Como alguém que passou cerca de 7 anos vivendo nos EUA e acompanhando os enfrentamentos eleitorais entre republicanos e democratas, não posso deixar de explicitar minha inconformidade e angústia com o apoio de segmentos da esquerda brasileira, especialmente aquela que se pretende pós-PT e pós-marxista, à candidatura da vice-presidente Kamala Harris para enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais que ocorrerão em Novembro.
O apelo para estes segmentos é de que Harris é mulher e negra, como se isso fosse algum tipo de selo de garantia de que irá operar na defesa das mulheres e dos negros, ou que representará uma solução menos danosa do que a de Donald Trump quando se tratar dos interesses dos trabalhadores brasileiros.
Bastaria analisar o nível de aderência da vice-presidente de Joseph Biden ao programa do Partido Democrata para se concluir que as diferenças, ainda que existentes, entre ela e Trump não podem ser justificativas para uma adesão eleitoral (aliás, como se isso fizesse alguma diferença para os eleitores dos EUA).
Como disse uma vez a uma jovem ativista democrata que não entendia meu ceticismo com a eleição de Barack Obama, para nós que vivemos nos países de capital dependente do sul global, escolher entre democratas e republicanos é um exercício inútil, pois as políticas externas dos dois partidos são quase uma cópia perfeita do outra. É uma mistura de tiro, porrada e bomba, sempre que os interesses estratégicos (e mesmo táticos) dos EUA parecem que estão em risco.
O caso da guerra de extermínio que Israel está promovendo em Gaza neste momento é um belo exemplo de como no frigir dos ovos, democratas e republicanos não possuem qualquer diferença substancial, pois o que conta mesmo é manter as estruturas de sustentação que os EUA criaram após o final da segunda guerra mundial.
Desta forma, me parece claro que qualquer declaração de apoio (indepedente do nível de entusiasmo) a uma candidata do perfil de Kamala Harris explicita o nível de indigência teórica em que a esquerda com viés identitário se encontra. A única coisa útil que eu vejo nessa situação é saber o tamanho do problema em que nos encontramos para consolidar uma alternativa de esquerda que esteja à altura das tarefas históricas que o atual momento histórico nos impõe.
BUTLER, PENNSYLVANIA – JULY 13: Republican presidential candidate former President Donald Trump is rushed offstage during a rally on July 13, 2024 in Butler, Pennsylvania. (Photo by Anna Moneymaker/Getty Images)
Por Douglas Barreto da Mata
Na década de 50 do século passado, um episódio semelhante ao atentado a Trump na Pensilvânia aconteceu na política brasileira. Homens que estavam a mando de Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial de Getúlio Vargas, tentaram matar o líder mais estridente da oposição, Carlos Lacerda, e não só falharam, como mataram o segurança do “Corvo”, como era conhecido Lacerda.
Lacerda foi atingido no pé, mas a morte do Major Vaz levou Vargas a dizer a seguinte frase: “Esse tiro me acertou pelas costas”. Depois do trágico evento, Vargas foi acossado pela chamada “República do Galeão”, um enclave golpista que assumiu para si a investigação do assassinato, e a oposição, aí incluindo Lacerda, explorou como pode o desgaste do Presidente, que jurou que de nada sabia.
É possível, mas o fato é que tudo acabou com o suicídio do acuado Vargas.
Essa introdução serve apenas para ilustrar o momento histórico que presenciamos no atentado estadunidense. A despeito da tradição dos EUA em matar ou tentar matar presidentes, os tiros disparados ontem, ao que tudo indica, por um jovem de 20 anos, a partir de um M16 (AR 15) acabaram por atingir o já cambaleante Joe Biden.
São fortes as imagens de Trump saindo do local, punho em riste, emulando seu sacrifício a turba ensandecida, como se estivesse em um espetáculo, “fight” (lutem, ou luta) repetia o candidato atingido. É disso que se trata.
Naquele átimo de segundo, enquanto os agentes do serviço secreto se amontoavam sobre ele, Trump teve sua revelação, e previu: esse pedaço de orelha é meu passaporte para a Casa Branca.
Impressionante também a cumplicidade dos agentes, que, ao contrário do padrão de conduta nesses casos, deixaram o alvo bem exposto, mesmo ainda sem saberem se havia outro atirador posicionado em outro lugar. A imagem de uma agente loira, 20 cm mais baixa que o alvo, tentando colocar os braços na frente do gigante laranja foi de pasmar.
Tudo isso reforça a imagem da indestrutibilidade e total falta de prudência do candidato, que projeta um destemor e virilidade caras ao imaginário estadunidense, que vai do Far West até os justiceiros dos comics books e do cinema.
Atônitos, os líderes de outros países, adversários políticos, enfim, todos que têm, direta ou indiretamente, algo a ver com o que vai acontecer nos EUA, ou seja, o mundo todo, encaixam sua hipocrisia, dizendo os mesmos adjetivos de sempre: “inaceitável”, “monstruosidade”, ou frases feitas, tipo, “não há lugar para esse tipo de violência”.
Não, isso é mentira, tanto há espaço que aconteceu.
A receita de violência verbal de extrema direita, pouco controle de armas, ou nenhum controle, histórico de atuação militar dos EUA, em suma, o caldo de cultura do confronto fermentado ao longo dos séculos da História dão contornos exatos ao que aconteceu.
Por outro lado, apesar das manifestações de pesar e de espanto, não há como ignorar que o mundo seria bem melhor se figuras como Trump não tivessem a chance de disputar (e ganhar) a Presidência dos EUA, e pudesse encaminhar o mundo para becos sem saída, inclusive o nuclear.
Desejar a morte dele, e lamentar a péssima pontaria do atirador? Não, por óbvio não, até porque, de nada adiantará. O problema da política atual não reside em nomes, embora ela revele (a política) seus piores humores com figuras desse tipo, como Zelensky, Trump, Bolsonaro, Le Pen, etc. A questão não é a existência física de Trump ou de Hitler, embora a História também se faça através desses agentes, claro.
Há detalhes pessoais que mudam tudo, é certo. Esta foi a brilhante idéia de estudantes alemães que criaram um polêmico vídeo, como proposta de propaganda da Mercedes Benz, veja aqui.
O problema são os contingentes históricos, isto é, a realidade histórica que nos trouxe até esse lugar, ou pior dizendo, não-lugar. O poder político e a política se divorciaram do fazer (político), como disse Bauman, e tanto à direita, quanto à esquerda, a representatividade e capacidade de intervenção dos agentes políticos na realidade parece confinada em ambiente virtual, que reproduz uma guerra de costumes e culturais, enquanto as sócio reproduções do modelo econômico são controladas por enormes conglomerados financeiro-digitais.
Se antes, a noção de democracia no capitalismo era uma distração (ler Ellen Meiskins Wood), mas que, de certa forma, organizou as instituições necessárias ao funcionamento, ainda que mais ou menos precário das sociedades (a depender de que parte do planeta estavam instaladas essas superestruturas), hoje, parece que tal fio condutor se desprendeu completamente, opondo personagens políticos que nada simbolizam, ou, não conseguem mais conectar suas bases de apoio às verdadeiras demandas desses estratos sociais.
Então, lá vamos nós, se a vida imita a arte:
“Respeitável público”, ou no caso de Donald Trump: “You are fired”…
A Amazônia é um daqueles mitos fundacionais sobre os quais os militares e a extrema-direita brasileira gostam de depositar suas justificativas de destino manifesto. Mas se examinarmos melhor a situação sob o ponto de vista de algo que controla o comércio global, a Amazônia já deixou de ser brasileira para ser chinesa e estadunidense.
Uma postagem no site oficial do INPI, mostra queos pedidos ou depósitos de patentes de maior número com bionsumos foram relacionados ao Açaí (10,1%), Cupuaçu (5,6%) e Babaçu (4,9%). Como se sabe que empresas chinesas estão produzindo até peixes amazônicos em cativeiro, não será surpresa nenhuma descobrirmos que há mais recursos amazônicos que chineses e estadunidenses já patentearam.
