experimentada pelos venezuelanos.

Entretanto, mais descarada do que a falsa preocupação democrática de governos que dentro de seus territórios não toleram nem um décimo do que o governo Maduro tolera de seus opositores é o tratamento parcial dado pela mídia corporativa brasileira ao que está acontecendo na Venezuela. Cito explicitamente o jornal Folha de São Paulo que, indo além do que diz até a mídia estadunidense, resolveu classificar Nicolás Maduro como sendo um ditador. 

Ainda que essa seja uma decisão editorial, vindo da Folha de São Paulo, essa classificação deveria ser acompanhada de uma explicação aos seus leitores do porquê dessa definição. É que a Folha de São Paulo é o mesmo veículo da mídia corporativa brasileira que relativizou o regime militar de 1964 e seu alcance autoritária sobre o Brasil quando o classificou como sendo uma “dita branda”.  

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Por isso é que me ocorreu a pergunta aos proprietários da Folha de São Paulo sobre a situação venezuelano: por que lá é dita (dura) e não dita (branda)?

Der Spiegel: O Brasil flerta com a ditadura

O jornal mais influente da Alemanha, o Der Spiegel, publicou ontem uma análise sobre os resultados das eleições presidenciais no Brasil com uma manchete que não deixará dúvida para os seus leitores do perigo que ronda o nosso país neste momento. A manchete é bem direta e reta ao gosto dos alemães: O Brasil flerta com a ditadura [1].

der spiegel

O articulista Jens Glüsing, que é o correspondente do Der Spiegel para a América Latina, ainda adianta que Jair Bolsonaro é “um ex-soldado, fascinado pelo fascismo, é o novo presidente do Brasil”. E vai mais além, afirmando que “a história mostra que, na América Latina, industriais e bancos são os que se beneficiam – e não as pessoas que escolhem os demagogos.”

Glüsing ainda nota que os “brasileiros são fáceis de se animar, o passado é rapidamente esquecido. Mas as celebrações após a eleição de Bolsonaro não podem esconder o fato de que o maior país da América Latina embarcou em uma aventura política“.  E arremata dizendo que “o flerte com o autoritarismo nunca é bom na América Latina.”

Como se vê,  a radiografia que está sendo apresentada na Europa sobre os desafios que cercam o Brasil não poderia ser mais clara e dura.  Resta aos que não optaram por este flerte com a ditadura se mobilizarem em defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e pela construção de uma sociedade menos abissalmente desigual como a nossa, e que os planos já anunciados no dia de ontem indicam que a opção será pela realização de uma profunda guerra aos pobres.


[1] http://www.spiegel.de/politik/ausland/jair-bolsonaro-brasilien-flirtet-mit-der-diktatur-a-1235609.html

A perplexidade dos portugueses frente ao quadro eleitoral no Brasil

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Estando em Lisboa tenho conversado com muitos portugueses que se mostram totalmente perplexos com o quadro eleitoral existente no Brasil.  Ainda se ressentindo da longa ditadura de António de Oliveira Salazar, portugueses de diferentes idades não conseguem entender como os brasileiros parecem estar dispostos a recolocar os militares no poder, e ainda por cima via uma eleição.

Para quem não conhece a história de Portugal,  Salazar dirigiu os destinos de Portugal como presidente do Ministério de forma ditatorial entre 1932 e 1933 e, como Presidente do Conselho de Ministros entre 1933 e 1968. Os autoritarismos e nacionalismos que surgiam na Europa foram uma fonte de inspiração para Salazar em duas frentes complementares: a da propaganda e a da repressão [1].

Um segurança de um prédio público com o qual me encontro todas as semanas, ontem me lembrou que durante a ditadura de Salazar ele tinha que ficar enfileirado para cantar o hino até se o mesmo tocasse quando ele estivesse fazendo suas necessidades no banheiro.  Diante dessa memória de sua infância, o segurança me perguntou com um ar incrédulo como os brasileiros podem estar querendo recolocar militares para governar o país após terem sofrido mais de duas décadas com um regime ditatorial. Aliás, ele perguntou ainda se os brasileiros tinham enlouquecido e não tive como oferecer uma resposta negativa. Porque visto daqui, o comportamento de pessoas que eu julgava sensatas e cordiais, não tive como responder de forma contrária.

