Ainda sobre os resultados eleitorais: se Bolsonaro foi derrotado, por que dizer o contrário?

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Uma das questões que mais me intrigam no pós-primeiro turno é a insistência de muitos, inclusive de apoiadores do ex-presidente Lula, em ignorar uma evidência: Jair Bolsonaro perdeu feio o primeiro turno, apesar da “pequena” desvantagem que ele obteve nas urnas.  

Mas vamos lá aos fatos: em uma situação muito peculiar de financiamento extra campanha, principalmente via o Auxílio Brasil e o chamado “orçamento secreto”, as forças que apoiam Jair Bolsonaro investiram bilhões de reais para vencerem em primeiro turno as eleições presidenciais. A certeza de vitória era tanta que, desafiando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que venceria em primeiro turno. A coisa era considerada delírio, quando se tratava apenas de um cálculo mal feito.

Algumas análises já mostraram que o voto de Jair Bolsonaro se interiorizou, de forma a compensar o recuo de votos em grandes cidades, especialmente naquelas onde o desemprego avançou mais. Essa tendência, convenhamos, é mais do que normal, pois não foi nas capitais que o governo Bolsonaro enfiou mais dinheiro, mas sim nas regiões mais interiores, principalmente das regiões norte e centro-oeste.

Por outro lado, as análises que enfatizam (e eu cito apenas aquelas que não são feitas para turbinar a candidatura de Jair Bolsonaro) um aspecto derrotista dos resultados desprezam o fato óbvio de que Lula, desafiando a máquina eleitoral do governo federal, venceu em cidades importantes, não se restringindo a derrotar Bolsonaro no Nordeste.  Se fosse assim, o destino eleitoral de Bolsonaro teria sido aquele que ele propalava em seus comícios e não aquele que as urnas entregaram.

O Brasil sempre foi dividido, qual é a novidade?

Outras análises de teor derrotista tendem a enfatizar, e lamentar, o fato de que o Brasil saiu dividido das urnas. Ora, quem diz isso parece desconhecer a história brasileira. A verdade é que sempre fomos divididos, e os resultados eleitorais só mostraram isso mais claramente porque certas forças da direita tenderam ao desaparecimento, com os seus votos coalescendo em torno de Jair Bolsonaro.  Um exemplo disso foi o PSDB que de partido dominante de eleições passadas passou a ser minoritário até em São Paulo.

Assim, o que assistimos foi uma unificação das forças de direita em torno de Jair Bolsonaro, o que atende a interesses diversos até do atual presidente.  Como já vimos isso em outros períodos históricos, qualquer análise que aponte uma suposta “fascitização” atual do Brasil, despreza o fato de que nunca fomos um país efetivamente democrático. Quando muito, somos um simulacro de democracia onde direitos fundamentais só são concedidos às elites, enquanto a maioria da população fica relegada ao descaso e à violência do Estado brasileiro.

Quem despreza o fato de que nossa economia dependente é baseada na opressão e na violência é que acaba caindo nesse tipo de lamento. Quem entende minimamente a nossa formação capitalista dependente deveria se concentrar em organizar a maioria que votou em candidatos opostos a Jair Bolsonaro, em vez de perder tempo com análises que só servem para desmobilizar a classe trabalhadora e a juventude.

A  verdade é que já éramos divididos e continuaremos divididos depois do segundo turno, independente de quem ganhar as eleições.  É que eleições são apenas momentos muito específicos da luta de classe que ocorrem em um terreno muito hostil aos que precisam ter uma mudança radical na realidade em que estamos imersos.

Mas no momento, a tarefa posta é aumentar a votação do ex-presidente Lula para derrotar Bolsonaro nas urnas. Derrotar o seu projeto econômico e social vai ser algo que deverá transpor, e muito, o marco restrito das eleições.

Campos dos Goytacazes, a cidade onde o Bolsonarismo corre abraçado com a miséria e a fome

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Um observador astuto da política de Campos dos Goytacazes me enviou uma reportagem que mostrava que o nosso município foi um dos que deu mais votos proporcionalmente para Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 (impressionantes 58,01%).  Há ainda que se celebrar que no primeiro turno de 2018, Bolsonaro havia obtido 55,19% dos votos, o que mostra um notável padrão de consistência.

Para olhos menos atentos, esse resultado soa como surreal, já que temos aqui dados igualmente impressionantes no tocante à pobreza extrema e de famílias passando fome. Analisados pela ótica da necessidade em relação ao voto, os resultados deste ano aparecem como em contradição com a realidade objetiva, carecendo ainda algum tipo de explicação.

A primeira observação óbvia é que resultados eleitorais muitas vezes têm pouco a ver com a realidade das pessoas pobres. O que geralmente explica este tipo de resultado tem mais a ver com a capacidade de organização dos principais candidatos, o arco de alianças em plano local, e, não raramente, o uso de meios ilegais para captação de votos (um caso exemplar disso é a uma animada cerveja realizada em uma praça recém-reformada pela Prefeitura de Campos no Distrito de Travessão, em um ponto bem próximo das urnas eleitorais. Tudo isso enquanto os eleitores ainda estavam na fila  tentando votar).

