Chocado com Alexandre Frota sendo ouvido no MEC? Calma, tem coisa muito pior acontecendo na educação brasileira

frota mendonça filho

A visita oficial do ator (?) Alexandre Frota ao ministro da Educação do governo interino de Michel Temer, o deputado federal José Mendonça Bezerra Filho (DEM/PE), deixou muitos professores literalmente revoltados.  Pressinto é que essa revolta tem a ver com o fato não apenas de que Frota é uma pessoa completamente estranha aos debates sobre a educação nacional, mas pelo fato dele ser mais conhecido pelas suas tiradas chauvinistas e homofóbicas do que por sua erudição de botequim.

Particularmente tenho a dizer que essa visita é o de menos para mim. É que afora o fato da visita chancelar a mais vívida expressão das ideias retrógradas dos partidos e grupos que se apropriaram do poder em Brasília, considero que há muito mais coisa efetivamente pior acontecendo em nosso sistema educacional neste momento.

Não falo aqui da destruição física das escolas, dos casos de corrupção como no caso da máfia da merenda em São Paulo, nem a desmoralização dos profissionais da educação que, ano após ano, são desconsiderados por todas as esferas de governo.  O fato é que o sistema educacional brasileiro passa hoje por um profundo ataque no que é mais básico, a liberdade de ensinar.

Um exemplo disso é a lei recentemente aprovada pela Assembleia Legislativa de Alagoas que prevê punições e demissões para profissionais que sejam caracterizados como difundindo ideologias partidárias e fazendo algum tipo de proselitismo anti-religioso (Aqui!). Como professor de uma disciplina que ensina a evolução geológica da Terra, sei que  a generalização desse tipo de legislação criaria barreiras graves para comparar o que fala a ciência e o que difundem alguns sectos religiosos. Mas existem casos ainda mais tensionados, a começar pela questão da evolução das espécies que foi estabelecida por Charles Darwin.

O que está realmente em jogo é o desenvolvimento de formas modernas de conhecimento em pleno século XXI. A estas alturas já temos comprovação científica suficiente para desmentir qualquer concepção que postula a possibilidade de qualquer ato humano, inclusive o de ensinar e aprender, possa ser destituído ideolígico. Negar isso no atual contexto histórico só serviria para colocar o Brasil num ciclo quase inescapável de atraso científico e tecnológico.

Então me perdoem os que estão tão irritados com a visita de Alexandre Frota ao ministro Mendonça Filho. O risco que corremos neste momento é mais grave do que um problema de mensageiro. Há que se concentrar na mensagem que ele nos traz. E, no caso de Frota, e seus companheiros do “Revoltados Online” a proposta é de que voltemos para o Século XV.  E o pior é que tem gente no ministério interino de Temer que quer voltar para séculos anteriores. E durma-se (ou não) com um barulho desses.

Psicanalista afirma que o fim do limite é o pano de fundo para a deslegitimação de pais e educadores

SPOILED

“O fim da necessidade de perda, de proibição e de limite deslegitima todos que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor, que se sente mal quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. E isso, através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, se sentem incompetentes para poderem intervir.”

Por  Jean-Pierre Lebrun 

Uma coisa que até então pouco se via: nos primeiros dias em que os pais vão levar seu filho à escola, observa-se cada vez mais que não são as crianças que choram, como antes, mas sim os pais. Esses pequenos sinais parecem nos dizer que alguma coisa se passa. E podemos, é claro, nos perguntar do que se trata. Na realidade, também os governos estão se perguntando do que se trata e de que maneira ajudar o que eles chamam de parentalidade. 

A palavra parentalidade vem substituir outras mais habitualmente utilizadas, como paternidade ou maternidade. E, como podem perceber, no termo parentalidade não se sabe muito bem quem é o pai e quem é a mãe. Haveria uma função parental assexuada que estaria em jogo. Pode parecer um pouco banal, pode parecer insignificante.

Mas, se refletirmos um pouco, podemos nos perguntar: como se explica que uma coisa que durante séculos se transmitiu de geração a geração sem nunca precisar de estudo ou de escola para ser transmitida – ou seja, que para ser pai era preciso de vez em quando dizer não aos filhos –, como se explica que, de repente, tenhamos de inventar algo para o que parece ter se rompido?

Hoje, há cada vez mais a ideia de que esse lugar de poder, de exceção, diferente dos outros lugares – que era o de Deus, do rei, do chefe, do mestre – é um lugar que não tem mais necessidade de existir. Esse lugar não tem mais importância, não tem mais necessidade de ser. Está caduco, de certo modo. Todos os lugares dão agora impressão de se equivaler pelo simples fato de que um lugar diferente dos outros não é mais reconhecido como natural. Agora somos autônomos.

Hoje, o objeto de consumo que nos é proposto cada vez mais rapidamente quer nos dar a ilusão, nos fazer pensar que justamente não se deve mais consentir nessa perda de limite, de gozo. Pelo contrário, diz que hoje devemos aproveitar o que se apresenta. Portanto, deveríamos banir de nosso trajeto a necessidade da perda. E eis aí algo que faz virar a cabeça de todo o mundo. É algo que nos atormenta profundamente e que me parece ser a mutação do vínculo social que enfrentamos hoje com uma série de consequências.

Se há ruptura quanto à necessidade da perda, então a noção de proibição se revela também completamente caduca. Por que proibir? Para que servem as proibições? Não há mais razão de proibir. Nada de proibição. E é o que constatamos hoje. Nada de regulação necessária.

O fim da necessidade de perda, de proibição e de limite deslegitima todos que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor, que se sente mal quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. E isso, através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, se sentem incompetentes para poderem intervir. Como hoje essa diferença de lugar não é mais reconhecida no discurso social, não temos outra saída senão querer a todo momento evitar o conflito. O que nos organiza hoje é o evitamento do conflito.

Na Bélgica e na França, 60% das crianças têm televisão em seu quarto. Ter uma televisão no quarto, para cada um dos filhos, é um modo extremamente eficaz de evitar o conflito no seio da família, de dia, de noite, para saber qual programa se vai escolher. Assim, cada um pode gozar tranquilo, sozinho.

Deixamos as crianças assim, durante todo esse período dos 2 aos 15 anos. Durante 15 anos, elas são deixadas em seu gozo privado, ou seja, podendo sempre evitar ter de se confrontar com o outro para saber como, afinal, vão deixá-las seguir seu caminho. Notem que isso ocorre justamente durante a infância e a adolescência, um momento em que alguém deveria vir ajudá-las a organizar a regulação de sua pulsão mortífera, destruidora, que surge quando se deparam com o outro.

Onde seria mais necessário um trabalho para aprender a renunciar, nem que seja um pouco, a essa realização mortífera, geralmente a criança se vê hoje entregue a si mesma, abandonada. Literalmente abandonada ao seu universo pessoal. De tal modo que, quando tiver 16, 17, 18 anos, o que acontecerá por ocasião de um desgosto amoroso, um desgosto de estudante ou de profissão? Um desgosto, alerto, que os pais com certeza não poderão evitar. 