Tentei acessar o relatório completo do INPI, mas o mesmo parece estar sob algum tipo de sigilo, o que pode ser mais um indicador do tamanho do problema que é causado pelo atraso tecnológico e pela falta de investimentos nas universidades públicas que lideram estudos com potencial de serem patenteados pelo Brasil.
Estudantes da Harvard University pressionam pelo fim das relações da instituição com empresas ligada e fundos de investimentos ligados a Israel
Nas últimas semanas vem ocorrendo uma espetacular onda de ações estudantis nas principais universidades dos EUA contra a guerra promovida por Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza. Tendo começado na Columbia University, essa revolta já alcançou 40 universidades, incluindo algumas bastante importantes como a Harvard University, a Yale University e a UCLA.
A principal demanda dos estudantes estadunidenses envolve a interrupção de investimentos das universidades em empresas ou fundos de investimento que tenham ligações com o estado de Israel. A alegação é que ao investir em empresas e fundos financeiros que estejam envolvidos no aporte de armas e dinheiro para apoiar a guerra promovida contra os palestinos em Gaza, as universidades se tornam parceiras do genocídio que está em curso na Palestina.
Uma primeira universidade que já se curvou às pressões estudantis foi a Brown University que é universidade privada de pesquisa da tradicional Ivy League, e que fica localizada na cidade Providence, estado de Rhode Island. Fundada em 1764, a Brown University é a sétima instituição de ensino superior mais antiga dos EUA. Após um forte movimento de ocupação dentro do seu campus, o Conselho Corporativo da Brown University informou que votará uma proposta de desinvestimento nos interesses israelenses como forma de aplacar as demandas estudantis.
Estudantes franceses protestam contra a guerra na Faixa de Gaza sob forte presença de contingentes policiais
Enquanto isso no Brasil…
Curiosamente no Brasil, a questão da Faixa de Gaza não tem despertado nem uma mísera fração da ebulição que está ocorrendo nos países do capitalismo central. Quem fizer uma visita à página oficial da União Nacional dos Estudantes (UNE) vai se deparar com notas até sobre a defesa de um trabalho de conclusão de curso sobre a junção entre RAP e a luta contra o racismo, mas nada sobre a agressão israelense que já matou mais de 34.000 palestinos (a maioria mulheres e crianças) na Faixa de Gaza.
O mesmo silêncio sobre a guerra em Gaza pode ser encontrado na página oficial da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), onde abundam notas sobre a luta pela revogação da chamado “Novo Ensino Médio”, mas nada sobre o conflito que agita as universidades dos países centrais.
Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense onde atuo em um centro que reúne estudantes de Ciências Sociais onde a guerra em Gaza já deveria ter rendido um mísero cartaz, nem isso aconteceu. Parece que todos, a começar pelos professores, estão anestesiados e indiferentes ao sofrimento dos palestinos.
A minha expectativa é que essa onda de revolta estudantil, como todo o resto, uma hora bata nas nossas praias e campi universitários. É que, curiosamente, a mobilização que assola as principais universidades do capitalismo central tem a ver com questões que colocam em xeque o próprio funcionamento do sistema neoliberal que hoje se ampara em uma mescla de especulação financeira e fortalecimento da indústria de armas.
A Consumer Reports conduziu recentemente a sua análise mais abrangente sobre pesticidas em 59 frutas e vegetais dos EUA. Aqui a organização compartilha o que encontrou
Por Catherine Roberts da Consumer Reports, com gráficos de Aliya Uteuova, para o “The Guardian”
Quando se trata de alimentação saudável, frutas e vegetais reinam supremos. Mas juntamente com todas as suas vitaminas, minerais e outros nutrientes pode vir outra coisa: uma dose pouco saudável de pesticidas perigosos.
Embora a utilização de produtos químicos para controlar insetos, fungos e ervas daninhas ajude os agricultores a cultivar os alimentos de que necessitamos, está claro, pelo menos desde a década de 1960, que alguns produtos químicos também acarretam riscos inaceitáveis para a saúde. E embora alguns agrotóxicos notórios , como o DDT, tenham sido proibidos nos EUA, os reguladores governamentais têm sido lentos a agir sobre outros. Mesmo quando um produto químico perigoso é retirado do mercado, as empresas e produtores químicos por vezes começam a utilizar outras opções que podem ser igualmente perigosas.
A Consumer Reports, que acompanha a utilização de agrotóxicos nos produtos há décadas, tem visto este padrão repetir-se continuamente. “São dois passos para frente e um para trás – e às vezes até dois passos para trás”, diz James E Rogers, que supervisiona a segurança alimentar na Consumer Reports.
Para ter uma ideia da situação actual, a Consumer Reports conduziu recentemente a nossa análise mais abrangente de sempre sobre agrotóxicos nos alimentos. Para o fazer, analisámos sete anos de dados do Departamento de Agricultura dos EUA, que todos os anos testa uma selecção de produtos convencionais e orgânicos cultivados ou importados para os EUA em busca de resíduos de agrotóxicos. Analisamos 59 frutas e vegetais comuns, incluindo, em alguns casos, não apenas versões frescas, mas também enlatadas, secas ou congeladas.
Nossos novos resultados continuam a levantar sinais de alerta.
Os agrotóxicos representaram riscos significativos em 20% dos alimentos que examinamos, incluindo escolhas populares como pimentões, mirtilos, feijão verde, batatas e morangos. Um alimento, o feijão verde, continha resíduos de um agrotóxico cujo uso em vegetais não era permitido nos EUA há mais de uma década. E os produtos importados, especialmente alguns do México, eram particularmente suscetíveis de conter níveis arriscados de resíduos de agrotóxicos.
Mas também houve boas notícias. Os agrotóxicos apresentavam poucos motivos de preocupação em quase dois terços dos alimentos, incluindo quase todos os orgânicos. Também encorajador: os maiores riscos são causados por apenas alguns agrotóxicos, concentrados num punhado de alimentos, cultivados numa pequena fracção das terras agrícolas dos EUA. “Isso torna mais fácil identificar os problemas e desenvolver soluções específicas”, afirma Rogers – embora reconheça que será necessário tempo e esforço para que a Agência de Proteção Ambiental, que regula a utilização de agrotóxicos nas culturas, faça as mudanças necessárias.
Entretanto, a nossa análise oferece informações sobre passos simples que pode tomar para limitar a exposição a agrotóxicos nocivos, como utilizar as nossas classificações para identificar quais as frutas e vegetais em que se deve concentrar na sua dieta e quando comprar produtos biológicos pode fazer mais sentido.
O que é mais seguro, o que é arriscado e por quê
Dezesseis das 25 frutas e 21 dos 34 vegetais em nossa análise apresentavam baixos níveis de risco de agrotóxicos. Mesmo as crianças e as grávidas podem comer com segurança mais de três porções diárias desses alimentos, afirmam os especialistas em segurança alimentar da Consumer Reports. Dez alimentos eram de risco moderado; até três porções por dia deles estão OK.
O outro lado: 12 alimentos apresentaram maiores preocupações. Crianças e grávidas devem consumir menos de uma porção diária de frutas e vegetais de alto risco e menos de meia porção diária de frutas e vegetais de alto risco. Todos os outros também deveriam limitar o consumo desses alimentos.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor
Para chegar a esse conselho, analisamos os resultados dos testes do USDA para 29.643 amostras individuais de alimentos. Avaliamos o risco de cada fruta ou vegetal levando em consideração quantos agrotóxicos apareceram nos alimentos , com que frequência foram encontrados, a quantidade de cada pesticida detectada e a toxicidade de cada produto químico.
A Alliance for Food and Farming , uma organização da indústria agrícola, apontou ao Consumer Reports que mais de 99% dos alimentos testados pelo USDA continham resíduos de agrotóxicos abaixo dos limites legais da Agência de Proteção Ambiental (referidos como tolerâncias).
Mas os cientistas da Consumer Reports acham que muitas tolerâncias da EPA são demasiado altas. É por isso que usamos limites mais baixos para pesticidas que podem prejudicar o sistema neurológico do corpo ou que são suspeitos de serem desreguladores endócrinos (o que significa que podem imitar ou interferir nos hormônios do corpo). A abordagem da Consumer Reports também leva em conta a possibilidade de que outros riscos para a saúde possam surgir à medida que aprendemos mais sobre estes produtos químicos.