Nesse aspecto, o fato de que as duas famílias que hoje dominam a cena política campista (i.e., os clãs Bacellar e Garotinho) apoiaram de forma vigorosa a candidatura de Jair Bolsonaro, deixando de lado as brigas locais para se concentrar no plano nacional, já serviria como parte da explicação. Por outro lado, há que se considerar o fato de que o Partido dos Trabalhadores (PT) vem no plano municipal se arrastando em estado de morbidez desde sempre. Para piorar a coisa, alguns dos quadros tradicionais do partido hoje não podem nem ocupar a mesma esquina da cidade sob pena de ocorrer algum estranhamento. Nesse sentido, os caciques municipais do petismo continuam fazendo exatamente o contrário do que os Bacellar e Garotinhos fizeram para juntos ajudar a Jair Bolsonaro a vencer de forma dominante.

Há ainda que se dizer que ao contrário dos Bacellar e Garotinhos que não são “bolsonaristas raiz”, a cidade de Campos dos Goytacazes tem uma história antiga de presença da extrema-direita, tendo sido um dos quartéis generais da famigerada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Essa extrema-direita agora tem Jair Bolsonaro como uma espécie de farol para implantar seu projeto conservador de sociedade. Tanto isso é verdade que já estão espalhadas faixas anônimas cobrando o prefeito Wladimir Garotinho que deixe de ser uma espécie de “bolsonarista Nutella” para assumir uma face mais “raiz” (ver imagem abaixo).

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Mas no meio desse caos político, centenas de pessoas continuam labutando em semáforos e esquinas para obter algum tipo de “ganha pão” que minimize o profundo sofrimento a que são submetidas pelas políticas ultraneoliberais de Jair Bolsonaro, aquele mesmo que obteve os acachapantes 58% mencionados no primeiro parágrafo deste texto.  Esta realidade tão irracional na aparência apenas serve para mostrar que se nada for feito para alterar o equilíbrio de forças, candidatos como Jair Bolsonaro continuarão tendo votações expressivas em Campos. É que já está mais do que demonstrado que a miséria e fome não geram consciência política, mas apenas desprezo pelo processo político e submissão aos políticos que manipulam melhor o desespero alheio.

Felizmente, as eleições de 2022 trouxeram um raio de luz nessa escuridão toda por meio das votações expressivas de Zé Maria (PT) e Professora Natália Soares (PSOL). Com jeito distintos de fazer campanha e com propostas distintas, os dois mostraram que há sim espaço para a esquerda em Campos dos Goytacazes. O problema é que para haver alguma viabilidade eleitoral, a esquerda local vai ter que arregaçar as mangas e começar a trabalhar de forma tão diligente quanto fazem os Garotinhos e os Bacellar.

Destino da Amazônia depende do resultado das eleições brasileiras, dizem especialistas

Mais destruição sob Bolsonaro pode levar a floresta da Amazônia além de um ponto de inflexão irreversível

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Um bombeiro combate um incêndio na floresta amazônica em Apuí, Brasil. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Damian Carrigton, editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

O destino da Amazônia depende da eleição nacional do Brasil no domingo, segundo especialistas, que dizem que a continuação da destruição desenfreada sob o presidente Jair Bolsonaro pode levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão irreversível.

Por outro lado, uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que presenciou um declínio acentuado do desmatamento no poder, pode levar a uma queda de 90% no desmatamento, estimam os cientistas.

A floresta amazônica desempenha um papel vital no clima global como uma vasta reserva de dióxido de carbono, mas pesquisas recentes mostraram que os incêndios e a derrubada de árvores deixaram a região emitindo mais CO 2 do que absorve . Pesquisadores mostraram em março que a Amazônia estava se aproximando de um ponto de inflexão , após o qual a floresta seria perdida, com profundas implicações para o clima global e a biodiversidade.

Bolsonaro tornou-se presidente no início de 2019 e reduziu as proteções ambientais e promoveu a colonização dafloresta. a pesquisa mostra que as emissões de CO 2 dobraram em 2019 e 2020 em comparação com a média da década anterior, impulsionadas pelo aumento do desmatamento e dos incêndios à medida que a aplicação da lei entrou em colapso.

Os dados mais recentes mostram que quase um milhão de hectares de floresta tropical foram queimados no ano passado. No mês até 26 de setembro, os incêndios atingiram seus níveis mais altos em uma década. A agência nacional de pesquisa espacial do Brasil, INPE, registrou 36.850 alertas de incêndio na região, mais que o dobro do mês inteiro de 2021.

O aumento pode ser porque aqueles que destroem a floresta ilegalmente aproveitam uma última oportunidade para apropriar-se de terras antes da eleição, de acordo com pesquisadores da Amazônia.

“Bolsonaro arrastou o Brasil de volta aos dias de oeste selvagem que pensávamos ter deixado para trás”, disse Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental do Brasil , que trabalha para proteger os povos indígenas e suas casas na floresta. “Não é exagero, então, dizer que o destino da Amazônia depende do resultado de nossa eleição em 2 de outubro. Se Bolsonaro ganhar mais um mandato, a maior floresta tropical do mundo pode passar de seu ponto de inflexão. Se ele perder, temos a chance de trazê-lo – e o Brasil – de volta do precipício.”