Portanto, se há uma coisa que os pais devem transmitir a seus filhos, é a como falhar.

*Jean-Pierre Lebrun , diretor da Associação Freudiana da Bélgica e um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional fala sobre aquela que considera a causa da mutação do vínculo social contemporâneo: o fim da necessidade de aprender a perder, a renunciar, a entrar em conflito com o outro. O fim do limite.

FONTE: http://www.fronteiras.com/artigos/geracao-rede-o-sujeito-sem-limite

Fiocruz: evento discute qualidade na avaliação do ensino e da produção científica

Amanda de Sá e Renata Moehlecke

Na tarde de quarta-feira (26/8), o debate no Seminário Educação, Saúde e Sociedade do Futuro, promovido pela Fiocruz, girou em torno da questão da avaliação da qualidade no ensino e na produção científica. Mediada pela pesquisadora Tatiane Wargas, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), a mesa-redonda Como formar profissionais para a ciência comprometidos com a qualidade, o pensamento crítico e a inovação contou com a participação de dois especialistas: Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Kenneth Rochel de Camargo Jr., professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Confira vídeo das conferências do segundo dia.

“Muitos professores se baseiam somente em teorias, mas essas teorias podem ser iluminadas por dados científicos.”, observou Lent (foto: Peter Ilicciev)

Na primeira palestra, Lent falou sobre sua experiência no campo da educação em ciências. Com o objetivo de aplicar descobertas científicas em prol da educação, o professor formulou a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), formada por um grupo de cientistas interessados em promover esforços de forma interdisciplinar a favor da educação. A rede, criada em novembro de 2014, possui parceria com o Instituto D’or, a Unesco, o Instituto Ayrton Senna e a National Science Foundation.

Entre os exemplos citados por Lent, a implantação de inovações científicas e tecnológicas aplicada à educação, pode ser feita a partir do uso de videogames, estimulando a capacidade cognitiva; a observação da relação entre sono, aprendizagem e memória; e a importância da música como estímulo à atenção e criatividade. Neste caso, Roberto destaca um exemplo inusitado com o uso de música em aulas de matemática fortalecendo o sistema atencional do cérebro.

A partir destes estímulos, conforme explicou o professor, deu-se início a linha de investigação neural conhecida como neuroplasticidade. A experiência é feita com estímulos de elementos do foco atencional para o aprendizado. “Muitos professores se baseiam somente em teorias, mas essas teorias podem ser iluminadas por dados científicos.”, observou Lent.

Para o professor, atualmente, a pauta de discussão sobre educação se baseia na ampliação de escolas, aumento da jornada escolar com turno integral e melhores salários. Porém, de acordo com Lent, somente isso não basta. “Precisamos incluir a ciência aplicada à educação. Nossa educação no século 21 se equipara a do século 19 nos Estados Unidos. A politica educacional do Brasil é conservadora, então essa diferença vai aumentando. Os EUA atualmente têm outro grau de tecnologia implantada nas salas de aula. Se aplicarmos a ciência e a tecnologia nesse panorama, nós podemos reduzir essa distância”, apontou.

Qualidade na avaliação científica

O professor Kenneth Camargo deu seguimento ao debate abordando o tema Produção científica: avaliação de qualidade?. Ele alertou que, atualmente, no âmbito científico, devido a um processo de avaliação que enfatiza quantidade, tem sido mais importante para os pesquisadores contabilizar o número de artigos publicados em revistas consideradas de alto impacto, e não o destaque às descobertas científicas em si, o que traz diversos problemas para o processo de produção científico, a curto e a longo prazo.

Para Camargo, é necessário reestruturar o processo de análise da qualidade da produção científica o mais rápido possível (foto: Peter Ilicciev)

“É importante pensarmos nos pressupostos ocultos que estão por trás desta discussão que estamos levando. Hoje, é comum associarmos a chamada metafísica da avaliação, que é a ideia de que o enunciado expresso numericamente seria mais confiável, objetivo e preciso, a uma hermenêutica da suspeição, que é a noção de que se discutirmos dados sem números algo de muito ruim e persecutório pode ocorrer. Essa associação torna o processo avaliativo muito complicado”, explicou Camargo. “Soma-se a isso a ideia errônea de que é possível medir a produção científica por citações. Um estudo de análise de conteúdo das citações muito interessante revelou, por exemplo, que um quarto dessas são irrisórias, 40% são relativas a capítulos de livros e não artigos, e 10% são auto referências, ou seja, o indivíduo citando a si próprio”.

O professor ainda aponta que existem uma série de fatores que não tem relação com qualidade que predeterminam a possibilidade de aumento do número de citações de um artigo, como múltipla autoria, a língua em que o artigo foi escrito e o escopo disciplinar. “Esses fatores influenciam diretamente os índices: normalmente, 20% ou menos dos artigos publicados em uma revista respondem por 80% ou mais de seu fator de impacto”, esclareceu. “Nesse sentido, é um equívoco achar que um artigo publicado em uma revista de alto impacto automaticamente é um artigo muito citado”.

Para Camargo, é necessário reestruturar o processo de análise da qualidade da produção científica o mais rápido possível. “Avaliar ciência e impacto não é simples e muitas vezes não é imediato. Em alguns casos, seriam necessários mais de 100 anos para se percebermos a relevância de uma pesquisa, que só terá utilidade prática no futuro; mas não podemos esperar esse tempo para decidir financiar ou não um projeto”, destacou. “Minha intervenção é um chamado às armas. Espero que cada vez mais pessoas se sintam irritadas tanto quanto eu me sinto e queiram mudar esse sistema avaliativo que simplesmente enfatiza números”.

O palestrante ainda chamou a atenção para a ingenuidade atual do debate, que não tem passado pela filosofia da ciência. “Se não pararmos de fato para discutir e pensar, esse processo avaliativo se tornará extremamente danoso para o fazer científico. Atualmente, da forma como as coisas são feitas, ninguém tem tempo para a reflexão, que é indispensável para a produção da verdadeira ciência”, concluiu Camargo.   

Confira aqui como foi a mesa-redonda da manhã de quarta-feira (26/8).

http://www.agencia.fiocruz.br/evento-discute-qualidade-na-avalia%C3%A7%C3%A3o-do-ensino-e-da-produ%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica

Reitor eleito da UFRJ declara: Grandes grupos econômicos estão ditando a formação de crianças e jovens brasileiros”

Em entrevista exclusiva, novo reitor da UFRJ, Roberto Leher, aponta os impactos da lógica mercantilizada sobre a educação brasileira e aponta que como grupos financeiros tentam dominar a educação pública.

Por Luiz Felipe Abulquerque, De São Paulo (SP)

escolaprivaztizada

Um grande negócio. É assim que o novo reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, enxerga o novo momento da educação brasileira.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ traça um panorama do atual estágio da educação no Brasil, e as conclusões não são nada animadoras.

