Frente Ampla ou Capitulação de Classes? O tempo não para

frente ampla

Os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso em diálogo sobre as eleições de 2022

Por Carlos Eduardo Rosa Martins*

O problema não é só Bolsonaro, mas também o Parlamento que o sustenta e deu o golpe de 2016. A única possibilidade de recuperarmos a soberania é enfrentando o bloco neoliberal-neofascista que se formou a partir de 2015 e isso só se faz com ampla mobilização popular e ideológica. 

Só com uma campanha ideológica poderemos desafiar a hegemonia liberal no Parlamento, seja pela mudança de sua composição, seja pela formação de uma forte opinião pública que a iniba como em 1988, quando a forte pressão popular nos garantiu uma constituição progressista, mesmo com a presença do Centrão eleito pelo Plano Cruzado. 

Se o principal dirigente do campo progressista se recusa a fazer isso, teremos enormes dificuldades. O basismo do qual o PT nunca se desvencilhou, termina por manter nosso povo em posição submissa mas o papel de um partido de esquerda é o de não se render ao caminho mais fácil e mais curto. 

Lula encontra-se com o ex-presidente José Sarney | Poder360

Os ex-presidentes Lula e José Sarney m diálogo sobre as eleições de 2022

A frente ampla que se pretende construir parece se  resumir a uma capitulação programática para atrair a centro-direita golpista no segundo turno, pois dela sequer fará parte no primeiro, uma vez que PSDB, PSD etc não  abrirão mão de seus candidatos próprios. Tal capitulação programática implica ainda em infiltração nos partidos de esquerda para impedir a construção de alternativas, no velho estilo neoliberal TINA, ou “there is no alternative“. 

É  altamente questionável a necessidade de composição com a centro-direita golpista para vencer as eleições. Alerto que a Terra não vai parar em 2022. Os “aliados” da centro-direita trabalharão para esvaziar e desestabilizar o governo Lula em 1° de janeiro de 2023 e, rendidos, estaremos desarmados para enfrenta-los.  

A esquerda não pode servir apenas para resolver as contradições internas do bloco neoliberal-neofascista. Os primeiros têm  a mesma agenda econômica dos últimos e apenas restrições ao seu modelo político de Estado. A retomada pela esquerda do capitulacionismo  do segundo mandato de Dilma poderá ter graves consequências para a luta real pela hegemonia.

*Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso).

Tirando o chapéu para Pedro Castillo, professor e presidente eleito do Peru

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Ainda que o resultado final da apuração das eleições presidenciais realizadas no Peru ainda dependa da contagem de 0,112% votos já se pode dizer que o professor primário e líder sindical Pedro Castillo será o próximo presidente do país andino, pois a diferença que ele ostenta de vantagem é de 0,30% dos votos apurados.  Nessa vitória histórica, Castillo não derrotou apenas a oponente direitista Keiko Fujimori, mas um amplo arco de alianças dos partidos da direita peruana que resolveram que era melhor ter uma herdeira da ditadura fujimorista do que um professor na presidência da república. 

É que na contradição de projetos, a direita decidiu que as diferenças pontuais com Keiko Fujimori eram imensamente desprezíveis em relação aos perigos oferecidos por Castillo, um professor que vem de uma das áreas mais pobres de um país que, como o Brasil, é cheio de riquezas, mas mantém a maioria do seu povo na mais imensa miséria.

Opera Mundi: Peru: Boca de urna indica esquerda no 2º turno com Pedro  Castillo; cinco candidatos disputam a outra vaga

A vitória de Castillo é também importante porque sua plataforma se centrou em elementos que apontam para mudanças estruturais na forma com que funciona a produção e distribuição da riqueza no Peru, sendo seu lema de campanha “no más pobres en un país rico” (ou seja, “sem mais pobres em um país rico”). Além disso, Castillo anunciou a realização de uma assembleia nacional constituinte e a nacionalização do gás natural (ver vídeo abaixo).

Por outro lado, a vitória de um partido que possui uma plataforma claramente de esquerda e que venceu as eleições graças ao apoio massivo dos segmentos mais pobres da população peruano deveria ser recebido com um claro sinal por aqueles que no Brasil insistem nas alianças amplas que deverão incluir até os participantes do golpe de estado “light” contra Dilma Rousseff.  A vitória de Pedro Castillo evidencia que o caminho a ser perseguido é aquele que dialoga com as amplas camadas da população que são tratadas como invisíveis no momento em que essas alianças amplas são gestadas e impostas como a única saída para os trabalhadores e a juventude.