Em outro encontro, enquanto eu tentava comprar um par de tênis novo, o vendedor resolveu puxar conversa também sobre os temas das eleições brasileiras para mostrar suas extrema preocupação com os moradores das favelas brasileiras. Ele me perguntou se os brasileiros não estavam sabendo que estão apoiando um candidato que disse que ofereceria uma solução final na Favela da Rocinha que seria dar um tempo para os traficantes saírem e depois disso usar helicópteros para metralhar a região. Meio estupefato ele acrescentou que será que “esse gajo (Bolsonaro) não sabe que a maioria das pessoas que moram nas favelas são trabalhadores  honestos”? Mais uma vez, não tive como oferecer nenhuma resposta que acalmasse o vendedor.

Mas quem pensa que são só os trabalhadores mais humildes que vêem a situação eleitoral com horror, também conversei com pesquisadores portugueses que estão de queixo caído com a postura das elites brasileiras que estão ajudando a colocar um neofascista no poder.  Aí a pergunta vai no sentido de qual seria o plano das elites brasileiras ao ajudar a estabelecer um governo cuja plataforma regressará o Brasil quase ao final do Século XIX. A minha resposta neste caso é possível: digo que as elites brasileiras estão dispostas a qualquer coisa para impedir que o nosso país tenha um mínimo de justiça, e que aposta tudo para manter a abjeta concentração de renda que torna o Brasil um dos países mais desiguais do planeta.

Então qual é o moral da história? É que enquanto os portugueses fizeram o seu ajuste de contas com a ditadura salarista para construir uma democracia relativamente sólida que permite a socialistas e comunistas a formarem um governo de coalizão que longe de causar abalos políticos, acabou melhorando a condição da economia portuguesa, o Brasil foi o único dos países sul americanos que deixou os militares golpistas impunes. E como já disse ““Quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra” [2].

Por isso, até porque a profunda crise política em que o Brasil está engolfado não se resolverá independente de quem seja o vencedor do segundo  turno, é melhor que todos os que se dizem democratas comecem a se preparar para os embates que virão. Do contrário, o assombro será maior do que já está sendo.


[1https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Oliveira_Salazar

[2https://apublica.org/2018/10/quando-voce-nao-acerta-suas-contas-com-a-historia-a-historia-te-assombra/

Associação Juízes para a Democracia: Repressão no Paraná foi truculenta, covarde, ilegal, idêntica à que ocorria na ditadura

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Foto do Facebook de Alice Ruiz, via Gazeta do Povo

Nota Pública da Associação Juízes para a Democracia de repúdio à repressão aos professores do Paraná

A Associação Juízes para a Democracia, entidade não governamental e sem fins corporativos, que tem dentre suas finalidades o respeito absoluto e incondicional aos valores jurídicos próprios do Estado Democrático de Direito, vem a público, a propósito dos lamentáveis fatos que se passaram na cidade de Curitiba no último dia 29 de abril de 2015, manifestar seu apoio aos professores paranaenses, nos seguintes termos:

1. Os brasileiros assistiram estarrecidos, na referida data, a mais um covarde e truculento ataque do Estado a insatisfações populares manifestadas de forma republicana e democrática, tal como garantido na Constituição Federal. Tratou-se de reação ilegal e violenta, desta vez, inexplicavelmente, assacada contra integrantes de classe que deveria merecer o maior grau de deferência e respeito: os professores.

2. Decerto que as injúrias físicas – que não foram poucas – infligidas aos professores, que ousaram, em continuidade à sua corajosa faina diária em salas de aula pela formação de cidadãos, lutar também nas ruas por direitos que deveriam lhes ser garantidos pelo Estado, não foram o aspecto mais nocivo dos acontecimentos.

3. Decerto que o que mais calou fundo, no espírito de cada um dos manifestantes, foi a simbologia da resposta do Estado às reivindicações dos professores: o obscurantismo, trazido à tona pela utilização de armas, preponderando, à força, sobre as luzes, representadas pelos professores e suas convicções; a repressão, representada pela intolerância ao debate, às manifestações, ao povo nas ruas, sobressaindo-se, a marretadas, à liberdade.

