A íntegra do discurso de Lula no lançamento sua nova candidatura a presidente

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Foto: Ricardo Stuckert

Confira abaixo o discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no lançamento do Movimento Vamos Juntos Pelo Brasil na manhã de hoje, 7, em São Paulo:

“Companheiros e companheiras,

Eu queria, em nome da Janja e da presidenta Dilma, parabenizar as mulheres brasileiras pelas conquistas que já obtiveram e pelas conquistas que ainda vão obter a partir das eleições de 2022.

Vocês não são maioria apenas numericamente. Vocês são maioria na capacidade de elaboração de propostas e na capacidade de luta.

Vocês só tem que fazer uma coisa: acreditar em vocês. Se vocês acreditarem, transformem isso na sua causa principal e as mulheres serão maioria em todos os lugares em que ontem parecia impossível. Um beijo para vocês e a minha solidariedade a todas as mulheres.

Eu queria dizer que eu fui surpreendido aqui, fui surpreendido aqui e vocês sabem que não podem provocar num jovem de 76 anos tantas emoções, porque, quem sabe, que o coração não aguente. Mas pelo fato de ser corintiano, o coração está mais batido, mais calejado, e não há emoção que consiga fazer com que isso aconteça comigo.

Hoje é um dia especial. Inclusive, saio daqui, Haddad, na expectativa de que nós vamos comer chuchu com lula. Saio daqui e acho que a nossa companheira Bela Gil só pra servir lula e chuchu, que acho que vai ser o prato predileto de todo o ano de 2022.

Esse prato se tornará o prato da moda no Palácio do Planalto a partir das eleições.

Mas meus amigos e minhas amigas.

É um momento muito especial na minha vida.

Especial por contar com vocês. Por ter conseguido, pela primeira vez, conseguido juntar todas as forças progressistas da política em torno de uma campanha. Especial, porque todos nós temos interesse político em resolver o drama que o Brasil está vivendo.

Eu quero, do fundo do coração, aos partidos que estão nos apoiando, porque, com vocês, a vitória será muito mais certa. E com vocês, a recuperação do Brasil será certeza absoluta, porque acho que nós vamos provar que o Brasil pode voltar a ser um país que cresce, que se industrializa, que gera emprego.

Então, muito obrigado a todos vocês que resolveram jogar todas as fichas nessa aliança que foi construída com muito amor, muito sacrifício, com muita discussão, mas finalmente nós conseguimos nos entender.

Quero começar falando da mais importante lição que aprendi em 50 anos de vida pública, oito dos quais presidindo este país: Governar deve ser um ato de amor. 

A principal virtude que um bom governante precisa ter é a capacidade de viver em sintonia com as aspirações e os sentimentos das pessoas, especialmente das que mais precisam. 

É se alegrar com cada conquista, com cada melhora na qualidade de vida do povo que ele governa.  

É compartilhar a felicidade da família que, graças ao Minha Casa, Minha Vida, toma pela primeira vez nas mãos a chave da tão sonhada casa própria, depois de uma vida inteira morando de aluguel em condições precárias. 

É se emocionar com aquela mãe que viveu anos e anos à luz de lamparina, e com a chegada do Luz para Todos pode finalmente contemplar a serenidade do seu filho dormindo à noite. 

É se alegrar com a avó que quando jovem era obrigada a partir um único lápis em dois pedaços para dar aos filhos. E que depois, com o Bolsa Família, pode comprar material escolar completo para a neta, até mesmo um estojo com lápis de todas as cores.

É comemorar junto com os filhos dos trabalhadores que se tornaram doutores, graças ao ProUni, ao FIES e à política de cotas na universidade pública. 

Mas não basta ao bom governante sentir como se fossem suas as conquistas do povo sofrido. 

Para governar bem, ele precisa ter também a sensibilidade de sofrer com cada injustiça, cada tragédia individual e coletiva, cada morte que poderia ser evitada. 

Infelizmente, nem todo governante é capaz de entender, sentir e respeitar a dor alheia.  

Não é digno desse título o governante incapaz de verter uma única lágrima diante de seres humanos revirando caminhões de lixo em busca de comida, ou dos mais de 660 mil brasileiros e brasileiras mortos pela Covid. 

Pode até se dizer cristão, mas não tem amor ao próximo. 

Em 2003, quando tomei posse como presidente da República, eu disse que se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tivessem pelo menos a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, eu teria cumprido a missão da minha vida.

Travamos contra a fome a maior de todas as batalhas, e vencemos. Mas hoje sei que preciso cumprir novamente a mesma missão. 

Tudo o que fizemos e o povo brasileiro conquistou está sendo destruído pelo atual governo. O Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU, de onde havíamos saído em 2014, pela primeira vez na história. 

É terrível, mas não vamos desistir, nem eu nem o nosso povo. Quem tem uma causa jamais pode desistir da luta. 

A causa pela qual lutamos é o que nos mantém vivos, é o que renova nossas forças e nos rejuvenesce. 

Sem uma causa, a vida perde o sentido.

Eu e todos nós que estamos juntos nessa hora, temos uma causa: restaurar a soberania do Brasil e do povo brasileiro. 

Meus amigos e minhas amigas.

O artigo primeiro da nossa Constituição enumera os fundamentos do Estado Democrático de Direito. E o primeiro fundamento é justamente a soberania. 

No entanto, a nossa soberania e a nossa democracia vêm sendo constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo. 

Ameaçam, desmontam, sucateiam, colocam à venda nossas empresas mais estratégicas, nosso petróleo, nossos bancos públicos, nosso meio ambiente.

Entregam de mão beijada todo esse extraordinário patrimônio que não pertence a eles, e sim ao povo brasileiro. 

Destroem políticas públicas que mudaram a vida de milhões de brasileiros, e que eram admiradas e adotadas pelo mundo afora.

É mais do que urgente restaurar a soberania do Brasil. Mas defender a soberania não se resume à importantíssima missão de resguardar nossas fronteiras terrestres e marítimas e nosso espaço aéreo. 

É também defender nossas riquezas minerais, nossas florestas, nossos rios, nossos mares, nossa biodiversidade.

E é, antes de tudo, garantir a soberania do povo brasileiro e os direitos de uma democracia plena. 

É defender o direito à alimentação de qualidade, o bom emprego, o salário justo, os direitos trabalhistas, o acesso à saúde e à educação. 

Defender nossa soberania é também recuperar a política altiva e ativa que elevou o Brasil à condição de protagonista no cenário internacional.

O Brasil era um país soberano, respeitado no mundo inteiro, que falava de igual para igual com os países mais ricos e poderosos. 

E que ao mesmo tempo contribuía para o desenvolvimento dos países pobres, por meio de cooperação, investimento e transferência de tecnologia. Foi o que nós fizemos na América Latina e também na África. 

Defender a nossa soberania é defender a integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe. É fortalecer novamente o Mercosul, a UnaSul, a Celac e os BRICS. 

É estabelecer livremente as parcerias que forem melhores para o país, sem submissão a quem quer que seja. É lutar por uma nova governança global.

O Brasil é grande demais para ser relegado a esse triste papel de pária do mundo, por conta da submissão, do negacionismo, da truculência e das agressões a nossos mais importantes parceiros comerciais, causando enormes prejuízos econômicos ao país.

Meus amigos e minhas amigas.

Defender nossa soberania é defender a Petrobras, que vem sendo desmantelada dia após dia. 

Colocaram à venda as reservas do Pré-Sal, entregaram a BR Distribuidora e os gasodutos, interromperam a construção de algumas refinarias e privatizaram outras. 

