Aves canoras estão sendo dizimidas por Fipronil usado em tratamento contra pulgas em animais de estimação, mostra estudo

Exclusivo: Produto químico usado no tratamento de pulgas e carrapatos de animais de estimação é encontrado em ninhos de chapins-azuis e chapins-reais, matando filhotes 

O fipronil é proibido para uso agrícola no Reino Unido, mas ainda é amplamente usado para impedir que animais de estimação peguem pulgas, acabando nos ninhos de pássaros canoros, como os chapins-azuis. Fotografia: Geoffrey Swaine/Rex/Shutterstock

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Um estudo descobriu que filhotes de pássaros canoros estão sendo mortos por altos níveis de pesticidas nos pelos de animais de estimação usados ​​pelos pais para forrar seus ninhos.

Pesquisadores que pesquisaram ninhos em busca do produto químico nocivo encontrado em tratamentos contra pulgas de animais de estimação descobriram que ele estava presente em todos os ninhos. Os cientistas da Universidade de Sussex agora estão pedindo que o governo reavalie urgentemente o risco ambiental dos agrotóxicos usados ​​em tratamentos contra pulgas e carrapatos e considere restringir seu uso.

Cães e gatos são amplamente tratados com inseticidas para prevenir pulgas. Os veterinários geralmente recomendam tratamentos regulares contra pulgas como uma medida preventiva, mesmo quando cães e gatos não têm a praga. Mas os cientistas agora recomendam que os animais não sejam tratados contra pulgas, a menos que realmente as tenham.

Um chapim-real em um galho no invernoUm chapim-real. Nenhum ninho no estudo estava livre de inseticidas, disseram os pesquisadores, o que pode estar tendo consequências devastadoras nas populações de pássaros do Reino Unido. Fotografia: JMP/Abaca/Rex/Shutterstock

Já era amplamente conhecido que os produtos químicos nos tratamentos estavam afetando a vida em rios e córregos depois que animais de estimação nadavam neles, mas a descoberta da contaminação de ninhos de pássaros canoros aumentará a pressão.

Cannelle Tassin de Montaigu, principal autora do artigo de pesquisa, disse: “Nenhum ninho estava livre de inseticidas em nosso estudo, e essa presença significativa de produtos químicos nocivos pode estar tendo consequências devastadoras nas populações de pássaros do Reino Unido.

“Nossa pesquisa mostra que, com base nos produtos químicos detectados, os medicamentos veterinários contra pulgas e carrapatos são a fonte mais provável de contaminação. Realizamos nossa pesquisa quando era seguro fazê-lo, no final da temporada de reprodução, então o problema pode, de fato, ser muito pior. Isso levanta questões sobre o impacto ambiental dos medicamentos veterinários e exige uma avaliação abrangente do risco ambiental dos tratamentos veterinários.”

O estudo, publicado hoje na Science of the Total Environment , mostra que o pelo usado pelos pássaros para construir o revestimento interno de seus ninhos continha produtos químicos usados ​​em tratamentos contra pulgas de animais de estimação, como o fipronil.

Os pesquisadores coletaram 103 ninhos de chapim-azul e chapim-real que foram forrados com pelos, descobrindo que 100% dos ninhos continham fipronil, que é proibido no Reino Unido e na UE para uso agrícola, e 89% continham imidacloprida, que foi proibida na União Europeia como um produto de proteção vegetal em 2018. Ambos ainda são amplamente usados ​​em tratamentos contra pulgas de animais de estimação. O governo do Reino Unido está elaborando planos para uma proibição total de imidacloprida na agricultura, mas não para tratamentos de animais de estimação. Os pesquisadores também detectaram 17 dos 20 inseticidas que estavam testando.

Os cientistas encontraram um número maior de ovos não eclodidos ou filhotes mortos em ninhos onde houve maior incidência de inseticida.

Pesquisas recentes descobriram que esses tratamentos contra pulgas também entram nos rios, matando os animais selvagens, e que os donos de animais de estimação que os utilizam correm o risco de contaminar as mãos com os produtos químicos por pelo menos 28 dias após a aplicação do tratamento.

Sue Morgan, a presidente-executiva da SongBird Survival, disse: “Somos uma nação de amantes de animais de estimação e amantes de pássaros, e é extremamente preocupante ver os níveis alarmantes de agrotóxicos em ninhos de pássaros de medicamentos veterinários. Os donos de animais de estimação ficarão chateados ao saber que, ao tentar fazer a coisa certa para sustentar seus animais de estimação com pulgas e carrapatos, eles podem estar prejudicando nosso ecossistema, resultando em filhotes recém-nascidos mortos e ovos não eclodidos. Como donos de animais de estimação, precisamos ter confiança de que estamos mantendo nossos animais de estimação bem, sem impactos devastadores em nossa vida selvagem.

“Nossos pássaros canoros do Reino Unido estão em crise. Mais da metade dos nossos pássaros canoros do Reino Unido estão ameaçados ou já em declínio, e é por isso que esta última pesquisa mostra a importância de agir o mais rápido possível. Queremos que o governo realize uma avaliação de risco ambiental mais abrangente de medicamentos veterinários.”


Fonte: The Guardian

Contrabando de produtos falsos ou adulterados agrava riscos ambientais e sanitários causados por agrotóxicos no Brasil

China é a principal fonte de agrotóxicos ilegais que inundam a agricultura brasileira com produtos falsos ou adulterados

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Embalagens, lacres e rótulos apreendidos poderiam produzir 120 toneladas de defensivos agrícolas fraudulentos. Foto: MAPA/Divulgação

Por Aline Merladete para o Agrolink

O contrabando de agrotóxicos ilegais para serem usados na produção agrícola brasileira tornou-se um crime de grandes proporções. O Brasil, que tem uma legislação rigorosa para regular a compra e o uso desses produtos, está enfrentando um aumento preocupante no contrabando de agrotóxicos de países vizinhos com leis menos restritivas, como o Uruguai. A prática ilegal tem consequências para a saúde pública, o meio ambiente e a economia do país.