“A forma como a EPA avalia o risco de agrotóxicos não reflecte a ciência de ponta e não pode ter em conta todas as formas como os produtos químicos podem afetar a saúde das pessoas, especialmente tendo em conta que as pessoas estão frequentemente expostas a vários agrotóxicos ao mesmo tempo”, afirma Consumer Reports. cientista sênior Michael Hansen. “Portanto, adotamos uma abordagem preventiva, para garantir que não subestimamos os riscos.”
Na nossa análise, uma fruta ou vegetal pode conter vários agrotóxicos, mas ainda assim ser considerada de baixo risco se a combinação do número, concentração e toxicidade dos mesmos for baixa. Por exemplo, os brócolos tiveram um bom desempenho não porque não tivessem resíduos de pesticidas, mas porque os produtos químicos de maior risco estavam em níveis baixos e em apenas algumas amostras.
Alguns dos alimentos mais problemáticos, por outro lado, tinham relativamente poucos resíduos, mas níveis preocupantes de alguns agrotóxicos de alto risco.
Caso em questão: melancia. É um risco muito alto, principalmente por causa de um agrotóxico chamado oxamil. Apenas 11 das 331 amostras de melancia doméstica convencional testaram positivo para oxamil. Mas está entre aqueles que os especialistas da Consumer Reports acreditam que requerem cautela extra devido ao seu potencial para riscos graves para a saúde.
O feijão verde é outro exemplo. Eles se qualificam como de alto risco principalmente por causa do acefato ou de um de seus produtos de decomposição, o metamidofos. Apenas 4% das amostras domésticas convencionais de feijão verde foram positivas para um ou ambos – mas os seus níveis de agrotóxicos eram muitas vezes alarmantes. Numa amostra de 2022 (o ano mais recente para o qual havia dados disponíveis), os níveis de metamidofos eram mais de 100 vezes superiores ao nível que os cientistas do Consumer Reports consideram seguro; em outro, os níveis de acefato eram sete vezes maiores. E em algumas amostras de 2021, os níveis foram ainda mais elevados.
Isto é especialmente preocupante porque dos produtos químicos deveria estar presente no feijão verde: os produtores nos EUA foram proibidos de aplicar acefato no feijão verde desde 2011, e metamidofós em todos os alimentos desde 2009.
“Quando você pega um punhado de feijão verde no supermercado ou escolhe uma melancia, sua chance de conseguir uma com níveis perigosos de agrotóxicos pode ser relativamente baixa”, diz Rogers. “Mas se você fizer isso, poderá receber uma dose muito maior do que deveria e, se comer a comida com frequência, as chances aumentam.”
Em alguns casos, um alimento é qualificado como de alto risco devido a vários fatores, tais como níveis elevados de um agrotóxico moderadamente perigoso em muitas amostras. Exemplo: clorprofame em batatas. Não é o pesticida mais tóxico – mas estava presente em mais de 90% das batatas testadas.
Como os pesticidas podem prejudicar você
Os agrotóxicos são uma das únicas categorias de produtos químicos que fabricamos “especificamente para matar organismos”, diz Chensheng (Alex) Lu, professor afiliado da Universidade de Washington, em Seattle, que pesquisa os efeitos da exposição deste tipo de substância na saúde. Portanto, não é surpresa, diz ele, que os agrotóxicos utilizados para controlar insetos, fungos e ervas daninhas também possam prejudicar as pessoas.
Embora ainda existam questões em aberto sobre como e até que ponto a exposição crônica aos agrotóxicos pode prejudicar a nossa saúde, os cientistas estão a reunir um argumento convincente de que alguns o podem fazer, com base numa combinação de investigação laboratorial, animal e humana.
Um tipo de evidência vem de estudos populacionais que analisam os resultados de saúde em pessoas que comem alimentos com níveis relativamente elevados de agrotóxicos. Uma revisão recente publicada na revista Environmental Health , que analisou seis desses estudos, encontrou evidências que ligam os agrotóxicos ao aumento dos riscos de câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.
Evidências mais fortes dos perigos dos agrotóxicos provêm de pesquisas que analisam pessoas que podem ser particularmente vulneráveis à exposição a estes produtos, incluindo trabalhadores agrícolas e suas famílias. Além dos milhares de trabalhadores que adoecem todos os anos devido a intoxicações por agrotóxicos, estudos associaram a utilização no trabalho de uma variedade de produtos ativos a um risco mais elevado de doença de Parkinson, câncer da mama, diabetes e muitos mais problemas de saúde.
Outra investigação descobriu que a exposição durante a gravidez a agrotóxicos organofosforados estava associada a um menor desenvolvimento intelectual e à redução da função pulmonar nos filhos dos trabalhadores agrícolas.
A gravidez e a infância são períodos de particular vulnerabilidade aos agrotóxicos, em parte porque certos produtos podem ser desreguladores endócrinos. Esses são produtos químicos que interferem nos hormônios responsáveis pelo desenvolvimento de uma variedade de sistemas do corpo, especialmente os sistemas reprodutivos, diz Tracey Woodruff, professora de ciências da saúde ambiental na Universidade da Califórnia, em São Francisco.
Outra preocupação é que a exposição a longo prazo, mesmo a pequenas quantidades de agrotóxicos, pode ser especialmente prejudicial para pessoas com problemas crónicos de saúde, para aquelas que vivem em áreas onde estão expostas a muitas outras toxinas e para pessoas que enfrentam outros problemas de saúde sociais ou económicos, diz Jennifer Sass, cientista sênior do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor
Essa é uma das razões pelas quais, diz ela, os reguladores deveriam empregar margens de segurança adicionais ao estabelecer limites aos agrotóxicos – para ter em conta toda a incerteza sobre a forma como os pesticidas nos podem prejudicar.
Como parar de comer pesticidas
Embora a nossa análise dos dados de agrotóxicos do USDA tenha descoberto que alguns alimentos ainda apresentam níveis preocupantes de certos agrotóxicos perigosos, também oferece informações sobre como pode limitar a sua exposição agora e o que os reguladores governamentais devem fazer para resolver o problema a longo prazo.
Coma muitos produtos de baixo risco. Uma rápida varredura neste gráfico deixa uma coisa clara: há muitas opções boas para você escolher.
A sua melhor aposta é escolher produtos classificados como de baixo ou muito baixo risco em nossa análise e, quando possível, optar por alimentos orgânicos em vez de alimentos mais arriscados que você goste. Ou troque alternativas de menor risco por alternativas mais arriscadas. Por exemplo, experimente ervilhas em vez de feijão verde, melão no lugar da melancia, repolho ou alfaces verde-escuras no lugar da couve e, ocasionalmente, batata-doce em vez de branca.
Mas você não precisa eliminar alimentos de alto risco de sua dieta. Comê-los ocasionalmente é bom.
“Os danos, mesmo dos produtos mais problemáticos, advêm da exposição durante períodos vulneráveis, como a gravidez ou a primeira infância, ou da exposição repetida ao longo dos anos”, diz Rogers.
Mude para orgânico quando possível
Uma forma comprovada de reduzir a exposição a pesticidas é comer frutas e vegetais orgânicos , especialmente os alimentos de maior risco. Tínhamos informações sobre versões cultivadas organicamente para 45 dos 59 alimentos em nossa análise. Quase todas apresentavam risco baixo ou muito baixo de agrotóxicos, e apenas duas variedades cultivadas internamente – espinafres frescos e batatas – representavam um risco moderado.
As classificações de baixo risco dos alimentos orgânicos indicam que o programa de certificação orgânica do USDA, em sua maior parte, está funcionando.
Os agrotóxicos não são totalmente proibidos nas fazendas orgânicas, mas são fortemente restringidos. Os produtores biológicos só podem utilizar agrotóxicos se outras práticas – como a rotação de culturas – não conseguirem resolver totalmente o problema das pragas. Mesmo assim, os agricultores só podem aplicar agrotóxicos de baixo risco derivados de fontes minerais ou biológicas naturais que tenham sido aprovados pelo Programa Orgânico Nacional do USDA.