O resultado desse desmonte é que somos autossuficientes em petróleo, mas pagamos por uma das gasolinas mais caras do mundo, cotada em dólar, enquanto os brasileiros recebem os seus salários em real. 

O óleo diesel também não para de subir, sacrificando os caminhoneiros e fazendo disparar os preços dos alimentos. 

O botijão de gás chega a custar 150 reais, comprometendo o orçamento doméstico da maioria das famílias brasileiras. 

Nós precisamos fazer com que a Petrobras volte a ser uma grande empresa nacional, uma das maiores do mundo.

Colocá-la de novo a serviço do povo brasileiro e não dos grandes acionistas estrangeiros. Fazer outra vez do Pré-Sal o nosso passaporte para o futuro, financiando a saúde, a educação e a ciência. 

Defender a nossa soberania é defender também a Eletrobrás daqueles que querem o Brasil eternamente submisso. 

A Eletrobrás é a maior empresa de geração de energia da América Latina, responsável por quase 40% da energia consumida no Brasil. 

Foi construída ao longo de décadas, com o suor e a inteligência de gerações de brasileiros. Mas o atual governo faz de tudo para entregá-la a toque de caixa e a preço de banana. 

O resultado de mais esse crime de lesa-pátria seria a perda da nossa soberania energética. 

Perder a Eletrobrás é perder Chesf, Furnas, Eletronorte e Eletrosul, entre outras empresas essenciais para o desenvolvimento do país. 

É perder também parte da soberania sobre alguns dos nossos principais rios, como o rio Paraná e  o São Francisco

É dizer adeus a programas como o Luz para Todos, responsável por trazer para o século 21 cerca de 16 milhões de brasileiros que antes viviam na escuridão. 

É aumentar ainda mais a conta de luz, que hoje já pesa não apenas no bolso do trabalhador, mas também no orçamento da classe média. 

Defender nossa soberania é defender os bancos públicos. O Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES, o BNB e o Basa foram criados para fomentar o desenvolvimento do país. 

Para garantir o crédito barato a quem quer produzir e gerar empregos.  

Para financiar as obras de saneamento e a construção de apartamentos e casas para a população de baixa renda e a classe média. 

Para apoiar a agricultura familiar e os pequenos e médios produtores rurais. Porque nenhum país será soberano se não cuidar de quem produz 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa.

Defender a nossa soberania é defender as universidades e as instituições de apoio à ciência e à tecnologia dos ataques do atual governo. 

Porque um país que não produz conhecimento, que persegue seus professores e pesquisadores, que corta bolsas de pesquisa e reduz os investimentos em ciência e tecnologia está condenado ao atraso. 

Nos nossos governos, nós mais que triplicamos os recursos direcionados para o CNPq, a Capes e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. 

Eles saltaram de R$ 4 bilhões e 500 milhões em 2002, para R$ 13 bilhões e 970 milhões em 2015. 

Já com o atual governo, esses investimentos recuaram para R$ 4 bilhões e 400 milhões, valor menor que aquele de 20 anos atrás. 

Defender a soberania do Brasil é investir na infraestrutura capaz de transformar o país e a vida de seu povo, aumentar a produtividade da economia e criar as bases para o progresso e o futuro. 

Mas o atual governo não cuida da infraestrutura que este país precisa. 

Paralisaram obras importante que estavam em andamento. Tentam se apropriar de outras que receberam praticamente concluídas. 

É o caso da Transposição do São Francisco, uma obra sonhada desde os tempos do império, que nós tornamos realidade para que 12 milhões de brasileiros tivessem finalmente água jorrando de suas torneiras. 

Nossos governos não só planejaram e conceberam a transposição, como fizeram 88% das obras. Mas eles tentam enganar o povo dizendo que foram eles que construíram tudo.

Defender a nossa soberania é defender a Amazônia da política de devastação posta em prática pelo atual governo 

Nos nossos governos, reduzimos em 80% o desmatamento da Amazônia, contribuindo para diminuir a emissão dos gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.

Mas os cuidados com o meio ambiente vão além da defesa da Amazônia e dos outros biomas. 

É preciso voltar a investir em saneamento básico, como fizemos nos nossos governos. 

Acabar com o esgoto a céu aberto e cuidar da destinação do lixo e das pessoas que vivem da coleta de materiais recicláveis.

Cuidar do meio ambiente é, antes de tudo, cuidar das pessoas. É buscar a convivência pacífica entre o desenvolvimento econômico e o respeito à flora, à fauna e aos seres humanos. 

A transição para um novo modelo de desenvolvimento sustentável é um desafio planetário. 

Também nesse sentido, temos muito a aprender com os povos indígenas, guardiões ancestrais do meio ambiente. 

Defender a nossa soberania é garantir a posse de suas terras aos povos indígenas, que estavam aqui milhares de anos antes da chegada dos portugueses, e que foram capazes de cuidar delas melhor do que ninguém.  

E que agora estão vendo seus territórios invadidos ilegalmente por garimpeiros, grileiros e madeireiros. 

O resultado desse crime continuado, que acontece com a conivência do atual governo, vai além da destruição de florestas e rios. 

Compromete também a sobrevivência física dos povos indígenas, e não poupa sequer as crianças, como nós vimos recentemente numa aldeia Yanomami.

E é dever do Estado garantir a segurança e o bem-estar de todos os seus cidadãos e cidadãs, que merecem – e devem – ser tratados com respeito. 

Nunca um governo como este que aí está estimulou tanto o preconceito, a discriminação e a violência. 

Nenhum país será soberano enquanto mulheres continuarem a ser assassinadas pelo fato de serem mulheres.

Enquanto pessoas continuarem a ser espancadas e mortas por conta de sua orientação sexual.

Enquanto não forem combatidos com rigor o extermínio da juventude negra e o racismo estrutural que fere, mata e nega direitos e oportunidades.

Minhas amigas e meus amigos.

Somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos. Somos o maior produtor de proteína animal do mundo.

Produzimos comida em quantidade mais do que suficiente para garantir alimentação de qualidade para todos. No entanto, a fome voltou ao nosso país. 

Não haverá soberania enquanto 116 milhões de brasileiros sofrerem algum tipo de insegurança alimentar.

Enquanto 19 milhões de homens, mulheres e crianças forem dormir todas as noites com fome, sem saber se terão um pedaço de pão para comer no dia seguinte. 

Não haverá soberania enquanto dezenas de milhões de trabalhadores continuarem submetidos ao desemprego, à precarização e ao desalento. 

Nós fomos capazes de gerar mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada e todos os direitos garantidos. 

Enquanto eles destruíram direitos trabalhistas e geraram mais desemprego e mais sofrimento na vida do povo trabalhador.

É preciso avançar numa legislação que garanta todos os direitos dos trabalhadores.

Que estimule a negociação em bases civilizadas e justas entre patrões, empregador e empregados, governo e, porque não dizer, até envolvendo as universidades.

Que contribua para criar melhores empregos, e faça girar a roda da economia.

Não é possível que o reajuste da maioria das categorias profissionais fique abaixo da inflação, ao contrário do que acontecia em nossos governos.

Não é possível que o salário mínimo continue perdendo poder de compra ano após ano. Nos nossos governos, ele subiu 74% acima da inflação, aumentando o consumo e aquecendo a economia.

Se os trabalhadores não têm dinheiro para comprar, os empresários não terão para quem vender. Isso leva ao que assistimos hoje: o fechamento de fábricas em São Paulo, na Bahia, na Zona Franca de Manaus e outras regiões, inclusive muitas multinacionais deixando o Brasil.

