Em novo artigo no “The Proof”, Seth Abramson cita Eduardo Bolsonaro como um dos conspiradores da invasão ao Capitólio

Trump Supporters Hold "Stop The Steal" Rally In DC Amid Ratification Of Presidential Election

WASHINGTON, DC – 06 de janeiro: Milhares de apoiadores de Donald Trump se reúnem do lado de fora do prédio do Capitólio dos EUA após uma manifestação “Stop the Steal” em 6 de janeiro de 2021 em Washington, DC. Um grande grupo de manifestantes invadiu o edifício histórico, quebrando janelas e entrando em confronto com a polícia.  Spencer Platt / Getty Images / AFP

Em uma nova reportagem no site “The Proof”, o professor universitário e advogado, também conhecido por suas colunas nos principais jornais estadunidenses, Seth Abramson identifica o que identifica uma espécie de guia para identificar os principais grupos pela invasão realizada em janeiro de 2021 ao congresso dos EUA.  Abramson dividiu os grupos de pesquisadores em: paramilitares, organizações de base, a Campanha de Donald Trump, Agitadores Independentes e facilitadores, e Membros do Congresso.

Em cada um desses grupos Abramson, identificou não apenas os papéis cumpridos por cada um dos deles, mas também seus componentes e os papéis cumpridos na preparação e execução da invasão ao Capitólio. E aí que a coisa começa a ficar interessante, pois Abramson inclui o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) em uma condição de destaque no grupo de “Agitadores Independentes e Facilitadores” (ver imagem abaixo).

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É interessante notar que Abramson caracteriza este grupo como sendo formado por “um bizarro enxame de pessoas que inclui vigaristas dissolutos, ideólogos perturbados e agentes estrangeiros – essencialmente, pessoas inescrupulosas, mas com recursos suficientes, que veem em Trump um meio de promover seus designs marginais com relativa impunidade.” Além disso, ainda segundo Abramson, os “Agitadores Independentes e Facilitadores” teriam operado “em um nível de visibilidade significativamente mais baixo, lubrificando as rodas da insurreição em regiões distantes do mecanismo de insurreição – aquelas que de outra forma poderiam ter falhado em seu propósito” no dia da invasão ao Capitólio.

Em suma, este grupo teria ocupado um papel não menos importante, ainda que operando de forma discreta dentro do processo que resultou na invasão do congresso dos EUA.

Mas se realmente ficar determinado pelos serviços de inteligência e pelas órgãos policiais dos EUA que Eduardo Bolsonaro cumpriu tal papel relevante, uma consequência óbvia que ele será indiciado em processos que eventualmente sejam formados para punir os responsáveis pela invasão que representou um dos mais duros atentados ao congresso dos EUA. 

Finalmente, como Seth Abramson não é uma figura inexpressiva dentro do grupo que faz análises políticas nos EUA, essa reportagem não deverá ser desprezado pelos que citados nela. E quem fizer isso, poderá acabar pagando um preço caro.

Dos riscos de brincar com um poder imperial: a possível participação de Eduardo Bolsonaro na invasão do Capitólio

Apoiadores de Donald Trump invadem CongressoApoiadores do ex-presidente Donald Trump invadindo o congresso estadunidense no dia 06 de janeiro de 2021

Apesar da mídia corporativa ainda estar ignorando uma matéria produzida pelo advogado, escritor e colunista do jornal “The New York Times”, Seth Abramson, uma bomba de tempo pode estar repousando solenemente no colo do presidente Jair Bolsonaro neste momento.

É que Abramson publicou no site “Proof'” uma matéria intitulada “Brazil’s Murky Connection to Trump’s Secretive January 5 War Council Is Getting Clearer—and It Raises New Questions” (ou em bom português “A conexão obscura do Brasil com o conselho secreto de Trump, 5 de janeiro, está ficando mais clara – e levanta novas questões”), onde ele implica o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) em uma reunião que teria tramado a invasão que ocorreu na sede do congresso estadunidense no dia 06 de janeiro de 2021.

proof abramson

Há que se enfatizar que Seth Abramson, professor da University of New Hampshire, não é nenhum desconhecido ou observador marginal da realidade estadunidense.  Na verdade, Abramson, é que Abramson tem estado na crista da onda com uma série de livros que denunciam os desmandos cometidos pelo ex-presidente Donald Trump, o que o credencia como uma fonte que será ouvida dentro e fora dos EUA.