Para Leher, que tomará posse nesta sexta-feira (3), os recentes processos de fusões entre grandes grupos educacionais, como Kroton e Anhanguera, e a criação de movimentos como o Todos pela Educação representam a síntese deste processo.

No primeiro caso, ocorre uma inversão de valores, em que o primordial não é mais a educação em si, mas a busca de lucros exorbitantes por meio de fundos de investimentos. No segundo, a defesa de um projeto de educação básica em que a classe dominante define forma e conteúdo do processo formativo de crianças e jovens brasileiros.

O movimento Todos Pela Educação é uma articulação entre grandes grupos econômicos como bancos (Itaú), empreiteiras, setores do agronegócio e da mineração (Vale) e os meios de comunicação que procuram ditar os rumos da educação no Brasil.

Para o professor, o movimento se organiza numa espécie de Partido da classe dominante, ao pensarem um projeto de educação para o país, organizarem frações de classe em torno desta proposta e criar estratégias de difusão de seu projeto para a sociedade.

“Os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano”, observa o professor.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato – Muitos setores denunciam a atual mercantilização da educação brasileira. O que está acontecendo neste setor?

Roberto Leher – De fato há mudanças no que diz respeito a mercantilização da educação, diferente do que acontecia até 2006 no Brasil. Os novos organizadores dessa mercantilização são organizações de natureza financeira, particularmente os chamados fundos de investimento.

Como o próprio nome diz, os fundos de investimentos são fundos constituído por vários investidores, grande parte estrangeiro, como fundos de pensão, trabalhadores da GM, bancos, etc, que apostam num determinado fundo, e esse fundo vai fazer negócios em diversos países.

 
Crédito: Reprodução  

Em geral, os fundos fazem fusões, como é o caso da Sadia e Perdigão no Brasil. Mas é o mesmo grupo que também adquiri faculdades e organizações educacionais com o objetivo de constituir monopólios.

Esse processo levou a Kroton e a Anhanguera – fundo Advent e Pátria – a constituírem, no Brasil, a maior empresa educacional do mundo, um conglomerado que hoje já possui mais de 1,2 milhão de estudantes, mais do que todas as universidades federais juntas.

O que muda com essa nova forma de mercantilização da educação?

O negócio do investidor não é propriamente a educação, é o fundo. Ele investiu no fundo e quer resposta do fundo, que cria mecanismos para que os lucros dos setores que eles estão fazendo as aquisições e fusões sejam lucros exorbitantes. É isso que valoriza o fundo.

A racionalidade com que é organizada as universidades sob controle dos fundos é uma racionalidade das finanças. São gestores de finanças, não são administrados educacionais. São operadores do mercado financeiro que estão controlando as organizações educacionais.

Toda parte educacional responde uma lógica dos grupos econômicos, e por isso eles fazem articulações com editoras, com softwares, hardwares, computadores, tablets; é um conglomerado que vai redefinindo a formação de milhões de jovens.

No caso do Brasil, cinco fundos têm atualmente cerca de 40% das matrículas da educação superior brasileira, e três fundos têm quase 60% da educação à distância no Brasil.

Quais os interesses dessas grandes corporações para além do econômico?

A principal iniciativa dos setores dominantes na educação básica brasileira é uma coalizão de grupos econômicos chamadoTodos pela Educação, organizado pelo setor financeiro, agronegócio, mineral, meios de comunicação, que defendem um projeto de educação de classe, obviamente interpretando os anseios dos setores dominantes para o conjunto da sociedade brasileira.

Em outras palavras, os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano.

Em última instância, é com isso que eles estão preocupados: em como fazer com que a juventude seja educada na perspectiva de serem um fator da produção. Essa é a racionalidade geral, e isso tem várias mediações pedagógicas.

A aparência é de que estão preocupados com a alfabetização, com a escolarização, com o aprendizado, etc. E de fato estão, mas dentro dessa matriz de classe, no sentido de educar a juventude para o que seria esse novo espírito do capitalismo, de modo que não vislumbrem outra maneira de vida que não aquela em que serão mercadorias, apenas força de trabalho.

De que maneira eles interferem nas políticas educacionais do Estado?

Como sociedade civil, os setores dominantes buscam interferir nas políticas de Estado. O Todos pela Educação conseguiu difundir a sua proposta educativa para o Estado, inicialmente por meio do Plano Nacional de Educação (PNE) – que aliás foi homenageado com o nome Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, em referência ao movimento. Com isso definiram em grandes linhas o que seria o PNE que está vigente.

Articulam por meio de leis, mas também da adesão de secretários municipais e estaduais às suas metas, aos seus objetivos. Articulam com o Estado, que cria programas, como o programa de ações articuladas, em que a prefeitura, quando apresenta um projeto para o desenvolvimento da educação municipal, tem que implicitamente aderir às metas do movimento Todos pela Educação.

Temos um complexo muito sofisticado que interage as frações burguesas dominantes, as políticas de Estado e os meios operativos do Estado para viabilizar esta agenda educacional.

Mas como se dá isso na prática?

Quando um município faz um programa de educação para a sua região, ele já deve estar organizado com base no princípio de que existe uma idade certa para educação, que os conteúdos não devem se referenciar nos conhecimentos, mas sim no que eles chamam de competências, que o professor não deve escapar deste currículo mínimo que eles estão desenvolvendo por meio de uma coerção da avaliação.

A escola que não consegue bons índices no Idep [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] é penalizada, desmoralizada, sai nos jornais, e isso cria um constrangimento que chega ao cotidiano da sala de aula, e as prefeituras pressionadas por esses índices acabam sucumbidos às fórmulas que o capital oferece. A mais importante delas é comprar sistemas de ensino, apostilas, que são fornecidos pelas próprias corporações.

O professor está em sala de aula, recebe apostilas, exames padronizadas que foram feitos pela corporação, e na prática, ao invés do professor desenvolver um papel intelectual, criador, ele tem que ser muito mais um aplicador das cartilhas, um entregador de conhecimento, e isso obviamente esvazia o papel do professor que tem consequências diretas com o processo de formação.

A formação esperada do educador não é uma formação enquanto intelectual, mas sim como alguém que sabe desenvolver técnicas para aplicar aquelas pacotes que as corporações preparam.

E há resistências a isso?

Existe um complexo de situações onde as resistências, as tensões são muito grandes, o que traz infelicidade aos professores e aos estudantes, mas tudo isso é muito difuso. As resistências acontecem na forma de lutas sindicais, quando fazem greve criticando a chamada “meritocracia”, os sistemas de avaliação.

Aparecem aqui e ali, mas é forçoso reconhecer que existe um complexo de controle sobre as escolas que restringem muito a margem de manobra dos trabalhadores da educação para desenvolverem um projeto pedagógico autônomo e crítico.