Menos agrotóxicos nos alimentos significa menos no nosso corpo: vários estudos demonstraram que a mudança para uma dieta orgânica reduz rapidamente a exposição alimentar. A agricultura biológica também protege a saúde de outras formas, especialmente dos trabalhadores agrícolas e dos residentes rurais, porque é menos provável que os pesticidas cheguem às áreas onde vivem ou contaminem a água potável.
E a agricultura biológica protege outros organismos vivos, muitos dos quais são ainda mais vulneráveis aos agrotóxicos do que nós. Por exemplo, os produtores biológicos não podem utilizar uma classe de insecticidas chamados neonicotinóides, um grupo de produtos químicos que podem causar problemas de desenvolvimento em crianças pequenas – e que são claramente perigosos para a vida aquática, aves e polinizadores importantes, incluindo abelhas melíferas, abelhas selvagens e borboletas.
O problema, claro, é o preço: os alimentos orgânicos tendem a custar mais – às vezes muito mais.
“É por isso que, embora pensemos que vale sempre a pena considerar os produtos orgânicos, é mais importante para o punhado de frutas e vegetais que representam o maior risco de agrotóxicos”, diz Rogers. Ele também diz que optar pelos produtos orgânicos é mais importante para as crianças pequenas e durante a gravidez, quando as pessoas são mais vulneráveis aos danos potenciais dos produtos químicos.
Cuidado com algumas importações
No geral, as frutas e legumes importados e os cultivados internamente são bastante comparáveis, com aproximadamente um número igual deles apresentando um risco moderado ou pior de agrotóxicos. Mas as importações, especialmente do México, podem ser especialmente arriscadas.
Sete alimentos importados na nossa análise representam um risco muito elevado, em comparação com apenas quatro nacionais. E das 100 amostras individuais de frutas ou vegetais na nossa análise com os níveis mais elevados de risco de pesticidas, 65 foram importadas. A maioria deles – 52 – veio do México, e a maioria envolvia morangos (geralmente congelados) ou feijão verde (quase todos contaminados com acefato, o agrotóxico cujo uso é proibido em feijão verde destinado aos EUA).
Um porta-voz da Food and Drug Administration disse ao Consumer Reports que a agência está ciente do problema da contaminação por acefato no feijão verde do México. Entre 2017 e 2024, a agência emitiu alertas de importação para 14 empresas mexicanas por causa do acefato encontrado no feijão verde. Estes alertas permitem à FDA deter os carregamentos de alimentos das empresas até que possam provar que os alimentos não estão contaminados com os resíduos ilegais de pesticidas em questão.
A Associação de Produtos Frescos das Américas, que representa muitos dos principais importadores de frutas e vegetais do México, não respondeu a um pedido de comentário.
Rogers, da Consumer Reports, afirma: “É evidente que as salvaguardas não estão a funcionar como deveriam.” Como resultado, “os consumidores estão expostos a níveis muito mais elevados de pesticidas muito perigosos do que deveriam”. Por causa desses riscos, ele sugere verificar as embalagens do feijão verde e dos morangos do país de origem e considerar outras fontes, inclusive orgânicas.
Como resolver o problema dos pesticidas
Talvez a parte mais tranquilizadora e poderosa da análise do Consumer Reports seja o facto de demonstrar que os riscos dos pesticidas estão concentrados num pequeno número de alimentos e pesticidas.
Do total de quase 30.000 amostras de frutas e vegetais analisadas pelo Consumer Reports, apenas 2.400, ou cerca de 8%, foram qualificadas como de alto risco ou muito alto risco. E entre essas amostras, apenas duas grandes classes de produtos químicos, os organofosforados e carbamatos, foram responsáveis pela maior parte do risco.
“Isso não significa apenas que a maior parte dos produtos que os americanos consomem tem baixos níveis de risco de agrotóxico, mas também torna a tentativa de resolver o problema muito mais fácil de gerir, permitindo que os reguladores e os produtores saibam exatamente no que precisam de se concentrar”, diz Brian Ronholm, chefe de política alimentar da Consumer Reports.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor
Os organofosforados e carbamatos tornaram-se populares depois que o DDT e os pesticidas relacionados foram eliminados nas décadas de 1970 e 1980. Mas logo surgiram preocupações com esses pesticidas. Embora a EPA tenha retirado alguns deles do mercado e reduzido os limites de alguns alimentos para alguns outros, muitos organofosforados e carbamatos ainda são usados em frutas e vegetais.
Vejamos, por exemplo, o fosmete, um organofosforado que é o principal culpado pela baixa pontuação dos mirtilos. Até recentemente, o fosmete raramente aparecia entre as amostras mais preocupantes de alimentos contaminados com pesticidas. Mas, nos últimos anos, tornou-se um dos principais contribuintes para o risco de pesticidas em algumas frutas e vegetais, de acordo com a nossa análise.
“Isso aconteceu em parte porque quando um agrotóxico de alto risco é proibido ou retirado do mercado, alguns agricultores mudam para um semelhante ainda no mercado, que muitas vezes acaba por causar danos comparáveis ou até maiores”, diz Charles Benbrook, um especialista independente. especialista em uso e regulamentação de agrotóxicos, que consultou a Consumer Reports sobre nossa análise de pesticidas.
Os especialistas em segurança alimentar da Consumer Reports afirmam que a nossa análise atual identificou várias maneiras pelas quais a EPA, a FDA e o USDA poderiam proteger melhor os consumidores.
Isso inclui fazer um trabalho mais eficaz de trabalho com agências agrícolas de outros países e inspecionar alimentos importados, especialmente do México, e conduzir e apoiar pesquisas para elucidar mais completamente os riscos dos pesticidas. Além disso, o governo deveria prestar mais apoio aos agricultores biológicos e investir mais dólares federais para expandir a oferta de alimentos biológicos – o que, por sua vez, reduziria os preços para os consumidores.
Mas uma das medidas mais eficazes e simples que a EPA poderia tomar para reduzir o risco global de pesticidas seria proibir a utilização de qualquer organofosforado ou carbamato nas culturas alimentares.
A EPA disse à Consumer Reports que “cada produto químico é avaliado individualmente com base na sua toxicidade e perfil de exposição”, e que a agência exigiu medidas de segurança adicionais para vários organofosforados.
Mas Ronholm, da Consumer Reports, afirma que essa abordagem é insuficiente. “Já vimos repetidas vezes que isso não funciona. A indústria e os agricultores simplesmente optam por outro produto químico relacionado que pode representar riscos semelhantes.”
Cancelar duas classes inteiras de agrotóxicos pode parecer extremo. “Mas a grande maioria das frutas e vegetais consumidos nos EUA já são cultivados sem agrotóxicos perigosos”, diz Ronholm. “Nós simplesmente não precisamos deles. E os alimentos que os consumidores americanos comem todos os dias seriam muito, muito mais seguros sem eles.”
Vários tipos de frutas e vegetais geralmente considerados saudáveis podem conter níveis de resíduos de pesticidas potencialmente perigosos para consumo, de acordo com uma análise realizada pela Consumer Reports (CR) divulgada na quinta-feira.
O relatório, que se baseia em sete anos de dados recolhidos pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) como parte do seu programa anual de notificação de resíduos de agrotóxicos, concluiu que 20% das 59 categorias diferentes de frutas e vegetais incluídas na análise apresentavam níveis de resíduos que representavam “riscos significativos” para os consumidores desses alimentos.
Esses alimentos de alto risco incluíam pimentões, mirtilos, feijão verde, batatas e morangos, de acordo com CR. O grupo descobriu que alguns feijões verdes continham até resíduos do inseticida acefato, cujo usofoi proibidoem feijões verdes pelos reguladores dos EUA desde 2011. Em uma amostra de 2022, os níveis de metamidofós (um produto da decomposição do acefato) eram elevados mais de 100 vezes do que o nível que os cientistas da CR consideram seguro. Em outra amostra, os níveis de acefato foram 7 vezes maiores do que o CR considera seguro.
No geral, do total de quase 30.000 amostras de frutas e vegetais para as quais o CR examinou os dados, cerca de 8% foram considerados como tendo resíduos de “alto risco ou muito alto risco”. Os produtos importados têm maior probabilidade de conter níveis elevados de resíduos de pesticidas do que os alimentos fornecidos internamente, afirma o relatório, observando que os níveis de resíduos podem variar amplamente de amostra para amostra.