Mas é principalmente dentro dos EUA que as apurações que essa matéria escrita por Abramson certamente terão mais repercussão, na medida em que o congresso, as forças policiais e a justiça daquele país ainda estão realizando processos de ajuste de contas não apenas com aqueles que participaram diretamente da invasão do congresso, mas, principalmente, com os autores intelectuais da operação. 

Assim, se confirmada a participação de Eduardo Bolsonaro na reunião preparatória para a invasão do congresso estadunidense, não será de estranhar se ele e seu pai (afinal de contas, o presidente da república) se tornarem alvo de algum tipo de retaliação por parte do governo de Joe Biden.

E nisso tudo uma lembrança que parece ter sido esquecida: não se mexe com um poder imperial, sem que haja repercussões graves.  É que países já foram bombardeados e líderes de determinados países já foram eliminados por acusações muito mais brandas. A ver!

Caos nos EUA gera uma nova forma de viralatismo brasileiro

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As cenas caóticas que apareceram nas telas de TV vindas diretamente das portas do congresso dos EUA serviram para uma impressionante sessão de uma nova forma de viralatismo brasileiro. É que desde jornalistas surpresos até membros do Supremo Tribunal Federal, o que se viu foi uma ode em defesa da democracia estadunidense por parte de muitos daqueles que em 2016 demandavam (ou mesmo tramavam) o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Se todos os que se pronunciaram em favor da democracia dos EUA (noto aqui que ao contrário dos membros do STF, nenhum membro da Suprema Corte estadunidense veio a público se manifestar sobre a confusão armada pelos apoiadores do brevemente ex-presidente Donald Trump) tivessem feito o mesmo quando era a nossa que estava sob ataque, é bem provável que o Brasil já tivesse, entre outras coisas, vacinado boa parte de nossa população contra a COVID-19.

Então essas lágrimas por uma democracia cujas instituições são mais bem mais sólidas do que as nossas são as verdadeiras lágrimas de crocodilo. Além disso, até por conhecer um pouco os EUA por dentro, é que se houve qualquer tentativa de golpe de estado, essa não passou nem perto de ter qualquer chance de ter êxito. É que se fosse para valer, os militares dos EUA não teriam assistido a coisa às margens. Aliás, nem as tropas do FBI ou das tantas outras forças militares que existem por lá.

Há que já esteja lançando alertas contra uma postura semelhante dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições em 2022. Esse tipo de preocupação para mim não passa de distracionismo barato da realidade brasileira, onde mais do que evidente de que são os militares, e não as instituições de Estado, que dão o aval necessário para o presidente brasileiro se manter no poder, em que pesem o seu governo desastroso em todos os níveis que se analisa. Eu diria que se há uma preocupação para 2022 é que os comandantes militares decidam que não será precisa eleição para que Bolsonaro seja mantido na presidência.

Por último, um elemento a ser melhor analisado se refere às consequências que o pequeno show de força dos aliados de Donald Trump terá na capacidade de Joe Biden articular suas alianças multilaterais, especialmente aquelas direcionadas para conter a crescente hegemonia da China no mundo. Ainda que se saiba que a real diplomacia dos EUA se dá pela ponta dos sabres, a desmoralização que ocorreu ontem sobre a ainda principal potência econômica e militar do mundo não foi pequena.  Pior para Jair Bolsonaro e, por extensão para o Brasil, pois muito provavelmente haverá pouca tolerância para imitadores de Donald Trump nas ações multilaterais da nova administração dos EUA. 

Finalmente, prestemos muita atenção no que dirão os defensores da democracia “in America” quando a democracia ameaça for a nossa. 

A eleição de Joe Biden e a catarse desesperada de Jair Bolsonaro

biden bolsonaroJoe Biden (à esquerda) e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Imagens de Tom Brenner / Getty; Andressa Anholete / Getty Images

A confirmação da eleição do democrata Joe Biden para presidir os EUA a partir do dia 20 de janeiro de 2021 parece ter gerado um efeito dominó dentro do governo Bolsonaro que promete emoções fortes para o sistema político brasileiro. Eu confesso que estou genuinamente surpreso com o grau de degradação em que o governo Bolsonaro afundou desde que Donald Trump foi fragorosamente derrotado, tanto no voto popular como no Colégio Eleitoral, mas é óbvio que um efeito ricochete está em desenvolvimento.

