Por causa de Bolsonaro, comitê liderado pelos democratas no congresso dos EUA se opõe a qualquer acordo comercial com o Brasil

congresso euaO presidente do Comitê de Formas e Meios da Câmara de Deputados, Richard Neal, discute seu pedido ao comissário do IRS Charles Rettig para obter cópias das declarações fiscais do presidente Donald Trump, enquanto fala com repórteres no Capitólio dos EUA em Washington, EUA, em 4 de abril de 2019. REUTERS / Yuri Gripas

WASHINGTON (Reuters) – O Comitê de Caminhos e Meios da Câmara dos EUA disse nesta quarta-feira que se opõe ao plano do governo Trump de expandir os laços econômicos com o Brasil, dado seu histórico de direitos humanos e meio ambiente sob o presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do comitê, Richard Neal, e seus colegas democratas no painel disseram ao representante de comércio dos EUA, Robert Lighthizer, em uma carta que o governo de Bolsonaro havia demonstrado “um completo desrespeito aos direitos humanos básicos”.

“Nós nos opomos fortemente a perseguir qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro no Brasil. O aprimoramento da relação econômica EUA-Brasil neste momento minaria os esforços dos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais brasileiros para promover o estado de direito e proteger e preservar comunidades marginalizadas ”, escreveram eles.

Autoridades comerciais americanas e brasileiras concordaram no mês passado em acelerar as negociações com o objetivo de concluir um acordo sobre regras comerciais e transparência este ano, incluindo facilitação do comércio e “boas práticas regulatórias”.

Mas os democratas no comitê disseram que o governo de Bolsonaro não pode estar realisticamente preparado para assumir novos padrões de direitos dos trabalhadores e proteções ambientais estabelecidos no acordo comercial EUA-México-Canadá, dado seu próprio histórico ruim sobre direitos humanos e outras questões importantes.

O representante Kevin Brady, o republicano no comitê, disse a repórteres que desconhecia a carta.

Em vez de buscar um acordo comercial com o Brasil, os legisladores democratas disseram que Lighthizer deveria intensificar a aplicação das leis americanas e levantar preocupações sobre as práticas comerciais desleais do Brasil com o governo brasileiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, desenvolveu um relacionamento próximo com Bolsonaro, um ex-capitão do exército de direita. A Casa Branca disse na semana passada que os Estados Unidos forneceram ao Brasil 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para uso contra o coronavírus, apesar das advertências médicas sobre os riscos associados ao medicamento antimalária.

Reportagem de Andrea Shalal e David Lawder; Edição por Richard Chang e Tom Brown

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

ji trump

Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

EUA: maior potência econômica e militar da história desmorona frente ao coronavírus

CORONACOVID-19: Os EUA concentram o maior número de contaminados, de mortos e de pacientes em condições críticas

Até por força do fato de morar no Brasil, tenho abordado de forma repetida os efeitos e características da difusão da pandemia da COVID-19 em nosso país, que nesta segunda-feira (27/04) já contabiliza 4.286 óbitos. Entretanto, por mais catastróficas que as tendências no Brasil sejam em relação aos resultados da pandemia, nada do que nos acontecer vai ofuscar o desmoronamento do sistema de saúde dos EUA, que lideram em três quesitos importantes da crise sanitária deflagrada pelo desprezo ao poder letal do novo coronavírus.

É que os EUA são o país com o maior número de pessoas infectadas (32,7% do total global), no número de mortos (26,7% do total) e no número de casos graves (26,3%). Apenas por comparação, a Espanha que é a segunda colocada no número de casos de pessoas infectadas detém 7% do total global,  11% dos mortos, e 13% dos casos graves. 

mass gravesFossas coletivas estão sendo usadas para enterrar os mortos pela COVID-19 na Ilha de Hart em Nova York

A pergunta que se coloca para muitas pessoas é de como a principal potência econômica e militar da história da Terra conseguiu se tornar o centro desta pandemia, mesmo tendo alguns meses para se preparar a sua chegada em seu próprio território.

Uma primeira e óbvia questão é que nos EUA não há um sistema gratuito de saúde, e o acesso ao sistema privado de saúde se dá pela via dos planos de saúde.  Além disso, segundo dados de 2018, um total de 27.9% de estadunidenses abaixo de 64 anos não possuíam qualquer cobertura para obter atendimento de saúde (ver o gráfico abaixo).

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E obviamente os não-possuidores de seguro de saúde estão localizados em grupos economicamente fragilizados e que operam em áreas profissionais em que predominam salários que mal lhes garante o ato de comer todos os dias. Estão aí inclusos negros e latinos, mas também um número significativo de trabalhadores brancos que, aliás, são a maioria dos que não possuem seguro de saúde  (ver figura abaixo).

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Há ainda que se lembrar que a desigualdade de renda nos EUA é uma das maiores dentre os chamados países industrializados, e vem crescendo aceleradamente desde o final da União Soviética.  O resultado disso é que os membros do 1% mais afluentes da sociedade estadunidense possuem acesso a todo tipo de luxo, enquanto uma porcentagem crescente está sendo empobrecida de forma galopante, com um número cada vez maior de pessoas sem trabalho e morando nas ruas das principais cidades dos EUA.

donald trumpO presidente Donald Trump foi um negacionista de primeira hora do impacto do coronavírus nos EUA, e agora paga o preço  da sua postura anti-científica

Para completar a equação, não há como deixar de fora a situação política, onde a atuação do presidente Donald Trump foi decisiva para uma piora nas condições de financiamento da pesquisa científica, com seguidos cortes de investimento e a ostracização de cientistas que passaram a ser vistos como inimigos das ideias por detrás do “Make America Great Again“.  Para piorar, Trump se apresentou até recentemente com um negacionista da pandemia, e só parece ter acordado para o problema quando ficou evidente que sofreria danos eleitorais se nada fosse feito para conter o número de mortos pela infecção. A partir daí, o que tem sido visto é um percurso errante de Trump, que culminou na sugestão de que as pessoas ingerissem dióxido de cloro (usado em alvejantes) para eliminar o coronavírus.

