A guerra comercial China-EUA poderá ampliar a recessão brasileira

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Os mercados mundiais amanheceram hoje em ritmo frenético por causa da imposição de novas tarifas pelo governo de Donald Trump e a esperada reação chinesa de também impor este mesmo tipo de ação punitiva sobre os produtos estadunidenses (ver imagem abaixo que reproduz manchete da Bloomberg News).

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Esse aumento das tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo poderá ter efeitos devastadores sobre a economia brasileira que já não anda muito bem das pernas após quase 4 anos de medidas ultraneoliberais impostas por Michel Temer e Jair Bolsonaro, estando em virtual processo de recessão com milhões de desempregados e sem perspectivas de recuperação imediata.

A situação brasileira poderá ser ainda mais complicada em função das manifestações que poderão ser emanadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores que têm tido posições pró-EUA em vários assuntos, secundarizando os interesses comerciais brasileiros que tem na China o seu principal parceiro.

Por isso, mesmo que em alguns aspectos pontuais, a guerra comercial sino-estadunidense favoreça alguns grupos de interesse, a começar pelos vendedores de soja, em aspectos globais, o Brasil poderá se afundar ainda mais na recessão em que se encontra, especialmente se a dupla Bolsonaro e Araújo optarem pela submissão à Casa Branca em detrimento dos interesses econômicos nacionais. 

Por outro lado, é importante que quaisquer análises que sejam feitas sobre a realidade brasileira passe a levar em conta o complicado cenário mundial. É que tenho visto a preponderância de análises que passam ao largo das articulações existentes entre crise econômica e alinhamentos geopolíticos que hoje determinam fortunas e misérias na economia global. Nesse caso, se houver um alinhamento político por parte do governo Bolsonaro, não como o Brasil não sair duramente chamuscado no plano econômico.  Apesar de ser simples de se concluir, tenho dúvidas sobre qual lado o atual governo escolherá dados os perfis altamente ideológicos dos seus principais tomadores de decisões.

O “Nazismo de esquerda”: negação da história e da ciência, e o Brasil como “laughing stock” global

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Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo tornam o Brasil motivo de riso ao publicizar a afirmação de que o Nazismo foi um movimento de esquerda. E isso terá custos políticos e econômicos para o Brasil.

Até recentemente a ideia de que alguém pudesse defender responsavelmente a concepção de que o Nazismo alemão foi gerado por militantes de esquerda não saia das catacumas da internet onde qualquer coisa pode ser dita sem maiores preocupações com fatos históricos e com o conhecimento científico estabelecido acerca dos mesmos.

No caso brasileiro a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018 permitiu que esse mito urbano ganhasse os corredores palacianos de Brasília sob o manto das ideias singulares do Jim Jones da Virginia, também conhecido pelo nome de batismo de Olavo de Carvalho. 

Com Olavo de Carvalho ascendeu ao cargo de ministro das Relações Exteriores um dos seus discípulos, o Sr. Ernesto Araújo, que começou a propalar na internet a tese historicamente insustentável de que o Nazismo foi um movimento de esquerda, tendo o chanceler sido prontamente rebatido por estudiosos alemães que negaram qualquer base histórica para a alegação.

Mas hoje em uma visita ao Museu do Holocausto (onde inclusive existem informações públicas acerca do caráter de ultra direita do Nazismo), foi a vez do próprio presidente Jair Bolsonaro expor a tese sem base histórica de que Adolf Hitler teria sido líder de um movimento de esquerda.

Há quem ache que esse tipo de manifestação visa apenas realizar uma espécie de “lacração de direita” e que nem os próprios envolvidos levam a sério o que estou falando publicamente.  Na verdade esse é o fato aspecto (se acreditam ou não) que menos importam, pois ao fazerem isso, há que se perguntar o que afinal pretendem esses senhores.

Na minha modesta opinião, chegar a ser irrelevante os motivos reais dessa tentativa falaciosa de mudar uma realidade histórica. O mais importante para mim é que ao se alinharem a uma tese profundamente acientífica e anti-cientifíca, o que o presidente e o ministro das relações exteriores estão fazendo é comprometer qualquer chance do Brasil ser levado a sério na seara das relações diplomáticas. É que ao tornar o nosso país uma espécie de “laughing stock” (motivo de riso em tradução literal) global que inevitavelmente será alienado de quaisquer conversas sérios nas múltiplas agências multilaterais que coordenam o funcionamento do sistema global de nações.