4. Importante relembrar que as manifestações individuais ou coletivas, em vias públicas contra medidas ou projetos governamentais, assim como o direito de greve, configuram direitos previstos nos artigos 5o, incisos IV e XVI e 9º, da Constituição da Federal.

5. Sendo assim, às forças policiais cumpre, por dever constitucional de ofício, assegurar a realização de manifestações públicas e, ao governo, dialogar com a sociedade civil, não sendo balas de borracha ou bombas de efeito moral, respostas legítimas para a discordância popular.

6. A violenta ação do governo paranaense contra os professores configura mais um capítulo do recrudescimento da repressão oficial em plena vigência de Constituição Federal que consagra, como fundamento do Estado brasileiro, o pluralismo político (art. 1o, V). A lógica do eficientismo gerencial para o suposto enfrentamento de questões fiscais tem prevalecido sobre o direito da população de externar suas divergências no espaço público, de forma lamentavelmente idêntica ao que ocorria sob a égide da ditadura civil-militar que vigorou após o Golpe de 1964.

7. A construção de um Estado Democrático de Direito, na forma projetada pela Constituição Federal de 1988, requer o abandono definitivo de práticas policiais para o enfrentamento da questão social.  O dialogo objetivando a efetivação de direitos é a resposta legítima que se espera de todos os governos sob a égide democrática.

São Paulo, 30 de abril de 2015.

André Augusto Salvador Bezerra

Presidente do Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia (AJD)

FONTE: http://www.viomundo.com.br/denuncias/associacao-juizes-para-a-democracia-repudia-repressao-aos-professores-do-parana-truculenta-covarde-ilegal-identica-a-que-ocorria-na-ditadura-civil-militar.html

Infeliz aniversário: o golpe de 1964 e suas viúvas

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Vivi o final do regime militar instalado em 1964, e o que eu ainda me lembro são das bombas e tropas de repressão nas ruas ao menor sinal de aglomeração. A fase final foi marcada por bombas em bancas de jornais e na sede da OAB do Rio de Janeiro, onde morreu a senhora  Lyda Monteiro que foi vitimada por um artefato explosivo que foi enviado por membros do setores duros do regime. Mas a fase final do regime não foi nem de perto o mais terrível nem o que trouxe marcas mais permanentes sobre a sociedade brasileira. Antes da agonizar o regime e seus agentes prendeu, torturou, estuprou e exterminou centenas de brasileiros. E, sim, também implantou um sistema bastante refinado de corrupção no congresso nacional e nas empresas estatais que até hoje nos mantém afundados num sistema político e social dos mais injustos do planeta.

Nas recentes “manifestações populares”, viu-se o aprofundamento de uma tendência da classe média e das elites brasileiras de quererem a volta de um regime militar para resolver, ironicamente preciso acrescentar, problemas que o próprio regime implantou e consolidou. Parte desses saudosistas do regime é composta pelo que é convencionalmente chamado de “inocentes úteis”.  Essa parcela tem até gente que sinceramente se opõe à corrupção e desmandos governamentais, mas esses são minoria. A maioria dos que pedem a volta do regime militar o fazem por terem ojeriza a qualquer mudança no status quo herdado do período colonial que, ancorado na escravidão de indígenas e negros, gerou um Estado-Nação onde os direitos sociais são vistos como privilégios, e os privilégios como direitos sociais. 

Para esse setor que defende a volta dos militares como forma de perpetuação de um sistema social profundamente desigual, nem que seja por força do uso da tortura e do extermínio, não há que haver qualquer tipo de complacência, mesmo porque seus membros não conhecem o sentido desse conceito. Para eles é preciso que se diga que não serão tolerados, e que o melhor a fazerem é guardarem para si esse misto de ódio e intolerância que os dirige a fazer o convite à volta do regime de exceção. Sem mais, nem menos.

Enquanto isso, é preciso que não esqueçamos os que morreram ou foram torturados nas mãos do regime e de seus agentes. É necessário, acima de tudo, que se cobra punição daqueles que dotados do poder de exceção agiram como criminosos. Enquanto não se fizer isso, teremos a manutenção da herança maldita que os militares nos deixaram com seus 21 anos de regime totalitário.