Como ocorre no Brasil em relação aos “bolsonaristas”, os seguidores de Donald Trump tem sido mobilizados para tentar romper as políticas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos para diminuir a velocidade de difusão do coronavírus. A diferença é que, ao menos por enquanto, nos EUA, a maioria da população vem ignorando as carreatas e manifestações dos seguidores de Trump. Entretanto, isto não tem impedido que governadores mais alinhados ao presidente Donald Trump sinalizem uma abertura precoce do comércio, mesmo em estados em que a difusão do coronavírus ainda está em fase de aceleração, como é o caso da Geórgia.

us pandemiaSeguidores de Donald Trump se mobilizam para acabar com as políticas de isolamento social em diferentes partes dos EUA

Ainda que seja difícil realizar um prognóstico definitivo de como os EUA estarão após o fim da pandemia, já é possível dizer que sairão com a imagem de maior nação do mundo e terra das oportunidades desmoronar de forma inapelável. É que certamente outros países mostrarão que com sistemas públicos de saúde e com políticas de apoio aos trabalhadores desempregados são as principais formas de enfrentamento desta e das outras pandemias que virão.

Finalmente, o economista Nouriel Roubini previu no início de março que a pandemia da COVID-19 levaria a um derrota eleitoral de Donald Trump e a uma recessão de dimensões globais que, em última instância, obrigaria um abandono das políticas neoliberais. A entrevista, quando dada, soou exagerada, mas nesta etapa da pandemia, Roubini parece ter acertado mais uma vez.

Estados Unidos: capitalismo, mais mortal que o coronavírus

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Por Mike Pappas and Tre kwon para o RP Dimanche

Milhares morrendo todos os dias e corpos empilhados em valas comuns. Essas são as imagens surreais que chegaram até nós desde o primeiro poder imperialista, o epicentro da pandemia atual. Uma situação que não é de modo algum inevitável e que foi amplamente orquestrada por décadas de políticas neoliberais, como demonstrado por Mike Pappas e Tre Kwon, editorialistas do jornal marxista Left Voice .

PR Dimanche: Quais foram as respostas de Trump e do governo federal à crise da saúde? Você pode nos contar mais sobre as leis de emergência que estão sendo aprovadas? E o Partido Democrata?

Tre Kwon: Primeiro, o governo Trump demorou demais para responder à crise. Apesar dos avisos do resto do mundo, Trump não fez nada para conter a propagação inicial do vírus. Ele então alegou que o vírus era uma “farsa” dos democratas e que não era pior que uma gripe, antes de finalmente admitir que o vírus estava se espalhando nos Estados Unidos, minimizando sua gravidade. Hoje, ele finalmente reconhece a magnitude do potencial número de vítimas humanas da epidemia enquanto nos preparamos para cruzar a marca de 20.000 no país. Sua posição inicial participou ativamente da disseminação do vírus, embora não esteja claro quantas pessoas o pegaram e o espalharam por sua culpa. As medidas de contenção tomadas hoje em muitos estados podem ser necessárias, mas também têm uma dimensão política ao criar um impedimento à ação coletiva e ao atomizar a classe trabalhadora. Além disso, em muitos países essas políticas fortalecem o aparato repressivo dos estados, o que obviamente é motivo de grande preocupação.

Economicamente, a Casa Branca e o Congresso concordaram com um resgate de US $ 2 trilhões. Desse montante, mais de meio trilhão de dólares serão destinados às grandes empresas – com US $ 60 bilhões apenas para as companhias aéreas. Em comparação, apenas US $ 125 bilhões são gastos em saúde. Você também deve saber que quase dez milhões de trabalhadores estão desempregados desde a explosão da crise, sabendo que esses números incluem apenas aqueles que solicitaram benefícios de desemprego – e, portanto, não incluem , os milhões de trabalhadores sem documentos que provavelmente perderam o emprego, mas não são elegíveis para o desemprego. Esta é a maior onda de demissões desde a Grande Depressão. A título de comparação, os Estados Unidos viram 12 milhões de empregos perdidos entre 1930 e 1932 … o que é hoje, em apenas duas semanas!

Nessa situação, todo cidadão americano deve receber um cheque de US $ 1.200 – mas em lugares como Nova York, geralmente é menor que o preço do aluguel. Sem congelar o aluguel, esse dinheiro é apenas um subsídio para os proprietários. Também não sabemos quando esse dinheiro realmente chegará. Esse pequeno subsídio é negado aos milhões de trabalhadores sem documentos nos Estados Unidos – trabalhadores que pagam impostos, mas não recebem apoio. Pelo contrário, a agência de deportação ICE continua prendendo os chamados residentes “ilegais” em meio a uma pandemia e, diferentemente dos hospitais, eles recebem equipamentos de proteção suficientes do governo.