E isso, podem acreditar, terá consequências sérias para a nossa economia e, consequentemente, para a maioria da nossa população que já se encontra sob condições extremas de existência.

As origens ideológicas do nazismo

Cinco especialistas alemães explicam as bases ideológicas da ditadura nazista, que era centrada no racismo, no antissemitismo e no nacionalismo e contrária ao comunismo e aos sindicatos.

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Nazistas ocupam um sindicato em Berlim, em 2 de maio de 1933

Basta uma rápida olhada nas origens do movimento nazista para descartar completamente a ideia de que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) fosse de esquerda, afirma o historiador Jürgen Zarusky, do Instituto para História Contemporânea Munique-Berlim. “[O nazismo] era profundamente enraizado em tendências extremistas de direita que já existiam ao fim da Primeira Guerra Mundial”, explica.

E essa é uma posição há muito consolidada entre especialistas. “Nenhum historiador profissional classificaria a ditadura nazista como de esquerda. O Nacional-Socialismo e o conceito de volksgemeinschaft (comunidade nacional) eram antiliberais, racistas e nacionalistas”, diz o historiador André Postert, do Instituto Hannah Arendt, de Dresden.

debate sobre a orientação ideológica do nazismo se espalhou pelas redes sociais nos últimos anos, e ganhou força no contexto da polarização política no Brasil durante as eleições. A teoria de que o nacional-socialismo teria sido um fenômeno de esquerda, que é considerada um absurdo na Alemanha, chegou a ser ecoada pelo  atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O movimento nazista era contra o capitalismo praticado nos EUA, mas críticas a esse modelo econômico eram comuns na época devido à crise financeira de 1929. O nazismo também se opunha fortemente ao marxismo e ao bolchevismo por associá-los – assim como o capitalismo liberal – à “luta dos judeus pelo poder mundial”. “Não tinha nada que ver com ideologias de esquerda”, afirma Zarusky.

Logo, apesar de carregar o termo socialista em seu nome, o NSDAP estava bem distante do socialismo. “O rótulo ‘socialista’ e o tom amigável ao trabalhador ajudaram Hitler a ganhar amplo apoio entre essa parcela da população”, conta o pesquisador Paul-M. Rabe, do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo.

Ala à esquerda foi expurgada

O Deutsche Arbeiterpartei (Partido dos Trabalhadores Alemães), que antecedeu o NSDAP, foi criado em 1919 inspirado pela Sociedade Thule para solucionar um “problema”: a classe trabalhadora pendia para a esquerda. “O começo do Nacional-Socialismo está numa sociedade secreta, claramente de direita e que tinha entre seus membros integrantes da aristocracia alemã”, diz Zarusky.

Adolf Hitler entrou no partido e logo se tornou sua figura principal, transformando-o no NSDAP. Sob o seu comando, o partido se opôs à teoria marxista da luta de classes e defendeu a formação de uma comunidade nacional alemã que integrasse os trabalhadores. “Na visão fascista, marxistas e comunistas dividiam a comunidade nacional, cuja construção era o objetivo político nazista”, afirma o historiador Michael Wildt, professor da Universidade Humboldt, de Berlim.

O partido nazista até possuía correntes à esquerda, mas todas elas concordavam com a abolição do sistema liberal da República de Weimar, com o antissemitismo e com o nacionalismo. Nesse núcleo estavam Gregor e Otto Strasser e, inicialmente, Joseph Goebbels, o poderoso ministro da Propaganda da Alemanha nazista.

Nos 1920, o programa do NSDAP incluía elementos mais radicais ao capitalismo para atrair os trabalhadores. Contudo, antes mesmo de chegarem ao poder, em 1933, os nazistas eliminaram essa ala à esquerda. O então chanceler Kurt von Schleicher buscou rachar o movimento nazista em 1932, tentando formar uma ponte entre o setor de Gregor Strasser, visto como um competidor de Hitler, e os sindicatos, os social-democratas e partes dos militares.