Internacional - Castillo se declara vencedor, mas apuração no Peru continua  apertada

Alguns irão dizer que por ter vencido sem um apoio do “centro”, Castillo terá muitos problemas para governar, pois não obteve a maioria do congresso. Entretanto, ele já sinaliza que não irá se circunscrever ao interior do parlamento para tentar aplicar suas propostas. Essa é outra lição que a esquerda brasileira deveria aprender com o “maestro” peruano.

Em tempo: acampanhei pelas redes sociais a manifestação dos apoiadores de Keiko Fujimori e seus ataques a Pedro Castillo e eleitores. A semelhança no uso de linguagem e de imagens é incrivelmente semelhante ao que se assiste no Brasil. E isso não pode ser mera coincidência, indicando para mim que existe um movimento articulado a partir das redes sociais de toda a direita latino-americana para impedir que os partidos de esquerda possam ocupar o espaço político e vencer eleições. 

Finalmente, há que se lembrar que defrontada com a escolha entre um professor e uma herdeira de uma ditadura sangrenta, a maioria da população peruana optou pelo “maestro”. Enquanto isso no Brasil vivemos as consequências da maioria ter optado pelo defensor da ditadura e não pelo professor. 

 

Eleição empurra a divisão dos EUA além do ponto de inflexão: editorial do Global Times

Across The U.S. Voters Flock To The Polls On Election Day

Os eleitores se alinham do lado de fora dos recintos eleitorais em Oakmont na Pensilvânia na terça-feira, quando a votação do dia da eleição começou na manhã de terça-feira em muitas partes dos EUA.  (Jeff Swensen/Getty Images)

A sociedade dos EUA está esperando ansiosamente pelos resultados da votação nos últimos estados-chave. Na sexta-feira à noite, a afluência ficou mais clara. Mas as métricas que decidiram o resultado das eleições anteriores podem não funcionar neste momento. Ambas as campanhas descreveram esta eleição como um duelo entre dois valores e caminhos diferentes. E as pessoas compram. Enquanto as eleições estão prestes a terminar, parece que nada poderia ter uma voz decisiva e alterar fundamentalmente os problemas dos EUA.

Se olharmos para os sentimentos intensos na grande mídia dos EUA e na internet, eles não parecem estar discutindo quem será o próximo presidente. Embora relatar esses sentimentos seja um show político, que geralmente acontecia nos Estados Unidos no passado, sua repetição faz as pessoas se preocuparem se a sociedade poderia voltar ao normal após o show. 

Desta vez, ninguém acreditaria que a divisão nesta eleição é apenas um show. A divisão é tão real e profunda que a única coisa incerta desta vez é quão profundamente afetará os EUA.

Cada sociedade tem divergências e contradições internas. O design do sistema dos EUA favorece e até encoraja a fermentação de contradições. Mecanismos ajudam a manter o equilíbrio entre interesses e poder. Por muito tempo, isso teve um desempenho relativamente bom, mas novos desafios estão mudando as condições dos mecanismos dos EUA e mudando as relações entre a eficácia dos mecanismos dos EUA e as dificuldades que a sociedade norte-americana enfrenta.

A mudança fundamental é que os Estados Unidos vêm consumindo suas vantagens acumuladas no contexto da globalização. Seu padrão de interesses foi fixado e a competitividade geral do país está caindo. O bem-estar que proporcionou às pessoas não pode corresponder às demandas e expectativas das pessoas. O mecanismo que distribui interesses solidifica e corrói ainda mais a capacidade social de promover a unidade.

Na era da internet, a política de identidade está crescendo. As pessoas podem facilmente sentir que seus direitos estão privados por serem de uma determinada classe social. Manter a unidade social tornou-se uma tarefa cada vez mais árdua e sensível. Obviamente, os EUA precisam de reformas políticas mais do que muitos outros países para aumentar sua capacidade de promover a unidade.

