Essa é a hora exata de Bolsonaro imitar Trump

trump bolsonaroJair Bolsonaro e Donald Trump durante encontro ocorrido nos EUA.

Como todos sabem, o presidente Jair Bolsonaro é um fã ávido do seu congênere estadunidense Donald Trump.  Em função disso, boa parte da sua linha de raciocínio vinha sendo uma espécie de espelho do que Trump estava mandando seu governo e o povo dos EUA fazerem para achatar a curva de difusão da COVID-19. A partir de uma minimização do potencial devastador do vírus, Trump estava efetivamente tratando o coronavírus como uma “gripezinha”, tal como Bolsonaro.

Pois bem, agora que os EUA se tornaram o epicentro global da pandemia causada pelo coronavírus, Donald Trump acaba de fazer um giro considerável em sua posição e enviou cartas à população pedindo que restrinja ao máximo a circulação e que, sempre que possível, os estadunidenses fiquem em casa (ver imagens abaixo).

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É interessante nota que as diretrizes de Donald Trump incluem os seguintes pontos:

  1. Escutar e seguir as determinações dos estados e autoridades locais
  2. Não ir trabalhar se estiver com sintomas
  3. Não sair de casa com crianças doentes e chamar a assistência médica
  4. Idosos e pacientes com doenças crônicas devem ficar em casa
  5. Isolamento total da família caso haja a confirmação de um caso de COVID-19
  6. Trabalhar e estudar em casa sempre que possível
  7. Evitar reuniões sociais e em grupos com mais de 10 pessoas
  8. Evitar bares e restaurantes, dar preferência a delivery e “para viagem”
  9. Evitar viagens desnecessárias, para compras ou turismo
  10. Não visitar berçários ou asilos
  11. Praticar sempre uma boa higiene

Todas essas orientações são muito semelhantes ao que já foi largamente recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e que países que contiveram a explosão da contaminação por COVID-19 já adotaram.

Pois então, esse momento me parece o mais recomendado e oportuno para que o presidente Jair Bolsonaro tome medidas para fazer o que ele tem mais feito ao longo de 15 meses de governo, qual seja, imitar as ações de Donald Trump. 

Aliás, falando em imitar as boas ações de Donald Trump, o governo Bolsonaro poderia também cessar o desfinanciamento do sistema nacional de ciência e tecnologia. É que no recente pacote aprovado pelo Congresso dos EUA, um total de US$ 1,25 bilhão (algo próximo R$ 7 bilhões) para agências federais de pesquisa apoiarem cientistas que tentam entender melhor COVID-19. Além disso,  parte desse valor será utilizado para apoiar universidades que fecharam devido à pandemia, algumas das quais poderiam apoiar pesquisas que foram interrompidas.

 

Negacionismo científico de Donald Trump colocou os EUA no centro da pandemia da COVID-19

Donald Trump,Jair Bolsonaro,TrumpDonald Trump e Jair Bolsonaro: dois negacionistas do conhecimento científico que agora precisam que os cientistas gerem respostas rápidas e eficazes para uma pandemia que eles ignoraram propositalmente.

O presidente Donald Trump, como seu congênere brasileiro Jair Bolsonaro, é um negacionista da importância do conhecimento científico. Como Bolsonaro, Trump negou os imensos riscos que estavam sendo criados sobre o povo dos Estados Unidos da América (EUA) pela rápida e letal expansão do COVID-19 em diferentes partes do planeta (ver vídeo abaixo).

Agora, os EUA estão no olho do furacão e já possuem mais cidadãos contaminados do que a China. A rede hospitalar estadunidense, majoritariamente controlada por grandes corporações, já chegou rapidamente à beira do colapso e, como em outros países, é provável que também os serviços funerários cheguem ao limite de sua capacidade em um momento muito distante.

Como já previsto pelo economista israelense Nouriel Roubini, o mesmo que previu o crash das bolsas em 2008,  já disse que Trump deverá perder as próximas eleições presidenciais por sua insistência por negar as evidências robustas que estavam sendo apresentadas pela comunidade científica acerca dos perigos postos pelo COVID-19.

Mas pior do que perder uma eleição, é provável que Donald Trump passe aos livros de história como aquele governante que permitiu que a maior potência econômica e militar do mundo sofra uma hecatombe sanitária por sua arrogância em relação ao conhecimento científico.

Entretanto, as semelhanças entre os presidentes do Brasil e o dos EUA nos ensinam importantes lições sobre a necessidade de se valorizar o conhecimento científico como a base de superação dos grandes desafios que estão postos neste momento, a começar pela pandemia do coronavírus.

Finalmente, lembro que morei nos EUA por mais de 7 anos, contando desde a minha chegada no Oak Ridge National Laboratory onde participei de uma equipe incrível por 1 ano e meio, o meu doutoramento na Virginia Tech onde fiquei quase 5 anos, e finalmente o meu pós-doutorado na Fairfield University onde atuei como bolsista da Comissão Fulbright por 11 meses. Em todo esse tempo, acumulei amizades que perduram até hoje, e hoje me preocupo com o destino de todas as amigas e amigos que como nós estão expostos aos riscos do COVID-19. 