A grosso modo a eleição dos EUA não deveria produzir tanto efeito no Brasil, pois eles nem são mais nem nosso principal parceiro comercial, e a economia brasileira depende muito mais da demandas da economia chinesa do que de qualquer outra.

A explicação para o evidente desespero que tomou conta de Jair Bolsonaro parece ser outra. Os mais apressados podem pensar que se trata da aliança ideológica que Bolsonaro e alguns dos seus principais ministros pensavam ter com os EUA sob o comando de Donald Trump. Eu já penso que, em se tratando de Jair Bolsonaro, a única ideologia que realmente conta é a do dinheiro. E a eleição de Biden trará dificuldades para o tipo de “economia de fronteira” que Bolsonaro estabeleceu, com a ajuda célere de Ricardo Salles e Tereza Cristina, dentro da Amazônia Legal e do Pantanal. 

A eleição de Biden, por interesses puramente estratégicos dos EUA, deverá impor um freio no saque das reservas minerais e da biodiversidade amazônica, ainda que sob a desculpa de proteger o clima da Terra. Essa é certamente a questão que mais importa a Bolsonaro e os grupos que trabalharam para colocá-lo na chefia do executivo federal (incluindo, por exemplo, grileiros de terras e garimpeiros clandestinos), apesar das figuras totais dos montantes extraídos ilegalmente nesses 23 meses de governo serem ainda desconhecidas. Mas se pensarmos apenas na extração ilegal de ouro e madeira, o valor deverá alcançar cifras milionárias.

A incapacidade militar do Brasil, que a declaração estapafúrdia de Jair Bolsonaro sobre “sair a saliva e entrar a pólvora” apenas deixou mais explícita, associada ao aprofundamento da combinação entre a crise sanitária e a econômica, que não param de se agravar, deverá tensionar o sistema político brasileiro a níveis tão ou mais altos ao daqueles que antecederam o golpe parlamentar executado contra a presidente Dilma Rousseff.

Ah, sim, se os candidatos explicitamente apoiados por Jair Bolsonaro forem derrotados nas urna neste domingo, é provável que a agudização da crise se aprofunde, pois ficará ainda mais claro que a onda bolsonarista de 2018 já seguiu seu curso e quebrou na praia, deixando a fraqueza da posição do presidente da república ainda mais evidente.

Então, meus caros, a ordem é se segurar, pois a catarse bolsonarista deverá testar os nervos nacionais até o limite do rompimento. A ver!

Eleição empurra a divisão dos EUA além do ponto de inflexão: editorial do Global Times

Across The U.S. Voters Flock To The Polls On Election Day

Os eleitores se alinham do lado de fora dos recintos eleitorais em Oakmont na Pensilvânia na terça-feira, quando a votação do dia da eleição começou na manhã de terça-feira em muitas partes dos EUA.  (Jeff Swensen/Getty Images)

A sociedade dos EUA está esperando ansiosamente pelos resultados da votação nos últimos estados-chave. Na sexta-feira à noite, a afluência ficou mais clara. Mas as métricas que decidiram o resultado das eleições anteriores podem não funcionar neste momento. Ambas as campanhas descreveram esta eleição como um duelo entre dois valores e caminhos diferentes. E as pessoas compram. Enquanto as eleições estão prestes a terminar, parece que nada poderia ter uma voz decisiva e alterar fundamentalmente os problemas dos EUA.

Se olharmos para os sentimentos intensos na grande mídia dos EUA e na internet, eles não parecem estar discutindo quem será o próximo presidente. Embora relatar esses sentimentos seja um show político, que geralmente acontecia nos Estados Unidos no passado, sua repetição faz as pessoas se preocuparem se a sociedade poderia voltar ao normal após o show. 

Desta vez, ninguém acreditaria que a divisão nesta eleição é apenas um show. A divisão é tão real e profunda que a única coisa incerta desta vez é quão profundamente afetará os EUA.

Cada sociedade tem divergências e contradições internas. O design do sistema dos EUA favorece e até encoraja a fermentação de contradições. Mecanismos ajudam a manter o equilíbrio entre interesses e poder. Por muito tempo, isso teve um desempenho relativamente bom, mas novos desafios estão mudando as condições dos mecanismos dos EUA e mudando as relações entre a eficácia dos mecanismos dos EUA e as dificuldades que a sociedade norte-americana enfrenta.

