Entre a ciência e o palanque: o desvio político da Faperj no Rio de Janeiro

Enquanto pesquisadores enfrentam abandono institucional e o hub de inovação da Faperj se deteriora no Catete, milhões destinados à ciência foram direcionados ao Segurança Presente sob influência de deputados da Alerj e interesses eleitorais

Um relatório interno do governo do estado do Rio de Janeiro revelou que a expansão do programa Segurança Presente, financiada parcialmente com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, teria sido conduzida por interesses políticos vinculados a deputados da bancada do PL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, e não por critérios técnicos relacionados à incidência criminal. O convênio previa o repasse de R$ 20 milhões para a abertura de dez novas bases do programa, enquanto a Faperj estava sob influência política do então secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes.

Os documentos apontam que diferentes bases do Segurança Presente foram associadas diretamente a interesses eleitorais de parlamentares. Além de Anderson Moraes, aparecem envolvidos o presidente da Alerj, Douglas Ruas, e os deputados Thiago Gagliasso, Índia Armelau e Filippe Poubel, cada um ligado à instalação de bases em áreas de interesse político-eleitoral. O processo também registra a utilização de emendas parlamentares para financiar unidades em municípios do interior fluminense.

O episódio evidencia uma profunda contradição institucional: recursos de uma fundação cuja finalidade legal é fomentar ciência, tecnologia e pesquisa científica passaram a financiar um programa de segurança pública, área que deveria possuir orçamento próprio e planejamento técnico específico. A utilização de verbas da Faperj para sustentar ações policiais revela não apenas um desvio de finalidade administrativa, mas também uma inversão de prioridades em um estado marcado pelo sucateamento das universidades públicas, pela precarização da pesquisa e pela redução de investimentos científicos.

Essa contradição torna-se ainda mais simbólica quando se observa a situação do prédio histórico que abriga o hub de inovação da Faperj, no bairro do Catete. O imóvel segue sem receber reformas estruturais adequadas, incluindo a recuperação e pintura de sua fachada externa, apesar de representar institucionalmente a política estadual de ciência e inovação. A deterioração física do espaço amplia a percepção de desconexão entre a missão original da fundação e a forma como seus recursos vêm sendo direcionados. Enquanto laboratórios, pesquisadores e universidades enfrentam dificuldades para obtenção de financiamento e manutenção de infraestrutura científica básica, recursos milionários são deslocados para programas de segurança pública associados a disputas político-eleitorais. O contraste entre o abandono de um patrimônio ligado à produção do conhecimento e a priorização de iniciativas alheias à pesquisa explicita uma crise de identidade institucional da própria Faperj.

A situação fica ainda mais delicada diante das evidências de ingerência política sobre a definição territorial do programa. Em vez de obedecer a estudos técnicos, indicadores de violência ou diagnósticos de segurança pública, a expansão das bases teria seguido interesses de parlamentares em seus redutos eleitorais, convertendo um programa estatal em instrumento de capital político. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre fundos públicos destinados à ciência e reforça o debate sobre a instrumentalização de estruturas do Estado para fins eleitorais e de fortalecimento de grupos políticos.

Diante das denúncias, o governo estadual anunciou a transferência do Segurança Presente para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e a realização de auditoria no programa. A promessa é que futuras expansões sejam orientadas por mapas de incidência criminal e critérios técnicos, buscando reduzir o peso das articulações políticas na condução da política de segurança pública.

FAPERJ em falha: atraso de bolsas expõe crise estrutural

Enquanto outros estados reajustam e pagam em dia, o Rio de Janeiro normaliza o atraso, a desigualdade e o silêncio institucional

A crise das bolsas da  Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) já não pode mais ser tratada como um problema administrativo pontual. O que está em curso é algo mais profundo: a desestruturação silenciosa da pós-graduação no estado do Rio de Janeiro. A combinação entre valores defasados, atrasos na implementação e ausência de previsibilidade transformou aquilo que deveria ser política de fomento em um mecanismo de precarização acadêmica.

O ponto de partida dessa crise é conhecido, mas raramente enfrentado com a devida franqueza: o valor das bolsas. Em nível nacional, as bolsas da CAPES passaram quase uma década congeladas até sofrerem um reajuste em 2023, quando o mestrado passou para cerca de R$ 2.100 e o doutorado para R$ 3.100. Ainda assim, mesmo após o reajuste, esses valores permanecem modestos diante do custo de vida — especialmente em cidades como a do Rio de Janeiro.

