Brasil de Fato: Projeto de Eike desalojou camponeses com valores abaixo do mercado no Rio de Janeiro

Empresário foi preso nesta semana por promover esquemas de corrupção ao lado do ex-governador Sérgio Cabral

Mariana Pitasse, Brasil de Fato
 

casa

Relatório do Ibase/UFF estima que aproximadamente 1500 famílias estão sofrendo com a desapropriação / Camila Nobrega | IBASE

Eike Batista tomou conta do noticiário na última semana. A maioria das reportagens contam detalhes da prisão do empresário, mas não tratam sobre os prejuízos trazidos pelos seus empreendimentos. Além dos casos de corrupção, envolvendo o empresário e políticos, como o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), Eike construiu sua fortuna a partir de projetos que geraram uma série de conflitos sociais e ambientais. O principal deles é o projeto Minas-Rio, que abarcou a construção do Porto do Açu e da cidade industrial em São João da Barra, norte do estado do Rio de Janeiro.

O projeto foi idealizado por Eike Batista em parceria com os governos estaduais de Minas Gerais e Rio de Janeiro e governo federal. Um dos pontos chave da investigação de Eike e Cabral é justamente o terreno desapropriado para a construção do Porto do Açu. Na época, Eike Batista fez um cheque de R$ 37,5 milhões ao estado do Rio. A área, de 75 mil metros quadrados, valia mais de 1,2 bilhão.

Em operação desde 2014, com dois terminais, o Porto do Açu não funciona nem a metade do que foi idealizado. De acordo com estimativas, apenas 10% da área planejada está sendo utilizada pelo porto, que é gerido pela Prumo Logística, do grupo multinacional EIG Global Energy Partners, desde 2013. Já o complexo industrial, previsto nos planos de Eike, passou a fazer parte de um projeto futuro da empresa, com finalização estimada em 20 anos.

Problemas sociais e ambientais

Ainda que não tenha atingido seu propósito final, o empreendimento gerou inúmeros problemas sociais e ambientais, que não pararam de crescer ao longo dos últimos anos. A principal problemática gira em torno das desapropriações de terra para construção do porto. Mesmo sem concordar com a venda, a maior parte dos camponeses recebeu valores estipulados pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin), ainda que não existisse um acordo. Segundo relatos, os valores estão muito abaixo do valor de mercado.

Desde 2010, as desapropriações aconteceram a partir de um decreto que determinou utilidade pública ao local. O relatório “O projeto Minas Rio e seus impactos socioambientais: Olhares desde a perspectiva dos atingidos”, produzido a partir de uma parceria de organizações e universidades, como o Instituto Brasileiro de Pesquisa Socioeconômica (IBASE) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que: pequenos produtores locais foram retirados de suas terras a preços irrisórios para controle privado; houve pressão sobre famílias para venda das terras; reassentamento ilegal e inadequado das famílias desapropriadas.

“Ofereceram comprar as terras por R$1,90 o metro quadrado, sendo que o valor do aluguel das terras na época era de R$6 o metro quadrado. Foram abusos em cima de abusos. Sem contar que a terra não estava à venda. Não tinha preço para os que moravam lá. Ela não é a mercadoria, é um bem natural. Tem a função do plantio e criação de animais. Esse é o fator de maior impacto para essas famílias”, explica a professora do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da UFF, Ana Costa.

O local em que foi estabelecido o Porto do Açu é o 5º distrito de São João da Barra. De acordo com o Censo de 2010, o local possuía população de 5.574 habitantes, representando 17,02% da população total do município. O último Censo Agropecuário, produzido em 2006, aponta ainda que o local era formado por 1.480 propriedades rurais, de até 30 hectares, e 165 de tamanho maior.

Portanto, mais de 80% das propriedades eram médias e pequenas. Essas propriedades eram destinadas a produção de frutas, legumes e verduras, criação de gado e outros animais. Além disso, também compreendiam as atividades de extração de aroeira, taboa e a pesca em lagoas e no mar.

