Surto de COVID-19 força fechamento de escolas no Paraná. Em Campos, querem abrir

Escola-abertas-na-pandemia

Por motivos que não têm nada a ver com o processo pedagógico e o interesse da segurança de estudantes e suas famílias há no Brasil uma pressão crescente para forçar a reabertura de escolas. Um dos lugares em que essa medida descabida foi o estado do Paraná.  Mas mesmo aqui em Campos dos Goytacazes há uma forte pressão por parte de proprietários de escolas particulares e também de membros do governo municipal (às vezes fica difícil separar esses dois setores tantas os interesses em comum) para que as aulas presenciais sejam retomadas, ainda que em suposto estilo híbrido (parte presencial e parte remoto).

Aos que acham que isso não causará maiores problemas em termos da difusão ainda maior do Sars-Cov-2, deveria olhar o que está acontecendo no já citado estado do Paraná onde diversos municípios estão tendo fechar suas escolas reabertas por causa do alto nível de infecção principalmente entre professores. Segundo o jornalista Esmael Morais publicou em seu blog, a situação é tão grave que os sindicato que representa de 120 mil trabalhadores da educação do estado do Paraná, a APP-sindicato, está “recolhendo as fichas de saúde dos contaminados para responsabilizar administrativa, civil e criminalmente o governador Ratinho Junior (PSDB) e o secretário da Educação, o empresário Renato Feder“.  

Eu diria que se aqui em Campos dos Goytacazes, essa mesma medida intempestiva for adotada, SEPE terá que fazer rapidamente o mesmo, responsabilizando quem tiver de ser responsabilizado.  Aos pais de crianças que estão achando que colocar seus filhos e a si mesmos em situação de risco, sugiro olhar bem a situação que está ocorrendo no Paraná. Afinal, melhor em casa “atrapalhando” o sossego do que infectado e sob risco de contrair as formas mais agudas de COVID-19.  Até porque os donos de escola estão avisando que não vão se responsabilizar se alguma criança contrair o coronavírus nas dependências de seus estabelecimentos de ensino.

Extra: Por ano, quase 40 escolas fecham as portas na zona rural do Estado do Rio

Bruno Alfano

O campo do Rio dá cana, banana, laranja. Mas o que o campo do Rio não dá é educação: o estado vive um sistemático processo de fechamento das escolas em áreas rurais. A média, nos últimos seis anos, é de quase 40 colégios encerrando as atividades por ano. Nesse ritmo, as 1.037 unidades de ensino fundamental que restam no estado serão extintas em 26 anos.

— Não gosto lá da cidade. É uma bagunçaiada só — reclama Larissa Calixto, de 12 anos, moradora da área rural de Aperibé, cidade a 110km de Campos dos Goytacazes.

Foto: Agência O Globo

A menina faz o 6º ano no Brizolão 419 Benigno Bairral, no bairro de Palmeiras — que fica na parte urbana da cidade, a 20km do sítio onde a jovem mora com os pais e um irmão. A cidade fechou a última escola rural de segundo segmento do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano) em 2008. Por isso, Larissa precisa acordar às 5h, quando o dia ainda nem nasceu, tomar café correndo, se arrumar, andar 3km de bicicleta até o ponto onde pega o ônibus da prefeitura, para sacolejar por mais 17km numa estrada de terra.

Foto: Agência O Globo

Quando a escola vira casa

Patrícia da Silva, de 12 anos, mora na zona rural de Aperibé. As paredes descascadas pelo tempo são na cor azul claro com desenhos de personagens de desenhos animados com a inscrição “Ciep Serra da Bolívia”. Patrícia vive dentro de uma escola abandonada. E precisa pegar um ônibus para estudar no Centro da cidade:

— Eu estudava em outra escola aqui pertinho, mas fechou, e eu tive que ir lá para a cidade. A professora é legal, mas o caminho é complicado.

A mãe da menina, Rita de Cássia, conta que já está no local há cerca de dois anos. O filho mais velho, já adulto, foi o primeiro a chegar. Como ninguém nunca pediu para que saísse, a família o seguiu.

O prédio onde funcionou o Ciep municipalizado foi, segundo a secretária de Aperibé, devolvido ao estado. A Secretaria de Planejamento e Gestão foi procurada, na sexta-feira, e informou que não teve tempo hábil para explicar a situação.

Aperibé é a cidade com maior queda proporcional de alunos na zona rural: de 110, em 2008, passou para sete, em 2014: redução de 94%. Secretária de Educação da cidade desde 2010, Cássia Rosane Pontes afirma que fechar as escolas e levar as crianças para o Centro economiza para os cofres do município:

— A única escola que resta também vai ser fechada, no máximo, até 2017. Uma hidrelétrica vai ser construída e vai alagar aquela região toda.

A medida não conta com o apoio de especialistas em educação rural. Andreia Dalcin, professora de Licenciatura do Campo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que o fechamento de uma escola tende a acabar com a comunidade no entorno dela e contribuir para o êxodo rural.

— É uma ação em cadeia. As pessoas saem do campo, não conseguem se firmar na cidade e os caminhos não são bons. Acabam contribuindo para gerar mais pobreza nos centros urbanos — analisa.

CI - Aperibé, RJ, 05/08/2015. Educação no campo. Fechamento de escolas rurais obrigam estudantes camponeses a percorrerem grandes distâncias até a cidade para continuar seus aprendizados após o 6º anos do ensino fundamental. Na imagem, fachada da escola Antônio Ferreira da Luz. Foto: Thiago Freitas / Extra / Agência O Globo
CI – Aperibé, RJ, 05/08/2015. Educação no campo. Fechamento de escolas rurais obrigam estudantes camponeses a percorrerem grandes distâncias até a cidade para continuar seus aprendizados após o 6º anos do ensino fundamental. Na imagem, fachada da escola Antônio Ferreira da Luz. Foto: Thiago Freitas / Extra / Agência O Globo Foto: Thiago Freitas / Agência O Globo

‘Consequências muito perversas’

Tássia Balbi, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) sobre escolas rurais, analisa as consequências do fechamento dessas unidades:

— Pela classificação do Ministério da Educação (MEC), existem quatro tipos de escolas rurais: as que estão no campo, em assentamentos, em comunidades quilombolas e em comunidades indígenas. Há consequências muito perversas para os alunos. Esse é o único espaço público em uma área rural, onde as pessoas se encontram. E elas perdem isso. Além disso, os estudantes ainda são obrigados a ir para lugares mais distantes. Isso causa uma perda da relação com a escola, da família com a escola. Esses fatores contribuem para aumentar a evasão e a repetência das crianças.

Segundo ela, as escolas das áreas urbanas têm dificuldade em lidar bem com os alunos que saíram da área rural.

— Elas normalmente têm uma visão do campo que não é muito adequada. Um olhar inferiorizado do campo. Os argumentos (para o fechamento das escolas rurais) são de otimização da gestão, seria mais fácil e barato administrar menos escolas. E o de que as escolas são precárias. Mas o certo é arrumar, não fechar.

FONTE:  http://extra.globo.com/noticias/rio/por-ano-quase-40-escolas-fecham-as-portas-na-zona-rural-do-estado-do-rio-17350874.html#ixzz3kJgVoroY