O problema é que, no caso fluminense, a situação é ainda mais grave. Outras fundações estaduais não apenas acompanham reajustes, mas os superam deliberadamente como estratégia de fortalecimento científico. A FAPESP, por exemplo, paga atualmente cerca de R$ 3.120 a R$ 3.300 para mestrado e até R$ 6.810 para doutorado . Já a fundação do Espírito Santo elevou suas bolsas a níveis superiores aos federais, com mestrado em torno de R$ 3.200 e doutorado em R$ 4.500, explicitamente com o objetivo de recompor perdas inflacionárias .

Ou seja: enquanto outros estados tratam a bolsa como instrumento estratégico de investimento em capital humano, o Rio de Janeiro a mantém como um valor corroído — e, pior, incerto.

Porque o problema não é apenas quanto se paga, mas se e quando se paga. Editais da própria FAPERJ seguem anunciando cronogramas relativamente organizados, com previsão de implementação de bolsas em janelas específicas ao longo do ano, como maio e setembro . No papel, há planejamento. Na prática, há um abismo entre o edital e a realidade vivida pelos estudantes. A implementação atrasa, o pagamento não chega, e o bolsista — que já recebe pouco — passa a não receber nada.

É nesse ponto que a crise assume sua face mais cruel. A pós-graduação brasileira, por definição, exige dedicação exclusiva. Sem bolsa, não há renda alternativa legítima. O estudante não está apenas com dificuldades: ele está estruturalmente impedido de cumprir aquilo que o sistema exige dele. A bolsa deixa de ser apoio e passa a ser um fator de instabilidade.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa distorção se torna ainda mais visível. A coexistência de bolsas pagas por diferentes agências, e até com verbas descentralizadas da própria FAPERJ, escancara uma desigualdade interna difícil de justificar: enquanto alguns estudantes recebem regularmente, outros — vinculados à FAPERJ “padrão” — enfrentam atrasos indefinidos. Cria-se, assim, uma hierarquia informal de sobrevivência dentro da própria pós-graduação da universidade do “Terceiro Milênio”.

Mas talvez o elemento mais perturbador de toda essa crise seja o silêncio. A ausência de posicionamento firme por parte de reitorias, pró-reitorias e coordenações não é apenas omissão — é cumplicidade passiva com a precarização. Ao não denunciar publicamente os atrasos, ao não pressionar institucionalmente por soluções, as universidades contribuem para a normalização de uma situação que deveria ser tratada como colapso.

E isso tem efeitos concretos e mensuráveis. Atrasos de bolsas significam evasão. Significam estudantes abandonando projetos, interrompendo pesquisas ou migrando para outros estados — justamente aqueles que oferecem melhores condições. Significam perda de competitividade científica. Significam, em última instância, um processo de “fuga de cérebros” interno, silencioso e contínuo.

Há ainda um dano menos visível, mas igualmente grave: a erosão da confiança institucional. Quando editais são lançados, resultados divulgados e bolsas prometidas — mas não implementadas —, o sistema perde credibilidade. E ciência não se sustenta apenas com financiamento: ela depende de previsibilidade, confiança e compromisso.

O caso da FAPERJ evidencia uma contradição estrutural. De um lado, a fundação continua lançando editais e reafirmando seu compromisso com a formação científica . De outro, falha em garantir o básico: a materialização dessas promessas na vida concreta dos estudantes. Não se trata mais de um problema técnico. Trata-se de uma escolha política — explícita ou por omissão.

Se o atual cenário persistir, o Rio de Janeiro corre o risco de consolidar um modelo perverso: formar pesquisadores em um ambiente de instabilidade crônica, onde a excelência acadêmica convive com a insegurança material. Um modelo em que a produção científica sobrevive não por apoio institucional, mas apesar dele.

E ciência, como se sabe, não floresce no improviso. Ela exige estabilidade, compromisso e, acima de tudo, respeito por aqueles que a constroem diariamente.

Após declaração acintosa de Cláudio Castro, SBPC e a Acadêmia Brasileira de Ciências lançam carta em defesa da ciência e da Faperj

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) manifestam publicamente sua profunda preocupação com as declarações do governador do Estado do Rio de Janeiro, Claudio Castro, que desqualificam o trabalho desenvolvido pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e atacam, de forma infundada, a comunidade científica fluminense.