O governo federal absolutamente não conseguiu se preparar para uma pandemia como essa. Trump está tentando culpar os estados. Seu genro, Jared Kushner, por exemplo, referiu-se ao estoque federal de respiradores e outros equipamentos que faltava muito quando ele dizia “nosso estoque”. Trump invocou a Lei de Produção de Defesa de 1950, que permitiria ao governo direcionar a indústria para a produção de suprimentos essenciais. Mas nada está acontecendo ainda. A General Motors, por exemplo, pediu US $ 1 bilhão para fabricar respiradores. Estamos nos aproximando do pico da epidemia, mas até agora a General Motors ainda não produziu um único respirador.

O Partido Democrata, liderado pela senadora e ex-candidata presidencial Elizabeth Warren, acrescentou alguns pontos ao resgate para combater as piores formas de corrupção que o mesmo incluía. Agora, as companhias aéreas não devem usar o dinheiro do resgate para recomprar ações, e as empresas de Trump não devem receber os fundos. No entanto, eles aceitaram amplamente a ideia de um resgate corporativo de trilhões de dólares e não ofereceram alternativa. Isso explica em grande parte o aumento do índice de aprovação de Trump nos últimos tempos – já que não há outras propostas em discussão. Desta forma, ele se apresenta como estando à esquerda dos democratas. Ele diz que, graças a ele, todos receberão US $ 1.200, enquanto a líder democrata Nancy Pelosi exige “controle de recursos”.

PR Dimanche: Os Estados Unidos são uma das principais potências capitalistas e, no entanto, seu sistema de saúde não está de acordo com o desafio. O que está faltando?

Mike Pappas: Existem tantos problemas que seria difícil mencionar todos eles: primeiro, como Tre disse, os Estados Unidos ficaram muito para trás na campanha de busca. A OMS validou um protocolo de teste, que muitos países começaram a aplicar, mas os Estados Unidos preferiram desenvolver o seu próprio, presumivelmente para uma empresa americana vencer o concurso. Essa política não apenas atrasou o estabelecimento de uma campanha massiva de triagem, mas também o CDC (órgão federal para a proteção da saúde pública, nota do editor) testes distribuídos, que foram encontrados com defeito. Quando pude fazer testes em larga escala, já era tarde demais para impedir a propagação do vírus entre a população.

Deve-se notar que uma das principais vantagens dos testes é que ele permite colocar em quarentena os casos detectados no Covid-19 e as pessoas com quem eles tiveram contato, como vimos na China. ou na Coréia do Sul. Mas para fazer isso, você precisa de um sistema de saúde pública forte, capaz de lidar com o acompanhamento de um grande número de casos. Os Estados Unidos não possuem esse sistema. Em vez disso, temos um sistema de saúde dominado por empresas privadas ou organizações sem fins lucrativos, mas que, no entanto, funcionam como empresas com fins lucrativos. Como resultado, acabamos com um sistema completamente desarticulado, incapaz de acompanhar a progressão de uma epidemia.

Este já era o caso antes da crise nos Estados Unidos; e agora teremos que lidar com o pico da epidemia em cidades como Nova York nas próximas semanas ou meses. O sistema de saúde americano já está completamente sobrecarregado pela pandemia. Enfermeiras de Nova York, por exemplo, já estavam ameaçando greve no ano passado para denunciar a falta de pessoal. Não importa como eles reclamaram, a gerência do hospital se recusou a tomar qualquer ação. Tudo o que importa para eles são custos mais baixos para aumentar os lucros, não importa o quê. Imagino as condições de trabalho atuais agora que a pandemia chegou.

PR Dimanche: Quais são os elos entre a disseminação do COVID-19, a economia capitalista e as políticas de saúde nos Estados Unidos?

Mike Pappas: Esta crise é um exemplo flagrante de como as políticas de mercado que os capitalistas continuamente retratam como benéficas para todos são de fato extremamente prejudiciais. Já em 2016, o governo Obama sinalizou a probabilidade potencial de uma epidemia global em um relatório que aprendeu lições da luta contra o vírus Ebola. Novamente em 2019, uma simulação do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo Trump, chamada Crimson Contagion, imaginou a possibilidade de uma pandemia global. Agora, se morássemos em um país com um sistema de saúde pública em funcionamento que trabalhasse para preparar e prevenir doenças, seria de esperar, com base nesses dados, que os hospitais tivessem se preparado para tais cenários. Em vez disso, os sistemas hospitalares optaram por suprimentos “just in time” porque a compra antecipada de suprimentos era um investimento não lucrativo.

A lógica do mercado também afeta o financiamento de empresas públicas. Numa sociedade em que o mercado está indubitavelmente reinando, a ideia de que deve haver menos interferência do governo se traduz em uma redução nos orçamentos das empresas públicas. Por exemplo, como o The Intercept informa, o governo Trump não apenas desligou a unidade global de segurança sanitária do Conselho de Segurança Nacional, mas também cortou fundos para organizações como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que se concentram especificamente na prevenção global de doenças. Em vez de financiar a pesquisa e o desenvolvimento público, essa lógica levou à assinatura de um grande número de contratos de pesquisa com empresas privadas que preferem investir dinheiro no desenvolvimento do próximo medicamento de sucesso, em vez de colocar tratamentos para proteger massivamente a população. Também são essas opções que pagamos hoje.

Mas também devemos considerar o gerenciamento da equipe do hospital. Há algum tempo, a gerência tenta reduzir o máximo possível, pois isso é visto como uma despesa adicional que ameaça os resultados. Infelizmente, esse downsizing é responsável por uma dificuldade muito maior quando se trata de responder a uma pandemia. Agora estamos vendo os diretores do hospital lutando para encontrar funcionários ou fazer com que os funcionários existentes trabalhem até que eles próprios desenvolvam os sintomas, contribuindo para a disseminação do vírus.