Mas nos últimos quatro anos, o governo Trump, incitado pelo sistema eleitoral dos EUA, empurrou o país para um caminho arriscado, onde aumenta a divisão para impulsionar o padrão existente de interesses políticos. Existem tantos problemas sociais na sociedade americana, seja entre diferentes raças e classes, entre novos e antigos imigrantes, e entre diferentes regiões, muito menos partidária. Mas agora o objetivo da sociedade foi lançado na reeleição de Trump. Em grande medida, esse objetivo espremeu o espaço da sociedade norte-americana para buscar o máximo dos interesses comuns.

Desde a eclosão da epidemia de COVID-19 nos Estados Unidos, o governo Trump tem lidado com isso de olho nas eleições, enquanto a vida e a segurança das pessoas foram deixadas de lado. Se os EUA não tivessem cometido o erro de lançar todos os olhos sobre a eleição, o país, que ocupa o primeiro lugar em recursos de saúde pública, não teria permitido que a epidemia se alastrasse a tal ponto que mais de 200.000 pessoas morreram por causa disso.

Embora seja óbvio que os EUA trilharam muitos caminhos errados, o equilíbrio de poder na eleição mostra que a séria divisão social prejudicou o julgamento dos americanos. Os humanos são insignificantes e escolher um acampamento é a escolha mais fácil para eles manterem seus próprios interesses. Quanto mais profunda a divisão social, mais as pessoas julgam a partir de sua própria posição. O fato de as pessoas distinguirem entre amigos e inimigos não com base no certo ou errado se tornará uma prática política comum.

O sistema norte-americano tem história e cultura próprias, mas precisa se modificar de acordo com os tempos. É hora de as elites americanas dizerem adeus à arrogância política e se engajar na reflexão coletiva. Eles deveriam ter uma visão correta dos problemas sistemáticos na política dos EUA e chegar ao consenso de que os EUA precisam continuar reformando como outros países. Somente nesta base os EUA podem realmente ser determinados e motivados a mudar a si mesmos.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo jornal chinês Global Times [Aqui!].

TVs dos EUA interrompem transmissão de pronunciamento de Donald Trump por suas mentiras

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O vídeo abaixo mostra um momento extraordinário que decorreu da decisão de diversas emissores de TV dos EUA de interromper a transmissão de um pronunciamento do presidente Donald Trump por ele estar difundindo inverdades sobre a apuração das eleições presidenciais de 2020.

O momento é extraordinário não apenas porque Donald Trump é retirado do ar, mas porque logo após fazerem isso, as emissoras afirmam com todas as letras que isto ocorreu porque o presidente dos EUA estava mentindo.

Em minha opinião essa é uma diferença marcante na forma com que a mídia corporativa exerce o seu papel no Brasil e nos EUA. Aqui seria impensável que um presidente, mesmo que mentindo vergonhosamente, fosse retirado do ar, e menos ainda desmentido por emissoras de TV. O mais fácil por aqui estaria mais para que as mentiras de um dado presidente fosse não apenas televisionadas, mas também confirmadas.

Essa diferença de tratamento com os detentores do poder é um dos muitos aspectos que nos coloca em uma posição de total fragilidade nas relações políticas e econômicas com os EUA.  Aliás, falando em fragilidade, com a iminente vitória do candidato Joe Biden, a posição brasileira deverá piorar ainda mais. 

Finalmente, caso a vitória de Joe Biden seja confirmada, o dia não deverá ser mais dos felizes para a família Bolsonaro e para o chamado “setor ideológico” do gabinete ministerial do presidente Jair Bolsonaro. É que o candidato democrata disse em campanha que iria exigir uma mudança na condução da proteção das florestas da Amazônia, com ou sem a predisposição do Brasil. E aí, meus caros leitores, é que a porca torce o rabo.

Nem Trump, nem Biden

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Venho acompanhando as apurações das eleições estadunidenses com alguma atenção, pois sei de importância estratégica que a sucessão presidencial dos EUA poderá ter para as relações internacionais nos próximos anos. Apesar de não ser adepto do “quanto pior, melhor”, não vejo qualquer diferença substancial entre Donald Trump e Joe Biden no que se refere aos interesses de países da periferia capitalista, incluindo o Brasil. 