Essa situação é agravada quando a própria direção da escola, que deveria pensar como a escola se auto governa, vem sendo ressignificada como um papel de gestão. O diretor e os coordenadores são pensados como gestores na lógica de uma empresa, que deve cumprir metas, fiscalizar o cumprimento delas e tentar atingir essas metas de todas as formas.

Temos uma mudança de referências quando a própria equipe de coordenação da escola se torna uma equipe de gestores. No documento Pátria Educadora há uma possibilidade de punição dos professores que não cumprirem as metas.

Por sinal, o Pátria Educadora é um dos programas carro chefe do governo federal. Como você avalia este documento?

Não casualmente, esse documento foi elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), atualmente dirigido pelo ministro Mangabeira Unger. Ele parte de um diagnóstico de que o modelo de desenvolvimento baseado em commodities se esgotou com a crise mundial, com seus preços despencando depois daquele período de ouro entre 2004 e 2009.

 
Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil  

Com a desvalorização dessas commodities, Mangabeira chama atenção para o fato de que o Brasil deveria buscar outra forma de inserção na economia mundial que não fosse apenas de commodities.

E a minha hipótese é que eles estão sinalizando nesse documento que o Brasil deveria ser uma espécie de plataforma de exportação, assim como já existe na fronteira norte do México, em alguns países asiáticos – o modelo chinês foi isso nos anos 90, de ser um local em que a força de trabalho é muito explorada, recebe um treinamento específico que permite uma exploração muito grande, e esses países entram em circuitos de produção industrial de maneira subalterna, explorando o que seriam sua vantagens comparativas: baixo custo de energia, da força de trabalho, baixa regulamentação ambiental, e isso daria vantagens competitivas novamente ao país.

O drama é que a concepção do Pátria Educadora tem como correspondência a ideia de que a formação da maior parte da força de trabalho no Brasil deve ser por um trabalho mais simples, e isso tem consequências pedagógicas muito grande.

Se é para formar para o trabalho simples, a maior parte das escolas podem ser instituições estruturadas para a formação de um trabalho de menor complexidade, que seria desdobrados em processos de formação técnica de cursos de curta duração, cujo exemplo mais conhecido é o Pronatec, em que grande parte dos cursos são aligeirados para a formação de uma força de trabalho simples – tanto aquela que já estará inserida no mercado quanto aquela que constitui o que podemos denominar de um exército industrial de reserva.

O documento Pátria Educadora altera a racionalidade da organização da escola quando vislumbra escolas que vão formar forças de trabalho de menor complexidade. É importante destacar que no documento encontramos uma formulação muito perigosa de enormes consequências para o futuro da educação brasileira, que é a referência que o Mangabeira faz da adoção de um modelo tipo SUS (Sistema Único de Saúde).

O que é isso?

O modelo SUS teve como objetivo assegurar o direito ao atendimento à saúde de maneira universal, e isso poderia ser feito tanto pelo órgãos públicos quanto pelas entidades privadas.

Quando Mangabeira reivindica o modelo SUS, claramente está sinalizando que a formação do conjunto da classe trabalhadora deveria ser feita em nome de uma suposta democratização, realizada tanto pelas instituições públicas quanto pelas organizações privadas.

Isso é congruente com o PNE aprovado em 2014, ao estabelecer que a verba pública é aquela utilizada nas instituições públicas, mas também em todas as parcerias público-privadas, como o FIES, PROUNI, Ciências Sem Fronteira, PRONATEC, Pronacampo, sistema S, tudo isso entra como recurso público.

 
Ministro Mangabeira Unger | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
 

A rigor, estamos diante de uma política que pode indiferenciar as instituições públicas e privadas em detrimento do público, já que as corporações também se acercam da educação básica.

Em setembro acontecerá o 2° Encontro Nacional dos Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (Enera), em Brasília. Como o Enera se insere nesta conjuntura?

Tenho uma expectativa muito positiva em relação ao segundo Enera. No primeiro Enera tivemos a constituição de outra perspectiva pedagógica para a educação brasileira, que foi a Educação do Campo, uma conceituação do que seria uma educação pública voltada para o campo, mas com um horizonte de formação humana que ultrapassa o campo.

Foi certamente uma proposta que promoveu sínteses brilhantes entre uma perspectiva crítica que vem do campo marxista, da ideia da escola unitária, do trabalho, ao compreender que o trabalho deveria ser um elemento simbólico, imaginativo, capaz de nos constituir como seres humanos, e que portanto a escola é o lugar da cultura, da arte, da ciência, da tecnologia, e não uma instituição livresca. É uma instituição que tem interação com o mundo, com a vida, com os processos de trabalho, com a produção real da cultura em diversos espaços, como pensar no que significa a agricultura no Brasil.

Foi uma proposta pedagógica que promoveu sínteses incorporando pensamento critico marxista, tradição latino-americana de educação popular, particularmente com Paulo Freire, e criou bases para um pensamento pedagógico socialista.

O segundo Enera, a meu ver, está desafiado pela conjuntura a fazer um balanço do que foi essa mercantilização e de como o capital está tentando se apropriar do conjunto da educação básica.

Ao fazer essa reflexão, certamente o Enera vai ajudar a criar bases para uma perspectiva de educação pública unitária capaz de contrapor a educação frente à lógica de movimentos empresariais como o Todos pela Educação.

Pode haver incorporações de elementos novos na nossa reflexão sobre a pedagogia socialista que respondam desafios da ofensiva do capital, mas sobretudo respondam os anseios que estão pulsando em todo o país em torno da educação pública.

Como as últimas greves na educação?

Podemos problematizar a fragmentação das lutas pela educação, o fato de que muitas vezes são lutas econômicas e corporativas, que estão vinculadas as políticas municipais e estaduais, mas não tenho dúvidas de que essas lutas que estão pulsando no país estão enfrentando aspectos dessa pedagogia do capital, criticando a meritocracia, a racionalidade das competências e dos sistemas centralizados de avaliação, o uso de cartilhas.

Temos críticas reais a essa lógica de controle que o capital está buscando sobre a educação básica, mas precisamos sistematizar isso com outros fundamentos pedagógicos, e aprofundando a experiência que foi construída a partir do primeiro Enera.

No segundo Enera acredito que novas dimensões para essa pedagogia socialista vão ser esboçados, e não como o resultado de um processo em que os especialistas de educação do MST vão se reunir e pensar o que seria essa agenda.

Ao contrário, como resultado de uma articulação de movimentos que estão fazendo educação pública e estão buscando uma educação criativa, que estão fazendo as lutas de resistências com as greves, mobilizações, com a participação de estudantes.

Esta riqueza de produções que estão em circulação nas lutas em defesa da educação pública que podem criar uma sistematização maior. Creia condições para que possamos ampliar esta aliança entre experiências da luta urbana com as que vieram do campo, produzindo novas sínteses e novas possibilidades para que a classe trabalhadora tenha sua própria agenda para o futuro da educação pública.