Mas se o governo não preparou o sistema de saúde pelas razões mencionadas acima, também tornou a população mais vulnerável. A destruição completa de um sistema de seguridade social é essencial para o funcionamento do sistema capitalista. É vantajoso para os capitalistas reduzir benefícios de desemprego, licença médica paga, etc. porque coloca a classe trabalhadora em uma posição mais profunda de precariedade e vulnerabilidade, além de economizar dinheiro. Quanto mais vulneráveis ​​as populações, mais fácil é explorá-las no local de trabalho, pois elas estão desesperadas para manter seus empregos. Nos Estados Unidos, os trabalhadores devem continuar trabalhando mesmo quando estão doentes.

Finalmente, eu diria que o capitalismo tornou a população mais vulnerável ao vírus e, ao mesmo tempo, tornou as instituições incapazes de responder a ele. O coronavírus é, no entanto, apenas um aviso do que acontecerá se não nos mobilizarmos contra esse sistema. O número de mortes e sofrimentos que se espera do coronavírus não é nada comparado ao que resultará da próxima crise climática. À medida que os capitalistas continuam destruindo o meio ambiente – 100 empresas são responsáveis ​​por 70% das emissões de gases de efeito estufa – veremos o surgimento de novas doenças, mas também o aumento dos conflitos globais, fomes e mortes.

Atualmente, à medida que a crise ocorre em todo o mundo, o governo Trump está trabalhando para reduzir os padrões da Agência de Proteção Ambiental (EPA), para que as empresas possam poluir ainda mais o ar. água todos nós precisamos para sobreviver. Conforme relatado pelo The Intercept, 2,2 milhões de pessoas poderiam morrer nos Estados Unidos se o coronavírus não fosse controlado. O aumento da poluição do ar aumentará o risco de complicações do coronavírus. Não é por acaso que os residentes do Bronx, historicamente afetados por políticas estruturalmente racistas, incluindo poluição ambiental desproporcional, têm duas vezes mais chances de morrer do coronavírus. Os estudos iniciais agora não mostram nenhuma surpresa que pessoas racializadas, em particular as negras, contraiam e morram de coronavírus a uma taxa desproporcionalmente mais alta do que o resto da população. É por isso que é crucial responder à crise com métodos que se opõem diretamente ao sistema econômico capitalista responsável por essa situação.

PR Dimanche: Exatamente, que medidas sociais e econômicas devem ser tomadas nos Estados Unidos para interromper o COVID-19?

Tre Kwon:País após país foi demonstrado que a estratégia mais eficaz para controlar a pandemia é a triagem em massa e o rastreamento de contatos recentes de pessoas infectadas. Essas medidas se mostraram eficazes em países como a Coréia do Sul, por exemplo. Combinadas com o isolamento de doentes e quarentena de casos suspeitos, essas medidas ajudaram a conter todo o país. Nos casos em que o vírus já está circulando na população, como nos Estados Unidos, são necessárias medidas de contenção, mas elas também devem ser combinadas com testes maciços e isolamento dos aglomerados. No entanto, um país como os Estados Unidos que cortou drasticamente o orçamento do sistema de saúde pública ao longo dos anos não pode arcar com as medidas necessárias de triagem e isolamento. Por outro lado, medidas gerais de contenção sem testes são convenientes para o governo, pois não há necessidade de pressionar o setor privado a produzir testes em massa.

Mike Pappas: Diante das dificuldades que enfrentamos, devemos ir contra as regras do capitalismo. Está começando a acontecer em diferentes níveis, agora que os governos capitalistas de todo o mundo percebem que as indústrias não podem e não participarão adequadamente dessa crise. Governos de todo o mundo, como Espanha e Irlanda, estão nacionalizando hospitais para ajudar a combater a crise. Nos Estados Unidos, após muita relutância, Trump usou a Lei de Produção da Defesa Nacional para coagir a General Motors aumentar a produção de equipamentos médicos vitais, como respiradores. Sem essas medidas, os capitalistas mostraram repetidamente sua determinação de permanecer ociosos, esperando uma oportunidade de maximizar seus lucros, enquanto as pessoas morrem.

Mais concretamente, a voz de esquerda [grupo norte-americano vinculado à Revolução Atual Comunista-Revolucionária Permanente Permanente, ndlt] defende um programa de emergência de 10 pontos, descrevendo as medidas imediatas que acreditamos que devem ser tomadas para lidar com a pandemia. Acreditamos que a população deve se mobilizar e exigir medidas como assistência médica gratuita ou o estabelecimento de licença médica de emergência para todos.Também precisamos nacionalizar imediatamente as indústrias em todos os setores quem pode ajudar com a crise e colocá-los sob o controle direto e democrático dos trabalhadores para garantir que sua produção seja usada para administrar a crise. Da mesma forma, são os pacientes e profissionais de saúde que devem controlar o sistema de saúde e como ele funciona, não os CEOs ricos e os acionistas do Conselho de Administração.

PR Dimanche: Como profissionais de saúde em Nova York, quais são suas condições de trabalho no hospital?

Mike Pappas: As condições de trabalho variam de um estabelecimento para outro. Em alguns centros, os funcionários estão equipados com uma máscara N95, que é solicitada a sua utilização por 1 a 2 semanas até ficarem ”  sujos, úmidos ou danificados  “. Em outros, ele recebe equipamentos de proteção individual que ele guarda por um dia inteiro. Qualquer que seja o estabelecimento, a falta de equipamentos de proteção é flagrante. Também há escassez de outros suprimentos, como respiradores, bolsas de infusão, seringas, etc. A falta de respiradores em uma situação em que os pacientes precisam deles para sobreviver significa um aumento inevitável das mortes.