1500 famílias sofrem com desapropriação

O relatório estima que aproximadamente 1500 famílias estão sofrendo com a desapropriação. Dessas, 53 tiveram as casas demolidas e foram reassentadas no condomínio Vila da Terra. O restante recebeu por seu terreno valores apurados pela Codin. Segundo a assessoria de imprensa da companhia, todos os valores apurados nos laudos de avaliação relativos às áreas desapropriadas foram depositados em juízo – ou seja, sem que houvesse um acordo com os proprietários. Ainda de acordo com a companhia, até hoje, cerca de 80% dos proprietários receberam os valores relativos às suas indenizações e o restante aguarda resolução de questões judiciais. 

A família de Dênis Toledo é uma das que não aceitou um acordo e espera há anos uma resolução na justiça. O terreno, que pertence a família de Dênis há gerações, não era o local em que residiam, mas onde plantam e criam gado. As atividades dão conta da maior parte do orçamento da família. 

“Nós temos muitas restrições para entrar na nossa propriedade. Temos que avisar e pedir autorização para cuidar dos nossos bichos.  Além disso tiraram as cercas, está tudo uma bagunça. Nós estamos resistindo. Houve muita pressão, ameaças. Muita gente ficou triste, faleceu com depressão depois de tudo isso. Viram que tudo o que tinham na vida foi por água abaixo”, conta Dênis.

Para ele ainda há esperança de que essa situação se inverta. “O que vivemos é muito próximo do Brasil colonial só que agora não são os grandes fazendeiros que mandam, são as empresas poderosas. Mesmo assim, estamos na expectativa de que o decreto de desapropriação seja anulado, depois que veio à tona o mega esquema do Eike”, conclui. 

Promessa de desenvolvimento

Considerado o maior empreendimento mínero-portuário do mundo, o projeto foi anunciado em 2006, e incluía a construção do maior mineroduto já visto em toda a história do setor mineral, com 525 km de extensão, em Minas Gerais, e um condomínio industrial misto com infraestrutura logística e portuária no Rio de Janeiro.

Quando anunciado, o Porto do Açu, em São João da Barra, no Norte Fluminense, era uma promessa de desenvolvimento para a região, projetado sob o conceito de porto-indústria que atrairia empresas de vários setores para o distrito industrial que seria instalado a sua volta.

A assessoria de imprensa da Prumo Logística, que gere o Porto do Açu, não se manifestou sobre o valor pago por Eike Batista pelo terreno em São João da Barra, informando apenas que, desde 2013, a companhia possui um novo acionista controlador e o empresário hoje detém apenas 0,19% da companhia. Sobre as desapropriações, a Prumo afirmou que as ações tramitam no poder judiciário e transcorrem de acordo com a sua respectiva legislação. A Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) informou que não se posicionará sobre o valor dos depósitos feitos aos proprietários para as desapropriações. 

Edição: Vivian Virissimo

Como foram feitas as desapropriações no Porto do Açu: a ferro e fogo

expulsao-2

Agora que as relações íntimas entre o ex-bilionário Eike Batista e o ex (des) governador Sérgio Cabral apareceram, mostrando, entre outras, coisas uma troca de favores no processo de desapropriação das terras de centenas de famílias de agricultores familiares no V Distrito de São João da Barra, há que quem queira fingir surpresa.

Mas graças a uma meticulosa acumulação de memórias sobre os eventos que ocorreram no processo de expulsão dessas famílias de suas terras, há um rico acervo estocado nas redes sociais.

Abaixo mostro o caso da expropriação das terras do Sr. Jair Alves de Almeida que toda a calma explica como foi expulso de sua propriedade. 

Em suma, quem quiser saber mais sobre como se deram essas escabrosas desapropriações é só procurar que acha.

Em tempo, esse vídeo foi produzido pelo Núcleo de Criação Audiovisual da Coordenação de Extensão da UFF/Campos. 

Fala tudo, Eike!

eike-preso

O dia de hoje sedimenta o colapso das pretensões de Eike Batista de ser o homem mais rico do Brasil e, provavelmente, de ser um homem livre por algum tempo. É que espremido das circunstâncias, o ex-bilionário retornou ao Brasil para ser preso pela Polícia Federal, logo após a aterrissagem do avião que o trouxe Nova York (Aqui!).