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil.

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

Ramos disse que conflitos violentos e assassinatos de indígenas e protetores de florestas por grileiros aumentaram acentuadamente desde que Bolsonaro se tornou presidente. Ela disse: “Aqueles percebidos como obstáculos às suas atividades – incluindo [ativista e jornalista assassinado] Bruno Pereira e Dom Phillips , e vários povos indígenas, como o protetor da floresta Paulo Paulino Guajajara – pagaram o preço final”.

Erika Berenguer, especialista em desmatamento da Amazônia da Universidade de Oxford, Reino Unido, disse à New Scientist : “Não digo isso levianamente como cientista, mas esta é a eleição mais importante já realizada no Brasil para a Amazônia e sua sobrevivência”.

Luciana Gatti, do INPE, cuja pesquisa mostrou a duplicação das emissões de CO 2 da Amazônia sob Bolsonaro, disse que a floresta tropical estava mudando drasticamente por causa do colapso da aplicação da lei e do desmatamento agressivo durante o mandato do presidente. “Este é um grande risco não só para o Brasil , mas para todo o planeta”, disse ela. “A redução da aplicação da lei promove a sensação de impunidade para crimes ambientais.”

A pesquisa da equipe de Gatti, em análise pela revista Nature , é baseada em centenas de amostras de ar coletadas em pequenos aviões sobre a Amazônia na última década e mostrou resultados “alarmantes”. As emissões de CO 2 aumentaram 89% em 2019 e 122% em 2020, em comparação com a média de 2010-18.

Em 2020, o aumento das emissões deveu-se principalmente a um aumento de 74% no desmatamento e um aumento de 42% na área queimada por incêndios. No mesmo ano, o número de multas pagas por crimes ambientais caiu 89% e o número de infrações registradas pelas autoridades caiu 54%, com situação semelhante em 2019.

A equipe de Gatti também produziu a pesquisa anterior mostrando que a floresta amazônica foi transformada de um sumidouro de carbono para uma fonte, o que significa que está acelerando o aquecimento global em vez de desacelerá-lo. A maior parte da destruição da Amazônia é resultado da produção de carne bovina, com o cultivo de soja e a mineração também fatores.

“A Amazônia está chegando perigosamente perto de um ponto crucial, que pode ver grandes áreas se transformarem de uma floresta tropical úmida e resiliente em um estado seco, devastado pelo fogo e irreversivelmente degradado”, disse Mike Barrett , do WWF.

“O que estamos presenciando é o fim da Amazônia”, disse Angela Kuczach, diretora da Rede Pro UC – Rede Nacional de Unidades de Conservação do Brasil. “Aqui mesmo no coração do sul da Amazônia, estamos trocando floresta por deserto e biodiversidade por cinzas. Não podemos mais dizer que vamos perder a Amazônia em 20 ou 30 anos; estamos perdendo isso agora.”

Bolsonaro disse a líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU na semana passada que o Brasil era uma “referência para o mundo” para meio ambiente e desenvolvimento sustentável. “Dois terços do território brasileiro permanecem cobertos por vegetação nativa, que se encontra exatamente como quando o Brasil foi descoberto em 1500 [por colonos espanhóis]”, disse. “Na Amazônia brasileira, mais de 80% da floresta permanece intocada, ao contrário do que é noticiado pela grande mídia nacional e internacional.”

O Ministério da Justiça do Brasil afirma estar realizando uma operação policial desde 2021 para combater a destruição ilegal de florestas e proteger áreas indígenas.

A maioria das pesquisas de opinião sugere que Lula está perto de garantir a maioria geral dos votos necessários no primeiro turno de domingo para evitar um segundo turno contra Bolsonaro no final de outubro. Lula disse que vai reverter as mudanças legais de Bolsonaro, reformar agências ambientais e expulsar garimpeiros ilegais de terras indígenas. Sob a presidência de Lula e sua sucessora no Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, o desmatamento caiu 72% de 2004 a 2016.

No entanto, reverter o impacto de Bolsonaro será um desafio, de acordo com Izabella Teixeira, conselheira de meio ambiente de Lula e ministra do Meio Ambiente do Brasil de 2010 a 2016.

“Este é um grande desafio e é completamente diferente do que era no passado”, disse ela à New Scientist.

Se Lula ganhar a presidência e recriar a redução bem-sucedida do desmatamento em seu mandato anterior, a destruição da floresta cairia 90% na próxima década, segundo análise publicada pela Carbon Brief. Mais de 75.000 km 2 de floresta amazônica seriam salvos, estimaram os pesquisadores.