Os profissionais de saúde trabalham longas horas e são constantemente expostos. As unidades de saúde não testam regularmente a equipe quanto ao coronavírus, mesmo sabendo que existem muitos portadores assintomáticos. Embora nunca o admita, isso se deve em parte ao medo da gerência de que muitos funcionários sejam testados positivamente e se retirem da força de trabalho já severamente restrita.

No entanto, os trabalhadores de Nova York retaliam. Enfermeiros, médicos e outros trabalhadores da linha de frente estão planejando ações nos hospitais da cidade para falar sobre a situação atual. Os enfermeiros do Hospital Jacobi, no Bronx, Nova York, organizaram recentemente uma ação para chamar a atenção para as más condições de trabalho. O “Grupo de Trabalho dos Trabalhadores da Linha de Frente Contra o COVID-19”, no qual estou envolvido, organizou recentemente uma ação no Hospital Mount Sinai para chamar a atenção para a falta de equipamentos de proteção individual, os maus protocolos de controle e isolamento de infecções e acordos inadequados de licença médica. Pedimos tolerância zero para retaliação contra funcionários que falaram ou que expressaram raiva.

PR Dimanche: Você pode nos contar mais sobre o movimento de greve descontrolada e a persistência da luta de classes na crise?

Tre Kwon: Você já deve saber que o número de greves nos Estados Unidos aumentou nos últimos dois anos. No ano passado, milhares de enfermeiros dos hospitais de Nova York lutaram por um aumento na equipe. Nossa greve foi sabotada no último minuto pela liderança burocrática de nosso sindicato. Mas agora vemos quão importantes eram nossas demandas para exigir mais funcionários.

Os Estados Unidos, onde pouquíssimos trabalhadores são sindicalizados, particularmente no setor privado, viram uma pequena explosão de ações dos trabalhadores contra a crise. Trabalhadores em vários armazéns da Amazônia em todo o país estão exigindo proteção contra pandemia – durante uma ação em Staten Island, em Nova York, um dos organizadores foi demitido pela empresa. O proprietário da Amazon, Jeff Bezos, ganhou US $ 6 bilhões adicionais desde o início da crise.

Houve ações semelhantes em todo o país, como 1.000 trabalhadores em uma fábrica de frigoríficos do Colorado deixando o local de trabalho ou trabalhadores de saneamento em Pittsburg exigindo melhores proteções. Os trabalhadores da indústria automobilística fecharam as três maiores montadoras com ataques violentos – depois que os líderes sindicais se recusaram a fechar as fábricas. Talvez a ação mais progressista que vimos até agora seja a dos trabalhadores da General Electric em Lynn, Massachusetts, que exigiram que a empresa começasse a fabricar respiradores em vez de fechar fábricas e deixar os trabalhadores desempregados.

PR Dimanche: Que política a esquerda do Partido Democrata está liderando? Os ativistas que se mobilizaram em torno da campanha Sanders, principalmente através da DSA, desempenham um papel nesses novos processos de luta de classes? Quais são as possibilidades para os revolucionários nesta nova situação?

Tre Kwon: Na quarta  feira, Bernie Sanders suspendeu sua campanha pelas primárias do Partido Democrata . Por um ano, a maioria dominante da corrente da DSA, perto da revista Jacobin , garante que Sanders possa ganhar a indicação. Apenas seis semanas atrás, eles proclamaram que os democratas eram “o partido de Bernie agora”. Mas o establishment do partido conseguiu se afirmar e se reagrupar em torno de Joe Biden.

Sanders e outros “socialistas” do Partido Democrata agora farão campanha por Biden – um político que há muito trabalha com segregacionistas, defende empresas de cartão de crédito e aprisiona pessoas racializadas. É por isso que a campanha Sanders não tem nenhum papel na luta contra o coronavírus. A demanda central de Sanders por seguro de saúde para todos é progressiva – mesmo que seja insuficiente e seria necessário mobilizar todos os recursos disponíveis contra a pandemia. Todo o Partido Democrata, incluindo Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, votou no resgate de US $ 2 trilhões para empresas propostas por Trump.

Isso abre um cenário interessante para os revolucionários. A ascensão do “socialismo milenar” nos Estados Unidos levou a um crescimento explosivo dos socialistas democratas da América [membros do movimento DS]. Toda essa energia foi canalizada para a campanha Sanders. Houve até várias organizações que se consideravam socialistas revolucionárias que seguiram essa onda e se dissolveram nessa corrente reformista. Agora, dezenas de milhares de pessoas que fazem campanha por Sanders há meses estão procurando alternativas. Alguns deles podem estar desmoralizados, mas, diante da próxima crise do capitalismo, muitos outros se radicalizarão. Hoje, o nosso objetivo é construir uma esquerda socialista revolucionária neste país que saiba tirar proveito de toda a energia dessas lutas dos novos trabalhadores e que saiba vinculá-las à perspectiva de uma revolução socialista internacional.

Créditos da foto: Craig Stephens
Artigo publicado originalmente na Ideas de Izquierda
Tradução de Notti Ness e Ines Rossi

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Este artigo foi originalmente publicado pela Revolution Permanent Dimanche [Aqui!].