O que seria a democracia burguesa senão a ditadura da burguesia?

Tenho visto entre professores da UENF, e em certos setores direitistas da sociedade brasileira, repetidas manifestações ressentidas acerca da reeleição de Dilma Rousseff. Para mim, o chorôrô é até aceitável, menos quando se transpõe os limites da incitação ao golpe de Estado, como fizeram manifestantes liderados por Lobão e um dos filhos de Bolsonaro na Avenida Paulista. 

A invocação da volta dos militares seria patética se as pessoas que o fazem não estivessem praticando crimes contra a segurança nacional, pois teve gente defendendo o fuzilamento de Dilma Rousseff e, até onde eu saiba, a ordem de prisão ainda foi dada já que estão propondo a eliminação física de uma presidente democraticamente eleita, ao contrário do ocorreu com os manifestantes de Junho de 2013 que protestavam contra as políticas do governo federal.

Mas deixemos esses defensores do golpe de Estado para examinar algo que é recorrente a denúncia de que o PT quer implantar uma ditadura comunista no Brasil. Como um estudioso colateral da história da Revolução Russa e de todos os movimentos revolucionários que mudaram parcialmente a característica do Estado em diversos Estados-Nação, tenho a dizer que nunca houve e não existe uma ditadura comunista, pois jamais tivemos a instalação do comunismo. Se as pessoas quiserem ser mais precisas e dizer que foram ditaduras de partidos que se reclamavam comunistas, isto, tampouco, resolverá o debate acerca do tipo de ditadura que eles instalaram. Haveria ainda que debater o contexto histórico em que isto se deu, bem qual foi o papel dos Estados burgueses frente a esse avanço de uma forma distinta de controlar o Estado.

Eu até indico que alguns mais desavisados assistam a uma série da rede estadunidense CNN chamada “Cold War”, onde é dito com todas as letras como os EUA e a OTAN sabotaram, mataram e fizeram guerras em nome de uma suposta democracia, que no final do dia visava apenas garantir a sobrevivência de suas corporações. Em relação a isto nunca vi nada dito aqui.

Por último, precisamos urgentemente de um mini-curso sobre as origens da democracia liberal burguesa e o que ela representa em termos do controle cotidiano da vida das pessoas. Eu sugeriria de cara a leitura de um autor maldito entre os defensores da atual forma de democracia que a burguesia nos impõe para esconder sua ditadura de classe. O nome dele é Thomas Paine, um pensador do Iluminismo escocês, que teve uma incrível trajetória de militância democrática, tendo ajudado na confecção da constituição dos EUA. Eu sempre digo que a visão de Paine sobre a democracia se implantada no Brasil resultariam numa revolução, dada a radicalidade de sua visão do que seria democracia. Além disso, outro xodó teórico dos que acreditam na democracia burguesa que poderia ser lido é Alexis de Tocquivelle, cuja principal obra se chamou “Democracia na América”.  É capaz que algum leitor desatento da obra vá pensar que a escreveu foi o falecido presidente venezuelano Hugo Chavez. Entre outras coisas Tocqueville que só uma sociedade civil organizada livremente poderia impedir que o Estado (burguês) se tornasse ditatorial!

Finalmente, como diria Luciano Genro, há que se estudar. Até para que não se corra o risco de se ficar espalhando elementos de senso comum sem que se faça a devida análise de como outros partidos se comportam, aqui me refiro ao PSDB, nos mesmos tipos de esquema de ataque ao tesouro público. E aqui não custa lembrar que enquanto o pessoal do PT foi condenado sem provas como nos casos dos Josés (Genoíno e Dirceu), o pessoal do PSDB mineiro nem foi a julgamento. Se é para defender o combate à corrupção, tem que valer para todo mundo.

“A ditadura modernizou o campo”: uma tese ridícula

Por Leonardo Soares


Dentre tantas ofensas perpetradas contra a verdade histórica pela cambada saudosa da ditadura e seus crimes contra a humanidade, uma em especial impressiona pela fachada tecnocrática e um certo ar de objetividade – a de afirmar que a revolução “redentora e gloriosa” fez o que fez (destruindo, massacrando e torturando milhares de pessoas), mas logrou modernizar o Brasil, em especial a sua infraestrutura e o campo (revolução agrícola). Ela – a Ditadura – matou sim (“e daí?”), mas melhorou esse país, fez as reformas necessárias, fez ele mais forte, mais pujante. Quanto engodo.