Precisamos também criar um ambiente fértil ao empreendedorismo, para que possam florescer o talento e a criatividade do povo brasileiro.

Este país precisa voltar a criar oportunidades, para que as pessoas possam viver bem, melhorar de vida e tornar seus sonhos realidade.

Hoje, vivemos uma situação desoladora. Um país cujo maior desejo de sua juventude é ir embora para o exterior em busca de oportunidades, esse país nunca será soberano. 

Precisamos voltar a investir em educação de qualidade, da creche ao pós-doutorado.

Não haverá soberania enquanto a educação continuar a ser tratada como gasto desnecessário, e não como investimento essencial para fazer do Brasil um país desenvolvido e independente.  

Nos nossos governos, triplicamos os investimentos em educação, que saltaram de R$ 49 bilhões de reais em 2002 para R$ 151 bilhões em 2015. 

Mas o atual governo vem reduzindo os investimentos a cada ano. O resultado é que o orçamento do MEC para 2022 é o menor dos últimos dez anos. 

Assim como a educação, também a saúde tem sido tratada com descaso pelo atual governo.

Hoje, faltam investimentos, profissionais de saúde e medicamentos. Sobram doenças e mortes que poderiam ser evitadas.

Não fossem o SUS e os corajosos trabalhadores e trabalhadoras da saúde, a irresponsabilidade do atual governo nessa pandemia teria custado ainda mais vidas.  

Um dos maiores orgulhos dos nossos governos foi cuidar com muito carinho da saúde do povo brasileiro.

Criamos o Samu, o Farmácia Popular, as UPAs 24 horas. Fizemos o Mais Médicos, e levamos profissionais da saúde às periferias das grandes cidades e às regiões mais remotas do Brasil. 

Nós praticamente dobramos o orçamento da saúde, que passou de R$ 64 bilhões e 800 milhões em 2003 para R$ 120 bilhões e 400 milhões em 2015. 

Nenhum país será soberano se o seu povo não tiver acesso a saúde, educação, emprego, segurança e alimentação de qualidade. Mas a cultura também precisa ser tratada como um bem de primeira necessidade.

Não haverá soberania enquanto o atual governo continuar tratando a cultura e os artistas como inimigos a serem abatidos, e não como geradora de riqueza para o país e um dos maiores patrimônios do povo brasileiro.

Nós precisamos de música, cinema, teatro, dança e artes plásticas. Precisamos de livros em vez de armas. 

A arte preenche nossa existência. Ela é ao mesmo tempo capaz de retratar e reinventar a realidade. A vida como ela é, e como ela poderia ser. 

Sem a arte, a vida fica mais dura, perde um dos seus maiores encantos. Por isso, nós vamos apostar muito na cultura e transformar a cultura numa indústria de fazer dinheiro e gerar emprego nesse país, para o povo viver dignamente.

Meus amigos e minhas amigas.

Durante nossos governos, promovemos uma revolução democrática e pacífica neste país. O Brasil cresceu, e cresceu para todos. 

Combinamos crescimento econômico com inclusão social. O Brasil se tornou a sexta maior economia do planeta, e, ao mesmo tempo, referência mundial no combate à extrema pobreza e à fome. 

Deixamos de ser o eterno país do futuro, para construirmos nosso futuro no dia a dia, em tempo real. 

Mas o atual governo fez o Brasil despencar para a 12ª posição do ranking das maiores economias. E a qualidade de vida também caiu de forma assustadora, e não apenas para os mais necessitados. 

Os trabalhadores e a classe média também foram atingidos em cheio pelo aumento descontrolado da gasolina, dos alimentos, dos planos de saúde e das mensalidades escolares, entre tantos outros custos que não param de subir. 

Viver ficou muito mais caro.

Neste primeiro trimestre de 2022, a renda familiar dos brasileiros desabou para o menor nível dos últimos dez anos. O resultado é que 77,7% das famílias estão endividadas. 

E o mais triste é que grande parte dessas famílias estão se endividando não para pagar a viagem de férias com os filhos, ou a reforma da casa própria, ou a compra de uma televisão ou de uma geladeira.

Elas estão se endividando para comer.

Ou seja: o Brasil voltou a um passado sombrio que havíamos superado.

É para conduzir o Brasil de volta para o futuro, nos trilhos da soberania, do desenvolvimento, da justiça e da inclusão social, da democracia e do respeito ao meio ambiente, que precisamos voltar a governar este país. 

O grave momento que o país atravessa, um dos mais graves da nossa história, nos obriga a superar eventuais divergências para construirmos juntos uma via alternativa à incompetência e ao autoritarismo que nos governam.

Nunca me esqueço das palavras do saudoso Paulo Freire, o maior educador brasileiro de todos os tempos, uma das principais referências da pedagogia mundial, cujo centenário de nascimento comemoramos justamente em 2022.

Dizia o nosso querido Paulo Freire:  

“É preciso unir os divergentes, para melhor enfrentar os antagônicos”.

Vocês perceberam que parece que o Alckmin tinha lido a mesma frase do Paulo Freire quando ele fez o discurso dele, e nem eu sabia do discurso do Alckmin, nem ele sabia do meu.

Vocês percebem que nós estamos pensando muito parecido e vocês vão perceber que o prato chuchu e lula vai ser um prato extraordinário, que vocês vão poder começar a comer hoje, aqui em São Paulo.

E voltando aos estados de vocês, comam bastante, que o Brasil vai precisar de muita saúde. Tem muita, muita energia esse prato, vocês podem ter certeza disso.

Sim, queremos unir os democratas de todas as origens e matizes, das mais variadas trajetórias políticas, de todas as classes sociais e de todos os credos religiosos.

Para enfrentar e vencer a ameaça totalitária, o ódio, a violência, a discriminação, a exclusão que pesam sobre o nosso país. 

Queremos construir um movimento cada vez mais amplo de todos os partidos, organizações e pessoas de boa vontade que desejam a volta da paz e da concórdia ao nosso país.

Este é o sentido da união de forças progressistas e democráticas formada pelo PT, PC do B, PV, PSB, PSOL, Rede e Solidariedade. 

Todos dispostos a trabalhar não apenas pela vitória em 2 de outubro, mas pela reconstrução e transformação do Brasil.

Tenho o orgulho e muito orgulho de contar com o companheiro Geraldo Alckmin nessa nova jornada. 

Alckmin foi governador enquanto eu era presidente. Somos de partidos diferentes, fomos adversários, mas também trabalhamos juntos e mantivemos o diálogo institucional e o respeito pela democracia.

Tive em Alckmin um adversário leal. E estou feliz por tê-lo na condição de aliado, um companheiro cuja lealdade sei que jamais faltará – nem a mim, e muito menos a vocês e ao Brasil.

Minhas amigas e meus amigos.

Quando governamos o país, o diálogo foi a nossa marca registrada.

Criamos importantes mesas de negociação e conselhos de participação da sociedade civil junto a todos os ministérios.

Além disso, realizamos 74 conferências, em âmbito municipal, estadual e nacional, com participação de milhões de pessoas, para discutir os mais diferentes temas: saúde, educação, juventude, igualdade racial, direitos da mulher, comunicação e segurança pública, entre tantos outros.

Dessa extraordinária participação popular nasceram várias políticas públicas que mudaram o Brasil. 

E agora precisamos de novo mudar o Brasil.

Vamos precisar convocar tudo outra vez. Chamar todas as pessoas.

Algumas pessoas já não existem mais, mas nós renascemos nos nossos filhos, renascemos nos nossos netos, renascemos nos nossos bisnetos e nós vamos encontrar mais ávida, com mais vontade de lutar, do que aqueles que lutaram no nosso governo.