A FaperjJ recebe uma porcentagem fixa da arrecadação estadual, conforme a Lei Estadual nº 5.448/2009, que determina o repasse de 2% da arrecadação líquida de impostos do estado. A alegação de que “95% da verba vai para projetos que nunca mostram nenhum resultado” é grave, injusta e desrespeitosa com milhares de pesquisadores e instituições que, com competência e compromisso, produzem conhecimento, inovação e soluções concretas para os desafios do estado e do país. A Faperj tem um papel estratégico no desenvolvimento do Rio de Janeiro, apoiando desde estudos sobre vacinas e novas terapias até pesquisas sobre mudanças climáticas, segurança alimentar, engenharia de infraestrutura, inteligência artificial, arqueologia, energias renováveis, economia e políticas públicas.

Projetos financiados pela Faperj, por exemplo, contribuíram decisivamente para o enfrentamento da pandemia de COVID-19, com o desenvolvimento de testes diagnósticos e a modelagem da propagação do vírus. Outros exemplos incluem tecnologias para o monitoramento de encostas e prevenção de deslizamentos em regiões de risco, estudos sobre a Baía de Guanabara com impacto direto na recuperação ambiental e no turismo, e pesquisas voltadas ao fortalecimento da indústria fluminense com base em ciência de ponta.

Além de sua relevância científica e social, os investimentos realizados pela Faperj geram retorno econômico concreto para o estado do Rio de Janeiro. Pesquisas em inovação tecnológica resultam na criação de startups, na melhoria da competitividade industrial e no desenvolvimento de soluções aplicáveis aos setores produtivo, ambiental e de serviços. Projetos apoiados pela fundação já levaram ao registro de patentes, à modernização de processos industriais e ao aprimoramento de políticas públicas baseadas em evidências. Trata-se de uma política pública com retorno de curto, médio e longo prazo — tanto em geração de emprego e renda quanto na redução de custos sociais e na melhoria da qualidade de vida da população fluminense.

Reduzir toda essa produção a um juízo depreciativo é não apenas equivocado, mas perigoso, pois deslegitima o papel da ciência como alicerce de uma sociedade mais justa, saudável e desenvolvida.

Lamentamos ainda as declarações do governador que sugerem que a comunidade científica teria se oposto à presença de uma mulher no comando da Faperj. Essa afirmação é infundada e distorce os termos reais do debate. As manifestações públicas feitas por entidades e pesquisadores refletiram a preocupação legítima com a condução da política científica no estado. Por entendermos a relevância estratégica da Faperj, defendemos que sua liderança esteja em diálogo permanente com a comunidade acadêmica e com os desafios do sistema estadual de ciência, tecnologia e inovação. Isso é fundamental para garantir a continuidade e a efetividade das ações da Fundação em benefício da sociedade fluminense. Finalmente, recordamos que, ao trocar a direção da Faperj, o governador prometeu respeitar a comunidade científica e as pesquisas que ela conduz.

A SBPC e a ABC reiteram seu compromisso com a defesa da ciência, da educação, da liberdade acadêmica e do investimento público responsável em pesquisa. O estado do Rio de Janeiro precisa de mais ciência, mais tecnologia e mais inovação – não menos. E para isso, é fundamental fortalecer a Faperj, não deslegitimá-la. Por isso mesmo exortamos o governador a cumprir sua promessa neste sentido, poucos meses atrás, quando substituiu a direção da Faperj.

Atenciosamente,

HELENA BONCIANI NADER                                         RENATO JANINE RIBEIRO

Presidente da ABC                                                              Presidente da SBPC

Sai pesquisador, entra empresário bolsonarista: troca na presidência da Faperj causa repentino e amargo acordar na comunidade científica fluminense

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O futuro presidente da Faperj, Alexandre Valle,  desfilando em carro aberto em companhia do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2024

Estou vendo uma série de manifestações e mobilizações em torno da demissão do Professor Jerson Lima do cargo de presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e sua substituição pelo empresário do ramo de seguros, Alexandre Valle, que também é ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Educação. De quebra, Valle foi recentemente derrotado como candidato a prefeito de Itaguaí, apesar do apoio explícito do ex-presidente Jair Bolsonaro de quem é aliado.

Ainda que eu entenda e apoie as demandas para a permanência de um pesquisador à frente da Faperj (afinal faz sentido que um pesquisador dirija uma fundação de amparo à pesquisa), eu não vejo nenhuma surpresa nessa substituição. 