Aproximadamente 20% do mercado de agrotóxicos no Brasil é composto por produtos contrabandeados. Essa prática ilegal não apenas representa um risco para a saúde humana e o meio ambiente, mas também prejudica a reputação dos produtos agrícolas brasileiros no mercado global. No Uruguai, apenas os produtos mais perigosos requerem receita agronômica, ao contrário do Brasil, onde todas as compras exigem prescrição. Essa diferença na legislação e preço tem levado muitos produtores brasileiros a optarem por adquirir agrotóxicos no país vizinho, mesmo que isso constitua um crime. 

Problemas do uso de agrotóxicos / defensivos falsos ou contrabandeados

Um estudo baseado em laudos periciais da Polícia Federal destacou que os ingredientes ativos mais apreendidos incluem substâncias como Imidacloprido, Metsulfurom-metílico e Fipronil. A China é apontada como o principal país de origem dos agrotóxicos contrabandeados, seguida pelo Paraguai e Uruguai. Embora muitos desses produtos contrabandeados possuam o ingrediente ativo e a concentração informados nos rótulos, há casos de falsificação ou concentrações diferentes, representando um sério risco para a saúde e a agricultura.

O uso desses agrotóxicos ilegais pode levar a consequências desastrosas na lavoura e representar sérios riscos à saúde dos produtores e consumidores. Produtos adulterados podem conter concentrações tóxicas prejudiciais, enquanto aqueles proibidos no Brasil podem causar danos irreversíveis.

Apesar dos esforços das autoridades brasileiras para combater o contrabando de agrotóxicos, a prática persiste, muitas vezes associada à corrupção e à violência. A diferença de preços em relação a outros países continua a impulsionar esse comércio ilegal, alimentando uma cadeia de eventos prejudiciais para a sociedade e a economia.

O contrabando de agrotóxicos é uma realidade preocupante que afeta negativamente diversos aspectos da sociedade brasileira e além disso, o uso desses produtos pelo produtor é considerado crime. 


Fonte: Agrolink

Ibama suspende aplicação de agrotóxicos à base de fipronil

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 O Ibama publicou no dia 29 de dezembro de 2023, comunicado para suspender, como medida cautelar, a aplicação de agrotóxicos à base de fipronil por meio de pulverização foliar em área total, ou seja, não dirigida ao solo ou às plantas. A medida visa a proteção aos insetos polinizadores até que o referido procedimento de reanálise do agrotóxico seja concluído pelo Ibama.

O fipronil, ingrediente ativo de vários agrotóxicos, encontra-se sob reavaliação ambiental pelo Ibama desde setembro de 2022, em razão dos indícios de efeitos adversos graves às abelhas associados ao uso desses agrotóxicos, observados em estudos científicos e relatados em diversas partes do mundo.

As avaliações já realizadas indicam a potencial existência de risco ambiental inaceitável às abelhas, decorrente da deriva da pulverização, para todos os produtos à base de fipronil com indicação de uso via aplicação foliar.

O comunicado justifica a suspensão com base no “direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” e que a “proteção do meio ambiente auferida pelos princípios da precaução e da prevenção se dá com a implementação de medidas que possam prevenir a ocorrência de danos”.

Os titulares de registro de agrotóxicos que contenham fipronil como ingrediente ativo têm prazo de 90 dias, contados a partir da publicação do Comunicado, para publicar folheto complementar, etiqueta ou outro meio eficaz, com a frase de advertência:

“Este produto é tóxico às abelhas. A aplicação aérea não é permitida. A pulverização foliar não dirigida ao solo ou às plantas, ou seja, aplicações em área total, não é permitida. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades cabíveis e sem prejuízo de outras responsabilidades.”


Fonte: Assessoria de Comunicação do Ibama

No crespúsculo de 2023, deriva de agrotóxicos exterminou milhões de abelhas no Paraná

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A notícia publicada pelo Portal G1 é nova, mas parece velha já que trata de um problema recorrente nas regiões produtoras de mel no sul do Brasil, qual seja, o extermínio de milhões de abelhas por causa da deriva de agrotóxicos em Arapoti, município campeão na produção de mel no Paraná. O principal suspeito de ser o causador de mais esse extermínio de abelhas é o inseticida Fipronil, um velho conhecido dos apicultores brasileiros que estão perdendo sua fonte de renda em passos cada vez maiores.

A liberação de dezenas de formulações de Fipronil, que começou no governo Bolsonaro e continuou no governo Lula, é uma espécie de morta anunciada de abelhas e outros polinizadores que não são em tese alvo da aplicação de agrotóxicos. Entretanto, dada a ocorrência praticamente inevitável do processo de de deriva, o extermínio de polinizadores é uma consequência costumeira do uso de venenos agrícolas que são letais para todo tipo de insetos, e não apenas aqueles que são considerados pragas agrícolas.

A diminuição das populações de abelhas representa uma grave ameaça não apenas para os apicultores, mas para a agricultura em geral. A dependência da maioria das culturas da ação mecanica realizada pelos insetos na distribuição do pólen torna as abelhas elementos essenciais na produção agrícola. No entanto, dentro da lógica do “ogronegócio” que vende hoje o que poderá colher no futuro, o sacríficio do médio e longo prazo, curiosamente, é desprezado em nome da continuidade de um modelo viciado em agrotóxicos.

Como demonstrado na matéria do G1, a ação das agências ambientais é basicamente inócua dado que a força das entidades que representam ruralistas e os fabricantes de agrotóxicos continua sendo exercida diretamente dentro do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), bem como na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). A recente promulgação do Pacote do Veneno pelo presidente Lula deverá agravar ainda mais essa interferência, dada a fragilização que ocorreu no marco regulatório dos agrotóxicos.

A saída para apicultores e agricultores que praticam sistemas não venenosos será tornar a questão de agrotóxicos um elemento central da luta política visando mobilizar a população que deseja ter acesso a alimentos saudáveis contra a hegemonia dos agrotóxicos na agricultura brasileira. Do contrário, em pouco tempo não haverá mais abelhas para polinizar nossos campos e produzir mel.