A estratégia falhou. “Gregor Strasser, Ernst Röhm e muitos outros, que se apresentaram como revolucionários sociais, foram mortos na Noite das Facas Longas, em junho de 1934. Hitler sabia que precisava das elites conservadoras, das classes médias altas e dos industriais para seus planos expansionistas”, diz Postert.

Após chegar ao poder, Hitler passou leis emergenciais para restringir a liberdade pessoal, o que lhe permitiu perseguir e prender líderes comunistas e banir deputados comunistas, sindicatos e todos os demais partidos políticos.

Sociedade ariana

O conceito de socialismo de Hitler era completamente oposto ao da União Soviética, tendo a raça como base. Em 1932, o líder nazista disse: “O comunismo não é socialismo. O marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. O socialismo é uma antiga instituição ariana e germânica […] Para nós, Estado e raça são um.”

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Apesar de carregar o termo em seu nome, o NSDAP estava bem distante do socialismo

volksgemeinschaft seria, assim, algo exclusivo da etnia germânica. Esse racismo estava presente também na tentativa de implementar um Estado de bem-estar social, usado como ferramenta para garantir apoio entre os trabalhadores. O sistema excluía imigrantes, judeus, opositores e aqueles considerados “sem valor”, como deficientes e homossexuais.

Antes mesmo de 1933 foram criadas organizações de massa, como a Frente dos Trabalhadores Alemães e a Força pela Alegria, para garantir a lealdade dos trabalhadores. Entrar para o partido nazista também abria oportunidades. “Ainda que o regime não tenha tocado na propriedade privada e a situação da classe trabalhadora não tenha mudado fundamentalmente, os nazistas integraram grande parte dos trabalhadores em sua utopia social, enquanto destruíam as estruturas e organizações da esquerda política”, diz Postert.

Uma das tentativas de consolidação da comunidade nacional foi a construção de pequenas casas e apartamentos nos anos 1930. “Quem quisesse essa habitação tinha que provar nunca ter sido membro de organizações de esquerda ou não ser de origem judia”, explica Zarusky.

Mas, na realidade, completa o historiador, esse tipo de projeto não era a prioridade dos nazistas. O mais importante era a guerra, e o conflito logo resultaria na destruição dessas casas.

Racismo era central

A ideologia racista, o antissemitismo e o imperialismo (a única forma de aumentar as exportações alemãs, segundo Hitler, era a conquista de território) superavam o sentimento anticapitalista. A ditadura nazista impôs algumas medidas para centralizar a economia e focá-la na preparação para a Segunda Guerra mundial, mas não confiscou propriedade privada de alemães, não proibiu o acúmulo de riqueza nem aboliu o capitalismo.

“Essas ‘credenciais’ socialistas do regime nazista baseavam-se na rejeição do capitalismo financeiro e não no socialismo”, afirma o historiador Arnd Bauerkämper, da Universidade Livre de Berlim.

O regime pretendia construir um modelo que funcionasse para a Alemanha e, naquele momento, a prioridade era aumentar a capacidade bélica do país. Assim, a ditadura nazista aliou-se aos industrialistas para produzir armamentos e consolidar seu poderio militar.

O sistema econômico foi, contudo, “arianizado”, com o confisco de propriedades de judeus. “Numa abordagem racista, não importa se alguém é capitalista. É muito mais relevante que esse capitalista seja alemão e não judeu”, diz Wildt.

Dessa forma, os nazistas poderiam ser contra os “capitalistas judeus malvados”, ao mesmo tempo em que incluíam os “bons empresários e mercadores alemães” na volksgemeinschaft. “A maioria das grandes companhias e empresários não demonstrou dúvidas razoáveis sobre o regime. A resistência ao nazismo veio dos antigos partidos da classe trabalhadora, dos comunistas, dos social-democratas e da esquerda”, conclui Zarusky.


Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]

Governo Bolsonaro: uma incompetência programada e escolhida a dedo?

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O presidente Jair Bolsonaro, de arma na mão, parece ter escolhido a dedo ministros claramente incompetentes para cargos chaves de seu mnistério. 

Vou sofrido ver o sofrível desempenho de três ministros do governo Bolsonaro em diferentes sabatinas que ocorreram ontem no Congresso Nacional. Apanharam e demonstraram o seu imenso despreparo os ministros Paulo Guedes (Fazenda), Sérgio Moro (Justiça), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodriguez (Educação). 