É que se formos ver o comportamento dos últimos presidentes eleitos pelo partido Democrata o que vamos encontrar são pequenas concessões para a classe trabalhadora dos EUA, principalmente às custas da piora das condições de vida dos trabalhadores de outros países. Além disso, a tendência à enviar tropas para garantir interesses geopolíticos dos EUA é igual ou maior quando os Democratas estão no poder, sempre sob a justificativa das “ações humanitárias” que de humanitárias não têm nada.

Mesmo que a vitória de Donald Trump assegure uma certa tranquilidade para o governo do Brasil, que não teria de rever imediatamente suas políticas ambientais e de relações exteriores, os custos políticas de alguma atenção de Joe Biden, por exemplo, para a proteção ambiental na Amazônia não viria sem demandas de compensações em outras áreas. Há inclusive o risco de que sob Biden, o Brasil enfrente ainda maiores restrições nas relações comerciais com os EUA, muito em parte por causa da abertura colaboração com o governo Trump. Isto sem falar em uma pressão ainda maior no que se refere às relações comerciais com a China, principal parceiro e destino prioritário de commodities em que os EUA concorrem com o Brasil como fornecedor, a começar pela soja.

Além disso, não podemos esquecer que outros países da América Latina, a começar pela Venezuela, talvez tenham mais a perder com uma eventual presidência de Biden do que já experimentou nos últimos quatro anos sob Donald Trump.

Em outras palavras, mesmo que Donald Trump possa ser apontado como um personagem que possui forte desprezo pela soberania alheia e um ser humano com defeitos mais do que óbvios, não há como dizer que Biden faria melhor no esforço para manter a hegemonia geopolítica estadunidense caso se fosse eleito. 

A verdade é que como já disse há muitos anos para uma jovem militante democrata, o partido que já teve presidentes como John Kennedy e Barack Obama pode até ser melhor para dentro, mas possui um recorde horrível para fora, incluindo o apoio ao golpe militar de 1964 no Brasil e tantas outras atuações, incluindo a manutenção e aprofundamento da Guerra do Vietnã.

Desta forma, ainda que entenda a torcida pela derrota de Donald Trump, me parece equivocado achar que a vida será melhor ou mais fácil com uma eventual vitória de Joe Biden.  É que os EUA, enfrentando um forte declínio econômico, é como aquele escorpião que pica o sapo que o transporta em uma lagoa determinando um final fatal também para si mesmo, mas que o faz simplesmente por não ter como negar sua própria natureza.

Vitória acachapante do MAS na Bolívia confirma que Evo Morales foi vítima de um golpe de estado

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Depois de cinco dias finalmente chegou ao fim a contagem de votos das eleições presidenciais na Bolívia, com o resultado acachapante de 55,1% dos votos sendo dados para o candidato do Movimiento Al Socialismo (MAS), Luís Arce, ex-ministro do golpeado Evo Morales (ver imagem abaixo).

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Esse resultado acachapante, ao confirmar a vitória do MAS, reafirma o fato de que Evo Morales foi vítima de um golpe de estado, orquestrado internamente pelos candidatos novamente derrotados da direita e extrema-direita e externamente pelo Organização dos Estados Americanos (OEA).

Apesar da volta triunfante do MAS ao controle do governo federal boliviano, a principal tarefa das forças que se opõe à soberania, que foi a remoção de Evo Morales do poder, foi objetivamente alcançada. Além disso, como o novo presidente da Bolívia representa uma ala mais à direita do MAS, muitos esperam que haja uma movimentação para o mesmo espectro do novo governo boliviano, algo que só se saberá após o início efetivo da gestão de Luís Arce.

Entretanto, há que se observar ainda com mais atenção as movimentações dos partidos de direita, especialmente as do CREEMOS, partido do extremista de direita de Luís Fernando Camacho (que obteve apenas 14% dos votos), pois dificilmente a vitória do MAS será aceita de forma quieta, pois, objetivamente, o que foi executado por essas forças na Bolívia foi um golpe de estado, e a saída dessas forças do governo boliviano contraria grandes interesses globais, principalmente em torno das grandes reservas de lítio que o país possui.