Pesquisadores da Unesp defendem restrições e até proibição do uso do inseticida fipronil

Dupla de docentes participou de debates em comissão da Câmara dos Deputados que avaliam mudanças no uso do produto, banido em diversos países e na União Europeia. Só este ano, Brasil registrou centenas de milhões de mortes de abelhas atribuídas à ação do defensivo agrícola

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Por Malena Stariolo para o Jornal da Unesp

Ao chegar para trabalhar em seu apiário na cidade de Itatinga, SP, certa manhã de janeiro passado, o apicultor Joel Andrade se deparou com uma cena digna de um filme de terror. Nas caixas que serviam como suportes para as colmeias, as entradas estavam abarrotadas com os remanescentes de centenas de abelhas mortas. E as surpresas continuaram. Ao longo da semana, ele viu morrerem todos os integrantes de cerca de quarenta colmeias. Em um mês, outras 20 colônias desapareceram. Das que restaram, pouco pôde ser salvo; a maioria definhou até ter a produtividade zerada. “Perdi 120 colmeias, o que gerou um prejuízo de  aproximadamente R$100 mil”, diz ele.

Joel Andrade é presidente da Associação de Apicultores do Polo Cuesta, que reúne profissionais das cidades de Pardinho, Botucatu, Bofete, São Manuel, Pratania, Avaré, Paranapanema, Anhembi e Itatinga. Ele relatou a perda à Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo que monitora os eventos de mortes de colmeias. Os funcionários do órgão atribuíram a mortandade ao uso do inseticida fipronil por algum agricultor nas proximidades.

Os apicultores brasileiros já se acostumaram com essas perdas. Em 2017, foram contabilizadas mortes de 50 milhões de abelhas em Santa Catarina, e de 500 milhões de polinizadoras no Rio Grande do Sul, entre 2018 e 2019. Só neste ano, foram registrados 100 milhões de mortes de abelhas no estado do Mato Grosso, apenas no mês de junho. Em julho, houve relatos de perdas no estado de Minas Gerais, e mais 80 milhões de mortes de abelhas na Bahia.  Em comum, todos estes eventos foram atribuídos ao uso do fipronil.

A substância já consolidou uma reputação global de letalidade com as abelhas, o que lhe valeu proibições em países como Colômbia, Uruguai, Costa Rica, Vietnã e África do Sul, além de toda a União Europeia. No Brasil, seu uso tem sido cada vez mais contestado, embora seja proibido apenas em poucos estados (veja quadro abaixo). “Estamos falando de um inseticida que é extremamente tóxico para o meio ambiente e que promove alterações no sistema nervoso central dos insetos” diz Ricardo Orsi, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, campus Botucatu. “O resultado é a ocorrência de desorientação, tremores, convulsões, paralisia e morte.”

Aqui no Brasil, o uso do produto foi debatido na quinta-feira, 23, em audiência da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados. Lá, apicultores e representantes da sociedade civil se manifestaram a favor da proibição do uso do fipronil e de outros agrotóxicos responsáveis pelos casos de mortes massivas de abelhas.

O fipronil no Brasil

A empresa alemã Basf adquiriu a patente do defensivo em nível global em 2003 e manteve o produto no Brasil até 2011, quando perdeu os direitos da patente. Liberada inicialmente pelas autoridades brasileiras para aplicação apenas no solo, em culturas de cana-de-açúcar ou em sementes de armazenamento, teve suas restrições flexibilizadas. Hoje seu emprego é autorizado em qualquer tipo de monocultura e no controle de pragas foliares, e a aplicação é feita diretamente nas folhas da plantação. “Após a queda da patente, a produção também passou a ser feita por diversas empresas” diz o pesquisador Osmar Malaspina, do Instituto de Biociências da Unesp, campus Rio Claro. “Com a liberação do Ibama, foram elaboradas diversas formulações e esse foi o grande problema: todos tiveram a possibilidade de produzir e adquirir o produto”, diz.

Por meio de sua assessoria, a Basf declarou ao Jornal da Unesp que associa os episódios de alta mortalidade de abelhas cada vez mais notificados à utilização incorreta do produto. E disse defender maiores restrições e mais fiscalização. “Apoiamos uma regulamentação em nível federal que venha a restringir o uso de fipronil para aplicação foliar”, disseram os representantes da empresa. A declaração também reforçou que a utilização apropriada do produto deve ser feita abaixo da superfície do solo, de maneira a evitar contato com organismos sensíveis da superfície, como abelhas ou outros polinizadores.

No Brasil, a utilização do fipronil está em processo de reavaliação pelo Ibama desde 2012 mas segue a passos lentos. Esse ritmo gera preocupação em pesquisadores, apicultores e meliponicultores, que buscam a proibição do uso do produto. Isso já se tornou realidade nos estados de Goiás e Santa Catarina. Além disso, a bula do produto diz que é proibida a aplicação aérea e em épocas de floração, ou mesmo quando é observada a visitação de abelhas nas lavouras. Apesar dos números impressionantes relatados nos últimos anos, os pesquisadores acreditam que a fiscalização da utilização do inseticida, além de envolver diversos desafios, tem na verdade se mostrado pouco eficiente.

Durante a audiência da Comissão de Legislação Participativa na Câmara dos Deputados, o deputado Padre João (PT-MG), responsável por propor o debate, defendeu a realização de concurso público para os órgãos de fiscalização e a retomada do Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara). “Na questão das abelhas, quando se avança é um tiro, não no pé, mas no coração do próprio agronegócio, porque elas fazem uma tarefa de graça, que é a polinização”, disse.

Além de produtoras de mel e de outros produtos aproveitados pelos seres humanos, as abelhas também são importantes agentes polinizadores de muitas espécies de plantas, garantindo a continuidade de flora ameaçada e contribuindo para a biodiversidade dos ecossistemas. Além de beneficiar flores silvestres, o serviço de polinização também é um aliado das plantações: por meio da transferência do pólen, elas contribuem para um aumento da qualidade e produtividade da cultura. “Então a produtividade de muitas culturas vai cair com o extermínio das abelhas”, disse Padre João. “Aonde chegaremos se não tivermos a sensibilidade e a iniciativa para conter esse processo?”