A incapacidade demonstrada para responder questões pertinentes às pastas que deveriam comandar só foi menor que a arrogância e a prepotência demonstrada quando se revelava a incompetência grosseira que possuem e a evidente incorreção de ocuparem cargos tão chaves para o destino da maioria pobre dos brasileiros.

Quis o destino que no caso de Paulo Guedes, Ernesto Araújo e Ricardo Vélez Rodriguez, a surra viesse pelas mãos de parlamentares do sexo feminino, o que deixava ainda mais cristalina a clamora desproporção de gênero existente no ministério montado pelo presidente Jair Bolsonaro, pois dentre os 22 ministros, apenas 2 são mulheres.

As situações mais vexaminosas em termos da demonstração da total diferença de capacidade intelectual se abateram sobre Ernesto Araújo e Ricardo Vélez Rodriguez que levaram lições básicas sobre os conteúdos de suas pastas de parlamentares bem mais jovens do que eles, começando por Tábata Amaral (PDT/SP) que revelou com acuidade a total incapacidade de Vélez  Rodriguez e por Sâmia Bomfim (PSOL/SP) que fez o mesmo com Ernesto Araújo (ver vídeos abaixo).

Deputada Tabata Amaral (PDT/SP) passa um sabão em Ricardo Vélez Rodriguez.

 Sâmia Bonfim (PSOL/Sp) indaga Ernesto Araújo, que gagueja e é defendido por Eduardo Bolsonaro

Mas eu fico imaginando se tanta incapacidade para responder e tanta incompetência em gerir pastas estratégicas não faz parte de algum tipo de complô para chamar a cavalaria (no sentido literal da expressão) para salvar um governo que, segundo a agência Bloomberg, ameaça se dissolver com menos de 3 meses de existência

Seja o que for, estamos aparentemente imersos em um governo que possui um compromisso explícito com uma espécie de “incompetência programada” e escolhida a dedo. Resta saber até quando o Brasil vai tolerar essa situação sem que o nosso vulcão social comece a soltar lava.

Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, escreve carta aberta a Ernesto Araújo

Escritor e historiador Benjamin Moser (à esquerda) escreveu carta a Ernesto Araújo (à direita) pedindo mais compostura no exercício do cargo.

Já escrevi aqui que meus 3 prinicipais candidatos a perderem precocemente seus cargos de ministros no governo Bolsonaro são, pela ordem,  Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). É que vem partindo deles um conjunto imenso de declarações bizarras que estão transformando o Brasil numa espécie “international laughing stock” (em bom português, motivo de piada internacional). 

A  temperatura do forno em que a batata, por assim dizer, de Ernesto Araújo está assando acaba de receber uma boa elevada com a divulgação de uma carta do escritor e historiador estadunidennse, e biógrafo da escritora Clarice Lispector, Benjamin Moser onde, após enumerar várias de declarações absurdas do ministro das Relações Exteriores, há um claro chamado à compostura.

É que para Benjamin Moser, o Brasil está sendo exposto ao ridículo por determinadas declarações de Ernesto Araújo, as quais incluem elementos com conotações antissemitas, o que pode até agradar determinados setores políticos dentro e fora do país, mas não vai facilitar em nada a aceitação de Jair Bolsonaro e suas políticas ultraneoliberais.

Como uma colega que é jornalista me lembrou, em seu discurso de posse, Ernesto Araújo também incluiu Clarice Lispector em seu heteroxo rosário de citações. Na ocasião, o ministro das Relações Exteriores indicou que a escritora de origem ucraniana como alguém cujas obras deveriam ser mais lidas [1]. Para que nem isso serviu para acalmar as preocupações de Benjamin Moser.

Abaixo a íntegra da carta aberta de Benjamin Moster ao ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo.

Carta ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil

Prezado ministro,

Há pouco mais de dois anos, o ministério que o senhor hoje encabeça me outorgou o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural. Foi um reconhecimento do meu trabalho e trouxe consigo uma obrigação de continuar trabalhando em prol do Brasil —de ser algo como um amigo oficial do Brasil. E é nesta capacidade que lhe escrevo.

Recentemente, o senhor publicou uma matéria no meu idioma, o inglês, e no meu país, os Estados Unidos (“Bolsonaro was not elected to take Brazil as he found it”, ou “Bolsonaro não foi eleito para deixar o Brasil como o encontrou”, na Bloomberg, em 7/1). Se respondo em português, é por dois motivos.