Coronavírus já causou 1.000 mortes nos EUA, e governo Trump terá pacote de R$ 10 trilhões para impedir crise econômica

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No agora infame discurso do presidente Jair Bolsonaro em que ele atacou todos os que estão tentando impedir as piores manifestações da pandemia do coronavírus no Brasil,  houve uma clara menção de que a posição defendida era a mesma de Donald Trump. Pois bem, dois dias depois, o que se vê é os EUA alcançando o trágico número de 1.000 mortes por coronavírus e a negociação de um pacote anti-crise que deverá alcançar R$ 10 trilhões, um valor que é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2019.

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Então não há melhor hora para que o presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes, sigam os mesmos passos do governo Trump e despejem dinheiro não apenas nos bancos, mas que haja o aporte de renda para todos os trabalhadores brasileiros que estejam perdendo seus empregos por causa da pandemia.

Até aqui o que se viu foi um desprezo pelos efeitos gravíssimos dessa pandemia, especialmente nos segmentos mais pobres da população brasileira. Mas o exemplo que está vindo dos EUA, onde Donald Trump está fazendo um giro de 180 graus nas posições que defendia até ontem e adotando posições extremas para conter o vírus e a crise econômica que se seguirá a ele, não poderá ser mais desprezado em outros países, ainda que possuam recursos financeiros mais limitados.

E, sim, o que está ocorrendo nos EUA onde a rede hospitalar está rapidamente entrando em colapso demonstra duas coisas básicas: 1) o coronavírus não é uma mera gripezinha, e 2) os serviços de saúde privada não possuem nem a competência ou o grau de preparo necessários para conter pandemias. Que isso sirva de lição para todos os que nos últimos anos agiram para sucatear o Sistema Único de Saúde (SUS) e a difamar os servidores públicos que nele servem à maioria pobre da nossa população.

A pandemia do Coronavírus coloca o Bolsonarismo nas cordas

bolso corda

A forma singular de fazer política do presidente Jair Bolsonaro, aquela que alguns chamam de “Bolsonarismo”, já foi adjetivada de diversas formas, a maioria pouco lisonjeira.  Entretanto, cavalgando na onda de descontentamento de parcelas significativas da população brasileira com a forma de gerenciar o Estado por parte principalmente dos governos do Partido dos Trabalhistas (PT), o “Bolsonarismo” vinha surfando de forma fácil os mares revoltos criados por uma economia que não sai da profunda recessão em que se encontra desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas no que consiste exatamente o “Bolsonarismo”?  Eu diria que os ingredientes principais juntam uma clara rejeição ao conhecimento científico, o apelo aos valores religiosos e uma aposta quase ilimitada da suposta capacidade do individualismo como mecanismo de melhoria econômica, além dos elementos que apontam para uma forma peculiar de nacionalismo subordinado (no caso aos EUA).

Pois bem, todas as características que formam o núcleo central do “Bolsonarismo” estão agora em xeque pelo coronavírus. Para começo de conversa, a necessidade de uma resposta científica rápida joga por terras formulações que menosprezam o conhecimento científico e os cientistas que o produzem.  Está claro para a maioria das pessoas que será necessária a intervenção da ciência rápida e eficaz da comunidade científica para que uma vacina seja desenvolvida. 

Outro fundamento do “Bolsonarismo” que é reduzida a pó é a de que individualmente poderemos chegar a uma espécie de autosalvação econômica. As cenas de entregadores de comida e motoristas de aplicativos que agora não conseguem dinheiro sequer para comprar gêneros básicos já estão correndo o mundo e corroendo rapidamente a fábula de que pela precarização das relações de trabalho é possível se chegar a ganhos econômicos que dispensem a ação dos sindicatos. 

A última peça a cair está sendo o desmoronamento do governo de Donald Trump em face da rápida expansão da pandemia do coronavírus nos EUA. Como o “Bolsonarismo” é uma espécie de sub-Trumpismo, a eventual remoção de Donald Trump do poder nas próximas eleições presidenciais que deverá ocorrer nos EUA logo após o achatamento da curva da pandemia deixará o “Bolsonarismo” sem qualquer tipo de âncora ideológica e, pior, econômica.

Há quem tema que colocado na extrema defensiva, o presidente Jair Bolsonaro irá tentar recorrer a uma solução de força para preservar sua forma peculiar de ver o mundo. Ainda que isso não seja inteiramente descartável, eu diria que a maioria preocupação de Jair Bolsonaro deveria ser a de manter o cargo pelo qual tanto lutou.  É que até agora sua posição diante da pandemia do coronavírus tem sido pífia, o que poderá transformar o Brasil em uma espécie de área global de quarentena por tempo indefinido. 

Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Assassinato de general iraniano é jogada política de Donald Trump que pode acelerar crise econômica global

Qasem SoleimaniQasem Soleimani (ao centro na posição central da imagem) era um dos principais estrategistas das forças iranianas e seu assassinato deverá ter fortes repercussões políticas e militares no Oriente Médio

O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani pelas forças armadas dos EUA é claramente uma jogada política do encrencado presidente estadunidense Donald Trump. Para sair das cordas em que foi colocado pela jogada obscura que realizou para pressionar o governo da Ucrânia, Donald Trump autorizou a eliminação da principal liderança militar do Irã.

O problema em realizar uma jogada de tão alto risco é que, apesar de Trump e seus generais estarem bem longe do alcance das ações retaliatórias que o Irã deverá realizar para vingar o assassinato de Soleimani, suas próprias tropas e agentes de governos aliados no Oriente não estarão. 

Com isso em mente é preciso levar em conta que o Irã acabou de realizar uma série de operações conjuntas para fazer frente à possíveis agressões armadas, principalmente dos EUA.  A partir desse fato é que se vê que a decisão de eliminar Soleimani não é uma a ser ignorada para entendermos a intrincado situação geopolítica em que o assassinato do general iraniano se insere.

De qualquer forma, a principal consequência desta jogada política e eleitoral é causar um desequilíbrio para cima dos preços do petróleo que terá fortes consequências para uma economia global onde já existem sinais abundantes de que uma grave crise deve se instalar ao longo de 2020. 

No caso específico do Brasil, há que se ver como se pronunciará o excêntrico (para dizer o mínimo) ministro das Relações Exteriores sobre este grave incidente geopolítico. Se abrir a boca para “passar o pano” no assassinato de Qasem Soleimani (como é esperado), quem sofrerá vai ser o latifúndio agro-exportador que poderá perder acesso ao mercado iraniano. Como o Brasil agora depende ainda mais diretamente da exportação de commodities agrícolas qualquer perda de mercado trará perdas econômicas que não serão desprezíveis.

Um elemento a ser considerado é que a decisão de assassinar um alto oficial iraniano pode até demonstrar a capacidade bélica dos EUA. Entretanto, por outro lado, isso demonstra a fraqueza estratégica em que está posta a principal potência militar do planeta. E isso não é uma notícia secundária para se entender o que virá pela frente nos próximos anos e décadas. 

Finalmente, o tempo dirá se a jogada de Donald Trump vai dar certo ou não, e como o custo disso será sentido pelo resto do mundo. Mas que ninguém se surpreenda se uma grave crise econômica global eclodir. 

A queda de John Bolton deve ampliar isolamento internacional do Brasil

bolton bolsoO presidente Jair Bolsonaro e  John Bolton em novembro de 2018, durante a visita do então assessor de Segurança Nacional de Trump ao Brasil. REPRODUÇÃO/JAIR BOLSONARO

Vista de longe a queda de John Bolton, assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, poderia ser considerada como algo que não afeta o já precário balanço diplomático em que o Brasil se encontra neste momento.  Mas não ver a direta relação entre a remoção de Bolton e a ampliação do isolamento em que o Brasil foi posto pelas posições extremadas do presidente Jair Bolsonaro e a maioria dos seus ministros seria um erro primário.

O fato é que sendo um extremista em posições ideológicas pró-EUA, John Bolton oferecia ao governo Bolsonaro uma espécie de chancela a todo tipo de postura que afastasse a diplomacia brasileira de seu histórica postura pragmática de não interferência em assuntos alheios.  Um exemplo disso foi a quase intervenção militar na Venezuela onde o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo,  se colocou de forma entusiástica a favor de uma invasão do país vizinho em um clara coordenação com o que pregava o agora demitido assessor de segurança nacional de Trump.

Ao perder a ligação direta com os círculos mais duros do núcleo decisório de poder dentro dos EUA, o mais provável é que o Brasil, por causa das posturas do presidente Bolsonaro e sua entourage, passa cada vez mais a um isolamento também em relação ao governo Trump.  A razão para isto é simples: Donald Trump está envolvido em uma batalha de vida ou morte por sua sobrevivência política em face da posição cada vez mais delicada da economia estadunidense, e não terá muito tempo para se distrair com presidentes com posturas extremadas, pois o que lhe dará frutos dentro de casa será justamente demonstrações de que pode os EUA podem exercer eficientemente sua influência política, econômica e militar sobre o resto do mundo.

Mas o fato objetivo é que sem John Bolton, o governo Bolsonaro tenha maiores dificuldades para exercer a influência brasileira até na América do Sul. Se à queda de Bolton se somar uma eventual, e cada vez mais provável, derrota eleitoral de Maurício Macri nas eleições presidenciais argentinas, aí a coisa tenderá a desandar de vez.