Letal mesmo em microdoses

Orsi, que é presidente da comissão técnico-científica da Confederação Nacional de Apicultura e Meliponicultura – CBA, também esteve presente durante o debate na Câmara dos Deputados. O pesquisador chama a atenção para o fato de que, além do efeito agudo que causa a morte quase instantânea de milhares de abelhas, o fipronil é igualmente perigoso em doses consideradas subletais. Estas não causam a morte de mais da metade da colônia em menos de 48h, mas são responsáveis por afetar de maneira sistêmica o funcionamento das abelhas e levar a colmeia ao colapso em até oito semanas.

Em artigo publicado em 2015, na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, o grupo de pesquisa liderado por Orsi determinou quais seriam as doses letais e subletais de fipronil às quais as abelhas deveriam ser expostas para sofrer com os efeitos da substância. Uma dose letal é definida como a quantidade que apresenta um grau de toxicidade agudo, responsável por matar mais de 50% de uma colônia em até 48h. Já as doses subletais são aquelas que infligem consequências crônicas, que podem ser acompanhadas com o decorrer dos dias.

No estudo, os pesquisadores utilizaram diferentes concentrações de fipronil para expor as abelhas ao contato e ingestão. Como resultado, eles identificaram que, por ingestão, a dose letal média da substância era de 0,19 microgramas (μg), ou seja, o equivalente a um grama dividido em um milhão. Entrando em contato, a quantidade para que a dose seja letal é ainda menor: de 0,009 μg. Uma vez contaminadas pelo inseticida, quando as abelhas retornam para a colônia, elas são responsáveis por contaminar as outras com quem entram em contato ou alimentam. Assim, o efeito do fipronil é espalhado pela colmeia levando à morte ou ao definhamento da maioria dos indivíduos (veja quadro abaixo).

Os números seguem caindo quando são analisadas as doses subletais. Uma abelha precisou ingerir apenas 0,0004 microgramas para sofrer os efeitos de intoxicação crônica. As abelhas operárias têm seu senso de tempo e direção alterados, o que torna a tarefa de polinização e de retorno para a colônia progressivamente mais complicada. Além disso, elas também têm as glândulas hipofaringeanas e mandibulares afetadas, estas estruturas são responsáveis por produzir a geleia real, um alimento exclusivo da abelha rainha. Sem uma alimentação adequada, a produção de ovos da abelha rainha começa a cair, chegando a zero após oito semanas do primeiro contato. De maneira semelhante, ocorre o declínio do desenvolvimento de larvas e pupas, processo que chega a zero após seis semanas. Assim, o grupo constatou que em mais ou menos dois meses uma colônia inteira pode entrar em colapso.

“Esses efeitos sistêmicos tornam difícil associar as mortes ao fipronil, porque não acontece aquela cena chocante de encontrar muitas abelhas mortas na boca da caixa”, explica Orsi. “O que ocorre é que o apicultor vê uma pequena mortalidade e depois começa a perceber que a colônia não se desenvolve. Isso acontece devido às doses subletais, que penetraram e não deixaram a colônia ir para frente”, diz.

O princípio ativo mais presente

A fim de esclarecer qual o real impacto do uso dos defensivos agrícolas sobre os episódios de mortandade de abelhas, e facilitar a coexistência entre apicultores, agricultores e populações do inseto, Malaspina coordenou o projeto Colmeia Viva. O projeto foi uma realização do SINDIVEG (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), e realizado em parceria com a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e com Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ao longo de quatro anos, a equipe do projeto conduziu o Mapeamento de Abelhas Participativo (MAP), que envolveu o monitoramento de ocorrências de mortes massivas de abelhas no estado de São Paulo e a coleta de amostras no local, a fim de investigar e identificar as causas.

Ao todo, a equipe realizou mais de 80 coletas de amostras, com mais de cem abelhas por amostra em diferentes cidades do estado. O fipronil foi encontrado em 59 casos, o equivale a, aproximadamente, 70% das ocorrências analisadas. Anos mais tarde, os dados foram corroborados por um levantamento da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo, que realizou coletas em municípios do estado entre 2020 e 2022 para identificar os principais resíduos de defensivos agrícolas encontrados em abelhas mortas. A equipe responsável analisou 62 amostras, envolvendo um total de 2.759 abelhas. Dos 49 casos em que foi possível identificar resíduos tóxicos, o princípio ativo mais comum foi o fipronil, presente em 63% das ocorrências. Em um distante segundo lugar ficou a bifentrina, presente em 22% das coletas.

“Isso demonstra a robustez dos dados. Duas pesquisas com quantidade expressiva de amostras, realizadas em momentos diferentes, chegaram a resultados semelhantes”, aponta Malaspina. O docente esteve presente no debate da Câmara dos Deputados, e também  em reuniões recentes realizadas no Ibama para debater os desdobramentos da utilização de defensivos agrícolas particularmente tóxicos para as abelhas.

Abelhas mortas pela ação do defensivo em colmeia analisada em São Paulo. Crédito: Silvia Cibele de Andrade

Malaspina diz que já há informação suficiente para implementar uma restrição do uso da substância em nível nacional, com delimitação de culturas e formas de utilização específicas de maneira a controlar seu impacto. “O impacto negativo do fipronil já é um consenso na comunidade científica e há diversas análises com dados contundentes. Agora está nas mãos do Ibama definir o que fazer”, diz.

Para Malaspina, é possível realizar a substituição por substâncias menos tóxicas, porém há resistência por parte do agronegócio dada à eficácia do componente. “Outras moléculas podem ter ações mais lentas e nós estamos acostumados a querer um resultado imediato”, afirma o biólogo. Para ele, a tendência é que ocorra a restrição da utilização ainda em 2024, proibindo ao menos a aplicação foliar do inseticida. Renata Sordi Taveira, da Coordenação da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo, explica que é um direito do apicultor notificar situações de mortes massivas. A partir daí, cabe ao órgão conduzir as investigações para determinar as causas. Nesse sentido, o apicultor Joel reforça a importância de profissionais da área estarem devidamente registrados na Defesa. “A análise é feita de graça para o apicultor e isso colabora para manter um controle sobre as mortes e fornece documentos para que o apicultor possa ir atrás dos seus direitos”, diz.

Foto acima: Morte massiva de abelhas em caixa de apiário no interior de São Paulo. Crédito: Silvia Cibele de Andrade


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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp [Aqui!].