É um processo longo e exigirá um esforço organizativo e intelectual de enorme envergadura. Temos que ter uma produção pedagógica mais sistematizadas, mais profunda, para criarmos a base desse pensamento pedagógico crítico, que assegure uma formação integral, mas uma educação que recusa a divisão dos seres humanos em dois grupos: um que pensa e mando, outro que executa e obedece.

Essas bases para uma proposta socialista estão sendo gestadas nas lutas, mas com o ENERA podemos ganhar um momento de qualidade no terreno da elaboração, articulação e organização em defesa desse projeto de novo tipo.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/32359

Pátria educadora? Está mais para pátria dos bancos!

O governo Dilma anda nos bombardeando com uma campanha publicitária sobre uma tal “Pátria educadora”. Mas como para saber para quem e qual finalidade se governo basta olhar o orçamento de um dado governo, mostra a figura abaixo com a distribuição orçamentária de 2014 para pagamento da dívida pública e de investimento em educação.

orçamento

Esses números mostram que estamos mais para a pátria dos bancos (o HSBC das contas secretas na Suíça incluso) do que para a da educação.

Em suma, a coalizão PT/PMDB, como já fizeram os tucanos, adora mesmo é pagar juros bancários e tem o maior medo de investir em educação. Afinal, povo educado, já mostraram os islandeses, deixam os bancos quebrarem e investem em escolas de excelência para todos.

 

Cortes no orçamento e pagamento da dívida afetam direitos dos trabalhadores

Educação foi a área que sofreu maior corte, 31% do total bloqueado. Em manifesto, Auditoria Cidadã da Dívida denuncia que o pagamento da dívida pública brasileira traz prejuízos aos direitos dos trabalhadores.

O Orçamento Federal proposto pelo Executivo para 2015 reserva R$ 1,3 trilhão para os gastos com a dívida pública, o que corresponde a 47% de tudo que o país arrecadará com tributos, privatizações e emissão de novos títulos, entre outras rendas, segundo dados da Auditoria Cidadã da Dívida, que apontam que este montante representaria 13 vezes os recursos inicialmente previstos para a Educação.

“A dívida é hoje o principal instrumento de transferência de recursos da nação para o capital internacional, que nada mais é que a articulação dos monopólios industriais comerciais com os bancos, e uma estreita relação com o agronegócio”, afirma Alexandre Aguiar dos Santos, 1º vice-presidente da Regional Planalto do ANDES-SN e representante do Sindicato Nacional na Auditoria Cidadã da Dívida.

Além da reserva para pagamento da dívida pública e das medidas que alteram as regras para a concessão de benefícios, como pensões por morte e seguro-desemprego, o governo Dilma Rousseff, por meio do decreto publicado nesta quinta-feira (8), bloqueou R$ 22,7 bilhões para os ministérios e secretarias especiais. O ministério da Educação responde pela maior parte do montante afetado, com o equivalente a R$ 7 bilhões anuais, o que corresponde a 31% do total de cortes.

O manifesto divulgado pela  Auditoria Cidadã explica que o ajuste fiscal anunciado pelo governo federal, aprovado pelo mercado financeiro, que prevê uma economia de R$ 18 bilhões em 2015 “é a velha política macroeconômica assentada em juros elevados, sob a justificativa de ‘combater a inflação’”. “Juros altos aumentam os gastos com a dívida pública, beneficiando apenas o setor financeiro, e são a receita infalível para o baixo crescimento, que não deu certo em nenhum país da Europa, mas que o Brasil teima em seguir”, prossegue a declaração.

Os novos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, anunciaram a meta de poupar em 2015 R$ 66,3 bilhões para o abatimento da dívida pública – R$ 55,3 bilhões na área federal e o restante nos estados e municípios.

De acordo com Alexandre Aguiar dos Santos, as medidas indicam que o alvo para a contenção de recursos não é o grande capital, mas sim os trabalhadores. “Ao invés de atacar o maior dos gastos públicos, que é a dívida pública e os elevadíssimos juros incidentes, o governo vai em cima dos direitos dos trabalhadores revendo regras do seguro-desemprego, concessão de benefícios, da segurança do trabalhador, do fundo de amparo ao trabalhador, do abono salarial”.

Auditoria, já

A dívida interna federal, atualmente, ultrapassa os R$ 3 trilhões e somente uma auditoria é capaz de reverter essa situação. “Nós não estamos falando na possiblidade de pagamento da dívida. Estamos falando em rolagem da dívida, pagamento de juros e ampliação dela. Não existe no horizonte da política do estado brasileiro uma perspectiva de fazer o pagamento da dívida, ao contrário se constitui num escoamento de recursos contínuos para o grande capital financeiro internacional. Esse 1,3 trilhão é uma ampliação do nosso endividamento, o que é uma lógica irracional do ponto de vista da saúde financeira, de qualquer nação”, explica Alexandre.

Para o docente, a temática da dívida pública precisa adquirir centralidade nas lutas política e econômica da população brasileira em 2015. “É necessário a auditoria da dívida pública para identificar quem são os proprietários desse grande negócio que não é subordinado a Lei de Licitações”, concluiu.

FONTE: http://www.andes.org.br/andes/print-ultimas-noticias.andes?id=7236

Cid Gomes no MEC: uma escolha coerente para aprofundar a contrarreforma da educação brasileira

Os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff romperam com o projeto de educação do PT dos anos 1980 e 1990, elaborado no contexto das lutas do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, em especial na Constituinte e na LDB, nas quais sobressaiu a liderança de Florestan Fernandes, e no período de elaboração do Plano Nacional de Educação dos Congressos Nacionais de Educação (1996-1997): por isso, jamais admitiram considerar o Plano Nacional de Educação: Proposta da Sociedade Brasileira elaborado pelos trabalhadores da educação, entidades acadêmicas, estudantes, reunidos no referido Fórum.

 A opção destes governos, por suas alianças de classes, foi subordinar a educação pública aos anseios do capital, por meio de parcerias público-privadas, operacionalizadas pela expansão do FIES e pela criação de um programa de isenções fiscais para o setor mercantil (ProUni), possibilitando o crescente controle da educação privada pelo setor financeiro, pela incorporação da totalidade da agenda educacional dos setores dominantes (Todos pela Educação) nas diretrizes oficiais para educação básica (Plano de Desenvolvimento da Educação, 2007; Plano Nacional de Educação, 2014) e pela admissão de que cabe aos patrões conceber a educação profissional da classe trabalhadora (Pronatec).

 O PT, após 2003, parece ter assimilado a nova agenda sem maiores questionamentos: os seus ministros a implementaram de modo diligente. Não haverá descontinuidade na política com o afastamento do PT do comando do MEC, mas haverá mudanças. O novo ministro aponta um aprofundamento da contrarreforma e, pelo retrospecto de seus mandatos como governador, um recrudescimento do confronto do governo com os trabalhadores da educação básica e superior.