A COVID-19 em tempos da pirataria estatal: roubo, desvio e apreensão de equipamentos médicos

equipamentoCaixas de máscaras protetoras são descarregadas de um avião da Air China com suprimentos médicos doados pelo governo chinês, em Atenas, Grécia, em 21 de março de 2020. REUTERS / Alkis Konstantinidis REUTERS – ALKIS KONSTANTINIDIS

A resposta tardia de muitos governos (incluindo países poderosos como EUA e França, mas incluindo também o Brasil) à pandemia causada pela COVID-19 está resultando em uma retomada de práticas selvagens de pirataria estatal que remontam ao Século XVII. Há uma crescente evidência que, sob a liderança dos EUA, diversos países estão empregando táticas agressivas, via leis do capitalismo selvagem ou pelo simples uso de regras alfandegárias) para desviar todo tipo de material médico que seria usado para combater os aspectos mais drásticos da pandemia da COVID-19.

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As autoridades de Berlim dizem que 200.000 máscaras  foram desviadas para os EUA, pois estavam sendo transferidas entre aviões na Tailândia. Fotografia: David Becker / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

O primeiro a gritar foi  o presidente da região sul da França, Renaud Muselier, que denunciou que máscaras adquiridas e pagas pela França  foram compradas “no asfalto”   do aeroporto por agentes dos EUA, que teriam pago mais do que 3 vezes mais do que os franceses já haviam pago para ficar com o material.

No dia de hoje, o mesmo relato foi oferecido pelo secretário da Casa Civil do estado da Bahia, Bruno Dauster, que informou que uma carga de 600 respiradores que foi comprada na China foi inicialmente retida no Aeroporto Internacional de Miami para depois ter a entrega a um consórcio de estados nordestinos simplesmente cancelada.  A desconfiança é que, mais uma vez, o governo Trump agiu para ficar com uma carga que já sido paga pelos brasileiros.

Em um artigo assinado por Alan Mcleod para o site “MPN News” aparece a informação que outros países também tomaram decisões altamente questionáveis acerca da apreensão de materiais médicos, citando a ação de autoridades tchecas que apreenderam suprimentos médicos chineses que estavam sendo enviados para Itália, enquanto a aeronave que levava o carregamento realizava o processo de reabastecimento de combustível. Entretanto, MCleod sinaliza claramente que esse processo de “pirataria estatal de equipamentos médicos” está sendo liberado globalmente pelo governo Trump.

Um exemplo mais subliminar foi o “pedido” do presidente Donald Trump para que a gigante 3M acelecerasse a fabricação de máscaras hospitalares para atender apenas os EUA, sacrificando o envio de máscaras e respiradores mecânicos  para o Canadá e para a América Latina, segundo informou a empresa em comunicado oficial.

Interessante notar o papel nefasto das empresas chinesas nessa situação. É que as práticas de revender o que já havia sido pago por outros compradores sinaliza a adesão à uma lógica da superexploração e do incentivo à concorrência desleal entre clientes. E isso tudo no meio de uma pandemia gravíssima e de alcance ainda incalculáveis.  

Apesar de ter ido na China e visto como funciona o que os chineses denominam desocialismo com características chinesas“, não me considero capaz de realizar uma crítica mais profunda sobre o que de fato existe por lá (i.e., socialismo a la chinesa ou capitalismo de estado puro e simples). Mas uma coisa me parece certa: no presente momento, muitas empresas chinesas estão colocando a maximização do lucro acima dos contratos já firmados.   Isto, no mínimo, não me parece uma forma muita solidária de ajudar o mundo a debelar uma pandemia.

Já no tocante aos EUA e outros governos que estão colocando em prática de pirataria estatal, não posso dizer que estou surpreso. É que em momento de “farinha pouca”, os que podem mais tendem a querer “o pirão” todo para eles.

Negacionismo científico de Donald Trump colocou os EUA no centro da pandemia da COVID-19

Donald Trump,Jair Bolsonaro,TrumpDonald Trump e Jair Bolsonaro: dois negacionistas do conhecimento científico que agora precisam que os cientistas gerem respostas rápidas e eficazes para uma pandemia que eles ignoraram propositalmente.

O presidente Donald Trump, como seu congênere brasileiro Jair Bolsonaro, é um negacionista da importância do conhecimento científico. Como Bolsonaro, Trump negou os imensos riscos que estavam sendo criados sobre o povo dos Estados Unidos da América (EUA) pela rápida e letal expansão do COVID-19 em diferentes partes do planeta (ver vídeo abaixo).

Agora, os EUA estão no olho do furacão e já possuem mais cidadãos contaminados do que a China. A rede hospitalar estadunidense, majoritariamente controlada por grandes corporações, já chegou rapidamente à beira do colapso e, como em outros países, é provável que também os serviços funerários cheguem ao limite de sua capacidade em um momento muito distante.

Como já previsto pelo economista israelense Nouriel Roubini, o mesmo que previu o crash das bolsas em 2008,  já disse que Trump deverá perder as próximas eleições presidenciais por sua insistência por negar as evidências robustas que estavam sendo apresentadas pela comunidade científica acerca dos perigos postos pelo COVID-19.

Mas pior do que perder uma eleição, é provável que Donald Trump passe aos livros de história como aquele governante que permitiu que a maior potência econômica e militar do mundo sofra uma hecatombe sanitária por sua arrogância em relação ao conhecimento científico.

Entretanto, as semelhanças entre os presidentes do Brasil e o dos EUA nos ensinam importantes lições sobre a necessidade de se valorizar o conhecimento científico como a base de superação dos grandes desafios que estão postos neste momento, a começar pela pandemia do coronavírus.