A mudança fundamental é que os Estados Unidos vêm consumindo suas vantagens acumuladas no contexto da globalização. Seu padrão de interesses foi fixado e a competitividade geral do país está caindo. O bem-estar que proporcionou às pessoas não pode corresponder às demandas e expectativas das pessoas. O mecanismo que distribui interesses solidifica e corrói ainda mais a capacidade social de promover a unidade.

Na era da internet, a política de identidade está crescendo. As pessoas podem facilmente sentir que seus direitos estão privados por serem de uma determinada classe social. Manter a unidade social tornou-se uma tarefa cada vez mais árdua e sensível. Obviamente, os EUA precisam de reformas políticas mais do que muitos outros países para aumentar sua capacidade de promover a unidade.

Mas nos últimos quatro anos, o governo Trump, incitado pelo sistema eleitoral dos EUA, empurrou o país para um caminho arriscado, onde aumenta a divisão para impulsionar o padrão existente de interesses políticos. Existem tantos problemas sociais na sociedade americana, seja entre diferentes raças e classes, entre novos e antigos imigrantes, e entre diferentes regiões, muito menos partidária. Mas agora o objetivo da sociedade foi lançado na reeleição de Trump. Em grande medida, esse objetivo espremeu o espaço da sociedade norte-americana para buscar o máximo dos interesses comuns.

Desde a eclosão da epidemia de COVID-19 nos Estados Unidos, o governo Trump tem lidado com isso de olho nas eleições, enquanto a vida e a segurança das pessoas foram deixadas de lado. Se os EUA não tivessem cometido o erro de lançar todos os olhos sobre a eleição, o país, que ocupa o primeiro lugar em recursos de saúde pública, não teria permitido que a epidemia se alastrasse a tal ponto que mais de 200.000 pessoas morreram por causa disso.

Embora seja óbvio que os EUA trilharam muitos caminhos errados, o equilíbrio de poder na eleição mostra que a séria divisão social prejudicou o julgamento dos americanos. Os humanos são insignificantes e escolher um acampamento é a escolha mais fácil para eles manterem seus próprios interesses. Quanto mais profunda a divisão social, mais as pessoas julgam a partir de sua própria posição. O fato de as pessoas distinguirem entre amigos e inimigos não com base no certo ou errado se tornará uma prática política comum.

O sistema norte-americano tem história e cultura próprias, mas precisa se modificar de acordo com os tempos. É hora de as elites americanas dizerem adeus à arrogância política e se engajar na reflexão coletiva. Eles deveriam ter uma visão correta dos problemas sistemáticos na política dos EUA e chegar ao consenso de que os EUA precisam continuar reformando como outros países. Somente nesta base os EUA podem realmente ser determinados e motivados a mudar a si mesmos.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo jornal chinês Global Times [Aqui!].

Trump é derrotado nos EUA, e Bolsonaro perde no Brasil

soccer shirtJair Bolsonaro e Donald Trump trocaram camisas das seleções nacionais durante encontro na Casa Branca. A derrota de Trump representa uma dura perda política para Bolsonaro no Brasil

A agora confirmada derrota do presidente Donald Trump na sua tentativa de reeleição representa uma dura perda para Jair Bolsonaro no Brasil.  É que ao perder eleição, Trump remove de Bolsonaro de se manter como uma espécie de cópia malfeita no Brasil. 

Um dos elementos centrais da presidência cambaleante de Jair Bolsonaro tem sido a implementação de uma espécie de “nacionalismo de vassalagem” onde a submissão dos interesses estratégicos do Brasil aos de Donald Trump (e não necessariamente dos EUA) agora terá que se confrontar com a realidade de que o novo presidente estadunidense exigirá (isso mesmo, o verbo é exigir) uma mudança na forma com que o governo Bolsonaro se relaciona os biomas da Amazônia brasileira.

De nada adiantará qualquer simulacro de nacionalismo para dizer que o Brasil tem o direito soberano de usar os recursos naturais existentes na Amazônia como bem entender, pois o agora eleito Joe Biden já disse que exigiria uma mudança na situação de descontrole existente na proteção da Amazônia. Nessa área há ainda que se lembrar que Biden já disse que um dos seus primeiros atos como presidente será recolocar os EUA no Acordo de Paris para combater as mudanças climáticas.