Primeiro, porque sua matéria ilustra muito bem que saber a gramática ou o vocabulário de outra língua não implica compreender suas sutilezas: como soa. Se tivesse maior noção do meu idioma, seria de esperar que não houvesse publicado uma coisa que —digo francamente— expõe o Brasil ao ridículo.

E essa é a segunda razão pela qual lhe respondo em português. Apesar de não ser de nacionalidade brasileira, o Brasil não me é de maneira nenhuma alheio. Desagrada-me profundamente vê-lo alvo de risadas internacionais. Gostaria, pois, que esta conversa ficasse entre nós —em português.

Em inglês, a sua vinculação da política externa com Ludwig Wittgenstein soa bizarra. Suspeito que não seja sua intenção —que é, se estou lendo bem, de deslumbrar o leitor com frases como “desconstrução pós-moderna avant la lettre do sujeito humano e negação da realidade do pensamento”.

Sabe aquele estudante de pós-graduação que encurrala a menina na festa falando de Derrida ou Baudrillard?

Pois é.

Aliás, em inglês, proclamar “não gosto de Wittgenstein” soa pretensioso, arrogante. Sabe aquele homem que, diante de um Picasso, diz que sua filha de quatro anos poderia ter feito melhor?

Pois é.

Mas, além do tom, qual é mesmo seu problema com Wittgenstein? Vejo que não é sequer uma frase inteira, mas uma parte de uma frase: “O mundo tal como o encontramos.”

O senhor lê isso como um pedido —uma ordem, até— de aceitar tudo no mundo tal como é, de não tentar mudar nada, de se comportar como se não tivesse vontade própria. Se acompanho a sua lógica, é assim que o Brasil tem se comportado durante todos os governos, de esquerda como de direita, que precederam o atual.

Para quem conhece a obra de Wittgenstein —assim como para quem tem noções da história diplomática brasileira—, isso pode soar inexato. Mas o senhor pretende romper um padrão que tem impedido o surgimento da verdadeira grandeza do Brasil. O país, segundo o senhor, antes disse: “Eu não acho nada. Eu não tenho ideias. Assim como o sujeito desconstruído de Wittgenstein, eu não tenho um ‘eu’.”

Eu não caracterizaria o trabalho de gerações de diplomatas brasileiros assim. Imagino que, em português, possa soar desdenhoso. Mas estamos falando de como soa em inglês, e, se muito ficou incerto na sua matéria, uma coisa ficou clara: sua vontade de mudar a imagem do Brasil no mundo.

De fato, em poucos meses, essa imagem já mudou bastante. Temo que não seja na direção que o senhor pretende. Pois, em todos os meus anos de brasiliófilo, nunca vi tantas matérias ruins sobre o Brasil surgirem na imprensa europeia e americana. Isso deve ser motivo de preocupação para um chanceler. Porque o Brasil, apesar de seus problemas, sempre desfrutou de um nome positivo no mundo.

O racismo, a homofobia e a saudade da ditadura da nova administração têm sido fartamente comentados na imprensa mundial. Em inglês, o tom dessa cobertura tem sido extremamente negativo. Um chanceler deve poder responder num inglês sereno e compreensível e explicar as razões que levam o novo governo a adotar tal e tal medida.

Quando se dirige a um público internacional, uma coisa a evitar a todo preço é o emprego de termos —“globalistas,” “marxistas,” “anticosmopolitas,” “valores cristãos”— que, em inglês, têm fortes conotações antissemitas.

São extraídos do léxico de conspiração global judaica, e, dada a história deste léxico, pessoas civilizadas, tanto de direita como de esquerda, aprenderam a evitá-lo.

Quando se fala inglês, é preferível, em geral, evitar falar de conspirações. Dá a impressão de ter passado a noite em claro na internet decifrando os segredos das pirâmides. Talvez seja por isso que suas descrições sobre o aquecimento global como trama marxista tenham sido tão amplamente ridicularizadas na imprensa mundial.

Quem, em língua inglesa, quer ser levado a sério evita tais caracterizações. E não é mesmo este o maior desejo do senhor, o de ser levado a sério? É a única coisa que fica clara debaixo da linguagem um tanto acalorada.