Gatti disse que países e consumidores fora do Brasil também podem ajudar . “Precisamos ter um compromisso internacional com os países, para que eles não comprem os produtos que resultam na destruição da natureza”, disse ela.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Último debate presidencial como expressão pura da miséria da política brasileira: padre fake dentro, professora comunista barrada

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Como milhões de brasileiros fizeram, gastei parte da minha noite assistindo ao lamentável programa televisivo denominado “debate presidencial” e que foi levado ao ar pelas Organizações Globo.  Confesso que não consegui assistir por muito tempo aos embates, muito deles grotescos, dos “candidatos” por duas razões: como a maioria dos trabalhadores brasileiros eu tinha que acordar cedo; mas também pela absoluta falta de substância nas perguntas e nas respostas.

Também saltou aos olhos a presença do suposto candidato a padre de festa junina, o neoliberal Kelmon Souza cuja presença no debate desafia o bom senso, mas que se explica por um simples motivo que é o de contribuir para o desgaste dos que que praticam política partidária no Brasil.  O problema com Kelmon não é nem o questionamento sobre sua real investidura como padre, mas o fato de que sua presença não possuiu qualquer ancoradouro na quantidade de votos que terá no próximo domingo.

A questão é que a presença de Kelmon cumpre justamente o papel de desgastar a imagem dos políticos, pois ficou evidente que ele não passa, em todos os sentidos, de um mero charlatão que foi aos debates apenas para servir de suporte para um claramente incompetente Jair Bolsonaro que ontem pareceu agonizar ao tropeçar no uso básico da língua portuguesa.

Candidata à presidência, Sofia Manzano (PCB), cumpre agenda em Maringá  nesta sexta

Apesar de preparado para dar contribuições nas discussões, a professora Sofia Manzano foi barrada nos debates presidenciais

Por outro lado se houvesse um mínimo de interesse em um debate minimamente qualificado quem deveria estar no púlpito substituindo a figura grotesca de Kelmon era a professora universitária e candidata a presidente pelo PCB, Sofia Manzano. É quem, com eu, se deu ao trabalho de olhar o CV Lattes de Manzano sabe que o elemento central de suas pesquisas acadêmicas se refere ao processo de desenvolvimento econômico do Brasil. Além disso, nas poucas vezes que algum veículo da mídia corporativa ouviu a candidata do PCB, ela teve coisas substanciais a dizer, ao contrário de Kelmon se concentrou a repetir uma ladainha rançosa contra a esquerda e o Estado, como se fosse primazia dos esquerdistas lançar mão de políticas de fortalecimento da ação estatal como ferramenta de desenvolvimento econômico.  Mas o problema é justamente esse: qual dono de veículo quer dar palco a uma candidata comunista com bom preparo intelectual e coisas significativas para falar sobre a realidade brasileira? Qual nada, a opção é por impedir a presença e dar palco para o padre fake que ridiculariza propositalmente a figura dos políticos.

Aliás, o nível de miséria intelectual demonstrada nesse debate mostra que se dependermos da classe política brasileira para sairmos do atoleiro em que nos encontramos, há que haver uma grande transformação na formação de quadros, inclusive no que se convenciona chamar de esquerda, mas também na direita. A verdade é que se olharmos para um passado não tão distante, ambos os espectros possuíam quadros mais preparados, e os debates podiam não ser muito substanciais mas, tampouco, tinhamos esses espetáculos de horror como o que vivenciamos na noite de ontem.

Meio ambiente: especialistas analisam programas dos candidatos à Presidência da República

Os pesquisadores Reuber Brandão e Philip Fearnside, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, avaliam propostas de Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet

unnamed (3)Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO), mantida pela Fundação Grupo Boticário. / Foto André Dib

Os quatro candidatos que aparecem nas primeiras colocações das pesquisas eleitorais sobre a corrida presidencial dedicam espaço considerável para a agenda ambiental em seus planos de governo. Seja por convicção sobre a importância de proteger o patrimônio natural brasileiro, seja por um cálculo eleitoral que percebe a relevância do tema para a geopolítica e o comércio internacional, as propostas trazem inovações, mas também deixam de lado temas importantes, como o fortalecimento das Unidades de Conservação. Pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) avaliaram as principais propostas dos candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (PMDB).

“O programa da candidata Simone Tebet parece ter maior planejamento das ações. Prevê, inclusive, a criação de uma secretaria para tratar da questão climática. O programa do candidato Lula também dedica espaço considerável para a questão ambiental, sempre reforçando que irá mudar as políticas do atual governo, em especial o negacionismo científico, climático e reverter o enfraquecimento das instituições de fiscalização e controle”, observa Reuber Brandão, membro da RECN e professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília (UnB).

O professor considera que a questão ambiental também ocupa amplo espaço no plano de governo de Bolsonaro. “No entanto, a despeito das muitas linhas dedicadas ao tema, traz ideias focadas em uma percepção anacrônica da questão ambiental, repetindo que o problema da Amazônia é de soberania. O programa ambiental é repleto de lugares comuns, com diversas platitudes e a recorrente lógica de que a questão ambiental é subalterna da agricultura, sem explorar o papel da ciência no desenvolvimento da conservação, na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e no desenvolvimento conjunto da atividade agrícola”, afirma Brandão.