Os resultados “levantam sinais de alerta”, segundo CR. O relatório aconselha que as crianças e as mulheres grávidas devem consumir menos de uma porção diária de frutas e vegetais de alto risco e menos de meia porção diária de “frutas de alto risco”.
“As pessoas precisam de se preocupar porque vemos que quanto mais dados recolhemos sobre pesticidas, mais percebemos que os níveis que anteriormente pensávamos serem seguros acabam por não o ser”, disse Michael Hansen, cientista sênior da CR que recentemente foi nomeado para um comitê consultivo de segurança alimentar do USDA.
A organização disse que a “boa notícia” é que os dados mostraram resíduos na maioria dos alimentos amostrados, incluindo 16 das 25 categorias de frutas e 21 dos 34 tipos de vegetais, apresentando “pouco com que se preocupar”. Quase todas as amostras orgânicas não apresentaram níveis preocupantes de resíduos de pesticidas.
O relatório sugere que os consumidores “experimentem ervilhas em vez de feijão verde, melão em vez de melancia, repolho ou alface verde-escura no lugar da couve e, ocasionalmente, batata-doce em vez de batata branca”.
Garantias de segurança defeituosas
Ao chegar às suas conclusões, a CR disse que analisou os resultados dos testes de resíduos do USDA para 29.643 amostras individuais de alimentos e depois classificou o risco de cada fruta ou vegetal com base em quantos agrotóxicos diferentes foram encontrados em cada um, com que frequência e em que níveis os resíduos foram encontrados. , e a toxicidade para cada pesticida detectado.
Para agrotóxicos conhecidos por serem cancerígenos, neurotoxinas ou desreguladores endócrinos– produtos químicos que podem alterar as funções hormonais – a CR adicionou um requisito de margem de segurança extra aos níveis considerados seguros.
O CR disse que seus níveis de segurança diferem daqueles definidos pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), que estabelece “limites máximos de resíduos” (LMRs) para o uso de um agrotóxico em cada cultura após desenvolver uma avaliação de risco que a agência diz considerar múltiplos fatores, incluindo exposição agregada, efeitos cumulativos e potencial aumento da suscetibilidade em crianças.
Com base nos LMR da EPA, o USDA afirmou no seu mais recente relatório do programa de dados de agrotóxicosque 99% dos alimentos testados tinham resíduos dentro dos limites de segurança. Mas os limites da EPA são demasiado elevados para serem verdadeiramente protectores da saúde pública e não têm em conta adequadamente os riscos associados a alguns pesticidas, de acordo com CR.
“A EPA mantém o seu processo abrangente de avaliação e revisão de pesticidas para garantir a segurança do abastecimento alimentar dos EUA”, afirmou a agência num comunicado. “Desde que o programa de revisão do registo de agrotóxicos começou em 2006, a EPA cancelou algumas ou todas as utilizações em quase 25% dos casos de produtos convencionais em que concluiu o trabalho, onde novos dados científicos indicam a necessidade de mitigações adicionais.” A EPA afirma que considera “todos os dados relevantes” ao fazer avaliações de risco para a saúde humana decorrentes do uso de pesticidas.
É comum que muitos agricultores apliquem uma série de agrotóxicos, incluindo herbicidas, insecticidas e fungicidas, nos seus campos como forma de combater ervas daninhas, insetos e doenças de plantas. Em alguns casos, eles pulverizam os produtos químicos diretamente sobre as plantas em crescimento. Os resíduos destes produtos químicos são encontrados não apenas nos alimentos, mas também na água potável.
Tanto a Food and Drug Administration como o USDA têm monitorizado os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos há décadas e têm assegurado repetidamente ao público que esses resíduos não constituem um risco para a saúde humana, desde que não excedam os LMR da EPA.
Mas essas garantias provaram-se erradas no passado. Num exemplo, o governo afirmou há muito tempo que o inseticida clorpirifós era seguro para utilização em alimentos se os resíduos estivessem dentro dos limites estabelecidos pela EPA, apesar das fortes evidências científicas de que a exposição poderia prejudicar o cérebro e o sistema nervoso das crianças em desenvolvimento.
Em 2015, após décadas de utilização na agricultura, a EPA mudou a sua posição, afirmando que não conseguia determinarse o clorpirifós na dieta era realmente seguro, e propôs proibir a utilização do pesticida na agricultura. Demorou até 2021 para a agência emitiruma regra finalproibindo o clorpirifós, mas uma contestação judicial da proibição manteve o produto químico em uso.
Para minar ainda mais a confiança na garantia do governo sobre os resíduos de agrotóxicos está o fato de a EPA consultar as empresas que vendem os produtos químicos para estabelecer níveis de resíduos permitidos, e esses níveis permitidos podem ser aumentados a pedido das empresas.
A EPA aprovou vários aumentos permitidos para resíduos do glifosato, um produto químico que mata ervas daninhas, por exemplo. O glifosato, o ingrediente ativo dos herbicidas Roundup, é classificado como provável carcinógeno humano pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, mas a EPA considera que não é provável que cause câncer.
Influência da indústria
A Lei de Proteção da Qualidade Alimentar(FQPA) exige que a EPA aplique uma margem de segurança adicional dez vezes maior aos níveis de exposição permitidos para levar em conta os efeitos em bebês e crianças vulneráveis, e permite que a agência ignore a adição da margem de segurança “somente se for seguro para bebês e crianças.” A agência recusou-se a aplicar essa margem adicional de dez vezes de segurança para bebés e crianças ao estabelecer os níveis legais para vários resíduos de pesticidas, no entanto, mesmo quando os cientistas afirmaram que isso era necessário .
Os fabricantes de agrotóxicos pressionaram com sucesso a EPA para não aplicar a margem de segurança extra a dezenas de produtos que têm “claro potencial para danificar o DNA ou perturbar o desenvolvimento”, disse Chuck Benbrook, especialista em resíduos de pesticidas e consultor do relatório CR.
“A EPA sabe da existência de milhares de tolerâncias excessivamente altas desde os anos 2000”, disse Benbrook. “Apesar das novas ferramentas poderosas e do mandato do FQPA para reduzi-las ou revogá-las, a indústria de agrotóxicos torna muito difícil para a EPA reduzir as tolerâncias e o progresso desacelerou. Pior ainda, alguns agrotóxicos com níveis muito elevados estão regressando ao mercado e à alimentação infantil.”
As garantias do governo e da indústria sobre a segurança dos resíduos de agrotóxicos no abastecimento alimentar dos EUA baseiam-se no fato de que a maioria dos resíduos nos alimentos está abaixo dos níveis de tolerância aplicáveis, acrescentou Benbrook.
“Mas agora sabemos e podemos identificar especificamente centenas de amostras de alimentos todos os anos com resíduos abaixo da tolerância que apresentam riscos muito acima do que a EPA considera seguro”, disse ele.
“Ação precisa ser tomada”
O relatório da CR afirma que os perigos que espreitam nas prateleiras dos supermercados poderiam ser reduzidos pela eliminação de duas classes químicas – organofosforados e carbamatos. Embora os organofosforados sejam utilizados no fabrico de plásticos e solventes, bem como em agrotóxicos, também são constituintes de gases nervosos, e a exposição – aguda e de longo prazo – podendo ter uma série de impactos nocivos nas pessoas e nos animais.
Como explicao Departamento de Saúde Pública de Illinois : “Os organofosforados matam os insetos ao perturbar seus cérebros e sistemas nervosos. Infelizmente, esses produtos químicos também podem prejudicar o cérebro e o sistema nervoso de animais e humanos.”
Os carbamatos apresentam uma semelhança química com os agrotóxicos organofosforados.
O relatório CR surge num momento em que muitos cientistas questionam cada vez mais se uma dieta constante de resíduos de pesticidas pode ou não ser realmente segura para as pessoas e o que o consumo a longo prazo de vestígios de pesticidas nos alimentos pode estar a causar à saúde humana e animal.