Há ainda que se lembrar que Jair Bolsonaro será compulsoriamente obrigado a mudar os ocupantes dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, o primeiro por ser visto como anti-ambiente e o segundo por ser umbilicalmente alinhado com o ideário de Donald Trump. O que Bolsonaro fará com Ricardo Salles e Ernesto Araújo ainda não se sabe, mas está óbvio que eles não ficarão nos postos que ocupam depois de do 01 janeiro de 2021.

Agora, há que se dizer que em outros aspectos ainda mais cruciais como o da tecnologia 5G e das relações comerciais com a China, a eleição de Joe Biden representa uma péssima notícia não apenas para Jair Bolsonaro, mas principalmente para o Brasil. É que os democratas já indicaram que nesses dois itens, eles deverão adotar uma postura ainda mais agressiva do que a adotada por Donald Trump. Como a economia brasileira hoje respira em função do que a China compra do Brasil,  a situação que se abre não será nada fácil. Por isso mesmo, se alguém tem que estar feliz com a vitória de Trump são as corporações estadunidenses e não os brasileiros.

Houve analista de TV brasileira que afirmasse que uma eventual vitória de Donald Trump repercutiria positivamente para os candidatos apoiados por Jair Bolsonaro nas eleições municipais que se aproximam no Brasil. Agora, como temos o resultado oposto, há que se ver qual será a performance dos candidatos apoiados pelo presidente brasileiro.  Eu continuo achando que o elemento mais importante da derrota de Donald Trump que foi a sua postura irresponsável frente à pandemia da COVID-19 ainda não foi colada em Jair Bolsonaro no Brasil, o que pode fazer com que ele saia ileso da derrota de Donald Trump. 

 

Nouriel Roubini, o “Doutor Desgraça”, previu em fevereiro que a pandemia da COVID-19 custaria a reeleição de Trump

roubiniO economista Nouriel Roubini, que previu a crise financeira global em 2008, prognosticou em fevereiro que Donald Trump perderia a reeleição por causa da pandemia da COVID-19

Ainda não saiu o resultado definitivo das eleições presidenciais realizada na última 3a. feira nos EUA, mas uma previsão feita em fevereiro deste ano pelo economista e professor da New University, Nouriel Roubini, (o mesmo que previsão a eclosão de uma crise global em 2008 e que, por isso, ficou conhecido como Dr. Doom (ou Dr. Desgraça em português) pode se confirmar para surpresa de muitos.

É que ao prever a disseminação global da pandemia causada pelo coronavírus, Roubini afirmou que a crise econômica que seria desencadeada pela pandemia da COVID-19 iria abater as chances de reeleição do presidente Donald Trump

Baseado em seus prognósticos sobre a crise global que decorreria da disseminação da pandemia, Roubini observou que apesar da fraqueza do Partido Democrata, Donald Trump iria se tornar uma espécie de “lame duck”, e que seria derrotado nas eleições presidenciais.

Na mesma época, Roubini apontou títulos públicos como a saída mais segura para investidores que quisessem evitar os riscos que seriam trazidos para os mercados financeiros globais por causa da crise causada pela pandemia da COVID-19, sugerindo que se comprassem títulos públicos da Alemanha.  Eu fico imaginando quantos investidores levaram a sério os prognósticos de Roubini e partiram para a aquisição deste tipo de papel.

Já quanto ao presidente Donald Trump, fico curioso para saber o que ele achou em fevereiro das previsões de Nouriel Roubini e o que está achando agora quando parece que sua canoa presidencial irá afundar. De toda forma, caso a derrota de Trump se confirme, haverá que se reconhecer a capacidade Roubini de fazer prognósticos acertados em questões altamente relevantes.

Um detalhe curioso é que no Brasil ainda não vi nenhum partido político colando as mais de 160 mil mortes ocorridas no Brasil por causa da COVID-19 no governo Bolsonaro e nos candidatos apoiados pelo presidente da república.

TVs dos EUA interrompem transmissão de pronunciamento de Donald Trump por suas mentiras

donald trump

O vídeo abaixo mostra um momento extraordinário que decorreu da decisão de diversas emissores de TV dos EUA de interromper a transmissão de um pronunciamento do presidente Donald Trump por ele estar difundindo inverdades sobre a apuração das eleições presidenciais de 2020.

O momento é extraordinário não apenas porque Donald Trump é retirado do ar, mas porque logo após fazerem isso, as emissoras afirmam com todas as letras que isto ocorreu porque o presidente dos EUA estava mentindo.