O programa de Lula traz proposta de ampliar o mercado de trabalho utilizando a recuperação de áreas degradadas, enquanto o programa do atual presidente dedica atenção à justiça ambiental, o que é interessante, na visão de Brandão. “No entanto, nenhum dos programas dos quatro principais candidatos cita a criação de Unidades de Conservação como políticas ambientais importantes, o que é extremamente preocupante. Vale lembrar que a manutenção de áreas naturais é fundamental para a preservação da biodiversidade, além de sua importância para pesquisas científicas, educação ambiental, turismo sustentável, entre outras possibilidades”, reflete Brandão.

Na questão indígena, o pesquisador observa que o plano do candidato Bolsonaro, que busca a reeleição, foca na exploração econômica das terras indígenas, especialmente com turismo e venda de produtos, sem uma clara política de proteção desses grupos, de suas terras e de suas culturas.

Brandão classifica como pobre o programa ambiental do candidato Ciro Gomes. “O documento não tem propostas claras e sequer cita os biomas do Brasil. Sempre se refere à questão ambiental como a proteção florestal, em um país que possui diversos ecossistemas não florestais”, avalia.

O pesquisador avalia como positivas nas propostas de Tebet e Lula a ênfase na ciência como processo essencial à independência econômica, uso da biodiversidade e promoção da conservação. “O plano do Lula ainda ressalta com maior ênfase o papel de grupos minoritários e populações tradicionais no desafio da transição energética, ecológica e produtiva do país, com ampliação de experimentos de agroflorestas”, realça.

Amazônia

Um dos maiores especialistas em mudanças climáticas no mundo, Philip Martin Fearnside, membro da RECN e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ressalta que os dois candidatos que lideram as pesquisas – Lula e Bolsonaro – têm programas e históricos contrastantes com relação ao meio ambiente na Amazônia. O pesquisador entende que Bolsonaro considera as preocupações ambientais como impedimentos à exploração das riquezas da região amazônica e, por isso, aposta que o atual presidente pretende continuar as suas políticas que enfraqueceram o controle ambiental. Ele também vê pontos positivos e negativos no programa dos outros candidatos.

Na visão de Fearnside, Lula apresenta uma interpretação mais adequada sobre a importância do meio ambiente, especialmente ao destacar a necessidade de reconstruir os órgãos ambientais que têm sido desmontados desde o início do atual governo, como Ibama, ICMBio e Funai. “Ele também promete defender terras indígenas e retirar garimpeiros. Mesmo com estes sinais positivos, há áreas que precisarão de cuidado em um eventual governo Lula. A questão das hidrelétricas na Amazônia, por exemplo, tem enormes consequências em potencial, e o histórico dos governos PT na construção de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte é preocupante. O Lula tem falado que faria Belo Monte de novo e que a população local foi beneficiada devido aos gastos do projeto na parte social”, analisa.

O pesquisador também chama a atenção para outro projeto polêmico para a região: a construção da rodovia BR-319, que pretende ligar Manaus (AM) a Porto Velho (RO). Em conjunto com estradas laterais planejadas, essa grande rodovia abriria uma enorme área de floresta amazônica à entrada de desmatadores a partir de uma espécie de arco do desmatamento. “Infelizmente, além do custo astronômico de um programa de governança na escala necessária, as chances são mínimas de realmente alcançar essa transformação desejada na vasta área a ser impactada, especialmente dentro do prazo de um mandato presidencial”, avalia.

O membro da RECN, que pesquisa a Amazônia há mais de 40 anos, ressalta que Ciro Gomes e Simone Tebet têm tomado posições semelhantes à de Lula com relação à BR-319, colocando o avanço das obras como desejável, mediante uma boa governança. “Portanto, seria importante ficar atento a como evoluirão as políticas ambientais durante o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições”, finaliza Fearnside.

Sobre a Rede de Especialistas

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

Minhas muitas razões para recusar o voto útil em Lula no primeiro turno

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Inicialmente quero adiantar que considero legítimo o desejo da campanha do ex-presidente Lula de resolver as eleições presidenciais no primeiro turno que ocorrerá no dia 2 de outubro. No entanto, não considero legítimo tentar resolver a peleja anulando as candidaturas (principalmente as de esquerda) que não querem ceder aos cânticos de que se retirem da disputa em nome de um suposto risco de golpe que seria acelerado pela necessidade de que se realize um segundo turno. 

É que todas as causas apresentadas para que não se vote em outras candidaturas que não as de Lula trazem subliminarnamente um empoderamento do campo político ocupado pelo presidente Jair Bolsonaro que é apresentado como possuidor de grande capacidade operacional de desmanchar a frágil democracia brasileira. O problema é que se olharmos de perto, vamos lembrar que nem um partido para chamar de seu Jair Bolsonaro conseguiu criar.

Na verdade Jair Bolsonaro e a extrema direita são fortalecidos pela ausência de um campo de esquerda que organize a grave insatisfação que corre na massa de trabalhadores empobrecidos por três décadas de políticas neoliberais. Basta ver o que está acontecendo neste momento com o PSOL cuja direção nacional abdicou de ter candidaturas majoritárias e decidiu ingressar com mais força do que os próprios militantes petistas na campanha de rua de Lula. O resultado é que o PSOL não apenas sumiu dos debates eleitorais e da atenção dos eleitores que antes votavam nas candidaturas majoritárias do partido, mas como suas candidaturas proporcionais acabaram se perdendo em um mar de candidatos de direita, com o partido ficando sem saber quantos deputados vai conseguir eleger.