Essa é efetivamente uma queda monumental de mais um mito do capitalismo brasileiro que foi de ser o detentor de uma fortuna de mais de US$ 30 bilhões em 2012 para a condição manifesta de ser um dos operadores do esquema ilícito de apropriação de recursos públicos montado pelo ex (des) governador do Rio de Janeiro.

A informação é que Eike Batista corre na mídia corporativa para se tornar um delator antes de Sérgio Cabral que também estaria se preparando para cumprir esse papel para se livrar dos anos de cadeia que se avizinham no seu horizonte.

Não considero nenhum dos dois dignos de pena. É que conheço pelo menos um caso em que a ação combinada desses dois personagens, as desapropriações no entorno do Porto do Açu, causaram muita dor e sofrimento a centenas de pessoas humildes que tiveram suas terras expropriadas e até hoje sofrem abandonadas pelos acertos que tudo agora indica terem ocorrido entre os dois.

Mas torço para que Eike Batista consiga sair na frente da loteria das delações, deixando Sérgio Cabral para trás. E eu explico bem a razão. É que Eike Batista foi um generoso doador de campanhas com raro pendor multipartidário. Em outras palavras, Eike “doou” para uma ampla gama de partidos do PT ao PSDB. Assim, quem sabe que detalhes sórdidos ele para nos oferecer sobre os políticos que acorriam à sede do seu império de empresas pré-operacionais para pedir dinheiro e provavelmente prometendo coisas em troca. Em suma, espero que a delação de Eike Batista seja ampla, geral e irrestrita.

 

Questão de múltipla escolha sobre o papel do (des) governador Pezão nas tratativas entre Sérgio Cabral e Eike Batista

eike-3

Não estivesse já afundado até o pescoço na monumental crise que ele e seu mentor político criaram no estado do Rio de Janeiro, o (des) governador Pezão poderia até dar de braços para as revelações que estão emergindo sobre as relações para lá de pouco repubicanas entre Sérgio Cabral e ele, sempre ele, Eike Batista.

Mas o fato é que na ausência de qualquer notícia positiva, o calvário de Sérgio Cabral e Eike Batista também se revela o de Pezão. 

Entretanto, uma questão que deve estar aparecendo na cabeça de todo cidadão fluminense que vive o cotidiano da crise gerada pelos (des) governos de Cabral e Pezão  se refere ao papel que o atual (des) governador cumpria enquanto Eike Batista nadava de braçadas no mar das benesses estatais.

Para isso, resolvi recorrer a uma questão de múltipla escolha para ajudar aos leitores a definirem qual foi papel Pezão teria cumprido no imbróglio Cabral/Batista. Lá vai:

Nas relações e tratativas realizadas por Sérgio Cabral e Eike Batista, o papel do (des) governador Pezão teria sido de:

  1. (   ) Inocente útil
  2. (   ) Omisso
  3. (   ) Cúmplice
  4. (    ) Marido traído
  5. (    ) Distraído
  6. (    ) Todas as respostas acima estão corretas

Façam suas escolhas e enviem como comentário para o blog. As mais criativas serão publicadas numa postagem especial que conterá os comentários mais criativos.

Vale a pena ver de novo: entrevista dada no programa “Debate Brasil” sobre a implantação do Porto do Açu

20170126_cabraleikelancamentoacu

Sérgio Cabral e Eike Batista comemoram o início das obras do Porto do Açu

Em Novembro de 2015 dei uma longa entrevista no programa “Debate Brasil” que é produzido pela Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET). Ali fui confrontado pelo economista Paulo Passarinho sobre as múltiplas facetas que cercaram a implantação do Porto do Açu, incluindo as desapropriações promovidas pelo (des) governo Cabral em benefício do grupo EBX.

Agora que a casa caiu (ou ameaça cair porque Eike Batista continua foragido), muitos se dizem surpresos com os fatos que estão emergindo. Mas como tentei demonstrar nesta entrevista, nada do que está emergindo é realmente novo. Apenas agora temos a mídia corporativa dando a cobertura de uma forma minimamente isenta sobre os fatos que cercaram as relações pouco republicanas entre Eike Batista e Sérgio Cabral.

Como a enttevista durou em torno de 57 minutos, aviso que a parte das desapropriações já é bem mencionada nos primeiros 15 minutos.