De toda forma, há que se frisar que não apenas a realização das eleições como a vitória do MAS só foram possíveis em função de uma forte mobilização dos sindicatos e do movimento indígena boliviano. Com isso, qualquer guinada à direita do MAS não será tão fácil quanto aparentemente gostariam os veículos da mídia corporativa brasileira que têm enfatizado o tom mais moderado de Arce em relação a Evo Morales. Aliás, o próprio Luís Arce deve saber que seus atos serão observados com grande atenção não apenas pela direita boliviana, mas, principalmente, pelos trabalhadores. 

Finalmente, o grande temor de outros governos de direita na América Latina neste momento não é ver partidos de esquerda repetirem o caso boliviano e vencerem eleições de forma arrasadora. O que a direita ultraneoliberal deve estar mesmo temendo é que a gigantesca mobilização da classe trabalhadora em prol da realização de eleições minimamente democraticamente tenha sido apenas a primeira fase de um grande ascenso anti-neoliberal em toda a América Latina.

O acometimento por COVID-19 é uma péssima notícia para Trump, mas poderá ser ainda pior para Bolsonaro

1_bolso-10254401Bolsonaro presenteia Donald Trump com camisa da Seleção – Brendan Smialowski / AFP

O acometimento de Donald Trump pelo coronavírus em um momento que os EUA já ultrapassaram 213 mil mortos por COVID-19 é uma péssima notícia não apenas para o presidente que tenta a sua reeleição em meio a uma profundA crise econômica e sanitária, mas também para o seu mais fiel escudeiro, o presidente Jair Bolsonaro.

A primeira coisa é que o protocolo adotado para tratar de Donald Trump não só não adota a hidroxicloroquina ou a cloroquina, mas emprega medicamentos que ainda não estão sequer disponíveis para seres humanos comuns. Essa postura confirma não apenas a nulidade da cloroquina para debelar a COVID-19, mas também sinaliza que a situação da saúde de Trump pode ser mais grave do que o reconhecido oficialmente pela assessoria de comunicação da Casa Branca.

Além disso, ao ser acometido pela COVID-19, Trump soma mais um desafio para bater o candidato democrata Joe Biden. É que, querendo ou não, Trump terá que seguir o protocolo adotado para pessoas infectadas que incluem distanciamento social por pelo menos 10 dias. Como a campanha presidencial caminha para o seu ápice, fica fora de combate em um momento tão crucial foi uma péssima notícia para Trump.

Em termos objetivos, a situação eleitoral de Trump que era complicada parece estar passando para a situação desesperadora. É que, ao contrário do que a facada possibilitou a Jair Bolsonaro em 2018, Trump se infectou com o coronavírus em grande parte devido à sua própria postura de negligenciar o grau de infecciosidade associada ao Sars-Cov-2, bem como sua relativa letalidade, a qual se dá de forma mais óbvia em pessoas idosas e/ou obesas (que é exatamente o caso em Donald Trump se enquadra).

Mas se a condição de saúde e a situação eleitoral são ruins para Trump, a situação não é nada melhor para Jair Bolsonaro, na medida em que se alter ego estadunidense não só está fora de combate por causa da alegada “gripezinha”, mas também que se arrisca a perder a eleição por W.O.

Se o pior acontecer para Trump, o fato é que todas as apostas geopolíticas feitas pelo governo Bolsonaro deverão ir por água abaixo. Não que os democratas sejam menos intervencionistas que os republicanos, pois eles são até mais pró-interferência em assuntos que não são necessariamente da sua conta, mas porque eles reconhecem (ao menos em tese) a existência de uma crise ambiental , e supostamente pretendem recolocar os EUA no conjunto de nações que estão realizando esforços para estabelecer políticas multilaterais de mitigação das mudanças climáticas.

Por essa postura dos democratas é que uma vitória de Biden significará uma profunda derrota da postura de vassalos por livre escolha que embala o governo Bolsonaro. E o Brasil arrisca sofrer um grau de interferência inédito no que se refere à proteção dos biomas amazônicos. Em outras palavras, Jair Bolsonaro poderá ser junto com Trump o maior perdedor das eleições estadunidenses. E se a derrota vier, a temperatura interna deverá subir bastante, visto a situação precária em que o Brasil já se encontra.

Em uma confirmação daquela Lei de Murphy que diz que nada está tão ruim que não possa piorar, hoje foi confirmado que o coordenador da campanha de reeleição de Donald Trump, Bill Stepien, também teve diagnóstico positivo para COVID-19. Assim, além de ter o candidato colocado para fora das quatro linhas, o mesmo ocorreu com a pessoa que comandava a sua campanha de reeleição. Como se diz em baseball: “two strikes against you, and one more you are out”.