Além disso, considero essa troca menos grave do que ter desde junho como secretário de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes, que em 2021 propôs a extinção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sob a alegação de que a instituição era muito cara para os cofres do Rio de Janeiro.

Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação, o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj.

O que me ocorre é que enquanto o cargo de secretário de Ciência e Tecnologia há muito tempo é daqueles que sobra para quem não quer efetivamente sentar na cadeira, a presidência da Faperj possui uma capacidade de alavancagem  política que é dada pela sua capacidade de financiamento. Mas se esse movimento tivesse ocorrido quando a nomeação de Moraes ocorreu, é muito provável que Cláudio Castro teria pensado melhor antes de mexer na Faperj.

A minha expectativa é que essa troca na Faperj sirva como alerta para os problemas que existem no tratamento da ciência e tecnologia no estado do Rio de Janeiro sob a égide de um governo claramente de direita, e sem quaisquer compromissos com o desenvolvimento científico e tecnológico.

Afinal, como se pode esperar mar de almirante com uma figura como Cláudio Castro sentada na cadeira de governador? A mim me parece que sempre estaremos mais para mar revolto. Que essa troca esdrúxula no comando da Faperj sirva para acordar quem ainda conseguia dormir em berço esplêndido. Afinal,  o cenário me parece claro: a Faperj corre grave risco sob a mãos de um empresário/político com laços claros 

No pico da pandemia, Wilson Witzel quer impor “privatização selvagem” do Estado a toque de caixa

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Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato Wilson Witzel falou em privatizar as universidades estaduais e depois negou. Agora Witzel mostra que a negação não era verdadeira

Quando meu avô paterno fez 90 anos e ninguém conseguia fazer uma fala em nome da numerosa família que estava em volta do bolo, minha falecida mãe surpreendeu a todos com uma fala que emocionou às lágrimas o velho imigrante que construiu uma jornada gloriosa ao longo de mais de oito décadas em terras paranaenses.  Minha arrematou a sua fala dizendo que os filhos, netos e bisnetos em volta do meu avô eram uma prova de o “fruto nunca cai longe do pé”.

Lembrei hoje dessa cena ao ler que o governador Wilson Witzel enviou ontem para a Assembleia Legislativa, e em regime de urgência, um projeto que retoma o modelo de privatização selvagem que começou a colocar o Brasil no buraco em que se encontra neste momento lá pelos idos de 1995.

Segundo nos informa a jornalista Paloma Savedra em matéria publicada pelo jornal “O DIA”, a proposta formulada pelo governador do Rio de Janeiro promoverá uma privatização ampla do estado, atingindo até as três universidades estaduais e a fundação de amparo à pesquisa do estado (a Faperj).

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Esse movimento implica em uma retirada da presença estatal em áreas estratégicas do funcionamento da segunda economia da federação, justamente em um momento que se precisaria de uma ação concentrada do estado para alavancar uma economia que já se encontrava em franca decadência, antes mesmo da eclosão da pandemia causada pelo coronavírus. Witzel faz assim uma espécie de “Plano Marshall” às avessas, pois retira do estado a capacidade de agir de forma organizada e compreensiva para retirar a economia fluminense do buraco.

Ao buscar a privatização das universidades estaduais e da Faperj, Wilson Witzel também realiza um ataque fulminante na capacidade do Rio de Janeiro de se postar como uma liderança importante na formulação de soluções amplas para a presente pandemia. É que as universidades estaduais e a Faperj estão na linha de frente das ações que têm sido tomadas, com pouquíssimos suporte do governo estadual, para oferecer soluções amplas para o enfrentamento da pandemia.

O interessante é que, no mesmo período em que quer impor um modelo de privatização selvagem, o governador Wilson Witzel tem sido pego em situações pouco lustrosas em relação à realização de contratos para combater a pandemia da COVID-19.  Como tem sido meticulosamente levantado pelo jornalista Ruben Berta, editor do “Blog do Berta”, há uma outra epidemia grassando no Rio de Janeiro em meio da causada pelo coronavírus, envolvendo contratos duvidosos com valores para lá de salgados. Aparentemente, as preocupações do governador Wilson Witzel com a saúde financeira do estado do Rio de Janeiro são, no mínimo, seletivas.