“Os dados mostram cada vez mais que estes níveis mais baixos estão a ter impacto”, disse Hansen. “É por isso que algumas ações precisam ser tomadas.”
(Foto em destaque de Raul Gonzalez Escobar no Unsplash.)
Um decreto presidencial proibiu o uso de milho geneticamente modificado (GM) na alimentação no México. Mas os governos dos Estados Unidos e do Canadá estão utilizando o acordo comercial EUA-Canadá-México (USMCA) para desafiar as ações do México.
O objetivo das restrições do México ao milho geneticamente modificado é salvaguardar a integridade do milho nativo da contaminação geneticamente modificada e proteger a saúde humana. O objetivo do desafio dos EUA e do Canadá é defender os interesses da indústria biotecnológica. Os EUA e o Canadá querem forçar o México a abrir o seu mercado a todos os alimentos e sementes geneticamente modificados. O Canadá apoia o desafio dos EUA (como terceiro na disputa), embora o Canadá não exporte milho para o México.
O México tem o direito de restringir o uso de milho geneticamente modificado. Os EUA argumentam que as ações do México não se baseiam em princípios científicos, mas o governo tem ciência suficiente para justificar as suas políticas de precaução.
A nossa organização, a Canadian Biotechnology Action Network, é uma grande rede de agricultores e grupos ambientalistas que monitoa a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) há mais de 15 anos e apoiamos as restrições do México. Fomos um dos dois grupos canadenses que receberam permissão para enviar comentários de especialistas sobre os riscos do milho geneticamente modificado ao painel de arbitragem nesta disputa, mas em janeiro, os grupos canadenses não foram convidados a pedido do governo dos EUA, apoiado pelo Canadá, com o detalhe técnico de que a disputa é apenas entre os EUA e o México.
De qualquer forma, publicamos a nossa análise para mostrar que a proibição do México é apoiada pela ciência. A pesquisa continua a encontrar indicadores de danos potenciais aos seres humanos decorrentes da ingestão de milho geneticamente modificado resistente a insetos. A ciência também continua a alertar para os impactos na saúde decorrentes da exposição ao herbicida glifosato, utilizado na produção de milho geneticamente modificado.
A maioria das plantas de milho geneticamente modificadas são geneticamente modificadas para matar pragas de insetos. As plantas geneticamente modificadas expressam uma toxina da bactéria do solo Bacillus thuringiensis (Bt) que é conhecida por prejudicar o intestino de tipos específicos de insetos, mas não de outros. Os agricultores há muito usam o Bt como spray para matar pragas, mas as toxinas Bt nas culturas geneticamente modificadas são diferentesdeste Bt natural em estrutura, função e efeitos biológicos. Na verdade, estudos revistos por pares em toda a literatura científica continuam a descobrir que as toxinas Bt em plantas geneticamente modificadas podem prejudicar insectos (aranhas, vespas, joaninhas e crisopídeos, por exemplo) que não são os alvos pretendidos.
Ainda no ano passado, novos estudos revistos por pares encontraram impactos do Bt onde se supunha que não existiam. Por exemplo, um estudo de 2023 conduzido por uma equipe de pesquisadores de universidades do Brasil e da Colômbia, financiado pelo governo brasileiro, descobriu que o Bt teve muitos impactos significativos na saúde das vespas, afetando até mesmo a próxima geração. Pesquisadores universitários na China e no Paquistão também encontraram menor diversidade de bactérias no intestino de aranhas-lobo expostas ao Bt. Isto se soma a um teste de laboratório publicado em 2023 , financiado pelo governo francês, que descobriu que uma toxina Bt específica perturba o crescimento e o funcionamento normais das células intestinais em moscas da fruta, levantando a possibilidade de que as toxinas Bt possam prejudicar o revestimento intestinal de animais, incluindo humanos. .
Para somar a estes resultados, vários ensaios de alimentação animal também concluíram que as toxinas Bt e as culturas GM Bt podem ter efeitos tóxicos nos mamíferos. Efeitos tóxicos e indicações de toxicidade foram observados de várias maneiras no sangue , estômago, intestino delgado, fígado, rim, baço e pâncreas, bem como nasrespostas imunológicas , embora o mecanismo não esteja claro nesses estudos. Criticamente, os governos dos EUA ou do Canadá não exigem estudos sobre alimentação animal para demonstrar a segurança alimentar dos OGM. Na verdade, existem muito poucos testes de longo prazo e multigeracionais em animais na literatura científica.
Mas a toxicidade do Bt não é a única preocupação de segurança. A produção de milho geneticamente modificado também está ligada ao uso de glifosato e outros herbicidas que estão associados a graves problemas de saúde, incluindo doenças neurológicas e alguns tipos decâncer. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o glifosato como um provável carcinógeno humano. De forma crítica, as evidências também apontam para o perigo da exposição a resíduos nos alimentos , que é a preocupação destacada pelo México em relação ao milho geneticamente modificado .
Esta preocupação é particularmente premente porque os mexicanos comem mais milho do que qualquer pessoa no mundo, em grande parte através de farinha minimamente processada para fazer tortilhas. Esta é uma maneira totalmente diferente de consumir milho geneticamente modificado da dieta de ingredientes de milho em alimentos altamente processados nos EUA e no Canadá. A exposição alimentar única do México ao milho geneticamente modificado exige que o México estabeleça o seu próprio “nível aceitável de protecção” contra os riscos.
Nas suas observações ao painel de litígios comerciais, o governo dos EUA argumenta que não foram encontrados quaisquer efeitos adversos para a saúde dos consumidores. Contudo, sem monitoramento dos alimentos geneticamente modificados, não há base científica para fazer esta afirmação. Não houve estudos pós-comercialização em populações humanas para determinar se houve efeitos adversos à saúde e, sem rastreamento ou rotulagem de alimentos geneticamente modificados, tais estudos não são possíveis .
Os EUA e o Canadá argumentam essencialmente que se decidiram que um alimento geneticamente modificado é seguro, então o México deveria concordar.
No início de Março, a defesa formal do México à proibição do milho geneticamente modificado será publicada como parte do processo de disputa comercial. Logo depois ouviremos argumentos de oito grupos não governamentais que têm permissão para enviar comentários. Esses documentos devem deixar claro que as restrições ao milho no México são apoiadas pela ciência e são justificadas para defender o futuro do milho e proteger a segurança alimentar.
( Este artigo apareceu pela primeira vez noFood Tank.)
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].
Em uma vitória arrebatadora para os agricultores familiares e para dezenas de plantas e animais ameaçados de extinção, na terça-feira um tribunal federal dos EUA revogou a aprovação do pesticida dicamba, notoriamente volátil e eliminador de ervas daninhas.
O herbicida propenso à deriva já danificou milhões de hectares de plantações e plantas selvagens todos os anos desde que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) o aprovou pela primeira vez em 2017 para pulverização em plantações de algodão e soja geneticamente modificadas pela Monsanto (agora Bayer) para sobreviver ao que de outra forma seria ser uma dose mortal. A decisão de hoje do Tribunal Distrital do Arizona, em Tucson, anula a reaprovação do agrotóxico pela EPA em 2020 , que incluía restrições de aplicação adicionais que, no entanto, não conseguiram evitar os danos contínuos causados pela deriva.
“Esta é uma vitória vital para os agricultores e para o meio ambiente”, disse George Kimbrell, diretor jurídico e advogado do Centro de Segurança Alimentar (CFS) no caso. “Repetidas vezes, as evidências mostram que o dicamba não pode ser usado sem causar danos massivos e sem precedentes às explorações agrícolas, bem como pôr em perigo plantas e polinizadores. O Tribunal reafirmou hoje de forma retumbante o que sempre defendemos: as alegações da EPA e da Monsanto sobre a segurança do dicamba eram irresponsáveis e ilegais.”
Desde que o dicamba foi aprovado para pulverização “over-the-top”, a sua utilização aumentou vinte vezes . A EPA estima que 65 milhões de acres ( dois terços da soja e três quartos do algodão) são resistentes ao dicamba, com cerca de metade dessa área pulverizada com dicamba, uma área quase do tamanho do Alabama. Muitas das culturas não pulverizadas são plantadas “defensivamente” pelos agricultores para evitar danos causados pela deriva do dicamba.