Donald Trump, o presidente da desordem

Com a retirada das tropas federais, a demonstração de força do presidente dos EUA na tentativa de conter os protestos em Portland chegou ao fim. E são semelhantes a uma admissão de fraqueza

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Editorial do jornal Le Monde

A temporada de campanha está madura para queixas. Às vésperas das eleições de meio de mandato dos EUA em novembro de 2018, Donald Trump já considerava imperativo mobilizar mais de 5.000 soldados na fronteira com o México. Os Estados Unidos, ele garantiu, estavam sob a ameaça de ”  caravanas” de migrantes. O tom alarmista adotado pelo presidente não impediu a derrota do campo republicano na Câmara dos Deputados, e Donald Trump não havia mais mencionado esse perigo apresentado como iminente.

Dois anos depois, o presidente tentou usar a agitação que acompanha os protestos contra a violência policial em Portland, Oregon, para mostrar mais uma vez uma postura marcial. Sob a autoridade de seu Ministro da Justiça e do Secretário de Segurança Interna, um posto criado após os ataques de 11 de setembro, as forças federais foram despachadas oficialmente para proteger prédios federais.

O resultado foi espetacular. Em vez de restaurar a calma, essas forças de segurança, pouco experientes nas técnicas de manutenção da ordem, despertaram paixões. A tal ponto que sua retirada agora parece ser um gesto essencial de apaziguamento.

Após a morte em Minneapolis (Minnesota), George Floyd, um afro-americano sufocado pelo joelho de um policial branco, saques e vandalismo que acompanharam marchas pacíficas levaram Donald Trump a aparecer em 1º de  junho como o “presidente da lei e da ordem”, adotando o slogan de Richard Nixon, que o levara à Casa Branca em 1968, após os distúrbios causados ​​pelo assassinato de Martin Luther King.

Tentativa de desvio

O Presidente dos Estados Unidos, no entanto, imediatamente alimentou perguntas sobre sua sinceridade ao evacuar, manu militari, os manifestantes não-violentos que se reuniram perto da Casa Branca para posar, uma Bíblia na mão, em frente a uma igreja que sofreu pequenos danos na noite anterior.

A implantação de Portland também apareceu como uma tentativa de desvio bastante grosseira do principal assunto de preocupação para seus concidadãos: a epidemia de Covid-19, que continua a causar estragos nos Estados Unidos, com mais de 150.000 mortes. A equipe de campanha do presidente cessante também multiplicou anúncios políticos que provocam ansiedade, retratando os Estados Unidos no caos que certamente se materializará se o oponente democrata do presidente, ex-vice-presidente Joe Biden , venceu a eleição de novembro.

Essas operações de comunicação não deram em nada. Pesquisas convergentes indicam que, apesar das mensagens promissoras, em maiúsculas, “LEI E ORDEM”, multiplicadas na conta presidencial do Twitter, Joe Biden é considerado por uma clara maioria dos entrevistados como o candidato mais capaz de garantir a segurança dos americanos.

Sem dúvida, as exortações de Donald Trump tornam possível manter mobilizada uma base eleitoral determinada a apoiá-lo, quaisquer que sejam os resultados de uma primavera e depois de um verão de crises, saúde, economia e sociedade, que no momento é muito longe de estar a seu favor. Finalmente, essas demonstrações de força são semelhantes a uma admissão de fraqueza diante de uma situação que é difícil de controlar. Ao aparecer como presidente da bagunça, Donald Trump se aproxima das eleições de 3 de novembro na defensiva.

fecho

Este editorial foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

 

Favorito a ser presidente da Argentina, Alberto Fernández desfere duro ataque a Jair Bolsonaro

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Um dos segredos básicos da diplomacia é que se pretende interferir politicamente em um dado país, o pior caminho é atacar frontalmente o adversário que se escolheu para brigar. Essa máxima foi esquecida recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro que não só se envolveu na campanha presidencial da Argentina, como também resolveu atacar o resultado da rodada de primárias que ocorreu no final de semana passada. Em palanque no Rio Grande do Sul, o presidente brasileiro previu que se a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner vencer as eleições presidenciais argentinas que ocorrerão em outubro, o Rio Grande do Sul viraria uma espécie de região de refúgio de refugiados argentinos. De quebra, ainda caracterizou a dupla Fernández-Kirchner de “esquerdalha”.