Versos íntimos de Augusto dos Anjos para Eike Batista

VERSOS ÍNTIMOS

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O poema acima foi escrito por Augusto dos Anjos e publicado em seu único livro no ano de 1912 me parece perfeito para descrever o momento por que passa o ex-bilionário Eike Batista e , por ora, fugitivo internacional.  

É que agora ele certamente sentirá o outro lado da moeda a que se referia Augusto dos Anjos em relação à dualidade que nos cerca na vida em termos de relações humanas, especialmente quando se trata de figuras que apenas se aproximam pela possibilidade da obtenção de vantagens. Nessas horas a bajulação é uma das ferramentas pelas quais vantagens são obtidas e concedidas, muitas vezes por cima das leis vigentes.

Mas abaixo seguem imagens que mostram que Eike Batista teve um trânsito largo com políticos no momento em que estava por cima da carne seca, e que ultrapassou os limites partidários. Eike Batista foi, por exemplo, um doador multipartidário de campanhas eleitorais, e agora parece ficar claro o porquê disso. 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas que ninguém se engane, Eike Batista não virou o maior vendedor de ventos do planeta sem que tivesse ajuda generosa das elites políticas e econômicas do Brasil.

E que Eike não se engane, ele será negado mais que as 3 vezes que Pedro negou Jesus Cristo. É que na hora da desgraça, os bajuladores e amigos de ocasião são sempre os primeiros a desaparecer.

Finalmente, uma palavra para a mídia corporativa que agora espezinha Eike Batista: sem a ajuda dos barões da mídia, o fenômeno “X” nunca teria chegado onde chegou. Assim, principalmente graças à internet, será sempre possível acessar as capas e matérias grandiloquentes sobre as propaladas habilidades de Eike Batista que agora se sabe nunca passaram de uma excelente capacidade de jogar conversa fora.

eike-10

Porto do Açu: desapropriações foram uma ação de amigos entre Eike Batista e Sérgio Cabral

Uma das razões da criação deste blog foi dar voz a centenas de famílias do V Distrito de São João da Barra que estavam sendo violentamente expulsas de suas pequenas propriedades em função da promulgação dos  Decretos 42.675 e 42.676 (ambos do dia 28 de outubro de 2010), que desapropriaram terras pertencentes a pequenos agricultores no município de São João da Barra, para a construção do Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB).

Ao longo dos últimos 6 anos dediquei muita atenção aqui no blog e em minhas atividades de pesquisa na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) sobre as desapropriações determinadas pelo (des) governo Cabral supostamente para a criação do DISJB que jamais saiu do papel. Aliás, nesse período de quase 6 anos, os únicos que saíram de algum lugar foram os agricultores, muitas vezes sobre pesada repressão policial e judicial

Os estudos que fiz em torno deste caso estão sintetizados no artigo intitulado “When the State Becomes the Land Grabber: Violence and Dispossession in the Name of ‘Development’ in Brazil ”  (ou em português “Quando o Estado se torna grileiro de terras: violência e despossessão em nome do desenvolvimento”, e que foi publicado no Journal of Latin American Geography em 2013  (Aqui!).

Mas sempre achei que havia algo “fishy” (que cheirava mal) nessas desapropriações, visto que o estoque de terras expropriado e entregue para Eike Batista claramente excedia o que estava acontecendo dentro da retroárea do Porto do Açu.

Eis que agora com a determinação da prisão de Eike Batista como parte das apurações sendo realizadas no ramo fluminense da chamada “Operação Lava Jato”, estamos sendo informados pela mídia corporativa que no mesmo período da decretação das desapropriações em São João da Barra, Eike Batista estava pagando propinas a Sérgio Cabral, além de lhe oferecer várias outras benesses (Aqui! Aqui!).

Passado todo esse tempo em que a imensa maioria das famílias desapropriadas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial (CODIN), vemos emergir lentamente evidências materiais de que todo esse processo foi viciado e se tratou de uma grande ação entre dois amigos poderosos e dispostos a ganhar muito, mas muito dinheiro, nem que centenas de famílias pobres e trabalhadoras tivessem que ficar sem as terras que lhes davam sustento.