Em minha opinião essa é uma diferença marcante na forma com que a mídia corporativa exerce o seu papel no Brasil e nos EUA. Aqui seria impensável que um presidente, mesmo que mentindo vergonhosamente, fosse retirado do ar, e menos ainda desmentido por emissoras de TV. O mais fácil por aqui estaria mais para que as mentiras de um dado presidente fosse não apenas televisionadas, mas também confirmadas.

Essa diferença de tratamento com os detentores do poder é um dos muitos aspectos que nos coloca em uma posição de total fragilidade nas relações políticas e econômicas com os EUA.  Aliás, falando em fragilidade, com a iminente vitória do candidato Joe Biden, a posição brasileira deverá piorar ainda mais. 

Finalmente, caso a vitória de Joe Biden seja confirmada, o dia não deverá ser mais dos felizes para a família Bolsonaro e para o chamado “setor ideológico” do gabinete ministerial do presidente Jair Bolsonaro. É que o candidato democrata disse em campanha que iria exigir uma mudança na condução da proteção das florestas da Amazônia, com ou sem a predisposição do Brasil. E aí, meus caros leitores, é que a porca torce o rabo.

Nem Trump, nem Biden

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Venho acompanhando as apurações das eleições estadunidenses com alguma atenção, pois sei de importância estratégica que a sucessão presidencial dos EUA poderá ter para as relações internacionais nos próximos anos. Apesar de não ser adepto do “quanto pior, melhor”, não vejo qualquer diferença substancial entre Donald Trump e Joe Biden no que se refere aos interesses de países da periferia capitalista, incluindo o Brasil. 

É que se formos ver o comportamento dos últimos presidentes eleitos pelo partido Democrata o que vamos encontrar são pequenas concessões para a classe trabalhadora dos EUA, principalmente às custas da piora das condições de vida dos trabalhadores de outros países. Além disso, a tendência à enviar tropas para garantir interesses geopolíticos dos EUA é igual ou maior quando os Democratas estão no poder, sempre sob a justificativa das “ações humanitárias” que de humanitárias não têm nada.

Mesmo que a vitória de Donald Trump assegure uma certa tranquilidade para o governo do Brasil, que não teria de rever imediatamente suas políticas ambientais e de relações exteriores, os custos políticas de alguma atenção de Joe Biden, por exemplo, para a proteção ambiental na Amazônia não viria sem demandas de compensações em outras áreas. Há inclusive o risco de que sob Biden, o Brasil enfrente ainda maiores restrições nas relações comerciais com os EUA, muito em parte por causa da abertura colaboração com o governo Trump. Isto sem falar em uma pressão ainda maior no que se refere às relações comerciais com a China, principal parceiro e destino prioritário de commodities em que os EUA concorrem com o Brasil como fornecedor, a começar pela soja.

Além disso, não podemos esquecer que outros países da América Latina, a começar pela Venezuela, talvez tenham mais a perder com uma eventual presidência de Biden do que já experimentou nos últimos quatro anos sob Donald Trump.

Em outras palavras, mesmo que Donald Trump possa ser apontado como um personagem que possui forte desprezo pela soberania alheia e um ser humano com defeitos mais do que óbvios, não há como dizer que Biden faria melhor no esforço para manter a hegemonia geopolítica estadunidense caso se fosse eleito. 

A verdade é que como já disse há muitos anos para uma jovem militante democrata, o partido que já teve presidentes como John Kennedy e Barack Obama pode até ser melhor para dentro, mas possui um recorde horrível para fora, incluindo o apoio ao golpe militar de 1964 no Brasil e tantas outras atuações, incluindo a manutenção e aprofundamento da Guerra do Vietnã.

Desta forma, ainda que entenda a torcida pela derrota de Donald Trump, me parece equivocado achar que a vida será melhor ou mais fácil com uma eventual vitória de Joe Biden.  É que os EUA, enfrentando um forte declínio econômico, é como aquele escorpião que pica o sapo que o transporta em uma lagoa determinando um final fatal também para si mesmo, mas que o faz simplesmente por não ter como negar sua própria natureza.