Para isso, em vez de promessas, apresento o imenso legado de nossos governos. Fizemos muito, mas tenho consciência que ainda é preciso, e é possível, fazer muito mais.

Precisamos colocar novamente o Brasil entre as maiores economias do mundo. 

Reverter o acelerado processo de desindustrialização do país.

Criar um ambiente de estabilidade política, econômica e institucional que incentive os empresários a investirem outra vez no Brasil, com garantia de retorno seguro e justo, para eles e para o país.

Fui vítima de uma das maiores perseguições políticas e jurídicas da história deste país, fato reconhecido pela Suprema Corte Brasileira e pela Organização das Nações Unidas. 

Mas não esperem de mim ressentimentos, mágoas ou desejos de vingança.

Primeiro, porque não nasci para ter ódio, nem mesmo daqueles que me odeiam. 

Mas também porque a tarefa de restaurar a democracia e reconstruir o Brasil exigirá de cada um de nós um compromisso de tempo integral. 

Não temos tempo a perder odiando quem quer que seja.

Não faremos jamais como o nosso adversário, que tenta mascarar a sua incompetência brigando o tempo todo com todo mundo, e mentindo sete vezes por dia. A verdade liberta, e o Brasil precisa de paz para progredir. 

Meus amigos e minhas amigas.

Em setembro próximo, o Brasil completa 200 anos de Independência. Mas poucas vezes na história a nossa independência esteve tão ameaçada. 

Felizmente, vamos comemorar o 7 de setembro a menos de um mês das eleições de 2 de outubro, quando o Brasil terá a oportunidade de reconquistar a sua soberania. 

Quando o Brasil terá a oportunidade de decidir que país vai ser pelos próximos anos, e pelas próximas gerações. 

O Brasil da democracia ou do autoritarismo? Da verdade ou das sete mentiras contadas por dia? Do conhecimento e da tolerância ou do obscurantismo e da violência? Da educação e da cultura ou dos revólveres e dos fuzis?

Um país que fortaleça e incentive a sua indústria ou assista parado à sua destruição? O exportador de bens de valor agregado ou o eterno exportador de matéria-prima? 

O país do Estado de Bem Estar Social ou do Estado Mínimo, que nega o mínimo à maioria da população?

O país que defende o seu meio ambiente, ou o que abre a porteira e deixa passar a boiada?

O Brasil que garante saúde, educação e segurança para todos os brasileiros e brasileiras, ou somente para os mais ricos que podem pagar por elas? 

Nunca foi tão fácil escolher. Nunca foi tão necessário a gente fazer a escolha certa.

Mas é preciso dizer com toda clareza: para sair da crise, crescer e se desenvolver, o Brasil precisa voltar a ser um país normal, no mais alto sentido da palavra. 

Não somos a terra do faroeste, onde cada um impõe a sua própria lei. Não! 

Temos a lei maior – a Constituição – que rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la. 

A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada poder, de cada instituição, de cada um de nós. 

É imperioso que cada um volte a tratar dos assuntos de sua competência. Sem exorbitar, sem extrapolar, sem interferir nas atribuições alheias. 

Chega de ameaças, chega de suspeições absurdas, chega de chantagens verbais, chega de tensões artificiais. 

O país precisa de calma e tranquilidade para trabalhar e vencer as dificuldades atuais. E decidirá livremente, no momento que a lei determina, quem deve governá-lo.

Nós queremos governar para trazer de volta o modelo de crescimento econômico com inclusão social que fez o Brasil progredir de modo acelerado e tirou 36 milhões de brasileiros e brasileiras da extrema pobreza.

Queremos voltar para que ninguém nunca mais ouse desafiar a democracia. E para que o fascismo seja devolvido ao esgoto da história, de onde jamais deveria ter saído.

Nós temos um sonho. Somos movidos a esperança. E não há força maior que a esperança de um povo que sabe que pode voltar a ser feliz.

A esperança de um povo que sabe que pode voltar a comer bem, ter um bom emprego, um salário digno e direitos trabalhistas. Que pode melhorar de vida e ver os filhos crescendo com saúde até chegar à universidade e virar doutor.

É preciso mais do que governar – é preciso cuidar. E nós vamos outra vez cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro.

Queridas companheiros e companheiras.

O que nós estamos fazendo aqui hoje é mais do que um ato político, é uma conclamação. Aos homens e mulheres de todas as gerações, todas as classes, todas as religiões, todas as raças, todas as regiões do país. Para reconquistar a democracia e recuperar a nossa soberania. 

E eu tenho certeza que vocês e outros milhões que estão nos assistindo, e outros milhões que ainda têm dúvidas, e outros milhões que ainda respondem “não sei”, eu tenho certeza que, a hora que começar o trabalho de viajar pelo Brasil, de conversar com o povo e cada um de vocês começar a falar a verdade para esse país, eu tenho certeza que nós vamos conseguir fazer a maior revolução pacífica que a história do mundo conhece.

Eu quero outra vez agradecer a vocês, a cada um de vocês. Quando eu vi o Requião aqui e vi toda a briga do Requião em defesa da soberania nacional, eu queria te dizer, companheiro Requião, que você é um jovem de 81 anos de idade e, pelo que eu te conheço, você vai ter energia o suficiente para a gente comemorar junto na praça pública a recuperação da soberania brasileira, a recuperação da industrialização desse país, a recuperação da liberdade de cada um ser o que quiser e viver como quiser, e cada um ser democrático.

Eu sonho com isso.

Por isso, estou comprando essa briga.

Por isso, eu quero terminar dizendo: companheira Dilma, que bom que você está aqui. Porque tem muita gente, na perspectiva de criar confusão entre nós dois, fala assim para mim “ah, você vai levar a Dilma para o ministério?, você vai levar o Zé Dirceu para o ministério?”. Nem eu vou levar e nem a Dilma caberia num ministério. Porque ela tem a grandeza de ter sido a primeira mulher a ser presidenta da história desse país.

Eu quero te dizer, Dilma, que você não vai ser minha ministra, mas você vai ser minha companheira de todas as horas, como você foi desde o dia que nós nos conhecemos. As pessoas desse país precisam aprender o que é relação de companheirismo, o que é relação de amizade.

Eu quero dizer para todos vocês: quero voltar efetivamente com o coração mais brando do que eu já tive. A presença da Janja aqui e o que ela falou é a consagração: eu estarei casando esse mês e, portanto, vocês têm que saber que um cara que tem 76 anos e está apaixonado como estou, que está querendo casar, só pode fazer o bem para esse país que tem tanta gente com a cabeça doente e nós vamos curar esse país.

Companheiros e companheiras, eu quero agradecer a todos vocês que vieram para cá, mas sobretudo quero agradecer ao pessoal que trabalhou à noite para organizar isso aqui. A gente chega aqui e está tudo montadinho, carpete, tudo, mas teve um grupo de pessoas que a gente nem conhece, mas que trabalhou até a hora que nós começamos a falar para que a gente pudesse realizar esse nosso sonho.

A partir de agora, se preparem, porque nós vamos começar a percorrer esse país. Nós queremos muita gente na rua, muitos aliados.

E ninguém pode ter medo de provocação! É proibido ter medo de provocação. É proibido ter medo de fake news. É proibido ter medo de provocações via zap, via Instagram. Nós vamos vencer essa disputa pela democracia distribuindo sorrisos, distribuindo carinho, distribuindo amor, distribuindo amor e criando harmonia.

Um abraço companheiros e até o dia 2 de outubro, se Deus quiser.

