Por Cláudia Freitas*
A Comissão de Combate de Intolerância Religiosa (CCIR-RJ) congrega 20 diferentes entidades no Rio de Janeiro contra a intolerância religiosa e em torno de “ações positivas” sobre o tema. O órgão é referência no Brasil e responsável pela Caminhada contra a Intolerância Religiosa, que reúne todos os anos milhares de fiéis das mais diversas crenças na orla carioca. Apesar da expressividade na área de Direitos Humanos, o CCIR não foi consultado pela Prefeitura do Rio no processo de criação da recente coordenadoria municipal de Intolerância Religiosa, anunciada na primeira semana de abril.
“Não consigo entender o motivo do prefeito [Eduardo Paes-PMDB] e do seu coordenador de Governo [Pedro Paulo Carvalho] não viabilizarem diálogo com o CCIR no processo de criação desta nova coordenadoria. A nossa preocupação é com a implementação das melhores diretrizes e ações voltadas para este assunto, já que a nossa equipe tem vasta experiência e atuamos neste foco desde 2008”, lamenta o presidente do CCIR, o Babalawo Ivanir dos Santos.
O religioso garante que não foi procurado em nenhum momento pela prefeitura para discutir a criação da coordenadoria e tomou conhecimento da nova pasta através de amigos. “Consultei vários líderes religiosos, até o Arcebispo, para saber se eles haviam sido comunicados sobre esta nova linha de atuação da prefeitura, ninguém sabia de nada”, diz Santos.
Ignorados pelo Executivo municipal, os membros do CCIR realizaram uma assembleia no dia 13 de abril, visando a formação de um corpo técnico a ser proposto ao prefeito Eduardo Paes. Na semana passada, um pedido de reunião com o prefeito foi protocolado pela entidade na prefeitura, mas até a tarde desta quarta (4/5) a demanda não havia sido atendida.
“Estranhamos muito esta atitude do prefeito, ele conhece o nosso trabalho no Estado, somos referência no tema. Não queremos nenhum cargo, mas participar dos trabalhos técnicos que muito nos interessa”, frisa o babalawo.
Segundo fontes ligadas à prefeitura, a coordenadoria de Intolerância Religiosa abrirá 19 novos cargos no Executivo, sendo um deles classificado como DAS 10 A, ou seja, compatível com salário de R$ 9 mil, outro DAS 10 B, cujo salário é de R$ 8 mil e os 17 restantes na categoria DAS 6, com remunerações de R$ 1.500. As informações revelam o nome do vereador Átila Nunes (PMDB) como um “consultor” na criação da coordenadoria. Nomeações ligadas à coordenadoria já foram publicadas no Diário Oficial do Município no dia 13 de abril. As fontes afirmam ainda que um profissional ligado ao gabinete de Átila Nunes teria procurado nesta terça (03/05) o representante da Sociedade Beneficiente Muçulmana do estado para tratar de assuntos ligados à articulação da coordenadoria.
Na Câmara Municipal, Nunes foi nomeado nesta terça-feira (3/5) presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Olimpíadas instaurada na Casa, formada para investigar os contratos e licitações feitas pela prefeitura e pelo governo Estadual com empresas responsáveis por obras ligadas aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. O relator da CPI será o vereador Thiago Ribeiro, que também pertence ao mesmo partido de Nunes e do prefeito.
Em janeiro deste ano, Átila Nunes (pai) assumiu uma cadeira na Câmara Federal, amparado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O parlamentar ocupou a vaga deixada pelo deputado Ezequiel Teixeira (PMB-RJ) que foi remanejado para a Secretaria da Assistência Social do Estado do Rio. Na época, a oposição considerou as mudanças uma manobra articulada pelo governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), visando reforçar a bancada de aliados do partido na Câmara para eleger como líder da sigla o deputado Leonardo Picciani.
*Cláudia Freitas é jornalista e blogueira (Aqui!)