Agora que as tratativas e os intercâmbios monetários que ocorreram entre o ex (des) governador Sérgio Cabral e o ex-bilionário Eike Batista, me parece uma obrigação da sociedade civil organizada fluminense cobrar a imediata anulação dos Decretos 42.675 e 42.676, e o imediato retorno das terras expropriadas aos seus legítimos donos. Nem mais, nem menos!

Lava Jato: MPF/RJ pede novas prisões de organização liderada por Sérgio Cabral

x

Operação Eficiência apura ocultação de mais de US$ 100 milhões de Cabral exterior, e já repatriou cerca de R$ 270 milhões que estão à disposição da Justiça. Também foi decretada a prisão de Eike Batista.

 

Em nova fase das investigações sobre a organização criminosa liderada pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro pediu à Justiça a decretação de nove prisões preventivas (por tempo indeterminado), quatro conduções coercitivas e o cumprimento de buscas e apreensões em 27 endereços no Rio de Janeiro, Niterói, Miguel Pereira e Rio Bonito. Os mandados, expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal/RJ, estão sendo cumpridos pela Polícia Federal nesta quinta-feira (25/1) na Operação Eficiência. Cabral e outros dois réus já presos pela Operação Calicute – seus ex-assessores Carlos Miranda e o ex-secretário de governo Wilson Carlos – tiveram novas prisões decretadas (nº 0510282-12.2016.4.02.5101).

A pedido do MPF, também foram ordenadas as prisões do empresário Eike Batista e do advogado Flávio Godinho, investigados por corrupção ativa com o uso de contrato fictício, e quatro membros da organização: Álvaro Novis, Sérgio de Castro Oliveira, Thiago Aragão (Ancelmo Advogados) e Francisco Assis Neto. As conduções coercitivas se destinam à tomada dos depoimentos de Susana Neves e Maurício Cabral – ex-mulher e irmão de Cabral –, de Eduardo Plass (TAG Bank e gestora de recursos Opus) e de Luiz Arthur Andrade Correia, preso na 34ª fase da Op. Lava Jato, em setembro. As apreensões ocorrem em endereços residenciais ou comerciais de Susana Neves, Maurício Cabral e dos seis presos sem mandado anterior. 

Com a Operação Eficiência, a Força-Tarefa Lava Jato no Rio de Janeiro aprofunda a apuração de um esquema usado por Cabral e pelos demais investigados para ocultar mais de US$ 100 milhões (mais de R$ 340 milhões) remetidos ao exterior. A investigação, concentrada nos crimes de corrupção (ativa e passiva), lavagem e evasão dos recursos, tem avançado com base em quebras de sigilo (bancário, fiscal, telefônico e telemático) e em acordos de colaboração premiada. Segundo os procuradores, a organização criminosa liderada por Cabral movimentou, em dez meses (agosto de 2014 a junho de 2015), R$ 39,7 milhões – cerca de R$ 4 milhões por mês.

“A remessa de valores para o exterior foi contínua entre 2002 e 2007, quando Cabral acumulou US$ 6 milhões. Mas esse alto valor em nada se compararia às surreais quantias amealhadas durante a gestão do governo do Estado do Rio de Janeiro, quando ele acumulou mais de US$ 100 milhões em propinas, distribuídas em diversas contas em paraísos fiscais no exterior”, afirmam os procuradores Leonardo Cardoso de Freitas, José Augusto Vagos, Eduardo El Hage, Renato Silva de Oliveira, Rodrigo Timóteo da Costa e Silva, Jessé Ambrósio Junior, Rafael Antonio Barreto dos Santos, Sérgio Pinel e Lauro Coelho Junior, coautores da petição da Operação Eficiência  (clique para ler a petição, seu aditamento e a decisão judicial). “Sua organização criminosa foi extremamente bem sucedida em seus objetivos, amealhou imensa fortuna distribuída a seus membros. E parte desses valores se descortina com esta medida cautelar.” 

Com o auxílio de colaboradores, o MPF já conseguiu repatriar cerca de R$ 270 milhões, que estão à disposição da Justiça Federal em conta aberta na Caixa. A Força-Tarefa está solicitando cooperação internacional para o bloqueio e posterior repatriação dos valores ainda ocultos em outros países. 