A novidade que o senhor anuncia não é outra coisa senão a mais antiga emoção do conservador brasileiro: o ufanismo magoado.

Este é o sentimento de quem quer uma nação que esteja à altura da imagem —muitas vezes exagerada— que tem de si próprio.

Se o senhor imagina que o Brasil não é suficientemente respeitado, seria bom nos brindar com pelo menos um exemplo; na minha experiência, vasta, do Brasil no âmbito internacional, confesso que nunca percebi a falta de respeito.

Mas, mesmo que ela existisse, seria bom lembrar que, em qualquer país, o respeito não se exige. Com paciência e trabalho, se ganha.

Ninguém sabe melhor do que eu os lados positivos que tem o Brasil. Mas, sabemos, brasileiros e estrangeiros, que o Brasil também tem uma cara feia. E é essa cara que seu tom me traz à mente. É o tom daquele patrão que grita “faça que tô mandando!” para a empregada. Asseguro-lhe que não fica mais elegante em tradução inglesa.

Infelizmente, não é apenas uma questão de tom. Desde o primeiro dia, este governo deu a impressão de querer abusar das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Todos os jornais do mundo têm noticiado os ataques aos índios e à população LGBT, além da redução do salário mínimo para os trabalhadores mais pobres.

É possível que haja explicações razoáveis para tais medidas, mas confesso que até agora não as vi. De novo, seria mais eficaz explicá-las com calma do que andar pelo mundo proclamando que os brasileiros não são mais “robôs pós-modernos” e que não suportarão mais “a opressão wittgensteiniana da morte-do-sujeito.”

Porque, ironicamente, é seu medo de ver as pessoas zombarem do Brasil que fará… as pessoas zombarem do Brasil. Deve ter visto a ministra Damares gritando que “menino veste azul e menina veste rosa!” e notado como isso repercutiu pelo mundo. As suas declarações também não ajudam a que as pessoas levem o Brasil a sério.

Se há um ponto em que estamos em total acordo é que também não gosto de ver o Brasil ridicularizado. Por isso, lhe encorajo a lembrar em nome de quem está falando. E de escolher com mais tato, em português como em inglês, as suas palavras.

O senhor se descreve, no seu Instagram, como “ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro”. Não é.

É ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Seria bom que se comportasse com a dignidade que tal posição exige.

E se, no futuro, tiver uma dúvida de inglês, pode sempre entrar em contato comigo.

Cordialmente,

Benjamin Moser

Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural, 2016, escritor norte-americano, autor da biografia ‘Clarice’ (Companhia das Letras) e de ‘Susan Sontag: Sua Vida e Obra’, que sai no final do ano também pela Companhia das Letras

Rejeição ao “globalismo” do governo Bolsonaro é como elefante brincando em lojas de cristais: prejuízo na certa!

 

0O novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante solenidade de transmissão de cargo, no Palácio Itamaraty – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em seu discurso de posse, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, entre citações a Raul Seixas e Renato Russo, indicou que o Brasil não se submeterá mais ao “globalismo” [1].  A afirmação subjacente parece ser de que o Brasil irá passar a ignorar as regras acordadas em organismos multilaterais, provavelmente aqueles que tentam regular usos e práticas que afetem não apenas o comércio internacional, mas mudanças climáticas e tratamento a povos orginários. 

O problema que se impõe ao Brasil se essa visão anti-multilateristade Ernesto Araújo for aplicada em “full force” é que a maioria dos países não está disposta a embarcar nessa viagem de desmantelamento dos acordos que visam garantir que não reinstale um clima de faroeste caboclo em questões que afetem o planeta como um todo.

Um exemplo disso? A facilitação do avanço do desmatamento na bacia Amazônica e no desrespeito ao direito dos povos orginários que ali vivem, fato que está claramente expresso na subordinação da FUNAI e do Serviço Florestal Brasileiro (SBF) ao Ministério da Agricultura.