Eu tenho certeza que nós precisamos muito que Deus abençoe a todos nos, que Deus abençoe a todo o país, porque esse país está precisando da graça para poder se livrar desse autoritarismo que nós temos governando.

Do fundo do coração, um beijo para todos vocês.”

Porque a derrota de Marine Le Pen é mau presságio para Jair Bolsonaro

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A derrota por margem surpreendentemente folgada de Marine Le Pen para Emmanuel Macron (aproximadamente 58% a 42%) no segundo turno das eleições presidenciais francesas deve (ou deveria) ser vista como mau presságio pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro e seu séquito de ministros militares. É que a mensagem de ultra-direita de Len Pen, ainda que mais sofisticada, e exatamente a mesma da sua versão tosca brasileira, o bolsonarismo.

E há que se considerar que Emmanuel Macron chegou ao segundo turno debaixo de um profundo desgaste por causa dos seus anos de reformas neoliberais que jogaram milhões de trabalhadores francesas num misto de desemprego e empregos precários. Mas nem com esse desgaste todo, Le Pen foi capaz de fazer descer a pílula amarga que sua receita que mistura xenofobia e retrocessos de pautas sociais aplicaria sobre a classe trabalhadora francesa.

Alguém há de dizer que França e Brasil são realidades muito díspares para serem comparadas, até porque as forças armadas francesas não possuem histórica de intervenção na vida política como as brasileiras possuem. Mas o fato é que mesmo enfrentando um presidente altamente popular, Len Pen conseguiu convencer o eleitorado francês que sua receita seria garantia de dias melhores.

Pensemos então no enfrentamento eleitoral cristalizado entre Jair Bolsonaro, um presidente que não buscou gerar nenhum tipo de pauta que fale à maioria da população, mais preocupada com a crescente dificuldade de colocar comida na mesa, e um candidato, no caso o ex-presidente Luís Inácio Lula da sulva, cujo governo criou a sensação de que a fome tinha deixado de ser um problema crônico no Brasil.

Se houver algum ministro com um mínimo de tino estratégico ou ainda uma cartomante de plantão, a carta que será mostrada a Bolsonaro provavelmente será a do 5 de espadas.

Ah sim, um detalhe a mais: com a eleição de Emmanuel Macron, as chances de aplicação do acordo comercial União Europeia-Mercosul podem ter acabado de vez.

Povo chileno derrota extrema-direita. Sinais de alerta já estão acesos em Brasília

kast-bolsonaroJosé Antonio Kast, candidato de extrema-direita derrotado neste domingo no Chile, em momento de congraçamento com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

Com a apuração das urnas do segundo turno nas eleições presidenciais no Chile tendo chegado a 98,7%, o resultado ainda parcial mostra uma tendência irreversível para uma vitória maiúscula do candidato Gabriel Boric que concorria contra José Antonio Kast, um saudosista da ditadura de Augusto Pinhochet. O embate que se encerra no Chile colocava dois campos claramente opostos em termos dos rumos que deverão ser seguidos no país andino nos próximos anos. Para quem não acompanhou o pleito, Kast era visto como uma variante ainda mais direitista do presidente Jair Bolsonaro.

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É importante notar que a coligação que deu sustentação à Gabriel Boric, um líder estudantil que esteve envolvido nas fortes mobilizações que ocorreram no Chile ao longo das últimadas décadas contra a herança da ditadura de Augusto Pinochet, tem em sua coligação a presença do Partido Comunista do Chile, o que dá uma clara conotação da esquerda à sua candidatura.

Por outro lado, a vitória de um candidato de esquerda e da derrota de um candidato de extrema direita, em um país tão polarizado como o Chile, representa uma forte guinada na América do Sul.  E os efeitos dessa vitória já devem estar assombrando governos de extrema-direita que terão que passar pelo teste das urnas em 2022, a começar pelo Brasil que é governado por uma espécie de clone do candidato que foi derrotado hoje no Chile.

Uma questão a mais nessa vitória se refere ao programa e a política de alianças que foi traçada pela frente de esquerda chilena que promete redesenhar o Estado chileno e retorná-lo para uma versão mais comprometida com o modelo do bem estar social e bem distante do Neoliberalismo imposto pela ditadura de Augusto Pinochet. Paulo Guedes deve estar inconsolável em Brasília….

Proteção da Amazônia pode influenciar resultado das eleições de 2022

80% dos brasileiros consideram que Amazônia deve ser prioridade para candidatos à presidência

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Uma nova pesquisa sugere que a Amazônia já faz parte dos temas que os eleitores brasileiros levarão em conta na hora de votar em 2022. Oito em cada 10 brasileiros (80%) consideram que essa deve ser uma prioridade para candidatos à presidência da República ano que vem. Divulgado às vésperas do Dia da Amazônia, o levantamento mostra que seis em cada dez brasileiros (58%) afirmam que um candidato à Presidência da República aumentaria as chances de atrair seu voto se apresentar um plano específico para a proteção da Amazônia. A pesquisa mostra também que para 79%, é muito importante proteger a Amazônia.

“Diversas pesquisas já comprovaram que o brasileiro se preocupa com a Amazônia e quer vê-la protegida, mas esta é a primeira vez que essa preocupação aparece como fator de influência na decisão de voto. E isso coloca o Brasil no roteiro global de países onde o Clima é tema forte nas eleições.”, destaca Ana Toni, Diretora-Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), instituto que encomendou a pesquisa ao PoderData, realizada entre os dias 21 a 23 de agosto de 2021. “Três anos de níveis recordes de desmatamento e queimadas evidenciaram a relação direta que existe entre a destruição da Amazônia e a atual política governamental. Os resultados confirmam que a atuação de Bolsonaro é contrária à opinião pública da maioria dos eleitores”, analisa a Diretora do iCS.

Mesmo quando a preocupação é com o crescimento econômico do país, a maioria dos brasileiros acredita que isso está relacionado à proteção da Amazônia. De acordo com a pesquisa, sete em cada dez brasileiros (71%) concordam que o desenvolvimento do Brasil depende da proteção da Amazônia, demonstrando que o brasileiro está fazendo uma relação entre o “bolso” e o meio ambiente. Apenas 1 em cada 10 (11%) concordam que para o Brasil se desenvolver, proteger a Amazônia não é uma prioridade. E menos de 1 em cada 10 (6%) concordam que o Brasil consegue se desenvolver mesmo sem proteger a Amazônia. Isso demonstra que a maioria dos brasileiros compreendem a relação entre a proteção da Amazônia e o desenvolvimento do país e concordam que há uma conexão direta entre a preservação da floresta e o desenvolvimento nacional. A quase totalidade dos brasileiros (89%) acredita que é preciso conservar a floresta amazônica porque ela é a maior riqueza do Brasil.

Também é consenso entre os brasileiros (83%) que a Amazônia faz parte da identidade nacional do Brasil. “Isso demonstra que quase a totalidade da população entende que na conformação de um imaginário de identidade nacional do Brasil, está compreendida a Amazônia como elemento constitutivo dessa identidade. Logo, se a Amazônia faz parte da identidade nacional, cuidar dela é também cuidar da nossa identidade como nação”, avalia Ana Toni. A pesquisa revela ainda que a maioria dos brasileiros (77%) concorda que é preciso conservar a Amazônia porque o futuro do planeta depende da floresta em pé.