 Cid Gomes e as universidades estaduais: uma relação de confronto

A trajetória do novo ministro é afim ao projeto em curso de expandir a oferta privada, com recursos estatais, e de refuncionalizar as universidades como organizações de serviços e ensino. A sua relação com as universidades estaduais do Ceará foi hostil e rude, manifestando disposição de federalizá-las (1) e mesmo de fechar o prestigioso curso de medicina da UECE, provavelmente por ser muito custoso (2). Mesmo diante da enorme falta de docentes, mais de 800 nas três universidades estaduais, procrastinou a realização de novos concursos (optando por deletérios contratos temporários e terceirizações) até o final de seu segundo mandato.

 Uma breve cronologia das lutas permite magnificar a intransigência e a ausência de prioridade à educação no governo de Cid Gomes: os sindicatos protocolaram a pauta em fevereiro de 2011, realizaram diversos atos, mas o governador somente recebeu as entidades e os reitores em novembro de 2012. A intransigência se manteve. No lugar de concursos, Cid autorizou apenas a contratação de professores substitutos que recebem menos da metade dos efetivos. Em outubro de 2013, objetivando acelerar a resolução dos problemas, os docentes deflagraram uma greve que se prolongou até janeiro de 2014. Os docentes suspenderam a greve a partir do compromisso de que o governo negociaria com a categoria. Novamente, as principais reivindicações não foram negociadas e, em setembro de 2014, a greve foi retomada. A gestão Cid Gomes foi encerrada sem que o governador tivesse negociado com os docentes que, após 4 meses marcados pela ausência de diálogo, no início de janeiro de 2015 ainda se encontravam em greve para impedir o total sucateamento das estaduais.

 Ao justificar a sua recusa em autorizar novos concursos, o governador argumentou que os docentes ministram poucas aulas, propondo que a carga-horária em sala de aula deveria corresponder a 52% da jornada de trabalho, aproximadamente 21 horas-aula, o que ele chamou de “chão de sala de aula”, sem considerar nem mesmo o tempo para planejamento das aulas, o que inviabiliza as orientações, a pesquisa e a extensão.

 Embora tenha havido crescimento nominal dos recursos para as três estaduais, houve decréscimo em termos da participação do orçamento das universidades em relação ao orçamento total: em 2007, os gastos das estaduais correspondiam a apenas 1,54% do orçamento; em 2012, o percentual foi reduzido para minguados 1,46%.  Desse modo, os gastos ficaram muito aquém da expansão de vagas e foram destinados, especialmente, aos contratos temporários (os gastos nesta rubrica cresceram, entre 2007 e 2012, 169,63%) e para as terceirizações do pessoal (2007-2012: +1.643%) (3).

 A consequência prática dessas medidas foi o favorecimento do setor empresarial, que seguiu expandindo vorazmente no estado. Com efeito, no Ceará, as matrículas entre 2000-2010 cresceram 114%, sendo que o setor privado  teve expansão de 245% e o público de 45%. No Ceará, o setor mercantil foi turbinado pelo FIES e o PROUNI, que, entre 2010 e 2013, ampliou em 358% os beneficiários dos subsídios públicos para o setor mercantil. A grande expansão se deu no FIES que, no período, cresceu 559%, enquanto o PROUNI cresceu 80% (4), ampliando de modo impressionante os estudantes endividados. A expansão do setor mercantil conheceu um período de ouro nas gestões Lúcio Alcântara, PSDB (2003-2007) e Cid Gomes (2007-2014).

 Educação básica

A despeito de que o governador não tenha sido um membro orgânico da criação do lobby empresarial, a exemplo de Fernando Haddad e de José Henrique Paim, foi em sua gestão na prefeitura de Sobral e, depois, no governo do Ceará, que uma das mais importantes medidas da agenda empresarial foi testada: o Programa Alfabetização na Idade Certa, posteriormente incorporada pelo MEC como política nacional no Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa – PNAIC. Com efeito, o governador assinou em 24 de maio de 2007 adesão ao programa Compromisso Todos pela Educação e, desde então, aplicou diligentemente a agenda empresarial, sendo reconhecido pelos donos do dinheiro e do poder como um importante protagonista da reforma empresarial da educação na região Nordeste, no caso, do ensino fundamental.

 Desse modo, os setores dominantes lograram difundir uma nova concepção de alfabetização funcional ao trabalho simples, restrita ao velho paradigma das primeiras letras referenciado na decodificação de letras, sílabas e palavras, desvinculadas da semântica, do uso social da escrita e da leitura, situação que explica, em grande parte, a existência de milhões de crianças e jovens que, a despeito de serem considerados alfabetizados, não são capazes de utilizar criativamente a escrita como uma dimensão da comunicação e do diálogo.

 O capital, nesse momento, almeja estender essa concepção instrumental e minimalista para todo ensino médio. Após ter hegemonizado a concepção de ensino fundamental, o Todos pela Educação vem orientando seus publicistas para difundir a necessidade da reforma do ensino médio, tido como muito abrangente e pouco focado nas “competências” instrumentais de português e matemática. Para isso, os seus funcionários vêm defendendo a necessidade de reformar o currículo do ensino médio. Argumentam que, no Brasil, ciência, cultura, arte, conhecimentos histórico-sociais são um luxo anacrônico. Não surpreende que, em sua primeira declaração como ministro da Educação, Cid Gomes tenha explicitado que essa reforma do ensino médio será a sua prioridade, meta reafirmada por Dilma Rousseff em seu discurso de posse.

 A sua nomeação, na cota pessoal de Dilma, anuncia também o recrudescimento das ações contra os docentes que, em especial, desde 2011, vêm promovendo cada vez mais lutas em prol de uma carreira digna. Ao lado dos governadores de RS, MS, SC e PR, em 2008 patrocinou uma ação no STF contra a lei do piso salarial (Lei 11.738/08). O magro piso foi conquistado no estado após uma dura greve de 64 dias, em 2011, a exemplo da conquista do (reduzido, apenas 1/3 da jornada) tempo de preparação de aulas, uma vitória dos trabalhadores da educação pois, na ocasião, o governador sustentou, ao patrocinar a ADIN contra a lei do piso, que o docente deveria permanecer 40 h em aula (5). Diante desta áspera greve, Cid Gomes afirmou: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado” (6). Na ocasião, um docente graduado, em regime de 40 h, recebia um vencimento de R$ 1,3 mil.

 O retrospecto de seu governo indica que a educação será a “prioridade das prioridades” de forma sui generis: o governo tucano de Lucio Alcântara (cabe grifar, tucano!) destinou para a função educação 28,25% do total do orçamento. Cid Gomes, em 2012, destinou apenas 18,06% (Anexo II, RREO, LRF), queda que pode ser magnificada também pelo percentual do PIB do Ceará destinado à educação : em 2007, 3,93%, em 2012, 2,6% (IPCE, Anexo II, RREO e balanço geral).