Em outra oportunidade, já mostrei o quanto o primeiro aspecto não passa de uma tentativa de distorcer e vilipendiar o argumento histórico, num tipo de ato intelectual que beira a delinquência. Os chamados grandes empreendimentos da cúpula empresarial-militar não serviram para outra coisa se não produzir a destruição ambiental por onde passaram, o extermínio de diversas espécies da flora e da fauna; obras superfaturadas, nas quais a fraude campeava, a corrupção idem e – como se já não bastasse nesse bizarro panteão de atrocidades – até genocídios foram meticulosamente planejados e executados, como comprovam as investigações sobre a construção de rodovias nas regiões Norte e Nordeste, onde segundo cálculos ainda bastante incompletos cerca de 8 mil índios foram brutalmente chacinados de modo a “limpar” as regiões. Ou seja, tais obras foram magnânimas apenas para quem lucrou com elas (os magnatas dos setores da construção civil, de logística, energia, comunicações etc.), só que a custo de muito sangue, balas, foiçadas, bombas, roubos, propinas e dor, muita dor.

 Mas o segundo aspecto, o da suposta modernização agrícola, ainda resiste no imaginário das carpideiras da Marcha da Família, como se fosse um fato inegável. No fundo ela não é mais do que mais uma empulhação – tão típica da parte dos paladinos desse regime de horror. Basta uma simples e prosaica olhadela em alguns fatos desse hediondo período.

Longe de modernizar, o regime militar se mostrou tão incompetente na condução da questão agrária que praticamente o país regrediu em todos os índices no que tange a agricultura e a política fundiária.

Muito ao contrário da propalada melhoria, as relações de trabalho atingiram um grau de precarização de fazer inveja aos mais odientos regimes feudais ainda existentes. O problema é que, na ditadura, o trabalhador rural, além de se ver barbaramente aviltado, tanto na exploração de sua mão de obra como nas condições deploráveis em que trabalhava, tinha que sofrer e apanhar calado. Era-lhe proibido o direito de manifestação, de protesto e organização. Só lhe sobravam os sindicatos patronais ou pelegos, que mais pareciam clubinhos de dança e centros sociais que distribuem brinquedos – ou seja, o mesmo que nada.

Ao tempo de Vargas e de vários governos que o sucederam, e mesmo com muitos problemas e percalços, um vigoroso movimento camponês ia se constituindo (por meio principalmente dos sindicatos rurais e das Ligas Camponesas). Até por isso, várias demandas, reivindicações e denúncias chegavam ao conhecimento da opinião pública. O que se dava por meio de jornais, rádios, lideranças sindicais e legislativas (senadores, deputados, vereadores) e dos próprios trabalhadores rurais que se lançavam em inúmeras greves, manifestações em centros urbanos, protestos, ocupações de assembleias e sedes do poder executivo etc.

 Nos anos 60, mesmo que com muitos obstáculos e carências, as categorias do campo já haviam conseguido uma lei que liberava e regulamentava a criação de sindicatos rurais. E com todo o seu poder de pressão, que já ressoava pela maior parte do país, eles conseguiram que vários setores da elite e da classe política atentassem sobre a urgência de uma reforma agrária. Esta era efetivamente uma questão da agenda política daquele momento, capaz de trancar a pauta do Congresso. O próprio presidente Jango, não à toa, sentia-se pressionado a fazê-la. Então, veio o Golpe de 1964 e tratou de solapar todo esse campo de debates e lutas. Castrou os sindicatos; ceifou lideranças políticas; dizimou as Ligas; perseguiu, torturou e assassinou militantes camponeses – aos montes. O campo ficava aberto a toda sorte de desumanidades por parte dos grandes proprietários e companhias capitalistas. Agora eles podiam explorar o trabalhador até o talo. Com total tranquilidade e irrestrita impunidade.