Perguntados sobre os responsáveis pela destruição da floresta, pouco menos de um quarto dos brasileiros (22%) apontam para o Presidente Jair Bolsonaro e 15% para o Governo Federal. Quando perguntados sobre quem deveria cuidar da Amazônia, os entrevistados apontam para Bolsonaro (24%) e o Governo Federal (43%) como tendo a maior responsabilidade pela proteção da Amazônia, seguidos pelos militares (12%) e Congresso Nacional (6%). E sobre a principal causa do atual desmatamento na Amazônia, 29% dos brasileiros afirmam que é a ocupação ilegal de terras.

A pesquisa revela ainda que para 71%, ou 7 em cada 10 brasileiros, Bolsonaro não está trabalhando bem para proteger a Amazônia. A pesquisa aponta também que para 87%, ou 9 em cada 10 brasileiros, o Congresso Nacional não está trabalhando bem para proteger a Amazônia.

Ficha Técnica:

A pesquisa foi realizada pelo Instituto PoderData, a pedido do Instituto Clima e Sociedade (iCS), entre os dias 21 e 23 de agosto de 2021, com brasileiros e brasileiras com 16 anos de idade ou mais, ponderados parametricamente para refletir a composição da população brasileira. Ao todo, foram 2.500 entrevistas em 449 municípios nas 27 unidades da Federação. A margem de erro estimada é de +/- 2,0 p.p. para resultados do total da amostra. O intervalo de confiança é de 95%.

Guilherme Boulos, um cavalo de Tróia do Lulismo dentro do PSOL

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Guilherme Boulos nunca escondeu sua admiração pela pessoa e pelos métodos de ação do ex-presidente Lula

Acabo de ler a informação de que a corrente de Guilherme Boulos acaba de vencer as eleições internas do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) com o claro aceno de abrir de candidatura própria para as eleições presidenciais que deverão acontecer em 2022. 

Apesar de Boulos não ser sozinho responsável por essa decisão, que eu considero equivocada sob vários aspectos, ele é a face mais expressiva dessa conjunção adesista da maioria da direção nacional do PSOL ao que parece estar se conformando enquanto uma frente popular pela direita que deverá ser encabeçada pelo ex-presidente Lula em nome de um suposto combate ao extremismo de direita que deverá coalescer em torno do nome do presidente Jair Bolsonaro.

A questão mais óbvia é que ninguém que conhece minimamente a trajetória de Guilherme Boulos pode se declarar surpreso com sua defesa de adesão ao PT, visto que sua recente adesão ao PSOL (filiou-se apenas em maio de 2018, quase 14 anos após a fundação do partido). É que Boulos, em que pesem diferenças pontuais com o PT, é um “lulista”, seja no tom de voz ou no conteúdo das suas formas de ação.

O problema é que ao envolver o PSOL nas tratativas do ex-presidente Lula até com aqueles que planejaram e executaram o golpe de estado de 2016, Boulos mostra-se mais claramente pelo que é, um cavalo de Troia do Lulismo dentro do PSOL.

Afora esse desvelamento que surpreende a poucos, Guilherme Boulos e aqueles que gravitam em torno dele estão colocando um partido que nasceu para combater o que seus fundadores viam como a degeneração política do PT de volta nos braços de um dos líderes desse processo, o ex-presidente Lula.

Como não sou filiado do PSOL, penso que caberá aos setores do partido que se opõe a esse processo de adesão a Lula trabalharem para impedir que isso tenha êxito. É que se essa aliança se confirmar, o PSOL que tem evoluído lentamente para ser um partido com capacidade de mobilização de massas vai acabar preso no campo gravitacional do PT e dos partidos de direita com os quais o ex-presidente Lula pretende formar seu governo de “salvação nacional”.  E essa prisão gravitacional significará, seja em curto ou médio prazo, o desaparecimento do PSOL. É que tem se há algo que a direção do PT não tolerará jamais, é outro partido que possa cumprir um papel verdadeiramente de esquerda e que coloca em xeque a hegemonia lulista em questão.

Finalmente, há que se frisar que a atual conjuntura histórica de crise sistêmica do Capitalismo requer a construção de um partido que possa dialogar amplamente com a classe trabalhadora e apontar saídas para a crise que vivemos, seja no plano nacional ou no global. Desta forma, longe de desejar que o PSOL seja um projeto vencido, a minha expectativa que o campo que hoje se opõe à adesão ao Lulismo possa estabelecer barricadas e defender a existência de um partido que até agora só ensaiou ser o instrumento que os trabalhadores brasileiros necessitam, mas que já demonstrou ter potencial para ser isso.

Peru: justiça eleitoral confirma triunfo de Pedro Castillo

Castillo tomará posse em 28 de julho, apesar das manobras dilatórias de Keiko Fujimori

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Pedro Castillo assumirá a presidência do Peru em 28 de julho. Imagem: AFP

De Lima 

A justiça eleitoral acabou revendo e rejeitou, por falta de apoio, todas as reivindicações da direitista Keiko Fujimori para anular os votos do professor Pedro Castillo, com os quais tentava arrancar a vitória do candidato de esquerda. Desta forma, após uma longa espera de mais de um mês, foi confirmado que o professor rural e sindicalista oriundo de uma das áreas andinas mais pobres do país será proclamado hoje presidente eleito. Ele assumirá o cargo em 28 de julho . A direita respondeu com violência nas ruas e com uma última manobra para atrasar a proclamação de Castillo, mas que não será capaz de evitá-la.

Com todas as suas reivindicações rejeitadas, os advogados de Fujimori entraram com novos recursos em uma série de atas na sexta-feira, desta vez alegando supostos erros de contagem. O número total de votos destes atos recorridos é significativamente menor do que a vantagem de mais de 44 mil votos que Castillo obteve de Fujimori , com qual seja o destino desses recursos, que os especialistas estimam também serão rejeitados, sem o desfecho das eleições vai mudar.

Devido às suas falsas alegações de fraude eleitoral visando anular as assembleias de voto nas áreas rurais onde Castillo ganhou amplamente , a acusação lançou uma investigação sobre Fujimori por alegados crimes contra o direito de voto e declarações falsas. Com tudo realizado, a ala direita unida em torno do atual chefe do clã Fujimori agora está jogando a carta de deslegitimar o próximo governo e boicotar sua administração. Se não puderem impedi-lo de assumir o cargo, tentarão removê-lo do poder. Desde a vitória de Castillo, a direita vem promovendo um golpe para anular as eleições. Com a vitória da esquerda confirmada na última instância eleitoral, o fujimorismo e seus aliados passaram da violência verbal à violência nas ruas.

Nesta semana, Fujimoristas enfurecidos, armados com paus , tentaram chegar ao Palácio do Governo, no centro de Lima, gritando insultos contra o presidente Francisco Sagasti, repetindo as acusações lançadas por Keiko contra o chefe de Estado, acusando-o de ter se aliado a Castillo. As evidências, no entanto, demonstram a neutralidade do governo. A multidão de Fujimori lançou sua fúria contra os negócios nas ruas próximas. Um fotógrafo do jornal La República , um dos poucos meios de comunicação que não apoiou as reivindicações do direito de ignorar o triunfo de Castillo, foi atirado ao chão e espancado por vários indivíduos.Em sua frustração e raiva desenfreada, os Fujimoristas lançaram contra todos, inclusive jornalistas da mídia que têm apoiado o falso discurso da fraude. Um repórter de televisão e seu cameraman foram cercados, insultados e ameaçados. Outro repórter foi atacado pelas costas por uma mulher, que cobriu a cabeça com uma bandeira e começou a puxá-la. A multidão cercou o carro do ministro da Saúde, Oscar Ugarte , que ia a uma reunião do Conselho de Ministros, e começou a sacudi-lo e bater nele com varas. O mesmo aconteceu com a ministra da Habitação, Solange Fernández . Cerca de quinze minutos se passaram até que a polícia dissolveu os agressores e os ministros puderam retomar a marcha para chegar ao Palácio do Governo.