COVID-19: “As novas roupas da globalização”

covid 19 globalizationReuters, AFP/Getty Images, The Associated Press

Alguns são peremptórios: a COVID-19 teria matado a globalização, dizem eles. Outros vão mais longe: a COVID-19 seria a globalização. Finalmente, a COVID-19 seria a personificação final de uma globalização moribunda. Sem globalização do comércio, não haveria pandemia, disseram – sem saber que a peste bubônica, fronteira desconsiderando, milhões de mortos de europeus na XIV ª  século como influenza chamado de “gripe espanhola” no rescaldo da Primeira Guerra Mundial ,  era galopante nos Estados Unidos e em toda a Europa.

Na verdade, o anúncio da morte da globalização parece prematuro. Mas a COVID-19 provavelmente está acelerando sua evolução. A pandemia marcaria o fim de um ciclo que começou no início dos anos 1980, em meio a um renascimento do pensamento econômico liberal.

No hemisfério Norte, esses quarenta anos de liberalização comercial ficaram com má reputação. Ela é responsabilizada pelo rebaixamento das classes médias e pela desindustrialização, ainda que a destruição de empregos seja resultado tanto da automação quanto da competição dos trabalhadores do Norte com os do hemisfério Sul. Mas no Sul, precisamente, a globalização não conta a mesma história. Para centenas de milhões de homens e mulheres, marca a saída da extrema pobreza e, muitas vezes, o acesso à classe média. É a epopeia do surgimento industrial do Sul, essa poderosa dinâmica que transformou nosso mundo.

O que a COVID-19 revelou, nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares, é a dependência em que as realocações no Sul, e em particular na China, nos colocaram em áreas-chave como a saúde. É também o absurdo de certas cadeias de valor – processos de fabricação divididos em vários países – que parecem ter sido pensadas por uma agência de viagens sobrecarregada com uma única lógica: deslocar a fabricação o mais longe possível do local de consumo.

Três “áreas privilegiadas de influência”

Um movimento reverso está em curso: a reconquista da soberania econômica em alguns setores, mesmo que isso signifique assumir os custos adicionais. Este desenvolvimento não acabará com a globalização. Intimamente ligada à tecnologia, a internacionalização do comércio continuará. Mas talvez seja mais regional do que global. Podemos falar de uma globalização da proximidade? Há dez anos, Jean-Louis Guigou, presidente do Instituto de Prospectiva Econômica do Mundo Mediterrâneo (Ipemed), fala sobre três “áreas privilegiadas de influência” chamadas a formar as grandes áreas de integração econômica de amanhã: o Bloco americano; os asiáticos; finalmente, um eixo Europa-África.

As duas primeiras áreas, observa Guigou, economista e ex-alto funcionário do governo francês, estão equipadas com os instrumentos para tal evolução: think tanks econômicos comuns; bancos regionais ad hoc; organizações políticas multilaterais (seja a Organização dos Estados Americanos ou a Associação das Nações do Sudeste Asiático).

A guerra tarifária que Donald Trump declarou contra a China é um fracasso. Não produziu qualquer realocação para os Estados Unidos de empresas americanas estabelecidas na China. Não fez nada para melhorar a situação dos trabalhadores americanos. Por outro lado, a renegociação de Trump do mercado comum norte-americano (anteriormente Alena, agora USMCA) entre o Canadá, o México e os Estados Unidos é um bom exemplo dos desenvolvimentos em curso na globalização.

Ele protege esta zona: as mercadorias circulam lá livres de direitos assim que são amplamente fabricadas neste espaço. Protege os trabalhadores: no automóvel, um mexicano não pode ganhar menos de 70% do que ganharia em Detroit. A integração comercial envolve a harmonização gradual de padrões – salariais, ambientais e outros.

Jean-Louis Guigou olha seus mapas geográficos: “O Norte da África deveria ser o México da União Europeia. “ O desenvolvimento de amanhã não é a troca de ontem (matéria-prima para bens de alto valor agregado), mas a coprodução. O Mediterrâneo, afirmou, “não é um obstáculo, mas um elo de ligação entre a Europa e todo o continente africano” . À “falta de visão, antecipação, paixão” que caracterizaria o Velho Continente, Guigou opõe-se à ambição de uma “Vertical África-Mediterrâneo-Europa”.

No entanto, este eixo não possui nenhum dos instrumentos – locais de encontro institucional ou banca de investimento – nem mesmo um centro de estudos económicos África-Europa, o que facilitaria o desenvolvimento para a integração regional. A globalização local é o negócio das próximas gerações.

fecho

Este texto foi originalmente escrito em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!].