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Aliás, se olharmos os efeitos que o giro à direita de estrelas da esquerda identitária (o melhor exemplo é Marcelo Freixo) realizaram em troca de agregarem votos, mas que acabaram abraçando pautas da direita, o que acabou afastando setores inteiros da juventude.  Assim, não é de surpreender que Marcelo Freixo esteja tão atrás de Cláudio Castro nas pesquisas de opinião, pois seu giro direitista acabou desorganizando setores inteiros da juventude e até da classe trabalhadora. Contraditoriamente este giro em vez de somar votos, acabou tirando.

Para mim um problema grave é que a candidatura de Lula não apenas não dialoga com os partidos da esquerda/esquerda (como  o PCB, a UP e o PSTU), mas como não mostra qualquer interesse em fazer. A razão aparente é que o comando lulista considera que os partidos da esquerda/esquerda não possuem densidade eleitoral, esquecendo o fato de que na luta política que se seguirá a uma eventual vitória de Lula, o que mais contará será a capacidade de colocar militantes organizados para defender um programa político que ajude o Brasil a sair do atoleiro em que se encontra. 

Dentro desse contexto, considero o abandono do voto em partidos efetivamente de esquerda não apenas não garante a vitória de Lula, mas também contribui para um extermínio de pautas que são necessárias e urgentes, na medida em que ao dizimar eleitoralmente quem as defende, não haverá necessidade de sequer discutir a importância das mesmas.

O resultado disso será o posicionamento de um eventual governo Lula em umapostura de manter todo o saco de maldades (ao menos o que é essencial) do que foi implementado pelo governo de Jair Bolsonaro. Não é à toa que não se sabe qual é a plataforma política sob a qual Lula está concorrendo, e não me surpreenderia se no dia seguinte descobrirmos que serão mantidas as reformas da previdência e a trabalhista, apenas para começo de conversa.

Em suma, são essas as razões pelas quais que estou recusando o canto da sereia do voto útil em Lula no dia 2 de outubro. E como já disse a eleitor de Jair Bolsonaro que me perguntou sobre quem votaria em um eventual segundo turno votarei sem medo em Lula, mas já me preparando a ser uma voz que cobrará a efetiva implementação dos novos rumos que ele nos sinaliza que irá oferecer aos brasileiros. Considero ainda que está cada vez mais posta a necessidade de gerar um processo de unificação das forças políticas que recusam a continuidade das políticas ultraneoliberais que hoje infernizam a vida da classe trabalhadora e da juventude no Brasil.

Em editorial, “The Lancet” abre exceção, aborda eleição presidencial no Brasil e diz que país precisa de mudança urgente

Novos começos para a América Latina?

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Editorial

As apostas são altas para as próximas eleições presidenciais do Brasil. Se as previsões atuais estiverem corretas, o presidente Jair Bolsonaro será derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, seja no primeiro turno, em 2 de outubro, ou no segundo turno, em 30 de outubro. . Há temores no país de que Bolsonaro, conhecido por sua volatilidade e incitação indireta à violência, não vá em silêncio. Ele já criticou o sistema de votação eletrônica do Brasil na presença de embaixadores estrangeiros.

O manejo desastroso de Bolsonaro com a pandemia de COVID-19 e seu desrespeito às mulheres, minorias étnicas, povos indígenas e meio ambiente são amplamente conhecidos. Durante o reinado de Bolsonaro, as medidas de proteção social foram prejudicadas pelo financiamento reduzido, as desigualdades e a pobreza aumentaram acentuadamente, e o Brasil voltou a aderir ao Mapa da Fome da ONU. De acordo com dados da 2ª Pesquisa Nacional de Insegurança Alimentar divulgados em junho, estima-se que 30,7% dos brasileiros estejam passando por insegurança alimentar moderada ou grave devido à combinação da pandemia, aumento do desemprego, enfraquecimento de programas sociais e desmantelamento de políticas de bem-estar. Mais de 3,5 anos do regime de Bolsonaro deixaram o Brasil em sua pior posição em décadas. As questões perenes de desigualdade, pobreza, e a corrupção continuam a prejudicar os brasileiros e sua saúde. A violência baseada em gênero e com armas ainda é galopante e a decisão de Bolsonaro de relaxar as leis de armas foi um passo na direção errada. Correspondência publicada emThe Lancet descreveu como cientistas e instituições científicas foram prejudicados. O Brasil precisa de uma mudança urgente.

Se as previsões para a eleição do Brasil estiverem corretas, ela se juntará a outros países latino-americanos onde há uma esperança renovada de mudança social progressiva. Os dois líderes mais recentemente eleitos na América Latina são Gustavo Petro (na Colômbia), ex-guerrilheiro que assumiu em agosto, e Gabriel Boric (no Chile), no cargo desde 11 de março. promessas de renovar a saúde e a educação, combater a corrupção e a pobreza e proteger os direitos dos trabalhadores, muitos ainda não produziram mudanças substanciais. Como Boric e Petro diferem está na inclusão de proteção climática e sustentabilidade, proteção dos direitos das mulheres e inclusão política de minorias étnicas em seus manifestos.