A resposta de Alberto Fernández não demorou muito a vir e em entrevista quando o candidato presidencial argentina disse celebrar as críticas e a oposição de Jair Bolsonaro, não sem antes aplicar os adjetivos de “racista”, “misógino” e “violento, e ainda provocou o presidente brasileiro a libertar o ex-presidente Lula para que concorram em eleições presidenciais. Fernández disse ainda que, apesar de desejar manter relações comerciais com o Brasil, ele não tem problema em ter problemas com o presidente do Brasil (ver vídeo abaixo).

Como Alberto Fernández tem plenas chances de ser o próximo presidente da Argentina, o clima que está sendo criado durante esse período eleitoral vai tornar difícil a convivência com o principal parceiro comercial brasileiro na América Latina, o que poderá respingar não apenas sobre o Mercosul, mas também em várias outras de alto valor econômico para o Brasil. Se considerarmos a atual situação da economia brasileira, isto cheira a um completo desastre diplomático.

Um aspecto que está presente na fala de Alberto Fernández e que deverá agudizar ainda mais os ataques de Jair Bolsonaro é que o político argentino afirma que “Bolsonaro é um problema conjuntural para o Brasil, tal como Maurício Macri é um problema conjuntural para a Argentina”.  Em outras palavras, o destino eleitoral de Bolsonaro poderá ser o mesmo de Maurício Macri.

Enquanto isso, Maurício Macri já deve ter telefonado para Jair Bolsonaro para implorar para que ele se cale em relação ao processo eleitoral argentino. É que se o “apoio” dado nas eleições primárias resultou em uma derrota de 15%, imaginemos o que acontecerá em outubro quando ocorrerão as eleições presidenciais argentinas se o presidente Jair Bolsonaro continuar “apoiando” Maurício Macri.

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner e o medo do contágio assombram Jair Bolsonaro

cristina alberto 1A vitória acachapante de Alberto Fernández e Cristina Kirchner contra Maurício Macri gera ansiedade no Brasil pelo simples medo de que haja um contágio político que tire os brasileiras da apatia e da sonolência política.

Eu realmente não me lembro quando as eleições brasileiras foram transformadas em um processo asséptico e chato sob a escusa de se controlar o uso indevido de recursos e as pressões indevidas.  Isso vem acontecendo sob a batuta de uma justiça eleitoral cada vez mais poderosa e que não hesita em se comportar como uma polícia política, enquanto as redes sociais são usadas à vontade como uma espécie de ariete contra as aspirações democráticas do povo brasileiro.

Fechemos o pano para as eleições brasileiras para reabrir em uma avenida onde acabam de ocorrer as eleições primárias para a presidência da república e os governadores das providências argentinas (ver vídeo abaixo).

Mesmo quem não entende o que está sendo cantado sabe que essa multidão de argentinos está enviando uma mensagem política clara de apoio aos candidatos de oposição ao presidente Maurício Macri, Alberto Fernández e Cristina Kirchner.  E a multidão faz não apenas com palavras de ordem claras, mas também com uma energia esfuziante que não se vê no Brasil faz tempo.

Por isso, mesmo com as graves dificuldades que a Argentina e seu povo enfrentam neste momento, me parece óbvio que lá as eleições estão servindo para liberar energias que serão fundamentais para que se encontrem soluções que beneficiem a maioria dos argentinos, e não apenas os seus ultrarricos.

Por isso, o mesmo o tom desesperado das declarações proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro no sentido de que se houver um retorno do peronismo kirchenerista ao poder haveria a possibilidade de que o Rio Grande do Sul se transforme em uma nova Roraima (em referência à migração de venezuelanos que fogem da crise econômica em seu país). O medo real de Jair Bolsonaro não é que o Rio Grande do Sul vire Roraima, mas de que a energia dos argentinos sirva também para mobilizar os brasileiros que hoje recebem passivamente a mesma receita amarga que Maurício Macri empurrou goela abaixo do seu povo.