Apicultores denunciam a mortandade de abelhas por agrotóxicos e cobram banimento imediato do Fipronil

Produto já teve o uso restrito e está sendo reavaliado pela Anvisa

Apicultores querem o banimento imediato do Fipronil e de outros agrotóxicos responsáveis por variados casos de mortandade de abelhas no Brasil. O apelo foi apresentado em audiência da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados. O governo admitiu atraso em medidas concretas e os parlamentares sugeriram a criação de um grupo de trabalho interministerial para superar entraves burocráticos.

Produtoras de mel, as abelhas desempenham o fundamental serviço ambiental de polinização, que tem papel importante na biodiversidade das plantas e na produtividade agrícola. Porém, também têm sido alvo das mudanças climáticas e, sobretudo, de agrotóxicos que enfraquecem o sistema imunológico, atrofiam as glândulas produtoras de proteína da geleia real e destroem colônias inteiras.

O presidente da comissão técnico-científica da Confederação Nacional de Apicultores, Ricardo Orsi, descreveu o poder destrutivo do Fipronil. Em dose normal, esse agrotóxico mata as abelhas imediatamente. Mesmo muito diluído, o Fipronil vai gradativamente minando as colônias, segundo Orsi.

“Fizemos várias diluições para chegar àquilo que queríamos (0,4 nanograma por abelha). Realmente, não matou nenhuma abelha imediatamente. Mas, em oito semanas, não tinha mais uma colônia dentro da colmeia: em quatro semanas, já não havia mais postura da rainha; em seis semanas em área de cria fechada, pré-pupa e pupa reduziram significativamente; e, em oito semanas, perdemos todas”, explicou.

Ricardo Orsi disse ainda que o glifosato, agrotóxico mais usado no Brasil, não mata abelhas, mas desorienta o voo, altera as glândulas e dificulta a criação de novas rainhas. Apicultor e meliponicultor em Minas Gerais, Marcelo Ribeiro perdeu 80 colmeias devido à contaminação. As análises encontraram 40 princípios ativos de agrotóxicos, principalmente Fipronil, que, segundo ele, deve ser banido imediatamente do mercado. O coordenador geral de agrotóxicos do Ministério da Agricultura, José Victor Costa, informou que o Fipronil está em reavaliação pela Anvisa e pelo Ibama e já teve o uso restrito.

“Desde março de 2023, está proibida a pulverização foliar do produto. O que ainda está sendo permitido é o tratamento de semente, que ocorre no início, não é na época de floração. E, se a gente tirar isso da agricultura hoje, vão colapsar a apicultura e a agricultura, porque 37% do mercado de tratamento de semente usa hoje a molécula Fipronil”, justificou.

André Borges/Agência Brasília
Agropecuária - geral - apicultura mel própolis abelhas
Abelhas são responsáveis pela polinização de diversas plantas, além de produzirem mel

Atraso
O secretário de biodiversidade e florestas do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias, admitiu o atraso dos governos em solucionar o caso.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, temos tido situações de 500 milhões de abelhas mortas em um ano só, como no Rio Grande do Sul. Recentemente, houve vários casos em São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia. Nos casos em que os pesquisadores foram chamados, foi comprovado que a causa era agrotóxico, não era doença. Então, é evidente que o governo – tanto a União quanto os estados – está muito lento em responder essas demandas. Temos que acelerar esse processo”.

Transição
Os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) vão sugerir à Casa Civil a criação de um grupo de trabalho interministerial para aparar arestas internas e efetivamente resolver a questão. Organizador do debate, Padre João também defendeu concurso público para os órgãos de fiscalização e a retomada do Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara) .

“O extermínio das abelhas é contra a criatura humana também. Nós temos a maior empresa de pesquisa do mundo, que é a Embrapa, e as melhores universidades. Então, temos que avançar nas pesquisas dessa linha de transição e de como o próprio agronegócio pode avançar em harmonia com a biodiversidade”.

A chefe da divisão de pesquisa e inovação do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Adalgisa Ferreira, defendeu a transição agroecológica e o fortalecimento da agricultura familiar. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) aposta em maior eficácia do controle fitossanitário.

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Ana Chalub


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Câmara de Notícias [Aqui!   ].

Liberado por Bolsonaro e Lula, agrotóxico banido na Europa causa apocalipse das abelhas no Brasil

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Polinizadores cruciais para a agricultura, as abelhas estão sendo dizimadas pelo Fipronil em diversas partes do território brasileiro

Uma reportagem assinada pela jornalista Alexa Salomão e publicada pelo jornal “Folha de São Paulo” no dia 1 de outubro mostra os efeitos devastadores do uso em diferentes partes do território brasileiro, em especial sobre colmeias de abelhas. Banido na União Europeia por seus efeitos devastadores sobre polinizadores, o Fipronil foi inicialmente liberado por Jair Bolsonaro e continua sendo liberado pelo governo Lula, mas já era usado de forma clandestina anteriormente.  O que Bolsonaro iniciou e Lula está continuando foi permitir o uso legal do produto.

Como a matéria aponta, o Fipronil é uma substância atua no sistema nervoso central dos insetos, provocando uma superexcitação nos músculos e nervos, o que torna o produto particularmente implacável como agente da morte aguda.  Associada ao crescente uso do Fipronil em diferentes tipos de monoculturas está ocorrendo uma verdadeira hecatombe de polinizadores, mas até por motivos comerciais, a pouca documentação que existe está centrada nas abelhas já que a apicultura nacional é um importante vetor de produção econômica. No entanto, apesar dessa importância toda, o uso indiscriminado do Fipronil está causando a aniquilação de centenas de milhões de abelhas em diferentes partes do Brasil (ver figura abaixo).

 

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A dupla moral europeia: proíbe lá, vende aqui

Um produto cuja patente esteve nas mãos da multinacional Basf entre 2003 e 2011, o Fipronil é hoje um agrotóxico pós-patente, o que permite que qualquer empresa no mundo pode agora fabricá-lo e exportá-lo, inclusive a empresa alemã.

Este fato explicita uma clara dupla-moral da Comissão Europeia, na medida em que um produto altamente tóxico e banido nos países europeus, pode ser exportado livremente para o chamado Sul Global. Aliás, há que se dizer que a matéria de Alexia Salomão cita um fonte hoje esquecido que foi a contaminação por Fipronil em ovos em pelo menos 15 países europeus em 2017, o que causou um crise de abastecimento na Europa.