Como em tantos outros casos que já vivi ao longo de mais de duas décadas em que sirvo ao povo do Rio de Janeiro como servidor público, esse ataque em regra às universidades e outros estatais terá de ser respondido de forma direta.  Os problemas causados pela pandemia em termos de aglomerações públicas não poderão excusa para inação política. Esse é um ataque não apenas a instituições públicas estratégicas, mas, principalmente, ao futuro do Rio de Janeiro. A hora de reagir a Wilson Witzel é agora, e a reação não poderá ser deixada para depois.

Mas voltando ao ditado do “fruto não cai longe do pé”, é preciso reconhecer que Wilson Witzel já havia aventado privatizar as universidades estaduais já na condição de candidato a governador. Entretanto, sob pressão da opinião pública, ele acabou recuando em seus discursos de campanha, negando que iria fazer a privatização que quer fazer agora. Pessoalmente nunca acreditei na negação de Witzel, e o envio deste pacote de privatização selvagem prova que eu estava certo, e os que acreditaram no governador estavam errados. 

(Des) governo Pezão continua asfixia financeira da UENF que, tal qual um equilibrista bêbado, segue em frente

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A aprovação da chamada PEC 47 foi apresentada por dirigentes universitários, deputados e até alguns sindicalistas com uma vitória retumbante contra as políticas neoliberais do (des) governo Pezão. Segundo o que se disse na época da aprovação (incrivelmente em torno de 6 meses atrás), a aprovação da PEC 47 possibilitaria o uso da justiça para cobrar, pelo menos, os 25% mínimo obrigatórios dos orçamentos aprovados pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para as universidades estaduais para o ano fiscal de 2018.

Mas já entradas no mês de junho, as universidades estaduais continuam submetidas a um pavoroso processo de aniquilação financeira, já que o (des) governo Pezão não está cumprindo o que agora consta da Constituição Estadual do Rio de Janeiro em termos do aporte dos recursos aprovados pela Alerj para as três universidades estaduais. Além disso, o (des) governo Pezão iniciou um processo de implosão da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (a Faperj) que se encontra não apenas sem o aporte de seus recursos aprovados pela Alerj, mas como imersa em um perigoso processo de acefalia institucional.

Entretanto, quem anda pelo campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) não tem como verificar que as coisas estão, no mínimo, nas mesmas condições que causaram uma greve que durou incríveis seis meses. É que na mansidão dos dias mais ou menos frios, tudo parece correr na maior tranquilidade, enquanto a grama cortada teima em voltar a brotar, enquanto os usuários do Restaurante Universitário (ainda aberto) se acomodam em longas filas diárias para acessar comida barata.

E aquelas promessas de que o (des) governo Pezão seria acionado na justiça para adotar a forma de repasse orçamentário agora sacramentado na Constituição Estadual? Essas andam tão esquecidas quanto tantas outras que foram feitas num passado não muito distante quando o atual reitor era candidato ao cargo. A explicação para a inação objetiva seria não perturbar uma suposta boa relação com o (des) governo Pezão. 

Em meio a tudo isso, como ficam, por exemplo, os servidores que agora estão novamente ameaçados pelo atraso de seus salários? Difícil saber com certeza, mas parece claro que a maioria adotou a tática da avestruz que enterra a cabeça no chão para fugir dos problemas reais que a vida lhes apresenta.  O silêncio sepulcral só é quebrado de vez em quando pelo chamado insistente de algum gerente de banco cobrando o pagamento de contas que ainda continuam atrasadas após o massacre promovido contra os servidores estaduais em 2017.

Apesar de compreensiva, essa posição de avestruz em decúbito ventral, o fato é que o mesmo não muda a realidade a que estamos submetidos. E, cedo ou tarde, haverá que se fazer o devido debate sobre a real condição em que se encontra a Uenf, especialmente agora que o seu Conselho Universitário aprovou a incorporação (para ser mais correto, a extinção) do Escola Estadual Agrícola Antonio Sarlo, o que implicará num aumento de tarefas e despesas para uma universidade que já perdeu a capacidade até de comprar papel higiênico para seus banheiros. 

Sem esse debate e, mais ainda, sem a implementação de ações práticas que consigam pautar a entrega dos recursos aprovados pela Alerj, a verdade inescapável é que a Uenf (e por extensão a Uerj e a Uezo) enfrentará graves dificuldades para continuar funcionando a curto prazo.