Finalmente, lembro que morei nos EUA por mais de 7 anos, contando desde a minha chegada no Oak Ridge National Laboratory onde participei de uma equipe incrível por 1 ano e meio, o meu doutoramento na Virginia Tech onde fiquei quase 5 anos, e finalmente o meu pós-doutorado na Fairfield University onde atuei como bolsista da Comissão Fulbright por 11 meses. Em todo esse tempo, acumulei amizades que perduram até hoje, e hoje me preocupo com o destino de todas as amigas e amigos que como nós estão expostos aos riscos do COVID-19. 

Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Bomba-relógio: EUA criam bolha de dívida corporativa mais assustadora da sua história

dolar

Cada vez mais analistas econômicos se lembram da crise financeira de 2008 e advertem que as bolhas podem voltar e arrebentar a qualquer momento. Analista econômico avalia o perigo atual.

Se há mais de 10 anos foi a bolha do mercado imobiliário, agora há outra bomba-relógio: a dívida corporativa,  opina o analista econômico Michael Snyder.

“Nós enfrentamos uma bomba de dívida corporativa que é muito, muito maior do que a que enfrentamos em 2008”, disse o autor no seu artigo para TheMostImportantNews.com.

Segundo o analista, as taxas de juros excessivamente baixas da última década permitiram às corporações estadunidenses acumular a maior dívida corporativa da história.

A dívida corporativa total dos Estados Unidos alcançou quase US$ 10 trilhões (R$ 41 trilhão), um recorde de 47% da economia em geral, observa o autor.

No entanto, a dívida total das empresas é na realidade muito maior, se se tiver em conta a dívida das pequenas e médias empresas, as empresas familiares e outras que não estão cotadas na bolsa. Segundo Snyder, há que adicionar outros US$ 5,5 trilhões (R$ 229 trilhões).

“Todo o mundo pode ver que se aproxima um grande desastre da dívida corporativa, mas ninguém parece saber como o deter”, afirmou.

Nas últimas semanas, a Reserva Federal, o Fundo Monetário Internacional e os principais investidores institucionais, como BlackRock e American Funds, deram a voz de alarme sobre as crescentes obrigações das empresas.

“Nunca assistimos a uma crise da dívida corporativa desta magnitude”, comentou o analista.

A dívida das empresas “aumentou uns enormes 52% desde 2008, e esta bolha cresce continuamente”.

“Estamos sentados sobre uma bomba sem explodir, e realmente não sabemos o que é que a fará explodir”, cita o autor Emre Tiftik, especialista em dívida do Instituto de Finanças Internacionais.

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Este artigo foi originalmente publicado pela agência Sputnik [Aqui!].

A queda de John Bolton deve ampliar isolamento internacional do Brasil

bolton bolsoO presidente Jair Bolsonaro e  John Bolton em novembro de 2018, durante a visita do então assessor de Segurança Nacional de Trump ao Brasil. REPRODUÇÃO/JAIR BOLSONARO

Vista de longe a queda de John Bolton, assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, poderia ser considerada como algo que não afeta o já precário balanço diplomático em que o Brasil se encontra neste momento.  Mas não ver a direta relação entre a remoção de Bolton e a ampliação do isolamento em que o Brasil foi posto pelas posições extremadas do presidente Jair Bolsonaro e a maioria dos seus ministros seria um erro primário.

O fato é que sendo um extremista em posições ideológicas pró-EUA, John Bolton oferecia ao governo Bolsonaro uma espécie de chancela a todo tipo de postura que afastasse a diplomacia brasileira de seu histórica postura pragmática de não interferência em assuntos alheios.  Um exemplo disso foi a quase intervenção militar na Venezuela onde o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo,  se colocou de forma entusiástica a favor de uma invasão do país vizinho em um clara coordenação com o que pregava o agora demitido assessor de segurança nacional de Trump.

Ao perder a ligação direta com os círculos mais duros do núcleo decisório de poder dentro dos EUA, o mais provável é que o Brasil, por causa das posturas do presidente Bolsonaro e sua entourage, passa cada vez mais a um isolamento também em relação ao governo Trump.  A razão para isto é simples: Donald Trump está envolvido em uma batalha de vida ou morte por sua sobrevivência política em face da posição cada vez mais delicada da economia estadunidense, e não terá muito tempo para se distrair com presidentes com posturas extremadas, pois o que lhe dará frutos dentro de casa será justamente demonstrações de que pode os EUA podem exercer eficientemente sua influência política, econômica e militar sobre o resto do mundo.

Mas o fato objetivo é que sem John Bolton, o governo Bolsonaro tenha maiores dificuldades para exercer a influência brasileira até na América do Sul. Se à queda de Bolton se somar uma eventual, e cada vez mais provável, derrota eleitoral de Maurício Macri nas eleições presidenciais argentinas, aí a coisa tenderá a desandar de vez.

A agricultura dos EUA é 48 vezes mais tóxica do que há 25 anos. A culpa é dos neonicotinóides

Um novo estudo mostra que a classe de inseticidas chamada neonicotinóides representa uma ameaça significativa aos insetos, ao solo e à água.

4869“Os neonicotinóides não são apenas consideravelmente mais tóxicos para insetos do que outros inseticidas, são muito mais persistentes no meio ambiente”. Fotografia: Alamy Foto 

*Por Kendra Klein e Anna Lappé para o “The Guardian”

Há mais de 50 anos, Rachel Carson alertou para uma “primavera silenciosa”, as canções de robins e tordos de madeira silenciados por agrotóxicos altamente tóxicos como o DDT. Hoje, há um novo espectro de agrotóxicos: uma classe de inseticidas chamados neonicotinóides. Durante anos, os cientistas têm alertado sobre esses matadores de insetos, mas um novo estudo revela um quadro mais completo da ameaça que representam para a vida dos insetos.