Ainda em relação à Basf, um fato que precisa ser lembrado é que a empresa reagiu processando a Comissão Europeia em 2013 justamente por causa do banimento do Fipronil.  Em sua tentativa de remover o banimento, a Basf alegou que A BASF disse acreditar que a decisão da Comissão Europeia de restringir usos específicos de fipronil seria “o resultado de uma aplicação desproporcional do princípio da precaução: “Ao tomar a sua decisão, a Comissão Europeia não se baseou em todas as evidências científicas disponíveis e também violou a legislação da UE sobre agrotóxicos.

Fipronil usado em período de expediente causou pânico e indignação na Uenf

Eu particularmente tive uma experiência direta com o uso de Fipronil em ambientes fechados em junho deste ano quando uma empresa contratada pela reitoria da Uenf aplicou o produto em horário de expediente no prédio do Centro de Ciências do Homem.  O forte cheiro causou ânsia de vômitos e cefaleia em muitas pessoas que estavam no interior do prédio quando o produto foi aplicado.

Esse fato nada corriqueiro levanta outra lebre que é o fato de que o Fipronil está sendo usado de forma ampla no interior de residências e prédios comerciais como uma substância de uso comum, mas que não deveria ser jamais ser.

Com aspersão aérea do Fipronil, ogronegócio promove o extermínio de 100 milhões de abelhas no MT

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Desde o governo Bolsonaro e continuando no governo Lula ocorreu uma onda de liberações do inseticida Fipronil que é banido na União Europeia e somente autorizado em condições extremas nos EUA.  O uso do Fipronil, muitas vezes em combinação com outros inseticidas como o Imidacloprido, está promovendo um verdadeiro apocalipse dos polinizadores no Brasil, mas especialmente em áreas dominadas pela monocultura da soja.

Da mesma forma que já ocorreu em 2019 no Rio Grande do Sul com o extermínio de 600 milhões de abelhas, agora vê-se a repetição de um episódio em que 100 milhões de abelhas foram sumariamente exterminadas pelo agronegócio a partir do uso aéreo do Fipronil  nos munícipios de Sorriso, Ipiranga do Norte e Sinop, em Mato Grosso (ver vídeo abaixo).

Esse caso é ainda mais explícito em termos do descompromisso do ogronegócio com a sustentação da vida nas regiões sob seu controle que o Fipronil foi utilizado via o uso de aviões, o que sequer é permitido pela legislação brasileira para o caso desse “bee killer”.

Mas ao contrário de ver nesse caso apenas um exemplo de uso “inadequado” do Fipronil, o que fica evidente é que não há qualquer compromisso em se evitar os efeitos danosos que acompanha o uso deste tipo de substância altamente tóxico para os polinizadores. Na verdade, o que se busca, ainda que ao custo de outras atividades igualmente importantes, é a busca incessante de aumentar as margens de lucro do ogronegócio.

O mais dramático é que além de causar prejuízos milionários para o segmento da apicultura, esse extermínio deliberado dos polinizadores ainda contribui para a diminuição da produtividade das áreas controladas pelo próprio ogronegócio, no que se constitui em um verdadeiro tiro no pé. No entanto, nem isso deve fazer com que os representantes do latifúndio agro-exportador assumam uma postura mais responsável com o meio ambiente e a saúde humana.

Cerrado pede socorro. Fontes que servem comunidades têm resíduos de até nove agrotóxicos

Dado é de uma pesquisa envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, em localidades no Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia

nascente-contaminadaCada vez mais espremido pelo agronegócio, o Cerrado tem nascentes e cursos d’água totalmente contaminados

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Considerado o berço das águas no Brasil, o Cerrado está contaminado pelos agrotóxicos presentes em nascentes, rios, lagoas, açudes, represas, cacimbas e até em poços residenciais. Na região onde nascem os rios importantes como o Paraguai, Paraná, São Francisco, Parnaíba,Tocantins, Araguaia, Tapajós e Xingu, entre outros, as comunidades estão bebendo águas poluídas por diversos ingredientes ativos altamente tóxicos despejados sobre os latifúndios de commodities.

A gravidade da situação é tamanha que, dependendo da localidade, é possível encontrar na água de abatecimento um mix de até nove ingredientes ativos. Não bastasse a variedade, amostras demonstram também que se tratam de substâncias altamente tóxicas, em altíssimas concentrações.

Estas são algumas das conclusões de uma série de testes de qualidade da água coletada em sete diferentes regiões do bioma Cerrado. Ou seja, em localidades nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em zonas de transição ecológica com a Amazônia e o Pantanal. O trabalho conjunto envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, culminou com o relatório Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado, lançado esta semana.

Fruto de uma “pesquisa-ação” implementada entre 2021 e 2022, análises toxicológicas e ambientais, o relatório mostra dados no mínimo preocupantes. Na comunidade quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão, uma única amostra continha resíduos de Atrazina, Ciproconazol, Difenoconazol, Epoxiconazol, Glifosato, Metolacloro, Picoxistrobina, Piraclostrobina e Trifloxistrobina. Ou seja, nove dos 13 ingredientes ativos encontrados no conjunto das amostras. Entre eles, a Atrazina, Ciproconazol, Epoxiconazol e o Picoxistrobina estão banidos na União Europeia por desencadearem diversos tipos de câncer, malformações fetais e diversas alterações no organismo.

A gente precisa do Cerrado vivo, diz vítima dos agrotóxicos

Na comunidade vivem 170 famílias, cujos antepassados chegaram à região entre o final do século 18 e começo do século 19. Antes de se fixarem ali, percorreram diversos pontos em busca de cursos d’água que ainda estivessem fora dos domínios dos coroneis da época. A cultura praticada ali em pequenas roças é variada: milho, arroz, mandioca, cana-de-açúcar, feijão, maxixe, quiabo, abóbora, melancia, melão, fava, chuchu, pimenta-malagueta, cebolinha, coentro, alface, couve, inhame e batata doce.