Na decisão de terça-feira, o tribunal cancelou o uso exagerado do dicamba, considerando que a EPA violou a exigência de contribuição pública da FIFRA antes da aprovação. Esta violação é “muito grave”, segundo o tribunal, especialmente porque o Nono Circuito anteriormente detido pela EPA não considerou os riscos graves de dicamba exagerada na emissão do registo prévio. O tribunal descreveu os enormes danos às partes interessadas que foram privadas da oportunidade de comentar, como os produtores que não usam dicamba de forma exagerada e sofreram perdas financeiras significativas e estados que relataram repetidamente danos ao nível da paisagem ainda, na mesma decisão de 2020, perderam a capacidade de impor restrições maiores do que aquelas impostas pelo governo federal sem processos legislativos e/ou normativos formais. Como resultado, o tribunal concluiu que “é improvável que a EPA emita os mesmos registros” novamente depois de ter em conta as preocupações destas partes interessadas.
O tribunal também criticou a avaliação da EPA sobre os danos generalizados dos registros de 2020. A Monsanto e a EPA alegaram que este novo uso “exagerado” de dicamba não causaria danos devido às suas novas restrições de uso. Mas o tribunal concluiu que a “abordagem circular da EPA para avaliar o risco, baseada na sua elevada confiança de que as medidas de controlo irão praticamente eliminar o movimento fora do local, [levou] à sua correspondente falha na avaliação dos custos do movimento fora do local”. E, em vez disso, tal como tinham alertado investigadores independentes, as restrições falharam e o dicamba continuou a vaporizar-se e a flutuar.
“Espero que a rejeição enfática do tribunal à aprovação imprudente do dicamba pela EPA estimule a agência a finalmente parar de ignorar os danos de longo alcance causados por este perigoso agrotóxico”, disse Nathan Donley, diretor de ciências de saúde ambiental do Centro para Diversidade Biológica. As populações de borboletas e abelhas ameaçadas continuarão a diminuir se a EPA continuar a transformar-se num pretzel para aprovar este produto apenas para apaziguar a indústria de agrotóxicos.”
“Estamos gratos por o tribunal ter responsabilizado a EPA e a Monsanto pelos enormes danos causados pelo dicamba aos agricultores, aos trabalhadores rurais e ao ambiente, e ter interrompido a sua utilização”, disse Lisa Griffith da National Family Farm Coalition. “O sistema de agrotóxicos que a Monsanto vende não deve ser pulverizado porque isso não pode ser feito com segurança.”
“Todos os verões, desde a aprovação do dicamba, a nossa fazenda tem sofrido danos significativos em uma vasta gama de culturas vegetais”, disse Rob Faux, agricultor e gestor de comunicações da Pesticide Action Network. “A decisão de hoje proporciona a tão necessária e esperada proteção aos agricultores e ao meio ambiente.”
Fundo
Esta é a segunda vez que um tribunal federal conclui que a EPA aprovou ilegalmente o dicamba. Um processo anterior resultou em um tribunal de apelações anulando a aprovação prévia do dicamba pela agência. A EPA reaprovou os mesmos usos do pesticida em 2020, levando aoprocesso atual.
Dezenas de espécies ameaçadas, incluindo polinizadores como as borboletas-monarca e os zangões enferrujados, também estão ameaçados pelo pesticida.
A EPA admitiu em relatório publicado em 2021 que as restrições à sua aplicação para limitar os danos do dicamba falharam e que o agrotóxico continuava a causar danos massivos às culturas devido à deriva.
O Departamento de Agricultura dos EUA estima que até7 milhões de hectares de soja foram danificados pela deriva do dicamba. Apicultoresem vários estadosrelataram quedas acentuadas na produção de mel devido à deriva do dicamba, suprimindo as plantas com flores que suas abelhas precisam para seu sustento.
Os demandantes são a National Family Farm Coalition, a Pesticide Action Network, o Center for Food Safety e o Center for Biological Diversity. Estas organizações são representadas por consultores jurídicos do Centro de Segurança Alimentar e do Centro de Diversidade Biológica.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Sustainable Pulse [Aqui!].
Os sindicatos nos EUA podem lutar novamente. Eles têm grandes planos para o futuro
Ainda há muito pelo que lutar nos estados do sul dos EUA: manifestação de greve em frente à fábrica da Ford em Louisville, Kentucky. Foto: imago/USA Today Network
Por Julian Hitschler para o Neues Deutschland
Para o movimento sindical dos EUA, está a chegar ao fim um ano que trouxe uma viragem da defensiva para a ofensiva: a classe trabalhadora organizada nos EUA abraçou uma nova militância que parecia impensável há apenas alguns anos. E este novo movimento não é um lampejo, mas baseia-se em anos de trabalho preparatório realizado por membros ativos, que desencadeou agora uma dinâmica que não será abrandada tão rapidamente.
“A vitória leva à vitória, e o público está por trás dela”, é como o experiente jornalista sindical Alex Press resume a situação do movimento no portal de notícias “Business Insider”. E, de fato, a lista de litígios laborais bem-sucedidos em 2023 é impressionante: no prestador de serviços de logística UPS, uma mera ameaça de greve foi suficiente para alcançar uma conclusão recorde. Na empresa de saúde Kaiser Permanente, enfermeiros e outros funcionários defenderam-se das suas intoleráveis condições de trabalho – com sucesso.
Para milhões de pessoas, 2023 foi marcado por guerras, refugiados e insegurança material. O discurso de ódio contra os supostamente outros é desenfreado. A União Europeia exclui cada vez mais os refugiados. Enquanto isso, os aluguéis aumentam e os salários caem. Mas em 2023 também houve movimentos que se opuseram a tudo isto.
Os russos estão a virar-se contra a guerra, os trabalhadores estão em greve em conjunto pelos seus direitos, os inquilinos estão lutando por habitação acessível.
A greve de um mês na indústria cinematográfica e televisiva recebeu atenção mundial. Inicialmente houve grandes temores quando o contrato dos roteiristas com os estúdios de Hollywood expirasse. A preocupação é que a inteligência artificial e a precarização possam agora arruinar o que outrora foi uma profissão criativa atraente para os trabalhadores. As coisas aconteceram de forma diferente. Pela primeira vez na história, os atores do SAG-AFTRA entraram em greve com os seus colegas. O resultado após vários meses de greve: direitos abrangentes de propriedade criativa e um acordo coletivo atraente para ambos os grupos profissionais.
Mas quase nenhuma disputa industrial manteve os EUA em suspense em 2023 como a greve dos United Auto Workers (UAW). A UAW travou batalha defensiva após batalha defensiva nos últimos anos. Mas em março, os membros estabeleceram um limite e elegeram um novo líder do UAW, Shawn Fain, que defendeu uma atitude mais conflituosa.
Fain venceu com a promessa de colocar a base sindical de volta no comando. A disputa foi extremamente acirrada: apenas cerca de 500 votos separaram Fain de seu concorrente moderado. Uma mudança na liderança também foi crucial para o sucesso da negociação coletiva na UPS. O sindicato da Irmandade Internacional dos Caminhoneiros já havia eleito uma nova liderança em 2022, que prometia um rumo mais radical. Fain não apenas atendeu às expectativas de um UAW combativo, mas também superou tudo o que os observadores esperavam: pela primeira vez em sua história, funcionários das três principais empresas automobilísticas dos EUA, General Motors, Ford e Stellantis (anteriormente Chrystler), pararam de trabalhar ao mesmo tempo. Uma estratégia arriscada que funcionou: não só o fundo de greve do UAW estava cheio até ao limite após anos de contenção. Fain e a liderança do UAW também conservaram os seus cofres através da tática de greves contínuas, que atingiram pontos particularmente sensíveis nas cadeias de abastecimento empresariais de formas imprevisíveis.
O resultado final não foi apenas um acordo coletivo recorde, mas foi também profundamente influenciado pela ideia de solidariedade: os maiores aumentos salariais foram para trabalhadores temporários mal remunerados, que agora recebem um estatuto de emprego regular muito mais rapidamente. O UAW resistiu conscientemente – e com sucesso – à estratégia de divisão entre forças de trabalho principais e temporárias que causou tantos danos no passado.