Assim, meus caros leitores, não se enganem com as boas novas de que tudo isto está normal na Uenf. Quando muito estamos fingindo que está tudo normal, enquanto prosseguimos realizando as tarefas possíveis, tal qual um bêbado equilibrista enfrentaria o picadeiro de um circo mambembe.

Comissão debate repasse de recursos para a Faperj

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A audiência pública acontece nesta quarta-feira (02/05), às 10h, na sala 316 do Palácio Tiradentes; SBPC convoca a todos a participarem da discussão

A Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) vai discutir os repasses orçamentários para a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). A audiência pública acontece nesta quarta-feira (02/05), às 10h, na sala 316 do Palácio Tiradentes, e por isso, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) convoca a todos a participarem dessa audiência pública.

“Precisamos garantir o pleno funcionamento da produção acadêmica, da pesquisa e da inovação no Rio de Janeiro. A pesquisa científica fluminense é uma das mais relevantes no mundo no combate à zika, dengue e chikungunya, demonstrando a importância do setor. Não podemos permitir a fuga de mentes inteligentes para outros estados ou até mesmo outros países. Manter os repasses é fundamental para que não haja um retrocesso tecnológico”, afirma o presidente da comissão, deputado Comte Bittencourt (PPS).

Na pauta da audiência pública encontram-se os seguintes itens propostos pela SBPC:

1 – Veto do artigo 20 da Lei no7. 844 que trata da realocação de recursos destinados à FAPERJ e FECAM;

2 – O fim do contingenciamento de recursos destinados à Ciência, Tecnologia e Inovação no Estado do Rio de Janeiro;

3 – A garantia do cumprimento do repasse de 2% à Ciência, Tecnologia e Inovação no Estado do Rio de Janeiro de acordo com a Constituição Estadual;

4 – Projeto de Lei que garanta o repasse em duodécimos para as instituições de ensino superior e agências de fomento do Estado do Rio de Janeiro.

Foram convidados para a reunião representantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Universidade Estadual da Zona Oeste (UEZO) e da Faperj. Também participam do encontro estudantes bolsistas e professores do ensino superior, além de integrantes da SBPC e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social (SECTIDS).

Veja a convocação da SBPC aqui.

FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/comissao-debate-repasse-de-recursos-para-a-faperj/

Pezão sorri enquanto faz a ciência fluminense sangrar

A imagem abaixo é de uma reunião realizada no Palácio Guanabara pelo (des) governador Luiz Fernando Pezão com dirigentes da comunidade científica na última 6a. feira (20/10). Além de Pezão e do (des) secretário  Gustavo Tutuca estavam presentes os reitores das três universidades estaduais (Uenf, Uerj e Uezo), dirigentes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Academia Brasileira de Ciências.

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A pose sorridente do (des) governo Pezão (que, aliás, foi seguida por alguns dos presentes) demonstra que essa foi mais uma reunião onde ele não prestou, nem foi instado a prestar, contas sobre a situação catastrófica que seu (des) governo causou nas universidades estaduais e na Faperj, instituições que hoje amargam condições financeiras catastróficas.

O pior é que nesta reunião, além de prometer que o pagamento dos salários de 2017 será normalizado, Pezão adiantou sua projeção de que 2018 será um ano mais fácil para as universidades estaduais, onde o fluxo financeiro será hipoteticamente normalizado.

Bom, talvez essas promessas sejam a razão do riso de Pezão. É que ele deve saber bem que partindo de seu (des) governo, esse tipo de promessa está mais para piada do que para compromisso com o que se fala.

O que me deixa intrigado é de porquê mesmo diante da situação catastrófica que impera nas universidades estaduais e na Faperj,  os dirigentes dessas instituições ainda se permitam a serem fotografados em uma condição, digamos, aparentemente tão feliz com o algoz de nossas univerisdades. É que esse “republicanismo” todo que permite que o (des) governador Pezão e seu (des) governo façam o que bem entendam com as universidades estaduais e a Faperj. Simples, mas ainda assim trágico.

Após atrasar entrega de verbas por quase 2 anos, Faperj congela recursos após morte de pesquisador principal de projeto sobre o Aedes Aegypti

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O Professor Mário Alberto Cardoso da Silva Neto era uma autoridade científica nas pesquisas sobre o Aedes Aegypti, e o impacto da sua morte está sendo agravado pelo congelamento de verbas da Faperj.