O grupo que desencadeou a violência se autodenomina “The Resistance” e há anos atua como uma força de choque contra Fujimori. Agora eles foram renomeados como “A Insurgência”. No passado, eles atacaram o promotor que investigou Keiko e a acusou de lavagem de dinheiro e organização criminosa, além de jornalistas críticos de Fujimori . Os integrantes da “Resistência” gostam de tirar fotos fazendo a saudação nazista. Nos atos de violência desta semana, alguns usaram coletes com o slogan fascista “Deus, País, Família” escrito nas costas.

Keiko Fujimori tentou se distanciar da violência desencadeada por seus seguidores com um tweet no qual ela rejeitou essas ações, mas seu longo relacionamento com aquele grupo extremista não pode ser escondido. Os seus discursos apelando aos seus seguidores para que se mobilizem contra uma alegada fraude eleitoral inexistente e para “enfrentar o comunismo” criaram as condições para a eclosão desta violência. Outra pessoa próxima aos chefes desse grupo violento, o ex-candidato à presidência da ultradireita Rafael López Aliaga, conhecido como “Porky”, agora aliado de Keiko Fujimori, incentiva permanentemente a violência. “Morte a Castillo”, “morte ao comunismo”, “malditos comunistas saiam daqui” são algumas das ameaças que o fascista López Aliaga levanta em todas as manifestações públicas de apoio a Keiko.

O que aconteceu esta semana é o maior surto de violência desde as eleições e a recusa do direito de aceitar a sua derrota e os seus apelos contra a legalidade democrática, mas não o único. Anteriormente, os extremistas de “La Resistencia” atacaram com porretes um grupo de simpatizantes de Castillo que faziam uma vigilância pacífica em frente às instalações do Júri Eleitoral Nacional (JNE) à espera da proclamação do presidente eleito. Os partidários de Fujimori se manifestaram repetidamente em frente às casas dos magistrados do JNE e do chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE),o encarregado de contar os votos, gritando ameaças se não favorecessem os interesses de Fujimori. Nas ruas, marchas com símbolos fascistas foram vistas gritando gritos de morte contra todos os que não estão alinhados com eles. Eles são pequenos, mas muito agressivos.

 Nas redes sociais, existem muitas mensagens racistas contra Castillo e seus eleitores, entre os quais a maioria são habitantes de áreas rurais e setores populares. “O que aconteceu marca uma pausa. Respeitamos as manifestações pacíficas, mas o que aconteceu está errado. Não permitiremos ”, disse o presidente Sagasti, referindo-se aos últimos atos de violência.

Por outro lado, neste sábado milhares voltaram a se mobilizar pacificamente pelas ruas de Lima e outras cidades em apoio a Castillo. Exigem sua proclamação antecipada como presidente eleito, o que havia sido anunciado para esta semana, mas que foi adiado por alguns dias pelas últimas manobras retardadoras.   

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Este texto foi escrito inicialmente em espanhol e publicado pelo jornal Página 12 [Aqui!].

Frente Ampla ou Capitulação de Classes? O tempo não para

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Os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso em diálogo sobre as eleições de 2022

Por Carlos Eduardo Rosa Martins*

O problema não é só Bolsonaro, mas também o Parlamento que o sustenta e deu o golpe de 2016. A única possibilidade de recuperarmos a soberania é enfrentando o bloco neoliberal-neofascista que se formou a partir de 2015 e isso só se faz com ampla mobilização popular e ideológica. 

Só com uma campanha ideológica poderemos desafiar a hegemonia liberal no Parlamento, seja pela mudança de sua composição, seja pela formação de uma forte opinião pública que a iniba como em 1988, quando a forte pressão popular nos garantiu uma constituição progressista, mesmo com a presença do Centrão eleito pelo Plano Cruzado. 

Se o principal dirigente do campo progressista se recusa a fazer isso, teremos enormes dificuldades. O basismo do qual o PT nunca se desvencilhou, termina por manter nosso povo em posição submissa mas o papel de um partido de esquerda é o de não se render ao caminho mais fácil e mais curto. 

Lula encontra-se com o ex-presidente José Sarney | Poder360

Os ex-presidentes Lula e José Sarney m diálogo sobre as eleições de 2022

A frente ampla que se pretende construir parece se  resumir a uma capitulação programática para atrair a centro-direita golpista no segundo turno, pois dela sequer fará parte no primeiro, uma vez que PSDB, PSD etc não  abrirão mão de seus candidatos próprios. Tal capitulação programática implica ainda em infiltração nos partidos de esquerda para impedir a construção de alternativas, no velho estilo neoliberal TINA, ou “there is no alternative“. 

É  altamente questionável a necessidade de composição com a centro-direita golpista para vencer as eleições. Alerto que a Terra não vai parar em 2022. Os “aliados” da centro-direita trabalharão para esvaziar e desestabilizar o governo Lula em 1° de janeiro de 2023 e, rendidos, estaremos desarmados para enfrenta-los.  

A esquerda não pode servir apenas para resolver as contradições internas do bloco neoliberal-neofascista. Os primeiros têm  a mesma agenda econômica dos últimos e apenas restrições ao seu modelo político de Estado. A retomada pela esquerda do capitulacionismo  do segundo mandato de Dilma poderá ter graves consequências para a luta real pela hegemonia.

*Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso).

Tirando o chapéu para Pedro Castillo, professor e presidente eleito do Peru

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Ainda que o resultado final da apuração das eleições presidenciais realizadas no Peru ainda dependa da contagem de 0,112% votos já se pode dizer que o professor primário e líder sindical Pedro Castillo será o próximo presidente do país andino, pois a diferença que ele ostenta de vantagem é de 0,30% dos votos apurados.  Nessa vitória histórica, Castillo não derrotou apenas a oponente direitista Keiko Fujimori, mas um amplo arco de alianças dos partidos da direita peruana que resolveram que era melhor ter uma herdeira da ditadura fujimorista do que um professor na presidência da república. 

É que na contradição de projetos, a direita decidiu que as diferenças pontuais com Keiko Fujimori eram imensamente desprezíveis em relação aos perigos oferecidos por Castillo, um professor que vem de uma das áreas mais pobres de um país que, como o Brasil, é cheio de riquezas, mas mantém a maioria do seu povo na mais imensa miséria.

Opera Mundi: Peru: Boca de urna indica esquerda no 2º turno com Pedro  Castillo; cinco candidatos disputam a outra vaga

A vitória de Castillo é também importante porque sua plataforma se centrou em elementos que apontam para mudanças estruturais na forma com que funciona a produção e distribuição da riqueza no Peru, sendo seu lema de campanha “no más pobres en un país rico” (ou seja, “sem mais pobres em um país rico”). Além disso, Castillo anunciou a realização de uma assembleia nacional constituinte e a nacionalização do gás natural (ver vídeo abaixo).

Por outro lado, a vitória de um partido que possui uma plataforma claramente de esquerda e que venceu as eleições graças ao apoio massivo dos segmentos mais pobres da população peruano deveria ser recebido com um claro sinal por aqueles que no Brasil insistem nas alianças amplas que deverão incluir até os participantes do golpe de estado “light” contra Dilma Rousseff.  A vitória de Pedro Castillo evidencia que o caminho a ser perseguido é aquele que dialoga com as amplas camadas da população que são tratadas como invisíveis no momento em que essas alianças amplas são gestadas e impostas como a única saída para os trabalhadores e a juventude.