Entre elas está a da agricultora Raimunda Nepomuceno. Nesta quinta-feira (1º), em debate na Câmara, ela relatou a grave situação de quem convive com a pulverização de venenos. “Quando falamos dos venenos, falamos de algo muito perigoso que está destruindo as nossas vidas, a natureza. As pessoas sofrem muito, com câncer, doenças de pele. Tomar água com agrotóxicos todo dia, se alimentar de alimento contaminado. É muito difícil pra nossa gente. A gente precisa de ajuda para sobreviver. Com agrotóxicos não temos território, não temos água. A gente precisa do nosso Cerrado vivo. E para isso precisamos proteger”, disse Raimunda, em um apelo.

Um dos cursos de água poluída por agrotóxicos que servem a comunidade Cocalinho. Foto: CPT

O racismo ambiental a que estão as comunidades de Cocalinho e outras inseridas na pesquisa foi alvo de da petição da Campanha Nacional do Cerrado ao Tribunal Permanente dos Povos, em novembro de 2019. No ano passado, o Estado brasileiro foi condenado pelo ecocídio do Cerrado e o genocídio de 15 povos tradicionais e originários do bioma. Foram condenados também governos estaduais, organizações multilaterais e governos internacionais, empresas brasileiras e multinacionais. Inclusive fundos de investimento envolvidos na destruição ambiental e das condições de vida das comudades.

Outros agrotóxicos encontrados nas amostras de água

  • Glifosato– detectado em todos as amostras. A substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil.
  • Metolacloro– além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos. Além disso é considerado perigoso para o meio ambiente.
  • Fipronil – tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado. Foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano, devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse ingrediente ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação, inclusive graves.
  • Atrazina– o terceiro agrotóxico mais detectado nas análises, presente em todos os estados em ao menos um ciclo de coleta de amostras, exceto no Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras. Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato está na primeira posição. O segundo é o 2,4-D, seguido pela atrazina e o metolacloro, na décima posição.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Brasil: de lixeira química a polo mundial da fabricação de agrotóxicos (banidos)

É o que acredita Leonardo Melgarejo, especialista no tema. Segundo ele, ao estimular os agrotóxicos, Brasil sustenta empregos nas atuais “fábricas de lixo” na Europa, que aos poucos vai banindo esses produtos. “Qual é a proposta do Pacote do Veneno senão transferir essas fabricas para cá?”, questiona

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Indústria dos agrotóxicos têm no Brasil regras facilitadas e muitos incentivos fiscais

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Brasil aprovou 2.170 novos agrotóxicos para uso no país entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro. E já liberou mais 103 de janeiro para cá. Dos liberados no governo anterior, 1.056 (49% do total) foram banidos na União Europeia (UE). Ou seja, não puderam sequer ter registros por lá. E do total desse princípios ativos barrados nesses países, 88 são permitidos pelas autoridades brasileiras, conforme um levantamento recente da professora aposentada Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Especialista no tema e autora de diversas pesquisas e pareceres técnicos, a professora é categórica. “O Brasil é a lixeira química do mundo”, afirma à RBA. Sonia se refere principalmente aos efeitos nocivos à saúde humana e animal desses produtos que levaram os europeus a vetá-los. Mas que o Brasil libera sem a menor dificuldade.

São efeitos agudos e crônicos tanto pela ingestão dos alimentos que receberam esses produtos, como pela exposição a eles. Exposição essa que pode ser no ambiente de trabalho, no caso dos agricultores. Ou mesmo daqueles que, mesmo sem trabalhar diretamente na lavoura, estão sujeitos às nuvens de veneno em pulverizações. E esse risco inclui até crianças em escolas nas zonas rurais.

Na UE, como lembra a professora, as autoridades prezam pelo rigor e levam a sério os resultados das pesquisas científicas que confirmam esses perigos. Como a associação constatada entre essas substâncias e o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, malformações fetais e alterações no sistema nervoso central, no sistema imunológico e no hormonal.

Alterações essas que levam a diversos outros problemas. A lista de malefícios causados por agrotóxicos vai muito além. Inclusive para o meio ambiente.

Permissividade para o setor no Brasil

Já o Brasil segue caminho oposto, com total flacidez em suas regras. Fora os incentivos fiscais, os fabricantes contam com a permissividade em seu favor:

  • A autorização é por prazo indeterminado, o que na prática acaba se tornando ad eternum.
  • Não há observância dos avanços científicos sobre os efeitos adversos na saúde humana e no meio ambiente nem na reavaliação de produtos e nem diante de um fato novo.
  • Há problemas na qualidade das pesquisas, sendo aceitos estudos realizados somente pelos fabricantes, com limitações metodológicas.
  • Não há participação social na tomada de decisão por meio de agências governamentais nesse processo.

O levantamento mostra também que entre esses 2.170 “novos” produtos liberados no governo Bolsonaro – ela ainda não começou os estudos sobre as liberações a partir de janeiro –, há ingredientes ativos produzidos na China e que são proibidos lá. Entre eles o fipronil.

Desenvolvido para matar insetos, formigas e cupins, o Fipronil tornou-se conhecido como o terror das colmeias, segundo variados estudos. Em outras palavras, está por trás da mortandade massiva das abelhas, insetos polinizadores imprescindíveis na reprodução de espécies vegetais, principalmente alimentos.

Em agosto passado, a 9ª Vara Federal de Porto Alegre (RS) deu um ano para o Ibama concluir os processos de reavaliação de toxicidade da substância. No entanto, isso sequer havia sido iniciado na época.

Indústria dos agrotóxicos e o grande mercado do Brasil

Outra informação importante trazida pela professora Sonia Hess é que do total liberado entre 2019 e o ano passado, 614 formulações (61%) têm aplicação principal nas lavouras de soja, 443 (44%) de algodão, 428 (42%) de milho e 336 (33%), de cana. Ou seja, embora também tenham uso na produção de arroz, feijão, frutas, hortaliças, esses 1.821 “novos” produtos estão voltados sobretudo para as grandes culturas de exportação. É a indústria de olho nesse grande mercado.

Na avaliação do engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, isso significa dizer que haverá no Brasil mais veneno do tipo que não pode ser usado na União Europeia.