Existem coisas que só acontecem no Rio de Janeiro do (des) governo Pezão! A notícia baixo que é assinada pelo jornalista Renato Grandelle nos dá conta de uma situação tão esdrúxula que chega difícil de ser entendida. Segundo o que nos informa Grandell,e a direção da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), após atrasar por cerca de 2 anos o desembolso de verbas de um projeto de pesquisa relacionado à dengue (o qual teve seu termo de outorga entregue em Novembro de 2015!), decidiu congelar de vez a entrega de recursos devidos após a morte do investigador principal, o  bioquímico Mário Alberto Cardoso da Silva Neto, professor associado do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ (Aqui).

faperj congelada

Como em tantas instâncias que já acompanhei, a direção da Faperj está apenas seguindo firmemente os protocolos que adota para garantir o estrito controle sobre os recursos desembolsados para a realização do projetos de pesquisa, o que por si só não seria errado. Afinal, ninguém é contra o mal uso de verbas públicos. Entretanto, toda a rigidez que está sendo usada para justificar o congelamento das verbas e a objetiva inviabilização de um projeto de alto interesse científico social não teria sido necessária se a Faperj tivesse entregue as verbas no tempo correto.  O que teria se dado antes do falecimento do pesquisador responsável de recursos que acabaram nunca chegando, é bom se frise.

E o mais alarmante é que dado o corte de verbas estar ocorrendo também em nível federal, o grupo de pesquisa do professor Mário Alberto Cardoso da Silva Neto está sendo objetivamente inviabilizado e junto com isto vem a não continuação de várias pesquisas importantes.

Por outro lado, o (des) governo Pezão continua distribuindo bilhões em isenções fiscais e alocando outros tantos bilhões para alimentar a ciranda financeira em que se envolveu a partir de uma política irresponsável de endividamento público. 

Enquanto isso, a população que se vire no próximo verão quando outras epidemias causadas pelo Aedes Aegypti deverão ocorrer. Simples, porém, trágico. 

Para ler a reportagem completa sobre esse caso lamentável, basta clicar (Aqui!)

Ao inviabilizar a Faperj, o (des) governo Pezão promove desmanche criminoso da ciência fluminense

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Até agora só havia ficado evidente a situação calamitosa em que se encontram as universidades estaduais cujos servidores se encontram sem os salários pagos a partir de Abril deste ano, e com quase nada de verbas para custear as suas múltiplas atividades. Esse retrato nefasto dos efeitos resultantes das escolhas seletivas do uso de recursos pelo (des) governo Pezão acaba de ganhar uma camada adicional com a reportagem do jornalista Renato Grandelle que trata da inviabilização financeira da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj (Aqui!). (ver reprodução abaixo).

Como mostram os  números levantados por Renato Grandelle, em 2017 a Faperj recebeu apenas 9,5% do orçamento que lhe foi designado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, pior, existem débitos acumulados com pesquisadores que remontam ao ano de 2015. E com isso se perdem anos de pesquisa, comprometendo avanços necessários em múltiplas áreas de conhecimento.

De quebra, houve um aumento significativo nas dificuldades de prestar contas à Faperj do pouco que vem sendo desembolsado na forma de financiamento de projetos de pesquisa, o que pode ser visto como uma forma de diminuir a demanda reprimida por novos financiamentos, especialmente por parte de jovens pesquisadores.

Esta situação está causando não apenas o processo conhecido como “fuga de cérebros” que é aquele caracterizado pelo migração (interna ou externa) dos melhores quadros que estavam sendo ou foram formados no Rio de Janeiro que partem em busca de melhores condições de trabalho.

A perda de quadros de pesquisadores já está comprometendo pesquisas em áreas estratégicas para o Rio de Janeiro, a começar pela citada na reportagem que versa sobre enfermidades tropicais como a dengue que é causada pelo mosquito Aedes aegypti.

Aqui não há outra caracterização possível em relação ao que representa a quebra financeira da Faperj e das universidades senão o de um desmanche crimonoso da ciência fluminense. É que se olharmos os desembolsos feitos para empresas terceirizadas e até mesmo as bilionárias concessões de isenções fiscais, veremos que o problema do Rio de Janeiro não é simplesmente falta de dinheiro, mas de decisões tomadas para beneficiar as corporações econômicas em detrimento do interesse público.

O problema é que ao perder a capacidade de produzir ciência de alta qualidade, o Rio de Janeiro se candidata a uma posição de atraso permanente, mesmo dentro do Brasil.