Eike Batista

Um objeto das investigações é o pagamento de uma propina de US$ 16,5 milhões ao ex-governador por Eike Batista e Flávio Godinho, do grupo EBX, usando a conta Golden Rock no TAG Bank, no Panamá. Esse valor foi solicitado por Sérgio Cabral a Eike Batista no ano de 2010, e para dar aparência de legalidade à operação foi realizado em 2011 um contrato de fachada entre a empresa Centennial Asset Mining Fuind Llc, holding de Batista, e a empresa Arcadia Associados, por uma falsa intermediação na compra e venda de uma mina de ouro. A Arcadia recebeu os valores ilícitos numa conta no Uruguai, em nome de terceiros mas à disposição de Sérgio Cabral. 

Eike Batista, Godinho e Cabral também são suspeitos de terem cometido atos de obstrução da investigação, porque numa busca e apreensão em endereço vinculado a Batista em 2015 foram apreendidos extratos que comprovavam a transferência dos valores ilícitos da conta Golden Rock para a empresa Arcádia. Na oportunidade os três investigados orientaram os donos da Arcadia a manterem perante as autoridades a versão de que o contrato de intermediação seria verdadeiro. 

“De maneira sofisticada e reiterada, Eike Batista utiliza a simulação de negócios jurídicos para o pagamento e posterior ocultação de valores ilícitos, o que comprova a necessidade da sua prisão para a garantia da ordem pública”, frisam os nove procuradores corresponsáveis por esta Operação. 

Família Cabral

A ex-mulher e o irmão do ex-governador são alvos das investigações na condição de beneficiários dos recursos ilícitos. Suas contas e de suas empresas receberam altas quantias ocultadas pela organização. Para o MPF, há elementos suficientes para pedir as prisões temporárias (por cinco dias) de Susana Neves Cabral e Maurício Cabral, mas foi pedida uma medida menos gravosa –as conduções coercitivas – para que deponham conforme for ordenado pela Justiça.

Lava Jato Acompanhe todas as informações oficiais do MPF sobre a Operação Lava Jato nos sites www.mpf.mp.br/rj e www.lavajato.mpf.mp.br.  

FONTE:  Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, twitter.com/mpf_prr2

 

Com prisão decretada, Eike Batista tem muitos segredos para delatar

eike-cabral

O jornalista Ítalo Nogueira é o autor e co-autor de duas reportagens que foram publicadas pelo jornal Folha de São Paulo na manhã desta 5a. feira (26/01) que deverão causar tremores de Bangu até São João da Barra. É que essas reportagens tratam da prisão do ex-bilionário Eike Batista e dos seus negócios escusos com o ex-(des) governador Sérgio Cabral  (Aqui! e  Aqui!).

Que Eike Batista era uma espécie de bola da vez já se sabia desde que o seu império de empresas pré-operacionais ruiu estrondosamente em 2013. E sinceramente nunca entendi direito como Eike conseguiu passar relativamente incólume por todas as fases da operação Lava Jato, dado que suas estripulias já tinham sido bem documentadas no livro “Tudo Ou Nada – Eike Batista E A Verdadeira História Do Grupo X“ de Malu Gaspar  (Aqui!). É que em trechos daquele livro ficou mais do que explicito as íntimas relações que existiram entre Batista e outro personagem que hoje se encontra completamente encrencado com a justiça, o ex (des) governador Sérgio Cabral.

malu

Em se tratando dos aspectos mais importantes dessa relação, o que reportagem solo de Ítalo Nogueira nos mostra é que o mesmo esquema de contratos fictícios detectado em outros recebimentos de propinas utilizados por Sérgio Cabral foram feitos por Eike Batista para lhe repassar US$ 16,5 milhões numa conta offshore.

Mas esqueçamos um pouco das reportagens da Folha de São Paulo e nos concentremos numa das joias da coroa de latão de Eike Batista, o Porto do Açu. A estas alturas do campeonato, me parece que um dos locais para onde ele dirigirá seus olhos numa eventual delação premiada é justamente o megaempreendimento fincado no litoral de São João da Barra.