Todos esses produtos e suas variações, combinações e arranjos, na verdade envolvem as mesmas substâncias. “Quando a patente de uma delas perde a validade, muitas outras empresas passam a fabricar venenos com o mesmo princípio ativo, mas com outras roupagens. Afinal, existirão formulações com os mesmos princípios ativos, porém mais concentradas”, disse à RBA.

Isso porque, segundo Melgarejo, em princípio, para sobreviver, os organismos alvo desenvolvem resistência aos agrotóxicos, “o que requer a aplicação de dosagens cada vez mais fortes para fazerem efeito”.

Conforme explicou, suprir essa necessidade de agrotóxicos mais potentes é uma das motivações das liberações dos “novos” agrotóxicos, que na verdade resultam da combinação de velhas moléculas. Ou seja, é o argumento ruralista para a suposta necessidade de aprovação de “agrotóxicos melhores e mais modernos”. “O ‘ser melhor’, aí, tende a ser pior. Mais tóxico na adição de outro princípio ativo ou com maior concentração do mesmo princípio ativo, ou com misturas”.

Pacote do Veneno aguarda aprovação no Senado

Paralelamente a essas liberações todas, avançou no governo de Jair Bolsonaro o chamado Pacote do Veneno. Aprovado na Câmara, o PL 1.459/2022 chegou às portas do plenário do Senado pouco antes do Natal, mas não foi pautado na ultima sessão do ano. O projeto que facilita ainda mais a importação, registro, fabricação, venda, uso, exportação e dificulta a fiscalização desses produtos integra um outro pacote, o “da destruição”. Esse conjunto de projetos que tramita no Congresso assim foi batizado pelas consequências nefastas à saúde e ao meio ambiente.

Pesou a forte mobilização somada a recomendações contra a aprovação. Ainda no governo de Michel Temer (2016-2018), entidades nacionais e internacionais, inclusive a ONU, pediram o arquivamento. As manobras ruralistas que levaram à aprovação na Câmara se repetiram no Senado. Em comissão especial, o relator, senador Acir Gurgacz (PDT-RO), aprovou texto sem debate. Nem sequer ouviu outras comissões relacionadas, como de Meio Ambiente, Direitos Humanos e Legislação Participativa e de Assuntos Sociais.

Desde 2008, o Brasil é o maior importador e consumidor de agrotóxicos da América Latina. Em meio ao mar de veneno, os países que compram produtos brasileiros vão aumentando restrições a esses produtos. Esse descompasso, no entender de Melgarejo, não aponta para prejuízos ao agronegócio exportador, que em tese perderia esse mercado. Isso porque, da mesma forma que faz a China, maior parceiro comercial do Brasil, outros países, inclusive europeus, compram essencialmente produtos para produção de ração animal, como soja e milho.

Lucro do agro, contaminação, doenças e impactos ao SUS

“Esses animais são abatidos no final da juventude, antes de os problemas crônicos aparecerem”, disse, referindo-se aos males causados pelos agrotóxicos. “E além do mais, dessa maneira, esses países estão protegendo suas reservas de água. Mas nós estamos envenenando as nossas. Também estamos fragilizando sistemas imunológicos dos povos que vivem aqui. Vale o mesmo para toda América Latina e África.”

Integrante do Movimento Ciência Cidadã e representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) de 2008 a 2014, Melgarejo apresenta outro motivo de preocupação: a transformação do país em polo mundial de produção desses venenos.

“Ao estimular os agrotóxicos como faz, o Brasil sustenta empregos nas atuais ‘fábricas de lixo’ na Europa”, disse. E no continente em que esses produtos vão sendo banidos, não haverá espaço para elas. “Qual é a proposta do Pacote do Veneno senão transferir essas fábricas para cá?”, questiona.

Sua dedução envolve ainda outros questionamentos. O que justificaria a autorização de uso de centenas de alternativas ineficazes? Se são distintas em termos de impacto sobre a saúde, ou seja, sobre o SUS, ou sobre o chamado Custo Brasil, o que justifica a presença das piores substâncias, em um mercado cujas externalidades afetam a todos?

Falta orientação política para reverter processo

Alternativas ao modelo existem. A mais eficaz é a agroecologia, que experimenta alguns esforços para a transição no país. Há inclusive alguns insumos de base biológica aprovados para proteger culturas. Mas são poucos, de empresas nacionais. Não estão sendo incorporados pelas grandes transnacionais do setor. Ou seja, falta interesse econômico, o que poderia viabilizar as mudanças, mas que tende a ser orientado por uma visão de curto prazo.

Mais do que isso, falta também orientação política. “Precisamos de agendas de médio e longo prazo para mudar a forma de produzir. Esta aí, que promove o aquecimento global, não poderia estar sendo subsidiada. Estamos pagando para encurtar o horizonte de vida. Veja que os adubos minerais ‘naturais’, como o que importamos da Rússia, vão se esgotar”, disse.

“Então uma agricultura que depende dele é sem futuro. Qual a solução proposta? Demolir a Amazônia para aproveitar reservas minerais que existirem lá? Pois isso vai reduzir os serviços ecossistêmicos fornecidos pela floresta, apenas para manter um agronegócio cego para o futuro próximo.”

“Salvar o sistema?”

A saída seria países que, como o Brasil, que se dispõem a absorver todo esse lixo, adotassem políticas mais responsáveis. “Assim, a inteligência humana apresentaria soluções que talvez já existam. Ou, se inexistem, bastaria o fechamento destes mercados para que as pesquisas buscassem outras soluções”, disse Melgarejo, que alerta para uma guerra química em curso. “Ou fazemos isso ou daremos realismo às hipóteses de O Relatório Lugano” comparou.

O engenheiro se refere ao livro (de 1999) de Susan George. A ficção aborda a eliminação de parte da população mundial com o objetivo de salvar o sistema capitalista de um colapso.

“Nesse aterrador livro de ficção, alguém misterioso contrata uma série de profissionais para analisar a situação global e encontrar alternativas para manter o sistema capitalista em funcionamento. A solução encontrada por esses profissionais é dizimar 1/3 da população mundial. Eles não só fornecem a solução, como sugerem as formas de concretizar a barbárie”, diz a apresentação da editora Boitempo.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].