Internacional - Castillo se declara vencedor, mas apuração no Peru continua  apertada

Alguns irão dizer que por ter vencido sem um apoio do “centro”, Castillo terá muitos problemas para governar, pois não obteve a maioria do congresso. Entretanto, ele já sinaliza que não irá se circunscrever ao interior do parlamento para tentar aplicar suas propostas. Essa é outra lição que a esquerda brasileira deveria aprender com o “maestro” peruano.

Em tempo: acampanhei pelas redes sociais a manifestação dos apoiadores de Keiko Fujimori e seus ataques a Pedro Castillo e eleitores. A semelhança no uso de linguagem e de imagens é incrivelmente semelhante ao que se assiste no Brasil. E isso não pode ser mera coincidência, indicando para mim que existe um movimento articulado a partir das redes sociais de toda a direita latino-americana para impedir que os partidos de esquerda possam ocupar o espaço político e vencer eleições. 

Finalmente, há que se lembrar que defrontada com a escolha entre um professor e uma herdeira de uma ditadura sangrenta, a maioria da população peruana optou pelo “maestro”. Enquanto isso no Brasil vivemos as consequências da maioria ter optado pelo defensor da ditadura e não pelo professor. 

 

Eleição empurra a divisão dos EUA além do ponto de inflexão: editorial do Global Times

Across The U.S. Voters Flock To The Polls On Election Day

Os eleitores se alinham do lado de fora dos recintos eleitorais em Oakmont na Pensilvânia na terça-feira, quando a votação do dia da eleição começou na manhã de terça-feira em muitas partes dos EUA.  (Jeff Swensen/Getty Images)

A sociedade dos EUA está esperando ansiosamente pelos resultados da votação nos últimos estados-chave. Na sexta-feira à noite, a afluência ficou mais clara. Mas as métricas que decidiram o resultado das eleições anteriores podem não funcionar neste momento. Ambas as campanhas descreveram esta eleição como um duelo entre dois valores e caminhos diferentes. E as pessoas compram. Enquanto as eleições estão prestes a terminar, parece que nada poderia ter uma voz decisiva e alterar fundamentalmente os problemas dos EUA.

Se olharmos para os sentimentos intensos na grande mídia dos EUA e na internet, eles não parecem estar discutindo quem será o próximo presidente. Embora relatar esses sentimentos seja um show político, que geralmente acontecia nos Estados Unidos no passado, sua repetição faz as pessoas se preocuparem se a sociedade poderia voltar ao normal após o show. 

Desta vez, ninguém acreditaria que a divisão nesta eleição é apenas um show. A divisão é tão real e profunda que a única coisa incerta desta vez é quão profundamente afetará os EUA.

Cada sociedade tem divergências e contradições internas. O design do sistema dos EUA favorece e até encoraja a fermentação de contradições. Mecanismos ajudam a manter o equilíbrio entre interesses e poder. Por muito tempo, isso teve um desempenho relativamente bom, mas novos desafios estão mudando as condições dos mecanismos dos EUA e mudando as relações entre a eficácia dos mecanismos dos EUA e as dificuldades que a sociedade norte-americana enfrenta.

A mudança fundamental é que os Estados Unidos vêm consumindo suas vantagens acumuladas no contexto da globalização. Seu padrão de interesses foi fixado e a competitividade geral do país está caindo. O bem-estar que proporcionou às pessoas não pode corresponder às demandas e expectativas das pessoas. O mecanismo que distribui interesses solidifica e corrói ainda mais a capacidade social de promover a unidade.

Na era da internet, a política de identidade está crescendo. As pessoas podem facilmente sentir que seus direitos estão privados por serem de uma determinada classe social. Manter a unidade social tornou-se uma tarefa cada vez mais árdua e sensível. Obviamente, os EUA precisam de reformas políticas mais do que muitos outros países para aumentar sua capacidade de promover a unidade.

Mas nos últimos quatro anos, o governo Trump, incitado pelo sistema eleitoral dos EUA, empurrou o país para um caminho arriscado, onde aumenta a divisão para impulsionar o padrão existente de interesses políticos. Existem tantos problemas sociais na sociedade americana, seja entre diferentes raças e classes, entre novos e antigos imigrantes, e entre diferentes regiões, muito menos partidária. Mas agora o objetivo da sociedade foi lançado na reeleição de Trump. Em grande medida, esse objetivo espremeu o espaço da sociedade norte-americana para buscar o máximo dos interesses comuns.

Desde a eclosão da epidemia de COVID-19 nos Estados Unidos, o governo Trump tem lidado com isso de olho nas eleições, enquanto a vida e a segurança das pessoas foram deixadas de lado. Se os EUA não tivessem cometido o erro de lançar todos os olhos sobre a eleição, o país, que ocupa o primeiro lugar em recursos de saúde pública, não teria permitido que a epidemia se alastrasse a tal ponto que mais de 200.000 pessoas morreram por causa disso.

Embora seja óbvio que os EUA trilharam muitos caminhos errados, o equilíbrio de poder na eleição mostra que a séria divisão social prejudicou o julgamento dos americanos. Os humanos são insignificantes e escolher um acampamento é a escolha mais fácil para eles manterem seus próprios interesses. Quanto mais profunda a divisão social, mais as pessoas julgam a partir de sua própria posição. O fato de as pessoas distinguirem entre amigos e inimigos não com base no certo ou errado se tornará uma prática política comum.

O sistema norte-americano tem história e cultura próprias, mas precisa se modificar de acordo com os tempos. É hora de as elites americanas dizerem adeus à arrogância política e se engajar na reflexão coletiva. Eles deveriam ter uma visão correta dos problemas sistemáticos na política dos EUA e chegar ao consenso de que os EUA precisam continuar reformando como outros países. Somente nesta base os EUA podem realmente ser determinados e motivados a mudar a si mesmos.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo jornal chinês Global Times [Aqui!].

TVs dos EUA interrompem transmissão de pronunciamento de Donald Trump por suas mentiras

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O vídeo abaixo mostra um momento extraordinário que decorreu da decisão de diversas emissores de TV dos EUA de interromper a transmissão de um pronunciamento do presidente Donald Trump por ele estar difundindo inverdades sobre a apuração das eleições presidenciais de 2020.

O momento é extraordinário não apenas porque Donald Trump é retirado do ar, mas porque logo após fazerem isso, as emissoras afirmam com todas as letras que isto ocorreu porque o presidente dos EUA estava mentindo.

Em minha opinião essa é uma diferença marcante na forma com que a mídia corporativa exerce o seu papel no Brasil e nos EUA. Aqui seria impensável que um presidente, mesmo que mentindo vergonhosamente, fosse retirado do ar, e menos ainda desmentido por emissoras de TV. O mais fácil por aqui estaria mais para que as mentiras de um dado presidente fosse não apenas televisionadas, mas também confirmadas.

Essa diferença de tratamento com os detentores do poder é um dos muitos aspectos que nos coloca em uma posição de total fragilidade nas relações políticas e econômicas com os EUA.  Aliás, falando em fragilidade, com a iminente vitória do candidato Joe Biden, a posição brasileira deverá piorar ainda mais. 

Finalmente, caso a vitória de Joe Biden seja confirmada, o dia não deverá ser mais dos felizes para a família Bolsonaro e para o chamado “setor ideológico” do gabinete ministerial do presidente Jair Bolsonaro. É que o candidato democrata disse em campanha que iria exigir uma mudança na condução da proteção das florestas da Amazônia, com ou sem a predisposição do Brasil. E aí, meus caros leitores, é que a porca torce o rabo.