Por que digo isso? Ora, porque foram tantos bilhões aplicados ali que não há como acordos escusos entre a dupla Eike Batista e Sérgio Cabral não tenham tido as águas lamosas do Açu como cenário de fundo.  Um desses acordos certamente envolve as escandalosas desapropriações de terras que prejudicaram e continuam centenas de famílias agricultores familiares do V Distrito de São João da Barra, cuja venda sem licitação para Eike Batista resultou numa Ação Civil Pública que corre em segredo de justiça (Aqui!).

Desconfio que muita gente, incluindo políticos e empresários, que vive no eixo Campos dos Goytacazes-São João da Barra amanheceu sobressaltado nesta 5a. feira. É que quem, como eu, já andou pelas estradas empoeiradas que cercam o Porto do Açu já certamente ouviu narrativas mirabolantes de relações pouco republicanas envolvendo os negócios feitos por Eike Batista com poderosos locais.   E quem esqueceria, por exemplo, que em seus tempos áureos  Batista foi presenteado com a maior honraria municipal de São João da Barra, a medalha Barão de São João da Barra pela novamente prefeita Carla Machado?

eike-medalha

Eu particularmente espero que os agricultores humildes, que foram expropriados de pequenas propriedes de onde tiraram seu sustento por mais de uma geração apenas para vê-las transformadas em um grande estoque de terras  improdutivas, tenham agora o seu momento de justiça. Por uma dessas coincidências, estive ontem com um deles, o Sr. Reinaldo Toledo, para pagar-lhe uma visita de ano novo. Lá o encontrei do alto de seus quase 81 anos, em sua costumeira postura altiva e generosa, ainda indignado com  o fato de ainda estar pagando o Imposto Territorial Rural (ITR) da propriedade que lhe foi tomada pela CODIN para ser entregue a Eike Batista.  Espero que a eventual prisão de Eike Batista abra o caminho para a longa e devida destiruição de sua terra.

reinaldo

Porto do Açu: duas notícias mostram bem a natureza da criatura de Eike Batista

Duas notícias envolvendo o megaempreendimento conhecido como Porto do Açu e sua atual controladora, a Prumo Logística Global, mostram bem as diferentes nuances que cercam a única criatura de Eike Batista que “teria dado certo”.

A primeira publicada no site “Click Campos” se trata de um desmentido da Prumo Logística e do Superintendente  Municipal de Trabalho e Renda, Gustavo Matheus, de qualquer envolvimento da empresa de um cadastro de currículos que estava ocorrendo nas dependências da OAB Campos e que atraiu uma verdadeira multidão de interessados (Aqui!).  O elemento de maior conteúdo dessa notícia foi a negativa da Prumo Logística de qualquer envolvimento com a oferta de 3.000 vagas de empregos no Porto do Açu. Logo o porto que seria o motor do desenvolvimento regional e polo gerador de empregos. Curioso. não?

A segunda notícia estava estampada em vários sites especializados em operações nas bolsas de valores e se referia ao peculiar fato de que um laudo de avaliação produzido pelo Banco Plural sobre o preço oferecido pela Prumo Logística para recomprar suas ações visando o fechamento do seu capital estava grosseiramente subestimado em 65%  (Aqui!). Sensacional, não? 

prumo-1

Como é que afinal essas duas matérias se ligam? È que me parece peculiar que a mesma empresa que tem de vir a público negar que tenha disponibilizado um mísero estoque de vagas de empregos num megaempreendimento é o farol do nosso futuro regional está tentando, no mínimo, pagar menos por suas próprias ações a acionistas minoritários.

É como eu sempre digo: será que sou o único a achar que há algo de estranho nesse angu? De toda forma, me desculpem os esperançosos no papel que o Porto do Açu pode potencialmente cumprir na dinamização econômica do Norte Fluminense. Em minha simplória opinião, quaisquer expectativas precisam ser cuidadosamente pesadas para que não se continue vendendo ilusões a um empreendimento que até agora só trouxe pesadelos, especialmente para os habitantes do V Distrito de São João da Barra.

Finalmente, uma curiosidade: qual razão teria levado ao superintendente Gustavo Matheus a sair a público para cumprir objetivamente um papel de porta-voz da Prumo Logística? Será que o novo governo municipal de Campos dos Goytacazes também já foi enebriado com os milagrosos poderes do Porto do Açu após uma daquelas visitas guiadas ao seu interior?