O regime também abriu a porteira, como nunca, para um processo gigantesco de grilagem de terras. Foi ao seu tempo, quando a desregulação e omissão atingiram níveis criminosos, que figuras do baronato fundiário se apossaram de terras que alcançavam a extensão de alguns países da Europa. E olha que a cúpula golpista, com poucos meses usufruindo do seu poder, ainda teve a coragem de apresentar um projeto de reforma agrária, que propalava a chamada modernização do campo, mas que nunca seria executado. Pelo menos a modernização que interessava à sociedade. Já os latifundiários, fartaram-se com a exploração de trabalho escravo e com liberdade para abocanhar a seu bel prazer as terras da Amazônia e do Cerrado. E várias tribos indígenas foram, por tabela, dizimadas. Simples assim.

Se a produção agrícola teve vultoso crescimento (principalmente produtos como café e açúcar), e alguns setores tenham conhecido um notável grau de modernização técnica e mecanização de suas atividades, por outro, não é menos importante que se destaque que é exatamente nesse período que surge no cenário a figura do boia-fria. Figura mais emblemática da precarização, esbulho e humilhação que assolavam as relações de trabalho nas unidades agrícolas na época do regime. É significativo que ele também fosse chamado com o singelo nome de “pau-de-arara”.

 Ou seja, em alguns setores o avanço tecnológico parecia ser inegável, mas todo ele alimentado por relações praticamente feudais e pré-capitalistas. O sociólogo Octavio Ianni é enfático nesse ponto:

“À medida que se desenvolve, a agroindústria produz e reproduz o boia-fria, volante ou pau-de-arara. O boia-fria é a forma mais desenvolvida em que se expressa o caráter das relações de produção na agroindústria canavieira (Origens agrárias do Estado brasileiro, p. 72)”.

Cabe ainda lembrar que a incompetência congênita da ditadura na administração da política fundiária levou o caos ao abastecimento de algumas cidades. O caso da cidade do Rio de Janeiro é emblemático. Até a data do Golpe contra a Democracia, em 64, diversos setores da sociedade carioca lutavam por iniciativas e projetos que preservassem o Cinturão Verde da cidade. Este vinha sendo engolido pelo capital imobiliário com intensidade desde a década de 40. Com muito custo, aqueles setores buscaram contrarrestar o avanço dos grileiros e negocistas do ramo imobiliário a partir de articulações com lideranças e partidos da esquerda (PCB, PSB e PTB), com a imprensa partidária da época (Imprensa Popular, O Radical, O Popular, Novos Rumos), e – principalmente – com muito protesto, manifestação e pressão junto aos centros de poder da época existentes na cidade (Senado, Câmara Federal e Municipal etc.).

Tudo isso foi jogado no ralo pela truculência e selvageria dos que tomaram o poder em 1964, que simplesmente cassaram, perseguiram e prenderam a maioria daquelas lideranças e militantes partidários. Fecharam suas organizações e entidades. Interditaram o dissenso. Calaram a crítica. E quem pagou o pato foram os pequenos lavradores do chamado Sertão Carioca (atual zona oeste) e, de quebra, a população urbana e suburbana. Os quais, sem um Cinturão Verde que os servisse de alimentos mais em conta, com abundância, acabaram ficando refém da comercialização de produtos de outros estados, o que se refletia na qualidade e no preço dos produtos: mais escassos e mais caros.

Por outro lado, a ditadura não movia uma palha para impedir o amplo processo de retalhamento e grilagem das terras da zona oeste, que dizimavam com a agricultura local e só serviam para a especulação imobiliária. Isto é, a agricultura era destruída estupidamente, sem dirimir um pingo que seja o problema habitacional que já se avolumava naqueles anos. E o abastecimento de gêneros no Rio, um completo caos.

Com a Ditadura, e o consequente sequestro das liberdades democráticas, seguido de choque e estrangulamento, toda a farra dos especuladores imobiliários encontrou terreno propício. Não havia quem ou o quê que pudessem questioná-los. Tava tudo dominado!

Uma total vergonha. O regime que praticamente reconsagrava o trabalho escravo no campo omitia-se vergonhosamente diante da destruição de cinturões verdes no país.

Como alguém pode sentir saudades de um câncer desses?

*Leonardo Soares é professor de História da UFF.
FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9537:submanchete230414&catid=72:imagens-rolantes