Em reação a essa primeira indicação, até na distante Finlândia a questão da proteção das florestas amazônicas está sendo alvo de entrevistas nos principais veículos de comunicação (ver vídeo da entrevista feita ontem com o professor Markus Kroger, um “brasilianista” da Universidade de Helsinki)

Para quem não entende finlândes, adianto que a questão essencial abordada pelo professor Kroger nessa entrevista não foi a bem informada apreciação da situação da proteção das florestas amazônicas, nem a caracterização das inclinações políticas de Jair Bolsonaro, mas a necessidade de acompanhar o comportamento das empresas finlandesas que atuam no Brasil ( a papeleira Stora Enso, por exemplo).

Na prática, o que o novo ministro das Relações Exteriores parece não entender, é que não basta o Brasil querer se retirar das relações multilaterais para que se volte à condição de fronteira de recursos desregulada com que o presidente Bolsonaro parece sonhar.  Os controles para impedir isso podem estar sendo afrouxados no Brasil, mas serão apertados no resto mundo.

E especialmente no tocante às florestas amazônicas, o mais provável é que , se as taxas de desmatamento continuarem subindo, as commodities que forem produzidas em novas áreas de desmatamento passem a ser objeto de embargos comerciais.

Alguém precisa lembrar aos membros do governo Bolsonaro, a começar pelo Ministro das Relações Exteriores, que os EUA podem fazer de conta que ignoram as organizações multilaterais e a tal “ordem global” por causa do seu poderio militar e econômico. Agora, o Brasil que hoje depende da exportação de commodities agrícolas e minerais não pode se dar ao luxo de brincar de elefante numa loja de cristais.

As consequências para a persistência  desse comportamento certamente serão trágicas para os grandes apoiadores da campanha eleitoral, o latifúndio agro-exportador. Mas, pior ainda, para a economia brasileira. Afinal de contas, até que se instaura uma nova divisão internacional do trabalho, vale a que está estabelecida com suas regras e prioriedades.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/01/nao-tenho-medo-de-ser-brasileiro-diz-chanceler-ao-assumir-itamaraty.shtml

As bizarrices do ministro de Relações Exteriores vão custar caro ao Brasil

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De um governo que está à beira de assumir o poder do quinto país mais populoso da Terra se espera cuidado e pragmatismo para não comprometer parcerias existentes e nem ameaçar a realização de outras.

Mas nada disso vem marcando a exposição pública do presidente eleito (vide as treulocadas declarações durante a recepção ao primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu) e muito menos as declarações do futuro ministro das Relações Exteriores, o embaixador de segunda classe Ernesto Araújo em um artigo publicado na revista ultraconservadora “The New Criterion”  de que ““Deus uniu ideias de Olavo de Carvalho ao patriotismo do presidente” e que “Deus deverá assumir um papel central na vida política brasileira” [1].

Essas declarações deverão cair bem em congregações religiosas, especialmente aquelas centradas na crença de que estamos à beira do Apocalipse, mas dificilmente farão bem aos interesses multilaterais brasileiros. É que nas economias com que o Brasil faz a maioria de seus negócios, essa indicação de que seremos governados por Deus dificilmente abrirão portas. 

Desconfio, inclusive, que esse tipo de declaração é mais para o público interno do que para o externo. É uma espécie de reforço dos compromissos anunciados em altares de diferentes variantes do Cristianismo brasileiro pelo presidente eleito. O problema é que o ministro das Relações Exteriores não está a cargo da aplicação das doutrinas religiosas no plano interno, mas essencialmente dos interesses econômicos e políticos no plano internacional. 

Assim, imaginemos as repercussões que as imagens de Benjamin Netanyahu sendo recebido com pompa e circunstância por Jair Bolsonaro terão nos países árabes que compram uma parte significativa da produção pecuária brasileira.  Achar que esta recepção dada ao primeiro ministro israelense não está sendo acompanhada nos parceiros comerciais árabes chega a ser bizarro, dada a existência do canal Al Jazeera que, inclusive, possui profissionais sediados no Brasil.

De toda forma, tenho a impressão de que não haverá demora nas respostas que deverão vir do exterior como resposta das bizarrices do futuro ministro das Relações Exteriores. Ao contrário do que muitos acham, penso que Ernesto Araújo, e não Fabrício Queiróz (o vendedor de carros que gerou um sistema de cobrança diretamente associado ao dia do pagamento  de salários na Assembleia Lesgislativa do Rio de Janeiro), o foco da primeira crise do governo Bolsonaro. A conferir!


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/27/politica/1545925083_475905.html