Apesar de todos os sucessos, os sindicatos dos EUA não estão numa posição confortável. Os funcionários da Amazon e da Starbucks devem continuar a lutar pelo seu primeiro acordo coletivo; organizar novas indústrias continua a ser uma tarefa gigantesca que requer muita perseverança. Novas startups, como o Sindicato dos Trabalhadores da Amazon, liderado pelo carismático trabalhador de armazém Chris Smalls, de Nova Iorque, continuam a passar por momentos difíceis, mas o movimento provou que também pode vencer batalhas longas e cansativas. E tem objetivos ambiciosos para o próximo ano: a UAW pretende seguir atingindo as fábricas de fabricantes de automóveis não sindicalizados nos EUA, como a Toyota, a VW e a Tesla. Esta poderia ser a disputa trabalhista definitiva nos EUA em 2024.
E Fain e o UAW também têm planos para o período seguinte: o sindicato automobilístico definiu a data final dos seus atuais acordos coletivos como 1º de maio de 2028 e apelou a outros sindicatos para seguirem o seu exemplo. Ao fazê-lo, a UAW está a lançar as bases para uma greve geral que poderá alterar irrevogavelmente o equilíbrio de poder nos EUA a favor dos trabalhadores.
Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].
Uma ação legal inovadora lançada quarta-feira apela à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) para suspender e cancelar imediatamente o perigoso herbicida glifosato, o principal ingrediente do Roundup da Bayer/Monsanto
O registro do glifosato é ilegal, afirma apetição apresentada pelo Center for Food Safety em seu nome, pela Beyond Pesticides e por quatro grupos de defesa de trabalhadores rurais . No ano passado, em umaação judicialmovida pelas mesmas organizações sem fins lucrativos, um tribunal federal de apelações anulou a avaliação de saúde humana da EPA porque a agência rejeitou injustamente o risco de câncer do glifosato. A petição de hoje, pedindo o cancelamento e suspensão do registro do glifosato, tem mais de 70 páginas e inclui mais de 200 citações científicas.
“Esta petição é um modelo para a administração Biden fazer o que a lei e a ciência exigem e finalmente cancelar o registro do glifosato”, disse Pegga Mosavi, advogada do Centro de Segurança Alimentar e conselheira dos peticionários. “Existem inúmeras evidências científicas que demonstram que o glifosato põe em perigo a saúde pública e representa riscos de câncer para os agricultores e outros utilizadores do Roundup. As formulações de glifosato também são um perigo ambiental e provocaram uma epidemia de ervas daninhas resistentes que assolam os agricultores. Após a decisão judicial do ano passado, a EPA não tem bases legais para se sustentar. A EPA deve agir agora.”
O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no mundo, com aproximadamente 136 milhões de toneladas aplicadas anualmente nos EUA. No entanto, a EPA recusou-se a agir, apesar dos danos infligidos pelo uso generalizado do glifosato. Numerosos estudos – incluindo muitos patrocinados pela Bayer/Monsanto – mostram que o glifosato tem efeitos nocivos no fígado, nos rins e no sistema reprodutor, e é um provável agente cancerígeno ligado especificamente ao cancro do sistema imunitário, o linfoma não-Hodgkin.
Caixa de glifosato
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Bill Freese, diretor científico do Center for Food Safety, observou: “A EPA certa vez reconheceu que o glifosato tem efeitos adversos no fígado, nos rins e no sistema reprodutivo dos mamíferos, e pode até causar câncer – efeitos que foram revelados pela primeira vez em estudos de décadas atrás com registrantes. . Mas à medida que a Monsanto procurava utilizações cada vez mais amplas para o seu herbicida de grande sucesso, a EPA relegou esses estudos incriminatórios ao esquecimento regulamentar, facilitando assim uma maior utilização, mesmo quando cientistas independentes confirmaram os danos que a EPA agora nega.”
As formulações de glifosato também devastaram o meio ambiente, causando consideráveis danos causados pela deriva em plantações e plantas silvestres. Ao dizimar a serralha, o glifosato tem sido um fator importante no declínio da borboleta monarca, e muitas formulações do Roundup são extremamente tóxicas para os anfíbios. A própria EPA descobriuque o glifosato provavelmente afetará negativamente incríveis 93% das espécies ameaçadas e em perigo de extinção e 96% do habitat crítico que as sustenta.
A petição de hoje pede à EPA que suspenda o uso do glifosato até que a agência possa concluir o processo de cancelamento ou demonstrar que o glifosato atende aos padrões de segurança exigidos pela Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas. O cancelamento tornaria ilegal a venda e o uso de qualquer produto que contenha o produto químico.
“As mulheres trabalhadoras agrícolas e as suas famílias têm experimentado os efeitos nocivos dos pesticidas para a saúde há demasiado tempo”, disse Mily Treviño-Sauceda, Diretora Executiva da Alianza Nacional de Campesinas. “A EPA deve proteger os trabalhadores agrícolas do país e o nosso ambiente, suspendendo e cancelando imediatamente todos os registros de glifosato.”
Fundo
A última vez que o glifosato foi sujeito a uma reavaliação abrangente foi em 1993, pouco antes da explosão na sua utilização que acompanhou as culturas Roundup Ready da Monsanto, que são geneticamente modificadas para resistir ao glifosato. De acordo com a lei federal, a EPA deve rever os registros de agrotóxicos a cada 15 anos para determinar se continuam a cumprir o padrão de segurança exigido – sem efeitos adversos excessivos no ambiente – tendo em conta a nova ciência e os padrões de utilização actuais. A EPA só iniciou este processo de revisão do registo do glifosato em 2009, emitindo uma decisão provisória em 2020.
Apesar de ter passado onze anos na sua revisão, a divisão de pesticidas da EPA não conseguiu chegar a uma conclusão sobre se o glifosato causa o linfoma não-Hodgkin (LNH). A agência, no entanto, rejeitou o risco global de cancro do glifosato, considerando que “não é provável” que cause cancro. O NHL é o cancro associado ao glifosato em muitos estudos epidemiológicos de agricultores e em avaliações realizadas por cientistas da divisão científica da EPA. É também o cancro associado ao glifosato pela maior autoridade mundial em substâncias cancerígenas, a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde. Muitos pacientes da NHL que atribuíram seu câncer ao uso do Roundup ganharam ações judiciais contra a Monsanto/Bayer.
Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito dos EUA derrubou o câncer da EPA e a avaliação mais ampla do glifosato para a saúde humana, em uma ação movida pelo Centro de Segurança Alimentar em nome dos mesmos peticionários. O tribunal considerou que a avaliação do glifosato sobre o câncer feita pela EPA é internamente contraditória e viola as próprias diretrizes da EPA para avaliação de risco cancerígeno. Críticas semelhantes foram feitas por um painel consultivo científico especializado nomeado pela EPA e por cientistas da EPA de fora da divisão de pesticidas.
Como resultado da decisão do tribunal, a EPA carece de uma avaliação legal do glifosato sobre a saúde humana para apoiar o seu uso atual. O tribunal também devolveu a avaliação de risco ecológico do glifosato à EPA, com prazo para concluí-la. A EPA não cumpriu este prazo e, em vez disso, optou por retirar toda a decisão de revisão provisória do registo. Posteriormente, o Congresso estendeu o prazo da EPA para concluir as revisões de registro do glifosato e de todos os outros pesticidas com conclusão prevista para outubro de 2022 a outubro de 2026.
Hoje, o glifosato continua registrado com base inteiramente em uma avaliação de 1993, realizada há três décadas. Esta avaliação desatualizada não leva em conta o aumento exponencial do uso de glifosato que começou com a introdução, em meados da década de 1990, de milho, soja, algodão e outras culturas importantes resistentes ao glifosato; também é anterior aos milhares de estudos científicos incriminatórios sobre o glifosato que se acumularam desde 1993. Esta avaliação antiquada também não explica os enormes custos impostos aos agricultores pelo surto de ervas daninhas resistentes ao glifosato neste século. Por todas estas razões, a EPA não pode cumprir o padrão de segurança exigido para os usos atualmente aprovados do glifosato e deve cancelar o seu registo.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].