O enfraquecimento de Flávio Bolsonaro altera o tabuleiro eleitoral e reabre o debate sobre a ausência de uma alternativa de esquerda ao lulismo
A bomba que caiu sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, após a revelação de que o filho primogênito do ex-presidente teria solicitado R$ 134 milhões ao agora desmoralizado ex-banqueiro Daniel Vorcaro, colocou o processo eleitoral em uma espécie de animação suspensa. Atingida de forma potencialmente letal pelas denúncias de favorecimento financeiro, a candidatura de Flávio Bolsonaro talvez sequer consiga ultrapassar a fase de pré-campanha.
Como as demais candidaturas de direita não têm conseguido empolgar no confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um nome potencialmente forte como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não se desincompatibilizou a tempo e, portanto, está impedido de disputar a Presidência da República, abre-se um cenário político bastante peculiar. O atual presidente, que previa enfrentar uma disputa dura e polarizada, pode acabar encontrando um caminho eleitoral significativamente menos turbulento diante da ausência de uma candidatura competitiva da direita ou da extrema-direita.
Por outro lado, é impossível ignorar, diante do descontentamento de uma parcela importante do eleitorado com o governo Lula III, o tamanho do erro estratégico cometido pelo Partido Socialismo e Liberdade ao aderir à candidatura petista já no primeiro turno. O partido corre o risco de ter pouca ou nenhuma relevância efetiva em uma eventual campanha de reeleição de Lula e, de quebra, comprometer sua própria viabilidade nas disputas proporcionais.
Ao abdicar de uma candidatura própria, o PSOL perdeu a oportunidade de dialogar diretamente com setores da classe trabalhadora que já não se sentem contemplados pela estratégia de um capitalismo de face supostamente humana, fórmula política que o Partido dos Trabalhadores adotou desde sua chegada ao poder, em 2003.
Nesse contexto, talvez exista uma janela importante para que uma candidatura situada à esquerda do PT deixe de ocupar a condição de mero “traço” nas pesquisas eleitorais. Mas isso dependerá da coragem e da disposição dos partidos que não aderiram ao governo de construir uma campanha voltada aos trabalhadores reais — e não apenas aos seus próprios círculos militantes.
Mas para que essa possibilidade se concretize, não bastará apenas ocupar um espaço eleitoral vazio deixado pelas crises da direita e pelas limitações do lulismo. Uma alternativa efetivamente de esquerda precisará apresentar propostas estruturais para enfrentar a brutal concentração de riqueza que marca a sociedade brasileira, recolocando no centro do debate temas como reforma tributária progressiva, valorização do trabalho, ampliação dos serviços públicos e democratização do acesso à terra e à moradia. Ao mesmo tempo, será inevitável abraçar uma agenda ecológica consequente, baseada na transição para um novo modelo agrícola menos dependente de monoculturas e agrotóxicos, bem como na implantação urgente de políticas de adaptação climática, especialmente nas grandes metrópoles, onde enchentes, ondas de calor e desastres ambientais já atingem de forma desproporcional as populações mais pobres.