Pela primeira vez na história do Chile, a maior parte do gabinete e metade dos ministros são mulheres. A vice-presidente é Francia Márquez, ativista ambiental e de direitos humanos afro-colombiana. Boric tem uma forte agenda ambiental com um claro entendimento de que os combustíveis fósseis pertencem ao passado, uma espécie de exceção em uma região onde muitos governos ainda apoiam as exportações de mineração e petróleo. Em 4 de setembro, os chilenos votarão em um referendo sobre uma nova constituição, que inclui o direito ao aborto eletivo e afirma que o sistema nacional de saúde é universal. A Petro se comprometeu a combater a desigualdade fornecendo educação universitária gratuita, reformas previdenciárias e altos impostos sobre terras improdutivas. Os desafios são enormes,

A região também precisa de uma organização de saúde forte e líder para apoiar os Estados membros em seus esforços para melhorar a saúde e o bem-estar de suas populações. Um novo diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) será escolhido em votação secreta na 30ª Conferência Sanitária Pan-Americana de 26 a 30 de setembro. Brasil, Colômbia, México, Panamá, Haiti e Uruguai têm todos os candidatos indicados e o novo diretor começará um mandato de 5 anos em 1º de fevereiro de 2023. A estabilidade financeira está no topo da agenda dos candidatos, pois a OPAS estava perto da insolvência em 2020 , durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19, com os estados membros atrasando os pagamentos e os EUA sob o presidente Trump interrompendo seu apoio à OMS. Mas a OPAS também precisa de uma agenda claramente priorizada, mais urgentemente, para examinar as lições aprendidas e as mudanças necessárias para a região após a pandemia.

Há uma chance sem precedentes de novos começos na América Latina; uma oportunidade de fazer mudanças positivas para aliviar a profunda negligência, desigualdade e violência. Esperemos que o Brasil escolha aproveitar esta oportunidade.

Para mais informações sobre a pobreza alimentar no Brasil, consulte https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf

Para saber mais sobre como os cientistas e a ciência brasileiros foram prejudicados, veja Correspondence Lancet 2021; 397: 373–74 e Correspondência Lancet 2022; 399: 23-24

Para saber mais sobre o programa tributário da Columbia, consulte https://www.ft.com/content/35d3eae3-5166-42f6-b0b0-a66c6c709116

Para mais informações sobre os candidatos a Diretor da OPAS, consulte World Report Lancet 2022 399: 2337–38

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “The Lancet” [Aqui! ].

A sombra da fraude apenas serve para tentar esconder o medo da derrota por Jair Bolsonaro

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O site UOL publicou neste domingo uma matéria assinada pela jornalista Carla Araújo que retrata mais uma intromissão indevida do ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, no sistema eletrônico que controla as eleições no Brasil. A intromissão é indevida porque não há nenhuma base constitucional para que as forças armadas possam interferir, ao menos de forma republicana, no processo eleitoral. Como testemunha ocular do antigo processo eleitoral via cédulas de papel, sei bem que o general Paulo Sérgio Nogueira tem a perfeita noção de que em nome do presidente Jair Bolsonaro, ele está usando o poder armado dos militares para impor uma pressão indevida sobre o sistema eleitoral brasileiro.

A questão de fundo é que a imensa maioria dos brasileiros já sabe que o que leva o presidente Jair Bolsonaro não possui nenhuma preocupação eleitoral com transparência eleitoral, na medida em que ele é o presidente que criou o incrível sistema de cem anos de bloqueio sobre questões que envolvam o funcionamento do seu (des) governo.

REPORTAGEM DE 1993 MOSTRA QUE BOLSONARO CRITICA MESMO É A URNA, ELETRÔNICA  OU NÃO | Cortes 247 - YouTube

Então o que move Jair Bolsonaro e seus parceiros militares? Claramente o medo de perder as eleições, as quais as pesquisas mostram como praticamente um caso perdido.  A raiz desse medo, ao menos por parte do presidente Jair Bolsonaro, é justamente que o eventual vencedor, provavelmente o ex-presidente Lula, comece o próximo ciclo de governo justamente acabando com o segredo de 100 anos.

Em outras palavras, questionar o sistema eletrônico não tem nada a ver com democracia, mas com o medo dela. 

Em resultado histórico para a esquerda, Gustavo Petro vence as eleições presidenciais na Colômbia

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Em um resultado que se pode dizer histórico, o ex-guerrilheiro do M-19 e ex-prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, foi eleito o próximo presidente da Colômbia,  Petro venceu neste domingo o direitista Rodolfo Hernandez. 

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Com esse giro à esquerda da Colômbia, um país que vive há décadas conflagrado e submetido à ação de grupos paramilitares de extrema-direita que foram impulsionados pelo estado colombiano para fazer a diferentes grupos de guerrilha de esquerda.