 As suas prioridades foram outras. Nem todas as atividades públicas deveriam ser caritativas, praticadas “em nome do amor”. Em 2007, fretou um jatinho por R$ 340 mil e levou a família para passear na Europa, hospedando-a nos mais caros hotéis, uma conta de R$ 35 mil (7). Em 2010 foi denunciado pela “farra do caviar”. Trata-se de um contrato de um buffet por R$ 3,4 milhões para servir a residência e o palácio de governo com caviar, escargots etc. (8).

 Sentidos da política educacional em curso

O fato de o novo ministro não ter sequer mencionado a universidade em sua primeira entrevista – a despeito do peso relativo das universidades federais para o MEC –  é uma demonstração de organicidade e coerência com as atuais políticas educacionais e com o aprofundamento da agenda do Todos pela Educação. Afinal, um ensino médio instrumental, focalizado nas ditas competências mínimas, expressa um projeto educacional em que o conceito de universidade pública é uma ideia fora do lugar. As políticas atuais, dirigidas pelo empresariado, têm como pressuposto que o setor produtivo, ou melhor, o mercado, não demanda força de trabalho complexa e, por isso, o nexo lógico é o PRONATEC e seus cursos de curta duração, instrumentais, destinados a suprir a força de trabalho simples e a socializar, ideologicamente, o exército industrial de reserva. A nomeação de Kátia Abreu da CNA para a pasta da agricultura e de Armando Monteiro da CNI para o ministério do Desenvolvimento robustecem a presença do Sistema S na educação profissional brasileira, respectivamente por meio do PRONACAMPO e do referido PRONATEC.

 Desse modo, o desprestígio das universidades federais, expresso por sua invisibilidade na campanha eleitoral –  Dilma Rousseff nada disse sobre a importância das mesmas nos debates e entrevistas, a exemplo de Aécio Neves –, é congruente com a política econômica em prol do setor bancário, das finanças, do extrativismo e das commodities em geral.  Cabe destacar a pertinência dessas orientações com as políticas de Ciência e Tecnologia em curso. Não é casual que o novo ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rabelo, tenha sido um dos líderes da aprovação do novo código florestal brasileiro, confrontando as entidades científicas e os movimentos sociais. As suas críticas aos relatórios do órgão da ONU Painel Intergovernamental para a Mudança Climática – IPCC, na sigla em inglês –, ecoando a tese de que o aquecimento global é uma “controvérsia”, nos mesmos termos dos cientistas financiados pelas corporações petrolíferas e da indústria automobilística, igualmente merecem destaque, pois congruentes com a política extrativista e de fortalecimento da economia baseada em commodities.

 Todos esses setores (financeiros, commodities, serviços) não demandam universidades capazes de produzir conhecimento novo. Após um curto período de relativa expansão de recursos (2007-2012), muitas universidades federais voltaram ao cotidiano dos anos 1990: contas de energia e telefonia atrasadas, terceirizações toscas, que sequer são custeadas até o final do ano, interrompendo serviços importantes, e visível decadência das instalações físicas, que já não pode ser edulcorada por argumentos de que, no futuro, tudo estará bem.

 Se a pesquisa acadêmica, direcionada para os problemas lógicos e epistemológicos do conhecimento, não tem lugar na agenda, nem tampouco a ciência e tecnologia comprometidas com os problemas atuais e futuros dos povos, o mesmo não é verdade em relação à prestação de serviços. É cristalina a orientação da presidenta Dilma. Em seu discurso de posse, a missão da universidade é uma só: servir o setor produtivo a partir de parcerias. Fomentando o mercado educacional nos países centrais, manterá a custosa prioridade ao programa Ciência sem Fronteiras, ainda que a quase totalidade dos estudantes tenha uma muito breve interação com essas universidades, em geral duas disciplinas e pouca ou nula inserção na pesquisa. Os recursos destinados para o Programa originalmente seriam custeados meio-a-meio com o setor empresarial, que, entretanto, não demonstrou interesse. Assim, os recursos que jorram para adquirir serviços educacionais dentro e fora do país são justamente os que faltam para melhor estruturar a universidade brasileira.

 Em resumo, a presidenta mostrou coerência com o seu projeto e com a sua aliança de classes. Contrariando expectativas pueris, optou por um ministro que já demonstrou que o seu modus operandi para enfrentar os docentes é rude e sabe enxugar o orçamento educacional. O novo ministro muito dificilmente irá se contrapor ao projeto em curso que aprofunda a adaptação das universidades ao modelo da educação terciária minimalista, nos moldes de Bolonha e dos community colleges. O teor ideológico da educação foi magnificamente sintetizado pela presidenta: “Brasil, Pátria Educadora”. O dever de assegurar a educação é difuso, diluído no suposto patriotismo, a despeito das classes sociais, encaminhado pelos “valores da pátria”, um discurso que orgulharia o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo e os formuladores da educação e moral e cívica dos anos de Chumbo.

 Desafios para a defesa da educação pública

Diante do novo cenário, os encaminhamentos do I Encontro Nacional de Educação (2012) terão de ser ajustados. Será temerário adiar uma nova convocação nacional para 2016, quando a contrarreforma poderá ter avançado de modo profundo sobre a educação pública unitária. Em 2015, acontecerão diversos encontros que poderão servir de emolumento para que a frente em defesa da educação pública possa ser ampliada, como o II Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária – ENERA. De fato, diversos setores sindicais e acadêmicos têm manifestado disposição de retomar o diálogo com prol de uma frente capaz de empreender unidade de ação na defesa dos princípios que orientam a escola pública gratuita, universal, unitária e laica, mas tal processo não se dará de modo espontâneo e, por isso, a convocatória de um novo encontro, ainda mais aberto ao protagonismo de base, não pode ser adiada.

 Estamos em contexto de aviso de incêndio, para utilizar a metáfora benjaminiana, e, por isso, as movimentações em prol da educação pública terão de ser ousadas, rápidas e efetivas, sob o risco de derrotas longas e duradouras. O histórico recente de greves da educação básica e superior e de lutas da juventude atesta que a disposição de luta está pulsando forte e, em 2015, as ruas poderão estar ocupadas por todos os que lutam por uma educação pública unitária.

 Notas:

 (1) Cid defende federalizar universidades estaduais. Diário do Nordeste, 10/08/2010,http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/politica/cid-defende-federalizar-universidades-estaduais-1.423503

 (2)http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/03/14/noticiasjornalopiniao,3220044/cid-a-medicina-e-a-uece.shtml

(3)Palavra de Ordem, jornal dos sindicatos das universidades estaduais do Ceará, Ed. 3, novembro de 2013.

(4)Número de beneficiados do Fies e Prouni cresce 358% no Ceará. O Povo online, Jornal de Hoje, 21/03/2014, disponível em:http://www.opovo.com.br/app/opovo/economia/2014/03/21/noticiasjornaleconomia,3223905/numero-de-beneficiados-do-fies-e-prouni-cresce-358-no-ceara.shtml

(5) Tiago Braga, Professores do Ceará decretam greve, O Povo on Line, 28/11/2008, disponível em:http://www.mundosindical.com.br/sindicalismo/noticias/noticia.asp?id=1167

(6)Daniel Aderaldo, iG Ceará,  29/08/2011.