Comercializados pela primeira vez na década de 1990, os neonicotinóides, ou neonics, são os inseticidas mais utilizados no mundo. Eles são usados ​​em mais de 140 colheitas, de maçãs e amêndoas a espinafre e arroz. Quimicamente semelhantes à nicotina, eles matam insetos atacando suas células nervosas.

O Neonics foi lançado como uma resposta à crescente resistência das pragas aos inseticidas reinantes. Mas, em um esforço para matar as pragas de forma mais eficaz, criamos uma explosão na toxicidade da agricultura não apenas para insetos indesejados, mas também para as abelhas, joaninhas, besouros e a vasta abundância de outros insetos que sustentam a vida na Terra.

O que sabemos agora é que os neonics não são apenas consideravelmente mais tóxicos aos insetos do que outros inseticidas, são muito mais persistentes no meio ambiente. Enquanto outros quebram dentro de horas ou dias, neonics pode permanecer em solos, plantas e cursos d’água por meses ou anos, matando insetos por muito tempo depois que eles são aplicados e criando uma carga tóxica composta.

Um novo estudo, publicado na revista científica PLOS One, projetou uma maneira de quantificar essa persistência e combiná-la com dados sobre a toxicidade e os quilos totais usados de neonics e outros inseticidas. Pela primeira vez, temos um lapso de tempo de impacto: podemos comparar as mudanças ano a ano na toxicidade da agricultura dos EUA para insetos. Os resultados? Desde que o neonics foram introduzidos pela primeira vez há 25 anos, a agricultura dos EUA tornou-se 48 vezes mais tóxica para a vida dos insetos, estes agrotóxicos são responsáveis por 92% desse aumento na toxicidade

Olhando para esse lapso de tempo tóxico, outro detalhe interessante emerge: há um aumento dramático na carga tóxica da agricultura dos EUA para insetos a partir de meados dos anos 2000. Foi quando os apicultores começaram a relatar perdas significativas de suas colmeias. Foi também quando as empresas de pesticidas que fabricam os agrotóxicos neonics , a Bayer e a Syngenta, encontraram um novo uso lucrativo para essas substâncias químicas: o revestimento de sementes de culturas como milho e soja, cultivadas em milhões de hectares em todo o país. Atualmente, esses revestimentos de sementes respondem pela grande maioria do uso de neonics nos EUA.

Os neonics são “sistêmicos”, o que significa que são solúveis em água e, portanto, absorvidos pela própria planta, tornando seu néctar, pólen e frutas – tudo isso – tóxico. Apenas cerca de 5% do revestimento de sementes é absorvido pela planta, o restante fica no solo e pode acabar em rios, lagos e água potável com o escoamento causando danos à vida selvagem e, como mostram evidências emergentes, para as pessoas.

Este estudo vem na esteira da primeira análise das populações globais de insetos, que encontraram 40% das espécies em extinção, com perda quase total de insetos até o final do século, impulsionada em parte por agrotóxicos neonics , uma preocupação particular.

Por todo esse dano, os agricultores recebem poucos benefícios, se é que existem, dos revestimentos de sementes baseados em neonics . De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, eles fornecem “pouco ou nenhum benefício geral à produção de soja”, embora quase metade das sementes de soja nos EUA sejam tratadas com este tipo de agrotóxico. Análises semelhantes encontraram o mesmo para o milho, mas até 100% das sementes de milho dos EUA são tratadas com neonics .

Todo esse risco sem recompensa levou alguns reguladores a agir. A União Européia votou pela proibição dos piores neonics em 2018. Mas o governo dos EUA até agora não conseguiu agir. O lobby das empresas químicas pode explicar grande parte dessa inação. A Bayer, fabricante do neonic mais utilizado, gastou cerca de US $ 4,3 milhões fazendo lobby nos EUA em nome de sua divisão agrícola em 2017.

Não apenas a EPA paralisou a revisão científica dos neonics , no ano passado, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem reverteu uma proibição da era Obama ao uso desses perigosos inseticidas em refúgios de vida silvestre. O Congresso poderia mudar isso. O ato democrático do deputado Earl Blumenauer, de Saving America’s Pollinators, proibiria os neonics e outros inseticidas sistêmicos, tóxicos para polinizadores. O projeto tem 56 co-patrocinadores, mas enfrenta um grande obstáculo no comitê agrícola da Câmara, já que o representante do presidente, Collin Peterson, democrata de Minnesota, conta com a Bayer e a associação de comércio da indústria de pesticidas, Croplife America, entre seus principais contribuintes financeiros.

Além de uma proibição, precisamos de um esforço concertado para fazer a transição da agricultura dos EUA para longe da dependência de agrotóxicos e para métodos ecológicos de controle de pragas. Nós já sabemos como fazer isso. Pesquisas mostram que fazendas orgânicas suportam até 50% mais espécies polinizadoras e ajudam outros insetos benéficos a florescer. E ao eliminar os neonics e cerca de 900 outros ingredientes ativos de agrotóxicos, eles também protegem a saúde humana.

Mais de cinco décadas atrás, Rachel Carson advertiu que a guerra que estamos travando contra a natureza com agrotóxicos é inevitavelmente uma guerra contra nós mesmos. Isso é tão verdadeiro hoje como era então. Para o bem dos pássaros e das abelhas – e de todos nós – essa guerra deve terminar.

*Kendra Klein, PhD, é cientista sênior da equipe Friends of the Earth US, e Anna Lappé é a co-fundadora de duas organizações nacionais de alimentos e sustentabilidade e está trabalhando em um livro sobre agrotóxicos e nossos alimentos

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].