A eleição de Gustavo Petro tem uma dimensão gigantesca na medida em que a Colômbia também tem sido uma espécie de cabeça de ponte da chamada “guerra contra as drogas” comandada pelos EUA, processo esse que custou milhares de vidas de civis colombianos.

Supporters of Colombian left-wing presidential candidate Gustavo Petro paste banners before a rally at the Fontibon neighborhood in Bogota on June 12, 2022.

Um fato adicional é que a vice-presidente de Gustavo Petro é a advogada negra Francia Marquez que recebeu em 2018 o Prêmio Goldman —considerado o ‘Prêmio Nobel do meio ambiente-  por sua luta contra a mineração ilegal no sudoeste da Colômbia, que começou quando ele estava no Conselho Comunitário do distrito de La Toma, de seu município natal.

Bloomberg informa: Jair Bolsonaro pediu ajuda a Joe Biden para derrotar Lula em outubro

O pedido ocorreu na reunião de líderes na cúpula em Los Angeles. Bolsonaro já questionou legitimidade da própria eleição de Joe Biden 

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Os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden conversam após fotografia oficial durante a 9ª Cúpula das Américas em Los Angeles, Califórnia, em 10 de junho. Fotógrafo: Chandan Khanna/AFP/Getty Images

Por Eric Martin para a “Bloomberg”

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro pediu ajuda ao presidente dos EUA, Joe Biden, em sua candidatura à reeleição durante uma reunião privada à margem de uma cúpula regional nesta semana, retratando seu oponente de esquerda como um perigo para os interesses dos EUA, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Durante a reunião desta quinta-feira, Joe Biden sublinhou a importância de preservar a integridade do processo eleitoral democrático do Brasil e, quando Bolsonaro pediu ajuda, o presidente dos EUA mudou de assunto, disse uma das pessoas presentes no encontro. Os comentários de Bolsonaro a Biden sobre seu rival, Luiz Inácio Lula da Silva, ecoaram suas advertências públicas sobre o ex-presidente de dois mandatos, segundo as pessoas, que pediram anonimato para discutir uma conversa privada. A assessoria de imprensa da presidência do Brasil não respondeu imediatamente a um pedido de comentário, enquanto a assessoria de imprensa da Casa Branca se recusou a comentar imediatamente.

A reunião de quase uma hora, a primeira desde a eleição de Joe Biden em 2020, ocorreu principalmente em privado durante a Cúpula das Américas em Los Angeles. Bolsonaro disse a repórteres depois que ele e Biden “falaram superficialmente” sobre a eleição. Em comentários públicos no início de sua reunião, Biden disse que o Brasil tem uma democracia vibrante e inclusiva e instituições eleitorais fortes.

Pesquisas mostram Jair Bolsonaro atrás de Lula antes da eleição do Brasil em outubro. Lula ganharia 47% dos votos no primeiro turno, enquanto Bolsonaro ficaria com 29%, segundo pesquisa do instituto Quaest nesta quarta-feira.

Os EUA têm uma política permanente de não escolher um lado nas eleições de outras nações, dizendo que o voto deve refletir os desejos do povo do país. 

Ainda assim, os presidentes dos EUA muitas vezes se desviaram dessa máxima, como quando Barack Obama expressou sua oposição ao Brexit antes da votação. E a história está repleta de sucessivas administrações dos EUA apoiando líderes estrangeiros que estavam concorrendo às eleições – como Boris Yeltsin na Rússia na década de 1990. 

Bolsonaro, um aliado próximo do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, expressou nesta semana dúvidas sobre a legitimidade da vitória eleitoral de Biden. Em declarações a uma emissora de televisão local no Brasil em 7 de junho, Bolsonaro afirmou que houve fraude generalizada na eleição americana que Biden venceu, repetindo as teorias da conspiração que o ex-presidente dos EUA levantou consistentemente desde novembro de 2020.

Os comentários ecoaram as tentativas renovadas de Bolsonaro de desacreditar o sistema de votação eletrônica no Brasil, onde ele busca um segundo mandato.

As relações entre as duas maiores economias das Américas esfriaram. No entanto, em sua reunião na quinta-feira, a dupla parecia se dar bem, com o líder brasileiro descrevendo sua reunião como “sensacional” e “muito melhor” do que ele esperava. Em comentários à CNN Brasil, ele se disse “espantado” com seu colega norte-americano.

Após a foto oficial dos líderes regionais na conclusão da cúpula na sexta-feira,  Joe Biden permaneceu conversando com Jair Bolsonaro, tocando o líder brasileiro nas costas enquanto o presidente brasileiro colocava a mão no ombro do líder estadunidense. 

Lula, que foi presidente de 2003 a 2010, teve um bom relacionamento com o presidente dos EUA, Barack Obama, a quem Joe Biden atuou como vice, durante quase dois anos em que os dois se sobrepuseram como chefes de governo.

Falando de Lula durante uma cúpula do G20 em Londres em 2009, Obama disse: “Este é o meu homem” e “Eu amo esse cara”. 

— Com assistência de Josh Wingrove, Simone Preissler Iglesias e Nick Wadhams


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Agência Bloomberg [Aqui!].