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/ce/professor+deve+trabalhar+por+amor+nao+por+dinheiro+diz+cid/n1597184673225.html

(7)Rudolfo Lago, O voo da sogra, Governador do Ceará aluga jato com dinheiro público e leva família à Europa. Isto É, 23.Abr.08,

(8) http://www.istoe.com.br/reportagens/2826_O+VOO+DA+SOGRA

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Roberto Leher é professor titular de Políticas Públicas em Educação da faculdade de Educação da UFRJ e de seu programa de pós-graduação, colaborador da ENFF e pesquisador do CNPQ.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10397%3Apolitica080115&catid=25%3Apolitica&Itemid=47

Brasil, pátria educadora?

Em seu discurso de posse a presidenta Dilma Roussef anunciou que o lema de seu governo será Pátria Educadora. A governante apontou que o esforço de todas as áreas será em prol de tal questão. Porém, a mesma não demonstra como serão feitas tais gestões, parecendo desta maneira ser apenas um mote vazio. Seu discurso se assemelha à época de eleições, onde são feitas apenas promessas. Ao escolher a palavra pátria como discurso de mobilização a governante cai em um ufanismo que remonta aos tempos dos milicos empedernidos.

Tais discursos geralmente são recheados de palavras vazias, belas em seu formato, mas sem nenhum conteúdo, como faz Dilma, por exemplo, ao assinalar que irá agir pautada em práticas cidadãs, compromisso de ética e sentimento republicano.

Se comprometer com a educação é uma prática cotidiana. Os profissionais da educação sabem quantos golpes em seus direitos já sofreram dos governos lulo-petistas nos últimos anos. As medidas de arrocho e contingenciamento de recursos em plano federal, estadual e municipal já sinalizam que a educação sairá perdendo, principalmente no que se refere à retirada de gratificações.

Um ataque que será perpetrado no próximo período é a tentativa nefasta já anunciada pelo novo ministro da Educação Cid Gomes, de que serão feitas gestões para alterar o currículo escolar. O que se desenha é a  reprodução do modelo “escolão” baseado em moldes neoliberais de um saber tecnicista e reprodutor. Nunca é demais lembrar que Cid Gomes quando governador afirmou que os professores não deveriam trabalhar pautados em salários, mas como uma prática vocacional, voltada para o amor. Um verdadeiro desrespeito à classe docente que ano após ano assiste seus salários serem defasados e soma perdas por conta dos níveis de inflação.

Ainda no bojo das tentativas de mudança curricular, estão as declarações recentes da presidenta em campanha  que tem por objetivo retirar as disciplinas filosofia e sociologia da grade curricular por serem consideradas pelos alunos “chatas”. Tais menções são gestões no sentido de esvaziar disciplinas de cunho crítico e reflexivo.

Palavras como competitividade dão a tônica do discurso, demonstrando uma concepção de educação pautada no mercado e nas relações de trabalho, onde a perspectiva humana e solidária é negligenciada. A prioridade da educação, principalmente a técnica, seria assim alimentar as empresas com mão-de-obra.

Essa é também a perspectiva quando as universidades são citadas, onde existe a defesa de que tais centros devem estar afinados com os setores mais dinâmicos da nossa economia e da nossa sociedade. Leia-se nesse quesito uma universidade pautada não na produção de conhecimento público, mas subordinada ao deus mercado

O cenário que se aproxima demonstra que os profissionais envolvidos na educação, aliados à sociedade civil organizada, devem estar prontos para resistir aos planos orquestrados dos Governos de desmontar a educação pública de qualidade.

FONTE: http://marciomalta.blogspot.com.br/2015/01/brasil-patria-educadora.html

O tamanho do pré-sal

Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele

Por Cristovam Buarque

Não usar a riqueza do pré-sal seria uma estupidez, usá-la para iludir a nação é uma indecência. As estimativas para as reservas do pré-sal podem não ser exatas, mas não são mitos, são resultados de pesquisas geológicas; a exploração na sua profundidade não é um mito, a engenharia dispõe de ferramentas; a crença de que pode ser feita sem riscos para a ecologia não é um mito, embora haja exemplos de vazamentos em campos similares; a expectativa de que a demanda e os preços continuarão altos não é um mito, apesar das novas fontes.

Mito, contudo, é a afirmação de que o pré-sal mudará a realidade brasileira.

Se tudo der certo, em 2036 a receita líquida prevista do setor petrolífero corresponderá a R$ 100 bilhões, aproximadamente R$ 448 por brasileiro, quando a renda per capita será de R$ 27.800, estimando crescimento de 2% ao ano para o PIB. Apesar da dimensão da sua riqueza, o pré-sal não terá o impacto que o governo tenta passar. Explorá-lo é correto, concentrar sua receita na educação é ainda mais correto, mas é indecente usar o pré-sal como uma ilusão para enganar a nação e como mecanismo para justificar o adiamento de investimentos em educação.

O Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele.

Mito também é a afirmação de que a educação brasileira será universalizada e dará um salto de qualidade graças ao pré-sal. Em 2030, uma educação de qualidade universal custará cerca de R$ 511 bilhões, para o custo/aluno/ano de R$ 9.500. Se tudo der certo, a totalidade dos recursos do setor petrolífero destinada à educação corresponderá a R$ 37 bilhões, apenas 7,2% do necessário.

Também é um mito dizer que o atual governo teve a iniciativa da proposta de investir 75% dos royalties do petróleo em educação. A partir do momento da descoberta do pré-sal, 44 projetos de lei foram apresentados na Câmara e no Senado.

Mas foi com a aprovação do substitutivo PLC 41/2013 ao PL 323/2007, do deputado Brizola Neto, em 14/8/2013, após parecer favorável do deputado André Figueiredo (PDT-CE), que se determinou o destino de 100% dos royalties para a educação e a saúde. As atas mostram que os líderes da base de apoio ao governo tentaram impedir a aprovação, mas foram derrotados no voto.

Além de não serem destinados à educação os R$ 15 bilhões dos Bônus de Assinatura do Leilão do Campo de Libra, os recursos dos royalties não estão sendo aplicados. Até 28 de agosto, um ano depois da sanção da lei, apenas R$ 912 milhões foram efetivamente transferidos para o Ministério da Educação, ou seja, somente 13,5% do valor de R$ 4,2 bilhões previsto pela Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2014.

Enquanto o mundo vive uma revolução no conhecimento, estamos ficando para trás, eufóricos com a promessa de mudar nossa triste realidade educacional no futuro distante, com base em um recurso ainda na profundidade de sete mil metros e que não será suficiente. E o pouco prometido não está sendo cumprido.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

FONTE: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-tamanho-do-pre-sal-13996848#ixzz3DwvBYUXN